sexta-feira, 30 de agosto de 2019

DO SONHO E DA TERRA


(clique na imagem para ver melhor)


Ailton Krenak, Do Sonho e da Terra, palestra proferida em Lisboa, no Teatro Maria Matos, no dia 6 de Maio de 2017. In Flauta de Luz, nº 5, Abril de 2018, p. 24. Mais este: aqui.

NÚMEROS


- 4 700 km2 de área de floresta tropical destruída desde a entrada em funções de Jair Bolsonaro, uma superfície 47 vezes maior do que a cidade de Lisboa;

- 80 milhões de cabeças de gado na Amazónia brasileira, contra 26 milhões em 1990

- mais de 80% das enormes clareiras na Amazónia são feitas ilegalmente

- no passado mês de Julho, foram destruídos 2 255 km2 de floresta tropical, uma área equivalente ao tamanho do Luxemburgo

- o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) sofreu um corte de 24% do seu orçamento



quinta-feira, 29 de agosto de 2019

aMOSTr : II MOSTRA DE EDIÇÕES INDEPENDENTES



Sábado, 31 de Agosto
16h — Lançamento de CARMES de Paulo da Costa Domingos (Companhia das Ilhas), com apresentação de Henrique Manuel Bento Fialho e leituras do autor e de Isaque Ferreira

Domingo, 1 de Setembro
16h — Lançamento dos Livros: Aprendiz de Manuel A. Domingos (volta d' mar) e Call Center de Henrique Manuel Bento Fialho (Companhia das Ilhas)



Programa completo: aqui.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

ORAÇÃO PELA LIBERTAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS


Dedicado a Marçal Tupã-y, cacique guarani nhandewa assassinado em 1983

Parem de podar as minhas folhas e tirar a minha enxada
Basta de afogar as minhas crenças e torar minha raiz
Cessem de arrancar os meus pulmões e sufocar minha razão
Chega de matar minhas cantigas e calar a minha voz.
Não se seca a raiz de quem tem sementes
Espalhadas pela terra pra brotar.
Não se apaga dos avós - rica memória
Veia ancestral: rituais pra se lembrar
Não se aparam largas asas
Que o céu é liberdade
E a fé é encontrá-la.
Rogai por nós, meu pai - Xamã
Pra que o espírito ruim da mata
Não provoque a fraqueza, a miséria e a morte.
Rogai por nós - terra nossa mãe
Pra que essas roupas rotas
E esses homens maus
Se acabem ao toque dos maracás.
Afastai-nos das desgraças, da cachaça e da discórdia,
Ajudai a unidade entre as nações.
Alumiai homens, mulheres e crianças,
Apagai entre os fortes a inveja e a ingratidão.
Dai-nos a luz, fé na vida, nas pajelanças,
Evitai, ó Tupã, a violência e a matança.
Num lugar sagrado junto ao igarapé
Nas noites de luas cheias, ó Marçal, chamai
Os espíritos das rochas pra dançarmos o Toré.
Trazei-nos nas festas da mandioca e pajés
Uma resistência de vida
Após bebermos nossa chicha com fé.
Rogai por nós, ave dos céus
Pra que venham onças, caititus, siriemas e capivaras
Cingir rios Juruena, São Francisco e Paraná.
Cingir até os mares do Atlântico
Porque pacíficos somos, no entanto.
Mostrai nosso caminho feito boto
Alumiai pro futuro nossa estrela
Ajudai a tocar as flautas mágicas
Pra vos cantar uma cantiga de oferenda
Ou dançar num ritual Iamaká.
Rogai por nós, Ave-Xamã
No Nordeste, no Sul toda a manhã
No Amazonas, agreste ou no coração da cunhã.
Rogai por nós, araras, pintados ou tatus
Vinde em nosso encontro
Meu Deus - Nhendiru!
Fazei feliz nossa mintã
Que de barrigas índias vão renascer.
Dai-nos cada dia a esperança
Porque só pedimos terra e paz
Pra nossas pobres - essas ricas crianças.


