sexta-feira, 19 de abril de 2019

ANTONIN ARTAUD


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   «A vida fede, Senhores». O automatismo das nossas paixões não é uma reacção às leis que regulam a razão dos sábios, nunca foi uma reacção, nem mesmo a fé numa revolução exterior, mas sim numa revolução interna que ajude o corpo a exalar uma fragrância simpática, agradável, aprazível, a fragrância do riso. Uma revolução que nos prepare o corpo para o riso sempre que nele os nervos sejam chicoteados pela dor. «Deixai-nos rir». É o riso que buscamos, cansados que andamos da lágrima seca nas escamas do crocodilo. E ao riso chamámos crueldade, uma crueldade nascida do ódio a tudo o que se senta apática e atavicamente diante dos asilos onde os loucos são forçados à razão, dos lares onde os velhos são forçados à morte, das casas de recolhimento onde o corpo de Cristo serve de pretexto para maltratar o corpo dos homens. Fomos benzidos, confessámo-nos, sobre nós nenhuma água benta produziu milagres. Matemos a sede directamente na fonte, sem intermediários, sem emissários, porque a nossa sede não é, nunca foi, nunca será a de sermos crismados.


Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, p. 22. Nota: a 4 de Março de 1948, Artaud foi encontrado morto no quarto do hospício de Ivry-Sur-Seine onde vivia. Dois meses antes, tinha-lhe sido diagnosticado cancro do cólon. Suspeita-se que tenha morrido de uma dose excessiva de hidrato de cloral.

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