sábado, 30 de março de 2019
PERDOA-ME
Sempre foi isto, é isto, pelo que, segundo as boas regras
da dedução, devemos concluir que não sairemos disto. O conservadorismo nacional
é uma praga, um vírus que ataca todos, independentemente de classes, partidos,
inclinações políticas, é um vírus que se mistura com o corporativismo, com a
tadinhice, com o nepotismo, com o caciquismo, e nos afunda irremediavelmente no
pântano oligárquico do “veja lá menino, cuidadinho, porte-se bem,não fira susceptibilidades”.
Esta igreja dos bons comportamentos, involuntariamente cúmplice d' energúmenos que promovem a miséria nacional, é o maior dos males num país que de há muito é exclusivamente educado para o: perdão. Cretinos, crápulas, criminosos, filhos da puta, podem ir praticando as suas artes, o perdão coloca-os a salvo de punições. Se actuarem no alto do poleiro, ainda mais. A necessidade deve-lhes perdão.
Resultado: penas ligeiras, esvoaçantes, recursos, adiamentos, reduções, uma justiça falida da qual todos se queixam contra a qual nada fazendo. Bestas e broncos, autênticos burgessos nos cargos de decisão, aqueles aos quais se chega por nomeação ou compadrio. As figurinhas tristes nas sucessivas sessões de inquéritos parlamentar aí estão para retratar o país da impunidade.
Competência?
Mérito?
O melhor é arranjarem quanto antes um cartão do partido e dedicarem-se à arte de lamber botas, caladinhos o mais possível para que ninguém seja incomodado. A todos reservamos o nosso perdão.
Esta igreja dos bons comportamentos, involuntariamente cúmplice d' energúmenos que promovem a miséria nacional, é o maior dos males num país que de há muito é exclusivamente educado para o: perdão. Cretinos, crápulas, criminosos, filhos da puta, podem ir praticando as suas artes, o perdão coloca-os a salvo de punições. Se actuarem no alto do poleiro, ainda mais. A necessidade deve-lhes perdão.
Resultado: penas ligeiras, esvoaçantes, recursos, adiamentos, reduções, uma justiça falida da qual todos se queixam contra a qual nada fazendo. Bestas e broncos, autênticos burgessos nos cargos de decisão, aqueles aos quais se chega por nomeação ou compadrio. As figurinhas tristes nas sucessivas sessões de inquéritos parlamentar aí estão para retratar o país da impunidade.
Competência?
Mérito?
O melhor é arranjarem quanto antes um cartão do partido e dedicarem-se à arte de lamber botas, caladinhos o mais possível para que ninguém seja incomodado. A todos reservamos o nosso perdão.
sexta-feira, 29 de março de 2019
UM POEMA DE JOAQUÍN O. GIANNUZZI
POÉTICA
A poesia não nasce.
Está aí, ao alcance
de qualquer boca
para ser dobrada, repetida, citada
total e textualmente.
Ao acordar esta manhã, você
viu coisas, aqui e acolá,
objectos, por exemplo.
Digamos que viu uma lâmpada
sobre a sua mesa-de-cabeceira,
um rádio portátil, uma caneca azul.
Viu cada coisa isolada
e viu o conjunto.
Tudo isso já tinha nome.
Assim o teria escrito.
Precisava de outra linguagem,
de outra mão, de outro par de olhos, de outra flauta?
Nada acrescente. Não deturpe.
Não mude
a música de lugar.
Poesia
é o que se está a ver.
Joaquín O. Giannuzzi, versão de HMBF a partir do original
coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en
Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis
García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 195.
AGNÉS VARDA (1928-2019)
Autora de um documentário que é um dos filmes da minha vida, revisto vezes sem conta em sala de aula quando era professor: Les glaneurs et la glaneuse/Os Respigadores e a Respigadora (2000).
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Cinematógrafo,
Os mestres e as criaturas novas
ZEITNOT
Oriundo da Bulgária, o escritor Dimíter Ánguelov (n.
1945) há muito que assentou arraiais entre nós. Paulo Franchetti, numa
apresentação do autor cuja leitura se recomenda (aqui), informa-nos da
dedicação ao jornalismo e ao ensino universitário, tendo sido Ánguelov um
destacado divulgador e tradutor de autores portugueses tais como Mendes Pinto, Eça,
Camilo, Nemésio e Herberto. Já radicado em Portugal, publicou na &etc os
livros “Código evidente” (1989) e “Nihil obstat” (1995). Referindo-se a estes
livros, Franchetti apresenta o seu autor como “desconstrutor”: «ou, o que dá no
mesmo, um construtor de não-objectos, de situações ou objectos impossíveis».
Com colaboração literária e crítica dispersa por vários órgãos de comunicação
social portugueses (Expresso, Diário de Lisboa) e revistas de referência (LER,
Colóquio Letras), Dimíter Ánguelov distingue-se, antes de mais, pela prática do
aforismo. Zeitnot (Debout Sur l’Oeuf, Janeiro de 2019) é o seu segundo livro
para a DSO, seguindo-se ao volume In Vano Veritas (Debout Sur l’Oeuf, Janeiro de 2014). Entre os cinco anos que separam as
duas publicações, Ánguelov publicou ainda “No meio do Silêncio” (Artelogy,
2016) e, num registo mais ficcional, “A Rapariga de Jam” (Artelogy, 2016) e “Criação
Curel” (Artelogy, 2017).
Parente pobre da filosofia, o aforismo é uma arte da
síntese. Podemos entendê-lo enquanto conclusão de um raciocínio cujas premissas
apenas se subentendem. É verdade que a tendência para chamar aforismo a todo e
qualquer texto curto que não encaixe nas convenções literárias faz com que este
tipo de produção se associe mais facilmente ao discurso filosófico, embora
muitas vezes não seja exacto que o próprio discurso filosófico não resulte
enriquecido do exemplo ficcional e da riqueza metafórica que alimenta o
poético. “Zeitnot”, expressão germânica relacionada com a cronometragem num
jogo de xadrez, pode ser por si mesma uma metáfora da vida. Em causa está o
tempo disponível, o que resta de tempo àquele que vive para dizer tudo quanto
pensa, para fazer tudo quanto diz, para pensar tudo quanto faz. A pressão do
tempo opera no sujeito um desejo de síntese, força a abreviação do discurso, leva
a uma economia verbal que nada tem que ver com precipitação do pensamento,
antes se impondo como gestão do silêncio, pura música.
