sábado, 30 de março de 2019

DIALOGAR

A este poema respondeu a Marina Tadeu com este outro.

PERDOA-ME



   Sempre foi isto, é isto, pelo que, segundo as boas regras da dedução, devemos concluir que não sairemos disto. O conservadorismo nacional é uma praga, um vírus que ataca todos, independentemente de classes, partidos, inclinações políticas, é um vírus que se mistura com o corporativismo, com a tadinhice, com o nepotismo, com o caciquismo, e nos afunda irremediavelmente no pântano oligárquico do “veja lá menino, cuidadinho, porte-se bem,não fira susceptibilidades”. 
   Esta igreja dos bons comportamentos, involuntariamente cúmplice d' energúmenos que promovem a miséria nacional, é o maior dos males num país que de há muito é exclusivamente educado para o: perdão. Cretinos, crápulas, criminosos, filhos da puta, podem ir praticando as suas artes, o perdão coloca-os a salvo de punições. Se actuarem no alto do poleiro, ainda mais. A necessidade deve-lhes perdão. 
   Resultado: penas ligeiras, esvoaçantes, recursos, adiamentos, reduções, uma justiça falida da qual todos se queixam contra a qual nada fazendo. Bestas e broncos, autênticos burgessos nos cargos de decisão, aqueles aos quais se chega por nomeação ou compadrio. As figurinhas tristes nas sucessivas sessões de inquéritos parlamentar aí estão para retratar o país da impunidade. 
   Competência? 
   Mérito? 
   O melhor é arranjarem quanto antes um cartão do partido e dedicarem-se à arte de lamber botas, caladinhos o mais possível para que ninguém seja incomodado. A todos reservamos o nosso perdão.

sexta-feira, 29 de março de 2019

UM POEMA DE JOAQUÍN O. GIANNUZZI



POÉTICA

A poesia não nasce.
Está aí, ao alcance
de qualquer boca
para ser dobrada, repetida, citada
total e textualmente.
Ao acordar esta manhã, você
viu coisas, aqui e acolá,
objectos, por exemplo.
Digamos que viu uma lâmpada
sobre a sua mesa-de-cabeceira,
um rádio portátil, uma caneca azul.
Viu cada coisa isolada
e viu o conjunto.
Tudo isso já tinha nome.
Assim o teria escrito.
Precisava de outra linguagem,
de outra mão, de outro par de olhos, de outra flauta?
Nada acrescente. Não deturpe.
Não mude
a música de lugar.
Poesia
é o que se está a ver.

Joaquín O. Giannuzzi, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 195.

AGNÉS VARDA (1928-2019)


Autora de um  documentário que é um dos filmes da minha vida, revisto vezes sem conta em sala de aula quando era professor: Les glaneurs et la glaneuse/Os Respigadores e a Respigadora (2000).

ZEITNOT


Oriundo da Bulgária, o escritor Dimíter Ánguelov (n. 1945) há muito que assentou arraiais entre nós. Paulo Franchetti, numa apresentação do autor cuja leitura se recomenda (aqui), informa-nos da dedicação ao jornalismo e ao ensino universitário, tendo sido Ánguelov um destacado divulgador e tradutor de autores portugueses tais como Mendes Pinto, Eça, Camilo, Nemésio e Herberto. Já radicado em Portugal, publicou na &etc os livros “Código evidente” (1989) e “Nihil obstat” (1995). Referindo-se a estes livros, Franchetti apresenta o seu autor como “desconstrutor”: «ou, o que dá no mesmo, um construtor de não-objectos, de situações ou objectos impossíveis». Com colaboração literária e crítica dispersa por vários órgãos de comunicação social portugueses (Expresso, Diário de Lisboa) e revistas de referência (LER, Colóquio Letras), Dimíter Ánguelov distingue-se, antes de mais, pela prática do aforismo. Zeitnot (Debout Sur l’Oeuf, Janeiro de 2019) é o seu segundo livro para a DSO, seguindo-se ao volume In Vano Veritas (Debout Sur l’Oeuf, Janeiro de 2014). Entre os cinco anos que separam as duas publicações, Ánguelov publicou ainda “No meio do Silêncio” (Artelogy, 2016) e, num registo mais ficcional, “A Rapariga de Jam” (Artelogy, 2016) e “Criação Curel” (Artelogy, 2017).
   Parente pobre da filosofia, o aforismo é uma arte da síntese. Podemos entendê-lo enquanto conclusão de um raciocínio cujas premissas apenas se subentendem. É verdade que a tendência para chamar aforismo a todo e qualquer texto curto que não encaixe nas convenções literárias faz com que este tipo de produção se associe mais facilmente ao discurso filosófico, embora muitas vezes não seja exacto que o próprio discurso filosófico não resulte enriquecido do exemplo ficcional e da riqueza metafórica que alimenta o poético. “Zeitnot”, expressão germânica relacionada com a cronometragem num jogo de xadrez, pode ser por si mesma uma metáfora da vida. Em causa está o tempo disponível, o que resta de tempo àquele que vive para dizer tudo quanto pensa, para fazer tudo quanto diz, para pensar tudo quanto faz. A pressão do tempo opera no sujeito um desejo de síntese, força a abreviação do discurso, leva a uma economia verbal que nada tem que ver com precipitação do pensamento, antes se impondo como gestão do silêncio, pura música.
   O último aforismo desta colectânea dá bem conta de como o poético se intromete neste processo: «A vida? Uma onda que se defende do mar» (p. 36). Podemos imaginar um antes e até um depois para esta definição, a sua brevidade não exclui diversas possibilidades reflexivas. A pergunta está feita e é simples, genérica, comum, a resposta nem por isso, mas deixa no ar um apelo à reflexão que é a maior dádiva desse falar por parábolas que remonta aos próprios textos bíblicos. Isto não faz do autor, obviamente, um messias da palavra universal. De resto, ele é suficientemente heterodoxo para não se deixar cair na armadilha dos profetas: «A fé salvou muita gente. De outra fé» (p. 13). O pragmatismo sobrepõe-se à metafísica, assumindo a ironia como força motriz do pensamento. Por vezes a ironia descamba para um humorismo mais ligeiro: «Constatei várias vezes que as piores coisas acontecem-me sempre entre Janeiro e Dezembro. Por uma razão muito simples falta de margem de erro» (p. 31). Noutras ocasiões, o humor faz-se valer de subtilezas sintáticas e gramaticais, de trocadilhos ortográficos, de paradoxos clássicos: «É saudável que a nossa vida piore cada vez mais antes de nos despedirmos dela» (p. 18). Os epigramas literário, político e social induzem a veia satírica. E alguns micro diálogos encenam situações dramáticas. Há ainda dois aforismos curiosos, os quais se debruçam sobre a própria natureza do aforismo: «Um bom aforismo faz-nos esquecer de todos os romances» (p. 10); «Um aforismo explicado torna-se imediatamente uma banalidade» (p. 11).
   Autor discreto, reservado, de certo modo recolhido numa espécie de sombra onde não chegam as luzes da ribalta, Dimíter Ánguelov tem vindo a produzir no nosso país uma obra sem par neste tempo onde a verbosidade (que é uma forma de obesidade verbal), ainda que vazia de qualquer pensamento, vale mais do que a ginástica desse mesmo pensamento. A dieta que nos oferece em nada aligeira o que possamos pensar, antes nos desafia com o essencial, antes nos propõe exercitar a inteligência com graciosidade e refinado sentido de humor. Zeitnot está disponível para encomenda aqui. Sugiro-a sem qualquer tipo de escrúpulos.

