quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

CORPO VESTÍGIO


Concluído o mestrado em Artes Plásticas na ESAD, e após algumas participações em colectivas no Centro Cultural de Cascais, na Galeria Sete (Coimbra) e na Casa Bernardo (Caldas da Rainha), Susana Quevedo (n. 1992) estreia-se individualmente com uma exposição intitulada Corpo Vestígio. A escolha da sala dos retratos no Museu José Malhoa não terá sido fortuita, já que os trabalhos apresentados partem de uma noção de auto-retrato que contempla tanto a fixação de um corpo como a deterioração a que o mesmo está sujeito pela passagem do tempo. A fotografia é a base a partir da qual essa mutação se exprime, ainda que sujeita a diversos tipos de intervenções que vão da justaposição de técnicas à própria destruição da imagem. Num primeiro conjunto de trabalhos, as fotografias surgem claras e evidentes, embora tenham sido submetidas a uma relação com os elementos clássicos essenciais (terra, água, ar, fogo) que exercem sobre o todo um processo de deterioração semelhante ao que observamos ao longo dos anos num corpo vivo. Restam fragmentos desse corpo, o qual surge retratado na sua fragilidade intrínseca:



Expostos entre as molduras mais ou menos anacrónicas que fazem parte do acervo museológico, somos desafiados a penetrar o olhar num segundo conjunto em que o negro predomina sobre a luz. Só olhando com atenção conseguiremos adivinhar formas de rostos, de corpos, bustos, perfis, ao fundo da escuridão. O efeito do carvão prensado sobre a impressão fotográfica é o de uma luz que se define a partir do interior do negrume, como se o negro fosse a placenta onde a imagem germina e nos chega ao olhar como um fantasma, vulto ambíguo, indefinido, indeterminado, que contrasta com a luminosidade dos retratos expostos no museu. É especialmente estimulante o diálogo estabelecido entre algumas destas imagens e os quadros que ao lado delas perduram como exemplos obsoletos de um tempo que passou, relevando-se dessa forma um diálogo entre passado e contemporaneidade cuja conclusão tende para uma ideia onde o apagamento e a fantasmagoria podem ser sinónimos de esquecimento, desmemória, ruína, desolação:



Por contraste à filosofia da perenidade, a arte assume aqui o efémero enquanto condição inerente à sua própria natureza. Nos trabalhos expostos em vitrinas esta condição surge sublevada pela própria destruição da imagem. Olhamos para as fotografias ali expostas como quem olha para pedaços de ruína, vestígios arqueológicos de um passado ao mesmo tempo ausente e presente. A própria submissão da impressão fotográfica a condições de destruição leva a crer numa complexa articulação do retrato com a consciência do tempo, como que pretendendo assumir-se uma impossibilidade de afixação determinada pelas transformações a que tudo quanto é orgânico está sujeito. Neste sentido, estes trabalhos também podem ser lidos como uma reflexão acerca do orgânico, entendendo-se pelos gestos violentos a que as imagens foram sujeitas um exercício de meditação acerca da violência que a Natureza exerce sobre um corpo vivo, violência essa que tende para a morte, para o apagamento, para a destruição absoluta desse mesmo corpo:



Corpo Vestígio termina com um vídeo onde alguns dos retratos expostos surgem em movimento, ou seja, na sua natural condição. Movimentos muito subtis (um dedo que mexe, a respiração de um corpo debaixo de um lençol, uma árvore abanada pelo vento) permitem-nos perceber que já não estamos na presença da fotografia enquanto corpo estático. As imagens seguem-se umas às outras sem nenhuma narratividade aparente, apenas enquanto testemunho de uma relação entre o espaço e o tempo que é definida pelo movimento. Este movimento é a marca última da transitoriedade, de uma fugacidade que reforça a vida entre as balizas da concepção e da morte. As linhas do corpo adivinhado por debaixo de um lençol (símbolo de luto e de abandono, de ausência e de perda), surgem contornadas no vídeo pela marca da respiração. Essa marca resgata o corpo de uma aparente existência marmórea, conferindo-lhe a vida que contrasta com o ambiente fantasmagórico presente na generalidade destes trabalhos:



Corpo Vestígio estará no Museu José Malhoa até dia 31/03/2019. Vale muito a pena descobrir o trabalho de Susana Quevedo: aqui.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

UMA TRETA NACIONAL



Miguel Morgado recusa a ideia de que devemos recear as "fake news", lembrando que estas sempre existiram no passado. Pois eu julgo que devemos recear este tipo de argumentação em alguém que ande na política. Se não devemos recear uma coisa porque ela sempre existiu no passado, então não devemos recear a guerra, a fome, a miséria, a exploração, a escravatura, a tortura, a humilhação… Enfim, não temos razões para recear o que quer que seja, pois o que quer que seja sempre existiu no passado. Expliquem a este palerma a diferença entre fake news e intriga palaciana, a diferença entre fake news e mentira útil. Expliquem-lhe os processos de contaminação que existem hoje que não existiam no passado, e como rapidamente uma mentira se torna viral sem que seja possível desfazê-la junto das massas que atinge. Ou então não lhe expliquem nada, talvez ele já saiba da coisa e pretenda dar-lhe uso para chegar onde ambiciona. Estas ratazanas são uma praga, a mentira é a pior das doenças que transmitem. 

SUPOSTAMENTE

Foi notório o choque entre Huxley e Samuel Wilberforce, bispo de Oxford, em 1860, na reunião da Associação Britânica para o Progresso da Ciência. Wilberforce supostamente perguntou a Huxley se ele descendia de macacos pelo lado do avô ou pelo lado da avó. Huxley supostamente respondeu que preferia descender de um miserável macaco que de um bispo da Igreja Anglicana!

Michael Ruse, in Sobre a Origem das Espécies, prefácio para A Origem das Espécies, de Charles Darwin, trad. Vítor Guerreiro, Guimarães Editores, Novembro de 2009, p. 19. Thomas Henry Huxley, aqui citado, era o avô do romancista Aldous Huxley.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

UM POEMA DE F. S. HILL

24.

Hoje dei início à fundação de um novo país
país-boca
onde o peixe não morre porque sim
onde a palavra não precisa remendar o gesto
onde o teu olhar é toda a luz necessária
para atravessar a noite
a tua ausência-corpo
o teu corpo ausente do meu sexo
também ele boca como o teu
onde todos os sexos são boca
e todas as bocas coração
e quando sorris
o tempo não existe
nem as casas que despimos
por não cabermos dentro delas
e a pele estende-se manta e saboreamos a manhã
fruto plantado no pensamento
agora vou contemplar o meu país
ele que cresce inconsciente de nós.