O último aforismo desta colectânea dá bem conta de como o
poético se intromete neste processo: «A vida? Uma onda que se defende do mar»
(p. 36). Podemos imaginar um antes e até um depois para esta definição, a sua
brevidade não exclui diversas possibilidades reflexivas. A pergunta está feita
e é simples, genérica, comum, a resposta nem por isso, mas deixa no ar um apelo
à reflexão que é a maior dádiva desse falar por parábolas que remonta aos
próprios textos bíblicos. Isto não faz do autor, obviamente, um messias da palavra
universal. De resto, ele é suficientemente heterodoxo para não se deixar cair
na armadilha dos profetas: «A fé salvou muita gente. De outra fé» (p. 13). O
pragmatismo sobrepõe-se à metafísica, assumindo a ironia como força motriz do
pensamento. Por vezes a ironia descamba para um humorismo mais ligeiro:
«Constatei várias vezes que as piores coisas acontecem-me sempre entre Janeiro
e Dezembro. Por uma razão muito simples — falta de margem de erro» (p. 31).
Noutras ocasiões, o humor faz-se valer de subtilezas sintáticas e gramaticais,
de trocadilhos ortográficos, de paradoxos clássicos: «É saudável que a nossa
vida piore cada vez mais antes de nos despedirmos dela» (p. 18). Os epigramas
literário, político e social induzem a veia satírica. E alguns micro diálogos encenam
situações dramáticas. Há ainda dois aforismos curiosos, os quais se debruçam
sobre a própria natureza do aforismo: «Um bom aforismo faz-nos esquecer de
todos os romances» (p. 10); «Um aforismo explicado torna-se imediatamente uma
banalidade» (p. 11).
Autor discreto, reservado, de certo modo recolhido numa
espécie de sombra onde não chegam as luzes da ribalta, Dimíter Ánguelov tem
vindo a produzir no nosso país uma obra sem par neste tempo onde a verbosidade
(que é uma forma de obesidade verbal), ainda que vazia de qualquer pensamento,
vale mais do que a ginástica desse mesmo pensamento. A dieta que nos oferece em nada
aligeira o que possamos pensar, antes nos desafia com o essencial, antes nos
propõe exercitar a inteligência com graciosidade e refinado sentido de humor. Zeitnot está disponível para encomenda aqui. Sugiro-a sem qualquer tipo de escrúpulos.
quinta-feira, 28 de março de 2019
NEPOTISMO
A palavra nepotismo aparece algumas vezes neste weblog. Por exemplo, quando falámos das The K&D Sessions: «Entrei para a universidade em
1992, terminei o curso de Filosofia em 1997. Em teoria, esperava-me um futuro
de docência quando ser-se professor era ainda coisa respeitável. Rapidamente
nos apercebemos da sombra de ilusão arrastada por uma ideia de futuro, não
havia ligações directas entre formação académica e exercício profissional.
Havia nepotismo oligárquico, havia cunha, havia catequese, em contraste com a
parangona da política de mérito à qual se submetiam mentes ingénuas e anódinas». Ou quando há dois anos falámos de virtudes, a propósito
de Abril: «Continuamos a patinar num tecido social acrítico e empobrecido pela
sua própria incúria. Os militares não podiam dar-nos pessoas interessadas,
exigentes, desde logo consigo próprias, moralmente aceitáveis. Da pequena cunha
que suporta as oligarquias ao favorzinho simpático, o sistema transporta dentro
de si mesmo o vírus da corrupção e do nepotismo. Só há uma forma de o superar,
é com as vacinas da educação e da cultura. Eu, pelo menos, não sei de outra». Também quando em 2014 assistíamos com distância à luta entre antónios: «Já não bastava o nepotismo nesta sociedade oligárquica e
corrupta em que vivemos, temos que aturar agora, ainda por cima em directo e
com direito a diferidos sucessivos, o triste espectáculo da mediocridade». Quando andámos entretidos com Relvas: «Chamem-lhe cunha,
clientelismo, nepotismo, o que preferirem. É a sem vergonha de um povo inteiro
que se deixa governar por vigaristas, copia-lhes os actos à medida das suas
possibilidades, e deixa-se enredar na alegria das dúvidas existenciais que os
teóricos lançam para a mesa: seremos a Grécia? Tudo muito protegido pela
legalidade das actuações. Não somos a Grécia, somos bem pior». E ainda quando em 2012 não comemorámos a democracia portuguesa: «A democracia portuguesa não pôs fim a um Estado
centralizado, corrupto e desavergonhadamente ladrão, que alimenta, «à custa do
erário público, os influentes, os caciques e o seu interminável cortejo de
amigos, protegidos, parentes e parasitas» (VPV). O nepotismo não foi
ultrapassado, os amigos de seus amigos continuam, à custa do trabalho das
massas, a distribuir cargos e benefícios sem qualquer tipo de vergonha». A palavra nepotismo aparece mais vezes neste weblog. Mas para quê voltar ao tema? É mais do mesmo, esta coisa do lugar para o amigo, para o filho, para o primo, para o amigo do filho, para a mulher, para a amante... O PS sempre foi uma máquina disto, sei-o bem. Até de fonte segura. Portanto, esperavam o quê? Continuem a votar nisto, deve fazer muito sentido votar nisto, nesta maravilha de "somos todos brothers". Alguns enteados, vá lá. Faz sempre falta alguém que limpe a retrete.
MEMÓRIA
Portugal deve ser um dos países do mundo com mais governantes e ex-governantes a padecerem de Alzheimer. Não têm memória de nada, esquecem-se de tudo. Não se lembram, não se recordam, esquecem-se depressa. Talvez fosse importante sujeitar toda esta gente a exames rigorosos antes de chegarem aos cargos que, muito provavelmente, nem se recordam de ocupar ou de terem ocupado.
quarta-feira, 27 de março de 2019
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #13
Evitai o desespero. Se vos falo de coisas lúgubres, é
porque a vida também se aprende a doer. Nem tudo são açúcares. Talvez não tenha
ficado clara a inspiração de Unamuno no malogrado Manuel Laranjeira
(1877-1912), poeta português que não cabe nas antologias. Deste poderia
sugerir-vos alguns versos, ficções, peças. Mas há um ensaio em particular que
merece bom acolhimento nas nossas estantes. Chama-se Pessimismo Nacional e, se
bem sei, foi surgindo num jornal entre 1907 e 1908. Tenho a edição da frenesi, de Março de 2009. É vossa.
