terça-feira, 31 de dezembro de 2019

BOM ANO


Bom Ano a todas e todos. 
Saúde. 

UM POST RECOMENDÁVEL

É curto, mas resume bem a imagem com que fico deste ano que ora finda. A socialização da futilidade: aqui.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

STIGMATA


Nascida em Viña del Mar, no Chile, Teresa Wilms Montt (1893-1921) passou como um relâmpago por este mundo. Aos 17 anos, contrariando ditames familiares, casou com um tal de Gustavo Balmaceda Valdés, mudando-se para Santiago e aí participando na actividade cultural do país. Aproximou-se dos movimentos reformistas e feministas, assim como de um primo do marido. O caso culminará com internamento no Convento de la Preciosa Sangre, sob acusação de adultério. Deprimida, tentou suicidar-se, pela primeira vez, em 1916. O poeta Vicente Huidobro ajudou-a a escapar dos rigores conventuais, levando-a para Buenos Aires. Será na capital argentina que se estreará em livro, publicando Inquietudes sentimentales e Los tres cantos em 1917. Luiza Nilo Nunes conta-nos a história toda num elucidativo posfácio a que deu o nome de “Um exercício fúnebre”, sendo igualmente da sua responsabilidade a selecção e tradução dos textos coligidos, em edição bilingue, nesta antologia intitulada “Stigmata” (Anjo Terrível, Maio de 2019). 
   “Os Três Cânticos” são o pórtico escolhido para entrada nesta poesia, percebendo-se, desde logo, o pendor satanista de versos largos que oscilam entre louvores, orações e lamentações que têm como objecto tanto a Natureza como as forças de um misticismo sombrio. A “excelsa Natureza” destes poemas aparece envolta em imagens de um êxtase cujo horizonte é feito de catástrofe e de morte: «Natureza, Deus meu! Em joelhos, junto a este túmulo amado, imploro-te como uma filha em agonia à sua mãe carinhosa. Zela por ele! Zela por quem me deu o milagre do alvorecer no frio ocaso da minha tristeza; cuida e não o maltrates; em troca leva de mim a juventude para alimento dos teus roedores necrófagos, e o sangue das minhas artérias, para que se embriaguem como num vinho escarlate de esquecimento» (p. 27). O tom remete para certo romantismo de pendor gótico, aqui comprometido na subversão da liturgia oficial recuperando os valores do paganismo e assumindo a blasfémia e a excentricidade como vias de culto prestado aos mortos. 
   São os mortos, para todo o efeito, quem melhor revela aos vivos o sentido da existência. Teresa Wilms Montt compreendeu-o cedo e da forma mais trágica, depois de assistir ao suicídio de um seu admirador. Horacio Ramos Mejía tinha apenas 19 anos e de algum modo é o destinatário da sequência de poemas em prosa intitulada “Na Quietude do Mármore” (1948). Antes, Teresa andou por Nova Iorque, onde foi acusada de espionagem, foi deportada para Espanha, transformando-se na musa de Julio Romero de Torres. Foi em Madrid que publicou, sob o pseudónimo de Teresa de la Cruz, o segundo livro coligido nesta antologia. “Na Quietude do Mármore” é uma sequência de 35 poemas em prosa que têm por destinatário Anuarí, transfiguração espiritual do jovem Horacio Ramos Mejía. 
   O sujeito poético destes poemas encena um contacto algo sobrenatural com o amante morto, não enjeitando imagens de um erotismo necrófilo e assumindo o “delirante êxtase” de uma “mística unção”.  Amor e morte fundem-se em textos marcados a ferros pela dor da perda, uma dor espiritual sujeita a somatização num corpo que sofre tanto da ausência de toque e como da consciência de uma ilusória presentificação do amado: «Falo com o teu retrato, minha criatura, derramando-lhe coisas pueris e profundas, como se fossem flores; choro, rio e, a sentir-te entre os meus braços, canto-te como se de mim houvesses nascido. / E nasces de mim; e para mim e em mim vives, porque para todos os demais estás morto. / Extraí-te do sangue mais nobre do meu coração e uni-te ao meu destino para sempre» (p. 71). 
   Fixada em Madrid, Teresa conseguiu viajar por Londres e Paris, onde se reúniu com as filhas após 5 anos de separação. O regresso das filhas ao Chile agravou-lhe a depressão, acabando por se suicidar, com apenas 28 anos de idade, na véspera do Natal de 1921. Enterrada no Père-Lachaie, Teresa Wilms Montt não caiu totalmente no esquecimento. Em 2009, um filme da realizadora chilena Tatiana Gaviola tentou recriar-lhe parte da vida. Esta antologia faz por cá um trabalho de divulgação que estava por fazer, desbravando caminho para uma obra que merece a atenção de todos quantos se interessem por uma poesia de pendor heterodoxo, mormente exercida por raras figuras femininas que no início do século XX ousaram desafiar convenções, preconceitos e estreitezas de pensamento. À laia de auto-retrato, Teresa Wilms Montt é de uma objectividade sem igual: «Fui crucificada, morta e sepultada, / pela minha família e pela sociedade. / Nasci cem anos antes de ti / mas vejo-te igual a mim. / Sou Teresa Wilms Montt, / e não sou recomendável para senhoritas» (p. 135). Agora que passaram quase 100 sobre a sua morte, não podemos senão ficar agradecidos a Luiza Nilo Nunes por este trabalho de recolha e de preservação num tempo histórico em que ser mulher continua, para mal dos nossos pecados, a ser tantas vezes sinónimo de vítima. Assim o é nas culturas que se dizem superiores como nas outras.

