quarta-feira, 31 de julho de 2019

KONSTANTIN BIEBL


   Não é justo pedir mais do que a neblina matinal entre os ramos das árvores, o milhafre atentamente pousado num desses ramos, o vento sacudindo-lhe a penugem lenta. Não é justo esperar mais do sino na torre da igreja do que um aviso marcado pelo rigor das horas, andar pelo átrio à procura de pegadas extintas, não é justo, sabendo que ali todos os casamentos começaram um dia a desfazer-se.
(...)
   Nenhum Deus fez nascer do nada a Terra que pisamos, fomos nós que fizemos nascer da Terra este som voraz que nos engole e exige: espanta-me de futuro, traz-me às mãos algo que desconheça. Porque não é justo pedir mais do que poemas assim, árvores atravessadas pela neblina matinal. E um milhafre atentamente pousado nesses ramos.


Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, pp. 62-63. Nota: Konstantin Biebl (1898-1951) nasceu em Slavětín, actual República Checa. Foi um dos fundadores do surrealismo checo. Uma doença no pâncreas e a depressão terão contribuído para que saltasse da janela de um quinto andar em Praga. 

terça-feira, 30 de julho de 2019

PIOLHO, N.º 27 (último)


Piolho - Revista de Poesia
N.º 27
Arranjo gráfico de Mireles de Pinho
Edição de António S. Oliveira
Edições Mortas / Black Sun Editores

Abóbora, pp. 7-8.


UM POEMA DE MARIA AVELÃS

Aqui estão as pernas
que até mim te trouxeram
tão certas e firmes.

Aqui está o quarto
onde um dia nasceste
mas nunca moraste.

Perguntas ao vento que
passa se a tua sorte
vai mudar.

Claro que vai mudar,
se as tuas pernas
sabem o caminho
para a nossa casa
que ainda não existe.

Maria Avelãs, in As Sobras da Festa, Medula, Abril de 2019, p. 24.

O MEU CORAÇÃO SÓ TEM UM LADO



Os índios Wajãpi, que se espalham por um pedaço da Amazônia brasileira, são uma das memórias vivas mais antigas deste país. Viviam na floresta amazônica desde antes que o Brasil fosse descoberto em 1500, e sobreviveram todos estes séculos graças à relação simbiótica que mantêm com a natureza. Cuidam dela, e ela cuida deles. Apesar de levar tanto tempo ali, só conseguiram demarcar suas terras legalmente em 1996, durante o Governo de Fernando Henrique Cardoso. Mesmo assim, são constantemente acossados por madeireiros e garimpeiros ilegais. Por isso, se movem pela selva para defender suas fronteiras. Sabem que são alvo potencial de interesses dos não índios, como eles chamam as demais raças.


ESTE LIVRO VAI SER PUBLICADO


Mais informações: aqui. Mas vão directamente para aqui e contribuam. E partilhem, divulguem. 

segunda-feira, 29 de julho de 2019

UM POEMA DE GIANNI SICCARDI

CIGARRAS

Boa noite.
Silêncio.
Os meus pais dormiam
emendavam.

Em casa todos dormiam
e nas casas vizinhas.
Apenas estavam acordados umas cigarras
e a criança que eu era.
Algo palpitava na obscuridade.

E esses sons breves e regulares?
Um forte
e dois fracos.
Será uma dança nocturna
ou um telhado a gotejar suas lamentações?
O mugido distante do comboio
apoderava-se da obscuridade.
A almofada apenas sustentava a minha cabeça.
Sim, mais uma vez
o mais meu do dia era a noite.
Abandonava a mortalha de lençóis
e sigiloso
levava o meu corpo até ao pátio
para escutar o chafariz
as plantas
que respiravam à vontade.
As estrelas ao alcance da minha mão
a cruz do sul
as três marias
os sete cabritos
observávamo-nos longamente.
Elas eram elas
eu era eu.
Atravessávamos a noite.

O mundo fez o seu trabalho
a minha astronomia é um pouco mais complexa
e agora sei que não eram cigarras, não
eram apenas grilos
só um ou dois grilos.

E já não há quem durma na casa
não há danças
nem telhados
nem comboios.
Não há lamentações.

Não há casa.

Mas ainda
o mais meu do dia permanece na noite
e a almofada
apenas sustenta a minha cabeça.
Há que dar ao mundo
o que é do mundo
e ao ser
o que é do ser.
Abro a janela deste décimo segundo andar
as estrelas continuam onde estavam
observamo-nos longamente.
Sinto que atravessamos a noite.

Algo aqui palpita na obscuridade.

Eram cigarras, sim
eram cigarras.



Gianni Siccardi, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,pp. 324-326.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

NÚMERO


O homem invisível é o trabalhador moderno. Ninguém o vê, não passa de um nome ou número na base de dados. Quando resolve mostrar-se, todos perguntam: quem é você, o que faz aqui? Ninguém acredita no que ele diz, no que ele diz que fez, particularmente aqueles que lucraram com o que ele fez. É nesse momento que o trabalhador moderno melhor entende a sua invisibilidade. Pelo menos uma vez na vida, toda a gente devia levantar o dedo no meio da turma e dizer: estou aqui, tenho uma questão. Responder à chamada não basta, é preciso mostrar que não se é apenas mero número.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

