segunda-feira, 8 de julho de 2019

JOSÉ ASUNCIÓN SILVA


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Não procures entender os livros, meu bem, não tentes soprar-lhes a boquilha à espera de um som, dança no folheio das páginas, pega neles, arremessa-os contra os teus piores inimigos, oferta-os, pela dádiva que são, aos teus mais queridos amigos, trata-os como achas que devem ser tratados, como tratarias um amor.
   Por mim, agito os timbaus dos livros e os do meu bem, agito-os porque deles não anseio a pureza que busco no ar, nem a mansidão que procuro na sombra quando caminho por entre searas e atravesso riachos e subo e desço montes e caminho por entre vinhas e me perco entre os prédios da grande cidade e me encontro nos becos sombrios desta urbana melancolia a que vou dando pausa, isso, meu bem, com os livros.

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Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, p. 61. Nota: depois de perder a irmã, o colombiano José Asunción Silva perdeu também grande parte do seu trabalho na sequência de um naufrágio. No dia 24 de Maio de 1896 deu um tiro no coração, um dia após haver pedido ao médico que lhe marcasse o lugar exacto do coração no corpo.

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