sexta-feira, 31 de maio de 2019
quinta-feira, 30 de maio de 2019
OPERAÇÃO STOP GERINGONÇA
José Oliveira e Castro fez seis ações de fiscalização
preparadas em segredo e só com o conhecimento de mais dois funcionários. Mário
Centeno não foi avisado da inspeção.
José Oliveira e Castro foi nomeado diretor das Finanças
do Porto em 2015, por decisão da então ministra das Finanças, a
social-democrata Maria Luís Albuquerque.
Tudo vale.
HEINRICH VON KLEIST
(...)
Os vivos gostam de encharcar o mundo com tristeza, por isso desenham jardins com placas que nos impedem de estender o corpo na relva, por isso dão nomes às árvores, por isso plantam grandes árvores amarelas sob as quais os sonhos desvanecem a sombra de um último passo para o beijo derradeiro, por isso delimitam os percursos entre as formações de estilo tropical e as aglomerações de tipo mediterrânico, por isso erguem bibliotecas com estantes quilométricas, guardiãs de palavras tão ressequidas como os ramos das jarras bolorentas, por isso organizam as palavras, por isso dão uma ordem ao caos, por isso ouvem pouca música.
Mas eu, que me perdoem, não troco a miúda gótica da biblioteca sepulcral por nada deste mundo, acho que a amo de um «amor seco e oceânico», talvez venha a convidá-la, com enxames de lágrimas protegidos pelas lentes escuras, para um cone de castanhas assadas na Praça da Fruta, onde poderíamos também comprar um pão caseiro, um queijo amanteigado, duas maçãs, para depois fazermos um piquenique no Parque D. Carlos I, num sítio onde as placas não nos impedissem de estender os corpos na relva, talvez debaixo de uma grande árvore amarela, e então mergulharíamos no lago dos cisnes para sempre desaparecidos, deixando os vivos desesperados à nossa procura, à procura dos restos que encheriam o mundo com mais um pouco de tristeza.
Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, pp. 50-51. Nota: muito se especulou acerca da relação de Kleist com Henriette
Vogel, que conheceu por volta de 1809. Partilhavam a paixão pela música, pelo
teatro, pela esgrima. No dia 21 de Novembro de 1811 partiram para Wannsee,
deixando cartas de despedida. Ele estava falido, ela tinha cancro. Nas
proximidades de Wannsee, em Potsdam, Kleist disparou primeiro sobre a amante e
depois sobre si mesmo. Foram enterrados juntos numa vala comum.
EUROPEIAS
Mais do que a abstenção, que inclui mortos, gente que simplesmente
não quis votar e gente que não pôde votar, impressionam os brancos e os
nulos. Estamos a falar de 229662 pessoas que se dirigiram às urnas para manifestarem
o seu completo desagrado. Podiam ter ido directamente para a praia, mas não quiseram deixar de mandar o sistema à merda. São mais do que as pessoas que votaram na coligação
PCP-PEV ou no CDS-PP ou no PAN, pelo que seria respeitável oferecer-lhes pelo
menos um eurodeputado. Um que fosse branco e nulo. Enfim, julgo que a seu tempo
sentir-se-ão dignamente representadas. Não gosto das europeias, nunca gostei.
Fui votar por fidelidade ao meu partido e porque respeito o trabalho do João
Ferreira. Tentei ver um debate e não consegui. O candidato do PS fazia a
propaganda do governo, o do PPD/PSD fazia a contrapropaganda do governo, o do
CDS-PP falava de José Sócrates. Só Marisa Matias e João Ferreira estavam
interessados em discutir questões europeias. No debate entre os partidos menos
representativos aquilo parecia uma anedota com um contraponto chamado Rui
Tavares. Uma pena ter de o ver ali, já que tem ideias, é inteligente,
destoava. Não me surpreendo nada, portanto, com os níveis de abstenção. A
generalidade das pessoas não sabe para que serve o Parlamento Europeu, julga
incompreensíveis os vencimentos e ajudas de custo e mais não sei quê dos
eurodeputados, o que é perfeitamente compreensível. Será legítimo esperar-se de
quem ganhe o ordenado mínimo em Portugal o mínimo respeito pelo Parlamento
Europeu? Aquilo a que chamam projecto europeu, alicerçado numa vontade de
garantir a paz entre as nações e gerar prosperidade entre os povos, trouxe paz
podre (menos mau) e austeridade entre os povos a bem da saúde do sistema financeiro.
O Brexit é a bandeira de uma confusão na qual podemos incluir a falta de
respostas para a questão das migrações, os muros da vergonha, as tremendas
assimetrias nos níveis de vida em cada um dos países da União. Já ninguém fala
da Grécia, mas eu ainda me lembro de Dimitris Christoulas, o pensionista que em
Abril de 2012 se suicidou na Praça Syntagma. Ficou, para mim, como símbolo
desta União Europeia. Dediquei-lhe um poema no meu livro "Estação 2012". Os dois primeiros versos manifestam a dúvida: «Que nos prende a este lugar / onde já nada brilha?»
quarta-feira, 29 de maio de 2019
RAÚL GUSTAVO AGUIRRE
NO FUNDO DOS TEUS DIAS APENAS O AMOR FICARÁ
No fundo dos teus dias apenas o amor ficará.
Quando romperem as pedras, quando estalarem os vidros,
quando apartarem as lentas e piedosas cortinas,
não se verão teus ossos que nada foram,
não lerão teu nome borrado pelos ventos,
não encontrarão teu rosto nas arenas,
mas o amor estará onde tu estiveste,
poderão trazê-lo do fundo dos seus dias,
levantá-lo, pô-lo de pé, levá-lo em andores
por um tempo melhor, de beleza sem fome,
por um tempo de magia, sem penas nem justiça,
como um dia há-de ser o tempo para todos.
Celebrado tradutor de poesia, Raúl Gustavo Aguirre (n. Buenos Aires, Argentina, 2
de Janeiro de 1927 – m. 18 de Janeiro de 1983) fundou a revista Poesía Buenos
Aires (30 números publicados entre 1950 e 1960). Revista influente, nela
encontramos a colaboração de Edgar Bayley e Mario Trejo, entre muitos outros.
Aguirre foi também um importante ensaísta, aproximando-se tanto das teses
invencionistas como do criacionismo. Poeta da síntese, coloca em cada palavra um peso muito específico e nada enfático. Foi um aforista
exímio que reuniu os seus pensamentos num volume com o título Asteroides. Versão
de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La
poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del
Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros,
2010, p. 273.
