domingo, 29 de setembro de 2019

FILHAS DO CLIMA

Um poema: aqui.

“ESTA MIÚDA É UMA MERDA”



   Evito certos temas, principalmente quando sobre eles são geradas vagas de controvérsia capazes de arrastar qualquer réstia de bom senso. Não, René, o bom senso não é, de todo, a coisa do mundo mais bem distribuída. Ontem, porém, não consegui evitar. Face ao comentário aqui transcrito sob a forma de título, senti necessidade de dizer alguma coisa. O que poderá levar alguém a referir-se a uma miúda naqueles termos? Há miúdos terríveis, sem dúvida, há miúdos que fazem coisas cruéis, indiscutível. Hoje em dia fala-se amiúde de bullying entre adolescentes, basta darmos um passeio pelo YouTube para facilmente depararmos com matéria deprimente. Logo nos sentimos tentados a generalizar, concluindo que os adolescentes são mais ágeis e expeditos no que toca à assimilação dos piores vícios humanos.
   Mesmo supondo que aquela afirmação se referia a um desses miúdos violentos, chantagistas, energúmenos, faria ela sentido? O que pode levar um adulto a dizer “esta miúda é uma merda”? Um deslize, talvez. Porventura um lapso. Ter-se-á o adulto deixado levar pelo entusiasmo como é frequente nos adolescentes. Seria um adultescente? Enfim, há muitas respostas possíveis para dúvidas análogas e se calhar estão todas certas, e se calhar nenhuma faz sentido. Terá sido apenas um desabafo imponderado.
   Mas a frase referia-se a Greta Thunberg, a tal miúda sueca que anda nas bocas do mundo. O que fez ela para andar assim nas bocas do mundo? Foi a um lugar geralmente frequentado por adultos, muito mal frequentado, diga-se de passagem, proferir palavras acerca de um dos temas mais prementes na actualidade: alterações climáticas. Não é sequer novidade, outros antes dela o fizeram com igual empenho e a mesma ênfase numa eternamente adiada urgência. Aos que no passado o fizeram, o nosso reconhecimento histórico pelo gesto. Que as palavras tenham caído em saco roto não importa, cumpriram o seu papel como Greta agora cumpre o seu.
   Não consigo compreender por que gera tanto ódio e desprezo esta miúda. Será pelo que diz? Será pelo modo como o faz? Julgaria que lhe ficaríamos gratos por demonstrar, mais que não seja, haver causas capazes de arregimentar jovens e adultos, todos em torno de um problema comum. De tanto ouvir falar no desinteresse da juventude pela política, de tanto ouvir falar na passividade e no amorfismo dos jovens, julguei que os sucessivos exemplos de empenho cívico em torno da causa representada por Greta Thunberg pudessem ser interpretados como um sinal de esperança e, senão para todos, pelo menos para a maioria, um exemplo claro e evidente de que é possível despertar consciências e levar à acção.
   Enganei-me. Muitos adultos continuam a olhar para os mais jovens como aquela classe que desde cedo pretendemos arrumada à imagem e semelhança de vetustos vícios e virtudes. Preferimos vê-los empunharem as bandeiras que sempre agitámos, com as camisolas dos clubes de que fazemos parte. Custa-nos menos aceitar que se tornarão como nós do que imaginar que poderão desviar-se dos caminhos por nós traçados. É muito mais confortável olhar para eles como quem olha para mais do mesmo. E talvez seja isto o que leva alguém a dizer que Greta é uma merda, pois é de facto uma merda assumir o erro e humildemente reconhecer que errámos. Errámos, desde logo, no diagnóstico. Por consequência, falhámos redondamente na terapia.
  Quando o mundo pedia terapias de choque, a gente contentou-se com placebos e xaropes. Não importa que outros antes de Greta ou ao mesmo tempo que Greta reivindiquem de modo mais esclarecido a favor desta causa humana básica e universal: a sustentabilidade do planeta. Porque o problema é este, o problema é a sustentabilidade do planeta. O problema não é a Greta ou outros como ela. E já dizia o poeta que para resolvermos um problema basta reconhecermos onde ele está. Talvez ainda nem todos tenham reconhecido que não está na miúda, mas sim naqueles a quem ela se dirige e aponta o dedo.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

EPIGRAMA DE HORACIO CASTILLO


EPIGRAMA

Eu, Estácio, poeta de uma cidade de província,
nasci, vivi e morri como todos os homens
tal como está escrito neste monumento
junto ao qual paraste para urinar.
Se sabes ler, lê, mas nada esperes de extraordinário,
pois recusei o destino dos grandes, não tanto
por falta de valor ou espírito de aventura
mas por uma inata inclinação para a moleza
e para o malsão cepticismo dos eruditos.
Porque fui erudito, e se algo aprendi — mais
da vida do que dos livros — foi a temer
o inesperado e a evitar, tanto quanto possível,
o mal que afecta o ambicioso.
Suportei tudo o que é possível suportar,
conversa fiada e a força dos factos,
a eterna rotação de causas e efeitos
nefasta para um carácter até certo ponto pusilânime.
Simples entre os simples, cínico entre os cínicos,
respeitei a precária natureza humana,
sabendo que apenas pode considerar-se ditoso
aquele que logra apartar dia a dia a desgraça.
Resta-me o valor de haver escrito alguns versos,
pelos quais os meus conterrâneos me consagraram
este lugar retirado, junto a uma gruta
onde os jovens vêm amar-se sub-repticiamente
arrancando de quando em vez uma letra do meu nome.
Sou Estácio, poeta de uma cidade de província:
nasci, vivi e morri como todos os homens

Horacio Castillo, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 340-341. 