Eliane Potiguara, brasileira de ascendência indígena potiguara, foi indicada em 2005 para o Projecto Internacional «Mil mulheres para o Prémio Nobel da Paz». Escritora, poetisa e professora, é formada em Letras (Português-Literatura) e Educação. Fundadora do GRUMIN / Grupo Mulher-Educação Indígena, é membro de várias associações: Inbrapi, Nearin, Comité Intertribal, Ashoka (empreendedores sociais), Associação pela Paz, Cónsul de Poetas del Mundo. Trabalhou na ONU, em Genebra, em prol da Declaração Universal dos Direitos Indígenas. Publicou Metade cara, metade máscara (Global Editora) e O coco que guardava a noite. Foi-lhe atribuído o Prémio Pen Club de Inglaterra e do Fundo Livre de Expressão, dos Estados Unidos. In Flauta de Luz - Boletim de Topografia, n.º2, Março de 2014, pp. 71-72. Mais informações sobre Eliane Potiguara: aqui

terça-feira, 27 de agosto de 2019

LÍTIO


Não percebo o contexto, nem me apetece aprofundar. Reparo na ridicularização de que têm sido alvo. Um grupo de pessoas juntou-se na serra manifestando-se contra a exploração de lítio naquele local, logo sendo caçados pelas objectivas com telemóveis carentes do tal lítio. Percebo a contradição de um vegetariano a comer carne, coisa que já vi sem espanto. Mas custa-me aceitar que alguém que se manifesta contra a exploração de lítio num determinado local não possa ter um telemóvel xpto. Se nos unirmos contra a exploração de petróleo no Algarve devemos entregar o carro para abate?

UM POEMA DE JOÃO RIOS

oh formosíssima senhora
que não minha
ainda que por minguada
suspensão
dos ponteiros do cronómetro
peço-vos
com grã e diplomático cuidado
que desligueis o latim facínora
do canídeo portátil
que vos vassala a luxuosa
impunidade do decote

talvez assim o galã
à vossa destra bondade
possa por fim
apaziguar
o romeu histérico do seu ceptro


João Rios, in Reter o amor no gancho do talho, Abysmo, Fevereiro de 2019, p. 23.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

LÚCIO ANEU SÉNECA


   Suspeito que denegar seja mais ou menos como voltar a face para o lado quando por nós passam as dores, mas também eu trago para as dores a surpresa de uma porta a ranger. Por detrás do ruído, surpreendo-as de olho encostado à fechadura e ouvido colado à parede. Do outro lado da parede, as dores tentam ouvir-me a lamentação dos dias. Podem esperar sentadas. Tenho os pulsos abertos, mas ainda me resta força suficiente para manipular o puxador e abrir a porta, só pelo prazer de a ouvir ranger, só pelo prazer de espantar as dores.

(...)

Henrique Manuel Bento Fialho, in Suicidas, Deriva Editores, Julho de 2013, p. 64. Nota: não se sabe quando Séneca nasceu. Terá falecido com mais de 60 anos, em 65 d.C., obrigado a cometer suicídio. Acusado de conspiração contra Nero, cortou os pulsos e ingeriu veneno. 

VENEZUELA

Alguém sabe se já há luz na Venezuela?

domingo, 25 de agosto de 2019

QUANDO O AMOR PARECIA MORTO




Quando o amor parecia morto.
Paz na terra.
A morte está sempre a trabalhar.
O amor alimenta a morte?
A morte e o amor
trabalham juntos sem o saberem?

Quando parece haver dor
na morte que trabalha
ou há dor nos trabalhos do amor.
Não dormem o amor, a dor e a morte?

Quando parecia que.
Bestas da memória
farrapos.
A morte não tem farrapos, não morre.
Paz na terra.
O amor derrota a morte
todo o amor
todas as diferentes classes de amor
mas sobretudo o amor inocente.

Quando parecia que o amor
já não trabalhava
ou não alimentava
ou doía ou estava morto.
Subitamente
como daquela vez em que atravessava uma rua
aquela rua inocente
e de súbito soube que era ele
era ele
que era ele quem atravessava a rua.
E como daquela vez
nessa rua inocente
ela chega de súbito
e a dor e a morte
começam a tremer
a tremer
a tremer.

Quando parecia que o amor. Paz
paz na terra
às mulheres de boa vontade.

A luz de um fósforo
pode ocultar a noite
mas toda a noite não pode ocultar
a luz de um inocente fósforo.

