sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

BANDA SONORA ESSENCIAL #57



No ano em que comemorará 70 anos de vida, assim chegue ao próximo 23 de Setembro, aquele a quem chamam “the boss” pode até arrumar a guitarra e premir o off das canções, que já ninguém o livra de ficar para a história como um dos melhores escritores de canções de todos os tempos. O mega sucesso alcançado com Born in the U. S. A. (1984) pode tê-lo desacreditado junto de melómanos mais dados à coisa dita alternativa, descrédito que se justificaria mais com o subsequente Tunnel of Love (1987), este sim um autêntico tiro ao lado do bom gosto. Mas no início da década de 1990, Bruce Springsteen redimiu-se com dois bons álbuns que passaram algo despercebidos Lucky Town e Human Touch, ambos de 1992 — e o magnífico The Ghost of Tom Joad (1995), retrato impiedoso de um América profundamente desigual e desequilibrada, desenhado com as palavras de John Steinbeck em pano de fundo. Se este cronista da sociedade norte-americana voltou a merecer a atenção dos fãs dos primeiros tempos, isso deve-se à sua capacidade de se reaproximar dos grandes temas sociais escapando à cegueira que o sucesso poderia gerar. Do que ficou para trás há muito a dizer, mas um álbum em pleno mandato yuppie sobressai entre os demais. O descarnado Nebraska (1982), todo ele gravado num estúdio caseiro com guitarra e harmónica, foi o tiro certeiro no ambiente social polido e ambicioso daqueles tempos. E que sentido volta a fazer hoje! Contra a maquilhagem das grandes produções, Springsteen atira-nos dez canções em estado bruto que enlevam com surpreendente simplicidade valores amesquinhados pela ganância, pelo ódio, pela ditadura do sucesso. Há quem considere as melodias de Nebraska pessimistas e melancólicas, há quem nelas vislumbre o lamento dos excluídos, as dores e os medos de populações deslocadas em busca de uma vida melhor. É a história dos U.S.A. na perspectiva dos imigrantes, dos párias, dos marginais, do bas-fond. A história contada na canção que deu título ao conjunto é a mesma, por exemplo, que Terrence Malick recriou no filme Badlands (1973). Nebraska é como que um hino ao desespero que os antigos evitaram, preferindo o elogio dos heróis em detrimento das fraquezas, da perda, da derrota. Aqui fica uma das melhores:


3 comentários:

jpt disse...

Este ano ainda aqui não tinha vindo, outras andanças sem ecrã apenas. Chego e levo com este postal? Não vou repetir tamanha ausência. Grato.

hmbf disse...

Bons olhos o vejam.

manuel a. domingos disse...

Álbum do catano.