sexta-feira, 14 de junho de 2019

JACK LONDON


(...)

Os meus olhos vêem-te por todo o lado sob todas as formas. E eu mudo-te o nome a cada instante. És igualzinha a um banho de sol em delírio, a uma guitarra distorcendo as ancas que dançam e pulam e giram e se abanam como se quisessem espanar do ar as poeiras que o vento traz. De onde traz o vento todas estas poeiras? Não quero saber. Já preparei a mochila, em breve seguirei por aí à procura de um rumo para os estilhaços espalhados pelo chão. Estou no ir. Há algo no ar que o vento traz, estou no ir. Todas as evidências enterradas, um passado inteiro atirado para a berma da estrada, estou no ir, uma ossada ganhando músculos, desabrochando, os nervos crescendo no corpo como uma flor na terra, sementes de pele rebentando sobre a carne viva, desnascer só pode ser isto, estar no ir, e eu estou a chover dentro de mim próprio para que alguma coisa nova nasça, estou a fecundar as terras do meu corpo para que alguma coisa nele brote, alguma coisa que se possa cultivar sem os cuidados das hortas lavradas, alguma coisa selvagem, um silvado carregado de amoras, um silvado excessivo onde alguém mergulhará cada um dos seus anseios para de lá sair com o corpo cravado de espinhos, estou a flectir as pálpebras, a revirar os olhos para melhor observar o que dentro me vai impedindo de estar em sintonia com o que está fora, estou no ir. Podes ficar com a poesia.


Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, p. 56. Nota: não é certo que Jack London se tenha suicidado, mantendo-se ainda hoje a questão em aberto. A certidão de óbito fala de uremia após cólica renal aguda. Vários biógrafos apontam o consumo excessivo de morfina, por causa das dores motivadas por diversos problemas de saúde, como a causa principal da morte.