Gianni Siccardi (n. Banfield, Buenos Aires, 27 de Setembro de 1933 – m. 29 de Novembro de 2002), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 322-323. Nasceu em Banfield, província de Buenos Aires, no dia 27 de Setembro de 1933. Entre as inúmeras ocupações que desenvolveu ao longo da vida, contam-se as de jornalista e tradutor. Fundou e dirigiu as revistas Juego Rabioso, Baires e Sunda. Com um sentido de humor enraizado no surrealismo, distanciou-se desde cedo do chamado “realismo crítico” praticado por muitos outros poetas da sua geração. No entanto, a ironia nos poemas de Siccardi disfarça o compromisso para com a realidade social através de uma lírica fortemente emotiva. Estreou-se em 1960 com a colectânea “Poesía junta”. Acerca de si mesmo disse: «realizei estudos tão breves como ligeiros, e igualmente proveitosos, quem sabe, de violino, italiano, inglês, alemão, arquitectura, piano, pintura, teatro. E estudos tão sérios e prolongados como ineficazes de canto. Morreu em Novembro de 2002.

sábado, 24 de agosto de 2019

FORÇA DE EXPRESSÃO

"Paciência revolucionária."

IDA (2013)



Passou ontem num canal público e eu vi-o hoje ao pequeno-almoço. Na Polónia do chamado Bloco do Leste, uma jovem prestes a tornar-se freira vai ao encontro da única familiar que lhe resta. A tia Wanda abre-lhe as portas da ruína humana, num país a tentar recompor-se dos destroços deixados pela II Grande Guerra. Ida descobre as origens judaicas e o destino cruel da família desaparecida. A tia lamenta que ela esconda o belo cabelo sob o véu de freira, e o lamento surge-nos como testemunho de uma beleza desperdiçada que a guerra vulgariza e os homens semeiam. Sobram restos, destroços, ruínas. Começar uma nova vida assim, a encontrar nas raízes o fundo amargo do desamparo, é um modo de recomeçar. Realizou Paweł Pawlikowski (n. 1957), com direito a Oscar para melhor filme estrangeiro. Como se pode chamar estrangeiro a um filme destes?

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

POEMA POSSÍVEL




eventualmente a Gronelândia
terá ido fazer férias a Guadalajara
cobrindo de granizo as ruas
para espanto dos ursos polares

errando pela cidade
ursos expatriados buscam alimento
perecendo abraçados às crias
nas margens de rios poluídos

eventualmente chamaremos água
ao leito desses rios cobertos de lama
lamentando a ineficácia da ciência
que demasiado ocupada com drones
e muros intransponíveis
negligenciou os implantes de guelras
em ursos expatriados

são extremamente adversas
as condições vividas nesta altura
em ruas cobertas de granizo
nas margens dos rios
na copa das árvores

a Amazónia arde como nunca ardeu
o Ártico arde como nunca ardeu
os índios continuam a arder lentamente
como de há muito é seu hábito

valha-nos a política e os economistas
mais as suas turbovacas
a produzirem leite como nunca
para ressuscitar cadáveres
da morte lenta assistida
por fundos numismáticos internacionais

MUNDO CHEIO DE POSSIBILIDADES



Temos vindo a acordar lentamente para o desastre, uns mais incrédulos que outros. Presumo que quando estivermos todos acordados já o dia tenha terminado. Que fazer para travar isto? Só há uma solução: mudar radicalmente de vida, varrendo desde logo para o lixo as políticas que nos trouxeram a este estado lastimável de coisas.


quarta-feira, 21 de agosto de 2019

[Que se incendeiem as pedras debaixo dos teus pés]




Que se incendeiem as pedras debaixo dos teus pés,
que deixes um rasto de cinza a pedra ardida
e que por entre lajes que pisas
não volte a nascer a erva dos dias.
Caiam os pássaros, supurem os frutos amadurecidos,
sequem os rios, recuem os mares, ganam os cães,
ericem-se os felinos, arqueados como barcos encalhados
na praia fustigada pela tormenta que te escolta.
À passagem dos cemitérios,
que todos os mortos se levantem para te saudar.
Galopem os ventos de encontro às falésias,
ergam-se as ondas à altura dos faróis,
e seja tal o bramido que os ouvidos sangrem.
Que tudo seja ruína e estertor à tua passagem.
E que mesmo assim venhas, renovando as tuas promessas,
exibindo o teu brasão, desdobrando o teu véu diáfano
sobre as flores da ocultação.