O autor suicidou-se em
1912, inspirando desse modo o espanhol de Bilbau. Médico, republicano fervoroso, tentou arranjar estômago
que aguentasse a república do seu tempo, pântano de esfomeados, sapal de analfabetos,
servos das quadrilhas de privilegiados que no poder ou junto dele tratavam o
povo como hoje parece mal tratar os cães. Com as devidas distâncias, podemos sempre
sublinhar o mal que perdura na raiz:
«(...) numa sociedade, onde o pensamento
representa um capital negativo, um fardo embaraçoso para jornadear pelo caminho
da vida; num povo, onde essa minoria intelectual, que constitui o orgulho de
cada nação, se vê condenada a cruzar os braços com inércia desdenhosa, ou a
deixá-los cair desoladamente, sob pena de ser esterilmente derrotada; num país,
onde a inteligência é um capital inútil e onde o único capital deveras
produtivo é a falta de vergonha e a falta de escrúpulos — o diagnóstico impõe-se de per
si».
Contra isto, um Presidente da República ocupado a
papaguear que somos os melhores em tudo, distribuindo abraços e beijinhos por
desgraçados e miseráveis, é apenas merecida caricatura. Se tendes dúvidas, ide
à pastelaria e folheai o jornal do dia. Ou sintonizai a televisão em qualquer
canal a vosso arbítrio, que logo ides deparar-vos com o esterco onde o
pessimismo frutifica.
Impõem as boas práticas que ao pessimismo da razão
receitemos o optimismo da vontade, não vá o coração ceder à tentação fatalista
que ceifou este Laranjeira e tantos outros como ele. Sirvam antes as suas
palavras de pré-aviso: «Vestimos à moderna, pretendemos viver à moderna, e
pensamos e sentimos à antiga». Dando graças a Deus. Eis o melhor de um
diagnóstico onde aos males e vícios não se aplicam virtudes nem remédios:
«O mal da sociedade portuguesa é apenas este: — a
desagregação da personalidade colectiva, o sentimento de interesse nacional
abafado na confusão caótica dos sentimentos de interesse individual».
Portanto, o mal está na ganância, na avidez, na sovinice,
e nesta filha da puta de mania de pensar que a vida é eterna, subjugando assim
o dia-a-dia a uma ideia de conforto e luxo que apenas hipoteca o futuro e nos
desapaixona do presente. O mal está no individualismo cego, doença que tendemos a tratar com esmolas e campanhas de solidariedade. O mal está em sermos diariamente explorados, enganados, traídos, e vivermos bem com isso, como se fosse natural sermos explorados, enganados, traídos. Se calhar é.
Ficai atentas, preveni-vos, minhas filhas, de todo e
qualquer messias, onde há um homem haverá sempre a imponderável manifestação do
desespero. E o tempo passa num instante. Ficai de atalaia e desconfiai, desde
logo das seitas, das quadrilhas, dessas religiões erguidas por profetas movidos
apenas pela hipocrisia, sejam elas da fé ou da economia. Vai dar ao mesmo.
Por acaso nascestes portuguesas. Já alguém disse que por
isso partis em desvantagem, mas que não seja uma fatalidade o lugar. Se a
ignorância encolhe o território, estudai, aprendei, escutai, perscrutai na Natureza
as cores, os sons, os cheiros que tornam válida a vida. Ides certamente encontrar
recanto onde a inteligência possa ser apreciada, nem que seja onde eu encontrei
o meu: em vós.
terça-feira, 26 de março de 2019
[Ainda se lembrava dos seus tempos de rapaz.]
Ainda se lembrava dos seus tempos de rapaz.
Quando era tudo de perfil. Nem podia ser
de outro modo: de perfil e em diorite
como nos retratos do Império Antigo. Muitos
iriam acolher depois os ritos do primitivo
estigma. Nos parques, na penumbra dos relvados,
ficou dessa queimadura uma legenda. Alguns
resistem. Paralisa-os a vertigem de uma estreita
afeição. No limite do conhecimento, a tremer
de alegria, encontram aquilo que
tinha sido esquecido. A cabeça entre as pernas
nem sempre se distingue de um sussurro
de lâminas. A música de tal desígnio percute
nas sílabas todas do inominado canto. Às vezes
por um punhado de lágrimas, equívoco maior.
É claro que a iniquidade continua impune.
Eduardo Pitta (n. 1949), in Arbítrio (1991), copiado de Desobediência.Poemas Escolhidos (2011). De Poesia Escolhida (Círculo de Leitores, Julho de 2004)
para Desobediência. Poemas Escolhidos (Dom Quixote, Fevereiro de 2011) são
várias as cisões, alguns poemas desaparecem por completo, de outros resta uma
curta percentagem de versos, há deles que foram ligeiramente mudados,
observam-se alterações ao nível da pontuação, num processo rigoroso de revisão
e depuração que acompanha de há muito o labor poético de Eduardo Pitta. Mas a
segunda recolha também acrescenta dois poemas em prosa a uma poesia fixada entre
1971 e 1996, podendo estes parecer estranhos no contexto de uma poesia que se
distingue pela forte contenção narrativa. Ainda que no livro de estreia,
intitulado Sílaba a Sílaba (1974), ressoem vivências moçambicanas, elas surgem
invariavelmente tolhidas por um fulgor imagético regulado pela elipse e por uma
economia vocabular que coloca no tabuleiro da leitura as regras do enigma. Por
entre as sombras de uma história marcada pelo exílio, pelo sentimento apátrida,
pela ausência, por «muros de silêncio», pela distância, vislumbramos o desejo
como motor de uma escrita que pretende preservar um amor desobediente, um «amar
desordenadamente». Escrita do corpo, intensa nos domínios do erótico, suficientemente
clara para que a julguemos erigida contra a hipocrisia reinante, esta poesia
exprime as feridas de uma história pessoal sem dessangrar a intimidade.
ANDAMOS NISTO
Cristina Fernandes, no weblog Bicho Ruim, escreve sobre Cristina Bartleby (nunca li): O caso fraudulento de Cristina Bartleby (parte 1), O caso fraudulento de Cristina Bartleby (parte 2). Cito:
Apercebi-me do caso da Cristina Bartleby (na verdade
chama-se Cristina Freitas Branco, embora também já tenha assinado com o nome
intermédio Luísa Freitas ou até com as iniciais clrfb) em 2014. Na altura
investiguei um pouco e verifiquei que os textos que ela publicava — por
todo o lado e em grande quantidade — era corta e cola quase automático, sem
itálicos, sem referências, sem links, sem nada. A Cristina Bartleby não
trabalha sobre citações, não se dá à canseira de estabelecer variações ou
montagens (nem tem estaleca para tal), apropria-se de modo atabalhoado e
indevido de frases. Como um glutão, engole o que os outros escrevem, mistura e
depois regurgita fiapos disto e daquilo sem qualquer coesão interna nem deriva
total — é mesmo só um vómito.