Etiquetas:
Raúl Gustavo Aguirre,
Versões,
Volta ao mundo em poesia
segunda-feira, 27 de maio de 2019
domingo, 26 de maio de 2019
CITAÇÕES
Há dias li isto, agora leio isto. O excesso de citação não me incomoda tanto quanto a deficiência de pensamento. Problemático é quando essa deficiência surge dissimulada pelo tal excesso. Nas aulas de Filosofia em Portugal discutia-se isto, nomeadamente quando certo aluno irritante acusava nos filósofos portugueses uma ausência de pensamento próprio. Era quase tudo comentário ao pensamento alheio.
sábado, 25 de maio de 2019
O RESTO JÁ DEVEM CONHECER DO CINEMA
A cidade é Tebas. Foi Cadmo quem a fundou, depois de lhe
ter sido entregue a missão de recuperar uma Europa raptada. Em Tebas vive uma
família, a de Édipo. Conhecemos a versão que Sófocles lhe ofereceu numa das mais
famosas tragédias gregas. Édipo nasceu amaldiçoado, matou o pai, casou com a
própria mãe, Jocasta, com quem teve três filhos, Etéocles, Isménia, Antígona,
Polinices, furou os olhos quando finalmente percebeu a embrulhada em que se
metera. A cidade de Tebas é aterrorizada pela Esfinge e perseguida pelas
maldições de uma família desavinda. Com “As Fenícias”, Eurípedes propôs um
outro enfoque para a tragédia de Édipo. Ele conseguiu derrotar a Esfinge, já
está cego, mas Jocasta ainda não se suicidou. Amaldiçoados pelo pai, os filhos varões
de Édipo e Jocasta confrontam-se pelo domínio de Tebas. Matam-se um ao outro no campo de
batalha, para desgosto da mãe, que perante o cadáver dos filhos se
degolará.
É típico da tragédia grega que o destino se sobreponha às
decisões. Estas são quase sempre erradas, na medida em que pretendem opor-se ao
destino, ou seja, desviam-se dos vaticínios divinos. Jocasta não se matou por
vergonha, mas sim por amor aos filhos, ou talvez por entender finalmente que
era esse o seu destino. Há coisas que nunca mudam, esta é uma delas. A história
da humanidade prossegue aparentemente ao acaso sobre um mar de sangue. É o sangue
que nos liga, o sangue derramado em guerras violentas, o sangue que transmitido
de geração em geração faz da humanidade uma grande família. Uma grande família
que se mata, que se autodestrói, que se corrompe. Uma grande família selvagem a tomar decisões erradas, comportando-se como feras, bestas, animais. Onde fica a
liberdade no meio disto? E o amor? Se o destino comanda o curso da História,
para onde nos envia ele? O maior desafio que a tragédia nos coloca é esse
entendimento do Tempo que transcende as circunstâncias.
O dramaturgo inglês Martin Crimp (n. 1956) recuperou “As
Fenícias” numa peça com um título tão enigmático quanto a Esfinge: “O Resto Já
Devem Conhecer do Cinema” (2013). Na produção levada a cabo pelo Teatro
Nacional São João, em colaboração com o Teatro da Rainha, o cenário coloca o
público no centro da arena. As bancadas que no palco estão voltadas para a sala
transformam o público numa espécie de cenário vivo e inesperado. Nós somos o
grande espectáculo da humanidade que as palavras dos actores ecoam. Daí
que o coro de raparigas fenícias, trajadas como revolucionárias maoístas,
usando por vezes sobre o cabelo o véu da vergonha, se nos dirija mais para
confundir do que para esclarecer. Como na antiguidade, elas dançam e cantam,
mas sobretudo encenam, sabem a peça de cor e salteado, sobrepõem-se com jogos
fonéticos às falas dos actores, dirigem os actores, e provocam-nos com
inquéritos, questionários, com fragmentos do mundo "burrocrático" e estatístico em
que vivemos, retratos violentos da nossa própria mortandade. Serão más? São reveladoras.
Para lá das circunstâncias, o que sabemos do cinema não
esgota o que o Teatro tem para dizer. O essencial é dito ali, o resto é
provável que o saibamos do cinema. Ele deu-nos a ver guerras, o sangue, os efeitos
especiais da morte, o espectáculo da decadência, foi-nos dado ver pelo cinema o
grande fogo-de-artifício da violência, dos massacres, dos genocídios, das
fábricas de morte, com corpos estropiados, exangues, a carne a ser rasgada por
punhais, balas, o cinema reproduziu com impressionante naturalidade a
selvajaria dos homens. Um excerto de um filme de Pasolini é-nos mostrado, o
olhar inocente de um bebé ao colo de uma mãe que o amamenta. O que fica por
dizer? O que fica por mostrar? O que fica por saber?
Quando numa sala a tela é
substituída pelo corpo dos actores, desfaz-se o distanciamento que existia entre
a representação e o objecto representado. Agora estamos na presença de, somos
nós, a humanidade inteira ali representada, quem actua dentro do seu próprio
filme. Há qualquer coisa de muito especial neste tipo de relação que é difícil
de explicar. Pelo texto percebemos que apesar da linguagem ser outra, os gestos
permanecem intactos. A família de Tebas serve de exemplo, a sua história é de
algum modo a nossa história, actualizada pelos modos de ser e de dizer que as
circunstâncias transformam. Mas o essencial permanece, esse entendimento do
Tempo que transcende as circunstâncias.
Em entrevista, Crimp revela que queria que o coro fosse
constituído por crianças. Imagem de futuro. Problemas de produção levaram-no a
optar por jovens mulheres, crianças e adultas ao mesmo tempo, adolescentes, ou “adultescentes”,
jovens mulheres enérgicas, vivas, férteis. São elas quem marca o ritmo, transportando
para a actualidade o clássico. Fazendo-nos ver, com a clareza que apenas os cegos
Édipo e Tirésias parecem conseguir ver, a força do destino nas nossas decisões.
Deixa então de haver cisões no Tempo, isto é, deixa de haver passado e
presente, todo o Tempo é a História de um futuro adivinhável onde
se repetirão guerras, mortes, sangue, maldade. E o bem que a arte resgata da miséria universal.
Na imagem ao alto: Édipo detém Antígona.
sexta-feira, 24 de maio de 2019
HART CRANE
(...)
Ao sétimo dia, meu amor, já nem estou por aqui, fui-me no barco negro, fui-me de comboio, fui-me metaforicamente para onde tu nem sequer imaginas, não porque sejas pobre de imaginação, mas porque és ainda mais preguiçosa do que eu e perante a ameaça dos vírus optas invariavelmente pela quarentena, que é o pior que se pode fazer quando alguém nos fala por parábolas.
Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, p. 48. Nota: no dia 27 de Abril de 1932, Hart Crane atirou-se para o mar do barco onde viajava. O corpo nunca foi encontrado.
quarta-feira, 22 de maio de 2019
LIDO ONTEM, NO TEATRO DA RAINHA, ACOMPANHADO À GUITARRA POR JOSÉ ANJOS
Diálogo com “uma fotografia apontada à
cabeça”, de José Anjos.
A história do homem na Terra é a história de
um ser em queda, de um ser a aterrar, vindo do céu para a Terra, ser em deterioração.
Fomos concebidos como anjos, acabamos como homens. À evolução das espécies
apomos a degenerescência da carne, criatura entre as criações divinas. Deus
ofereceu-nos o livre arbítrio, podemos mudar. A mutabilidade é, aliás, a nossa
característica mais evidente, nota-se no próprio corpo, na passagem do tempo pelo
corpo. A morte é o fim último dessa degenerescência, sendo possível entender
entre a verticalidade do ser vivo e a horizontalidade do ser morto a imagem de uma
queda. Um corpo em queda é um corpo à morte, é um corpo que desfalece, que
tomba. O homem é entre aqueles que caminham o único a quem foi dado escolher o
atalho das bestas ou a via do espírito supremo. Poder escolher, poder optar, a
isso damos o nome de livre arbítrio. Viver talvez consista num treino dessa
liberdade que exercita a vontade tornando possível dizer: este é o meu caminho.
Penso em Eva, caminhando nua no jardim.
“Tanto o homem como a mulher andavam nus, sem sentirem vergonha por isso”. A
árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal haviam sido plantadas
no meio do jardim. Provar o fruto do conhecimento do bem e do mal condenou-nos
à morte, só depois a vergonha surgiu e os corpos foram cobertos. Interrogo-me
sobre o que realmente nos terá condenado. Não resistir à tentação de provar o
fruto proibido? Desejar conhecer? Exercer a tal vontade optando pelo caminho
interditado por Deus? O grande mistério da existência é a dúvida instaurada
pela consciência da morte. Sabendo que vamos morrer, quase nos esquecemos de
que estamos vivos. Declaro aqui, agora, neste preciso instante, todo o meu amor
a Eva, a mulher que ousou pensar e agir contra os imperativos de Deus. Enquanto
mastiga o fruto também eu abro os olhos e vejo a morte ao largo, vejo um rio de
sangue a escorrer nos veios da Terra, a humanidade inteira em busca de si
própria. Só não lhe perdoo a vergonha, o gesto de cobrir a cintura com folhas
de figueira. O que haverá no corpo que nos envergonha?
Que as dores do parto sejam a sua
condenação, deixa-me algo aliviado. Mas é olhando para esse corpo capaz de
gerar outros corpos que a vida melhor se revela. Eis a mulher, prenha de morte,
dando à luz vidas que o tempo se encarregará de moldar, corpos nus como os
pintados por Lucian Freud, algo assustados, envelhecidos, flácidos, corpos
vivos onde a morte surge sublinhada por cada mancha, nas estrias, na cor
emurchecida da pele, nas mamas descaídas, no sexo mole dos homens, nas rugas,
na morbidez dos músculos, na indolência dos gestos. Esses corpos outrora
vigorosos modificaram-se com a passagem do tempo, perdem força, vitalidade, são
corpos em queda na direcção de uma Terra que os acolherá à hora de tombarem
definitivamente. Constatá-lo instaura a dúvida, porventura o medo, como que enceta
a via melancólica da nostalgia e obriga a questão: que é feito de nós? Que é
feito do espanto com que o mundo nos chegava? Que é feito da paixão com que vivíamos
tal espanto?
Diz-se que a invenção da fotografia consistiu
na inauguração de uma nova forma de desenho. Mas mais do que desenhar a
realidade com improváveis níveis de verosimilhança, a fotografia permitiu-nos
fixar o instante protegendo-o da voragem do tempo. Nunca antes o homem
conseguira com tanta eficácia travar a queda. A fotografia oferece-nos o
passado, regista a posteridade do instante. Ter uma fotografia apontada à
cabeça é, porém, estar sob ameaça. Olhamos para uma fotografia de quando éramos
crianças e apercebemo-nos de que já não o somos. Olhamos para a fotografia de
alguém que morreu e ressuscitamos a sua imagem no pensamento, embora saibamos
que na realidade a pessoa ali retratada é já tão-somente uma imagem que sobrou
da sua passagem pela Terra. A fotografia ameaça-nos com a constatação da perda.
Ela não exige a carteira sob ameaça de morte, ela oferece-nos a memória sob a
ameaça do esquecimento.
Penso agora nessas primitivas exibições de
fotografias animadas, imagens em movimento a que demos o nome de cinema.
Conta-se que os filmes de Lumiére causavam temor, apesar de não passarem de
álbuns de família em movimento. Na chegada do comboio, a locomotiva avançava na
direcção dos espectadores gerando-lhes a ilusão de que seriam esmagados. Em
1903, causou excitação a exibição daquele que pode hoje ser considerado o
primeiro filme de sempre. Em “The Great Train Robbery”, de Edwin S. Porter, uma
das personagens aponta uma arma na direcção da câmara. Ameaça disparar contra
os espectadores. Muitos gritavam e encolhiam-se, alguns chegavam a desmaiar,
outros fugiam. Eis a sala de cinema transformada em jardim, eis o Teatro, Éden
onde homens e mulheres voltam a andar nus, inocentes, ingénuos, recuperando o
espanto que causa temor e leva ao conhecimento.
Creio numa poesia que ande nua sem sentir
vergonha por isso, que mergulhe nas águas do Lete para nadar contra a corrente.
Poesia que… se não “recupera o ímpeto / do espanto”, pelo menos revigora-se
nesse sentido. Que é feito do espanto, da inocência com que olhávamos para as
coisas descobrindo-lhes respiração própria, única, singular? Os mortos
revelam-nos a condição, a fotografia aponta-nos o passado à cabeça, mas à
poesia pode convir o ânimo de uma vida que não se resuma a contar pelos dedos
quantos anos passaram. Entendendo a queda, o poeta mergulha a pique no delírio
inquieto das imagens, remove do corpo impurezas e aceita o mistério, nele já
não opera a lógica do pecado, porque ao mastigar os frutos não sente vergonha,
desnuda-se, oferece-se tal qual é, ri, chora, recorda, faz emergir nas palavras
o tempo recalcado, desperta a morte do sono silencioso do esquecimento. Há quem
nisto veja desespero, arte fundida pela técnica, logro, mas eu vejo fome de
viver, vontade de provar todos os frutos proibidos e fazer valer o tempo da
espera, vejo essa tão aterradora circunstância de ser-se livre, já não como
anjo, ainda não como besta, simplesmente como homem.
terça-feira, 21 de maio de 2019
UMA PARÁBOLA DE RAÚL GUSTAVO AGUIRRE
PARÁBOLA
Um pássaro leva o sol no coração.