quinta-feira, 28 de março de 2019

NEPOTISMO

A palavra nepotismo aparece algumas vezes neste weblog. Por exemplo, quando falámos das The K&D Sessions: «Entrei para a universidade em 1992, terminei o curso de Filosofia em 1997. Em teoria, esperava-me um futuro de docência quando ser-se professor era ainda coisa respeitável. Rapidamente nos apercebemos da sombra de ilusão arrastada por uma ideia de futuro, não havia ligações directas entre formação académica e exercício profissional. Havia nepotismo oligárquico, havia cunha, havia catequese, em contraste com a parangona da política de mérito à qual se submetiam mentes ingénuas e anódinas». Ou quando há dois anos falámos de virtudes, a propósito de Abril: «Continuamos a patinar num tecido social acrítico e empobrecido pela sua própria incúria. Os militares não podiam dar-nos pessoas interessadas, exigentes, desde logo consigo próprias, moralmente aceitáveis. Da pequena cunha que suporta as oligarquias ao favorzinho simpático, o sistema transporta dentro de si mesmo o vírus da corrupção e do nepotismo. Só há uma forma de o superar, é com as vacinas da educação e da cultura. Eu, pelo menos, não sei de outra». Também quando em 2014 assistíamos com distância à luta entre antónios: «Já não bastava o nepotismo nesta sociedade oligárquica e corrupta em que vivemos, temos que aturar agora, ainda por cima em directo e com direito a diferidos sucessivos, o triste espectáculo da mediocridade». Quando andámos entretidos com Relvas: «Chamem-lhe cunha, clientelismo, nepotismo, o que preferirem. É a sem vergonha de um povo inteiro que se deixa governar por vigaristas, copia-lhes os actos à medida das suas possibilidades, e deixa-se enredar na alegria das dúvidas existenciais que os teóricos lançam para a mesa: seremos a Grécia?  Tudo muito protegido pela legalidade das actuações. Não somos a Grécia, somos bem pior». E ainda quando em 2012 não comemorámos a democracia portuguesa: «A democracia portuguesa não pôs fim a um Estado centralizado, corrupto e desavergonhadamente ladrão, que alimenta, «à custa do erário público, os influentes, os caciques e o seu interminável cortejo de amigos, protegidos, parentes e parasitas» (VPV). O nepotismo não foi ultrapassado, os amigos de seus amigos continuam, à custa do trabalho das massas, a distribuir cargos e benefícios sem qualquer tipo de vergonha». A palavra nepotismo aparece mais vezes neste weblog. Mas para quê voltar ao tema? É mais do mesmo, esta coisa do lugar para o amigo, para o filho, para o primo, para o amigo do filho, para a mulher, para a amante... O PS sempre foi uma máquina disto, sei-o bem. Até de fonte segura. Portanto, esperavam o quê? Continuem a votar nisto, deve fazer muito sentido votar nisto, nesta maravilha de "somos todos brothers". Alguns enteados, vá lá. Faz sempre falta alguém que limpe a retrete. 

MEMÓRIA

Portugal deve ser um dos países do mundo com mais governantes e ex-governantes a padecerem de Alzheimer. Não têm memória de nada, esquecem-se de tudo. Não se lembram, não se recordam, esquecem-se depressa. Talvez fosse importante sujeitar toda esta gente a exames rigorosos antes de chegarem aos cargos que, muito provavelmente, nem se recordam de ocupar ou de terem ocupado. 

quarta-feira, 27 de março de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #13


   Evitai o desespero. Se vos falo de coisas lúgubres, é porque a vida também se aprende a doer. Nem tudo são açúcares. Talvez não tenha ficado clara a inspiração de Unamuno no malogrado Manuel Laranjeira (1877-1912), poeta português que não cabe nas antologias. Deste poderia sugerir-vos alguns versos, ficções, peças. Mas há um ensaio em particular que merece bom acolhimento nas nossas estantes. Chama-se Pessimismo Nacional e, se bem sei, foi surgindo num jornal entre 1907 e 1908. Tenho a edição da frenesi, de Março de 2009. É vossa.
   O autor suicidou-se em 1912, inspirando desse modo o espanhol de Bilbau. Médico, republicano fervoroso, tentou arranjar estômago que aguentasse a república do seu tempo, pântano de esfomeados, sapal de analfabetos, servos das quadrilhas de privilegiados que no poder ou junto dele tratavam o povo como hoje parece mal tratar os cães. Com as devidas distâncias, podemos sempre sublinhar o mal que perdura na raiz: 

«(...) numa sociedade, onde o pensamento representa um capital negativo, um fardo embaraçoso para jornadear pelo caminho da vida; num povo, onde essa minoria intelectual, que constitui o orgulho de cada nação, se vê condenada a cruzar os braços com inércia desdenhosa, ou a deixá-los cair desoladamente, sob pena de ser esterilmente derrotada; num país, onde a inteligência é um capital inútil e onde o único capital deveras produtivo é a falta de vergonha e a falta de escrúpulos o diagnóstico impõe-se de per si».