(...)
CB assentou arraiais no condomínio maravilhoso do
facebook, imagino que tenha ganho fama e corte e, num salto arrojado de
consagração (e desvario?), saltou para o papel e para o espaço público.
Aqui convém fazer uma pausa para lamentar que o sentido crítico do que se
escreve e publica, principalmente em forma de poesia, está a nível abaixo de
rasteiro. Dá a impressão que já ninguém sabe ler, passam apenas os olhos pelas
palavras e pela pose do artista?
segunda-feira, 25 de março de 2019
JORGE LEÓNIDAS ESCUDERO
A UM GRANDE POETA O DIGO
Hölderlin,
numa carta a tua mãe disseste,
lembras-te?, «o amor tudo alcança». Escreveste isso e
hoje
nega-o, peço-te por favor, Hölderlin,
pois quis com uma palavra deter
a mulher que fugia e não a alcancei.
Por isso me dói ter acreditado
tão absolutamente no que escreveste
e tão seriamente que cheio de esperança
corri atrás do amor como um doido
a babar-se.
Terás mentido?
Seja como for nega-o, Hölderlin,
para que nenhum pobre apaixonado se lance
desgraçadamente para o infinito
e sofra como eu as asas destroçadas.
Jorge Leónidas Escudero (n. San Juan, Argentina, 1920 –
m. 2016), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari,
in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da
colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús
García Sánchez, Visor Libros, 2010,p. 181. Poeta tardio, publicou o primeiro
livro já com 50 anos de vida. Estudou agronomia, dedicando-se posteriormente ao
minério. Dele se cultiva a imagem do garimpeiro que anda de serra em serra à
procura de ouro e de metais preciosos. Com a poesia reunida em mais de 800
páginas, foi merecendo no final da vida várias distinções: Doutor Honoris Causa pela Universidade Nacional de San Juan (2006), Prémio “Rosa de Cobre” da
Biblioteca Nacional (2014). Dele se diz que escreve como fala, fazendo de cada
poema um reflexo da linguagem popular.
PROGRAMA DE FESTAS
E hoje irei à aldeia onde os meus pais nasceram falar do campo e da cidade. Levo Teócrito e Eça, Alberto Caeiro e Miguel Torga, levo o António Pedro, o Ruy Belo, levo-me a mim. Talvez não saiba o leitor que antes de ser freguesia, Arrouquelas fazia parte de São João da Ribeira - a aldeia onde nasceu Ruy Belo. Isto anda tudo ligado.
(...)
A casa sempre o viajante há-de voltar muito apesar da
proibição eterna dos amigos da
laranjeira plantada pela lua
olhar límpido aceso da alegria
colar solar que cerca a minha aldeia
pois os mortos não têm já família
(...)
Ruy Belo, in A Ilha de Artur.
(...)
A casa sempre o viajante há-de voltar muito apesar da
proibição eterna dos amigos da
laranjeira plantada pela lua
olhar límpido aceso da alegria
colar solar que cerca a minha aldeia
pois os mortos não têm já família
(...)
Ruy Belo, in A Ilha de Artur.
domingo, 24 de março de 2019
sexta-feira, 22 de março de 2019
EURICO, O CAVALEIRO NEGRO
Eurico, o Presbítero teria tudo para ser um enorme êxito
hollywoodesco, não fora ter sido escrito por um português no século XIX. Datado
de 1844, o romance surge normalmente englobado no conjunto de obras que conferem
ao autor o estatuto de primeiro grande cultor do romance histórico entre nós. O
próprio Herculano denota escrúpulos na classificação do livro, referindo-se-lhe
como «crónica-poema, lenda ou o que quer que seja». A acção decorre no fim do
século VII, aquando da chegada dos árabes ao Reino Visigótico. O comandante Ṭāriq
ibn Ziyād é uma das personagens históricas evocadas. Do lado cristão, evoca-se
a figura do suevo Teodomiro e coloca-se em acção Pelágio das Astúrias. Mas a
personagem central, um godo de nome Eurico, é pura ficção, apesar de no séc. V
ter existido um Eurico rei dos visigodos.
Duas existências pelejam no interior de Eurico, uma antes
de ter experimentado o amor por uma mulher, outra depois de esse amor se ter
revelado impossível. Hermengarda é o nome da amada, recusada a Eurico devido à
posição humilde por este ocupada. Convertido à religião e à poesia, Eurico, o
presbítero, recolhe-se na pobre paróquia de Carteia durante dez anos de vida,
até que a vista dos árabes a invadirem terras espanholas, e a tomada de
conhecimento de traições em curso no reino visigótico, o levam a vestir novamente
a farda de cavaleiro negro. Presbítero pela mulher amada, Cavaleiro Negro pela
pátria, Eurico transporta a característica essencial a todos os grandes heróis
de ficção: a ambivalência. Metade humano, metade animal, como as lendárias
figuras mitológicas, cavaleiro solitário com o coração dividido entre a melancolia
e a ferocidade.
«Orgulho humano, qual és tu mais — feroz, estúpido ou
ridículo?», pergunta-se a determinada altura como quem encontra subtítulo para
a história de uma vida. Dito isto, os condimentos estão lançados. Temos intriga
política, brutais cenários de guerra, desconfianças e traições, temos
sequências violentas como a de um suicídio em massa de freiras que recusam
terminar como prostitutas nas mãos dos árabes, temos resgates improváveis, perseguições,
temos batalhas sangrentas, temos muito sangue, muita porrada, donzelas
lindíssimas e frágeis, gente que enlouquece por amor, temos desespero e
esperança, guerreiros resistentes como aço, gritos, maldições, martírios. E temos
um amor impossível em cenário de fundo, do qual retiraremos um sacrifício final
em nome da vingança. Pela pátria? Pelo amor impossível? Pela busca da paz
eterna?
A gente lê e é como se estivesse a ver um Braveheart à
portuguesa. Houvesse por cá máquina de cinema, seria isto um sucesso dos
diabos. Ainda mais agora, neste tempo de discussão civilizacional, com o
fantasma do califado a açoitar o Ocidente através de um terrorismo atroz.
Talvez o politicamente correcto trave o ímpeto comercial da coisa, pelo que
cabe perguntar: «Porque a abelha zumbiu aos ouvidos do caçador faminto,
arrojará ele para longe o mel do seu favo e esmagará o insecto?» Lido o livro,
fica-se com a nítida sensação de que daria um belíssimo filme de acção.