domingo, 29 de dezembro de 2019

BALANÇOS


Um balanço do ano sem vida pessoal é um balanço impessoal. Mas como falar em público do que deve manter-se privado? Calamos o mais relevante por medo, para não ferir o outro e para não nos ferirmos com as feridas infligidas no outro, talvez calemos a intimidade por cobardia ou simplesmente por decoro. Num mundo em que o privado e o público se confundem em encenações coloridas de vidas a preto e branco, num mundo onde se espera que os filtros fiquem rotos e tudo se partilhe sem pejo, num mundo assim é talvez por resistência (inadaptação?) que calamos, silenciamos, disfarçamos, maquilhamos, recalcamos a intimidade. O mais que conseguimos é um desabafo, jamais a confissão. Essa reservamo-la para o texto poético, aquele em que a metáfora nos protege da revelação, ou para a história, aquela em que a ficção nos defende da censura. Há muito que me habituei a isto de alguém se rir do que me faz chorar, de alguém se comover ou entristecer com o que me faz rir, pelo que me responsabilizo em absoluto pelo desajuste. Também atravessamos um tempo em que à tal confusão entre público e privado se junta uma completa, radical e perigosa trapalhada entre a ficção e a realidade. Quantas vezes não ouvimos no ano que passou alguém dizer que “contado ninguém acredita”? Muita matéria de facto seria considerada inverosímil se a metêssemos em ficção. Por cá, basta pensarmos em José Sócrates ou no chamado caso Tancos. Lá fora, Trump e Bolsonaro são o rosto do inimaginável. Portanto, tudo o que há anos parecia impossível é hoje possível, tudo o que há anos parecia inverosímil é hoje verosímil. O cinismo e o humor são ferramentas a que nos agarramos para não cairmos no abismo. Viver num mundo que continuadamente se nos mostra por dentro leva-nos facilmente à loucura, ninguém aguenta a saturação a que fica sujeito com tamanha perversidade, pelo que procuramos descontinuá-lo tentando desligar momentaneamente os canais que nos trazem esse mundo, que nos metem dentro desse mundo, que nos transformam em parte integrante desse mundo. A essa descontinuação momentânea (que podemos chamar de pausa ou de interrupção) oferecemos o melhor das nossas vidas, conscientes, porém, de quão débil e escasso é já esse melhor. Uma perspectiva optimista destas coisas leva a que o balanço se concentre no trabalho, isto é, na vida profissional, sobretudo quando a vida profissional o não é, pois andamos quase todos a sobreviver profissionalmente de ocupações que julgamos secundárias. Ninguém paga contas com os poemas que escreve, ninguém alimenta os filhos com os livros que publica, ninguém garante meia dúzia de extravagâncias por ano (restaurantes, cinema, teatro, viagens…) com o fruto da criação. E reparem como lhes chamo extravagâncias. Ao essencial passámos a chamar extravagância, assim o é por estarmos absolutamente dependentes dos sapos que engolimos para podermos continuar a respirar. Quando digo ninguém talvez devesse dizer uma imensa maioria, pois há sempre quem por sorte ou talento almeje a fortuna de um desafogo material que lhe permita ser quem verdadeiramente é. Reduzir um ano a feitos profissionais também não é solução, acaba por soar a falso, uma mentira que pregamos a nós próprios para parecer que a vida é outra coisa que não um projecto eternamente adiado, incompleto, fracassado à partida mas com inúmeras possibilidades de miseráveis vitórias no seu decurso. Quanto vale um ano numa vida? Entre nascermos e morrermos, que verdadeira importância tem um ano na nossa vida?  Talvez a resposta mais honesta, e por isso a mais cruel, seja mesmo: nenhuma. Foi só mais um ano, como diria Artaud, a comer e a cagar, a beber e a mijar, a dormir e a trabalhar, foi só mais um ano a fazermos coisas que podíamos não ter feito e a não fazermos coisas que podíamos ter feito. A compensação para esta monotonia é a constatação de que em breve tudo acabará, deixaremos de contar os anos, os balanços que fizemos cairão no esquecimento, o pó tomará conta de todas as coisas como se nunca tivessem sido.