   Contra isto, um Presidente da República ocupado a papaguear que somos os melhores em tudo, distribuindo abraços e beijinhos por desgraçados e miseráveis, é apenas merecida caricatura. Se tendes dúvidas, ide à pastelaria e folheai o jornal do dia. Ou sintonizai a televisão em qualquer canal a vosso arbítrio, que logo ides deparar-vos com o esterco onde o pessimismo frutifica.
   Impõem as boas práticas que ao pessimismo da razão receitemos o optimismo da vontade, não vá o coração ceder à tentação fatalista que ceifou este Laranjeira e tantos outros como ele. Sirvam antes as suas palavras de pré-aviso: «Vestimos à moderna, pretendemos viver à moderna, e pensamos e sentimos à antiga». Dando graças a Deus. Eis o melhor de um diagnóstico onde aos males e vícios não se aplicam virtudes nem remédios:

«O mal da sociedade portuguesa é apenas este: a desagregação da personalidade colectiva, o sentimento de interesse nacional abafado na confusão caótica dos sentimentos de interesse individual».

   Portanto, o mal está na ganância, na avidez, na sovinice, e nesta filha da puta de mania de pensar que a vida é eterna, subjugando assim o dia-a-dia a uma ideia de conforto e luxo que apenas hipoteca o futuro e nos desapaixona do presente. O mal está no individualismo cego, doença que tendemos a tratar com esmolas e campanhas de solidariedade. O mal está em sermos diariamente explorados, enganados, traídos, e vivermos bem com isso, como se fosse natural sermos explorados, enganados, traídos. Se calhar é.
   Ficai atentas, preveni-vos, minhas filhas, de todo e qualquer messias, onde há um homem haverá sempre a imponderável manifestação do desespero. E o tempo passa num instante. Ficai de atalaia e desconfiai, desde logo das seitas, das quadrilhas, dessas religiões erguidas por profetas movidos apenas pela hipocrisia, sejam elas da fé ou da economia. Vai dar ao mesmo.
   Por acaso nascestes portuguesas. Já alguém disse que por isso partis em desvantagem, mas que não seja uma fatalidade o lugar. Se a ignorância encolhe o território, estudai, aprendei, escutai, perscrutai na Natureza as cores, os sons, os cheiros que tornam válida a vida. Ides certamente encontrar recanto onde a inteligência possa ser apreciada, nem que seja onde eu encontrei o meu: em vós.

terça-feira, 26 de março de 2019

[Ainda se lembrava dos seus tempos de rapaz.]


Ainda se lembrava dos seus tempos de rapaz.
Quando era tudo de perfil. Nem podia ser
de outro modo: de perfil e em diorite
como nos retratos do Império Antigo. Muitos

iriam acolher depois os ritos do primitivo
estigma. Nos parques, na penumbra dos relvados,
ficou dessa queimadura uma legenda. Alguns
resistem. Paralisa-os a vertigem de uma estreita

afeição. No limite do conhecimento, a tremer
de alegria, encontram aquilo que
tinha sido esquecido. A cabeça entre as pernas
nem sempre se distingue de um sussurro

de lâminas. A música de tal desígnio percute
nas sílabas todas do inominado canto. Às vezes
por um punhado de lágrimas, equívoco maior.
É claro que a iniquidade continua impune.


Eduardo Pitta (n. 1949), in Arbítrio (1991), copiado de Desobediência.Poemas Escolhidos (2011). De Poesia Escolhida (Círculo de Leitores, Julho de 2004) para Desobediência. Poemas Escolhidos (Dom Quixote, Fevereiro de 2011) são várias as cisões, alguns poemas desaparecem por completo, de outros resta uma curta percentagem de versos, há deles que foram ligeiramente mudados, observam-se alterações ao nível da pontuação, num processo rigoroso de revisão e depuração que acompanha de há muito o labor poético de Eduardo Pitta. Mas a segunda recolha também acrescenta dois poemas em prosa a uma poesia fixada entre 1971 e 1996, podendo estes parecer estranhos no contexto de uma poesia que se distingue pela forte contenção narrativa. Ainda que no livro de estreia, intitulado Sílaba a Sílaba (1974), ressoem vivências moçambicanas, elas surgem invariavelmente tolhidas por um fulgor imagético regulado pela elipse e por uma economia vocabular que coloca no tabuleiro da leitura as regras do enigma. Por entre as sombras de uma história marcada pelo exílio, pelo sentimento apátrida, pela ausência, por «muros de silêncio», pela distância, vislumbramos o desejo como motor de uma escrita que pretende preservar um amor desobediente, um «amar desordenadamente». Escrita do corpo, intensa nos domínios do erótico, suficientemente clara para que a julguemos erigida contra a hipocrisia reinante, esta poesia exprime as feridas de uma história pessoal sem dessangrar a intimidade. 

ANDAMOS NISTO

Cristina Fernandes, no weblog Bicho Ruim, escreve sobre Cristina Bartleby (nunca li): O caso fraudulento de Cristina Bartleby (parte 1), O caso fraudulento de Cristina Bartleby (parte 2). Cito:


Apercebi-me do caso da Cristina Bartleby (na verdade chama-se Cristina Freitas Branco, embora também já tenha assinado com o nome intermédio Luísa Freitas ou até com as iniciais clrfb) em 2014. Na altura investiguei um pouco e verifiquei que os textos que ela publicava  — por todo o lado e em grande quantidade — era corta e cola quase automático, sem itálicos, sem referências, sem links, sem nada. A Cristina Bartleby não trabalha sobre citações, não se dá à canseira de estabelecer variações ou montagens (nem tem estaleca para tal), apropria-se de modo atabalhoado e indevido de frases. Como um glutão, engole o que os outros escrevem, mistura e depois regurgita fiapos disto e daquilo sem qualquer coesão interna nem deriva total — é mesmo só um vómito.
(...)

CB assentou arraiais no condomínio maravilhoso do facebook, imagino que tenha ganho fama e corte e, num salto arrojado de consagração (e desvario?), saltou para o papel e para o espaço público.

Aqui convém fazer uma pausa para lamentar que o sentido crítico do que se escreve e publica, principalmente em forma de poesia, está a nível abaixo de rasteiro. Dá a impressão que já ninguém sabe ler, passam apenas os olhos pelas palavras e pela pose do artista?

segunda-feira, 25 de março de 2019

JORGE LEÓNIDAS ESCUDERO



A UM GRANDE POETA O DIGO

Hölderlin,
numa carta a tua mãe disseste,
lembras-te?, «o amor tudo alcança». Escreveste isso e hoje
nega-o, peço-te por favor, Hölderlin,
pois quis com uma palavra deter
a mulher que fugia e não a alcancei.

