Fui a Valado dos Frades ver um sexteto, mas regressei com um
quarteto debaixo do braço. Mário Santos (n. 1965) é o responsável por tamanha
anarquia, ele que chegou a integrar grupos de música pop mas também tocou com
respeitáveis nomes do jazz. Em trio, quarteto ou sexteto, o saxofone tenor de
Mário Santos é uma pérola incapaz de desiludir. Se bem julgo saber, Nuvem (2011)
é o segundo álbum de Mário Santos. A acompanhá-lo estão um experiente
contrabaixista, de seu nome António Augusto Aguiar, o baterista Marcos
Cavaleiro e um guitarrista de mão-cheia chamado Miguel Moreira. Este quarteto foi
formado em 2009, pelo que passados 10 anos, mesmo com dois elementos adicionais
nos sopros, a cumplicidade entre todos é evidente. Ao vivo, a guitarra
sobressai entre os demais enquanto componente experimental. A bateria é o recurso
mais discreto. Mas no CD surge tudo mais naturalmente equilibrado. Os cinco
temas que compõem Nuvem exibem estruturas melódicas diferenciadas, sendo Entre
as Margens aquele em que a guitarra mais se afirma como elemento dominante.
Dança no Ventre estabelece inicialmente uma atmosfera nostálgica, evoluindo
depois para ritmos que de algum modo sugerem, tal como o título, uma viagem por
paisagens menos identificáveis. O contrabaixo é uma maravilha. Da Nuvem
colhemos diálogos entre formas abstractas, com o saxofone a introduzir a
atmosfera, o contrabaixo tocado com arco e a guitarra a divagar como vento. São
mais de doze minutos que nos transportam por tempestade e bonança. Tanto no CD
como ao vivo a viagem nunca é insuportável, ou seja, não nos golpeia com
turbulências nem nos enfada com engarrafamentos, flui com naturalidade, transita
sem choques nem acidentes de percurso. Beleza, como diria o meu amigo Jairo.

Sem comentários:
Publicar um comentário