sábado, 20 de abril de 2019

ARTHUR KOESTLER


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   São nove da manhã e o despertador não espera por nós nem mais um segundo. Perdemos sempre contra o despertador. Perderemos sempre, até ao dia de irmos daqui para fora. Tenho esperança de que esse dia aconteça antes de pegarmos fogo aos nossos próprios corpos. Olha à nossa volta: em todas as estantes um mero acidente, de um momento para o outro o mundo faz-se chamas e nada resta. Paredes negras, o aroma do esturro, um afinal sermos todos tão dependentes da sorte suspensa na ponta de um cigarro. Podes duvidar de qualquer coisa menos da tua insignificância. Ninguém dará por ti quando do laboratório vier a dor anunciada, o medo, a vontade de te cantar uma estrofe desconhecida.

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Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, p. 23. Nota: quando morreu, Arthur Koestler padecia de Parkinson e de leucemia. Em conjunto com a mulher, decidiram ambos tomar doses letais de barbitúricos misturados com mel. Foi a 1 de Março de 1983. Cynthia, a mulher que o acompanhou na morte, deixou como testemunho da sua decisão uma mensagem curta: «Sem dúvida, não posso viver sem Arthur».

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