Cenários não faltam onde pudéssemos reproduzir as cordilheiras cortadas, os
algares profundos, as gargantas selvosas, os picos agudos por onde os godos
fugiram dos árabes, por onde os árabes assaltaram os godos. Herculano propôs-se
pintar o último semideus a combater na Terra. O último não terá sido, mas não
restem dúvidas de quão bem pintado foi.
quinta-feira, 21 de março de 2019
"Sabeis o que é esse despertar de poeta?"
É ter entrado na existência com um coração que transborda de amor sincero e puro por tudo quanto o rodeia, e ajuntarem-se os homens e lançarem-lhe dentro do seu vaso de inocência lodo, fel e peçonha e, depois, rirem-se dele.
É o ter dado às palavras - virtude, amor pátrio e glória - uma significação profunda e, depois de haver buscado por anos a realidade delas neste mundo, só encontrar aí hipocrisia, egoísmo e infâmia.
É o perceber à custa de amarguras que o existir é padecer, o pensar descrer, o experimentar desenganar-se e a esperança nas cousas da terra uma cruel mentira de nossos desejos, um fumo ténue que ondeia em horizonte aquém do qual está assentada a sepultura.
Este é o acordar do poeta. Depois disso, nos abismos da sua alma só há para mandar aos lábios um sorriso de desprezo em resposta às palavras mentidas dos que o cercam ou uma voz de maldição desabridamente sincera para julgar as acções dos homens.
É então que para ele há unicamente uma vida real - a íntima; unicamente uma linguagem inteligível - a do bramido do mar e do rugido dos ventos; unicamente uma convivência não travada de perfídia - a da solidão.
Alexandre Herculano, in Eurico, O Presbítero, MEL Editores, Junho de 2011 (1.ª edição, 1844), pp. 30-31.
UM PROBLEMA DE FRONTEIRAS
Não há argumento, apenas descrição e remate aberto. Mas sendo público que Rentes de Carvalho votou em Wilders, questionamo-nos sobre
a solução do “encerramento de fronteiras”. Devemos fechá-las também a
norte-americanos, noruegueses e australianos? Como todos os países têm os seus
terroristas domésticos, questiono-me até se não deveríamos encerrar aos
portugueses as fronteiras de Portugal?
quarta-feira, 20 de março de 2019
O RAPAZ QUE PRENDEU O VENTO
The Boy Who Harnessed the Wind (2019) marca a estreia de Chiwetel
Ejiofor na realização. Vimo-lo como actor secundário em Amistad (1997), de
Steven Spielberg, já com outro protagonismo em Dirty Pretty Things/Estranhos de
Passagem (2002), curioso filme de Stephen Frears, no inesquecível papel de
Solomon Nortup, em 12 Years a Slave (2013), do impagável Steve McQueen. A
temática africana mantém-se, aparentemente enquanto viagem ao encontro das
raízes. Chiwetel é filho de nigerianos, descendente da etnia Igbo. The Boy Who
Harnessed the Wind baseia-se nas memórias de William Kamkwamba, famigerado
engenheiro do Malawi que em criança salvou da fome a sua aldeia ao construir um
moinho de vento que alimentava uma bomba de onde provinha água para consumo e
cultivo. Sem perder de vista a questão política, Chiwetel preferiu centrar-se
na relação do jovem Kamkwamba com o pai. As questões familiares oferecem às
personagens uma ideia de conflito geracional que permite elaborar o elogio do
conhecimento, a importância da escola e da informação, contra uma atitude
conservadora de arraigamento às tradições rurais. O poder da inovação
tecnológica enquanto superação de limitações físicas e geográficas, mas também
culturais, é uma das possibilidades de leitura deste filme. A temática política,
ilustrada pelo abandono e pelo oportunismo das forças no poder perante uma
situação calamitosa, parece secundária. O que mais importa é a relação entre
William Kamkwamba, interpretado pelo jovem Maxwell Simba, e o pai Trywell
Kamkwamba, recriado pelo próprio Chiwetel Ejiofor. As personagens ora comunicam
no dialecto local, ora falam num inglês carregado de pronúncia. Nota-se o
esforço de recriação de uma paisagem agreste, marcada pela carência de
recursos, pela pobreza generalizada, por um sistema educativo altamente
deficitário. William é um jovem de origens humildes, impedido de desenvolver o
seu potencial intelectual por ser afastado da escola devido à falta de
pagamento de propinas. Por si só, a história já é tocante. O filme
acrescenta-lhe uma dimensão altamente emocional, a espaços refreada pela
necessidade de denúncia de um sistema que em nada contribuiu para que possa
sair da pobreza quem nela nasceu. As imagens que chegam agora de Moçambique
superam em tudo aquilo que um filme destes possa ilustrar. Sabemos que contra a
fúria da Natureza pouco resta aos homens, mas assistir à destruição, em
larguíssima escala, provocada pela passagem de um ciclone, dá bem conta das
fragilidades de um país onde as populações ficam à mercê do azar. Não é só os
telhados que voaram onde havia telhados, as ruas invadidas pela fúria das
águas, as sensações de desamparo e desabrigo deixadas pelo rastro de
destruição, é também tudo o que se lhe segue, a fome e a doença, esta
condenação ao fracasso impossível de aceitar.
segunda-feira, 18 de março de 2019
UM MINUTO POR MOÇAMBIQUE
Literalmente, nem mais. Qualquer ventania com meia dúzia de estufas danificadas ocupa mais tempo nos telejornais do que a tragédia de Moçambique. Tão estranha, esta distância. Tão difícil de compreender o desinteresse das pessoas por Moçambique, um dos países mais pobres do mundo, um dos países que mais precisa da nossa atenção.
domingo, 17 de março de 2019
PERCALÇO DO AMOR
As mulheres que amam envelhecer são mais numerosas do que se pode julgar. As que vão deixando de lado os sapatos desconfortáveis e os métodos depilatórios; as que, pouco a pouco, se transformam, como árvores desgrenhadas, com pólipos e rugosidades, musgos e crostas, com sinas cemiteriais nas mãos, com unhas duras como cascos e cheias de veias salientes; as que prescindem das faixas, cintas, bandas e alças; as que se tornam vitoriosas por efeito dum gáudio que emascula os homens; as que acabam com a contracepção e suas infames ciladas e se emancipam deveras do espermatozóide, do ventre, do percalço do amor e do sexo; as que, enfim, concebem num canto da memória essa falta menstrual que foi a vida inteira, a falha da paixão dinâmica e gloriosa que não aconteceu nem acontecerá nunca. A velhice é para elas o prazer que encobre a morte, sem pecado, risco e culpa formada.