sábado, 28 de dezembro de 2019

SODOMA & GOMORRA




isto foi antes de deus ter destruído sodoma e gomorra
homens suspeitos de exibicionismo contra menores
produtor predador denunciado por antigas vítimas
milionário suspeito de recorrer a rede de prostituição
material pedófilo de extrema violência no whatsapp
polícia mata suspeitos por violação colectiva
supremo reduz pena a abusador de seis menores
homem abusa sexualmente de enteada de 12 anos
detido homem que violava filha de 4 anos
pena suspensa para professor que abusava de aluna
milhares de prostitutas chinesas na áfrica subsariana
12 anos para 164 crimes sexuais contra filha e enteada
207 pessoas detidas por crimes relacionados com
a exploração de crianças para fins sexuais
pena de morte para 16 pessoas que queimaram viva
jovem que denunciou director de escola por assédio
homem julgado por 139619 crimes de pornografia
as vítimas são sobretudo jovens do sexo feminino
homem de 73 anos abusa de doente psiquiátrica
homem abusa da filha com conivência da mulher
há cada vez mais homens vítimas de abuso sexual
a situação nunca foi tão grave: vídeos e fotografias
de pornografia infantil subiram para mais do dobro
337 detidos de 38 países em rede de pornografia infantil
pedófilo inglês assassinado na própria cela
cumpria 22 sentenças de prisão perpétua
180 agressões sexuais por dia no brasil
fbi investiga ilha das orgias de epstein
5 jovens abusam de norueguesa em benidorm
1700 padres abusadores vivem com pouca supervisão
há mais jovens a pedir ajuda devido a chantagem sexual
homem detido por filmar mulheres por baixo da saia
quatro rapazes detidos por violação em grupo
pai do android terá pago a escravas sexuais
padre exorcista acusado de violação
homem acusado de abusar de filho menor na praia
jovem de 16 anos detido por abuso sexual de bebé
ex-militar lidera organização criminosa que se dedica
ao turismo sexual de crianças e adolescentes
bombeiros de paris acusados de violação em grupo
destino incerto para ex-escravas sexuais do boko haram
mulheres moçambicanas violadas em troca de comida
agente da gnr suspeito de abusar de detida
máfia de leste dava choques  a prostitutas
a fantasia de desflorar mulheres virgens faz esgotar pacotes
de turismo sexual comprados por milionários europeus
china aboliu sistema reeducativo que permitia deter prostitutas
menores migrantes denunciam abusos sexuais nos EUA
as 8 ideias do papa para acabar com os abusos:
1. papa quer que bispos informem as autoridades
2. representante do papa investigado por abuso sexual
3. bispos portugueses esconderam pelo menos 3 casos
4. bispos pedem perdão por abusos sexuais
5. abade de barcelona esconde abusos durante 20 anos
6. abrão levantou acampamento e foi viver para os carvalhos
7. dá-me só as pessoas, podes ficar com os bens
8. à terceira denúncia o padre desapareceu
enfermeiro acusado de abusar de mulher em coma
vaticano encobriu casos de pedofilia pelo menos desde 1943
o mundo secreto da prostituição de luxo
mais de 100 mulheres obrigadas a prostituir-se
para rede internacional no norte do país
portugueses lideram turismo sexual no brasil
espanha é o novo destino de turismo sexual na europa
na tailândia tudo vale em matéria de turismo sexual
tráfico de nigerianas para prostituição na europa
atinge níveis sem precedentes
o vale de sidim estava cheio de poços de betume
os reis de sodoma e de gomorra caíram dentro deles

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

JOKER


Em 1999 já só teríamos um ano pela frente, o mundo implodiria em 2000. Um bug informático, uma catástrofe natural, a tão anunciada guerra nuclear, a terceira grande guerra depois de duas sobre as quais tantas ocorreram, deixariam o planeta em pedaços. A humanidade teria o mesmo destino que os dinossauros. A cultura popular ofereceu-nos por esses dias diagnósticos, previsões, retratos de um destroçado mundo em ruínas. A Tricky, músico de Bristol, devemos a melhor legenda da época, o álbum de 1996 intitulado “Pre-Millennium Tension”. Entretanto, passaram 20 anos. O mundo não acabou, mas é como se tivesse acabado. A morte é lenta, tsunami que arrasta os detritos do colapso financeiro, político, religioso, económico, artístico, humano. Acrescentámos à nossa história os horrores de um renovado terrorismo religioso, o Estado Islâmico, o sobreaquecimento global, a ascensão do populismo e de novos e requintados modelos de fascismo, muros, lixo tecnológico, muito lixo, poluímos os mares, assistimos em directo ao sismo do Índico e ao acidente nuclear de Fukushima, permitimos que o Mediterrâneo tenha sido transformado em derradeiro refúgio dos miseráveis, pano de fundo das nossas vidas enquanto nos empanturramos em fast food porque estamos atrasados, temos pressa, o tempo é curto, tudo urge e a nossa capacidade de foco pouco excede a de um peixe de aquário. É neste ambiente cruel que Todd Phillips resolve recriar cinematograficamente a biografia de uma personagem de ficção, baralhando as cartas como mandam as regras num universo onde deixou de haver ficção por tudo parecer possível. “Joker” é a história de um vilão, mostra-nos como o mal é gerado, cresce e se desenvolve dentro de um homem, sem perder de vista a sua ligação à realidade. E este é, julgo, o aspecto mais relevante de um filme sobre uma personagem de BD que se nos apresenta agora como humana, demasiado humana. Tudo em “Joker” surge espantosamente verosímil aos olhos do espectador, pois entre esta Gotham City e as grandes metrópoles das culturas superiores já não há diferença alguma. Que o povo erga o vilão à condição de Messias, colocando-se do seu lado como ao lado de líderes loucos e insensíveis se colocam multidões de excluídos e desafortunados, não espanta nem assombra. Tratado pela sociedade como, no seu tempo e com as devidas distâncias, Jesus o foi pela sua, Joker é o filho de Deus cuja mensagem de ódio e de mal se funda numa dor que faz rir. Nada disto é por acaso, o riso demoníaco e incontrolável que toma conta do palhaço em situações emocionalmente stressantes representa a ruína humana neste lento apocalipse social de que aqui se faria caricatura não fossem tão realistas os traços vincados. Emocionalmente descompensado? Sim. Mas porquê? O filme pode ser visto como a biografia de um anti-super-herói, sob pena dessa perspectiva ficar aquém do possível e do recomendável. Prefiro interpretá-lo como ecografia do útero onde a personificação do mal é gerada, uma sociedade desprovida de empatia e, principalmente, de uma atitude que temos vindo a negligenciar em múltiplos contextos e de múltiplas formas neste novo século: a capacidade de irmos ao encontro do outro, de nos colocarmos no lugar do outro, de o pensarmos em função da sua história e não de acordo com paradigmas pré-estabelecidos ou face à nossa experiência singular. Esta indisposição total para o outro, que tem na sua origem uma urgência de juízos e condenações simplesmente fundados no egoísmo individualista, é o pavio que a estupidez ateia levando a explosões de crueldade inconcebíveis. Se pensarmos na facilidade com que hoje as massas são manipuladas, quer pelas redes de comunicação onde estão imersas como presa num pântano de crocodilos, quer pelos condicionalismos de uma educação humanitária deficiente, favorável às exigências de sucesso impostas pelo consumismo exacerbado, não é de espantar a adesão das pessoas aos seus jokers. É a única forma que têm de se vingar de um sistema que as oprime, as rouba, as engana, as tortura sob a promessa de as proteger. Encontramos facilmente ecos de um “Taxi Driver” no filme de Todd Phillips, podendo até ser considerada irónica a presença de Robert De Niro neste filme, num papel perverso que catalisa a emergência de Joker na personagem de Joaquin Phoenix. Ironias à parte, os inimigos mantêm-se: as sociedades de consumo e de espectáculo que reduzem os cidadãos a meros fantoches num teatro competitivo, sugando-lhes qualquer resquício de humanidade. O papel de fazer rir numa sociedade à deriva, derruindo como um castelo de cartas, é talvez o menos compensador de todos, pois numa sociedade assim o riso perde a sua função libertadora, deixa de instigar crítica e autocrítica, injectando no ser quantias absurdas da indolência que ajuda o náufrago a manter-se à superfície. Que terminemos o ano a discutir mais um atentado ao humor, desta feita no Brasil evangelizado da IURD, é sintomático de quão pertinente é este filme de Todd Phillips, o qual se arrisca a ficar para o futuro, porventura contra tudo quanto seria expectável, como um documentário naturalista destas primeiras décadas do século XXI.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #26