Quando começar a cantar
ainda muito silêncio haverá na sua música
será possível compreendê-la
mas depois muito lentamente
a música crescerá
e ao ardente meio-dia
no imenso e furioso meio-dia
o pássaro e quem o seguia terão desaparecido.
Raúl Gustavo Aguirre (n. 2 de Janeiro de 1927 – m. 18 de
Janeiro de 1983), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta
Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da
colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús
García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 269.
segunda-feira, 20 de maio de 2019
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #18
Evitemos classificar idades na história dos homens. Em
tendo havido uma idade das trevas, quando terá sido a idade da luz? Dessas
épocas que dizem negras chegam-nos ecos luminosos, tal como nas eras mais
pacíficas descobrimos buracos negros de maldade. Pode o tempo difundir-se linearmente
ou a esmo, o que nos parecerá improvável é que nessa difusão predominem o bem
ou o mal, a virtude ou o vício, como gigantes inexpugnáveis. Em qualquer lugar,
em qualquer época ou era, sempre a história dos homens foi uma batalha interminável
entre bem e mal. Empédocles, o pré-socrático, terá sido quem primeiro
reconheceu no mundo a dinâmica das coisas universais. Assim era no seu tempo,
assim continua a ser no nosso.
Entre hoje e ontem podemos vasculhar nos escombros, nas
ruínas, nos destroços da batalha, que encontraremos sempre entre as vítimas quem
tenha ido para a vanguarda em benefício próprio ou pelo bem alheio. Só os
últimos, creiam, devem merecer o epíteto de grandes homens. Giovanni Pico della
Mirandola (1463-1494) foi um deles, apesar da morte prematura quase o ter
condenado ao esquecimento. Inimigos não lhe faltaram, desses com quem vale a
pena disputar o pensamento e dos outros, daqueles para os quais a contenda
rapidamente se afunda no pântano da calúnia e do insulto tosco. Quanto a estes,
não lhes guarda a história o nome. Àqueles o tempo perdoa as falhas.
Com apenas 31 anos de vida, Giovanni Pico desafiou as
regras do seu tempo propondo-se debater tudo quanto pudesse ser objecto de
discussão. Os opositores rapidamente o acusaram de ímpio, extravagante,
orgulhoso, herético. Respondeu-lhes com a Oratio de Hominis Dignitate (1480), discurso
que coloca a natureza ambivalente do homem tanto acima das bestas como dos
anjos. A nossa vantagem sobre as outras criaturas de Deus é sermos livres de
optar, degenerando até à brutalidade ou regenerando o espírito a caminho da
perfeição. Portanto, minhas filhas, o que ides encontrar neste Discurso Sobre a
Dignidade do Homem (Edições 70, Novembro de 1989) é um elogio da vontade, é uma
defesa da razão, é um hino à liberdade.
Educado para ser padre, para pensar e obedecer como
padre, ele fez-se filósofo. Enquanto tal, condenou tudo quanto pretendesse pôr
em xeque a liberdade do pensamento e o desígnio da razão. A ele devemos, numa
primeira instância, a separação das águas da teologia das águas da filosofia,
num tempo em que tudo não só se confundia como se cria único e indiscutível.
Não contra Deus, ele amou o homem. Amou o homem por amor ao homem, por amor à
razão e ao pensamento, porque só ao homem cabe decidir sobre o que pretende
ser: besta ou supremi spiritus? A escolha é vossa: «a partir do momento em que
nascemos na condição de sermos o que quisermos, que o nosso dever é
preocuparmo-nos sobretudo com isto: que não se diga de nós que estando em tal
honra não nos demos conta de nos termos tornado semelhantes às bestas e aos
estúpidos jumentos de carga».
A escolha é vossa, mesmo que múltiplos sejam os caminhos
para cada uma das opções. Em optardes pelo caminho do juízo, lembrai-vos de
como apenas com razão e amor podeis limpar a alma da sujidade e dos vícios que
a conspurcam: a inveja, a mentira, o despotismo, a avareza, o racismo, o ódio à
diferença, a intolerância, o etnocentrismo, o hiperbolismo, a mania de que se é
superior aos outros, o nepotismo, a cagança… Quanto ao mais, tentai viver o
mais apaixonadamente possível cada momento das vossas vidas, não desperdiçando
um segundo que seja com a vida daqueles cuja opção foi o atalho da brutalidade,
o caminho das bestas, o desperdício deste bem precioso e efémero que é estar
vivo.
TRÊS POEMAS DE RAÚL GUSTAVO AGUIRRE
A CAVERNA
Está-se bem na minha caverna.
E lá tudo é possível.
Não há rei mais poderoso
do que este ser solitário.
O único inconveniente,
é certa sensação
de que algo essencial
ocorre noutro lugar.
*
BOAS RELAÇÕES
Os reclusos detestam-se
mas apesar do rancor
tratam-se com educação.
Os reclusos detestam-se
mas contudo, por dignidade,
jamais falam com o guarda.
Os reclusos detestam-se
mas à noite mantêm diálogos
fingindo que falam sozinhos.
*
AQUELE QUE NUNCA APRENDE
Aquele que nunca aprende toca o fogo,
aquele que nunca aprende dá uma mão,
aquele que nunca aprende volta a andar.
Aquele que nunca aprende magoa-se
contra uma parede e contra outra
e depois contra outra e contra outra
e continua a caminhar.
Raúl Gustavo Aguirre, versão de HMBF a partir do original
coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en
Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis
García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 274, 270,
272.
quinta-feira, 16 de maio de 2019
GUILHERME DE FARIA
Querido amigo,
A vontade de te confiar boas notícias foi traída pela
conta-corrente dos dias. Exceptuando o bando de rolas que busca pouso na árvore
aqui defronte, regalando-me os sentidos do olhar e da audição, tem sido tudo
como sabes que as coisas são nesta terra lavrada por guerrilhas de manjerona. Se
ao menos esta gente se matasse a sério, enrolando a língua na garganta ou
bebendo até ao sufoco, o respeito seria outro. A gente chega a Vilar Formoso,
olha para trás e vê o quê? Um país de enfatuados, convencidos de que valem mais
do que tostões, um país de famintos a guerrear por pechisbeque, um país de
gloriosos pulhas com os bolsos cheios de reverências, um país de ladrões de bicicletas
a odiarem-se uns aos outros por pouco mais do que selins onde possam sentar cus
esgarçados por uma alimentação deficiente.
