sábado, 9 de março de 2019

BANDA SONORA ESSENCIAL #63



Há dias um amigo telefonou-me com uma daquelas novidades que eu julgava perdidas para sempre nos idos da adolescência: comprou uma guitarra. Queria saber quais os acordes básicos das intermináveis performances que, não tantas vezes quanto eu gostaria, costumam juntar três ou quatro ou cinco malucos com a mania de que sabem tocar, ao que lhe respondi prontamente: Mi – Lá – Si. Em boa verdade poderia ter dito Sol – Lá – Ré ou Dó - Fá – Sol que ia dar ao mesmo. Para começar, talvez seja preferível a mais tradicional, básica e mágica sequência dos blues. Mas importa, desde logo, desfazer o mito. Sendo básica a sequência, as variantes são múltiplas. Rapidamente o que parece fácil pode transformar-se num pesadelo. O mito segundo o qual tocar blues é fácil devia ser abolido de uma vez por todas, obrigando quem o proferisse a ouvir vezes sem conta as gravações primitivas de um Jelly Roll Morton ao piano ou de um Robert Johnson na guitarra. Pela parte que me toca, expurguei de uma vez por todas a cagança quando comecei a prestar atenção ao legado de McKinley Morganfield, isto é, Muddy Waters.


Nascido algures no Mississipi, Waters foi influenciado por Blind Lemon Jefferson e por Robert Johnson. A sua versão de Walkin’ Blues é uma pequena maravilha. O vozeirão e a harmónica ajudaram a singularizar o estilo, transformando-o num dos músicos mais influentes do universo bluesístico. Não sendo exímio guitarrista, conseguiu apontamentos únicos e inconfundíveis. Percebemos que tinha algo diferente ao ouvirmos êxitos como Rollin’ & Tumblin’, Louisana Blues, Baby Please Don’t Go ou Stuff You Gotta Watch (puro rock & roll pré-histórico). A guitarra eléctrica providenciou-lhe um volume de som adequado à potência da voz, permitindo-lhe experimentar novos ritmos sem perder a profundidade daquilo a que vulgarmente damos o nome de feeling e não sabemos exactamente o que é. Algumas composições de Willie Dixon tornaram-se hits universais na sua voz. São disso exemplo (I’m Your) Hoochie Coochie Man e I Just Want To Make Love To You. Mas mais importante foi a influência exercida sobre bandas como os The Doors, The Rolling Stones (que devem o nome ao tema Rollin’ Stone), e sobre guitarristas de excelência como Jimi Hendrix, Jimmy Page (Led Zeppelin), Eric Clapton, Gary Moore, Angus Young (AC/DC)… Na Wikipédia cita-se B. B. King: “Vai levar anos e anos até que as pessoas percebam quão enorme foi o contributo de Muddy Waters para a música norte-americana”. The Anthology (2001) recupera 50 gravações efectuadas entre 1947 e 1972, acompanhadas de um ensaio assinado por Mary Katherine Aldin que explica tudo muito melhor. All Aboard é o penúltimo tema:


1 comentário:

hmbf disse...

Hm-mm-mm have mercy
Hm-mm-mm
Ah, you know I just been sittin' here thinkin'
Wondering where in the world she been