ESTÉTICA


Sejamos francos: em território nacional, a Missa em Si menor, de Bach, fez verter menos lágrimas do que Sonhos de Menino, um dos plágios de Tony Carreira.


Eremita, aqui.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

ARTAUD & PANERO




   Depois há aqueles que passam pelo mundo como um terramoto, deixando no rastro da sua passagem um monte de destroços que a história se encarregará de limpar, conservando em mausoléu, claro, resquícios da ruína, para que os vindouros possam revisitar a loucura em classe turística. Por cá falamos de marginais e de libertinos, fazemos listas de vagabundos e de alienados segundo diagnóstico oficial. Cada qual com as suas raízes, certo é que não passaram a vida à secretária. O corpo ofereceu-se à aridez das ruas, a mente ressentiu-se. Lá fora o mundo é mais vasto, abre-se-nos como um mar para que tenhamos noção da incomensurável pequenez que nos coube. Só tamanha consciência nos livrará de sermos tacanhos.
   Tomemos de exemplo o caso Artaud, quase uma década de vida a viajar entre hospícios, mais de cinquenta sessões de electrochoques rematadas com overdose de hidrato de cloral. Pedro Eiras reuniu-lhe e traduziu-lhe «diversos textos escritos nos últimos três anos de vida», entre os quais a célebre peça para rádio que à última hora acabaria proibida. Há muito que se encontrava esgotada, ou a preços proibitivos nas vitrinas dos alfarrabistas, a versão de Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes, pelo que se saúda o ressurgimento de “Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus e Outros Textos Finais (1946-1948)” (FLOP, Março de 2019), até pelo que à peça central se acrescenta de poemas e cartas dispersos.  
   Antonin Artaud (1896-1948) não era figura desconhecida quando produziu estes escritos, entre os quais encontramos também o ensaio dedicado ao pintor holandês Vincent van Gogh: “Van Gogh, o Suicidado da Sociedade” (1947). As sementes do teatro da crueldade tinham sido lançadas ainda antes da Segunda Grande Guerra, vindo esta a comprovar que a arte ficará sempre aquém da realidade em matéria de barbárie. O grito de Artaud fez-se ouvir contra as forças de poder, contra as camisas de força decretadas enquanto farda oficial de sociedades opressivas e esmagadoras da energia individual. O poema “Soco e Esporra” é elucidativo:

(…)
Nunca fundei, lancei ou segui um movimento.
Fui surrealista, é um facto,
mas acho que devia sê-lo de facto,
e era-o de facto mas não quando lançava ou assinava manifestos
a menos que fosse para insultar
                        um papa,
                        um dalai-lama,
                        um buda,
                        um médico,
                        um erudito,
                        um padre,
                        um chui,
                        um poeta,
                        um escritor,
                        um homem,
                        um pedagogo,
                        um revolucionário,
                        um anarquista,
                        um cenobita,
                        um eremita,
                        um reitor,
                        um iogui,
                        um ocultista.
(…)

   São múltiplos, portanto, os alvos, e Artaud desfere contra eles o escarro sufocado da besta, infligido pelos padrões que determinam a fronteira entre loucura e normalidade. Se é que a há, arrisco eu, de olhos postos no panorama ambíguo da actualidade. Detido na camisa de força que a sociedade impingiu, Artaud não tentou libertar-se à laia de escapista. Seria façanha paupérrima para alguém cuja morte provou não haver truques na manga. Os seus textos não resultam de um qualquer talento para a prestidigitação, mas sim da necessidade absoluta que solta da garganta o berro de um animal ferido.
   Nascido no ano em que Artaud sucumbiu, o espanhol Leopoldo María Panero (1948-2014) é outro caso sério de uma alma que em vida carregou a cruz da alucinação. Sobre este pesa desde a infância o apelido respeitável, cedo exorcismado à conta de muito álcool e heroína. A história volta a ser contada por Jorge Melícias, responsável pela selecção e tradução dos poemas coligidos em “A Canção do Croupier do Mississípi e Outros Poemas” (Antígona, Maio de 2019): filho do poeta oficial do franquismo, filiou-se no Partido Comunista Espanhol, foi detido, inicia uma longa peregrinação ao inferno da heroína, estuda filosofia e letras, começa a ter crises depressivas, tenta suicidar-se, diagnosticam-lhe esquizofrenia, passa por vários internamentos psiquiátricos… O resto é literatura.
    Ao contrário de Artaud, cuja obra se ergue mormente contra forças externas, a poesia de Panero parece antes reflectir um processo de autodestruição que tem na sua origem as raízes familiares. Revolta-se contra o berço em que nasceu e, por consequência, contra a Espanha hipócrita da ditadura. Seria interessante tentar compreender o papel da figura materna neste processo, a qual percorre vasta obra em múltiplas reencarnações. E se logo no poema Pavane Pour Un Enfant Défunt lembra que «todos temos dentro de nós uma criança morta» (p. 17), será em Ma Mère, dedicado a uma «desoladora mãe», que melhor se compreenderá o suplício dessa morte: «eu contemplava o meu cérebro para sempre esmagado / e a minha mãe ria» (p. 23).
   Se a mãe é quem gera, a pátria «lugar parecido com o Inferno» (p. 49) é quem forma. Nos seus delírios desviantes a poesia de Leopoldo María Panero assemelha-se a uma experiência de regressão ao encontro da tormenta, correspondendo cada poema ao parto libertador de uma alma mortificada. Assim é no poema O Circo, nas excrescências de um corpo enfermo e na porcaria por ele expelida, na sucessão de imagens abjectas que ecoam obsessões igualmente presentes na obra de Artaud, confluindo para uma estranha simbologia de cadáveres que riem e ruínas coloridas. Blasfemo, raivoso, o poeta exalta o incesto e a necrofilia, confere à poesia a função destrutiva de uma apostasia reveladora.
   Tanto Antoni Artaud como Leopoldo María Panero colocam-nos face ao abismo com as obras que deixaram. Lemos as suas palavras como quem se sente tocado pela ferida, sendo justo aqui falar de uma violência que nada tem de gratuito precisamente por ter sido vivida. A experiência de leitura que proporcionam não equivale a uma volta de carrossel no parque de diversões da indústria metafórica, pois sabemos ter havido por detrás de cada uma daquelas palavras um sofrimento incalculável que jamais se compadeceria com campeonatos de tiro ao prato. São experiências de vida absolutamente radicais, experiências limite, para usar uma terminologia mais filosófica, aquilo que sustenta as obras de um e de outro. Não é o bafo do rancor nem o fátuo estrelato do exibicionista.