O UNIVERSO & OUTRAS FICÇÕES



   Num ensaio intitulado “Quando a ficção vive na ficção” (1939), o escritor argentino Jorge Luis Borges (n. 1899 – m. 1986) oferece ao leitor vários exemplos do que ele considera ser o problema do infinito na literatura. Dentro de uma história podem coexistir várias histórias, como um espelho voltado para um espelho ou um sonho onde alguém sonha: «Ao processo pictórico de inserir um quadro num quadro, corresponde nas letras o de interpolar uma ficção noutra ficção». Estes “labirintos verbais”, afirma Borges, encontram no romance “At Swim-Two-Birds”, de Flann O’Brien, um exemplo maior. Foi publicado entre nós pela Cavalo de Ferro, com o título “Uma caneca de tinta irlandesa” (Março de 2013), e conta a história de um estudante de Dublin que tenta escrever um romance sobre um taberneiro que, por sua vez, escreve um romance sobre os seus clientes, os quais também escrevem romances onde figuram o taberneiro e o tal estudante…
   Coincidentemente, ou nem por isso, “O Universo & Outras Ficções” (Companhia das Ilhas, Abril de 2019), de Carlos Alberto Machado (n. 1954), abre justamente com uma viagem a Dublin e o encontro inesperado com Pierre Menard, personagem de Jorge Luis Borges. Menard oferece ao narrador «os últimos textos escritos por Jorge Luis Borges”, um conjunto de papéis dactilografados com o título “O Universo & Outras Ficções”. Estamos no Atrium de um labirinto tipicamente borgesiano, sendo clara nos contos seguintes a intenção não só de fazer com que a realidade pareça irreal, mas também a de gerar uma enorme suspeita sobre o que se lê. Arrumados em três conjuntos, estes contos exploram essa noção de realidade na ficção situando-se num limbo que gera espanto e desconfiança. Tudo neles parece verosímil, sendo que nada neles parece autêntico.
   Se dermos um salto para a última ficção, a qual oferece título ao conjunto, torna-se evidente o propósito. Um académico presta homenagem ao seu tio Alexandrino Fonseca, o qual empreendeu em vida um projecto interminável que o nosso académico classifica de “Romance-Universo”. E que projecto foi esse? Uma gigantesca colecção de objectos e documentos, registos e arquivos, sobre as pessoas que conheceu ao longo de mais de trinta anos de vida profissional. Milhares de caixas com informações que se cruzam entre si, numa teia interminável de relações labirínticas. O relato coloca-nos perante uma situação que não é absolutamente desprovida de veracidade, sendo possível encontrar na história da humanidade factos que a tornariam bastante plausível. Mas a dúvida que tal situação nos suscita é sobre a própria natureza da ficção. Se o que aqueles arquivos continham eram factos, o projecto de lhes conferir uma organização é já “mise-en-scène”. Logo, estamos no domínio da ficção.
   No segundo conjunto de histórias deste livro empreende-se uma viagem por lugares e culturas, povos e civilizações, que nos transporta para dimensões imaginárias, deixando-nos de igual modo suspensos quanto à plausibilidade dos factos narrados. A arquitectura é exótica, mas o jogo mantido com a ideia de extinção leva-nos a supor um registo antropológico que, não sendo factual, simula eficazmente a realidade: «Hoje, Hasrai sonha com os ur, de que tanto ouviu falar. Num tempo já perdido no tempo, os güonerhi tinham a capacidade de, perdido um objecto, encontrar não apenas esse objecto mas também um outro, um hrönir, um objecto mais ajustado à expectativa dos que o procuravam contudo, quase sempre de forma desgraciosa e de maior tamanho. Mas, para a imaginação de Hasrai, nada como os ur objectos segundos produzidos por sugestão, os objectos deduzidos pela esperança. Hasrai sonha, pois» (p. 77). Sonhando ou não, parece-me que podemos tomar a experiência de Hasrai como um ensaio acerca da ficção. Sem prejuízo da realidade, obviamente.

DISTÂNCIAS HIGIÉNICAS


Devemos ser o país com mais malditos por metro quadrado. O mais triste do fenómeno está na leviandade com que vai sendo encarado. Na vez de distâncias higiénicas, muitos acham «giro por ser do contra» e, portanto, não o contrariam, dão-lhe trela. O que podia ser polémica, acaba em pirotecnia no lodo, que não há azul nem alto para o filho-da-puta. Em nome da amizade, ainda gasto tempo em explicações, mas acabo constatando a inutilidade. Quando o cão raivoso morder quem agora o acaricia, talvez se retire alguma lição. Temo que não.


João Paulo Cotrim, aqui.

EM BUSCA DO CONTEXTO PERDIDO


   Depois de uma intelectual consagrada nas páginas do Público, aí temos um intelectual em Downing Street. Há que relativizar a relevância dos cargos. Assinalemos esta propagação de intelectuais de direita num mundo que à cabeça tem um tal de Donald Trump. Precisamos de intelectuais na política desde que ela se esvaziou de pensamento político, carecemos de ideias profundas e de gente que sabe pensar, andamos ressacados de doutrina e de argumentos lógicos sobre que rumo dar às nossas vidas. 
   São muitos os aforismos implacáveis atribuídos a Boris Johnson, todos eles obviamente descontextualizados. Mas ainda que fora do contexto, escutemo-lo: 

- Johnson foi criticado depois de afirmar que Sirte, uma cidade na Líbia, teria um futuro promissor enquanto resort de luxo depois dos investidores “limparem os cadáveres”; 
- em Agosto de 2018, Boris escreveu uma coluna no Telegraph onde partilhou a sua opinião sobre o uso de burcas e niqabs em espaços públicos, na Dinamarca: “é absolutamente ridículo que as pessoas optem por se vestirem como caixas de correio”; 
- na campanha eleitoral de 2005: “Se votarem no Partido Conservador, a vossa mulher vai ter seios maiores e a vossa probabilidade de terem um BMW M3 vai aumentar”; 
- recuando até 2008, Johnson foi altamente criticado por publicar um artigo no Spectator em que acusou os negros de terem um nível de inteligência inferior aos dos orientais: “Os orientais … têm cérebros maiores e níveis mais altos de QI. Os negros estão do outro lado”; 
- sobre um país chamado África: “A esperança média de vida em África aumentou substancialmente à medida que o país entrou no sistema económico global”… 

São meros exemplos do pensamento intelectual de direita. Falta o contexto, claro. Procure-o quem estiver interessado.

INTELECTUAL DE DIREITA



He comes, he sees, he plays with the gadgets...Boris Johnson has been behind the wheel of some of the world's fastest, most luxurious cars. Now he's going to reveal exactly what it was like.