F. S. Hill, in Gesso, Debout Sur l'Oeuf (DSO), Novembro de 2017, p. 34.

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #11


Se há conselho que me sinto obrigado a vos transmitir nestes tempos desmemoriados, então esse conselho é o de que jamais vos esqueceis de onde vindes. Nas origens perdura a semente, pela raiz chegamos à essência que elucida sobre o lugar por nós ocupado no mundo. Tudo se torna próximo e uno quando de tal lucidez retiramos a conclusão definitiva: as dissemelhanças que nos distinguem à superfície provêm da mesma câmara onde se forma o magma humano. Ficai pois sabendo, queridas filhas, que nas veias nos corre sangue sarraceno, e disso não vos olvideis sob pena de julgardes ser únicas e eleitas onde afinal sois finitas, mortais, efémeras, nesta terra apenas ímpar por nela vinho, pão e música bastarem para que valha a pena ver o sol nascer.
   Muito antes das cruzes do Norte terem pesado sobre os costados dos nossos antepassados, andaram por estas terras povos a que chamaram mouros. Alá era o seu Deus, o vento os guiava, o sol lhes tingia a tez. Deles herdámos cultura, palavras, ciência, pensamento, poesia. Deles herdaram vossos avós a classe saloia à qual pertenceram, abrindo caminho para que pudésseis hoje ler os poetas árabes de Portugal coligidos por Adalberto Alves em O Meu Coração é Árabe – A Poesia Luso-Árabe (Assírio & Alvim, Outubro de 1987). Através destas páginas podeis travar conhecimento com Ibn ‘Ammar e com Al-Mu’Tamid, podeis ficar a conhecer poetisas árabes antigas como Maryam Al-Ansari e As-Silbia, e podeis ainda desfazer o preconceito de que dos árabes nada de bom nos ficou.
   Nascido perto de Silves em 1031, Ibn ‘Ammar teve, conta-nos Adalberto Alves, uma vida que «parece arrancada a um drama shakespeariano». Invulgarmente inteligente, mas muito pobre, tornou-se um dos maiores e mais íntimos amigos do grande Al-Mu’Tamid. Perduram especulações sobre uma relação homossexual entre ambos. Nomeado governador de Silves pelo amigo, Ibn ‘Ammar cedeu ao arrivismo começando a conspirar na ambição de um trono próprio. Aprisionado em Sevilha, acabou executado pelo próprio Al-Mu’Tamid. Entre os versos que dele restam, contam-se estes dedicados ao amigo que o matou:

Nada me move, meu príncipe,
Senão a tua vontade.
Contigo vou,
Como o viajante nocturno
Guiado pelo clarão dos relâmpagos.
Queres voltar para a tua amada?
Vai num rápido veleiro
E seguirei no teu encalço,
Ou salta antes para a sela,
Contigo irei também.
E quando,
Graças à protecção divina,
Chegarmos aos umbrais do teu palácio
Permite que torne sozinho à minha casa.
Não percas tempo a sacar a espada!
Lança-te aos pés da que tem a cintura delicada
E compensa-a do tempo perdido:
Beija-a e aperta-a contra o peito.
E murmurem vossas bocas
Meigas e doces palavras,
Como os pássaros se respondem mutuamente
Em suaves cantos ao romper da alva.

   Quanto a Al-Mu’Tamid, nasceu em Beja, no ano de 1040, numa família de gente culta e influente. Filho do rei Almutadide, foi nomeado pelo pai governador de Silves antes de ascender ao trono do reino taifa de Sevilha. Ele próprio pai dos poetas Al-Ma’Mun, Ar-Radt e Ar-Rasid, caiu em desgraça depois de ser traído por um aliado na luta contra os cristãos. Desterrado para Agmat, perto de Marraquexe, aí passou o resto da vida como poeta eremita. Morreu em 1095. A sua campa é ainda hoje local de peregrinação. Impressionante é o poema que nos outorgou nas vésperas da sua morte:

EPITÁFIO

Túmulo de um forasteiro:

Regue-te o chuvisco vespertino e matinal
Pois conquistaste dos restos de Ibn ‘Abbad.
Em ti jazem razão, sabedoria e generosidade,
Abundância na seca e água para os sequiosos.
E lança e espada e flecha no combate:
O terrível fim para o leão contrário.
Destino na vingança,
Oceano na generosidade,
Plenilúnio na sombra,
Eloquência na multidão.
Chegou o decreto do Altíssimo
E, com ele, o meu fim.
Antes de olhar este esquife
Mal sabia eu que altas montanhas
Sobre tábuas repousaram.

Que isto te baste, tumba:

Sê amável com a nobreza
Que aqui te vai confiada.
Que as taciturnas nuvens
Te reguem entre raios e trovões,
Chorando por seu irmão,
Que agasalhaste da chuva,
Sob esta laje tão larga,
Com lágrimas matinais e vespertinas.
Até as gotas do orvalho te choram
Derramando-se dos astros
Que te não deram sorte.
Para sempre a bênção de Alá
Sobre a tua sepultura
        Incontáveis vezes
                     …para sempre!

Podeis encontrar outros poemas de Al-Mu’Tamid aqui, aqui e aqui. Sugiro a impressão deste último, para guardar na carteira junto aos documentos essenciais.

ANIMAL VEGETAL


F. S. Hill (?) tem publicado com regularidade desde o livro de estreia, intitulado Livro das Coisas Breves (Medula, 2014). Animal Vegetal (Companhia das Ilhas, Fevereiro de 2019) é o quarto que publica. Em si mesma antinómica, a expressão do título exprime os sentimentos contraditórios que esta poesia inspira. Se a brevidade é uma das suas marcas mais fortes, não menos será o facto de nessa brevidade se cometerem excessos. «Toda a escrita inteligente encaminha-se para o silêncio» é a máxima que dá o mote a uma sequência de 57 poemas muitas vezes manchados por ruídos, ainda que o 56 se redima com uma página totalmente em branco. Este caso é particularmente exemplificativo de uma redundância, se tivermos em conta o Poema Branco de Rui Costa ou A parte pelo todo de João Luís Barreto Guimarães. Não se tratando de redundância, podemos pressupor mais uma paródia num livro em que esse recurso é recorrente: «Morrer todos os dias pode ser cansativo / e quase indigesto» (p. 9), «Quando eu morrer batam-me / posso estar apenas a fingir» (p. 37), «Ai que prazer ter um livro para ler / sofrer de vista amarga / não ter com quem foder» (p. 45) ou o poema 53:

Não sou alcoólico
Nunca serei alcoólico
Não posso querer ser alcoólico
À parte isso, tenho em mim todos os poemas do mundo

   Ruidoso e excessivo nesta poesia é tudo quanto concorre para que a irrisão epigramática e os remates aforísticos de belo efeito percam força, acabando secundarizados por desequilíbrios verbais e por um humorismo dissimulador do núcleo lírico dos poemas. Assim sendo, parece-me que os dois últimos versos do poema 7 dispensavam os restantes: «O pior do mundo são as casas vazias / com gente dentro»; e a interrogação do poema 28 também não precisava de mais nada: «Quanto do meu sangue / é tédio feito horror?». Mas a mão do poeta foge amiúde para o lúdico, perdendo-se em trocadilhos e imagens cuja única característica parece ser a sua inocuidade. Exemplos? O poema 20: «Hoje bati uma punheta / mas não pensei em ti; / serei má, Pessoa?» Ou o 37: «A ter uma profissão / gostava de ter uma / das que realmente importam / em que o indivíduo se sente / como os palácios perante os bois / ou as coisas perante ausência de palavra / Eu gostava mesmo era de ter / profissão de fé / Ia rimar tanto com este café» (p. 44). O tom adiliano não convence, sobretudo pela inconsistência.
   Tudo é mais consistente nos poemas onde se tem mão na comicidade, quando se adopta a ironia enquanto ferramenta de eliminação do tédio quotidiano, das dores domésticas, do absurdo existencial. Uma das imagens mais cativantes produzidas nalguns poemas diz respeito a uma relação de volume entre entidades correlacionadas. Neste sentido, o verbo “caber” tem aqui especial relevância. Podemos questionar-nos sobre o que cabe de nós num poema? O que cabe do mundo em nós? O que cabe da realidade numa língua? O que cabe de Deus no homem? O que cabe de morte na vida? O que cabe de vegetal no animal? O problema não é tanto o da fusão entre contrários como parece ser o de um processo de assimilação inerente à definição de ser. Palavras como ventre e boca confundem-se, neste contexto, com a palavra casa, remetendo para uma interioridade que é a essência do poema.
   «Levas-me a casa / pela boca» (p. 17), diz-se no poema 11, «Quantas palavras cabem na boca do poema?», questiona-se no 21, «vem / por aqui / deixa-te de poemas mal resolvidos / faz-te boca / faz-te língua / e boca de novo» (pp. 41-42), sugere-se no 35, «E agora / o que fazer a toda esta lama / que temos na boca?» (p. 54), pergunta-se finalmente no 46, e todas estas bocas são a casa, a morada, a residência de uma língua onde o verbo se materializa. São o ventre onde a palavra germina e se tritura. A obsessão com o órgão onde tem início o processo digestivo animal leva-nos a pensar numa outra extensão irónica destes poemas, os quais parecendo tão enraizados na vida nos transportam subtilmente para os campos da morte e da ruína. É pela boca que o homem se alimenta, é pela boca que a morte nos entra no corpo. Este dúplice sentido que vislumbramos em vários versos torna tudo mais estimulante, relegando para o plano do supérfluo as armadilhas anedóticas a que por vezes se submetem os poemas.

E O ÓSCAR DE MAIOR HIPÓCRITA DA POLÍTICA PORTUGUESA VAI PARA...


   PCP e BE são criticados, com justificação, por serem ou terem sido ambíguos em relação ao percurso de demagogia, autoritarismo e populismo que se tem percorrido na Venezuela desde os tempos de Chávez até ao colapso da democracia venezuelana com Maduro. Com igual razão se pode criticar PS e CDS (sob um governo com o PSD) por terem fechado os olhos a essa deriva em nome dos negócios. Mas nenhum desses partidos partilha organizações partidárias, grupos parlamentares, candidatos e plataformas com Maduro ou Chávez. Ora, Rangel partilha tudo isso com Viktor Orbán da Hungria. O seu partido europeu é o partido de Viktor Orbán. O seu grupo parlamentar é o grupo parlamentar dos deputados de Viktor Orbán, a começar por Jószef Szájer, que é colega vice-presidente do PPE com Rangel, e foi o autor confessado das alterações constitucionais que iniciaram o desfazer do Estado de Direito na Hungria. O candidato de Paulo Rangel para presidente da Comissão Europeia é não só o mesmo que Viktor Orbán apoia, o político bávaro Manfred Weber, como esse candidato tem sido dentro do PPE o grande apoiante tácito de Orbán. E a tudo isto Paulo Rangel fecha os olhos ou critica apenas na medida do mais conveniente possível.
   (…) A degradação do Estado de Direito na Hungria tem consequências diretas para nós e precedeu e contaminou tudo o que se tem passado na Polónia, na Roménia, na Eslováquia, em Malta e por aí adiante.
   Só desde que Rangel se senta com o Fidesz de Orbán no Parlamento Europeu, a constituição húngara foi alterada dezenas de vezes, a lei eleitoral modificada para garantir maiorias constitucionais a Orbán, os tribunais foram decapitados, uma campanha de fundo anti-semita foi iniciada para criar um “inimigo interno” em George Soros, jornais e rádios foram encerrados, uma universidade foi forçada a sair do país, etc. Este último exemplo é particularmente importante porque Manfred Weber em tempos anunciou que essa seria a “linha vermelha” em relação à continuidade de Orbán dentro do PPE. A linha vermelha foi violada, e nada aconteceu.