REI CEGUETA



Esta mosca que desova no pântano
e voa de bochecha em bochecha, de pálpebra em pálpebra,
trouxe a peste aos nossos olhos: já não vemos
as nuvens sobre os tectos da aldeia,
a sombra da garça subindo a corrente.  
Mas ao entardecer, quando descemos à margem do rio
e o cegueta coroado de ouro repete sua história,
descobrimos pela sua boca grandes sinais no céu,
sangue do olho que sonha pela tribo.

Horacio Castillo, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 335. 

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

TRÁGICO

Uma época preparada em cima do joelho, um treinador despedido para ficarmos com um jogador de matraquilhos no banco, uma equipa que parece uma delegação das Nações Unidas. Como se não bastasse, um defesa central exímio a marcar golos na própria baliza. O Sporting deste ano não é uma anedota, é uma tragédia ao nível dos tempos de antena do PCTP/MRPP. 

domingo, 22 de setembro de 2019

VILA VELHA DE RÓDÃO: POESIA, UM DIA (2019)


Para a Graça Batista
Para o Jaime Rocha

A casa tinha um arado pendurado no tecto. Talvez ali estivesse para nos lavrar o pensamento, ou simplesmente cumprindo a função decorativa de uma obsoleta ferramenta de trabalho. Certo é que me sentei a olhá-la como animal ferido, lembrei-me de meu avô a resmungar com a terra. Cada pessoa tem as suas memórias de privação e dor, é inesperada a mão que as traz à superfície do pensamento.


Por exemplo, a marginal outrora vestida de preto, mulheres rogando por familiares recolhidos no mar, os barcos a desaparecer no horizonte e a angústia a manifestar-se num pranto de súplicas. Era incerto o reencontro. Se a memória for a terra que lavramos, na esperança de que as palavras germinem como sementes, então a página é já a toalha estendida sobre a qual degustamos o alimento.  


Anterior às locomotivas do sono e ao silêncio, uma lua distante espreita-nos por entre as nuvens. Bandos de pássaros cumprem suas funções à beira de um lago, sobrevoando o langor das águas paradas, explorando canaviais. Dizemos plúmbeo, merencório e gemebundo para nos rirmos da solenidade que os poetas metem no olhar. Eu mesmo agora falei das locomotivas do sono, do langor das águas paradas. E ao reler-me, sorri. Na verdade, é apenas água e lodo o que nos aguarda do outro lado das palavras. 


O sopro anima a flauta longa de taboca, de novo nos encontramos no lugar nocturno das aves que em bando pontilham o ar com seus voos sinuosos. Devia ser sempre assim, tão simples como o vento a fazer vibrar o vácuo, respiração circular de um som que atravessa o silêncio e nos chega como uma sílaba estendida sobre as águas, corpo que levita e paira. É este o som do chamamento.


Os olhos vêem de dentro para fora. Se olhamos uma árvore, logo nela projectamos nossas fobias mais profundas. Eu vejo um homem com as mãos em pala a olhar para o horizonte, tu vês um velho ensonado a esfregar os olhos, ela vê uma mãe a chorar o filho martirizado. Vemos tudo menos uma árvore ressequida à sombra dos plátanos, de atalaia a uma conferência de aves que desengana exílio e abandono. 


Eis o contorno a negro da utopia, ver de dentro para fora, aprender passo a passo a lentidão do ar, sabendo que a saída dos labirintos corresponde a uma certa forma de afastamento, não das coisas, mas de nós próprios. A ti me entrego, Senhora das Dores, a ti me entrego feito ruína, pedra sobre pedra há mil anos exposta no alto de um monte, a ti todas as minhas preces ao som do cravo e das harpas de vento. 


Não vi grifos, mas abraçou-me a paisagem com enormes asas de afecto. Por ti incendeio todas as velas, lavro a cera, cada uma com a forma de uma parte do meu sangue, peço-te que protejas tanto os meus amigos como os meus inimigos, que os libertes dos malefícios da melancolia e do rancor, que lhes ilumines a estrada da criação para que juntos ou separados possamos continuar a percorrer os labirintos da loucura que é estar vivo e dizer: amo. 


Então chegados a esse lugar onde se escava a terra para colher o barro com que se moldam casas e sonhos, inspiremos o perfume que adoça as águas. Podem ser estas as asas da utopia. Avisto ao largo a silhueta de quem caminha desaparecendo atrás de um monte. Sei que em desaparecendo para mim, aqui neste lugar onde me encontro, logo aparecerá para alguém no lugar oposto ao meu. E nisto de aparecer e desaparecer o mais relevante é que caminhemos. 