Por isso me dói ter acreditado
tão absolutamente no que escreveste
e tão seriamente que cheio de esperança
corri atrás do amor como um doido
a babar-se.

Terás mentido?
Seja como for nega-o, Hölderlin,
para que nenhum pobre apaixonado se lance
desgraçadamente para o infinito
e sofra como eu as asas destroçadas.

Jorge Leónidas Escudero (n. San Juan, Argentina, 1920 – m. 2016), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,p. 181. Poeta tardio, publicou o primeiro livro já com 50 anos de vida. Estudou agronomia, dedicando-se posteriormente ao minério. Dele se cultiva a imagem do garimpeiro que anda de serra em serra à procura de ouro e de metais preciosos. Com a poesia reunida em mais de 800 páginas, foi merecendo no final da vida várias distinções: Doutor Honoris Causa pela Universidade Nacional de San Juan (2006), Prémio “Rosa de Cobre” da Biblioteca Nacional (2014). Dele se diz que escreve como fala, fazendo de cada poema um reflexo da linguagem popular.

PROGRAMA DE FESTAS


E hoje irei à aldeia onde os meus pais nasceram falar do campo e da cidade. Levo Teócrito e Eça, Alberto Caeiro e Miguel Torga, levo o António Pedro, o Ruy Belo, levo-me a mim. Talvez não saiba o leitor que antes de ser freguesia, Arrouquelas fazia parte de São João da Ribeira - a aldeia onde nasceu Ruy Belo. Isto anda tudo ligado.

(...)
A casa sempre o viajante há-de voltar muito apesar da
proibição eterna dos amigos da
laranjeira plantada pela lua
olhar límpido aceso da alegria
colar solar que cerca a minha aldeia
pois os mortos não têm já família
(...)

Ruy Belo, in A Ilha de Artur.

domingo, 24 de março de 2019

sexta-feira, 22 de março de 2019

SE ALGUM DIA VOLTARMOS À NAZARÉ


EURICO, O CAVALEIRO NEGRO


Eurico, o Presbítero teria tudo para ser um enorme êxito hollywoodesco, não fora ter sido escrito por um português no século XIX. Datado de 1844, o romance surge normalmente englobado no conjunto de obras que conferem ao autor o estatuto de primeiro grande cultor do romance histórico entre nós. O próprio Herculano denota escrúpulos na classificação do livro, referindo-se-lhe como «crónica-poema, lenda ou o que quer que seja». A acção decorre no fim do século VII, aquando da chegada dos árabes ao Reino Visigótico. O comandante Ṭāriq ibn Ziyād é uma das personagens históricas evocadas. Do lado cristão, evoca-se a figura do suevo Teodomiro e coloca-se em acção Pelágio das Astúrias. Mas a personagem central, um godo de nome Eurico, é pura ficção, apesar de no séc. V ter existido um Eurico rei dos visigodos.
   Duas existências pelejam no interior de Eurico, uma antes de ter experimentado o amor por uma mulher, outra depois de esse amor se ter revelado impossível. Hermengarda é o nome da amada, recusada a Eurico devido à posição humilde por este ocupada. Convertido à religião e à poesia, Eurico, o presbítero, recolhe-se na pobre paróquia de Carteia durante dez anos de vida, até que a vista dos árabes a invadirem terras espanholas, e a tomada de conhecimento de traições em curso no reino visigótico, o levam a vestir novamente a farda de cavaleiro negro. Presbítero pela mulher amada, Cavaleiro Negro pela pátria, Eurico transporta a característica essencial a todos os grandes heróis de ficção: a ambivalência. Metade humano, metade animal, como as lendárias figuras mitológicas, cavaleiro solitário com o coração dividido entre a melancolia e a ferocidade.
   «Orgulho humano, qual és tu mais feroz, estúpido ou ridículo?», pergunta-se a determinada altura como quem encontra subtítulo para a história de uma vida. Dito isto, os condimentos estão lançados. Temos intriga política, brutais cenários de guerra, desconfianças e traições, temos sequências violentas como a de um suicídio em massa de freiras que recusam terminar como prostitutas nas mãos dos árabes, temos resgates improváveis, perseguições, temos batalhas sangrentas, temos muito sangue, muita porrada, donzelas lindíssimas e frágeis, gente que enlouquece por amor, temos desespero e esperança, guerreiros resistentes como aço, gritos, maldições, martírios. E temos um amor impossível em cenário de fundo, do qual retiraremos um sacrifício final em nome da vingança. Pela pátria? Pelo amor impossível? Pela busca da paz eterna?
   A gente lê e é como se estivesse a ver um Braveheart à portuguesa. Houvesse por cá máquina de cinema, seria isto um sucesso dos diabos. Ainda mais agora, neste tempo de discussão civilizacional, com o fantasma do califado a açoitar o Ocidente através de um terrorismo atroz. Talvez o politicamente correcto trave o ímpeto comercial da coisa, pelo que cabe perguntar: «Porque a abelha zumbiu aos ouvidos do caçador faminto, arrojará ele para longe o mel do seu favo e esmagará o insecto?» Lido o livro, fica-se com a nítida sensação de que daria um belíssimo filme de acção. Cenários não faltam onde pudéssemos reproduzir as cordilheiras cortadas, os algares profundos, as gargantas selvosas, os picos agudos por onde os godos fugiram dos árabes, por onde os árabes assaltaram os godos. Herculano propôs-se pintar o último semideus a combater na Terra. O último não terá sido, mas não restem dúvidas de quão bem pintado foi.

quinta-feira, 21 de março de 2019

"Sabeis o que é esse despertar de poeta?"