Protótipo de intelectual de direita numa cultura superior. Não fôssemos superiores, o que seríamos nós?

terça-feira, 23 de julho de 2019

A ÁRVORE DO DESAPARECIMENTO



   Desde a publicação da antologia “Sud-Express” (Relógio D’Água Editores, 1993) que a poesia de expressão francesa não tem merecido especial atenção por cá, sobretudo se compararmos com a de autores anglófonos. Poderão existir várias razões que expliquem o facto, desde a hegemonia da língua inglesa no mundo actual à vitalidade da poesia em países como Inglaterra e Estados Unidos da América. Livros como “Figuras do Muito Obscuro” (Cavalo de Ferro, 2005), do belga Yves Namur (n. 1952), e o mais recente “Alguma coisa negro” (Tinta-da-China, 2017), de Jacques Roubaud (n. 1932), são excepções que confirmam a regra. Acrescente-se agora este “A Árvore do Desaparecimento” (Editora Exclamação, Junho de 2019), de Jean Portante (n. 1950).
   Nascido no Luxemburgo, Jean Portante é autor de vasta obra distribuída por vários géneros. Além de poesia, publicou contos, teatro, romance, uma biografia de Allen Ginsberg. Com “L’Etrange langue” venceu o Prémio Mallarmé em 2003, tendo-lhe sido atribuído no mesmo ano o relevante Grand Prix d’Automne de la Société des Gens de Lettres. Estreou-se na poesia, em 1983, com o livro “Feu et boue”. “L’arbre de la disparition” data de 2004, chegando a Portugal com tradução de Rosa Alice Branco. 
   No prefácio assinado por Lionel Ray (n. 1935), também ele poeta e ensaísta francês, afirma-se que «A arte de Jean Portante relembra a dos poetas barrocos, é um teatro de surpresas da linguagem, uma fusão alegre de imagens, de minúsculos enigmas e de hipérboles». Poderá não ser a porta de entrada ideal para uma comunidade de leitores aparentemente mais inclinada para linguagens poéticas depuradas, porventura narrativas e semanticamente despojadas. Mas aquilo que Lionel Ray aponta como sendo um “teatro de surpresas da linguagem” talvez esteja mais relacionado com os jogos formais a que Portante submete os poemas do que com excessivos e escusados ornamentos. De excessivo, este livro denota apenas uma proliferação de epígrafes no primeiro de cinco conjuntos que entendemos enquanto vinculação a um labor poético intimamente ligado ao ofício da tradução. Entre os inúmeros citados encontramos, a título de exemplo, o argentino Juan Gelman (n. 1930 – m. 2014), de quem Jean Portante traduziu vários livros. 
   Nas cinco partes de "A Árvore do Desaparecimento" a subversão formal acompanha a própria organização do discurso, contribuindo para que os cinco conjuntos se diferenciem de um ponto de vista plástico embora se aproximem nos temas essenciais. Logo no primeiro conjunto, intitulado “o carvão desce (a cinza)”, percebemos que a imagem associada à combustão representa o tempo e suas inevitáveis consequências, sendo que em todos os poemas desse conjunto o último verso surge em maiúsculas como que reforçando uma ideia de movimento na direcção do fim. Noite e dia, negro e branco, norte e sul, são coordenadas de uma interrogação que no conjunto seguinte, “o machado do porquê (das palavras)”, coloca a infância no centro das atenções. Neste caso, os poemas ligam-se através de espaços silenciosos abertos entre páginas. Mais uma vez, a sensação de movimento acompanha a leitura. Agora com pausas, elipses, interrupções e enxertos de imagens marcadas pela perda e pela ausência: «é o meu pai que durante a noite / envia lá de cima nuvens inteiras. / de manhã a minha mãe apanha os sinais» (p. 60). 
   Ainda que disfarçada, a biografia não desaparece por completo. No conjunto “rua do norte (fala)” a memória exerce uma influência decisiva a partir de uma reflexão acerca do eu, numa espécie de dramatização ontológica que procura responder à questão essencial que é o mistério de se estar entre nascimento e morte. A árvore é, pois, uma imagem recorrente, porventura enquanto símbolo de uma genealogia que o poema questiona: «O meu pai está / nas paredes e eu estou / em quê?» (p. 93) Outra presença forte é a do cervo, omnipresente no conjunto “o veado da manhã (uma outra língua)”. Uma pesquisa rápida permite-nos concluir que o cervo surge diversas vezes na obra de Jean Portante, imagem de uma “força natural indómita” com características metonímicas: «olha para o cervo. ele traz o tempo à / cabeça» (p. 110). Tal como as raízes da árvore, os cornos do veado transportam-nos para essa ideia de tempo que define este “A Árvore do Desaparecimento”. 
   Este livro termina com um curioso exercício intitulado “a história acabou (soneto desaparecendo)”, onde novamente o movimento que tende para o fim, o desaparecimento, o esquecimento, o apagamento, o vazio, o branco, é redesenhado a partir de um soneto que se vai consumindo a si mesmo, como o carvão inicial transformando-se em cinza. Deste modo, os 14 versos iniciais do soneto vão-se perdendo até ficarmos apenas com um título: MEMOS TUDO. Este tudo é nada, é a morte, é o fim:

SE EU TORNAR A NASCER NÃO

digo nada a ninguém.
faço como os que regressam duma
longa viagem. o que dará um laço
entre o sul e o norte. viverei

na cozinha deste laço. com uma
faca na mão. outra faca na
outra. a mão norte contra a mão
sul. é uma questão de paciência.

a água fervilha e verte o regresso nos
olhos. e também o verte
nas paredes.

se eu tornar a
nascer só comerei o regresso
depois de o ter deixado ferver.

Jean Portante, in A Árvore do Desaparecimento, trad. Rosa Alice Branco, Editora Exclamação, Junho de 2019, p. 96.

GENE OLIGÁRQUICO


A propósito de elos familiares na política, seria interessante fazer um estudo sobre elos familiares na “cóltura”. Filho de, primo de, enteado de, etc. Para não falar de protegido de e afins. O que não nos falta é árvores genealógicas com apelidos graves. Queimamos tudo menos o que devíamos.