Rui Tavares, aqui.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

GÉNIOS HÁ POUCOS



   Vincent van Gogh deve ser o pintor mais vezes retratado cinematograficamente. Cá em casa moram Van Gogh (1991), de Maurice Pialat, numa antiquada VHS, e Lust for Life/A Vida Apaixonada de Van Gogh (1956), de Vincente Minnelli e George Cukor, num sofisticado DVD (ok, ok, bem sei que o DVD também já caiu em desuso). Gosto mais do francês, com Jacques Dutronc no papel do malogrado pintor. Curiosamente, o americano arrecadou um Oscar para melhor actor secundário: Anthony Quinn no papel de Paul Gauguin. Coube a Kirk Douglas fazer de Van Gogh.
   Alain Resnais abordou o tema em Van Gogh (1948), a curta documental que mereceu uma estatueta da academia norte-americana. Está disponível no Youtube. Mais recentemente, pudemos ver o belíssimo filme de animação de Dorota Kobiela e Hugh Welchman com o título Loving Vincent/A Paixão de Van Gogh (2017). Não vi Van Gogh: Painted with Words (2010), de um tal Andrew Hutton, mas o trailer não me inspirou curiosidade, apesar do papel principal ter ficado a cargo do excelente Benedict Cumberbatch. Há outros, de Paul Cox, de Robert Altman, e sabe-se lá de mais quantos.
   Eis que chegamos At Eternity’s Gate/À Porta da Eternidade (2018), de Julian Schnabel. O que podemos esperar sobre Van Gogh que não nos tenha sido já oferecido? Schnabel é um especialista no filme biográfico, tendo abordado outro pintor num filme de boa memória: Basquiat (1996). Dediquei-lhe algumas palavras em tempos, para sublinhar a sua inclinação por personalidades complexas. Em Before Night Falls/Antes que Anoiteça (2000) retratou o escritor cubano Reinaldo Arenas e em Le scaphandre et le papillon/O Escafandro e a Borboleta (2007) baseou-se na vida de Jean-Dominique Bauby, ex-director da revista Elle. São filmes esteticamente diferentes deste último sobre Van Gogh, muito mais lineares e convencionais no modo de colocar a câmara.
   À Porta da Eternidade tenta oferecer à imagem cinematográfica os movimentos bruscos da pintura de Van Gogh, adoptando amiúde efeitos visuais e sonoros que parecem pretender reproduzir a mente perturbada e atormentada do pintor. O efeito é inspirador, nomeadamente se tivermos em conta as dificuldades que, neste caso em particular, o movimento da pintura coloca à imagem em movimento do cinema. Como fixar o movimento de uma coisa fixa? Paradoxo? Antinomia? Este é, sem dúvida, o desafio que Van Gogh colocou a si mesmo, percebendo-se que Julian Schnabel não lhe tenha querido fugir. Antes pelo contrário, adoptou-o para si oferecendo-nos sequências de fotografias, alternando entre o close-up e a paisagem, e planos-sequência em constante movimentação.
   Coube a Willem Dafoe, um dos melhores actores da sua geração, o papel de Vincent van Gogh. Pode parecer estranho que um homem com 63 anos interprete um pintor que morreu aos 37, mas é bem provável que o corpo de Van Gogh aos 37 não fosse muito diferente do de Dafoe aos 63. Actor fetiche de Julian Schnabel, entrou em praticamente todos os seus filmes. Tem um rosto peculiar que assenta que nem uma luva neste papel, desempenhado num registo que consegue o equilíbrio dos desequilíbrios da personagem. Ora paranóico, ora afectuoso, aqui desesperado, além místico, Dafoe é o meu Van Gogh preferido. O diálogo com Mads Mikkelsen, a fazer de padre, nos claustros do hospício de Saint-Rémy, dificilmente passará despercebido a quem aprecie os mistérios da genialidade.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

COM ESTA BOCA, NESTE MUNDO



Não mais te pronunciarei, verbo sagrado,
ainda que tenha as gengivas azuis,
ainda que ponha debaixo da língua uma pepita de ouro,
ainda que sobre o meu coração derrame um caldeirão de estrelas
e à minha frente passe a secreta corrente dos grandes rios.

Talvez tenhas fugido para o lado nocturno da alma,
esse que nenhuma lâmpada ilumina,
e não há sombra que guie meu voo no umbral,
nem memória que chegue de outro céu para encarnar nesta neve dura
onde apenas se inscrevem o rumor da ramagem e o gemido do vento.

E nem um só tremor que sobressalte as pedras mudas.
Temos falado de mais do silêncio,
condecorámo-lo como a um vigia no arco final,
como se nele o esplendor jazesse depois da queda,
o triunfo do vocábulo, com a língua cortada.

Ah, não se trata da canção, nem do soluço!
Já disse o amado e o perdido,
com cada sílaba trabalhei os bens e os males que mais temi perder.
Ao longo do corredor soa, ressoa a melodia tenaz,
retumbam, propagam-se como o trovão
umas poucas moedas caídas de visões ou arrebatadas à obscuridade.
O nosso longo combate também foi um combate à morte com a morte, poesia.

Ganhámos. Perdemos,
porque como nomear com esta boca,
como nomear neste mundo com esta única boca neste mundo com esta única boca?

Olga Orozco, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 173-174.

E NA TERÇA FOI ASSIM


E na terça foi assim, com o Nuno Costa Santos: encenámos o melancómico, falámos de e lemos Fernando Assis Pacheco, explorámos a ideia de marginal ameno...


...ficámos a conhecer a revista Grotta, citámos Emanuel Jorge Botelho, vimos e lemos e lembrámos Ruy Belo e Teresa Belo, ouvimos, tornámos presente...


...andámos algures entre os Açores, São João da Ribeira, Lisboa, com o apoio técnico do Miguel Costa e do Filipe, com a ajuda do actor  Nuno Machado, com um público *****. Espero que tenha sido tão bom para os outros quanto foi para mim. As fotografias são da Margarida Araújo. 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

NOTÍCIA TRISTE



Aqui. Conheci-o na Nazaré, aquando da apresentação deste livro e de uma exposição sobre fanzines organizada pelo Luís Paulo Meireles. Na fotografia ao alto, o Meireles mais à esquerda, Geraldes Lino mais à direita. Nascido em Lisboa, Geraldes Lino frequentou Filologia Germânica na Faculdade de Letras. Era um entusiasta da BD e da língua portuguesa. Escreveu para vários jornais e revistas. Foi comissário de várias exposições de BD, sócio fundador do Clube Português de Banda Desenhada, fundador da Tertúlia BD de Lisboa. Editor de inúmeros fanzines, coordenou uma página de banda desenhada no semanário Mundo Universitário. Atribuíram-lhe, em 1999, o Prémio Imprensa no Festival Internacional BD da Amadora, recebendo em 2001 o Troféu de Honra atribuído no mesmo festival. 

O AMOR COMO AZAR

Conhecemos a inveja, a cobardia e o amor como se fossem azares e não razões. Eu creio que a presença de espírito perante a vida vem desse encontro com as peripécias que não nos atingem, só nos alimentam a imaginação. Aprendemos a não nos desiludir porque não aspiramos a ser protagonistas de nada deste mundo. Bastamo-nos com ser parceiros na história que, por ser fingida, nos dá a garantia de ser inofensiva. Passa-se com os outros, e portanto temos a liberdade melhor de todas que é a de acreditar que estamos a salvo de tudo o que sucedeu e sucederá.