Meu amigo, queria saber toldar com silêncio esta minha
vista, recostar-me na sombra sossegada de um cântico e ficar de mãos nos bolsos
a olhar para o céu. Queria simplesmente aquietar o coração com coisas nobres
como a memória do teu rosto, mas sou fraco e débil. Não consigo desprender-me
de mim. Fúrias tempestuosas rebentam dentro da cabeça, espalham pelo sangue a
chuva ácida dos trovões, entre o relâmpago e o trovão já não sobra silêncio, apenas
crostas sobre crostas impedindo a circulação do ar. Às vezes paro, penso em
como seria plana a vida se pudéssemos beber os relâmpagos como quem mata a sede
numa nascente. Como seria plana e plena. Nessa luz colheríamos a energia que falta
para escalar o pensamento até aos cumes do silêncio, com essa luz mataríamos a
sede e a fome de todos quantos pensam que não vale mais a vida de um homem do
que a da rola que canta no seu pouso.
Sei, meu amigo, das putas que dançam nos salões, sei como
têm lugar cativo na sala de espectáculos, sei dos espectáculos e da vil
mediocridade dos actores, sei de tudo isso, já assisti, tenho assistido, vou
assistindo à exibição do rancor no pantanoso palco onde os patifes enterram o
nome e ocupam espírito e corpo, chamando a si públicos dispersos. Sei dessa
guerra que alimenta e entusiasma quem não tem filhos para cuidar. Sei do tempo
largado nas lixeiras como esperdício, ensopado em óleos de angústia, corpos nus
manchados de querosene aguardando um dedo que os incendei, um dedo que os
toque, desesperando por um dedo que os toque e incendei, sei, sei dessa fala
escarrando raivas, fala entupida pelo nojo, pelo ódio, pela inveja, fala
solitária entre fantoches heteronímicos, fala risível cavalgando injúrias, impropérios,
barroquismos, sei, sei, sei dessa corda que aperta a garganta e convulsiona o
próprio vómito.
Que poderemos nós, meu amigo, contra tal fala? Não mais
que sinalizar o ridículo da mensagem, concentrando olhar e ouvidos nas rolas
pousadas na árvore defronte.
A noite caiu ventosa sobre as ruas da cidade, as árvores
mantêm-se de pé. Amanhã os pedintes continuarão a pedir esmola nos mesmos
lugares, homens e mulheres sairão de casa a caminho do trabalho, deixarão
filhos nas escolas, meditarão no que fazer para o jantar. Amanhã alguém emigrará,
cruzando-se na fronteira com alguém que imigrou. Amanhã um funeral, um parto,
um casamento, amanhã uma espécie extinta, o fumo das chaminés, um planeta novo
sinalizado na vastidão do universo, amanhã uma chuva de estrelas, pulgas,
baratas, formigas, insectos, amanhã uma bomba, um incêndio, uma obra de arte,
amanhã o riso, a lágrima e um homem com uma câmara de filmar ao ombro registando
o amanhã.
Questiono-me, amigo, sobre o sentido deste agora face a
esse amanhã, penso-te de aqui nesse lugar incerto que é a morte e coloco a mim
mesmo a pergunta sem resposta: se morresse neste preciso instante, daria por
cumprida a minha festa?
Nota: Guilherme de Faria nasceu no dia 6 de Outubro de 1907. No dia 4 de Janeiro de 1929, seguiu até à Boca do Inferno e atirou-se para o mar. Estava descalço e levava um terço. O corpo foi encontrado no areal da Praia do Peixe.
quarta-feira, 15 de maio de 2019
CRÓNICA DE UM VENDEDOR DE SANGUE
Usados desde os tempos da China imperial, os dazibao
tornaram-se muito populares durante a chamada Revolução Cultural. Eram um
instrumento de delação que favorecia o anonimato, sem quaisquer filtros contra
a calúnia, o boato ou a mera intriga. Mao transformou-os num purgante social.
Cartazes enormes expostos publicamente, com as acusações mais diversas, levavam
à perseguição dos visados forçando sessões de crítica cujo fim último era a
humilhação ou a execução. Xu Yulan foi vítima de um desses cartazes, depois de
alguém a ter acusado de prostituição. Xu Sanguan, o marido, sabia que o mais
velho dos seus três filhos não era do seu sangue. Resultara, segundo Xu Yulan,
de uma violação. Ainda assim, Xu Yulan foi obrigada a permanecer vários dias
numa avenida da cidade com uma placa pendurada ao pescoço onde se lia: “Prostituta
Xu Yulan”. A história é-nos contada pelo escritor chinês Yu Hua (n. 1960) no
seu segundo romance, publicado em Portugal com o título Crónica de Um Vendedor
de Sangue (Relógio D’Água, Fevereiro de 2017). A tradução de Tiago Nabais foi
realizada a partir do original chinês.
A Revolução Cultural é um dos temas predilectos do autor,
aqui retratada a partir do drama de uma família que tudo faz pela sobrevivência.
Órfão de pai, abandonado pela mãe, Xu Sanguan é distribuidor de casulos numa
fábrica de seda. A pobreza leva-o a vender sangue como forma de subsistência,
esse bem precioso onde a própria vida se condensa. «Uma pessoa pode vender
farturas, pode vender a casa ou a terra… Vender sangue é que não. Mesmo que se
venda o corpo, não podemos vender sangue. O corpo é de cada um, mas o sangue
pertence aos antepassados» (p. 82), diz-lhe a mulher. Yu Hua relata esta vida
com comovente clareza, sem artifícios semânticos ou narrativos. A sua poesia é
como vento afagando as copas das plantas. Os diálogos são de uma simplicidade
desarmante, claros e objectivos como os gestos das personagens, gente humilde e
modesta com traços de carácter que sobressaem mais pela honradez das decisões
do que pela complexidade das reflexões. Porém, por detrás deste pano movem-se as sombras da miséria. Os cenários repercutem uma vida de privações e de
ignorância, a ingenuidade das pessoas é afectada pelo medo, há cedências à
corrupção e as hierarquias sociais surgem bem definidas.