   É ter entrado na existência com um coração que transborda de amor sincero e puro por tudo quanto o rodeia, e ajuntarem-se os homens e lançarem-lhe dentro do seu vaso de inocência lodo, fel e peçonha e, depois, rirem-se dele.
   É o ter dado às palavras - virtude, amor pátrio e glória - uma significação profunda e, depois de haver buscado por anos a realidade delas neste mundo, só encontrar aí hipocrisia, egoísmo e infâmia.
   É o perceber à custa de amarguras que o existir é padecer, o pensar descrer, o experimentar desenganar-se e a esperança nas cousas da terra uma cruel mentira de nossos desejos, um fumo ténue que ondeia em horizonte aquém do qual está assentada a sepultura.
   Este é o acordar do poeta. Depois disso, nos abismos da sua alma só há para mandar aos lábios um sorriso de desprezo em resposta às palavras mentidas dos que o cercam ou uma voz de maldição desabridamente sincera para julgar as acções dos homens.
   É então que para ele há unicamente uma vida real - a íntima; unicamente uma linguagem inteligível - a do bramido do mar e do rugido dos ventos; unicamente uma convivência não travada de perfídia - a da solidão.


Alexandre Herculano, in Eurico, O Presbítero, MEL Editores, Junho de 2011 (1.ª edição, 1844), pp. 30-31.

UM PROBLEMA DE FRONTEIRAS


Não há argumento, apenas descrição e remate aberto. Mas sendo público que Rentes de Carvalho votou em Wilders, questionamo-nos sobre a solução do “encerramento de fronteiras”. Devemos fechá-las também a norte-americanos, noruegueses e australianos? Como todos os países têm os seus terroristas domésticos, questiono-me até se não deveríamos encerrar aos portugueses as fronteiras de Portugal? 

quarta-feira, 20 de março de 2019

VIVA O CAPITALISMO



Mais desenvolvimentos: aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui... 

O RAPAZ QUE PRENDEU O VENTO


The Boy Who Harnessed the Wind (2019) marca a estreia de Chiwetel Ejiofor na realização. Vimo-lo como actor secundário em Amistad (1997), de Steven Spielberg, já com outro protagonismo em Dirty Pretty Things/Estranhos de Passagem (2002), curioso filme de Stephen Frears, no inesquecível papel de Solomon Nortup, em 12 Years a Slave (2013), do impagável Steve McQueen. A temática africana mantém-se, aparentemente enquanto viagem ao encontro das raízes. Chiwetel é filho de nigerianos, descendente da etnia Igbo. The Boy Who Harnessed the Wind baseia-se nas memórias de William Kamkwamba, famigerado engenheiro do Malawi que em criança salvou da fome a sua aldeia ao construir um moinho de vento que alimentava uma bomba de onde provinha água para consumo e cultivo. Sem perder de vista a questão política, Chiwetel preferiu centrar-se na relação do jovem Kamkwamba com o pai. As questões familiares oferecem às personagens uma ideia de conflito geracional que permite elaborar o elogio do conhecimento, a importância da escola e da informação, contra uma atitude conservadora de arraigamento às tradições rurais. O poder da inovação tecnológica enquanto superação de limitações físicas e geográficas, mas também culturais, é uma das possibilidades de leitura deste filme. A temática política, ilustrada pelo abandono e pelo oportunismo das forças no poder perante uma situação calamitosa, parece secundária. O que mais importa é a relação entre William Kamkwamba, interpretado pelo jovem Maxwell Simba, e o pai Trywell Kamkwamba, recriado pelo próprio Chiwetel Ejiofor. As personagens ora comunicam no dialecto local, ora falam num inglês carregado de pronúncia. Nota-se o esforço de recriação de uma paisagem agreste, marcada pela carência de recursos, pela pobreza generalizada, por um sistema educativo altamente deficitário. William é um jovem de origens humildes, impedido de desenvolver o seu potencial intelectual por ser afastado da escola devido à falta de pagamento de propinas. Por si só, a história já é tocante. O filme acrescenta-lhe uma dimensão altamente emocional, a espaços refreada pela necessidade de denúncia de um sistema que em nada contribuiu para que possa sair da pobreza quem nela nasceu. As imagens que chegam agora de Moçambique superam em tudo aquilo que um filme destes possa ilustrar. Sabemos que contra a fúria da Natureza pouco resta aos homens, mas assistir à destruição, em larguíssima escala, provocada pela passagem de um ciclone, dá bem conta das fragilidades de um país onde as populações ficam à mercê do azar. Não é só os telhados que voaram onde havia telhados, as ruas invadidas pela fúria das águas, as sensações de desamparo e desabrigo deixadas pelo rastro de destruição, é também tudo o que se lhe segue, a fome e a doença, esta condenação ao fracasso impossível de aceitar.

segunda-feira, 18 de março de 2019

UM MINUTO POR MOÇAMBIQUE



Literalmente, nem mais. Qualquer ventania com meia dúzia de estufas danificadas ocupa mais tempo nos telejornais do que a tragédia de Moçambique. Tão estranha, esta distância. Tão difícil de compreender o desinteresse das pessoas por Moçambique, um dos países mais pobres do mundo, um dos países que mais precisa da nossa atenção. 

ESCALA


As estimativas dizem ainda que todos os dias caem na Terra 48,5 toneladas de matéria meteórica. A maior parte delas desfaz-se em poeira ao entrar na atmosfera.


Notícia do Público, aqui.

Leitura possível: a maior parte das estimativas desfaz-se em poeira ao entrar na atmosfera.

domingo, 17 de março de 2019

PERCALÇO DO AMOR

   As mulheres que amam envelhecer são mais numerosas do que se pode julgar. As que vão deixando de lado os sapatos desconfortáveis e os métodos depilatórios; as que, pouco a pouco, se transformam, como árvores desgrenhadas, com pólipos e rugosidades, musgos e crostas, com sinas cemiteriais nas mãos, com unhas duras como cascos e cheias de veias salientes; as que prescindem das faixas, cintas, bandas e alças; as que se tornam vitoriosas por efeito dum gáudio que emascula os homens; as que acabam com a contracepção e suas infames ciladas e se emancipam deveras do espermatozóide, do ventre, do percalço do amor e do sexo; as que, enfim, concebem num canto da memória essa falta menstrual que foi a vida inteira, a falha da paixão dinâmica e gloriosa que não aconteceu nem acontecerá nunca. A velhice é para elas o prazer que encobre a morte, sem pecado, risco e culpa formada.


Agustina Bessa-Luís, in O Mosteiro, Lisboa, Guimarães Editores, 1980, p. 68, citada por Isabel Rio Novo, in O Poço e a Estrada - biografia de Agustina Bessa-Luís, Contraponto, Fevereiro de 2019, p. 457.

sábado, 16 de março de 2019

CONVOCADO PARA PALRAR


Mais informações: aqui.