Agustina Bessa-Luís, in Doidos e Amantes, Guimarães Editores, 2005, p. 20, citada por Isabel Rio Novo, in O Poço e A Estrada - biografia de Agustina Bessa-Luís, Contraponto, Fevereiro de 2019, p. 432.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

INGESTÃO E CONTACTO




Poderia perguntar, além disso,
quantas palavras seriam necessárias
para rasurar uma palavra,
quantas, quais e com que prazo de validade.
Qual o procedimento, estratégia ou artifício,
que lhe permitiria detê-las antes que jorro
lhe empapasse a boca. Cuspia as que podia,
mas alguma coisa por detrás da garganta
lhe alimentava a língua, solta e descontrolada
como uma mangueira de incêndio.
Álcool sobre as chamas, gasolina,
em golfadas fundas que ameaçavam,
via, sepultar o mundo sob o seu peso.
Tentava evitá-las. Retinha a respiração,
premia as mãos contra a cova da boca, mas
era inútil, jorravam-lhe como de uma ferida aberta.
E ainda que soubesse controlar-se,
à sua volta havia
mais bocas do que aquelas que conseguia calar.
Multiplicavam-se. Na rua, nos livros, nos ecrãs,
num débito verbal que ultrapassava tudo
o que algum dia pudessem ter tido para dizer.
Bocas velhas,
novas, brancas, negras, de machos, de fêmeas,
de todas as formas, de todas as línguas.
Bocas virgens,
bocas penetradas, bocas pervertidas,
cínicas, ingénuas, generosas, bocas, bocas, bocas.
Há muito que, de facto,
esmagadas por um peso que as sufocava,
as coisas se afundavam sob tantas palavras.
Por vezes procurava-as. Era em vão.
Talvez, se cosesse a boca, como quem cose a vulva
para não parir o filho do ventre,
a sua, a das outras, a de todas, a de todos,
a humanidade inteira
numa censura prévia e sem piedade.
Talvez, se arrancasse o nome às coisas, como quem
retira a roupa para expor a carne, crua mas concreta,
ou raspa da pele o pó acumulado pelos anos.
Talvez, se os objectos se revoltassem, como cavalo
que rejeita a rédea, talvez, talvez, talvez
tivéssemos direito a um pouco de realidade.

Madalena de Castro Campos (n. 1984), in A Gun in the Garland. Três livros publicados na Companhia das Ilhas: O fardo do homem branco (2013), La mariée mise à nu (2017), A gun in the Garland (2019). Recorrendo amiúde a terceira pessoa, os versos remetem para uma figura feminina gerando um efeito de reflexo que acrescenta ambiguidade ao sujeito poético. A linguagem é crua, violenta, agressiva, desconstrói os padrões de feminilidade impostos por uma sociedade machista. Onde seria de esperar uma figura frágil, carente de protecção, encontramos antes uma personagem rude, provocadora, «tentando não ceder à moralidade». Transformada em tema, a poesia surge num quadro de doença contaminadora do meio. Poemas tais como Lavandaria Lusitana ou O meio literal português colocam-nos um problema: não percebermos se os retratos surgem a partir do olhar de quem se sente por estar fora ou de quem observa à distância, menosprezando tácticas, gestos, hábitos, manias, nos quais não se revê mas com os quais perde tempo (pelo menos o de denunciá-los com versos furiosos). Prefiro quando a atenção se desvia para os deuses, para a actualidade, para os temas sociais e políticos, tornando a violência muito mais pertinente face ao objecto. A série intitulada Figuras do quotidiano é bom exemplo de como a notícia do crime pode ser transposta da dispersão dos dias para um lugar fixo, readquirindo um vigor que a intoxicação quotidiana banaliza.

AQUELE OLHAR



   Clint Eastwood está à beira dos 89 anos de idade. Confiando no IMDB, estreou-se como actor nos anos de 1950. Tem mais de meio século de experiência, como actor, primeiro, e como realizador, desde 1971. Neste domínio, são muitos os filmes que assinou para ficarem na história. Westerns como O Rebelde do Kansas (1976), Justiceiro Solitário (1985), Imperdoável (1992). O inesperado, pelo romantismo, As Pontes de Madison County (1995). Uma homenagem ao jazz: Bird – Fim do Sonho (1988). Filmes de guerra, tais como As Bandeiras dos Nossos Pais (2006) e Cartas de Iwo Jima (2006). São diversos os géneros que abordou, sendo difícil encontrar no seu curriculum enquanto realizador um filme medíocre. The Mule/Correio de Droga (2018) é o mais recente, e vem reposicionar, isto é, reforçar, isto é, consolidar, isto é, reafirmar o actor e o realizador Clint Eastwood entre os maiores que o cinema gerou. 
   Feito à medida de um homem com quase 90 anos, The Mule conta a história de um improvável correio de droga na fronteira que separa os EUA do México. Tendo em conta a actualidade, o tema é deveras sensível. E não deixa de ser irónico que, apesar do cartel ser mexicano, o transportador seja um velho veterano tipicamente norte-americano. Podemos ensaiar várias leituras do assunto, até tendo em conta as posições políticas do protagonista. Mas nestas matérias prefiro deixar de lado factos biográficos. Não estou particularmente interessado nas posições políticas de Eastwood, ainda que me pareçam mais politicamente incorrectas (ou controversas) do que tantas vezes se pretende insinuar. Desde a série Dirty Harry que o problema se coloca, sobretudo devido a um suposto elogio do voluntarismo que arrasta consigo excessos de violência e inúmeros equívocos.
   Se uma coisa é a realidade, outra é o cinema, e a verdade é que os filmes de Eastwood procuraram sempre reflectir a realidade de pontos de vista que não me parecem nada conservadores. Antes pelo contrário, há nas suas histórias uma problemática da ambivalência. Com o velho Earl Stone deste The Mule não é diferente, a complexidade da personagem surge enquadrada na complexidade da própria existência. Não é possível tomar partido, só é possível tentar compreender. Sem desculpabilizar, o que o próprio não faz. 
   Com uma vida dedicada ao cultivo de flores, Earl negligenciou a família. Ofereceu Às flores uma atenção que nunca teve para com a ex-mulher e a filha. Marido ausente, pai ausente. O mundo moderno arruinou-lhe o negócio. A Internet, esse elemento abstruso num filme que também por aí pretende elogiar as formas clássicas do cinema, é inimiga não só do seu optimismo como lhe oferece uma visão pessimista do futuro. Mas o que pode esperar da vida um homem com 90 anos? Sem perceber muito bem como, Earl torna-se correio de droga. Com o dinheiro, paga o casamento da neta, remodela o bar dos veteranos de guerra, faz coisas socialmente positivas, aceitáveis, recomendáveis. É um simpático criminoso que não mata ninguém, que até interrompe o trabalho para ajudar um jovem casal “negro” a mudar um pneu furado no meio do nada. 
   Inocente ou culpado? No meio de tudo, sobressai a face conservadora e clássica do autor num elogio da família enquanto valor supremo. Não devemos colocar o trabalho à frente da família, a família deve vir em primeiro lugar. O diálogo que mantém com o agente Colin Bates, interpretado por Bradley Cooper, é memorável, quer pela sua simplicidade, quer pela tensão que transporta numa cena onde o final ainda se encontra em aberto, onde nenhum desfecho se prevê.
   Do elenco fazem parte Dianne Wiest e Andy Garcia, todos mais velhos (mas tão bons). Neste filme para actores crescidos, convém sublinhar a presença de Alison Eastwood a fazer de filha de Eastwood. Faz lembrar o que sucedeu com Henry Fonda e Jane Fonda em On Golden Pond/A Casa do Lago (1981). Se alguma mensagem pessoal, de cunho familiar, existe aqui, não é matéria em que devamos meter-nos. Mas que é bonito, lá isso é. Como as flores que surgem no princípio e no fim, símbolo de dádiva e de cuidados e do lado luminoso da vida que realmente importa cada vez mais não negligenciar. 