Destituído de sinais, porém, vem aquele que fermenta nas caves
onde às vezes também descem os nossos corações.


João Moita (n. 1984), in Uma Pedra sobre a Boca (Guerra & Paz, Maio de 2019). À estreia em 2009 com “O vento soprado como sangue” (Cosmorama), seguiram-se dois livros, “Miasmas” (Cosmorama, 2010) e “Fome” (Enfermaria 5, 2015), todos amplamente revistos no volume “Uma Pedra sobre a Boca” (Guerra & Paz, Maio de 2019). Em nota final a esta edição o próprio autor refere-se a uma refundição dos primeiros livros, a qual parece tornar evidente uma inquietação metafísica que se manifesta numa relação de dúvida com Deus. Sem nunca deixar de ser tema, o conceito de Deus surge em poemas muito breves associado a um léxico onde são recorrentes as ideias de ausência, silêncio, espera, sede íntima de um coração exangue. A brevidade destes poemas depura a linguagem até um clarão que podemos dizer semelhante ao que fica após a passagem do relâmpago. Metafórica, com uma carga simbólica fortemente ligada aos textos bíblicos, a poesia de João Moita distingue-se ainda pelas imagens violentas e pelo recurso a uma materialização dos domínios do espírito através de conexões aos órgãos corporais. A sede e a fome são espirituais, a morte um horizonte que não resolve a dúvida. O tema da fé pode, portanto, resumir-se num dístico: «Em instâncias da penúria / a tangente da fé». Alguns dos poemas finais surgem em prosa, como que sinalizando uma metamorfose espiritual que o poema acompanha. A cidade (de Deus?) distancia-se à medida que o campo se aproxima, podendo neste movimento ser vislumbrada uma inclinação para a simplicidade da Natureza em detrimento dos complexos edifícios do sagrado.  