Adenda:

EC.ON, Lisboa, 16 Março

Acorro ao ciclo poético da EC.ON e assisto, com prazer, ao Jaime Rocha desenhar o palco que a Nazaré se tornou para ele, no qual nunca mais deixou de ouvir conversas com mortos, nem de acompanhar figuras de negro a passearem medos e angústias, sem esquecer a íntima observação do mar ininterrupto e o cultivo do silêncio. Vi até uma enxada a passar à beira do café em Benfica e na mão de um semeador de cães e gatos. Ouvi também o dodecassilábico Henrique Manuel Bento Fialho defender acesamente a contaminação entre géneros, a descoberta do verso na prosaica planura da prosa, ou da centelha da ideia em pleno poema. Pensei, por causa disso, que o gesto poético surge que nem aquelas utilíssimas placas de sinalização espalhadas pelo nosso interior. Perdidos, acendemos os faróis para ver melhor a indicação que nos salvará a pele e eis que surge, brilhando, «outras direcções».

João Paulo Cotrim, aqui.

sexta-feira, 15 de março de 2019

CONVOCADO PARA APRESENTAR


UM POEMA DE PAULO DA COSTA DOMINGOS

CAPELA DOS OSSOS

É o labirinto das medidas drásticas
no domicílio, no casulo controverso
de gente capaz de tudo, nem as feras.

Quase julgam-se felizes no atropelo,
e é que o são mesmo, como animais
enlouquecidos na sua vazia esfera.

Alguém lhes pôs água nas cabeças;
antes os houvesse afogado, mas não,
só fazem isso, a frio, à gataria.


¿Existe por estes lados um' agonia
que possa ser tida por boa, útil,
aprazível, salutar e duradoura?

¿Será um problema d' aerodinâmica
onírica?... quando a coisa única
que nos separa, ou liga, é a polícia...

Crânio sobre crânio, tarso sobre
tarso, cóccix sobre cóccix, vieram
os arquitectos compartimentar

o beco sem saída que esta vida é,
tod' os danos que deixámos para trás,
to-da a men-ti-ra piedosa...


Paulo da Costa Domingos, in A Vau, Companhia das Ilhas, Dezembro de 2018, p. 43.

TERRORISTAS


A Wikipédia chama terrorista doméstico a Timothy McVeigh. Já Anders Breivik é terrorista cristão da extrema-direita. O australiano Brenton Tarrant ainda não tem a sua página, mas há-de ter. E nela se dirá também que era de extrema-direita. Estas criaturas existem, assim como aquelas que defendem a distribuição de armas de fogo pelas populações. A extrema-direita, e não só a extrema, tem muita gentinha a pensar assim. Com o argumento de que as populações precisam defender-se, pois claro. Do Brasil de Bolsonaro chegam notícias sobre um atentado à Escola Estadual Professor Raul Brasi, massacre na linha do que Michael Moore documentou em Bowling for Columbine (2002).Quando é que começaremos a chamar terroristas às empresas que lucram com a venda de armas? E aos políticos que defendem políticas que apenas favorecem os interesses meramente comerciais dessas empresas? Quando é que toda essa gente terá uma página na Wikipédia a chamar-lhes o que são: terroristas?

quinta-feira, 14 de março de 2019

ESTÁ NO AR

Mais um Et de plomb et de plume: aqui. É o melhor "programa de rádio" do mundo. E eu a ouvir, enquanto espero pela pizza. Há dias assim.

ÁRVORE EM FLOR


Ainda não fez um ano que enterrámos o corpo debaixo daquela árvore, calcando bem a terra e sinalizando o lugar com um pedregulho. Não consigo lembrar-me da árvore, apenas da sombra que fazia. Estava frio, eu tinha frio. Continha o choro como sempre contenho o choro, uma dor a querer saltar pela boca, uma dor presa à garganta, o peito a puxar a dor para baixo, uma dor colada às paredes do peito.
Emociono-me com facilidade, houve um tempo em que chorei muito. Quase tudo quanto em mim havia para chorar. Com o passar dos anos, emociono-me mais facilmente. Perdi defesas onde ergui muros. É com estranheza que constato o facto, parecendo-me até paradoxal que assim possa ser. Mas não importo nada.
Agora é tempo das árvores em flor, o corpo morto como que refloresceu na velha árvore. Não sei se alguma vez terá dado fruto, recebe do céu água e sol, tem acolhido pássaros e aves de criação, domésticas como as pessoas que entram e saem das casas, como os corpos a seu tempo acolhidos pela terra.
Fazem-me chegar a imagem da árvore com uma declaração de amor. Sempre que penso no amor, é curioso, surge-me de imediato no pensamento a imagem da morte. É assim porque julgo inseparáveis as duas forças, um tender para fora, um tender para dentro. Amorte será a palavra correcta, como música que embala a dança das feridas. Penso na morte embaraçado pelo medo da perda, penso na morte porque amar é querer o bem e querer o bem é desejar vida, até quando se pede morte. A carta escrita por Gorz é tão bonita. Mas não importa, nem eu nem a carta importamos.
Agora é tempo de árvores em flor, dos frutos colhidos, do sumo bebido dos frutos espremidos, é tempo de céus limpos. A visitação da brisa, como certa vez escrevi num poema que pretendia dizer: se algum dia morrermos, tenha quem nos ama a lembrança de deixar para sempre os restos debaixo de uma árvore. Nada de corpos, apenas cinza. 

Como uma brisa a visitar a terra.  

Detenho-me na árvore
pouso os olhos nos ramos,
os meus olhos são pássaros
que cantam cada uma daquelas folhas,
diria que as folhas são as notas musicais
deste canto que sai das retinas em flor,
não sei onde chegará a voz do pássaro,
não quero que chegue a lado nenhum,
queria apenas que pudesse ser
escutada debaixo da terra,

se o canto dos pássaros
pudesse ser escutado
debaixo da terra,

em nossos olhos a sombra
alumiaria as formas

e tudo surgiria nítido
como num dia limpo.

quarta-feira, 13 de março de 2019

UM POEMA DE JOÃO RIOS

deram-me
vinte séculos
de heróis

e um nome

mas não encontro
oceano bastante
com que salgar o embuste
desse inebriante património


João Rios, in Os Heróis Transformados em Floreiras, Douda Correria, Março de 2017, s/p.

terça-feira, 12 de março de 2019

CITAÇÃO


Recorrer à greve da fome para resolver questiúnculas salariais é uma ofensa à memória de todos aqueles que morreram de fome por grandes causas. 
Eremita, aqui.

