terça-feira, 2 de julho de 2019

INGRID JONKER



Não me interessa ser feliz. Neste corpo de sangue arenoso nem cactos vingarão. Sempre que rio traio o destino, jamais por alegria ou felicidade. Rio para seduzir quem me saiba trair. Tenho dois braços disponíveis para abraçar quem dance, conheço bem a gramática do prazer, mas também sei de quem viole e seja violado sem sequer sentir que o foi. O meu mundo não é redondo, jamais por alegria ou felicidade poderia ser. O meu mundo é disforme como as pedras, tem cheiro a buxo em noites de primavera, sabe a sangue coalhado. Em criança, costumava arrancar as pústulas com os dentes e mastigava-as como se fossem pastilha elástica. Depois chupava o sangue e embebedava-me de mim, jamais por alegria ou felicidade. Agora que escrevo esta carta para um novo mundo sinto quão distantes ficaram tais gestos, amparo a chuva com o rosto até que os olhos se afoguem num relâmpago, danço como uma louca abandonada no deserto por amantes traidores. A areia do deserto onde danço é ardente, começo a transformar-me em cinza pelos pés depois de ter sentido o corpo todo em brasa. Não me interessa fazer perdurar a chama do meu corpo, é-me tão indiferente que entendam esta sombra à volta do sangue, é-me indiferente que riam ou chorem. Apenas a dor que vejo florescer em cada canto de ruína me comove e inspira, apenas essa dor que desabrocha das pedras adquirindo uma forma de vida própria no meu corpo, penetrando-me por todos os orifícios até que o sangue se transforme em areia, apenas essa dor me faz estremecer e deixa à beira de um precipício como o miserável diante da esmola. Rio para seduzir quem me saiba trair, escrevo. Jamais por alegria ou felicidade, apenas porque ao escrever pressinto o eco de uma voz distante, talvez a voz dos tais gestos perdidos, a voz daquela boca que na infância mascava pústulas e se enchia de sangue, a voz desesperada dos miseráveis que caminham sobre as areias do deserto como sobre as águas terá caminhado o filho de deus. Sempre que escrevo essa voz aproxima-se trazendo consigo imagens dispersas, saúda-me com silêncios mais cheios de significado do que enciclopédias inteiras, diz-me que vim ao mundo para mergulhar bem fundo na gramática do prazer. E eu mergulho. Mergulho no mar e nado em frente sem nada buscar senão um horizonte para lá do horizonte. Abraço com os braços disponíveis as ondas, convido-as para dançar, danço com as ondas enquanto nado sempre em frente buscando um horizonte para lá do horizonte. Jamais por alegria ou felicidade, apenas porque para trás podem ficar os gestos distantes de quem traiu e foi traído, de quem violou e foi violado, nado em frente para deixar ao largo a voz aguda e dilacerante dos miseráveis, para que um manto de silêncio possa sobrepor-se a tudo com seus infindos significados, para que ao perguntar por ti uma voz finalmente se ouça e ao escutá-la um rosto se forme no pensamento e nesse rosto possa eu finalmente alcançar o fim último do horizonte.

Nota: este texto surgiu após a leitura do apontamento que Sérigo Ninguém dedica a Ingrid Jonker, de quem eu nunca tinha ouvido falar, no n.º 12 da revista Eufeme. Natural de Douglas, África do Sul, Ingrid perdeu a mãe pouco antes de completar 11 anos. Depois de recuperar de um esgotamento nervoso, faleceu na sequência de um cancro. Ingrid Jonker começou a escrever poesia muito cedo. Casou em 1956 e teve uma filha, mas o matrimónio durou apenas 3 anos. Uma depressão na sequência de um aborto, relações cortadas com o pai, levaram-na ao internamento num hospital psiquiátrico. No início da década de 1960 ganhou um importante prémio literário que lhe permitiu viajar pela Europa, passando inclusive por Portugal. No dia 19 de Julho de 1965 cometeu suicídio por afogamento na praia de Three Anchor Bay, em Cape Town.

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