terça-feira, 20 de agosto de 2019

HÁ RIOS QUE NÃO DESAGUAM A JUSANTE



   “Há rios que não desaguam a jusante” (Companhia das Ilhas, Outubro de 2018) surgiu com a mácula do “romance de estreia de poeta tardio”, agravada pelo selo editorial de uma casa insular a remar contra a maré. Portanto, tinha tudo para dar mal. Passados 10 meses sobre a publicação, o manto de silêncio estendido sobre este romance de quase 500 páginas é sinal inquestionável de um descaso metódico. “Se me é permitido prolongar de maneira muito imediata” as razões deste sinal, arrisco especular que o silêncio não seria o mesmo se o romance de Nuno Dempster (n. 1944) tivesse sido publicado por uma editora ligada a um grande grupo editorial ou ao pequeníssimo grupo de afectos disseminado pela imprensa da especialidade. Sendo as coisas como são, terá o autor de se contentar com a opinião impressionista e nada rentável dos leitores. Sou um deles.
   A narrativa começa em 1961 e coloca no centro de atenções um tal de coronel Pierre Latour. Tudo girará em torno deste nome, embora nem tudo a ele se confine. Não podemos sequer afiançar que ele seja a personagem central, já que outras há igualmente determinantes na construção de um puzzle cuja paisagem é essencialmente a do mal. Brigitte Clemanceau, por exemplo, tem uma passagem fugaz nesta história, mas deixa a sua marca pela sensibilidade e respectiva capitulação. Dempster está mais interessado em explorar os domínios da maldade humana, levando-nos de viagem por diversos dos seus territórios. O coronel é neto bastardo de Leopoldo II da Bélgica, herdeiro de uma fortuna incomensurável que se encarrega de acrescentar à conta de traficâncias várias. A exploração de colónias e ex-colónias em África é só uma delas. A certa altura encontrá-lo-emos como mercenário na Angola portuguesa, protegido pela PIDE e com as mãos cheias de sangue e de diamantes. Deixará raízes em Portugal, uma filha ilegítima criada num convento e protegida à distância pela riqueza do progenitor. O mal corre-lhe nas veias.
   Estes elos permitem ao autor atravessar gerações sem perder o foco do essencial, a disseminação da maldade e da torpeza por diversas estâncias do mundo dos homens: da aristocracia à burguesia belgas, da república portuguesa (antes e depois da revolução) às ordens monásticas, nada escapa. Religião, política, economia, os chamados pilares das sociedades desenvolvidas, surgem neste livro corroídos pela crueldade e pelo vício. Podemos julgar que no curso da narrativa, aqui e acolá, encontramos desenvolvimentos excessivos ou saltos menos compreensíveis, que o protagonismo de algumas personagens é exagerado ou deficiente relativamente a outras, mas no final a imagem que fica é a de uma humanidade abastardada no que de mais execrável possa o conceito conter. E se Carlota, a filha ilegítima de Latour, nos parece enquanto personagem algo inconsistente, já a avó do coronel, de seu nome Louise-Marie, é de uma riqueza inquestionável. O panorama do século XIX oferecido nos capítulos dedicados a Louise-Marie d’Ursel Latour, «uma nobre que soube multiplicar-se em burguesa e em filha de gente de lavoura, talvez pioneira na Bélgica de uma nova indústria» (p. 213), permite-nos compreender com outra clareza histórica a raiz do “lado reles da natureza humana” indagada neste livro, um lado reles ornamentado pela ostentação que deixa no rastro histórias de servidão e de miséria.
   É precisamente com esta miséria que o romance termina na figura de um tipo caído em desgraça, muito conveniente a um mundo actual perdido nos labirintos de jogadas empresariais e tacticismos jurídicos. Na rua descrita a sopa dos pobres não é literal, adquire o estatuto de alegoria ao fim de 400 páginas de gestos nada louváveis. Não é o corpo quem se alimenta daquela sopa, mas sim a moral. Ao corpo de quem tem fome física sempre vale uma sopa quente, mas à subnutrição moral não há sopa que valha. O cadáver de um sem-abrigo que aparece ao seu companheiro de rua, deixando-o indeciso no nojo por não conseguir determinar a causa da agonia, dá-nos uma boa imagem de um mundo expurgado de sentimento onde a compaixão perde sentido. O homem a desaprender de ser homem é isto mesmo, cresce na direcção de uma frieza que afasta o outro do caminho e tudo concentra na avidez do próprio estômago. Ainda assim, resta ao leitor uma certa comiseração pelo fracasso individual: «As vascas sacodem-me do fundo do estômago. Já não sai nada, não sai bílis nem sequer saliva sai, é como se bolçasse o vazio da minha vida, exacerbando a dor até me raspar os ossos» (p. 473).

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

UM POEMA DE GIANNI SICCARDI



SÃO ESTAS AS PALAVRAS QUE AMO

se tivéssemos um ofício em que nos reconhecêssemos
e vontade de envelhecer
se não conhecêssemos tantos lugares de lazer
tantas ruas desordenadas e abertas
tantos bares e hotéis
buracos de perdição ou de violência
onde se usam palavras extraviadas
recursos rápidos
encontros sem destino
vidas diferentes
e houvéssemos abandonado o desejo
de voltar a partir
de conhecer gente fora de órbita
alimentos estranhos
músicas fáceis
ilhas distantes

se não tivéssemos amigos mortos
e inimigos
amores esquecidos
se não estivéssemos cansados
dos diários da manhã
dos desportos e das execuções
das estrelas fugazes
da crueldade da rua
dos ruídos da cidade
a que dentro em breve
juntaremos outros ruídos
deixando que o relógio da cozinha
que o sol
reparem estas peças
as tuas coisas e as minhas coisas
que aqui entrem o calor e os gritos
que as nossas pobres coisas
sejam chicoteadas pelo sol e pelos mal entendidos
que aqui entre a violência e se vá
sem saber que aqui um dia
entraram o desespero e o amor
ou algo que desesperava por parecer amor

se não tivéssemos as palavras
palavras de amizade de fastio de indiferença
palavras complicadas com o amor
palavras que recordam o amor
ainda que não lhe pertençam
se não tivéssemos o ruído das palavras
se não estivéssemos cansados de tanta estupidez
e de tanto esquecimento

herdei de ti
uma solidão incompreensível
passou a minha solidão
que não compreendo
ainda que sempre te encontres entre os ruídos das minhas palavras
ateei este fogo para te reconhecer

