segunda-feira, 19 de agosto de 2019

BANDA SONORA ESSENCIAL #73



   Passaram 50 anos sobre o festival de Woodstock. Parte do meu gosto musical foi altamente influenciado por quem ali tocou. É verdade que as minhas duas bandas preferidas daquele tempo não estiveram lá. Os The Doors tinham entrado num vertiginoso processo de alienação, arrastados pelos excessos de Morrison. Os The Velvet Underground eram projecto de galeria nova-iorquino, nada os aproximava do movimento hippie celebrado em Woodstock. Ainda assim, olhamos para o alinhamento do festival e ficamos boquiabertos.
   Richie Havens abriu com uma guitarra folk, Jimi Hendrix encerrou e incendiou com uma guitarra eléctrica (quando uma multidão exausta já havia abandonado o recinto). Pelo meio houve espaço para a sonoridade espiritual de Ravi Shankar, para a folk de Joan Baez, para o virtuosismo latino de Santana, para o R&B dos Creedence Clearwater Revival, para o Ópera Rock dos The Who, para o rock psicadélico dos Jefferson Airplane, para os vozeirões de Joe Cocker e de Janis Joplin, para o “heavy blues rock” dos Ten Years After, para o funk de Sly & The Family Stone, para os "então incipientes" Crosby, Stills, Nash & Young… E estes são apenas os mais conhecidos, o eclectismo impressiona.
   Os Canned Heat actuaram no segundo dia. Formados em 1965 na cidade de Los Angeles, praticavam uma fusão peculiar de blues, rock, boogie. A participação no festival ofereceu-lhes alguma popularidade, graças a canções como “Going Up The Country” e “On the Road Again” (se bem me lembro recuperada anos depois para um anúncio da Levis). Bob “The Bear” Hite estava na linha da frente da banda, com mais de 100Kg de feeling e barbas fartas. Faleceu com apenas 38 anos, ao que parece depois de snifar heroína julgando tratar-se de cocaína. O guitarrista Alan Wilson ajudava nas vozes, num registo falsete deveras peculiar numa banda de blues.
   “Uncanned!” (1994) reúne o essencial, 40 temas (mais uns brindes) enraizados na tradição dos blues e interpretados por um grupo de jovens brancos entusiastas. Em “On The Road Again”, original de Floyd Jones, o solo de harmónica é genial. “Nine Below Zero”, de Sonny Boy Williamson, merece uma versão incrível só com baixo, voz e harmónica. Há ainda clássicos de Willie Dixon, John Lee Hooker, Robert Johnson, Larry “Mud” Morganfield (filho de Muddy Waters), colaborações com Little Richard, etc. Mas nem tudo se resume a rever a matéria dada. Ao explorarmos o repertório original dos Canned Heat percebemos o verdadeiro contributo da banda para a renovação dos blues. 
   “Bullfrog Blues” é pura diversão, mas “Gotta Boogie (The World Boogie)” são quase 10 minutos de testemunho em toada jam session, com Henry Vestine, conhecido como Sunflower, a sacar da guitarra solos mais agressivos do que era comum. Sunflower, de resto, já tinha tocado com os The Mothers, de Frank Zappa. E se “My Crime” lembra Waters, temas como “An Owl Song”, “Time Was”,”Shake It And Break It”,  “Going Up The Country” e “Poor Moon”, na voz de Alan Wilson, trazem à banda secções de sopros e ritmos deveras singulares. O blues está lá, mas já é outra coisa. “Poor Moon”, gravado em Julho de 1969, precisamente quando o homem acabara de aterrar na lua, é de uma actualidade impressionante. Procurem a letra:



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