VERDADE OU CONSEQUÊNCIA



(…)
No último ano, a floresta da Amazónia brasileira perdeu árvores numa área total de 7900 km2, enormidade equivalente a 987.500 campos de futebol. São mais de mil milhões de árvores abatidas para abrir caminho a projectos agrícolas e de infra-estruturas, segundo estimativas da Greenpeace Brasil, que cita números de vários organismos oficiais de vigilância do desmatamento da Amazónia. São os piores números da última década.
(…)


segunda-feira, 22 de julho de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #22


Ao longo da vida ides ouvir muitas vezes que só a tristeza interessa à arte, que apenas a dor e o sofrimento dão boa poesia, que a melancolia é a raiz da criação, que a tragédia aprofunda, inquieta, desassossega, enquanto a comédia apenas entretém. É tudo mentira. O riso abre as portas ao diabo, deixa-o entrar e oferece-lhe guarida. A gargalhada, o sarcasmo, a sátira, o cinismo, a ironia, são as articulações de um sistema nervoso poderosíssimo. Em havendo homens que se revoltam contra uma caricatura, não é por ser vazia de conteúdo a sua mensagem. Aprendei a admirar na arte a força de arruinar estereótipos apontando-lhes as fissuras, fazendo implodi-los desde a fraqueza retórica dos alicerces que os sustentam. Nada melhor que o riso para derribar preconceitos. E isso é arte, da mais nobre e elevada que podeis imaginar. Ao contrário da melancolia, a ironia desacomoda e esfrangalha o pano. Estendei-o sobre a mesa onde servireis a refeição do pensamento, aconselho-vos. É verdade que a generalidade das pessoas convive melhor com o comodismo da “tadinhice” do que com as faíscas do riso, e também é verdade que que nem sempre o riso se faz acompanhar dos dentes todos. Dispensemos-lhe a gratuitidade. Mas pela via do riso almejamos exemplos mais elevados e imagens mais profundas do que tantas vezes se pretende fazer crer, atribuindo apenas às emoções lacrimejantes o dom da reflexão. Também a tragédia resvala amiúde para o sentimentalismo gratuito. Num e noutro campos, o que sabeis excessivo é a gratuitidade. O que pretendo dizer-vos, minhas filhas, é que podeis crer no riso não só enquanto motivo de descontracção, mas também, e sobretudo, como sublimação deste gozo que é a vida. Atentai-vos: haverá ironia maior do que esta de nascermos para morrer? Se é esse o nosso destino, aprendamos desde cedo a rir-nos dele. Tristezas não só não pagam dívidas, como as aumentam até ao insustentável. Tendes aqui um bom exemplo dessa grandeza que a comédia nos proporciona. Com “As Aves” (Setembro de 2006), de Aristófanes, deu-se início à colecção Clássicos Gregos & Latinos das Edições 70. E que começo. Já conheceis o argumento: dois velhos agastados com a corrupção na cidade, procuram um lugar bom para viver. Convencem as aves da sua superioridade face aos deuses, fundando uma cidade entre o reinado dos homens e o dos deuses. Ao reino da passarada darão o nome de Nefelocucolândia. Serão muitos os que a visitarão, poucos ou nenhuns pelas melhores razões. E ainda que o final seja utópico, não podemos deixar de observar nesta aventura fantástica um pretexto de crítica social que levava tudo à frente sem apelo nem agravo: «E a todo aquele que cria aves fechadas em gaiolas, recomendamos que as solte. Se não obedecerem, são capturados pelas aves; e é a vossa vez de ficarem prisioneiros, em nosso poder, a servirem de isca». O grito podia ser de liberdade, não denunciasse os vícios que o poder arrasta para onde quer que se volte. Entre eles, o da subjugação do outro. Com “As Aves”, minhas filhas, ireis aprender com que linhas se cosem a ambição e o poder, exactamente as mesmas desde que entre os homens se formaram reinados e impérios. Assim era há 2500 anos. Se pretendeis atravessar o céu, mesmo sem qualquer intuito de colonização, sugiro-vos que apanheis o caminho térreo do riso. É a melhor forma de lá chegar, pois assim sendo estareis protegidas contra os manipuladores da desgraça. O riso consola a necessidade. É valor sem igual na Terra onde os pássaros encontram descanso para o voo.  

sábado, 20 de julho de 2019

O MEU VOUCHER É MELHOR QUE O TEU


A saga dos manuais escolares começou. É o momento em que melhor objectivamos o povo que temos, fica tudo evidente. Desde pais que desconhecem o ano de escolaridade dos filhos aos que recusam reutilizar manuais (era o que mais faltava, os filhos aprenderem por livros em segunda mão), há de tudo um pouco. E depois as pressas, o pânico, a tendência para complicar. Tenho duas filhas, uma vai para o 11º e a outra para o 8.º. Não me lembro de alguma vez ter stressado minimamente com a porcaria dos manuais escolares, antes pelo contrário. São miúdas com excelentes notas, melhores do que as que eu tinha. O tempo passa e eu cada vez percebo menos esta paranóia das pessoas com os manuais escolares. Faço tudo por um governo que acabe com esse instrumento obsoleto, apenas existente para favorecer um monopólio editorial. Sebentas iguais para todas as escolas fornecidas pelas próprias escolas, é quanto basta. O resto serve apenas a sofreguidão de impérios editoriais vergonhosamente protegidos pelo Estado e a vaidade mesquinha e saloia do consumidor, que adora ter à sua disposição gamas diversas dos mesmíssimos produtos.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

O SALOIO E O BURGESSO


“Era uma pessoa conhecida. Nossos sentimentos à família, tá ok?”, assim reagiu Jair Bolsonaro à morte de João Gilberto. “Ganhou um Nobel? Incrível! Então porquê?”, perguntou Donald Trump a Nadia Murad, activista yazidi vítima do Estado Islâmico. Não são meros deslizes, são sinais fortíssimos de um esvaziamento que caracteriza o mundo político nos nossos dias. Aquelas duas pessoas têm milhões de apoiantes que se estão nas tintas para a insensibilidade e a ignorância dos seus líderes, conquanto eles continuem a inflamar ódios básicos prometendo eliminar as causas de todas as frustrações. Um deles acha que a Amazónia é uma fábrica de madeira, o outro nega as alterações climáticas. São iguaizinhos, ainda que Bolsonaro tenha qualquer coisa de saloio que Trump só tem de burgesso.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

(CULTURAS SUPERIORES)



Culturas superiores constroem pirâmides (com mão de obra escrava), culturas superiores fazem revoluções culturais (com gente faminta), culturas superiores desbravam caminhos (para massacrarem indígenas), culturas superiores levantam impérios (e traficam pessoas), culturas superiores industrializam o mundo (poluindo-o), culturas superiores expandem-se geograficamente (praticando genocídios), culturas superiores têm fornos crematórios para os povos vivos de outras culturas superiores, culturas superiores inventam coisas (tal a bomba atómica), culturas superiores invadem (protocolarmente), culturas superiores financiam óperas e erigem palácios (onde se intentam intrigas), culturas superiores delineiam declarações com discursos (contra a hipótese de existirem culturas superiores), culturas superiores são um enorme parêntesis na história da humanidade, têm pedras no sapato, fartam-se de parir mentes brilhantes que fazem coisas horríveis e palermas inofensivos que escrevem coisas parvas.