Gianni Siccardi, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,pp. 317-319.

sábado, 17 de agosto de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #23



   Agora que regressados desse lugar onde homem e mulher andam nus sem sentirem vergonha por isso, voltamos a tapar o corpo com angústia e sentido do dever, deixai-me contar-vos de vozes exiladas nas suas próprias gargantas. Se por acaso já vos chegou aos ouvidos o nome Afeganistão, por certo não terá sido pelas melhores razões. Só há 100 anos foi aquele território reconhecido como estado soberano. Os pachtuns são aí o maior grupo étnico, com ele se confundindo até à raiz de um nome: pachtum e afegão são sinónimos. 
   Uma das tradições mais antigas desta etnia, como de resto sabeis ainda hoje muito viva em toda a cultura árabe, é a literatura oral. Não é difícil encontrar num país árabe, até nas praças mais assediadas pelos turistas, grupos de gente a ouvir histórias contadas por anciões, composições mais ou menos improvisadas que, na poesia, adquirem a forma de canto. Ao contrário do texto moralizante, arreigado à religião, estas improvisações vocais destacam-se pela liberdade do discurso, exaltando o amor e a paixão, a música e o vinho, tudo quanto liga o homem à terra inquietando-o como inquietas ficam as plantas à passagem do vento. 
   A natureza surge assim celebrada, os sentimentos profundos e os anseios manifestam-se sem peias. Ao landay, forma poética breve como o haiku japonês, acrescenta-se ainda a característica muito rara de ser praticado por mulheres. Em “A Voz Secreta das Mulheres Afegãs” (Cavalo de Ferro, Fevereiro de 2005), recolha assinada por Sayd Bahodine Majrouh (1928-1988), poeta e filósofo afegão, procurou-se fixar para conhecimento universal alguma da magia produzida pelos landay. Imaginamos que ao texto algo escapará que o som das vozes sublimaria, mas devemos sentir-nos gratos por pelo menos assim podermos aceder a estes poemas que nos chegam «como um grito do coração, como um relâmpago, como uma chama». 
   Ficai sabendo dessas mulheres que cantando-se a si mesmas revelam sua precária condição, mulheres oprimidas por um sufoco que o canto liberta, por uma servidão que a poesia subleva, por uma humilhação que a palavra rebela. O suicídio e o canto, como sublinha Sayd Bahodine Majrouh na introdução a este livro que a poeta Ana Hatherly mudou para a nossa língua, são o testemunho de um protesto escondido da mulher pashtun. E então perceberemos com outra clareza a intensidade da voz clara:

Olhai do esposo a horrível tirania:
Bate-me e proíbe-me de chorar.

Para assim compreendermos que por detrás do poema esconde-se um poder inextinguível que pouco ou nada tem que ver com escola e técnica, mas tudo deve ao sentir da vida que descobre caminhos entre a treva para nos levar a um modo de ver que é modo de ser:

Adormece em meus olhos
A insónia das minhas noites reduziu-me a pó

Só então, minhas filhas, o amor deixará de ser a posse que escraviza para se soltar em dúvida social e desafogada paixão. A mulher submissa redescobre-se no desejo, recusa a condição de objecto e insurge-se contra o martírio.  E se nada disto é tão simples quanto o coração deseja, deixai-vos impressionar pela respiração do canto que lamenta «não ter vivido suficientemente, não ter provado a sua beleza, a sua juventude e as alegrias do amor»:

Vem e sê uma flor sobre o meu peito
Para que eu possa, cada manhã, refrescar-te com o meu riso

AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS

   As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual. 
   Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes.
   De que cor será sentir?

Pedro Eiras, in Cartas Reencontradas de Fernando Pessoa a Mário de Sá-Carneiro, Assírio & Alvim, Abril de 2016, p. 147.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

FÉRIAS



A caminho das férias com muita coisa no pensamento. O saco dos livros está apetrechado, a banda sonora devidamente alinhada. Numa fase de mudança radical, escolho a canção supra para me dar coragem. Aos que ficam a minha solidariedade. Volto já.