No ano em que comemorará 70 anos de vida, assim chegue ao
próximo 23 de Setembro, aquele a quem chamam “the boss” pode até arrumar a
guitarra e premir o off das canções, que já ninguém o livra de ficar para a
história como um dos melhores escritores de canções de todos os tempos. O mega sucesso
alcançado com Born in the U. S. A. (1984) pode tê-lo desacreditado junto de
melómanos mais dados à coisa dita alternativa, descrédito que se justificaria
mais com o subsequente Tunnel of Love (1987), este sim um autêntico tiro ao
lado do bom gosto. Mas no início da década de 1990, Bruce Springsteen
redimiu-se com dois bons álbuns que passaram algo despercebidos —
Lucky Town e Human Touch, ambos de 1992 — e o magnífico The Ghost of Tom Joad (1995), retrato
impiedoso de um América profundamente desigual e desequilibrada, desenhado com
as palavras de John Steinbeck em pano de fundo. Se este cronista da sociedade
norte-americana voltou a merecer a atenção dos fãs dos primeiros tempos, isso
deve-se à sua capacidade de se reaproximar dos grandes temas sociais escapando
à cegueira que o sucesso poderia gerar. Do que ficou para trás há muito a
dizer, mas um álbum em pleno mandato yuppie sobressai entre os demais. O descarnado
Nebraska (1982), todo ele gravado num estúdio caseiro com guitarra e harmónica,
foi o tiro certeiro no ambiente social polido e ambicioso daqueles tempos. E que sentido volta a fazer hoje! Contra a maquilhagem das grandes produções,
Springsteen atira-nos dez canções em estado bruto que enlevam com surpreendente
simplicidade valores amesquinhados pela ganância, pelo ódio, pela ditadura do
sucesso. Há quem considere as melodias de Nebraska pessimistas e melancólicas, há
quem nelas vislumbre o lamento dos excluídos, as dores e os medos de populações
deslocadas em busca de uma vida melhor. É a história dos U.S.A. na perspectiva
dos imigrantes, dos párias, dos marginais, do bas-fond. A história contada na
canção que deu título ao conjunto é a mesma, por exemplo, que Terrence Malick
recriou no filme Badlands (1973). Nebraska é como que um hino ao desespero que os antigos
evitaram, preferindo o elogio dos heróis em detrimento das fraquezas, da perda,
da derrota. Aqui fica uma das melhores:

3 comentários:
Este ano ainda aqui não tinha vindo, outras andanças sem ecrã apenas. Chego e levo com este postal? Não vou repetir tamanha ausência. Grato.
Bons olhos o vejam.
Álbum do catano.
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