AINDA JUAN GELMAN



CORAGENS

é enorme a tristeza que um homem  uma mulher
podem gerar entre si
como enormes são aqueles dois passaritos parados
num galho a bicarem-se
e enorme é a própria árvore com chuvas sob o sol
que se lhe vê no rosto

choverá? não choverá? será isso
que cantam os passaritos? continuará a enorme
tristeza mandando crescendo como um lago ou mar
entre um homem e uma mulher?

voará a tristeza entre árvore e árvore?
como passos solitários numa habitação?
como madréporas pelo ar?
como tábuas como pontes porém desoladas desamadas?

um ramo caiu no lago e navega
é enorme a tristeza que um homem e uma mulher
podem gerar entre si
como enorme é a navegação do ramo no lago
encharcado da sua própria coragem

Juan Gelman, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 307.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

PALMAS PARA A NOVA TECNOLOGIA


No dia lá das “franças” os políticos assistiram com entusiasmo à parada militar. A certa altura, vogou no céu claro um indivíduo que mais parecia saído de um filme de ficção científica. Fez acrobacias montado na geringonça esvoaçante, com arma automática pendurada ao ombro. Podia trazer um colete salva-vidas e uma bóia de salvação para os náufragos do mediterrâneo, podia trazer medicamentos para os aflitos das zonas inacessíveis, podia até trazer um ramo de flores para a mulher do presidente. Ninguém levaria a mal o romantismo. Trazia antes uma arma automática a tiracolo. Os políticos assistiram entusiasmados e aplaudiram efusiva e orgulhosamente.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

TRÊS GRAÇAS


A presença de divindades pagãs num poema épico cristão é um dos elementos d'Os Lusíadas que mais perplexidade e desaprovação têm causado à crítica ao longo dos séculos. É verdade que Os Lusíadas são o único poema épico do Renascimento que os usa, mas não é menos verdade que o uso dos deuses pagãos era corrente tanto na pintura quanto na poesia pastoril renascentistas. E embora Vénus tenha servido a Camões para estabelecer uma relação histórica entre Roma e Portugal por referenciação intertextual à Eneida, a Vénus que responde às preces cristãs de Gama é também - mais ainda do que a deusa pagã da épica virgiliana - a Vénus pastoril do epicurismo renascentista, cuja representação nas Três Graças servia para significar as três vias capazes de levar o homem universal à verdadeira felicidade, combinando Poder, Sabedoria e Prazer, vita activa, vita contemplativa e vita voluptuosa.

Helder Macedo, in Cada Um Com o Seu Contrário Num Sujeito, Abysmo, Fevereiro de 2019, pp. 30-31.

LODO


com que dedos hesitas aproximar
a tua pele da minha?
são teus ou de uma sombra
que por ti respira e ama?
com que voz perguntas
pelo dia que acabou?
silêncio que não retorna
do fosso onde a paixão caiu,
essa voz precede o eco de um dever
acomodado às paredes do corpo.
e eu um erro, e tu um lapso,
e nós apenas mais um caso
de águas paradas onde o lodo vinga.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

BLUFF



   Desconheço a origem da palavra bluff, que segundo o Wiktionary talvez esteja no termo bluffen (fanfarronice, alarde), mas pelo que obriga a necessidade aprendi a detectá-lo no olhar dos parceiros de cartadas. Para o poker, por exemplo, o bluff está como a simulação na jogada de futebol, é pura ironia, dar a entender algo e fazer o seu contrário. Várias circunstâncias da vida obrigam-nos a estar atentos ao bluff, quando não a tirarmos proveito dele. A carga ética negativa que poderia ter, assemelhando-se à hipocrisia, transforma-se numa espécie de ferramenta, escudo de defesa no mundo cínico das “notícias falsas”, de todo o tipo de abusos e de manipulações, seguidas de proverbiais perdas de memória quando toca ao esclarecimento da verdade. Daí que o bluff não se oponha à verdade, muitas vezes é o estribo onde a investigação se apoia. O “cogito, ergo sum” cartesiano, por exemplo, é bluff em defesa da racionalidade, matéria que nos levaria a uma discussão infindável se a tal estivéssemos dispostos.
   António Ferra (n. 1947), autor de obra multidisciplinar iniciada na década de 1970, optou por dar o título de Bluff (Douda Correira, Março de 2019) a um dos seus mais recentes livros. Em literatura o bluff pode também confundir-se com o fingimento pessoano, porventura assumido nestas narrativas breves a partir da epígrafe tomada de empréstimo ao modernista Almada Negreiros. Tal como acontecia em Marias Pardas (& etc, Março de 2011), outro livro do autor onde o poético e o narrativo se misturam, neste o carácter lúdico da linguagem é logo detectável nos inúmeros jogos fonéticos, trocadilhos, paranomásias. O primeiro texto intitula-se “Entrudo são”, o último chama-se “Equílogo” (por causa de um cavalo que entra pelo meio). A verdade é que a essência destes textos está em serem o nada com que se parecem, divertimentos carregados de ironia onde o mundo actual surge pintado em figuras tipo da nossa sociedade tais como «os youngmen de fato preto» ou «os funcionários do bluff», contando-se entrementes a história de uma mulher, de seu nome Graziela, e seu marido, Jacinto.
   Ao contrário do que sucede nas fábulas, aqui as personagens são humanos com comportamentos animais. Mas de modo semelhante à fábula também estas narrativas apresentam no final uma espécie de moral, espécie porque o que enunciam entre parêntesis são falas, vozes, diálogos, cuja principal característica é a sua absurda veracidade. Exemplo:

De toda a água me rio

Graziela precisava de uma certidão de emagrecimento, documento imprescindível para voar low cost. A senhora do balcão de atendimento sugeriu-lhe que fizesse tudo online, e que comesse apenas legumes, uma só peça de fruta, duas bolachas integrais e, sobretudo, que bebesse muita água, toda a água de um rio para perder o peso dos dias e das noites e para expelir na urina os abusos que sofria.
E que voltasse ao fim de cinco dias inúteis.