A bondade no coração de Xu Sanguan comove-nos na mesma
proporção em que a maldade social que o rodeia nos repugna, uma faz a outra
sobressair em equilíbrio tipicamente taoista. Ele coloca a vida em risco pela
família, vende o seu sangue para garantir a sobrevivência dos que são do seu
sangue, mesmo do filho que sabe não ser seu. No fundo, esta Crónica de Um
Vendedor de Sangue é também a crónica de um conservador de sangue que acima da
sua existência coloca o valor da família. Ele sabe desse valor por lhe ter
faltado a sua, sabe quão importante para si foi ser ajudado por um tio que mal conhecia,
sabe da força desses laços que resistem a tudo quanto se lhes possa opor.
Sabe-o com a clareza das coisas puras. Mas também sabe como é fácil um homem perder
resistências, sejam elas morais ou físicas, cedendo às vontades mais mórbidas.
A vingança é uma delas. Por isso lhe ouvimos dizer aos filhos que quando
crescerem têm de violar as filhas do homem que lhes violou a mãe. A questão que coloca mais vezes ao longo de vinte e nove capítulos é: até onde
estás disposto a perdoar? Talvez a resposta seja mais simples do que parece,
talvez possa ser: até onde chegar a consciência dos meus erros, das minhas
falhas, dos meus desejos mais maldosos.
A história da família Xu não é diferente da história de muitas
famílias, apesar das circunstâncias que condicionam e definem a acção. O que a
torna especial é a sua dimensão simbólica. Yu Hua pretende retratar um período
específico da história chinesa desviando-se das singularidades políticas que
caracterizam o seu país. Por detrás desta família esconde-se o fantasma do
grande líder, do grande educador, daquele a quem o povo devia amar mais do que
à própria família. Daí que quando Xu Sanguan se propõe matar a fome dos filhos
cozinhando para eles com a boca — «Com a minha boca, vou cozinhar um
prato para cada um e vocês podem saboreá-lo com os ouvidos» (p. 118) —,
o que na realidade o narrador está a fazer é a denunciar as consequências sociais de um regime
numa determinada época. O que ele nos quer dizer é que Mao alimentava o seu
povo pelos ouvidos, deixando-lhes vazio o estômago. O resto já toda a gente
sabe como é: «Estava velho e no seu corpo corria mais sangue morto do que vivo»
(p. 236).
terça-feira, 14 de maio de 2019
GILLES DELEUZE
(...)
Basicamente, há que concertar os amanhãs, o futuro, vivendo as carteiras vazias do presente. O nosso problema é andarmos como formigas amestradas, domesticadas, para cá e para lá com os olhos postos num mês de férias em Vera Cruz. Como pode alguém adormecer descansado sabendo-se escravo do cansaço? Talvez metendo as mãos nos bolsos em dias de folga, passeando pela praia à procura de razões pelo que valha a pena continuar vivo e à procura de mais razões para não estar já morto.
(...)
Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, p. 43. Nota: padecendo há muito de diversas complicações respiratórias, Gilles Deleuze atirou-se da janela do apartamento onde vivia, em Paris, no dia 4 de Novembro de 1995.
MONDA
Quatro livros publicados: O Pequeno Mal (Edições
Sempre-em-Pé, 2011), El Segundo (edição do autor, 2015), RSO&SBC (Douda
Correria, 2018), este escrito a meias com Ramiro S. Osório (n. 1939), e Monda
(Edições Sempre-em-Pé, Abril de 2019). No jornal Público, Luís Miguel Queirós
referiu-se-lhe há tempos como uma voz dissonante da novíssima poesia portuguesa.
Colocando de lado a problemática dos novíssimos, podemos indagar a questão da
dissonância. O que os poemas coligidos em Monda oferecem de incomum no vasto, díspar
e complexo mundo da poesia portuguesa actual é o culto da rima, realizado com apuro
rítmico que não é frequente encontrarmos nas novas gerações. O poema Champanhe
é bom exemplo:
Na noite em que inventaram o bagaço
Vim a saber depois
Pensaram em nós dois
Na noite em que inventaram o bagaço
Como que por magia
Sabiam que eu havia
De o usar pra puxar o lustro ao espaço
Até os olhos doerem de brilhantes
Porque goste-se ou não
É assim que as coisas são
E nunca voltam a ser como eram
Dantes.
Mas o título deste poema denuncia o seu tempo. Champanhe
é fruto da ironia, figura de retórica altamente vulgarizada nos dias correntes.
A poesia de Sebastião Belfort Cerqueira (n. 1987) encaixa lindamente nos carris
instaurados no século XX português por um poeta como Alexandre O´Neill. De
resto, é nele que pensamos quando lemos o poema Paisagem da página 29: «Fico
como o do cherne / Contente com o empate» (p. 29). Também muito de agora é a
salada de referências mais ou menos óbvias. Da citação roubada aos Fleetwood
Mac para epígrafe do livro a um poema evocativo do poeta norte-americano Shel
Silverstein, da dedicatória a Ramiro S. Osório a uma evocação de Roberto Carlos
— «E que tudo o mais / Vá prò inferno» (p. 60) —, muitos são os faróis que
alumiam estes versos. Alguns de convivência improvável. Esta é uma das características
mais sedutoras de Monda, a capacidade de conciliar a inquietação de um
Álvaro de Campos ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra com o punk
desabrido de uns Butthole Surfers.
Inquieta ou indiferente, desinteressada ou melancólica, esta poesia exibe no seu aspecto mondado uma pulverização
de referências da qual absorvemos um prazer de leitura a que não há-de ser
alheio o divertimento da escrita. O sol, o mar, dias lindos, como que surgem
envoltos na incerteza de uma piada. O cinismo do discurso recorre ao jogo
semântico, como nesse Terceiro poema sobre o mar em que a preposição “sobre”
surge com o duplo sentido de “em cima de” e “acerca de”: «Sobre o mar / Como um
destroço / À procura de ir ao fundo / Da questão que ninguém pôs / (Chama-se
sol)» (p. 15). Por vezes o poema resvala para o autoquestionamento, mas sempre
com a clara intenção de lhe retirar qualquer “importanticidade”. Pode um poeta
assim ser acusado de ligeireza, o que em si mesmo não é defeito nem virtude. Em
nada havendo a perder ou a ganhar, o que interessa, no final, é o usufruto livre
das palavras. E estes poemas sugerem essa liberdade, porventura epicurista na
raiz filosófica que possam ter: «Vou passar a tarde a rir / Como um perdido»
(p. 25). Onde outros escrevem lágrima, Sebastião Belfort Cerqueira escreve
riso, onde aqueles escrevem tristeza, este grafita alegria, onde alguns
mergulham na dor, este procura fazer emergir o prazer, onde aqueles cultivam
melancolia, o autor de Monda parece colher contrastes. Ganha o leitor com a
diversidade.
domingo, 12 de maio de 2019
GÉRARD DE NERVAL
A derradeira loucura que provavelmente me resta,
será a de me julgar poeta: cabe à crítica curar-me.