CLASSICO


Desde o livro de estreia, "Rua 31 de Janeiro (Algumas Vozes)" (&etc, Dezembro de 1998), que se coloca na poesia de José Ricardo Nunes (n. 1964) o problema da relação do sujeito com a realidade, aprofundado no livro intitulado “Apócrifo” (Deriva, Outubro de 2007) e extremado no volume “Compositores do Período Barroco” (Deriva, Junho de 2013). A este problema corresponde uma dúvida acerca das possibilidades da própria poesia enquanto gesto revelador. O poema é composto por palavras, estas são uma representação do real e, enquanto tal, oferecem-nos apenas simulacros da realidade. Esta noção é sobretudo relevante se tivermos em conta a hipótese da poesia enquanto busca da verdade, elemento esquivo, ainda que desafiante, nos poemas de José Ricardo Nunes. O livro “Andar a Par” (Tinta-da-China, Maio de 2015) tornou ainda mais complexa esta questão, na medida em que nesses poemas tudo parecia desenvolver-se a partir de um terreno confessional.
   Não por acaso, no poema 11. do mais recente “Classico” (Companhia das Ilhas, Janeiro de 2019) os versos iniciais jogam com a ideia de confissão desconstruindo-a: «Confesso: era eu / quem fugia e também eu / quem consumava a ligação directa / enquanto ela segurava o volante / em vez de ter eu, eu / ainda, o livro nas mãos» (p. 21). Na senda de Rimbaud o Eu destes versos é um Outro, ou como diria um dos nossos maiores modernistas «Eu não sou eu nem sou o outro, / Sou qualquer coisa de intermédio».  Este “intermédio” resume a natureza do sujeito poético, mesmo quando o discurso parece adoptar um tom confessional. Recordemos, aliás, que um dos livros de José Ricardo Nunes se intitula precisamente “Confissões” (Companhia das Ilhas, Dezembro de 2013). A confissão é uma violência exercida sobre o sujeito, a qual no limite pode levar a processos de despersonalização. Disto resulta uma poesia em que o eu se manifesta sempre por interposta pessoa, tal como sucedia nas vozes de "Rua 31 de Janeiro" e se declara, mais uma vez, no poema 11. já aqui citado: «Tinha as suas vantagens, a vida / por interposta pessoa, não há / como negar, tinha, como gosto de afirmar, / as suas compensações» (p. 21).
   "Classico", assim mesmo, sem acento, reúne 24 poemas escritos entre 2015 e 2018. O autor faz questão de o sublinhar, levando-nos a crer numa preocupação com a organização que tende a associar o poema a um período existencial específico. Estes poemas, tal como os do livro anterior, surgem marcados pelo ferro do tempo vivido, são “consequência do lugar” e da experiência. Neles encontramos referências concretas a espaços físicos (Casa Antero, Hotel Classico, Igreja de Nossa Senhora do Pópulo… ) e a pessoas com nome próprio (Miguel, Jales, Manuel, Margarida, Henrique, Pedro…), como que oferecendo uma clareza de exposição na qual acabamos por subentender momentos de reflexão intimistas, obscuros, melancólicos. O dentro (interior, intimidade) é escuro, não se deixa revelar facilmente. A vida tende para um vazio, para o desperdício, e é sempre enigma irresolúvel.
   Percebemos que na divisão dos poemas em três conjuntos existem diferentes ordens temáticas, correspondendo o primeiro conjunto ao quotidiano, o segundo à memória, sobretudo às memórias da infância, com evocações de familiares, e o terceiro a um presente alumiado pela paixão e pelo amor enquanto esforços de superação da «rotina da vida». A epígrafe pedida de empréstimo a Pasolini clarifica a relevância nestes poemas do amor enquanto modo de conhecer. Classico, o Hotel de Bremen, surge como microcosmo pautado pela passagem e pela fugacidade. Tal como o Hotel, a vida é lugar de passagem. Um não-lugar, para usar a famosa expressão de Marc Augé. Mas o Classico confunde-se no poema com o Eu, o próprio Eu surge como lugar de passagem onde as pessoas vão entrando, pernoitando, saindo, o Eu é essa entidade fenomenológica aberta ao mundo através da qual o Outro nos ocupa: «Imagina que não és tu, / que em vez de seres tu / o hóspede é o quarto do hotel / que te ocupa» (p. 9). Desta relação que impele o ser para o vazio (entre o início e o termo do primeiro poema do livro podemos ler qualquer coisa como “Imagina (…) o vazio”) concluímos o amor como espécie de solução, como única forma de superação. 
   No poema 4, que pode ser lido sob a forma de arte poética, os versos parecem querer sublinhar precisamente as coordenadas a partir das quais o poema se desenvolve: «Nada acerca da poesia, tudo / sobre o maldito emprego, / (…) tudo sobre a loucura e a ausência / e a ausência de saudades, / tudo sobre o amor, / a vida, o desgarrado mundo, / a vida perdida, a vida ainda» (p. 12). É à vida que os poemas de José Ricardo Nunes se vêm agarrando desde “Andar a Par”, não perdendo de vista a problematização do ser, mas pretendendo alargar o campo de representação ontológico às forças concretas da experiência, aos lugares, às pessoas, ao que surde da relação entre as pessoas no contexto de certos lugares, não apenas à linguagem, não apenas a uma ideia de linguagem: «Tivesse outra idade, fosse / a tempo de escolher outra profissão / e seria arrombador, / armaria bombas em caixas-fortes, // amaria muito mais» (pp. 40-41).