[ Já não faço nada online, é tudo bluff, desde que nasceu a minha filha deixei-me disso, nem mesmo sexo virtual, tenho medo de engravidar outra vez.]

   O aspecto cómico destes textos está na capacidade que revelam de caricaturar os hábitos (preferencialmente os maus) e os costumes da vida moderna, dita cheia de pressas para um fim seguramente universal e claramente passageiro. Ao lê-los lembramo-nos das contradições que nos contornam a negro dias e noites, pensamos na pertinência de uma antimoral que nos desobrigue de afazeres esgotantes e esgotados de humanidade. Pelo caminho da ridicularização, estes textos denunciam a bizarria do “modo funcionário de viver”, retirando a gravata à prosa e brincando alegre e livremente com as palavras. Aceitam até certa ingenuidade nos comportamentos das personagens, preferindo observá-las a censurá-las. Não há mal algum em chamar-lhes poesia, dessa que tantas vezes se confunde com a pequena narrativa reclamado para si mesma o direito a não ser só uma coisa nem outra, ser livre, sem rótulo nem arrumação.

[—Tens as mãos transpiradas. Passa-se alguma coisa?
— Não, não, é só esta desumanidade que se entranha no corpo]

JUAN GELMAN E O EXÍLIO



CITAÇÃO VI (SANTA TERESA)

alma que resfolgas na metade
do pensamento / da vida / como
um cavalo que correu / onde está a ração
que detenha tuas patas loucas? / ânsia

de derramar grandíssimo o amor
para que durma abraçada ao esposo
que treme à aurora contra a sombra
da tua meditação? / flores que cheiras

na macieira do amor crescido
onde as minhas várias almas se perderam
para que almes meu desencarcerado rosto

com ela aberta na metade de si /
beleza de vós enquanto orações
onde madruga em pena o meu silêncio?



Poeta, jornalista, tradutor, Juan Gelman (Buenos Aires, 3 de Maio de 1930 – Cidade do México, 14 de Janeiro de 2014) foi um importante poeta argentino a quem atribuíram em 2007 o Prémio Cervantes. A participação em organizações de guerrilha contra a ditadura levou-o ao exílio, acabando por radicar-se no México. Publicou o primeiro poema com apenas 11 anos, vindo mais tarde a integrar a corrente da “nueva poesia” (1955-1967) fundando o grupo “El pan duro”. Neste grupo militavam jovens poetas comunistas que propunham uma poesia politicamente comprometida. Abandonou o Partido Comunista por volta de 1960, defendendo a luta armada à semelhança do que havia acontecido na Revolução Cubana. Formou então o grupo "Nueva Expresión", dedicando-se ao jornalismo revolucionário. Com Eduardo Galeano esteve na revista “Crisis”. Forçado ao exílio, viu serem sequestrados os seus filhos Eva e Marcelo, assim como a nora, grávida à época, María Claudia Irureta Goyena. Soube através da Igreja Católica que a nora havia dado à luz em cativeiro. Durante este período da ditadura, mais de 30000 pessoas foram dadas como desaparecidas na Argentina. Os restos mortais do filho foram posteriormente encontrados num rio de San Fernando, dentro de um contentor cheio de cimento. A autópsia revelou que tinha sido assassinado com um tiro na nuca. Juan Gelman conseguiu descobrir que a nora foi deslocada para o Uruguai durante o conhecido Plan Cóndor. Escritores como Günter Grass, Darío Fo, José Saramago, exerceram forte pressão internacional para o ajudarem a encontrar a neta, o que aconteceu em 2000. O poema acima transcrito, composto durante o exílio, faz parte de um conjunto de poemas que dialogam com o castelhano do séc. XVI através de citações dos místicos São João da Cruz e Santa Teresa. Gelman referiu-se a eles como uma necessidade de encontrar através da linguagem as raízes profundas de um exilado. Versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 308.

CHORRILHO DE IDEIAS FEITAS


O assunto já fede, mas façamos um resumo: a historiadora revelou-se ignorante ao escrever que a mutilação genital feminina é “imperativa nas tribos muçulmanas” (a mutilação genital feminina precede o islamismo e não é praticada em muitos países muçulmanos).
Evidenciou também uma lógica absurda com a enigmática genealogia do “nem uns nem outros [africanos e ciganos] descendem dos Direitos Universais do Homem”, não se percebendo se os direitos deixaram entretanto de ser universais ou se há direitos de autor a pagar, e o non sequitur “os africanos são abertamente racistas”, como se ficasse legitimado o racismo dos brancos, quando a única conclusão que se poderia retirar – se se desse por válida a observação – é que também na propensão para o racismo alguns brancos e negros não se distinguem e transcender as nossas tendências naturais é um desafio comum a todos os homens. Enfim, frise-se ainda o insondável mistério que são as defesas inflamadas da “entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade” sem um resquício de bondade cristã.
Como discutir serenamente o delicado e complexo tema das quotas étnico-raciais depois da diatribe da Doutora Bonifácio?

Vasco M. Barreto, aqui.

ESTUPIDEZ INSTITUCIONAL


A estupidez institucional é muito pior e mais danosa do que a nesciedade individual.  Bonifácio é uma cidadã que goza do direito à opinião e de liberdade de expressão, pelo que qualquer tentativa de criminalização não pode ser admitida e deve ser contestada com a mesma veemência com que se tem de combater o racismo e a xenofobia -- e, já agora, as organizações criminais que passam por entidades políticas e concorrem alegremente a eleições.  Causas como o combate ao racismo, à xenofobia e a outras exclusões dispensam bem os polícias da linguagem e os agentes fardados do controlo do pensamento. Ideias básicas ou parvas combatem-se com argumentos; no caso de desonestidade intelectual, há sempre recurso à ironia queirosiana. Costuma ser mortal.