sábado, 16 de fevereiro de 2019

BRUNO GANZ (1941-2019)



Natural de Zurique, tornou-se estrela do cinema alemão com realizadores tais como Wim Wenders e Werner Herzog. Excelente em O Amigo Americano (1977) e As Asas do Desejo (1987). É Alexandros no magnífico A Eternidade e Um Dia (1998), de Theo Angelopoulos. Oliver Hirschbiegel ofereceu-lhe o papel de uma vida em A Queda: Hitler e o Fim do Terceiro Reich (2004). Tem lugar reservado na história do cinema europeu.

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #9 & #10




   Desconheço as razões, minhas filhas, que fazem com que neste nosso país tantas vezes os melhores versos surjam em prosa e a melhor prosa surja em verso. Deve haver algo que o explique, matéria na qual não sou versado nem me inspira empenhos para lá do gozo proporcionado pela leitura. Com o pensamento ocupado noutras elucubrações, prefiro entreter-me com objectos ambíguos na forma, híbridos no género, paradoxais na moral. Sempre me atraiu o indefinido, na literatura ainda mais. Daí o deslumbre com tudo quanto alente a androginia do espírito, mais ainda se acarretar aquela força do iconoclasta capaz de abalar os pilares dos bons costumes (que são, quase sempre, maus conselheiros). 
   Um nome: Mário-Henrique Leiria (n. 1923 – m. 1980). 
  Dois títulos: Contos do Gin-Tonic (Estampa, 2.ª edição, Outubro de 1976) e Novos Contos do Gin seguido de Fábulas do Próximo Futuro (idem, 2.ª edição, Janeiro de 1978). 
   Sobre o nome pouco se sabe e muito se diz, o que é comum entre as nossas gentes. Terá sido expulso das Belas Artes, em 1942, por más inclinações políticas. No surrealismo à portuguesa também não se manteve muito tempo, saindo em dissidência para formar um segundo grupo com aqueles que são hoje por todos tomados como os primeiros: António Maria Lisboa, Mário Cesariny, etc. Na nota biográfica oficial diz-se que «teve vários empregos, marinha mercante, caixeiro de praça, operário metalúrgico, construção civil» e que andou à deriva por vários cantos do mundo. O que não se diz tão oficialmente é que a fome lhe terá corrido as entranhas. Numa das primeiras pequenas histórias dos Contos do Gin-Tonic, percebemos ao que vinha no Portugal do Carreirismo:

   Após ter surripiado por três vezes a compota da despensa, seu pai admoestou-o.
   Depois de ter roubado a caixa do senhor Esteves da mercearia da esquina, seu pai pô-lo na rua.
   Voltou passados vinte e dois anos, com chofér fardado.
   Era Director Geral das Polícias. Seu pai teve o enfarte.

   Conclusão: se um homem tem de começar por algum lado, pois que comece por conhecer os métodos do inimigo. Sobre as viagens com carteira nada abastada, há quem diga que vinham do patrocínio comunista. Não tenho provas. Certo é ter morrido só e magro. Andou nove anos pela América Latina, para onde partiu em 1961, fazendo sabe Deus o quê. Ou talvez nem Deus o saiba, tão distraído que sempre anda. Minhas filhas, Portugal também tem esta coisa curiosa de serem poucas as biografias disponíveis de quem realmente teve vida para contar. Salvo raríssimas excepções, o que vai surgindo pouco acrescenta ao ramerrão das pessoas comuns. Pessoa essa que este Mário-Henrique não era, não podia ser, jamais terá sido. Caso contrário, como poderia ele em tão poucas palavras definir o sentido da existência num conto em verso que coloca em cena uma nêspera e uma velha?

RIFÃO QUOTIDIANO

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o acontece

  Portanto, se não quereis ser devoradas por uma velha, erguei-vos da cama e protestai, não fiqueis mudas à espera do que acontece, fazei acontecer. É deste caminhar caminhando, é deste fazer fazendo, é desta vontade, deste desejo, desta paixão, que toda e qualquer existência necessita se não quiser resumir-se ao pouco mais que nada de por cá andar com a cabeça entre as orelhas. Aproveitai a lição, ide ou deixai que as pernas vos levem, com a autonomia que é delas, para onde os "tiranos" da consciência jamais vos levarão: uma aventura sem portos.

BIÓGRAFA OU BIOGRAFADA?


Ando a ler O Poço e a Estrada Biografia de Agustina Bessa-Luís (Contraponto, Fevereiro de 2019), de Isabel Rio Novo. Logo no capítulo de apresentação a autora faz questão de nos informar: «Eu, que para este livro reli a obra completa de Agustina, ficcional e não ficcional (…)». Não espera o leitor outra coisa de um biógrafo, pelo que é escusado dizê-lo. Pouco depois: «Respirei Agustina; digo-o sem medo e sem rebuços». Respirou Agustina? Esperemos que não lhe crie nenhum problema pulmonar. Mas o cúmulo desta obsessão com o eu, estranho numa biografia, surge a páginas 50 (e ainda só vou na 56): «Digamos que não me foi difícil compreender Agustina. Também eu, na minha pequena infância, cresci longe de outras crianças, recolhida por longos períodos numa aldeia minhota». E a quem isso interessa?