(...)
De vez em quando, batíamos cartas sobre o tampo da mesa e feríamos as nozes dos dedos, de vez em quando jogávamos um dominó como quem paga as despesas do afecto, mas não me recordo de um abraço que fosse antes desse dia em que, por ambição ou desistência, ele me viu vencer a minha primeira aposta pessoal.
O mais das vezes, senti-me apenas como a sombra que se encosta à parede e se esmurra à falta de um corpo para esmurrar. Uma espécie de fatia de queijo entre o aconchego da lâmina e a ternura do cimento.
Duvido que o pai pudesse fazer muito mais por mim, duvido que eu próprio possa vir a fazer alguma coisa por ele. Resta-me aguardar que a ferrugem tome conta do ferro e nas margens do livro escrever cen-su-ra, porque aos dramas domésticos eu lancei sempre os ratos de biblioteca.
(...)
Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, pp 41-42. Nota: depois de várias crises psicóticas, seguidas de
internamentos sucessivos, Nerval foi encontrado enforcado, numa rua de Paris,
a 26 de Janeiro de 1855.
sábado, 11 de maio de 2019
PALHAÇO RICO OU POBRE?
Joe Berardo é um homem de negócios. Eu não gosto de homens
de negócios, da mentalidade que os comanda: lucro, lucro, lucro, lucro. Mas
seria interessante pedir aos indignados deste país, a começar pelos opinantes de serviço, que explicassem o que pretendem para o mundo. Enquanto
homem de negócios, pelo que me apercebo, Berardo simplesmente se aproveita/ou, com as
vantagens de supostamente ter muito dinheiro e influência, de um sistema
altamente permeável a este tipo de homens de negócios. Em que mundo pensam as pessoas
que vivem? Afinal, o que querem os liberais e os capitalistas deste país? O que
esperam? Um sistema mais vigilante? Ou têm fé no bom coração dos homens de
negócios. O mercado regula-se a si mesmo? Como? Onde? Com quem? Palhaços ricos, pobres de espírito?
sexta-feira, 10 de maio de 2019
CRIOULO DO UNIVERSO
O oceano branco circula no meu coração
enquanto canta outro oceano de prata dourada,
que se solta das águas do sol.
Já é demasiado tarde para ser só de uma província,
e
muito cedo para pertencer,
todo,
ao
planeta vindouro e sangrante
resplendor.
Oh, acode, acode minha hierarquia de peão do planeta,
gaúcho
com tranças de sangue,
meu
pai,
e aparelha-me o melhor cavalo ruão do universo:
para atravessar a água dourada da morte,
e
ouvir-me,
todo,
sempre em ti.
O oceano branco soluça pela imortalidade.
Francisco Madariaga, versão de HMBF a partir do original
coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en
Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis
García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 264.
quinta-feira, 9 de maio de 2019
TRADUZIR COHEN
Se não cabe na cançoneta, se não entra na pauta da nossa
cabeça, a letra portuguesa é só um esqueleto patego servido a frio, como as
tripas do Porto que o poeta enjeitou como placebo do amor. Há ainda problema
maior: aquilo sem a espessura sonora da língua ligada originalmente à música,
só a ferros se aguenta, fica ali mutilado e sofrível quando sozinho na página
ou tela, em branco.
dama, aqui.
quarta-feira, 8 de maio de 2019
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #17
Tal como nos são oferecidos desde a infância, os conceitos
têm dupla face. Se nos ajudam a organizar, acabam mais tarde ou mais cedo por nos trair. Ao Zen
podemos chamar filosofia prática. Correto seria, porém, que lhe chamássemos apenas Zen. Zen é Zen. Nesta simplicidade, minhas filhas, repousa adormecida a
incomensurável sapiência. Despertemo-la. Como? É um mistério. Apenas a vida
poderá oferecer saber à vida, apenas a experiência, a observação, a meditação.
Do lado de cá da barricada tudo se constrói por parábolas, metáforas, axiomas.
Os ocidentais cresceram a falar das coisas, os orientais crescem a falar com as
coisas. Isto até se ocidentalizarem.
O problema está, um dia podereis constatar, em fazer de
tudo um problema. Vede como Sen no Rikyū resolvia a questão: «O chá não é mais
do que isto: / Ferve-se a água / Faz-se uma infusão com chá / E bebe-se… / É
tudo o que é necessário saber». Nesta concentração no necessário nos aproximamos,
unimo-nos na busca do essencial, a raiz está na base. Também Epicuro, de quem vos
falei, apelava ao estritamente necessário. Não cantava assim o urso Balu ao jovem Mogli? Em parando para pensar, o tormento
coloca-se-nos: para que quer tanto alguém que tem apenas por certo a morte?
Sabendo-se finito, por que desperdiça o homem seu tempo com ruídos desgastantes,
com a tagarelice do pensamento, com absurdos existenciais?
Ainda não chegámos lá, reconhecemos. O silêncio é o mais
árduo dos caminhos, exige-nos despojamento, acção na inacção, exige que sejamos
conforme a clareza das constatações. Somos bestas colectoras. Para quê ambicionar a lua se ela
vem até nós? Basta, minhas queridas, que o coração se predisponha a recebê-la que se
abra à sua luz nocturna. Mais do que na cabeça, Zen aloja-se nos pulmões, na
respiração, como ele a poesia dissemina-se pelo ar, o pólen que floresce de
estação para estação. É mistério, «no momento em que um pensamento o toca,
desaparece». O mais aprende-se com silêncio, no silêncio, pois este é meio e é fim. Mesmo quando em retiro a ironia nos desmente. Observai os quatro monges
num retiro de silêncio absoluto:
A vela apagou-se!, diz o mais jovem dos monges.
— Não deves falar! É um sesshin (espécie de retiro) de
silêncio total, — observa severamente um monge mais velho.
— Porque falam, em vez de se calarem, como tinha sido
combinado! —
faz notar com humor um terceiro monge.
— Sou o único que não falou!, diz com satisfação o quarto
monge.