Agustina Bessa-Luís, in O Mosteiro, Lisboa, Guimarães Editores, 1980, p. 68, citada por Isabel Rio Novo, in O Poço e a Estrada - biografia de Agustina Bessa-Luís, Contraponto, Fevereiro de 2019, p. 457.
sábado, 16 de março de 2019
CONVOCADO PARA PALRAR
Mais informações: aqui.
Adenda:
EC.ON, Lisboa, 16 Março
Acorro ao ciclo poético da EC.ON e assisto, com prazer,
ao Jaime Rocha desenhar o palco que a Nazaré se tornou para ele, no qual nunca
mais deixou de ouvir conversas com mortos, nem de acompanhar figuras de negro a
passearem medos e angústias, sem esquecer a íntima observação do mar
ininterrupto e o cultivo do silêncio. Vi até uma enxada a passar à beira do
café em Benfica e na mão de um semeador de cães e gatos. Ouvi também o
dodecassilábico Henrique Manuel Bento Fialho defender acesamente a contaminação
entre géneros, a descoberta do verso na prosaica planura da prosa, ou da
centelha da ideia em pleno poema. Pensei, por causa disso, que o gesto poético
surge que nem aquelas utilíssimas placas de sinalização espalhadas pelo nosso
interior. Perdidos, acendemos os faróis para ver melhor a indicação que nos
salvará a pele e eis que surge, brilhando, «outras direcções».
João Paulo Cotrim, aqui.
sexta-feira, 15 de março de 2019
UM POEMA DE PAULO DA COSTA DOMINGOS
CAPELA DOS OSSOS
É o labirinto das medidas drásticas
no domicílio, no casulo controverso
de gente capaz de tudo, nem as feras.
Quase julgam-se felizes no atropelo,
e é que o são mesmo, como animais
enlouquecidos na sua vazia esfera.
Alguém lhes pôs água nas cabeças;
antes os houvesse afogado, mas não,
só fazem isso, a frio, à gataria.
¿Existe por estes lados um' agonia
que possa ser tida por boa, útil,
aprazível, salutar e duradoura?
¿Será um problema d' aerodinâmica
onírica?... quando a coisa única
que nos separa, ou liga, é a polícia...
Crânio sobre crânio, tarso sobre
tarso, cóccix sobre cóccix, vieram
os arquitectos compartimentar
o beco sem saída que esta vida é,
tod' os danos que deixámos para trás,
to-da a men-ti-ra piedosa...
Paulo da Costa Domingos, in A Vau, Companhia das Ilhas, Dezembro de 2018, p. 43.
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Os mestres e as criaturas novas
TERRORISTAS
A Wikipédia chama terrorista doméstico a Timothy McVeigh. Já
Anders Breivik é terrorista cristão da extrema-direita. O australiano Brenton
Tarrant ainda não tem a sua página, mas há-de ter. E nela se dirá também que
era de extrema-direita. Estas criaturas existem, assim como aquelas que defendem
a distribuição de armas de fogo pelas populações. A extrema-direita, e não só a
extrema, tem muita gentinha a pensar assim. Com o argumento de que as
populações precisam defender-se, pois claro. Do Brasil de Bolsonaro chegam
notícias sobre um atentado à Escola Estadual Professor Raul Brasi, massacre na
linha do que Michael Moore documentou em Bowling for Columbine (2002).Quando é
que começaremos a chamar terroristas às empresas que lucram com a venda de
armas? E aos políticos que defendem políticas que apenas favorecem os
interesses meramente comerciais dessas empresas? Quando é que toda essa gente
terá uma página na Wikipédia a chamar-lhes o que são: terroristas?
quinta-feira, 14 de março de 2019
ESTÁ NO AR
Mais um Et de plomb et de plume: aqui. É o melhor "programa de rádio" do mundo. E eu a ouvir, enquanto espero pela pizza. Há dias assim.
ÁRVORE EM FLOR
Ainda não fez um ano que enterrámos o corpo debaixo
daquela árvore, calcando bem a terra e sinalizando o lugar com um pedregulho.
Não consigo lembrar-me da árvore, apenas da sombra que fazia. Estava frio, eu
tinha frio. Continha o choro como sempre contenho o choro, uma dor a querer
saltar pela boca, uma dor presa à garganta, o peito a puxar a dor para baixo,
uma dor colada às paredes do peito.
Emociono-me com facilidade, houve um tempo
em que chorei muito. Quase tudo quanto em mim havia para chorar. Com o passar
dos anos, emociono-me mais facilmente. Perdi defesas onde ergui muros. É com
estranheza que constato o facto, parecendo-me até paradoxal que assim possa
ser. Mas não importo nada.
Agora é tempo das árvores em flor, o corpo morto como que
refloresceu na velha árvore. Não sei se alguma vez terá dado fruto, recebe do
céu água e sol, tem acolhido pássaros e aves de criação, domésticas como as
pessoas que entram e saem das casas, como os corpos a seu tempo acolhidos pela
terra.
Fazem-me chegar a imagem da árvore com uma declaração de
amor. Sempre que penso no amor, é curioso, surge-me de imediato no pensamento a
imagem da morte. É assim porque julgo inseparáveis as duas forças, um tender
para fora, um tender para dentro. Amorte será a palavra correcta, como música
que embala a dança das feridas. Penso na morte embaraçado pelo medo da perda,
penso na morte porque amar é querer o bem e querer o bem é desejar vida, até
quando se pede morte. A carta escrita por Gorz é tão bonita. Mas não importa,
nem eu nem a carta importamos.
Agora é tempo de árvores em flor, dos frutos colhidos, do
sumo bebido dos frutos espremidos, é tempo de céus limpos. A visitação da
brisa, como certa vez escrevi num poema que pretendia dizer: se algum dia
morrermos, tenha quem nos ama a lembrança de deixar para sempre os restos
debaixo de uma árvore. Nada de corpos, apenas cinza.
Como uma brisa a visitar
a terra.
Detenho-me na árvore
pouso os olhos nos ramos,
os meus olhos são pássaros
que cantam cada uma daquelas folhas,
diria que as folhas são as notas musicais
deste canto que sai das retinas em flor,
não sei onde chegará a voz do pássaro,
não quero que chegue a lado nenhum,
queria apenas que pudesse ser
escutada debaixo da terra,
se o canto dos pássaros
pudesse ser escutado
debaixo da terra,
em nossos olhos a sombra
alumiaria as formas
e tudo surgiria nítido
como num dia limpo.
quarta-feira, 13 de março de 2019
UM POEMA DE JOÃO RIOS
deram-me
vinte séculos
de heróis
e um nome
mas não encontro
oceano bastante
com que salgar o embuste
desse inebriante património
João Rios, in Os Heróis Transformados em Floreiras, Douda Correria, Março de 2017, s/p.