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

A CIDADE E AS SERRAS


Campo ou cidade? A questão coloca-se como se fosse obrigatório optar por uma das alternativas, como se não fosse possível conciliá-las. O maniqueísmo nesta questão, como noutras, aliás, surge contaminado por preconceitos e por ideias feitas. Os apologistas do campo são quase sempre aqueles que não têm de sobreviver no campo, vivem na cidade alimentando uma nostalgia bucólica de sossego, paz e silêncio, como se a vida no campo pudesse ser reduzida à pureza do ar. Os do campo olham para a cidade sonhando com riquezas e confortos, ambicionando aceder aos lustres da fama, pensam na cidade como um mar de oportunidades. Até nelas naufragarem. Diz-se que no campo se é livre e saudável, que na cidade se leva uma vida doentia de servidão. Mas será mesmo assim? Eça de Queiroz (1845-1900), em A Cidade e as Serras, obra póstuma de 1901, parece não escapar ao padrão nesta divisão entre campo e cidade. A Paris de Jacinto, a que ele chama Civilização, surge retratada no início como palco da «vantagem de viver». O campo é dos brutos e das bestas, a cidade é dos homens cultos, das gentes instruídas, é de uma cultura académica, livresca, de biblioteca que fascina até ao ponto de o tumulto se tornar tédio absoluto. Também em Baudelaire encontramos o tédio como o sangue que corre nas veias da cidade. O fascínio pelas máquinas, pela indústria, pelas tecnologias, o gozo da novidade, das modas, a febre de ter e de aparecer, preenchem a agenda daquele que dela se torna escravo. Às tantas só ouvimos Jacinto suspirar: que maçada! Tudo se torna repetitivo, a multidão esboroa-se numa monotonia previsível, as máquinas falham, as tecnologias começam a desiludir, entram em desuso, e as pessoas, sobretudo as pessoas, adquirem em vida a lividez dos mortos. A cidade é uma paisagem de marcas, de montras, de teorias inúteis, a erudição revela-se vazia, supérflua, até o amor se resume à transacção comercial, uma infecção sentimental curável com distância, solidão, exílio. Da «vantagem de viver» chegamos ao «embaraço de viver», sobretudo quando a consciência se abre a uma contemplação que acabará por descobrir nas avenidas e nos becos da Cidade um acumular de lixo e de miséria, exploração, ruína, poluição: «E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacinto? Considera esses vastos armazéns com espelhos, onde a nobre carne de Eva se vende, tarifada ao arrátel, como a de vaca!» (p. 95) E isto é dito como se no campo não houvesse casas de putas, o campo, esse paraíso na terra onde se conserva a doçura dos gestos em gente bruta, animal, mas pura. Tretas! Tanto o campo como a cidade têm as suas abundâncias, e parece inegável que nesta o tempo vale mais do que naquele por serem acelerados os ritmos da vida. É o tempo, a experiência do tempo, aquilo que melhor nos permite separar ambas as realidades. Porque quanto ao mais são, o campo e a cidade, palcos onde os homens definham nesse processo de viver que consiste em fracassar, ou seja, em subir o mais alto possível para continuar constatando quanto se é ínfimo, porque se é efémero, finito, mortal. Façamos justiça ao escritor, que também no Campo viu misérias denunciáveis. Mas nem a sua panorâmica de Paris, nem as vistas de Tormes, encerram o problema: no limite, todo o espaço ocupado por homens se torna humano, deixa de ser selvagem ou civilizado, passa simplesmente a ser humano. E, enquanto espaço humanizado, não é senão organismo degradável, perecível. Hoje, os que da cidade migram para o campo em busca de tempo talvez busquem uma vontade de viver que o ruído das buzinas não permite como permitirá o ruído da passarada. E essa vontade de viver talvez seja uma fuga ao tédio, um tédio que a província desde cedo incute a quem nela nasce: aqui não se passa nada. Uma maçada. Mas tal como não se passa nada no campo, nada se passa na cidade, desde que abramos o pensamento a ambas as realidades constatando que tudo se resume a uma repetição fastidiosa de gestos, estações sobre estações, que não nos livrarão da tristeza, do pessimismo, da melancolia enquanto não adoptarmos aquela humildade de saber que a nossa grandeza está na nossa insignificância, que por ser tão curta a vida, tão passageira, a despeito de teses e teorias opostas, o melhor mesmo é aproveitá-la provando de tudo quanto há para provar. Não resumir a vida a uma mecânica de casa, trabalho, casa, trabalho, casa, trabalho... É isso, não é? A questão coloca-a Eça do seguinte modo: «Sendo tudo inútil, e não conduzindo senão a maior desilusão, que podia importar a mais rutilante actividade ou a mais desgostada inércia?» E esta mostra-se como sendo a questão definitiva, a mais profunda e urgente, a verdadeira questão para a qual ninguém precisa de uma biblioteca de 30000 livros. Melhor fora que tivesse uma boa garrafeira, pão caseiro e bom queijo ou um chouriço. A Natureza encarregar-se-á de oferecer o resto, a pontuação certa. Isto se não dermos cabo dela antes de ela dar cabo de nós.

MENINOS


O cumprimento é uma das formas que tenho de apurar o carácter de uma pessoa. Não me refiro ao tipo de cumprimento, mas ao cumprimento ele mesmo. Alguém que te conhece e te vê em algum lado fingindo que não viu, evitando o cumprimento ou adiando-o à espera, porventura, de ser cumprimentado, não é propriamente um cretino. É só uma pessoa infantil. Como não suporto gente adulta com comportamentos infantis, faço questão de mostrar o que é ser homenzinho e estendo a mão com complacência e afecto. Às vezes até faço uma festinha no ombro, como quem afaga o pêlo ao cão. É uma questão de educação, assim como quem diz: vês, não custa nada, só fica bem, depois podemos voltar a ignorar-nos para o resto das nossas vidas.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

"Certamente, meu Príncipe, uma ilusão!"

