Quem será esta estranha figura com perfil de sombra? Tem nome:
Noel Scott Engel. No mundo da música, onde aterrou muito jovem, ainda nos anos
de 1950, fez um percurso hoje difícil de acreditar. Começou como baixista e
segunda voz de bandas pop, até saltar para a frente do palco como cantor principal
dos The Walker Brothers. Música simples, melódica e harmonicamente balanceada ao
estilo easy listening de Burt Bacharach. O sucesso rapidamente lhes bateu à
porta, tornando-se a voz de Scott Walker, como então passou a ser conhecido Noel
Scott Engel, numa das mais ouvidas durante o início da década de 1960. Baladas
com orquestrações pomposas, ambientes neo-românticos, abriram as portas a uma
carreira em nome individual com considerável sucesso por terras de Sua
Majestade. Iniciou-se com quatro discos simplesmente intitulados Scott (1967),
Scott 2 (1968), Scott 3 (1969), Scott 4 (1969), sendo perceptíveis tanto a
influência de cantores como Jacques Brel e Frank Sinatra como do cinema de
Bergman ou da poesia Beatnik.
Muitos anos depois, na trilogia iniciada com Tilt (1995),
pouco, muito pouco, restará dos primeiros tempos, embora as sementes tenham
sido lançadas com letras negras e instantes indiciadores de uma mente
atormentada. Uma personalidade obsessiva levou-o a estudar música erudita e canto
gregoriano, afastando-se progressivamente das metodologias impostas pelo reino
do entretenimento. O sucesso esvaneceu, a pressão colocou-o no
limite do que o sistema nervoso de um homem pode suportar. Sem que nunca
tivesse deixado de trabalhar, Tilt marca uma inflexão no percurso
musical de Scott Walker. Obscura, enigmática, misteriosa, é o menos que pode
ser dito desta música. Farmer in the City, o tema inicial, homenageia o poeta
italiano Pier Paolo Pasolini com arranjos de cordas melodramáticos,
repetindo-se o registo no tema Patriot (a single), ainda que com algumas variantes
ao nível da complexidade da estrutura musical. No tema Bolivia ’95 envereda por
ambientes étnicos num ritual de expurgação mental: «opiate me / with that / key
doctor / babaloo».
O imaginário de Scott Walker é um desafio constante,
levando-nos a crer que ao ouvirmos estes discos estamos a penetrar numa
dimensão onírica povoada por criaturas desfiguradas, informes, indefinidas. Se
Tilt encerra o seu esoterismo com a simplicidade de um tema onde Walker se faz
acompanhar apenas da guitarra, sendo o último verso revelador de um estado de
alma que os anos de exílio faziam prever — «And I gotta / quit» —, The
Drift (2006) adensa a percepção de uma desistência com composições completamente
alienadas do ouvinte. Que pensar deste percurso que levou um artista do easy
listening a uma música tão abstracta que chega a ferir?
O interesse pela
cultura italiana mantém-se, mas desta feita com uma evocação de Clara Petacci
(amante de Mussolini que fez questão de ser executada com o ditador). Os
arranjos melodramáticos de alguns temas anteriores dão lugar a ressonâncias
industriais, elevam o drama a tragédia, evocam personalidades obscuras,
secundárias, mas sugestivas psicanaliticamente, como o irmão gémeo nado morto
de Elvis Presley. The Drift é expressionismo abstracto, habitado por cenas de
violência e gestos bruscos, é uma ópera da crueldade com momentos assustadores,
aterradores. Walker já não está interessado em seduzir e entreter, a pop foi radicalmente
largada no lixo, as melodias acabaram estilhaçadas pelos pesados martelos da impiedosa
realidade. Palavras que se escutam em Cue: vírus, verme, herpes, ossos,
gorjetas, sémen, tumor… E tudo isto sugere um olhar sobre o mundo que começa
com a mais simples das perguntas: o que têm Seoul e o Sudão em comum? Ambas as
palavras começam por S:
Bish Bosch (2012) é o derradeiro tomo da trilogia
iniciada com Tilt (1995) e prosseguida com The Drift (2006), resultando todos
de uma estreita colaboração com o produtor Peter Walsh. Nos três álbuns encontramos
referências que se impõem como coordenadas de um universo singularíssimo, dos
assassinatos de Pasolini e Mussolini, da Guerra do Golfo ao 11 de Setembro, passando
por conversas com cadáveres, atmosferas surrealistas, combinações aparentemente
aleatórias de orquestrações clássicas com elementos rock, vozes distorcidas como
nos filmes de terror (o pato Donald possesso no tema The Escape), até cenas de
tortura, radiografias de corpos doentes, cancerosos, momentos minimalistas como
nos temas Rosary e A Lover Lovers.
Bish Bosh podia ser compreendido enquanto síntese deste mundo
perturbado e perturbador. Mas não há tese nem antítese, pelo que seria erro
crasso esperar uma síntese. A trilogia é antes a santíssima trindade de um
mundo colapsado. O tomo final abre num registo industrial, com percussão
repetitiva e uma guitarra distorcida a ameaçar riffs logo descontinuados. From
Here to Eternity, o filme de Fred Zinnemann, dá o mote. Logo a seguir a voz de
Walker surge isolada numa espécie de oração, perdendo-se posteriormente num
longo labirinto de imagens com sons sobrepostos entre os quais seria frustrante
tentar encontrar alguma ligação harmónica. A única tese é o silêncio, a única
antítese é o ruído. Talvez a música seja então a síntese.
Free rock, como
dizemos do free jazz, sustentando uma lírica da violência sumamente ilustrada
pelo som de catanas amoladas. No tema Phrasing o verso «Pain is not alone» é exaustivamente
repetido, acompanhado de referências ao KKK e a Khrushchev que culminam com a
sentença: «Here’s to a lousy life». Talvez o sentido de tudo isto seja impenetrável,
conquanto admitamos haver nesta trilogia o testemunho de uma guerra contra a
indústria, ávida de produtos descartáveis e avessa a uma noção artística da
música. Este Scott Walker é para ser ouvido com calma, de quando em vez,
levando-nos a pensar sobre e através da música no que possa ser, afinal, o
sentido de uma arte suprema:



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