quinta-feira, 22 de agosto de 2019

POEMA POSSÍVEL




eventualmente a Gronelândia
terá ido fazer férias a Guadalajara
cobrindo de granizo as ruas
para espanto dos ursos polares

errando pela cidade
ursos expatriados buscam alimento
perecendo abraçados às crias
nas margens de rios poluídos

eventualmente chamaremos água
ao leito desses rios cobertos de lama
lamentando a ineficácia da ciência
que demasiado ocupada com drones
e muros intransponíveis
negligenciou os implantes de guelras
em ursos expatriados

são extremamente adversas
as condições vividas nesta altura
em ruas cobertas de granizo
nas margens dos rios
na copa das árvores

a Amazónia arde como nunca ardeu
o Ártico arde como nunca ardeu
os índios continuam a arder lentamente
como de há muito é seu hábito

valha-nos a política e os economistas
mais as suas turbovacas
a produzirem leite como nunca
para ressuscitar cadáveres
da morte lenta assistida
por fundos numismáticos internacionais

3 comentários:

Anónimo disse...

Poema do instante agora. Grande cagada.

Marina Tadeu disse...

Oh, querido Jorge Melícias (dedução minha, pois não me dou com ninguém do Clube das Letras) não consigo parar de rir. Muito acutilante da sua parte, pois tenho uma costela fracturada. Saúde e muita força, sim?

Andrea Liette disse...

Obrigada! Precisamos de porta vozes no mundo.Abç.