Ricardo António Alves, aqui.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

JOSÉ MARÍA ARGUEDAS



   Transformei as mãos em espátulas e procurei no fundo da terra os restos mortais de um grito, encontrei as ossadas de Túpac e nelas tentei ler o destino das sombras. 
   A voz de um índio persegue-me, o canto de um povo amortalhado na dor. 
   Sento-me a observar o llama no jardim zoológico, circunscrito por gradeamentos e flashes fotográficos, reparo na sua ansiedade e como que a humanizo no corpo frágil de um homem que procura. Aconteceu-me o mesmo com o tigre às voltas na jaula, jardim zoológico de um mundo ilustrado por Drummond com demasiada ternura. E vi também reflectida nos olhos do gorila encarcerado esta frustração animal de quem nasceu livre para viver acorrentado para que à hora da morte suspire finalmente a derradeira libertação para.
   Se apenas na morte nos é dado sentir a paz do voo, que fazemos nesta terra Amaru kamaq? 
   Flagelados pelo chicote da ganância, tais cavalos mortos resfolegamos com ódio e raiva impotentes. 
   Não me agrada remexer no passado as ossadas de um grito, não é destino que desejasse quando por baptismo me foi concedida a graça de querer. 
   Agora, na pirâmide deste gesto sacrificial ofereço aos deuses o desespero com que respiro num mundo militantemente asmático. 
   Repara na cobra que se consome a si mesma, repara como ela começa a engolir-se pela cauda e quando chega à cabeça fica revirada, repara como uma nova pele do avesso a disfarça, repara na poética da flauta que chora. 
   Alguém diz: com as asas do pensamento chegarás mais alto do que o condor. Não creio que assim seja, com as asas do pensamento abatemos o condor, encarceramos o gorila, flagelamos o cavalo, enjaulamos o tigre, exibimos o llama aos turistas, enterramos o grito.
   A dança cessa, a música cala-se.
   Por isso transformo as mãos em espátulas e procuro nos ossos a dor que não cabe nos museus, a respiração que nenhum frasco com formol deterá, a luminosidade inimitável de uma íris livre, o sopro do vento nas flautas de cana. 
   Que me sobra Túpac? Que me sobra de sopro? Que sopro me sobra?
   Um rastro de sangue a indicar o abismo, as nuvens no céu, os ossos na terra, tudo disposto e zoologicamente arrumado, fauna e flora devidamente identificadas por placas com design ecológico, a extinção das espécies assinalada com fotografias que sensibilizam os peregrinos para a raridade dos encontros, florestas desbravadas por unhas de ferro, terras áridas, solidão. 
   Tenho nas mãos as ossadas de um grito, concentro-me o mais que consigo no seu chamamento. 
   O sol dança à hora da morte, morrerão de cansaço os pássaros por qualquer dia não terem onde pousar, as cobras devorar-se-ão a si mesmas desesperando a falta de alimento, qualquer coisa há-de perdurar, qualquer coisa breve.
   Canto.

Nota: José María Arguedas nasceu a 18 de Janeiro de 1911 em Andahuaylas, no Peru. Por ter perdido a mãe muito cedo, por ter tido um pai ausente, foi de algum modo criado pelos empregados de origem indígena. Assim começou a ganhar forma o seu interesse pelos Quíchuas, o qual o marcaria para a vida. Estudou literatura e etnologia, dedicando-se como antropólogo à preservação da cultura peruana. No dia 29 de Novembro de 1969, frustrado e deprimido, suicidou-se com um tiro.

terça-feira, 9 de julho de 2019

EU INFERIOR ME CONFESSO


Acredito no progresso; acredito que há culturas superiores a outras; acredito que o multiculturalismo assolapado desembocou numa guetização nefasta em certos países ocidentais; acredito que a cultura que produziu os Direitos Universais é infinitamente superior ao wahhabismo ou às tradições ancestrais de mutilação genital feminina; e acredito que existe demasiada complacência em relação ao tratamento das mulheres nalgumas comunidades.

   Estas palavras de João Miguel Tavares são elucidativas da dificuldade que ainda existe em falar de certas matérias sem rapidamente resvalarmos em profissões de fé. Num artigo supostamente apreciável, por ter a coragem de criticar um nojo de artigo assinado por «uma intelectual consagrada» expressão especialmente infeliz no caso em apreço , João Miguel Tavares declara-se progressista contra o conservadorismo moralizante da senhora historiadora para dizer isto: «há culturas superiores a outras».
   A premissa é em si mesma problemática por nos obrigar a ponderar quem possa ser a mente superior a quem devamos confiar a hierarquização das culturas. Confiamos uma coisa dessas a Donald Trump? A um Jair Bolsonaro? Que cultura superior terá alimentado este par de jarras? Enfim, a questão teria pano para mangas. Sem nos alongarmos, basta olhar para a História para pensar em culturas superiores que produziram superiores máquinas de morte: da globalização da escravatura às máquinas de extermínio dos nazis, da bomba atómica aos mecanismos de dizimação da Natureza, pode o freguês aviar-se à vontadinha no seu superior hipermercado.
   Eu, que também acredito no progresso, julgo que não há nada de superior em nos julgarmos superiores aos outros. Aliás, se há matéria progressista em que devamos acreditar é precisamente nessa ideia de que as culturas se constroem diariamente. Uma cultura é um corpo vivo que avança e recua, onde os valores se transformam e se cultivam, fortalecendo-se uns, reivindicando-se outros, num diálogo vivo e desafiante entre teses oponentes. Depois, à força da lei impõem-se limites que no seu tempo próprio se consideram razoáveis até serem julgados anacrónicos e obsoletos. Está a ficar chato o discurso.
   O problema é andarmos a ensinar nas escolas que o etnocentrismo cultural é mau, que o multiculturalismo obriga a um esforço de entendimento do outro, que o relativismo cultural não significa baixar as calças ao outro, obriga a um trabalho atento e crítico de compreensão. Andamos a ensinar que é esse o bom caminho, mas depois aparecem-nos nos jornais e nas rádios e nas televisões estas «intelectuais consagradas» de uma “cultura superior” a estragarem tudo. Ou nem tudo. Foi publicada, o que não é mau sinal. Tem sido criticada, o que é excelente sinal. Esperemos agora que o pântano do politicamente correcto não a impeça de trabalhar como a certos cartoonistas, ainda que os seus bonecos sejam mais ofensivos (precisamente por não se tratar de bonecos, mas de textos supostamente sérios assinados por uma "intelectual consagrada").
   O que quero dizer é, e para sintetizar, que dá sempre jeito ter à mão uma «intelectual consagrada» em quem possamos malhar, levando de arrasto, já agora, todas as mentes superiores que contribuíram para a sua consagração. É que o país está mesmo a abarrotar de consagrados com mentalidade de alimárias, exemplos não faltam.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

JOSÉ ASUNCIÓN SILVA


(...)