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terça-feira, 12 de março de 2019
CLASSICO
Desde o livro de estreia, "Rua 31 de Janeiro
(Algumas Vozes)" (&etc, Dezembro de 1998), que se coloca na poesia de José
Ricardo Nunes (n. 1964) o problema da relação do sujeito com a realidade,
aprofundado no livro intitulado “Apócrifo” (Deriva, Outubro de 2007) e
extremado no volume “Compositores do Período Barroco” (Deriva, Junho de 2013). A
este problema corresponde uma dúvida acerca das possibilidades da própria
poesia enquanto gesto revelador. O poema é composto por palavras, estas são uma
representação do real e, enquanto tal, oferecem-nos apenas simulacros da
realidade. Esta noção é sobretudo relevante se tivermos em conta a hipótese da
poesia enquanto busca da verdade, elemento esquivo, ainda que desafiante, nos
poemas de José Ricardo Nunes. O livro “Andar a Par” (Tinta-da-China, Maio de
2015) tornou ainda mais complexa esta questão, na medida em que nesses poemas
tudo parecia desenvolver-se a partir de um terreno confessional.
Não por acaso, no poema 11. do mais recente “Classico”
(Companhia das Ilhas, Janeiro de 2019) os versos iniciais jogam com a ideia de
confissão desconstruindo-a: «Confesso: era eu / quem fugia e também eu / quem
consumava a ligação directa / enquanto ela segurava o volante / em vez de ter
eu, eu / ainda, o livro nas mãos» (p. 21). Na senda de Rimbaud o Eu destes
versos é um Outro, ou como diria um dos nossos maiores modernistas «Eu não sou
eu nem sou o outro, / Sou qualquer coisa de intermédio». Este “intermédio” resume a natureza do sujeito
poético, mesmo quando o discurso parece adoptar um tom confessional.
Recordemos, aliás, que um dos livros de José Ricardo Nunes se intitula
precisamente “Confissões” (Companhia das Ilhas, Dezembro de 2013). A confissão
é uma violência exercida sobre o sujeito, a qual no limite pode levar a processos de despersonalização. Disto resulta uma poesia em que o eu se
manifesta sempre por interposta pessoa, tal como sucedia nas vozes de "Rua 31 de
Janeiro" e se declara, mais uma vez, no poema 11. já aqui citado: «Tinha as suas
vantagens, a vida / por interposta pessoa, não há / como negar, tinha, como
gosto de afirmar, / as suas compensações» (p. 21).
"Classico", assim mesmo, sem acento, reúne 24 poemas
escritos entre 2015 e 2018. O autor faz questão de o sublinhar, levando-nos a
crer numa preocupação com a organização que tende a associar o poema a um
período existencial específico. Estes poemas, tal como os do livro anterior,
surgem marcados pelo ferro do tempo vivido, são “consequência do lugar” e da
experiência. Neles encontramos referências concretas a espaços físicos (Casa
Antero, Hotel Classico, Igreja de Nossa Senhora do Pópulo… ) e a pessoas com
nome próprio (Miguel, Jales, Manuel, Margarida, Henrique, Pedro…), como que
oferecendo uma clareza de exposição na qual acabamos por subentender
momentos de reflexão intimistas, obscuros, melancólicos. O dentro (interior, intimidade)
é escuro, não se deixa revelar facilmente. A vida tende para um vazio, para o
desperdício, e é sempre enigma irresolúvel.
Percebemos que na divisão dos poemas em três conjuntos
existem diferentes ordens temáticas, correspondendo o primeiro conjunto ao
quotidiano, o segundo à memória, sobretudo às memórias da infância, com
evocações de familiares, e o terceiro a um presente alumiado pela paixão e pelo
amor enquanto esforços de superação da «rotina da vida». A epígrafe pedida de empréstimo
a Pasolini clarifica a relevância nestes poemas do amor enquanto modo de
conhecer. Classico, o Hotel de Bremen, surge como microcosmo
pautado pela passagem e pela fugacidade. Tal como o Hotel, a vida é lugar de
passagem. Um não-lugar, para usar a famosa expressão de Marc Augé. Mas o Classico
confunde-se no poema com o Eu, o próprio Eu surge como lugar de passagem onde
as pessoas vão entrando, pernoitando, saindo, o Eu é essa entidade
fenomenológica aberta ao mundo através da qual o Outro nos ocupa: «Imagina que
não és tu, / que em vez de seres tu / o hóspede é o quarto do hotel / que te
ocupa» (p. 9). Desta relação que impele o ser para o vazio (entre o início e o
termo do primeiro poema do livro podemos ler qualquer coisa como “Imagina (…) o
vazio”) concluímos o amor como espécie de solução, como única forma de
superação.
No poema 4, que pode ser lido sob a forma de arte poética, os versos
parecem querer sublinhar precisamente as coordenadas a partir das quais o poema se desenvolve: «Nada acerca da poesia, tudo / sobre o
maldito emprego, / (…) tudo sobre a loucura e a ausência / e a ausência de
saudades, / tudo sobre o amor, / a vida, o desgarrado mundo, / a vida perdida,
a vida ainda» (p. 12). É à vida que os poemas de José Ricardo
Nunes se vêm agarrando desde “Andar a Par”, não perdendo de vista
a problematização do ser, mas pretendendo alargar o campo de representação ontológico
às forças concretas da experiência, aos lugares, às pessoas, ao que surde da
relação entre as pessoas no contexto de certos lugares, não apenas à linguagem,
não apenas a uma ideia de linguagem: «Tivesse outra idade, fosse / a
tempo de escolher outra profissão / e seria arrombador, / armaria bombas em
caixas-fortes, // amaria muito mais» (pp. 40-41).
domingo, 10 de março de 2019
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #12
Se é importante saber de onde vimos, não menos será que
fiquemos atentos ao modo como os outros nos vêem. Certo que jamais teremos
acesso ao que pensam sobre nós, mal seria se tivéssemos. Imaginai o inferno se outros
acedessem ao que acerca deles pensamos. É saudável e até agradável esta
distância que nos separa do outro, este exílio que obriga à reflexão e à
desconfiança. Mas não menos agradável é assistir a quem fale de nós abertamente, desbravando
terreno à imaginação como ao espelho se abre um rosto. Quando digo nós, minhas
filhas, não me refiro ao indivíduo, que esse será sempre mistério inconfessável
para si mesmo, mas antes ao que no individuo há de influência exercida pelo
colectivo. Refiro-me à cultura, à sociedade, ao ambiente social que nos deforma
e conforma ou que simplesmente nos informa, permitindo-nos que cresçamos em
reacção e conflito ou em acomodação e renúncia.