E a mais amarga, porque o Homem pensa ter na Cidade a base de toda a sua grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua miséria. Vê, Jacinto! Na Cidade perdeu ele a força e beleza harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser ressequido e escanifrado ou obeso e afogado em unto, de ossos moles como trapos, de nervos trémulos como arames, com cangalhas, com chinós, com dentaduras de chumbo, sem sangue, sem febra, sem viço, torto, corcunda — esse ser em que Deus, espantado, mal pode reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Adão! Na Cidade findou a sua liberdade moral: cada manhã ela lhe impõe uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependência: pobre e subalterno, a sua vida é um constante solicitar, adular; vergar, rastejar, aturar; rico e superior como um Jacinto, a Sociedade logo o enreda em tradições, preceitos, etiquetas, cerimónias, praxes, ritos, serviços mais disciplinares que os de um cárcere ou de um quartel... A sua tranquilidade (bem tão alto que Deus com ela recompensa os santos) onde está, meu Jacinto? Sumida para sempre, nessa batalha desesperada pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gozo, ou pela fugidia rodela de ouro! Alegria como a haverá na Cidade para esses milhões de seres que tumultuam na arquejante ocupação de desejar — e que, nunca fartando o desejo, incessantemente padecem de desilusão, desesperança ou derrota? 

Eça de Queiroz, in A Cidade e as Serras, Livros do Brasil, 1.ª edição na Livros do Brasil/Porto Editora, Março de 2016, pp. 94-95.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

A REALIDADE E O DESEJO



A Luis Cernuda

A realidade, sim, a realidade,
esse relâmpago do invisível
que em nós revela a solidão de Deus.

É este céu que foge.
É este território adornado pelas borbulhas da morte.
É esta mesa larga à deriva
em que os comensais perduram ataviados pelo prestígio de não estar.
A cada qual seu copo
para medir o vinho que acaba onde começa a sede.
A cada qual seu prato
para acabar com a fome que se extingue sem que jamais seja saciada.
E a divisão do pão aos pares:
o milagre ao contrário, a comunhão somente no impossível.
E no meio do amor,
a queda entre um e outro corpo,
algo semelhante ao batimento sombrio de umas asas que voltam da eternidade,
ao pulso da despedida debaixo da terra.

A realidade, sim, a realidade:
anúncio de encerrado em todas as portas do desejo.

Olga Orozco (n. 17 de Março de 1920, Toay, Argentina – m. 15 de Agosto de 1999, Buenos Aires), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 157.162-163. Estudou na Faculdade de Filosofia e Letras de Buenos Aires, integrando desde cedo o grupo surrealista Terceira Vanguarda. Esteve associada à revista Canto nos anos 40. Foi uma famosa actriz de teatro radiofónico, usando vários pseudónimos na imprensa escrita onde se dedicou à crítica teatral. Nos anos 70, elaborava horóscopos e respondia a consultas sentimentais praticando tarot. Amiga de Pizarnik, de Amelia Biagioni, de Alberto Girri e de Enrique Molina, dedicou-se também à crítica literária e à tradução. Desde lejos (1946) foi o seu primeiro livro.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #8


   Por mais voltas que dêmos iremos invariavelmente parar na casa do amor, pelo que livro mais útil não ides encontrar na vida. A Ars amatoria servir-vos-á em dois partidos, já que o mestre escreveu-a a pensar tanto nos interesses dos homens como nos das mulheres. Nisso descansai, nada tendes aqui que conflitue com as novas tendências da política de equidade de género. E pela voz de um homem ser-vos-ão abertas as portas da mente máscula.
   Públio Ovídio Nasão nasceu numa pequena cidade italiana em 43 a. C., vindo a falecer em Tomos (Constança), na Roménia, já 18 anos depois de Cristo ter andado pela terra. Os parabolanos bem que tentaram silenciá-lo, mas os versos foram mais fortes que as pedras e aí estão perdurando na eternidade. Expulso de Roma por Augusto, condenado ao exílio na terra onde viria a morrer, não baixou armas contra caluniadores, dedicando-lhes versos verrinosos bem diferentes da dissolução de costumes cantada na Arte de Amar.
   Encontrareis nesta obra três livros, dois dirigidos aos homens e um terceiro votado às mulheres. Dos primeiros podeis colher o pensamento, as tácticas e manhas no processo de sedução, as regras que comandam o jogo levando o jogador a actuar deste modo ou daquela maneira. São ensinamentos indispensáveis a quem pretenda precaver-se contra as investidas do depredador, pelo que deveis tê-los em boa consideração:

O vinho põe o coração a jeito e torna-o pronto para a fogueira;
os cuidados desvanecem-se e diluem-se numa boa dose de vinho puro;
chega, então, o riso, então o pobre ganha coragem,
então a dor e os cuidados e as rugas desaparecem do rosto,
então a simplicidade, tão rara no nosso tempo, abre os
corações, sacudidos que foram os artifícios pelo deus.

   Dos versos aproveitai tamanho saber: «a bebedeira, tanto é nefasta, se verdadeira, como é útil, se fingida». Corroboro. Mas são inúmeros os conselhos, julgai-lhes a utilidade colocando-os em prática. Sobre tudo quanto tem que ver com o amor nos fala Ovídio, e não é de um amor dito platónico ou ideal que ele fala, mas sim do amor que corre no sangue e dá vida à carne, movido pelo desejo e alentado pela paixão, é do amor tal qual o vivem e experimentam todos quantos possam ter neles o que de animal herdámos.
   Esta arte de amar não se dirige aos hipócritas, muito menos aos moralistas, para quem o amor do espírito pretende impor sacrifícios à carne. Ela dirige-se aos amantes, ao corpo dos amantes, pelo que deveis considerar todas as possibilidades: «Odeio o acto de amor que não faz soltar ambos os parceiros / (eis por que me apraz menos o amor com rapazes); / odeio aquela que se entrega por ser preciso entregar-se / e que, na sua secura, só pensa na sua lã; / prazer cedido por dever não é prazer que me dê gozo; / um dever, que nenhuma mulher o pratique comigo».
   Dito como na canção, para haver amor não pode haver obrigação. Portanto, minhas filhas, cuidai de meter na agenda:

Tende desde já na lembrança que a velhice há-de chegar;
e não deixeis, por isso, esvair-se tempo algum na ociosidade;
enquanto vos for consentido e conservardes, ainda, a idade da Primavera,
gozai; vão-se os anos, do mesmo modo que a água corrente;
nem a onda que passou voltará de novo a ser chamada,
nem a hora que passou logra tornar atrás.
Há que aproveitar a idade.

E o resto são cantigas.