O mais relevante é que ao caminharmos possamos comparecer perante nós próprios com o rosto limpo, já não deslumbrados com o reflexo nas águas do rio, mas como alguém que se olha a si mesmo nos olhos do outro. A este “encontro inesperado do diverso” podemos chamar achamento. Encontro-me em ti, leitor, como tu te encontras em mim, que escrevo. Achamo-nos um no outro. É esse o fruto colhido das palavras semeadas na terra outrora arada pelo pensamento. 

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

VOODOO CHILD


  Por debaixo da betonilha de cimento a erva aguarda uma fresta por onde possa respirar. De cada vez que a terra treme, a erva agita-se, fica num frenético estado de excitação. Pressente que será essa a sua oportunidade de subir pela mínima fenda e tornar-se caminho. À superfície, porém, o lixo acumula-se. Já não é apenas o cimento que suporta vestígios de soalho, arrancado pelas unhas do tempo e por mãos gatunas como à carne subtraímos pústulas de feridas abertas. É o lixo acumulado ao longo dos anos, ideias feitas, preconceitos, estereótipos, lugares comuns, mesmo os menos suspeitáveis.
   Terrível matéria é a vulgaridade dos sonhos, fé martelada contra madeira podre. Há quem se convença de uma eternidade algures submersa entre concepção e morte, aproveitando para evocar espíritos e perfurar com os olhos o corpo de quem caminha a esmo pelos corredores vazios e abandonados da memória. O quebranto enfraquece o corpo e então sente-se a fera como o edifício emparedado, muros de tijolo tapam todos os orifícios para que nem ar nem luz insuflem as salas da alma.
   Os homens erguem catedrais nos lugares mais estranhos e improváveis. Ali, onde o génio aproveitou do mar as marés de fantasia, restam agora vestígios de crenças e a erva a sufocar sob entulho. Numa das divisões da casa sentimos a presença física de um fantasma. Garrafas vazias sugerem bocas sedentas, festa, alegria. Mas o pó que envolve o vidro afasta de imediato qualquer hipótese de vida. Adiante os loucos ou alguém mais louco que os loucos tenta livrar-se dos males injectando nas veias o químico da verdade, para que no horizonte de pedra a vista surja expurgada de melancolia.



   A esta hora, desconfio, nada haverá de mais saudável do que a tristeza que assalta os nervos. Então escrevo: se um mapa houvesse para nos guiar dentro dos labirintos da dúvida, não teria tanta graça cortar a direito, estacionar em lugar proibido, invadir propriedade privada. Sempre que a tentação do crime nos assalta, por exemplo, quando fugimos do pânico gerado na cervical e logo espalhado pelo braço dormente com que semeamos palavras a noite inteira, rodeados de fantasmas percebemos quão ineficaz será o feitiço, quão inútil o medo, quão malbaratadas a paixão e a alegria que cintilam nos olhos do acaso.
   E o outro surge resplandecente no barco que brilha, pequenas e brevíssimas luzes pontuam a noite caída, já nada nos devem e nós a elas nada devemos senão o prazer de olhar. É nesse instante, nesse preciso instante, que a erva irrompe e levanta cimento e desfaz-se do excesso, e varre o lixo e se mostra com a força de uma raiz antiga. É nesse preciso instante que a erva se enche de luz e ar e rebenta como a mais frondosa das árvores. E nós então imitamos na caminhada o voo dos pássaros, como que pendurados nos ramos da erva, crianças vivas nos braços de uma mãe sorridente.
   Onde havia uma casa há agora um abrigo. Ao fundo da avenida, um mar imenso de luminoso silêncio.

sábado, 14 de setembro de 2019

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #24


Se estenderdes todos os livros ao sol, e deixardes a neve, a chuva e os insectos agirem sobre eles durante certo tempo, nada deles há-de ficar.

Salvo raríssimas excepções, começamos por vê-los no papel de criminosos. Só mais tarde nos aperceberemos dos crimes contra eles cometidos. O índio persegue, rapta, viola, assassina, é o monstro atroz por detrás de todas as fobias, colecciona escalpes, envenena, intoxica, tem poderes mágicos, negros, diabólicos. Na escola estranhamos a origem etimológica do termo, equívoco de navegadores tomados por heróis, símbolos arcaicos de uma cultura erguida através da exploração, da escravatura, da dizimação do outro em busca de ouro. Passamos a desconfiar dos filmes, realizados quase invariavelmente a partir de uma perspectiva missionária. O índio era o selvagem, não tinha cultura, precisava de ser aculturado. Que representação faríamos do índio se tivesse sido ele a inventar o cinema? A resistência do índio à aculturação leva-nos então a questionar a história que nos foi contada. Outrora predadores, passamos a vê-los no lugar da presa. Corremos o risco da simplificação se julgarmos pura aquela condição desnudada. Onde há homens, minhas filhas, não há pureza alguma, pois ao homem foi concedido, antes de qualquer outro, o dom de conspurcar. E o índio é, antes de mais, homem.
   Chamamos inteligência à capacidade adquirida de vergar o outro à nossa fome, partimos à conquista, transcendemos as barreiras do medo, injectamos ódio no sangue e fixamo-nos entre muralhas. Onde há homem, haverá sempre este impulso de morte. Mas nem todas as pirâmides são de cinza e de pedra, há delas que se erigem no ar, sustentadas pela respiração do olhar contemplativo, pelo respeito às forças naturais. Há delas que não carecem de civilização, e por isso mesmo se mantêm mais próximas da origem sagrada que a vida inspira. “A Fala do Índio” canta-nos essa origem, recuperando e conservando vozes que ao longo dos anos vão ecoando no vento. A verdade é que fomos nós que os exterminámos e não o contrário, talvez por desde muito cedo termos pressentido que não convinha nada ao chamado progresso aquela teimosa oposição à propriedade privada. Fomos nós quem aniquilou a cultura do índio e não o contrário, pois temos uma cultura muito dada à aniquilação de todas as outras que se lhe oponham. A premissa é genesíaca, ide e dominai o outro, o vosso sucesso será tanto maior quanto maior for o vosso poder de aniquilar. Assim foi ao longo dos séculos, devastando terras, extinguindo fauna e flora, meios de subsistência, impondo com tácticas maquiavélicas o crucifixo da servidão onde havia a Dança dos Espíritos. E se Deus não dança, minhas filhas, para quê o baile? 
   Sobre o índio pesam dois pesadíssimos fardos, o do fascínio exótico e o do medo. De onde vem este medo? Percebê-lo-eis se escutardes com atenção o chamamento. A fala do índio atrai-nos para o interior da floresta, aí tudo é novo e selvagem, tudo é genuíno e, por isso mesmo, temível. Nesse labirinto sentimo-nos como o insecto apanhado na teia, perdemos o (auto)domínio, somos obrigados a aceitar a nossa fragilidade, ficamos desprovidos de armas que nos defendam do acaso e do acidente. Os mistérios da floresta são desconfortáveis para quem saiba apenas caminhar com bússolas e mapas em estradas abertas. O índio diz que a rocha fala, que a pedra tem vida, que a floresta é um lar, o índio diz-se parte integrante da floresta, para ele deixa de haver um eu e um tu, somos nós, a unidade é o colectivo, o índio escuta, o branco tagarela, a lei do índio é a respiração do canto, para o índio a morte não existe, para o branco a morte garante servidão em vida na perspectiva de uma plenitude na morte, o paraíso do índio é na Terra, no espírito da Terra, o paraíso do branco é o desejo recalcado de mil virgens. 
   Temos tudo a aprender com esta fala se lhe abrirmos os ouvidos e escutarmos com atenção, em silêncio: «Acreditai que por mais miseráveis que a vossos olhos sejamos, nos vemos todavia como gente mais feliz do que vós, e isto por nos contentarmos com o pouco que temos… ficareis profundamente desiludidos se pensardes convencer-nos de que a vossa terra é melhor do que a nossa. Pois sendo França, conforme dizeis, um pequeno paraíso, será sensato abandoná-la?» Assim falava um chefe micmac no ano de 1676. Passados séculos, que temos hoje? Os nossos paraísos transformados em infernos insustentáveis, andamos a pôr pensos rápidos em chagas gangrenadas. Continuamos a devastar invadindo o outro para lhes impormos o nosso paraíso, a nossa rica vida, o nosso sufoco. Respirai, pois, o ar desta voz selvagem, na esperança de que podeis purificar um pouco vossos corações poluídos pelos estranhos costumes das culturas que se autoproclamam superiores, convencidas de si mesmas contra os factos que apenas comprovam corações tristes, mentes doentes, acções desesperadas. Coligiu Teri C. McLuhan, traduziu Júlio Henriques, publicou a Fenda em Julho de 2000.

9. Tarantela e Marrabenta

Ama um caracol,
Uma lesma,
E chora.

Ou sustém as lágrimas.

Há um tigre na tua varanda,
que ninguém vê.
Alimenta-o.

Que chegou o tempo dos homens-leões
E quem sabe?

Tigre, caracol, lesma,
Cercam-te como uma duração.
Vive o mundo em cada nome,
Esses, de animais ausentes
Ou invisíveis,
Quase.

E recorda a tarantela dos arraiais
Longínquos, as cercanias
Das cidades dos outros, os seus frutos.

Tu és dos cantos do Sul,
Sem gelosias para tapar o sol,
E espreitas à janela
Os ritmos da terra, as raízes sincopadas
Nos quadris, os deuses que sobem
Das raízes das árvores, os mortos
Saciados com vinho
E panos à cintura.

Marrabenta & Tarantela,
Zefanias sem usura.


Luís Carlos Patraquim, in A Canção de Zefanias Sforza, Porto Editora, Junho de 2010, pp. 79-80.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

MICENAS



MICENAS

As nuvens passam sombrias sobre a pedra
onde em vão se buscam rastos do sangue
que secou para sempre a terra
outrora rica em cavalos.

Por onde passaram os pertences
até ao mar e à guerra
agora um hálito como que de túmulo recém-aberto
sai ao encontro do viajante.

E desde o terraço, se se avista
a áspera e ocre planície,
também se escuta o bronze cintilante  
e o áureo rosto resplandece.

Pura ilusão, nostalgia dos homens
a quem a inteligência sossegou o coração
e já não sabem retesar o arco da vida.


Horacio Castillo, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 333. Nasceu em Ensenada, província de Buenos Aires, em 1934. Formou-se em Direito. Poeta, ensaísta e tradutor, sobretudo de grego, membro da Academia Argentina de Letras e correspondente da Real Academia Espanhola, estreou-se em 1971 com o livro “Descripción”. Mais tarde acabaria por renegar este primeiro livro, passando a considerar-se “Materia acre” (1974) a sua primeira obra. Recebeu ao longo da vida alguns prémios e distinções, reunindo por duas ocasiões a totalidade do seu trabalho poético. Fortemente marcado pelo imaginário clássico, muita da sua poesia tem como tema central a viagem. Traduziu Odysseas Elytis, Yannis Ritsos, entre outros poetas gregos. Na introdução a “La Casa del Ahorcado” (obra reunida), Pablo Anadón diz que a obra de Castillo combina o intelectualismo girriano com o surrealismo de Enrique Molina e outros, apostando num distanciamento entre o autor e o objecto poético. Dedicou a Alberto Girri um importante ensaio, publicado em 1983. Faleceu em La Plata a 5 de Julho de 2010.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

UM POEMA DE HORACIO CASTILLO


EM CIMA E EM BAIXO

a Hölderlin

Em cima nada mudou ao longo dos anos:
a lua sobre o álamo,
a crista dos telhados,
o terraço onde o senhor Scardanelli
presta diariamente culto aos seus hóspedes.

Em baixo cresceram e tiveram filhos,
vão e vêm por vitualhas e notícias,
ou voltam como agora de enterrar algum morto
e saúdam de passagem o vizinho carpinteiro
que tem um deus como inquilino.

Horacio Castillo, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 332.

domingo, 8 de setembro de 2019

BRASIL VEZES QUATRO


Com selecção e introdução de Raquel Nobre Guerra, a poeta brasileira Ana Martins Marques (n. 1977) apresenta-se aos leitores portugueses com a antologia “Linha de Rebentação” (Douda Correria, Abril de 2019). A recolha contempla todos os livros publicados anteriormente pela autora: “A vida submarina” (2009), “Da arte das armadilhas” (2011), “O livro das semelhanças” (2015), “Duas Janelas” (2016) e “Como se fosse a casa (uma correspondência)” (2017). Com formação académica na área da literatura, Ana Martins Marques não foge aos padrões de uma poesia contemporânea empenhada na sedução do leitor através do recurso a técnicas retóricas bastante comuns. O uso recorrente da anáfora é o mais óbvio desses recursos, mormente nos poemas de “O livro das semelhanças”. Também muito frequente nesta poesia é a reflexão que o poema opera acerca da sua própria natureza. Logo no primeiro é uma âncora pesada, afunda. Todos os textos seguintes referem-se, de um modo ou de outro, ao próprio poema, decifrando-lhe o sentido, demarcando-o da realidade, oferecendo-lhe autonomia, caracterizando-o. Nos primeiros sete aqui coligidos a palavra poema destaca-se enquanto ponto cardeal de uma reflexão posteriormente aberta a temas domésticos e assuntos amorosos. Tudo sem feridas de maior, discurso sedutor e limpo. Algumas epígrafes e alusões permitem-nos traçar o mapa de influências por detrás desta poesia, a qual mereceu o terceiro lugar do Prémio Oceanos com “O livro das semelhanças” (2015). Repare-se como os próprios títulos desse livro ironizam a construção do objecto em causa, redundando em exercícios pouco mais do que tecnicamente agradáveis:  

Poema de trás para frente

A memória lê o dia
de trás para frente

acendo um poema em outro poema
como quem acende um cigarro no outro

que vestígio deixamos
do que não fizemos?
como os buracos funcionam?

somos cada vez mais jovens
nas fotografias

de trás para frente
a memória lê o dia

Professor de Literatura, Eucanaã Ferraz (n. 1961) começou a publicar na década de 1990. Várias vezes premiado, viu a sua poesia reunida em 2016 pela Imprensa Nacional Casa da Moeda. “Retratos com Erro” (Tinta-da-China, Maio de 2019) coloca em xeque, de um modo altamente irónico, a possibilidade do poema enquanto retrato. Numa das estâncias de “Autobiografia” lê-se o seguinte: «Depois trocou tudo por espelhos. / Depois perdeu. / Depois vieram outros espelhos. / Depois se cortou» (p. 8). A poesia de Eucanaã Ferraz desmonta a tirania da dualidade, transcendendo as margens que impõem relações unívocas entre o corpo e o reflexo, o amante e o amado, o eu e o outro. A ilusão, o equívoco, o absurdo, a fantasia, a distorção, contribuem para esse trabalho de desmontagem com suas lógicas invertidas. À normalidade contrapõe-se a aberração, à ordem contrapõe-se a desordem, ganhando forma o nonsense num mundo do qual já pouco se espera de sentido: «Vim ao mundo para escrever sobre o rapaz / que se apaixonou pelo detector de fumaça no quarto do hotel» (p. 36). Os poemas de Eucanaã Ferraz não são meros exercícios académicos, mergulham desesperadamente no mundo para se desdobrarem em retratos anormais desse mesmo mundo. A ironia está em que é precisamente o defeito aquilo que melhor convém a um retrato da realidade. Memórias misturam-se com observações delirantes, num roteiro que leva à solidez do poema enquanto terreno desta desordem: «Interruptores de hotel me irritam. / Filósofos me interruptam» (p. 66). No final, o poema resulta enquanto auscultação de um mundo febril. Expurgado de excrescências e de detritos, por não ser sua intenção fotografar, mas sim reflectir, o erro nestes retratos não resulta de uma lógica dividida entre verdadeiro e falso, mas antes da consciência de uma limitação que afecta toda a linguagem:

FOTO

Eis o retrato sem nenhum retoque:
agora é o tempo da canção imóvel
sob a sombra do teu rosto assim quieto
o que era o sol agora é sono e tédio
o que vibrava agora é vidro opaco
agora é o tempo do verso estragado
pela ilusão de nos bastarmos nele
a madrugada se apagou na pele
o meu carinho agora é um gesto seco
é o teu silêncio que me diz é o tempo
de um céu aberto céu sem céu o certo
é fecharmos as portas esquecermos
a hora é grande agora e nos separa
por letras mortas como um dicionário
entre os teus dedos foram-se as cidades
e há muitas pedras nos meus olhos áridos.
Este o retrato sem nenhum retoque.



   À Flan de Tal associamos a publicação da Flanzine, revista apostada num diálogo multidisciplinar com ligação directa aos fanzines. Surge agora também como editora de uma nova colecção de poesia intitulada elemeNtário, assim chamada por ser propósito dos editores desafiarem autores convidados a escreverem tendo como ponto de partida um elemento da Tabela Periódica. 
   A Alberto Lins Caldas (n. 1957) coube “Tântalo” (Flan de Tal, Agosto de 2019), optando o autor por uma estrutura dramática que recupera a figura mitológica do rei que deu origem à expressão “suplício de Tântalo”. Condenado a não poder saciar fome e sede, o sujeito poético nestes poemas de Lins Caldas confunde-se com um condenado para a eternidade. Além da estrutura, um dos aspectos que logo impressiona o leitor é o tratamento dado à língua e o modo como esta implode no interior dos poemas. Destas implosões sobra uma linguagem estilhaçada, as palavras ora se desfazem, ora se aglutinam, num processo que parte de um princípio desde logo anunciado: «•destroçando tudo pra se refazer amanhã•» (p. 7). Na fábula de contornos políticos assim montada, os poemas produzem efeitos de saturação e irrisão que não tentam disfarçar o cenário de caos para que remetem. Do caos ressumam sentimentos de agonia, dor, violência, crueldade, solidão, fazendo-se incluir uma crítica forte ao alheamento e à alienação das massas face ao mundo que as corrói: «•alegre fazemos festas vamos as praias• / •fazemos versinhos e canções ao amor• / •dizemos ?é ilusão como rolabostas não• / •gigantes adormecidos no verde oliva• / •oceanos povo heróico e vara no anil• / •sombras q mentem tomam cervejas• / •jamais enrolabostas comendo pulgas•» (p. 22). Sem tácticas nem preocupações retóricas, Alberto Lins Caldas vem de há muito construindo um edifício poético isolado e exilado. A sua poesia resiste à interpretação vulgar, não busca um leitor passivo, exige confronto e até distanciamento. A melhor imagem para isso talvez seja a que o próprio desenha numa estrofe de um poema quixotesco: «•meu caro sancho• / •quando o abismo do inferno• / •inverte com o paraiso• / •e fomos nos• / •q deixamos esse horror• / •não nos cabe senão lutar• / •mas sabendo q ja perdemos•» (p. 52).
   Na mesma colecção damos com “Cloro” (Flan de Tal, Agosto de 2019), de Gabriela Gomes (n. 1987). Altamente experimental, este é um livro em busca de si mesmo, feito a partir do processo subjacente à sua construção. Nele cabem imagens, citações de origem diversa, ciência, História, diálogos nas redes sociais, memórias da infância. Do cloro enquanto arma de destruição massiva, gás tóxico usado na I Grande Guerra e na Síria, ao cloro como produto de limpeza e desinfecção, passado e presente misturam-se num puzzle montado para chegar ao momento actual brasileiro. Poema-livro, livro-poema, o resultado é uma espécie de curta-metragem em papel com uma «b(ode) ao cloro» por epílogo. No final mencionam-se as fontes, entre as quais podemos encontrar poetas, músicos, artistas plásticos. A multidisciplinaridade é clara.

sábado, 7 de setembro de 2019

ARTE POÉTICA DE HORACIO CASTILLO




ARTE POÉTICA

Soltar a língua, de modo a que não trave o produto
que vem de dentro, motivado
por uma força superior
e pelo hábil jogo de rins e diafragma;
insistir pressionando os músculos
como que para expulsar
um cavalo ou um ciclope;
repetir o procedimento
provocando-o inclusive com os dedos
ou com um objecto picante,
até ficar vazio, apenas pele ressequida,
odre para pendurar na primeira árvore,
extenuada matriz do volátil, quiçá luminosa.

Horacio Castillo, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 331.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

«COM OS MEUS OLHOS EXTEMPORÂNEOS»

Leio, releio. A Pequena Crónica de Esther Meynell, e recolhas de documentos do tempo de Bach. Contratos, cartas oficiais. Mas também detalhados relatórios sobre órgãos, e o inventário de bens após a morte do compositor. Depois, mais documentos administrativos, depositados em arquivos municipais. Páginas anódinas, quantas vezes, que analiso com entusiasmo. E se, por exemplo, uma acta diz que o Consistório de Arnstadt repreendeu o organista Baxh por se ter demorado numa viagem a Lübeck quatro vezes mais tempo do que o autorizado pelos seus superiores, para estudar com Dietrich Buxtehude, e por, de regresso ao seu posto, fazer espantosas variações nos seus corais, não sem recorrer a acordes estranhos, para surpresa e desagrado da comunidade, e se leio ainda que, após esta repreensão pelos prelúdios demasiado extensos, o organista Bach começou a improvisar prelúdios brevíssimos, que acabavam logo depois de começar, sendo outra vez repreendido pelo Consistório, se leio estas tão pequenas acusações e defesas, perdidas entre arquivos, com os meus olhos do século XXI, vejo surgirem dessa página, inteiras, Arnstadt e Lübeck, o Consistório e o organista, os tubos do órgão na igreja e as partituras manuscritas, os gestos irascíveis e as paixões contidas, tudo quanto aconteceu e se perdeu nesses dias do início de 1706, vivo e doloroso outra vez, num livro entre as minhas mãos.
   Não se pode ressuscitar o passado, mas pode-se escrever sobre o passado, no presente; e misturar os tempos. Receber o que resta de antigas vozes, assinaturas, a dobra da linguagem, suas cerimónias e seus implícitos, a surpreendente consciência de que estas pessoas existiram — o Consistório de Arnstadt, o organista repreendido, um aluno, um fazedor de órgãos, às vezes só um nome sem história, sem obra, sem data de nascimento nem de morte, mas nome de uma pessoa que existiu, de quem resta um processo, uma dívida, uma brevíssima menção. Tentação pequena, infantil, de fantasiar: quem seria este violinista, esse organista, aquele viajante? Nomes, maledicências, testemunhos, um simples registo: a única marca, a única prova de que alguém viveu, com os seus entusiasmos, medos, as suas crenças, alegrias, esperanças, a sua morte.
   Leio estas páginas, sites, fac-similes com os meus olhos extemporâneos; leio, interrogo, comparo, trezentos anos depois. Ignoro tanto sobre estes nomes; mas sei o que eles não souberam: que o mundo deles acabou, tudo quanto parecia eterno se revelou perecível, a ordem da sociedade e das nações mudou mil vezes, o que era proibido tornou-se corrente e o necessário escusado, crime e inocência confundiram-se, mas nessa violenta desordem das coisas — a que devagar nos fomos habituando, quase inconscientemente, no ciclo das gerações — a música do Kantor, irascível, envelhecido e fora de moda, sobreviveu.

Pedro Eiras, in Bach, Assírio & Alvim, Setembro de 2014, pp. 28-29.

FALAR COM O OLHAR

Em quase tudo podemos encontrar um lado bom e um lado mau. Não em tudo, como vulgarmente se diz. Não sei o que possa haver de bom, por exemplo, na perda de um filho. Mas na generalidade das coisas a gente consegue encontrar dimensões aparentemente contraditórias, os pilares sobre os quais a realidade vai sendo erguida. Penso nisto a propósito do regresso ao Facebook, depósito de lixo, execrável máquina de propaganda ao serviço da desinformação e da mentira, motor gerador de equívocos. O Facebook é como aquelas máquinas de alongamentos num ginásio, obriga-nos a um esforço tremendo, tantas vezes inglório, mas que de algum modo ajuda a tonificar os músculos do debate e da discussão. Ou ficamos sem paciência nenhuma ou ficamos com uma paciência de Jó. Este é o lado mau, este é o lado bom. Como preferirem. Mas há um lado inegavelmente bom nestas redes comunicacionais, um lado inesperado e singelo que passa quase despercebido. A partilha de instantâneos, por exemplo. 
Para o caso, roubo duas imagens. Aquela ali ao lado foi partilhada pelo meu amigo António Ramalho, a outra mais abaixo foi partilhada pela Marina Tadeu. Não sei porque gosto tanto destas duas imagens, é-me difícil exprimi-lo. Tenho a certeza que me transmitem sensações muito fortes, mas como expressá-las? Ouvimos dizer, vezes sem conta, que vivemos num mundo de imagens, que toda a comunicação está hoje intoxicada pela imagem. Este discurso é em si mesmo altamente tóxico, já que as imagens só intoxicam quem não tiver filtros para elas. E os filtros, creio, mantêm a origem. A palavra ajuda a filtrar a imagem, na medida em que lhe oferece um sentido mesmo quando o sentido da imagem é a total ausência de sentido. A palavra transforma a imagem em linguagem. Na primeira das imagens aqui partilhada podemos observar muita coisa, podemos concentrar-nos no enquadramento, falar do jogo de luz e sombra, podemos formular todo um discurso sobre o contraste do rosto pintado na parede e do corpo físico sentado ao pé desse rosto. A realidade mistura-se com a ficção nesta imagem, o equilíbrio impressiona-me por sentir ali alegria e tristeza, transformação, o prazer, representado pela bebida, a distanciar-se do corpo como de um corpo se distancia a vitalidade. Aquele homem ali sentado é uma espécie de sombra do rosto velho, mas feliz, desenhado na parede, sabemos que aquele homem está a transformar-se no rosto que o encima. Há uma espécie de projecção, continuidade.


Nesta outra imagem temos já a morte representada por um acumulado caótico de lápides. Tudo quanto sobrará de nós está ali, com um pormenor altamente dignificante. O corpo físico que na ponta superior direita olha para o alto. Quase não se vê, mas está lá. Este resquício de vida quase imperceptível num aglomerado de morte faz-me pensar em muitas coisas, a mais forte das quais é o modo como interpretamos a nossa passagem pelo tempo e a relação que mantemos com aquilo que passou e se perdeu. Há pessoas que falam da actualidade comparando-a com o passado, sem saberem minimamente como era a actualidade do tempo a que se referem. O que sabem foi o que sobrou, trabalho de conservação, o que têm desse passado é já uma construção histórica que excluiu, varreu, limpou. O passado chega-nos sempre desinfectado, expurgado, aliviado do lixo dos dias que tanto nos atrofia no presente. Mesmo agarrando numa arte relativamente recente como o cinema, para um filme de génio exibido em 1950 a gente encontra milhares de filmes de merda estreados nesse mesmo ano. A História tende a esquecer a merda, construindo um passado de sonho para nostálgicos e saudosistas. Seria altamente pedagógico encontramos uma História da Merda para ficarmos mais cientes do que andamos a fazer no mundo, não de agora, não de ontem, mas de sempre. Desse lado rasurado pelo tempo, todo esse universo esquecido, apagado, enterrado, cremado, ressuscitam por vezes breves ecos. Estes dois instantâneos fazem-me pensar nisso mesmo. De uma forma talvez involuntária captam com extraordinária argúcia a linguagem do tempo. Acho que é isso que me toca tantos nestas duas imagens. Ou então são apenas meras imagens sem significado nem sentido. Mas se assim for, por que resolveu alguém partilhá-las? E por que me dizem tanto? Alguém viu nelas algo de especial, eu também vejo nelas algo de especial. Esse ver denota já um discurso, isso é reconfortante num mundo como o de hoje. Que alguém consiga falar olhando. Cliquem para lerem melhor.