Miguel de Unamuno (1864-1936) foi um ilustre espanhol que
ousou pensar-nos em voz alta, dedicando-nos o opúsculo com o título Os
Portugueses, Um Povo Suicida. Originalmente escrito em 1908, podeis conhecê-lo
na edição da Ática datada de Abril de 2011. Não é difícil encontrar sensatez no
diagnóstico: «Portugal é um povo triste — e é-o mesmo quando sorri» (p.
7). Classificar-nos de povo suicida não nos socorre na manifesta propensão genética
que temos para a desgraça, mas livra-nos do fardo que leva a concluir a
inutilidade da vida. Com tão cruel evidência não se conformam os fadistas,
encalhados entre o oceano e sucessivas invasões. A solução para os portugueses está
em fugirem de si próprios como o diabo da cruz. Daí que se detestem, daí que se
ocupem tanto zurzindo contra si mesmos, daí que se mostrem tão afáveis e
complacentes para com aquilo que vem de fora e implacáveis para com aquilo
gerado dentro.
Li algures, minhas filhas, um retrato cómico da sociedade
portuguesa: espécie de bolha onde todos dizem mal uns dos outros sem
terem a noção de que os outros são essa massa indefinível entre os quais também
nós nos encontramos. Sendo que cada um de nós é sempre um outro, não resta nada
de bom entre os portugueses. No entanto, a desgraça tem sido nossa força.
Sabemos rir da aspereza com que nos crucificamos. Talvez aí germine o gene desta
lúgubre inclinação para o suicídio, não necessariamente físico, mas também
moral, espécie de “genocídio” focalizado no ânimo com que poderíamos encarar a
inutilidade das nossas existências. A aceitação desta inutilidade afigura-se elementar,
na medida em que se impõe como a única atitude verdadeiramente útil à fatal
condição elegíaca.
Há neste povo «mais apaixonado do que sentimental» de que
falava Unamuno uma matemática inquestionável: «os sonetos são um grande
purgante das paixões excessivas, pois sabe-se de sonetistas que morreram de fome
mas de nenhum que tenha morrido de amor» (pp. 8-9). Podeis imaginar quanto
disto vale num país que se diz de poetas! O resto é História e alternância
democrática, aquele masoquismo de passarmos o tempo a vituperar quem elegemos reiteradamente,
a indolência com que tratamos tudo quanto nos indigna, um deixar andar na
esperança de melhores dias que virão, porventura, como virá o tal que se perdeu
nas áfricas, embrulhado em bruma invisível. Sabemos rir, excepto de nós
próprios. Por isso nos suicidamos.
Como pode não ser suicida um povo assim? Os suicídios de
Antero, Soares dos Reis, Camilo, Mouzinho de Albuquerque, Trindade Coelho,
enumerados por Unamuno, são resíduos numa sociedade toda ela suicidária, mero
exemplo lacónico, previsível, sucinto. A orgânica não poderá ser outra enquanto
persistirmos na saudade, no lamento, nesse pó cavernoso que a todos inspira
versos tristonhos e esmorecidas elegias. Sobre toda essa tralha, um lençol de
gargalhadas estridentes e a consciência interna da maior das forças vitais:
nada há de mais útil nesta vida efémera que a inutilidade decretada às coisas
que dão prazer e fazem rir. O resto subentende-se no opúsculo: «Não falta mesmo por aí
quem diga que isto não é já um povo, mas sim — o cadáver dum povo» (p. 13).
Portanto, ride, ride de vós próprias e do espanhol que nos define, ride do
mundo e da vida, ride com alegria e paixão, pois só rindo de tudo e com todos
os dentes à mostra podeis um dia dizer ter estado próximas da felicidade. Isto é, da alegria de viver.
sábado, 9 de março de 2019
HYALINOBATRACHIUM YAKU
Foi descoberta uma nova espécie, a rã transparente
— nela observamo-nos tal como somos —
um sistema de órgãos funcionais,
tubagens e ligamentos
se a perfurarmos veremos nitidamente
como sofre cada pedaço do corpo,
o que nos faz retroceder
e desejar deixá-lo intacto,
museu escancarado de frangibilidades orgânicas
de onde ao mesmo tempo a ideia de corpo está excluída,
remetida às representações humanas
em que a dor se revolteia sob capas e peles,
e o sangue fulge só entre brechas
perfurar este batráquio revelaria uma simples destruição,
a quebra das acoplagens,
o fim da palpitação cronometrada
ainda que a transparência,
ao ser rasgada,
nos arrojasse de frente o halo da vida desprotegida
Catarina Costa (n. 1985), in Essas Alegrias Violentas
(Companhia das Ilhas, Março de 2019). Desde Marcas de Urze (Cosmorama, 2008)
que vem publicando com regularidade em editoras de distribuição restrita, o que
explicaria alguma desatenção da crítica especializada não obedecesse esta a uma
selectividade que pouco ou nada tem que ver com o âmbito de distribuição das
editoras em causa. Na sua poesia vislumbramos jogos de contrastes entre luz e
sombra, entre tempos e espaços diversos, ora oníricos, ora materiais, entre os
domínios da loucura e da normalidade, da saúde e da doença. Destes contrastes retiramos
a ideia de uma inclinação para o anómalo, por vezes detectado na alusão a
disformidades corpóreas, na sugestão de um pathos determinado por imagens
violentas, desfocadas e desfiguradas como sejam as que dão corpo à memória. O
poema é ponto de encontro entre uma primeira e uma segunda pessoas, por vezes
desdobradas numa terceira que abre os campos da intimidade e da
confidencialidade, ainda que nunca de um modo absolutamente claro ou óbvio:
«violo o laço da ínfima voz entre nós / perante um terceiro / na tentativa de
obter uma resposta externa / aos fragmentos de adivinhas que me deste e não
resolvi» (E. A. V., p. 34). Não violentando a leitura com exasperações e fúrias,
Catarina Costa deixa subentendida nos seus versos uma violência à qual
corresponde um processo de atrofia do ser. A solidão, o isolamento, o exílio, o
afastamento, o desamparo, surdem de uma ideia de desejo não consumado, latente,
que é o que realmente violenta o sujeito na sua intimidade.
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