Fui votar à hora de almoço para escapar a filas. Tenho para mim que é boa hora para votar, evitam-se acólitos e comensais.
Nas últimas eleições houve quem se queixasse das mesas no primeiro andar da escola, impeditivas para deficientes motores e idosos. Agora todas as secções estavam acessíveis, mas eram menos mesas. Resultado: filas intermináveis. Havia quem se queixasse do tempo de espera, vi pessoas a desistirem, a voltarem para trás, aparentemente sem vontade de regressar. Isto parece as urgências no hospital, protestava um. Mas estão a oferecer rebuçados lá dentro, contestava outro. Aguardei vez pacientemente.
Calhou que o telefone tocasse quando chegou a minha vez. Tenho a Carvalhesa como toque de telemóvel. Que má hora para me ligarem. As pessoas que estavam a protestar pararam de protestar e olharam para mim com olhos inquisidores. As senhoras simpáticas das mesas de voto também. Receei o pior.
Rejeitei rapidamente a chamada, mas ele voltou a tocar. O senhor não pode fazer isso, disse um. Porquê, indagou outro. E acrescentou: isto é alguma sessão de cinema?Permaneci calado. Isso é propaganda, não pode fazer propaganda aqui. Pedi desculpa, embora não tivesse culpa dos telefonemas. Meta isso no silêncio, sugeriu uma das simpáticas senhoras das mesas de voto. Mas a inabilidade não ajudou, em vez de pôr o telemóvel no silêncio reactivei o toque. E lá se ouviu novamente a Carvalhesa.
Comecei a suar, fiquei nervoso, garanti que não era por mal. Reparei que algumas pessoas abanavam a cabeça com reprovação. Pedi a uma das simpáticas senhoras da mesa de voto que me ajudasse, mas ela também não conseguia calar o telemóvel. Até que o desliguei por completo.
Depois finalmente votei, depositei o voto na urna e fui ter com a minha mulher. Como não a encontrava telefonei-lhe, ainda devia estar na fila para votar. O toque dela é a Internacional Socialista.
2 comentários:
o telemóvel é o objecto mais odioso inventado pelo homem. é andar com uma prisão no bolso e nós estamos dentro dela e fora ao mesmo tempo.
também estava a transpirar quando fui votar, mas por outro motivo. a sala estava cheia de gente, fila longa e lenta, ventoinha desligada no canto da sala, problemas com os papéis que atrasavam a chamada dos pagadores de impostos/colocadores ocasionais de cruzinhas, entre os quais eu, que limpava a testa com a manga da camisola!
vivemos numa distopia democrático-tecnológica.
Grande remate!
Publicar um comentário