sábado, 2 de março de 2019

BANDA SONORA ESSENCIAL #62



Quando a MTV era canal frequentável, a gente podia ficar noite dentro sintonizados a ver e a ouvir boa música. Foi numa dessas noitadas que ouvi falar pela primeira vez de Polly Jean Harvey, a inglesa escanzelada que tocava guitarra e cantava com fúria rara de observar no género feminino. Amor à primeira vista. Assim que amanheceu, pus-me a caminho da Bimotor e comprei o LP Dry (1992). Vim para casa ouvi-lo e dei com isto: «Oh, my lover / Don't you know it's all right? / You can love her / And you can love me at the same time» (Oh My Lover). No tema Sheela-Na-Gig, que para quem não saiba evoca figuras femininas com vulvas desmesuradas, ouvia-se isto: «I've been trying to show you over and over / Look at these, my child-bearing hips / Look at these, my ruby red ruby lips». E desta forma se desmontava toda uma ideia de mulher pensada e propagada por homens para servir homens num mundo de homens.


O feminino nas canções de P. J. Harvey libertava-se do grilhão moral cerrado pelos zeladores de Deus, apologizava a bigamia e o sexo livre, desobstruído do palavrório machista que dá tesão a juízes mentalmente castrados. É a banda sonora perfeita para oferecer a certa criatura que tenho cá no pensamento. Rid of Me (1993), que também adquiri ainda no formato LP, não ficava atrás na provocação, na desmedida, na desconstrução irónica de máximas bíblicas, nos desafios à imaginação. No tema Legs, por exemplo, o feitiço de um Hey Joe que mata a mulher e foge para o México vira-se contra o feiticeiro. Aqui é ela quem dá cabo dele, a mulher assume a dianteira da crueldade permitindo que no casulo da delicadeza germine o gesto violento e a borboleta se metamorfoseie em águia. Rid of Me é um álbum poderoso, com a produção de Steve Albini a favorecer uma crueza musical que é o suporte ideal para as letras de Harvey. Um dos momentos fortes do álbum era Man-Size, título cínico com vídeo à altura.


Entre Rid of Me (1993) e o regresso com To Bring You My Love (1995) há uma pérola que não pode ser esquecida. 4-Track Demos (1993), que não é tanto uma compilação como parece ser um testemunho frontal do imediatismo que a autora pretendia para as suas canções, resulta no mais cristalino dos álbuns. Tal como o título indica, tudo aqui surge do registo caseiro num gravador de 4 pistas. Alguns temas de Rid of Me (1993) ressurgem próximos do momento de concepção, acompanhados de inéditos que acabariam por figurar entre as melhores canções escritas por P. J. Harvey. Hardly Wait é bom exemplo: «Lips cracked dry / Tongue blue burst / Say angel come / Say lick my thirst / It's been so long / I've lost my taste / Here Romeo / Make my water's break». Com os anos, os temas foram-se diversificando e o foco foi sendo distribuído por outras áreas de interesse. Mas a P. J. Harvey já ninguém retira o estatuto de grande "cronista" da mulher na viragem do século, contra as mentes conservadoras, obtusas, anacrónicas dos detraídos machos deste mundo.


2 comentários:

alexandra g. disse...

Ó Henrique, "escanzelada"??????????
Isso merece um processo à la Neto de Moura, com o devido respeito!!!!!!!!

___________
:p

hmbf disse...

:-)