   Agora que o fim de mais um ano se aproxima, e os balanços se intrometem inevitáveis como inevitável é o termo de tudo quanto começa, sugiro-vos que não alimenteis ilusões quanto a isto de ir vivendo trazer no âmago pingo de seriedade. Se a vida é uma passagem, pois que se cumpra usufruindo dos prazeres que, por acidente ou por acaso, se atravessam no caminho. Rir é, sem dúvida, o melhor remédio para quem logo à nascença se vê obrigado a chorar. Podeis pegar nos “Contos de São Petersburgo”, vindos a lume na primeira metade do século XIX, para vos certificardes de que em matéria de alma humana pouco muda com o passar dos anos. Transforma-se a paisagem, baralha-se a hierarquia de valores, inventam-se vacinas, mas a besta que há em nós perdura inalterável. Nikolai Gógol, o russo ucraniano que dizem ter sido atacado por depressões e crises místicas, pode não ter dado a volta à agonia e ao sofrimento que o atormentaram, mas nos contos que outorgou aos leitores tudo quanto parece real surge fantástico, não sendo por isso de menosprezar a hipótese de tudo quanto neles surge fantástico ter sido deveras real. Pretendeis, minhas filhas, melhor retrato do ano que passou do que este? 
   Eis-nos em 2019, a passear na Avenida Névski, rodeados de gente decente, ao encontro de uma «beleza atingida pelo bafo putrefaciente da devassidão». Logo em Janeiro, a televisão nacional ofereceu-nos para entretenimento, como quem oferece um Natal dos Hospitais, o líder dos neonazis portugueses em pose de respeitável pai de família. Haverá exemplo mais frustrante de realismo invertido do que esta tendência para desmemoriar as massas pintando com cores aprazíveis o que é repugnante? Não será este o modelo exemplar de como mais do que a paz, mais do que o amor, o verdadeiro e único valor que impera neste mundo é a audiência, aqui medida e pesada ao preço de um ouro que sairá tão oneroso quanto aos escravos ficou aquele que em tempos trouxemos do Brasil?
   Começámos a manhã de 2019 com um criminoso aberrante de cara lavada, prenúncio do que, ao longo do ano, acabou por se transformar em regra para que definitivamente aprendamos a conviver com o ópio das multidões: não importam os meios se os fins forem rentáveis. Perante os factos, a transferência da rainha das audiências de um canal para o outro não pode ser interpretado como mero fait divers. O empolamento da situação podia ser apenas adorno na feira de vaidades, mas antes se transforma no símbolo mais doce de uma estupidez que já ninguém escandaliza. Resultado: que importa se o ídolo da nação fugiu ao fisco ou violou uma mulher? É o ídolo da nação, logo intocável. Ao contrário, habitantes do Bairro da Jamaica, ou quem os defenda, devem ser apontados como escândalo nacional, pois tudo quanto fizemos para integrá-los falhou. Integrá-los em quê? «Oh, não confiem nesta Avenida Névski! Eu, quando deambulo por ela, agasalho-me sempre o melhor possível na minha capa e tento não olhar para os objectos que encontro. É tudo engano, é tudo sonho, nada é o que parece!» 
