quarta-feira, 12 de junho de 2019

#112



Fui a Valado dos Frades ver um sexteto, mas regressei com um quarteto debaixo do braço. Mário Santos (n. 1965) é o responsável por tamanha anarquia, ele que chegou a integrar grupos de música pop mas também tocou com respeitáveis nomes do jazz. Em trio, quarteto ou sexteto, o saxofone tenor de Mário Santos é uma pérola incapaz de desiludir. Se bem julgo saber, Nuvem (2011) é o segundo álbum de Mário Santos. A acompanhá-lo estão um experiente contrabaixista, de seu nome António Augusto Aguiar, o baterista Marcos Cavaleiro e um guitarrista de mão-cheia chamado Miguel Moreira. Este quarteto foi formado em 2009, pelo que passados 10 anos, mesmo com dois elementos adicionais nos sopros, a cumplicidade entre todos é evidente. Ao vivo, a guitarra sobressai entre os demais enquanto componente experimental. A bateria é o recurso mais discreto. Mas no CD surge tudo mais naturalmente equilibrado. Os cinco temas que compõem Nuvem exibem estruturas melódicas diferenciadas, sendo Entre as Margens aquele em que a guitarra mais se afirma como elemento dominante. Dança no Ventre estabelece inicialmente uma atmosfera nostálgica, evoluindo depois para ritmos que de algum modo sugerem, tal como o título, uma viagem por paisagens menos identificáveis. O contrabaixo é uma maravilha. Da Nuvem colhemos diálogos entre formas abstractas, com o saxofone a introduzir a atmosfera, o contrabaixo tocado com arco e a guitarra a divagar como vento. São mais de doze minutos que nos transportam por tempestade e bonança. Tanto no CD como ao vivo a viagem nunca é insuportável, ou seja, não nos golpeia com turbulências nem nos enfada com engarrafamentos, flui com naturalidade, transita sem choques nem acidentes de percurso. Beleza, como diria o meu amigo Jairo.


Sem comentários: