quarta-feira, 30 de outubro de 2019

PORQUE CANTA UM PEQUENO CORAÇÃO


Porque Canta Um Pequeno Coração (não (edições), Setembro de 2019) é o segundo livro de poemas publicado por José Pedro Moreira (n. 1983). O primeiro foi Gatos no Quintal (Enfermaria 6, Março de 2018), ao qual de algum modo agora se alude no poema “A pequena Lizzie”. Dirige-se este ao Sr. Leitor, pressupondo em tão abstracta figura considerações acerca da matéria oferecida pel’ «o cavalheiro com pretensões a poeta» (p. 116). Escusa de pretender, já o é. E para tanto não necessitávamos sequer do jogo a que se propõe ao interpelar-nos daquela forma.
Os poemas de José Pedro Moreira assumem descontraidamente e sem preconceitos a natureza lúdica que os anima sem que a tal se restrinjam. A própria organização deste volume parece querer sublinhar esse aspecto, distribuindo o conteúdo por um Lado A e por um Lado B aos quais se acrescenta, no final, um “poema escondido”, como em certos CDs passámos a encontrar, a certa altura, temas escondidos. Clássico e modernidade conjugam-se e equilibram-se deste modo, sem que nenhum dos lados se imponha ao outro ou revele pretensões de protagonismo.
   Dedicado à memória dos avós, os quais aparecem retratados, especialmente, nos poemas do Lado B, este livro não negligencia a experiência vivida enquanto fonte privilegiada do poético, mas mistura-a, por vezes confunde-a, incorpora-a até numa leitura particular da mitologia que alicerça a história ocidental. O efeito proporcionado é altamente compensador, na medida em que faz descer à banalidade dos dias os heróis de uma ancestralidade mais mitológica do que historiográfica. Se foi Deus quem nos criou à sua semelhança ou nós que gerámos os deuses para fazer sobressair os vícios e as virtudes humanas, pouco aqui importa. Acabamos todos a um mesmo nível, aquele em que o vício do jogo e uma receita de culinária podem transformar-se em assunto de poesia sem que se perca o fio à meada.
   O herói clássico pode então confundir-se com o moderno vocalista de uma banda rock que a certa altura, incomodado pelos fãs, «pigarreia / abre os olhos / for fuck’s sake / why won’t you fuck off» (p. 23). Os clientes mistério desta poesia são, pois, gente vulgar como o poeta de Facebook ou os frequentadores do Akiport Cafe, a estrela rock ou anónimos que se cruzam numa qualquer cena quotidiana, mas também um dos maiores poetas da Roma Antiga, um célebre casal de pobres camponeses cantado por Ovídio, o avô Augusto e a avó Alzira. Uma das características mais fascinantes desta poesia é a cultura erudita que sugere sem necessidade de ostentação, a qual tantas vezes derrapa, noutras circunstâncias, num pedantismo insuportável, enterrando-se numa indecifrabilidade que não permite o poema respirar.
   Por vezes humorísticos, estes poemas superam com acutilância a monotonia quotidiana, fintando-nos na volta com comoventes ingressões pelos lugares da memória, como nessa extraordinária sequência intitulada “A morte de Augusto”, no que poderia ser considerado um mero divertimento sobre o fundador do Império Romano, não fora Augusto também o nome do avô a quem o poema se dirige. Um outro poema sequência, porventura o melhor que tive o prazer de ler este ano, glosa com hábil comicidade o excêntrico condutor de limusines e foguetes Mike Hughes. A singularidade da personagem presta-se ao serviço, mas o poema "TODA A VERDADE!!!" acaba por retratar, de um modo mais geral, o estado de estranheza, bizarria e extravagância a que a humanidade chegou: «e para salvar a democracia / das maquinações / das elites liberais / foi preciso / suspender as eleições» (p. 48).
   Acerca de Gatos no Quintal sublinhei noutro texto a capacidade de questionar a realidade a partir de um jogo persistente entre passado e presente, prática que José Pedro Moreira desenvolve neste novo livro com especial habilidade. O que se me tornou agora mais evidente, porém, é a emotividade velada pela atitude lúdica e irónica. Os ambientes podem camuflar os valores dessa emotividade, mas esta acaba por se revelar no interior de uma narratividade que tende para remates onde a amizade e o amor se sobrepõem à leitura histórica: «deste santuário não resta / qualquer vestígio arqueológico / e há bons motivos para acreditar / que os fragmentos de Riano / são uma falsificação moderna // mas estás tão bela / naquela fotografia / ainda vermelha / do escaldão que apanhaste / no dia anterior» (p. 61).

terça-feira, 29 de outubro de 2019

LEVAR A SAIA A GARCIA


Não sou esquisito em termos de dress code, procuro respeitar o que as circunstâncias exigem conquanto não me obriguem a dispensar cuecas esfarrapadas e meias rotas. Nunca precisei de dar nas vistas para marcar posição, mas também nunca precisei de marcar posição senão perante a minha consciência. Cuecas esfarrapadas e meias rotas são a minha arte poética, o meu statement contra a ditadura das aparências, do parecer, da hipocrisia. Assinalam igualmente uma espécie de solidariedade para com os desafortunados, irmandade que a indigência me inspira. No fundo, o meu princípio é sempre o mesmo: podem enfeitar-nos com fatiotas no caixão, o tempo encarregar-se-á de transformar tudo em pó e trapos.

domingo, 27 de outubro de 2019

JOSÉ BENTO (1932-2019)


    O que ele não viveu nos anos suprimidos
depois de ter abandonado
a terra hoje rescaldo na memória
(ruas, sombras, páginas, crepúsculos
a transbordar de becos ou ateando o mar,
aquele rosto ainda mais seu do que este
que desde o início se lhe impõe no espelho),

— é acaso a sua vida verdadeira,
a única a manar o impulso estranho
que no sonho se atinge
com tanta força que tem de dissipar-se.

   O que foram esses dias abolidos
sob motivos nulos
por actos não mais que nascituros
ninguém decifrará nunca,
e ele menos que todos:
ignora quem era
quando não se reconheceu ao contornar
a distância a que de si vagueava.

    Regressar, se possível fosse
avivar anos pútridos — tantos
que uns sobre os outros se esfacelam —,
e entre os seus estratos
retomar o que não pôde apreender-se
por não ter assumido a sua forma?

    Talvez então entre os corpos ressurgidos
ele brotasse, não como ressurgido
mas caminhando uma vez mais
por ruas familiares, a repor casas
onde alguém se lembraria do seu vulto,
sustentando nos ombros a matina
que o chamasse não importaria aonde:

    unos por fim aquele rosto tão ansiado
e este outro de que mal sabe ser o seu.


José Bento, in Canal - Revista de Literatura, n.º 3, Edição Palha de Abrantes, Julho/Agosto de 1998,  p. 10.

sábado, 26 de outubro de 2019

MAPAS


John Freeman (n. 1974) foi editor da Granta entre 2009 e 2013, revista literária cuja edição portuguesa é publicada pela mesma editora que acolheu por cá o seu primeiro livro de poemas. Mapas (Tinta-da-China, Março de 2019), com tradução de Miguel Cardoso, surge à margem da colecção de poesia da mesma editora, o que lhe confere certo destaque, mas quem esteja familiarizado com a moderna poesia norte-americana perceberá não haver nada de excepcional neste livro. Os três conjuntos nele incluídos mapeiam os lugares e as memórias do autor, resvalando amiúde para um biografismo, de que o poema “A Insciência” é o exemplo mais vivo, assinalado por perdas pessoais, pelo contexto familiar, pela doença e pela dor. Este território íntimo faz-se acompanhar por um percurso que nos desloca amiúde para cenários desoladores e conflituosos, através de referências a Beirute, Sarajevo, Damasco, só para dar três exemplos. Alguns poemas referem-se a situações específicas, localizadas no espaço e devidamente datadas, outros são mera expressão de um intimismo marcado pela dor da perda: «E / se tatuasse / a cara dela / na minha cara, achas / que chega? Conduzimos / por uma milha, em / silêncio até nos / apercebermos de / que é precisamente / isso que uma cara é» (p. 83). Fazendo uso de uma linguagem sóbria e contida, Freeman relata-nos viagens no espaço e no tempo, faz de cada poema testemunho de um momento onde a paisagem física se mistura com reflexão. Por vezes o verso alonga-se e chega a transformar-se em prosa, sem que cheguemos a dar pela diferença entre a realidade restringida no poema curto e a espraiada em verso longo. Lá pelo meio há um poema em toada portuguesa:

SAUDADE

quer dizer nostalgia, fiquei a saber, mas também
nostalgia do que nunca foi. Mas não é
a mesma coisa? Num café
do Rio moscas coroam o meu copo.

Como te terias deliciado com isto: o empregado
a escurecer de suor a camisa de rede. Crianças
a trotar de fatinho ou calção comprido arrastando
brinquedos e toalhas rumo à praia. Falamos,

ou falo eu, imagino a tua resposta, o calor a toldar-nos a vista.
Aqui, outra vez, o desgosto vertido na sua mais cruel tradução:
o meu tu imaginado é tudo o que me resta de ti.


John Freeman, in Mapas, Tinta-da-China, trad. Miguel Cardoso, Março de 2019, p. 103.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

UM POEMA DE RAPHAEL SASSAKI


gravidade

às vezes os literatos
valorizam demais a literatura
e isso, me parece
é um bocado errado

estou aprendendo a ler mapas de ponta cabeça
e a tirar fotos do coração das bananas

no jornal diziam que os portugueses
haviam descoberto a molécula da saudade
e aqui em São Paulo todos os dias
há graffitis novos
para apontarmos o dedo

os escombros de prédios aqui
parecem pavimentos de montanhas

às vezes tenho medo
que algum objeto estranho
leve teu corpo embora

mas é sempre bom lembrar
que mesmo na chuva
podemos sair de casa
para jogar brisa na cara
e achar pedaços de verdade
nesse fosso de estrelas


Raphael Sassaki (n. 1988), in A destruição do Mundo, Douda Correria, Junho de 2019, s/p.

HABEAS CORPUS



   Suponho que um dos maiores desafios colocados a quem escreva um conto seja o de conseguir sintetizar a vida inteira num mínimo de palavras, partindo para tal de uma situação que convide o leitor a embarcar numa viagem sem fim. Os melhores remates deixam tudo em aberto, a "punchline" e o “wit” são meros adereços num cenário sem muros nem fronteiras. Nisto o conto distingue-se do fragmento e do aforismo, frase onde o pensamento se manifesta sem recurso à acção e à personagem. E afasta-se da poesia, quando se afasta, pelo uso de uma linguagem que encerra discursos, gestos, acções, tendencialmente circunscritos a uma situação específica. 
   Se tomarmos de exemplo o conto que oferece título à mais recente colectânea de Carlos Querido (n. 1956), a segunda depois de Insanus (Abysmo, Julho de 2017), perceberemos melhor esta especificidade do conto. A situação é um funeral, as personagens são os amigos do defunto, a acção é o conflito entre os amigos e a família do defunto. Há um motivo para esse conflito. A família pretende um funeral católico convencional, desrespeitando a última vontade do morto. Os amigos empenham-se no cumprimento dessa vontade, a qual incluía cremação, a leitura de um poema de Ruy Belo e subsequente libertação das cinzas ao largo do Cabo Carvoeiro. A solução decorrente do conflito não chega sequer a ser o aspecto mais relevante. Múltiplas seriam as opções. 
   O que se me afigura bem mais relevante é o modo como o tema da morte aparece tratado neste Habeas Corpus (Abysmo, Maio de 2019), tanto neste como nos outros contos do livro. A linguagem jurídica que a expressão latina define não determina o âmbito de acção nestes contos, os quais extravasam amiúde as leis da lógica e da normalidade para confrontarem o leitor com configurações alternativas do real. Se a procura do “sentido da vida” (vide conto “O Confronto”) se processa a partir da constatação da finitude, não deixa de ser verdade que essa mesma busca leva as personagens a olharem mais para o interior de si mesmas do que para fora. 
   A certa altura, no conto “O Regresso a Casa”, deparamos com um final denunciador da filosofia subjacente ao conjunto: «Um dia, cansado de aventuras, suspendeu o olhar em redor e voltou-se para si. Tão insondáveis como o universo, só os enigmas da alma» (p. 31). Ao cansaço colhido da vida corresponde o movimento introspectivo que leva à doença, podendo esta ser entendida não apenas no sentido literal do termo mas enquanto experiência da anormalidade, do desequilíbrio, do defeito, experiência do enigmático e do misterioso. A uma percepção objectiva dos factos (vide conto “O Vidro Embaciado) preferem-se visões alternativas, subjectivas, marcadas pela doença, consultas psiquiátricas, sinais de estranheza, momentos de paralisia, confissões de traumas, angústias, medos, obsessões. E assim como sonham imenso, algumas destas personagens são também perseguidas por insónias causadores de delírios e de alucinações. 
   Carlos Querido oferece voz aos mortos para que os vivos possam falar, é a voz dos mortos que faz ressoar os mistérios recalcados na intimidade dos vivos. Não estranhemos, pois, a dupla vida da personagem no conto com o título “Duplicação”, ou aquela que se sonha árvore, ou a outra que vê saltar do espelho a sua dupla personalidade como quem se sente perseguido pela própria sombra. Os retratos dos antepassados ganham vida e peso, condicionam quem estando vivo adquire a consciência de que está à morte. No conto “O Vírus” alguém diz: «Sinto-me pertencer a um mundo paralelo, mágico, de luzes e combinações infinitas» (p. 71). É um simples técnico de informática quem fala, o que nos leva a pensar que no imo da confissão desse sentimento de pertença paira implícita uma forma de desconexão com o mundo real. Ele não se sente pertença do mundo dito normal, o mundo dos factos objectivos, o mundo das regras, das normas, das leis. O seu “habeas corpus” é a pertença a um mundo alternativo à dimensão sem dúvida nem mistério da existência, é isso que o liberta. Condenado a viver, projecta-se para fora da vida como um artista se projecta na sua criação. Libertando-se. 
   Deste modo, o que estes contos têm para nos comunicar pode também resumir-se usurpando uma frase do conto “Grafitos”: «Tinham morrido há muito, sem se aperceberem» (p. 101). E para tanto bastou arrastarem-se na vida sem a viverem. Não há melancolia nesta morte, há desespero de viver.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

UM POEMA DE SANTIAGO SYLVESTER



AS PALAVRAS QUOTIDIANAS

A questão é entender a intenção
das palavras que usamos obcecadamente:
as que o ardina grita,
as que o leiteiro murmura entre os vapores
do amanhecer,
as que rodopiam obsessivamente na cabeça do louco,
as que sem saber o carteiro leva no saco.

São poucas as palavras que sustentam a realidade
e que poderiam destruí-la apenas com a sua ausência;
são as que usamos para explicar a nossa parte do mundo,
as palavras de nossa convicção,
da nossa aposta íntima.

A questão é entender a intenção das palavras,
essa harmonia sem ênfase que se parece ao destino.

Santiago Sylvester (n. 1942), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 361.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

SEM SOMBRA DE VEDETA


(clique na imagem para ver melhor)

Excerto de uma entrevista a Rui Jordão feita por Fernando Assis Pacheco, in Retratos Falados, Edições ASA, Maio de 2001, pp. 91-105.

RUI JORDÃO (1952-2019)



Foi um dos meus ídolos da infância. Discretíssimo, dedicou-se à pintura depois de abandonar o futebol. Na Wikipédia diz-se que, em 2001, concluiu Pintura e Desenho, Introdução à Historia da Arte, Historia da Arte do século XX, Temas de Estética e Teorias da Arte Contemporânea, na Sociedade Nacional de Belas-Artes em Lisboa. Jogava muito, falava pouco. Já não se fazem assim.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

DIA 15, TERÇA-FEIRA, ÀS 21H30


Negrume (2006), aqui, O Ano da Morte de José Saramago (2010), aqui, Açougue (2012), aqui, Um Pouco Acima da Miséria (2014), aqui

PROVEITOSA ILEGALIDADE




   À margem dos depósitos legais, eis que deparamos com duas traduções de poetas norte-americanos por cá praticamente desconhecidos. Há nomes por detrás destes esforços de divulgação e partilha. Ana Salomé (n. 1982) assina as Versões (Edições Rochedo, Maio de 2018) de Robert Duncan (n. 1919 – m. 1988), publicação de que terão sido feitos meros 20 exemplares. John Wieners (n. 1934 – m. 2002) aparece pela mão de Miguel Cardoso (n. 1976), numa recolha proveniente do livro The Hotel Wentley Poems (1958) acrescida de três dispersos e uma breve nota biográfica. Imprimiram-se 50 exemplares de Poemas do Hotel Wentley (Abril de 2019), editados por Nuno Moura no terceiro número de uma Colecção Particular que se pode considerar espécie de braço armado da já de si paralela Douda Correria. 
   Duncan e Wieners cruzaram-se algures no Black Mountain College em meados da década de 1950. Viveiro de poetas, o Black Mountain College acolheu nas suas salas Charles Olson, fundador da The Black Mountain Review e, com Robert Creeley, de uma escola de poesia frequentada por imensa gente que ficou associada aos movimentos vanguardistas daquele período. Foi nesse contexto que Olson publicou o famigerado ensaio Projective Verse, defendendo uma poética aberta à respiração do autor, na sua relação com o lugar e com a sua percepção desse lugar, garantindo ao poeta a “pauta e o compasso do músico” para que o leitor possa “vocalizar a linha” em silêncio ou em alta voz. Talvez não seja abusivo associar tais teses à então emergente relação da poesia com a música improvisada, acabando Robert Creeley por fazer a ponte entre Black Mountain e o movimento Beat de São Francisco. 
   Foi precisamente em São Francisco que Robert Duncan se tornou uma figura central da poesia norte-americana. Nascido em Oakland, recebeu da família adoptiva influências ocultistas que acabam por se reflectir nos seus poemas. Estudou em Berkeley, envolveu-se com os movimentos de esquerda, penetrou na vida boémia local, acabando por se juntar a uma comuna em Woodstock. Homossexual assumido, escreveu em 1944 o ensaio The Homosexual in Society. Em matéria de poesia, Selected Poems apareceu apenas em 1959 na City Lights de Lawrence Ferlinghetti. 
   Os quatro poemas traduzidos por Ana Salomé denotam a influência da cultura esotérica, confundindo-se neles a primeira pessoa do sujeito poético com uma segunda pessoa inspiradora de incerteza e perplexidade: «Que passageiro, que navegante / enfrenta as correntes que rodopiam em teu redor, / como se visse nessas profundezas o seu próprio espelho?» (p. 2). O diálogo constante com outros autores e obras alheias, aqui bem representado pelo poema Dois Dicta de William Blake, abre novos caminhos para uma poesia que parece edificar-se a partir de um projecto de reflexão acerca do lugar da poesia no campo de batalha onde se confrontam certas ideias de eternidade e a evidência do efémero. 
   Diferente no conteúdo, mas não necessariamente na forma, a poesia de John Wieners faz-se na relação com a efemeridade, parecendo por isso preferir a observação à reflexão. Natural de Milton, no Massachusetts, andou por Boston, Cambridge, São Francisco, Nova Iorque. Estreou-se em 1958 com The Hotel Wentley Poems, publicando posteriormente Ace of Pentacles (1964). Esteve internado em hospitais psiquiátricos, daí resultando Asylum Poems (1969). Envolveu-se em diversas causas sociais, quer na defesa dos direitos da comunidade gay, quer nos protestos contra a guerra do Vietname. 
   Frequentemente associado ao movimento Beat, os poemas de John Wieners são, como bem os sintetizou Miguel Cardoso, «líricos, perversos, reticentes, crus, eróticos, magoados, americanos, derrotados, delicados, esperançosos, frágeis». Neles sentimos a pulsação de uma América na qual o poeta mergulha sem defesas, percorrendo cidades, dedicando versos a quem com ele se vai cruzando, seja na rua, em galerias de arte ou em bares homossexuais. Quotidianos, os poemas de Wieners parecem respeitar a teses projectivas de Charles Olson, chegam-nos como um projéctil que atravessa espaço e tempo concretos, vividos, experienciados, para atingirem o coração de um país: «O poema / não nos mente. Deitamo-nos à sombra / da sua lei, vivos no glamour desta hora / com licença para entrar nos lugares sagrados / do seu povo escuro que carrega segredos / vidrados nos seus olhos e esconde palavras / debaixo dos céus das suas bocas» (s/p).
   Com estas duas publicações ligamos as margens, elas são pontes estreitas para um vasto campo inexplorado de poetas de outros tempos e de outras latitudes que assim nos  vão chegando com a beleza de um crime inofensivo. Em si mesmo, a edição destas pequenas publicações é gesto poético, proveitosa ilegalidade ao serviço de escassos leitores. 20 exemplares? 50 exemplares? Estão lançadas as sementes.

sábado, 12 de outubro de 2019

h- MEDO


Edição especial e gratuita do suplemento h, do jornal Hoje Macau, por ocasião do FOLIO (Festival Literário de Óbidos), em colaboração com a editora Abysmo. Editores: Carlos Morais José & João Paulo Cotrim, Outubro de 2019.


Diagnóstico, pp. 12-13. 

22H30, LIVRARIA ARTES E LETRAS


sexta-feira, 11 de outubro de 2019

FUMO, VENTO, E TODOS OS DIAS A VIDA



Um homem não faz mais do que passar pela vida, passa e ignora, passa e é abatido, devastado, por quanto o rodeia manuseia a ilusão: mas nada manuseia, nada, tudo é incerto como a chama de um fósforo, o percurso do relâmpago que incendeia as trevas, a gota de sangue com que certa vez nos deparamos na curva do caminho, mas não sabemos a quem pertence, ao que pertence, se ao pastor, à ovelha, se ao magarefe que todas as manhãs faz o trajecto que passa por esse caminho, se ao boi possante que ele matou na herdade vizinha.
   Há um mistério, um mistério do tamanho do mundo, um considerável mistério de tudo se distribuir pela totalidade de tudo, sem dulcificação no atroz desafio, o atalho que se presume poder tomar. E nunca há atalho, não há caminho: todas as voltas que a vida nos troca entroncam nesse mistério indissolúvel de nada mais haver além da circunstância de estarmos continuamente a morrer, absolutamente entregues à solidão, antecipadamente vencidos por qualquer que seja a ideia de vitória que nos sonhemos ou sonhemos para os outros. Fumo, vento, e todos os dias a vida. E os segundos passam inexoráveis, sem remissão, transformam-nos no pouco em que nos tornamos, no nada que nos sitia, na perpétua ausência que nos antecipa e devasta, sem mais remédio de se ir connosco desvanecendo a ira ou a alegria inicial, o comprazimento, o desespero. No horizonte sem fim a tremulina sabe alguma coisa do que aconteceu, delapida a paisagem subtilmente e só posso pensar que alguma coisa sabe, irreparável, da partida e o lugar a que chegaste quando o meu e o teu regresso transformaram o nosso encontro em desencontro.

Amadeu Baptista, in Estrela de Bizâncio, Prémio de Poesia e Ficção de Almada - 2005, Livraria Livrododia, 2010, pp. 50-51.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

FREE ROJAVA



A bandeira tem as cores de Portugal. É uma república autónoma desde Julho de 2012, no contexto da Guerra Civil Síria, sendo, desde então, controlada por milícias locais que adoptam um sistema de autonomia baseado nos princípios do Confederalismo Democrático como democracia directa, igualdade de género e sustentabilidade. Vem na Wikipédia. São curdos, estão a ser atacados pela Turquia, com aval americano, depois de terem combatido heroicamente os facínoras do ISIS. A resistência feminina Rojava, durante os combates na Síria, foi notícia em todo o mundo. Agora ninguém quer saber deles para nada. A Turquia de Erdoğan ataca, a América de Trump apoia, a Europa dos panhonhas cala enquanto ergue os seus muros e deixa o mediterrâneo transformar-se num cemitério. O Natal está quase à porta, não vai doer nada, é só mais um filme que não queremos ver.

Um artigo a ler: aqui. Um documentário a não perder: aqui. Este outro também vale a pena: aqui. Portugal fora da NATO, já!

terça-feira, 8 de outubro de 2019

NÓS SOMOS O PCP


EXTREMAS, ESTREMAS E ESTRUME




  Já deu para perceber, durante o último Prós e Contras, aquilo que nos aguarda. André Ventura foi igual a si próprio, interrompendo, perturbando, armando-se em engraçado, poluindo, espalhando brasas. Será sempre difícil discutir com alguém assim, desde logo por não haver interesse na discussão. Faz tudo parte de um jogo, de um modo de jogar, que assenta na demagogia e no sensacionalismo. É a política do espectáculo, é pathos, a emoção sobrepondo-se à razão. Mas tentemos racionalizar um pouco. Eis o desafio.
   A primeira intervenção de André Ventura consistiu na já costumeira comparação entre a extrema-direita e aquilo a que ele chama extrema-esquerda, referindo-se a partidos como a CDU, o BE e o Livre. A táctica é óbvia, começa por se colocar no lugar de anjo que toda a gente considera ameaçador, típico lobo disfarçado com pele de cordeiro. O próprio já disse que «devemos deixar cair estes rótulos de extrema-direita e extrema-esquerda, porque só afastam o eleitorado». Mas devemos mesmo?
   A postura de Ventura, que ao contrário do que alguns dizem não é parvo nenhum, tem dois propósitos:

1. poderá dizer que se o consideram uma ameaça, então é porque ele é anti-sistema, ou seja, quer acabar com tudo o que está mal no actual sistema e, por isso, ameaça os privilegiados do status quo, os instalados. Basicamente o que ele diz é: querem calar-nos, mas não vão conseguir. E diz isto falando, sem que ninguém o interrompa.
2. também retira proveito de um segundo modo. Comparando-se com partidos já tradicionais no sistema, ao colocar ao mesmo nível aquilo a que chama extrema-esquerda e aquilo a que outros chamam extrema-direita, pretende levar as pessoas a acreditar que tal como os da extrema-esquerda não comem criancinhas, também ele não está ali para as comer. Tenta, desse modo, afastar o medo que as pessoas possam sentir do seu discurso, retirando-lhe gravidade. O problema é que algumas das coisas que defende são mesmo muito graves e perigosas.

   Este tipo de argumentação é eficaz, nomeadamente numa sociedade que se deixou vencer pela espectacularidade e pelo sensacionalismo abdicando da cultura, da educação, do pensamento, da razão. É o tipo de discurso que vai ao encontro dos ódios e das fúrias que as pessoas expressam nas caixas de comentários de weblogs e sites, nos fóruns de discussão mediáticos, tipo antenas abertas, e que se disseminam hoje como vírus em ideias feitas, sínteses simplistas, cartazes e panfletos on-line que nenhum polígrafo conseguirá desacreditar, pois quem se convence de uma mentira dificilmente aceitará a verdade que a desmente. A mentira é mais confortável.
   Sublinhe-se, desde logo, esta contradição inicial: André Ventura diz-se anti-sistema comparando-se com partidos que ele critica por serem do sistema. Dito de outra forma, o que ele diz é: têm medo de mim porque eu sou anti-sistema, mas eu não sou mais nem menos extremista do que aqueles senhores da extrema-esquerda que não metem medo a ninguém. É tudo pathos, nada disto é logos. É tudo sensacionalismo, nada disto é razão. Se apelarmos à razão, teremos de ir às propostas e aos programas de uns e de outros. E é aí que encontraremos uma diferença básica entre os partidos que André Ventura diz serem de extrema-esquerda e o partido que ele representa.
   No seu programa, o Chega defende a eliminação do cargo de primeiro-ministro, a castração química de pedófilos, reduzir o número de deputados da Assembleia da República para uma centena, permitir a prisão perpétua, criar uma taxa única de IRS e extinguir o Ministério da Educação, ou seja, defende o fim dos serviços públicos na saúde e educação e quer o Presidente da República a chefiar o Governo, defende ainda a redução da emigração islâmica, sobretudo de países conhecidos pelo terrorismo. Falta elencá-los, talvez tenha surpresas.
   Portanto, enquanto a tal extrema-esquerda é pela inclusão, o Chega é pela exclusão. Os tais da extrema-esquerda não têm nos seus programas nenhuma proposta atentatória dos direitos consagrados na Declaração Universal dos Direitos do Homem, ao passo que o Chega de André Ventura tem. Os tais partidos de extrema-esquerda respeitam os direitos humanos, o Chega de André Ventura não. Contra políticas inclusivas, o Chega propõe políticas segregacionistas, xenófobas, no caso da emigração islâmica, racistas, na perseguição a uma etnia em concreto. E esta é uma diferença básica que leva, de facto, a temer o crescimento de partidos como o Chega e a não sentir nenhuma ameaça aos nossos direitos mais básicos nos programas de CDU, BE e Livre.  
   Sei que esta discussão vai sempre parar à história do comunismo e depois a comparações com o nacional-socialismo alemão, etc, mas para já, evitando alongamentos desnecessários, fiquemo-nos por algumas coisas que o Chega de André Ventura diz, faz e propõe. É um esforço que temos de fazer para perceber o perigo real que determinado discurso político representa. É um esforço anterior à discussão ideológica académica.
   André Ventura ganha mediatismo como candidato autárquico apoiado por PSD e CDS, depois de uma entrevista em que resolveu atacar uma minoria altamente fragilizada na opinião pública, a minoria cigana. Pura táctica. André Ventura é inteligente, acabou o curso com média de 19 valores, doutorou-se, não é parvo nenhum, sabe que para ter acesso aos jornais e às televisões, para que a imprensa o mostre ao país, precisa de dizer algo que seja altamente popular. Ele é uma das figuras centrais da CMTV, o canal que os cafés de Norte a Sul do país têm permanentemente sintonizado. Ele sabe muito bem como chegar à opinião pública.
    Há um lado anedótico nesta história, a afirmação numa entrevista oferecida ao jornal Sol de que sentiu pela primeira vez que a comunidade cigana estava muito desintegrada quando verificou que os ciganos davam uma má imagem de Portugal para o estrangeiro. Porquê? Passo a citar: «Dá uma má imagem, por exemplo, ao vender produtos que não sei se são droga ou não mas que são apresentados como tal, na rua Augusta e em zonas de muito turismo». E assim se reduz a uma comunidade minoritária um dos mais lucrativos negócios internacionais. Os ciganos têm as costas largas.
   Ventura incrimina o suposto oportunismo dos ciganos, comunidade com imensas especificidades que, por continuar a resistir ao nosso modo de vida, não merece a simpatia da maioria das pessoas. Já foi desmontada várias vezes a mentira de André Ventura, que acusa a comunidade cigana de viver à custa de subsídios. Mas de nada valerá que a mesma seja desmontada, ela é assaz popular e tem uma força demagógica indelével junto dos portugueses. Repito e sublinho: demagógica. Este ataque directo a uma minoria étnica, na velha tradição do nacional-socialismo, colhe junto das pessoas, oferece de bandeja um bode expiatório para as frustrações nacionais. A verdade é que o custo que a comunidade cigana possa ter para o país, admitindo que só vivam de subsídios, o que é falso e ofensivo, em nada pode ser comparável ao custo que tem para o país os desmandos da banca (vide BES), a fuga de dinheiro para offshores (vide Panama Papers) ou a promiscuidade entre Estado e interesses económicos (vide caso Marquês). Mas estes assuntos são altamente complexos, é mais simples acusar os ciganos de viverem à custa do Estado como se isso, mesmo sendo falso, fosse a origem de todos os males.
   Este é o princípio, o começo, o pilar, esta é a táctica. O esquema está montado e tem sido altamente eficiente noutros países. Uns com a imigração islâmica, outros com os refugiados, outros com os indígenas, outros com os mexicanos, cada qual com o seu bode-expiatório vai facturando junto das massas um discurso de medo, ódio, repulsa, que não é novo e só a cultura, a educação, a informação podem ajudar a mitigar. É um discurso perigoso, verdadeiramente perigoso. Portanto, seria bom que estivéssemos todos preparados para ele. Estaremos?

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

OBRIGADO HELOÍSA



1. O PS tem mais votos, mais percentagem, mais mandatos. A boa notícia é não ter conseguido maioria absoluta.

2. O Bloco tem menos votos, menos percentagem, mas mantém mandatos. E manterá, por certo, a boa imprensa do costume, com Louçã a fazer as honras da casa. A excepção foi o caso Robles. Mas quem ainda se lembra de Ricardo Robles?

3. A CDU tem menos votos, menos percentagem, menos mandatos. A minha candidata por Leiria não foi eleita, ficando o país a perder com isso. Há quem menospreze o PEV pela ligação ao PCP, mas talvez fosse honesto reconhecer que houve alguém desde sempre preocupado com as questões ecológicas neste país. Muito antes desta recente hipocondria climática que afectou a opinião pública houve vozes autenticamente ecologistas e ambientalistas que se fizeram ouvir e estiveram na luta contra os desmandos da indústria poluidora. “Ecologia sem luta de classes é jardinagem”. Obrigado Heloísa Apolónia, a luta continua.

4. Só o PS ganhou votos com a geringonça, será a análise mais imediata. É óbvio também que nem Bloco, nem CDU, desapareceram do mapa como muitos vaticinaram. O caos anunciado há quatro anos não se verificou, a estabilidade agradou aos eleitores. Aos que votaram.

5. Podemos falar da vergonhosa limpeza por fazer dos cadernos eleitorais, podemos falar de um maior número de eleitores, podemos tentar encontrar todas as desculpas e mais algumas. A verdade é crua: um país com 45,5% de abstenção tem a democracia na bancarrota. Mais 2,54% em branco e 1,74% de nulos, é fazer as contas: quatro milhões quatrocentos e sessenta e oito mil setecentos e noventa e oito eleitores, repito, 4.468.798 eleitores não encontram num boletim de voto A3, com mais de 20 propostas políticas, nada que lhes motivasse o exercício cívico de votar, de escolher, de optar, de contribuir. Isto é particularmente grave num país em que o jornal mais lido é o CM e a televisão a ele associada conseguiu eleger o seu populista de serviço.

6. Parabéns ao Livre pela eleição de um deputado. Ou uma deputada, se preferirem. Joacine é uma figura simpática, transporta beleza e inteligência para um Parlamento que carece, pelo menos, da segunda.

7. PSD e CDS têm menos votos, menos deputados, menos mandatos. São os derrotados da noite, nomeadamente o CDS. Assunção baixou a crista. 'Tá-se. A má notícia é o baixo nível desta direita democrática, o que permite adivinhar debilidades no confronto com uma outra direita em ascensão. Basta olhar para algumas figuras eleitas no grupo "parlamentear" do PSD, que ficamos com uma noção do nível de exigência. Além da patente falta de experiência legislativa, para não falar das capacidades oratórias e do nível intelectual, o cenário é altamente confrangedor. Imagino-os a altercar com a direita radical e prevejo um colapso.

8. O PAN cresce estupidamente em votos, em percentagem e em deputados. A par do PS é o grande vencedor da noite, aproveitando o facto de ninguém ler programas de partidos. Incluindo os próprios deputados eleitos. Bastam causas fixes, amigas do ambiente e protectoras dos animais. Este infantilismo do discurso político não só é altamente perigoso como nos oferece um horizonte negro.

9. O populismo à portuguesa regressa ao parlamento, desta feita patrocinado pelo mais lido jornal português: o Correio da Manhã. País desventuroso tem agora o seu Ventura de serviço, e veio para ficar. O pior que pode acontecer é não o levarem a sério. Ele augura que dentro de oito anos será o maior partido português, eu não hesitaria em considerar tal cenário. Ando pelos cafés e ouço pessoas, as redes sociais também ajudam ao diagnóstico. Portugal é um país altamente racista, conservador e a explodir de raivas e fúrias latentes, para os quais contribui uma imprensa sensacionalista que faz Portugal parecer um país do terceiro mundo a quem não faz a mínima ideia do que seja viver num país do terceiro mundo.  

10. A Iniciativa Liberal lá meteu o seu start up guru cheio de pica empreendedora para nos educar na arte do sucesso. São os descontentes do CDS, mais outros do PSD direitista, gente formada em economia com ideias esclarecidas no domínio da teoria. Não lhes bastará defenderem menos Estado, mas radicais baixas de impostos soam bem a muita gente. Têm um calcanhar de Aquiles que o Chega não tem, são altamente cautelosos no que toca a discutir os desmandos da banca e as fragilidades do mercado financeiro. Está na altura de rever Wall Street.

11. Com a direita assim partida é bom que a esquerda se entenda, sob pena de em eleições antecipadas o que agora são cacos se transformar numa geringonça altamente populista.

domingo, 6 de outubro de 2019

VOTAR AO SOM DA CARVALHESA

   Fui votar à hora de almoço para escapar a filas. Tenho para mim que é boa hora para votar, evitam-se acólitos e comensais. 
   Nas últimas eleições houve quem se queixasse das mesas no primeiro andar da escola, impeditivas para deficientes motores e idosos. Agora todas as secções estavam acessíveis, mas eram menos mesas. Resultado: filas intermináveis. Havia quem se queixasse do tempo de espera, vi pessoas a desistirem, a voltarem para trás, aparentemente sem vontade de regressar. Isto parece as urgências no hospital, protestava um. Mas estão a oferecer rebuçados lá dentro, contestava outro. Aguardei vez pacientemente. 
   Calhou que o telefone tocasse quando chegou a minha vez. Tenho a Carvalhesa como toque de telemóvel. Que má hora para me ligarem. As pessoas que estavam a protestar pararam de protestar e olharam para mim com olhos inquisidores. As senhoras simpáticas das mesas de voto também. Receei o pior. 
   Rejeitei rapidamente a chamada, mas ele voltou a tocar. O senhor não pode fazer isso, disse um. Porquê, indagou outro. E acrescentou: isto é alguma sessão de cinema?Permaneci calado. Isso é propaganda, não pode fazer propaganda aqui. Pedi desculpa, embora não tivesse culpa dos telefonemas. Meta isso no silêncio, sugeriu uma das simpáticas senhoras das mesas de voto. Mas a inabilidade não ajudou, em vez de pôr o telemóvel no silêncio reactivei o toque. E lá se ouviu novamente a Carvalhesa. 
   Comecei a suar, fiquei nervoso, garanti que não era por mal. Reparei que algumas pessoas abanavam a cabeça com reprovação. Pedi a uma das simpáticas senhoras da mesa de voto que me ajudasse, mas ela também não conseguia calar o telemóvel. Até que o desliguei por completo. 
   Depois finalmente votei, depositei o voto na urna e fui ter com a minha mulher. Como não a encontrava telefonei-lhe, ainda devia estar na fila para votar. O toque dela é a Internacional Socialista. 

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

UM POEMA DE ALEJANDRA PIZARNIK



A ENAMORADA

esta mania lúgubre de viver
esta graça recôndita de viver
arrasta-te alejandra não o negues.

hoje olhaste-te no espelho
e ficaste triste estavas só
a luz rugia o ar cantava
mas o teu amado não voltou

enviarás mensagens sorrirás
agitarás as tuas mãos assim voltará
o teu amado tão amado

escutas a sereia louca que o roubou
o barco com barbas de espuma
onde os risos morreram
recordas o último abraço
ó nada de angústia
ri no lenço chora às gargalhadas
mas fecha as portas do teu rosto
para que não digam logo
que aquela mulher apaixonada foste tu

os dias afligem-te
as noites culpam-te
dói-te tanto a vida tanto
desesperada, onde vais?
desesperada, nada mais!


Alejandra Pizarnik (n. 1936 – m. 1972), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 346-347.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

SAM SAVAGE (1940-2019)


Porra, merda, caralho, foda-se. Dei hoje com esta morte. As Recordações de Edna: aqui. O Grito da Preguiça: aqui. Firmin: aqui.

TRAPEIRA

Um poema: aqui.

O GAJO


Alguém indagou: que é feito desse gajo? Ficámos a olhar uns para os outros, nunca mais ninguém viu o gajo.
Há tempos deixaram um comentário num texto que se lhe referia, comentário nostálgico, género pompa fúnebre. Terá morrido? Especula-se: as drogas deram cabo dele, enlouqueceu, fechou-se numa comunidade qualquer a desintoxicar corpo e alma, converteu-se à metafísica, era gajo para isso, emigrou, morreu, matou-se, encontraram-no com uma seringa espetada num braço, estendido num qualquer recanto a cheirar a mijo…
Prémio revelação, outro prémio não sei das quantas, dois, três livros publicados, o gajo foi colocado entre os melhores, os maiores. Era o novo Ramos Rosa, lembram-se? Aquilo deu cabo dele. A poesia pode dar cabo de um gajo. Se te levam a acreditar, então é pior que igreja. Mata mesmo sem salvação.
Todos se recordam da última vez que viram o gajo. Eu próprio recordo a última vez, a primeira e última vez. Fomos apresentados numa livraria desaparecida, tal como ele desapareceu. Há coisas que desaparecem sem deixar rastro. Olhámo-nos com indiferença, todo ele era indiferença e fastio pelo mundo em redor. E eu percebi nos olhos dele o que também já experimentara, vontade de anestesiar o corpo para distanciar a mente.
O gajo era fodido, alguém diz. Tinha mau feitio. Ninguém sabe o que isto quer dizer, ninguém sabe explicar o que pretende dizer quando atribui a alguém tão indefinível característica. Mau feitio. Se alguém resiste, tem mau feitio. Se alguém critica, tem mau feitio. Se alguém se opõe, tem mau feitio. Se alguém quer estar só, tem mau feitio. Porque contrapor, resistir, criticar são vícios tremendos onde estar só jamais foi solução. O homem é um ser aberto ao mundo, gregário, social, porra para a fenomenologia, o homem está em relação com, a solidão é coisa de monge, o monge está com Deus, em Deus, o monge é índio, o anacoreta nunca está só no seu deserto, tem sempre por companhia a sombra do senhor, porra para o misticismo.
Talvez o gajo fosse índio. Quem sabe?
Por vezes temos dificuldade em lembrar-lhe o nome, vamos por exclusão de partes, tentativa e erro, chegamos lá com dificuldade. Percebemos as limitações de um nome mediante a dificuldade que sentimos para chegar a ele. Ninguém se lembra de um verso sequer que tenha escrito, nem do título de um dos livros que deixou, um, dois, três, todos premiados. Poucos conseguem traçar-lhe uma característica do rosto. Eu só me lembro do aperto de mão lasso, dos olhos em fuga cavados em olheiras negras como breu, o fastio pelo mundo ao largo.
Que será feito do gajo? Certo é que desapareceu, nunca mais ninguém o viu ou ouviu falar dele, evaporou-se, sumiu. Ou então, ao contrário de todos nós, vive. Sem aparecer, sem perder tempo onde todos aparecem, protegido das feridas que o social rasga no corpo e na mente, alheio ao mundo de aparições em que todos nós naufragámos, algures enfiado num covil ou rebolando-se como um animal selvagem em campo aberto. Nós domesticamos a dúvida perguntando pelo gajo. Talvez o gajo preserve a raiz selvagem do olhar não querendo saber de nós.



folha #009: aqui.