Não procures entender os livros, meu bem, não tentes soprar-lhes a boquilha à espera de um som, dança no folheio das páginas, pega neles, arremessa-os contra os teus piores inimigos, oferta-os, pela dádiva que são, aos teus mais queridos amigos, trata-os como achas que devem ser tratados, como tratarias um amor.
   Por mim, agito os timbaus dos livros e os do meu bem, agito-os porque deles não anseio a pureza que busco no ar, nem a mansidão que procuro na sombra quando caminho por entre searas e atravesso riachos e subo e desço montes e caminho por entre vinhas e me perco entre os prédios da grande cidade e me encontro nos becos sombrios desta urbana melancolia a que vou dando pausa, isso, meu bem, com os livros.

(...)

Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, p. 61. Nota: depois de perder a irmã, o colombiano José Asunción Silva perdeu também grande parte do seu trabalho na sequência de um naufrágio. No dia 24 de Maio de 1896 deu um tiro no coração, um dia após haver pedido ao médico que lhe marcasse o lugar exacto do coração no corpo.

sábado, 6 de julho de 2019

JOÃO GILBERTO (1931-2019)


A CIDADE DOS PÁSSAROS




Um ano após “A Paz”, o Teatro da Rainha regressou à comédia de Aristófanes através da adaptação que o dramaturgo francês Bernard Chartreux preparou para "As Aves". Pelo meio, já este ano, devemos assinalar a parceria com o Teatro Nacional de São João na montagem de “O resto já devem conhecer do cinema”, recuperação de “As Fenícias”, de Eurípedes, assinada por Martin Crimp. Esta opção pela revisitação do teatro clássico manifesta uma atitude programática que pode ser entendida de várias formas. Desde logo, assinala a preferência por um teatro que não surja desligado da sociedade à qual se dirige. Tanto ontem como hoje estas peças mantêm um elo com a realidade social, política, cultural, que procura respeitar a capacidade que a massa a que chamamos público possa ter de reflectir o seu tempo sem lhe apagar a História.



Numa época especialmente dada a revisionismos de toda a ordem é relevante esta capacidade de vincular a arte à História sem desleixar aspectos críticos e poéticos, de liberdade interpretativa, de observação lúdica, de pura efabulação. Trata-se de um teatro que insiste no seu papel socialmente interventivo, chamando inclusive para palco um grupo de amadores que de algum modo incorporam uma ideia de povo à qual a mensagem se direcciona.



Assim como na Grécia antiga o teatro tinha preocupações pedagógicas, exercitando a crítica do quotidiano e apelando à reflexão colectiva, também nestas adaptações encontramos, misturadas com o natural entretenimento que a comédia propicia, os mesmos cuidados. O encenador Fernando Mora Ramos fala mesmo de uma revalidação do «teatro directamente político pela via do cómico», devendo aqui entender-se por político o que de nobre possa perdurar no conceito.



Curiosamente, é a degenerescência desse conceito de “política” que está em causa no original de Aristófanes e se retoma na “Cidade dos Pássaros”. Evélpides e Pistetero, os dois agastados atenienses que buscam um mundo melhor, distanciando-se de uma Atenas decadente, podem ser entendidos nessa necessidade inicial como produtos de um momento de decepção para com a pólis, desconfiando da democracia, desiludidos com os oportunistas que tomaram conta da vida pública, eles próprios em vias de se transformarem naquilo que os decepciona e desilude. Não é exactamente assim que tem sucedido com inúmeros movimentos de “cidadania política” a cavalgarem o discurso do ódio à política e da desconfiança nos políticos, do medo das políticas e da desilusão com o Estado?



Que a utopia descambe numa distopia não admira, é essa a ordem natural das coisas quando a meta final é o poder pelo poder. A ambição desmesurada de Pistetero ao convencer Tereu, mortal metamorfoseado em poupa, de que sobre os deuses devem reinar as aves presta-se a inúmeras alusões, associações, interpretações. Cada elemento da assistência que faça as suas. Se no início o desejo de felicidade parece ser legítimo, pelo meio a transformação dessa hipótese de felicidade num reinado manipulador coloca tudo em causa, desde a hierarquia entre homens, pássaros e deuses à desmesura de um projecto imperialista que, como todos os congéneres, assenta inevitavelmente na miséria da maioria para fausto de uns poucos.



O actor Fábio Costa vai excelente no papel de Pistetero, impressionando tanto pela energia como pelo ar alucinado que oferece à personagem. Menos interveniente nesta adaptação do que no original, Alexandre Calçada encarna igualmente bem Evélpides. Mas onde melhor se revelam os seus dotes caricaturais é no Hércules abrutalhado que surge mais para o fim. Manuel Freire, o da "Pedra Filosofal", aparece travestido de Camões para nos fazer lembrar o estado das artes em geral, que Sophia já tinha de algum modo ilustrado no poema "Camões e a Tença". Venâncio Calisto é um Prometeu dissimulado, afastado dos deuses como de Atenas se afastou Pistetero. Também o seu projecto de oferecer o fogo aos homens se revelou desastroso.



São muitas as figuras e os figurões que desfilam num cenário simples, mas atraente, com figurinos belíssimos no que toca ao coro de aves com movimentos próprios de aves, onomatopeias próprias de aves, mas com características comportamentais típicas de homens que facilmente com aves se confundem. Entre estas, a rouxinol interpretada por Mafalda Taveira é particularmente cativante. O seu canto oscila entre o lirismo de uma esperança encantadora e o lamento da tragédia anunciada. O projecto d’ “A Cidade dos Pássaros” redunda nesta indefinição, na medida em que procura estabelecer-se segundo os parâmetros de uma cidade dos homens, esses que tudo conspurcam e destroem com ambições desmedidas e ganância sem fim, esquecendo a mais invejável virtude dos pássaros: o voo livre.


Que da muralha erigida entre homens e deuses venham a sobrar apenas cacos, não espanta. Mas o texto é meramente preventivo. A verdade nua e crua tem as suas muralhas bem altas e intransponíveis, todas elas erigidas na terra para separarem já não os homens dos deuses, mas os homens de outros homens. Talvez no fim acabemos a falar aos peixes como o dos sermões. Se ainda houver peixes.