Está a graça na desgraça. Assim andamos na vida, a falar
por cima do silêncio a que nos propomos. A contradição não é motivo de censura,
antes factor de aprendizagem. O desafio está em superar tamanha contradição.
Zen coloca-nos perante este desafio como o mestre que diz ao discípulo: caminha
parado, no presente está a eternidade. Temos muito a aprender com Os Melhores
Contos Zen, mesmo que não sejam os melhores, mesmo que tais classificações
impliquem já uma selectividade contrária ao próprio Zen. Samurais, monges,
velhos poetas, viajaram em busca da liberdade através de um sonho bem desperto:
desfazerem-se do Eu. Como pode alguém desfazer-se do Eu? Ora, ora, simplesmente
desfazendo.
QUEIMÓDROMO
Uma jovem com cerca de 20 anos foi encontrada seminua e
aparentemente embriagada numa zona de vegetação, lateral ao Queimódromo,
junto à Circunvalação, no Porto, na manhã desta quarta-feira. Por mostrar
sinais de provável agressão e haver suspeitas de violação, a mulher foi
transportada para o Hospital de Pedro Hispano, em Matosinhos.
Notícia de hoje, aqui.
FLORBELA ESPANCA
(...) Assim é difícil esquecer-te. Porque agora mesmo te vejo aí a dançar, sem rosto, como uma mentira que corrói o caos dos sonhos. Pensando o quê, pensando o quê, pensando-te nas vibrações de uma guitarra, pensando que deveria ter apanhado cada uma das conchas que deu à costa com a tua voz escondida lá dentro. É possível que depois da paz todas as guerras ganhem o sentido das giestas, é possível que a usurpação da palavra, o plágio, a inspiração, tornem úteis a ressonância, é possível que a repercussão do teu peito nas macieiras traga aos desejos alguma utilidade, é possível que alguém encontre algures no teu vazio a matéria com que preencherá os vasos da sua vida e daí produza em série belíssimas esculturas para adornar salas de espera para doentes terminais. Conchas com vozes escondidas lá dentro. Ora aí tens. (...)
Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, pp. 39-40. Nota: antes de lhe terem diagnosticado um edema pulmonar, Florbela já havia tentado suicídio por duas ocasiões. À terceira foi de vez. No dia 8 de Dezembro de 1930 faleceu com uma "overdose" de barbitúricos.
terça-feira, 7 de maio de 2019
"cromos que tanto gostam de sair repetidos"
É só ir às imagens do Google, não custa nada. Fica amostra acima, o suficiente para percebermos dos problemas de consciência desta triste criatura. Passa a vida a falar dos outros como quem confessa pecados, o betinho reguila. Já me chamou de tudo, agora estranho apenas o tom de professorzeco a dar lições sobre dilemas de escritores e mais não sei quê. Tipo genial, uma mente brilhante. Aproveitem-no.
ESTE AMOR QUE ME ENTERNECE
O mais recente número da revista LER traz chamada de
capa para um artigo do Bruno Vieira Amaral onde se responde à questão “Quem são
os novos valores da nossa literatura?”. Eu sou um dos felizes contemplados.
Como seria mais do que previsível, o meu amante secreto não perdeu tempo. Aí está ele,
novamente, a mostrar quão concentrado vive a sua vida na minha vida.
Adora-me, ama-me, não me larga. Ainda faço como o vocalista dos UHF e escrevo
um livro sobre este enternecedor caso de stalking. Os outros escritores
contemplados no tal artigo são Djaimilia Pereira de Almeida, Carla Pais, Sandra
Catarino, Manuel Filipe Mochila, Filipa Martins, Rui Lage. O Bicho podia ter
escolhido qualquer um deles para manifestar a sua repugnância pela prosa em
causa, escolheu-me a mim porque me ama, venera-me. E eu sinto-me amado como
nunca me senti. Se fosse questão de idades, podia, por exemplo, ter falado no bom Lage (n. 1975). Ah, mas ele publicou-o na Língua Morta. Se as suas dores de barriga
tivessem que ver com o facto de alguém escrever em vários géneros (o que é isso dos géneros literários?), ele também tinha muito por onde pegar. Lembrou-se de mim. Se fosse o tipo de
artigo em si, podia ter apontado o dedo ao Miguel Filipe Mochila. Mas como,
se lhe dedicou todos os elogios lá no pasquim onde regurgita bílis, contra
todas as probabilidades tendo em conta o seu acérrimo combate aos núcleos
afectivos? Afinal, não tem Mochila traduzido para a Língua Morta? Este
rapaz ainda há-de acordar um dia, olhar-se ao espelho e ver a fronha de
ranço que foi ganhando ao longo dos anos. Só lamento constatar o tempo
perdido por tão jovem talento com esta velha carcaça. Há vidinhas mesmo
infelizes, porra. E isso mete dó. Clique na imagem para ver melhor. Se tiver interesse neste caso de amor pode seguir para aqui, aqui, aqui. Aviso: cuidado com os cheiros.
segunda-feira, 6 de maio de 2019
FRANCISCO MADARIAGA
CANÇÕES NUMA VIAGEM A CAVALO
1
Os cavalos nascem para amar secretamente como as
madrugadas.
2
Os cavaleiros viajam com ponchos de pele de cervos celestes manchados de sangue.
3
Uma dor como o chilreio de um pássaro de água, perdido na
imensidão.
4
O amor de um guerreiro cuja lança tem aço de água.
5
O terror de paisagens afundadas com os tesouros do Diabo.
6
Há uma certa água de ouro na imensidão:
apenas Jesus
Cristo e Rimbaud a conheceram.
7
Conservar sempre uma talha dessa água.
Francisco Madariaga nasceu a 9 de Setembro de 1917 na
Provincia de Corrientes, vivendo até à adolescência rodeado da Natureza
selvagem. Influenciado pelo idioma guarani, manteve forte atracção pelas
raízes. Estudou em Buenos Aires, aproximando-se dos surrealistas que publicavam
na revista Letra y Línea. Publicou o primeiro livro de poesia em 1954, com o título
El pequeño patíbulo. Foi Premio Nacional de Poesía em 2005. A sua poesia é
marcada por um forte contraste entre a paisagem selvagem da infância e a
mundanidade urbana de Buenos Aires. Versão de HMBF a partir do original
coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en
Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis
García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 265.
Etiquetas:
Francisco Madariaga,
Versões,
Volta ao mundo em poesia
Subscrever:
Mensagens (Atom)


























