TEATRO DA RAINHA, CALDAS DA RAINHA, 15 JANEIRO
A noite aconteceu, enorme. E lúcida. Os que se afastem do
convívio com os palcos (de teatro, que os de concerto são outra música) perdem,
sem o saber, contacto com a realidade, com o oxigénio. Por isto. O Henrique
[Manuel Bento Fialho] resolveu recomeçar o ciclo lunar do «Diga 33 – Poesia no
Teatro» com os supermanos, António [de Castro Caeiro] e José [Anjos]. A
singeleza da encenação (foto na página de Graça Ezequiel) potenciou a
cumplicidade entre os dois, com leituras, comentários e música. O Henrique manuseou
a curiosidade como ferramenta e pôs o António a explicar-nos que o destino se
faz corda de ringue nas nossas mãos, sendo o boxe apenas uma das
possibilidades, cada qual tendo na mão a escolha de modalidades, combates, até
de adversários. Ilustrou depois os versos ditos do Anjos à viola, antes de o
fazer com lanterna, no fecho: «um quadrado de terra na cidade/ um verão de
amendoeira/ uma flor, uma pedra luminescente no peito/ da igreja/ a respiração
ainda quente de uma boca derrotada/ um dia cruel/um gato de sombra que nasceu
da invenção/ de uma escada/ e a sombra de um gato que morreu/ como a divisão de
uma casa// a dor à volta da qual tudo se constrói.»
João Paulo Cotrim, aqui.

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