domingo, 10 de março de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #12


Se é importante saber de onde vimos, não menos será que fiquemos atentos ao modo como os outros nos vêem. Certo que jamais teremos acesso ao que pensam sobre nós, mal seria se tivéssemos. Imaginai o inferno se outros acedessem ao que acerca deles pensamos. É saudável e até agradável esta distância que nos separa do outro, este exílio que obriga à reflexão e à desconfiança. Mas não menos agradável é assistir a quem fale de nós abertamente, desbravando terreno à imaginação como ao espelho se abre um rosto. Quando digo nós, minhas filhas, não me refiro ao indivíduo, que esse será sempre mistério inconfessável para si mesmo, mas antes ao que no individuo há de influência exercida pelo colectivo. Refiro-me à cultura, à sociedade, ao ambiente social que nos deforma e conforma ou que simplesmente nos informa, permitindo-nos que cresçamos em reacção e conflito ou em acomodação e renúncia.
   Miguel de Unamuno (1864-1936) foi um ilustre espanhol que ousou pensar-nos em voz alta, dedicando-nos o opúsculo com o título Os Portugueses, Um Povo Suicida. Originalmente escrito em 1908, podeis conhecê-lo na edição da Ática datada de Abril de 2011. Não é difícil encontrar sensatez no diagnóstico: «Portugal é um povo triste e é-o mesmo quando sorri» (p. 7). Classificar-nos de povo suicida não nos socorre na manifesta propensão genética que temos para a desgraça, mas livra-nos do fardo que leva a concluir a inutilidade da vida. Com tão cruel evidência não se conformam os fadistas, encalhados entre o oceano e sucessivas invasões. A solução para os portugueses está em fugirem de si próprios como o diabo da cruz. Daí que se detestem, daí que se ocupem tanto zurzindo contra si mesmos, daí que se mostrem tão afáveis e complacentes para com aquilo que vem de fora e implacáveis para com aquilo gerado dentro.
   Li algures, minhas filhas, um retrato cómico da sociedade portuguesa: espécie de bolha onde todos dizem mal uns dos outros sem terem a noção de que os outros são essa massa indefinível entre os quais também nós nos encontramos. Sendo que cada um de nós é sempre um outro, não resta nada de bom entre os portugueses. No entanto, a desgraça tem sido nossa força. Sabemos rir da aspereza com que nos crucificamos. Talvez aí germine o gene desta lúgubre inclinação para o suicídio, não necessariamente físico, mas também moral, espécie de “genocídio” focalizado no ânimo com que poderíamos encarar a inutilidade das nossas existências. A aceitação desta inutilidade afigura-se elementar, na medida em que se impõe como a única atitude verdadeiramente útil à fatal condição elegíaca.
   Há neste povo «mais apaixonado do que sentimental» de que falava Unamuno uma matemática inquestionável: «os sonetos são um grande purgante das paixões excessivas, pois sabe-se de sonetistas que morreram de fome mas de nenhum que tenha morrido de amor» (pp. 8-9). Podeis imaginar quanto disto vale num país que se diz de poetas! O resto é História e alternância democrática, aquele masoquismo de passarmos o tempo a vituperar quem elegemos reiteradamente, a indolência com que tratamos tudo quanto nos indigna, um deixar andar na esperança de melhores dias que virão, porventura, como virá o tal que se perdeu nas áfricas, embrulhado em bruma invisível. Sabemos rir, excepto de nós próprios. Por isso nos suicidamos.
   Como pode não ser suicida um povo assim? Os suicídios de Antero, Soares dos Reis, Camilo, Mouzinho de Albuquerque, Trindade Coelho, enumerados por Unamuno, são resíduos numa sociedade toda ela suicidária, mero exemplo lacónico, previsível, sucinto. A orgânica não poderá ser outra enquanto persistirmos na saudade, no lamento, nesse pó cavernoso que a todos inspira versos tristonhos e esmorecidas elegias. Sobre toda essa tralha, um lençol de gargalhadas estridentes e a consciência interna da maior das forças vitais: nada há de mais útil nesta vida efémera que a inutilidade decretada às coisas que dão prazer e fazem rir. O resto subentende-se no opúsculo: «Não falta mesmo por aí quem diga que isto não é já um povo, mas sim o cadáver dum povo» (p. 13). Portanto, ride, ride de vós próprias e do espanhol que nos define, ride do mundo e da vida, ride com alegria e paixão, pois só rindo de tudo e com todos os dentes à mostra podeis um dia dizer ter estado próximas da felicidade. Isto é, da alegria de viver.

sábado, 9 de março de 2019

HYALINOBATRACHIUM YAKU




Foi descoberta uma nova espécie, a rã transparente
nela observamo-nos tal como somos
um sistema de órgãos funcionais,
tubagens e ligamentos

se a perfurarmos veremos nitidamente
como sofre cada pedaço do corpo,
o que nos faz retroceder
e desejar deixá-lo intacto,
museu escancarado de frangibilidades orgânicas
de onde ao mesmo tempo a ideia de corpo está excluída,
remetida às representações humanas
em que a dor se revolteia sob capas e peles,
e o sangue fulge só entre brechas

perfurar este batráquio revelaria uma simples destruição,
a quebra das acoplagens,
o fim da palpitação cronometrada

ainda que a transparência,
ao ser rasgada,
nos arrojasse de frente o halo da vida desprotegida


Catarina Costa (n. 1985), in Essas Alegrias Violentas (Companhia das Ilhas, Março de 2019). Desde Marcas de Urze (Cosmorama, 2008) que vem publicando com regularidade em editoras de distribuição restrita, o que explicaria alguma desatenção da crítica especializada não obedecesse esta a uma selectividade que pouco ou nada tem que ver com o âmbito de distribuição das editoras em causa. Na sua poesia vislumbramos jogos de contrastes entre luz e sombra, entre tempos e espaços diversos, ora oníricos, ora materiais, entre os domínios da loucura e da normalidade, da saúde e da doença. Destes contrastes retiramos a ideia de uma inclinação para o anómalo, por vezes detectado na alusão a disformidades corpóreas, na sugestão de um pathos determinado por imagens violentas, desfocadas e desfiguradas como sejam as que dão corpo à memória. O poema é ponto de encontro entre uma primeira e uma segunda pessoas, por vezes desdobradas numa terceira que abre os campos da intimidade e da confidencialidade, ainda que nunca de um modo absolutamente claro ou óbvio: «violo o laço da ínfima voz entre nós / perante um terceiro / na tentativa de obter uma resposta externa / aos fragmentos de adivinhas que me deste e não resolvi» (E. A. V., p. 34). Não violentando a leitura com exasperações e fúrias, Catarina Costa deixa subentendida nos seus versos uma violência à qual corresponde um processo de atrofia do ser. A solidão, o isolamento, o exílio, o afastamento, o desamparo, surdem de uma ideia de desejo não consumado, latente, que é o que realmente violenta o sujeito na sua intimidade.