   Minhas filhas, se ouvires dizer na tal Avenida que o nosso país tem um problema com as minorias, não vos esqueceis de quão minoritária é, pois, a minoria do bom senso. Em matéria de trafulhas, cromos para troca nunca faltam. Evitai, no entanto, fazer como Tchartkov, pois nem tudo é uma porcaria neste mundo. Em aprendendo a rir da porcaria, até se torna sustentável frequentá-lo. Com as devidas distâncias. Podemos olhar com graça tanto para um recluso que enfia 7 telemóveis no cu como para um magnata que se recusa a cumprir ordem para demolir WC com vista para o Palácio das Necessidades. Julgais fruto da minha imaginação tais notícias? Pois aí tendes 2019, o ano em que tudo quanto era inimaginável se tornou simplesmente vulgar. Os ficcionistas que se ponham a pau. Se quiserem surpreender, no futuro, terão de ser o mais sóbrios possível. Quem conseguirá aguentar estardalhaço sobre estardalhaço? Como nos contos de Gogól, o que no entretanto haverá de sonho ou realidade será tão destrinçável quanto o negro o é do preto. Perguntai às vítimas de violência doméstica que ao longo do ano contribuíram para as estatísticas de um país que surge entre os mais pacíficos do mundo. Se obtiveres resposta, dizei-me qual foi. 
   Escutar a um deputado da nação que “fake news” e populismo são tretas de Bruxelas  soa-nos aos ouvidos, deste modo, como recado acerca de uma “tísica galopante” que ameaça transformar-nos em “pequenos agiotas”, de juízes com listas negras a estrelas de canais televisivos. Das cheias em Moçambique ao ódio a uma jovem activista, da Amazónia em chamas à intimidação de humoristas, vai apenas  um twitt no “diário de um louco” capaz de celebrar o “crepúsculo do socialismo” ajoelhado aos pés de um bispo evangélico. Empreendedorismo é isto mesmo, minhas filhas, é manipular o poder com os tentáculos da religião, locomovendo tudo quanto possa servir à engorda dos cofres com que se operam milagres e se inventam "messias & mártires". Este mundo globalizado, escancarado às multinacionais, mas encerrado às pessoas, com muros erguidos um pouco por todo o lado (não é metáfora), é o mundo de loucos que vos espera. 
   Se os atentados continuarem pelo Sri Lanka, dai-vos por satisfeitas. Não se chega lá de caleche, meio de transporte utilizado por certa comunicação social para quem as auto-estradas da informação ainda estão cheias de portagens. Mais do que mostrar quanto há, mostra-se quanto convém. Daí que não importe mostrar o Chile, se convir mostrar a Venezuela, e assim sucessivamente. Depois, andaremos entretidos com cartoons proibidos, declarações de amor à China, elevados índices de abstenção, deputadas gagas, deputados patológicos, manifestações de polícias, injecções de capital, dívidas fantasma, operações stop, mercado de transferências milionárias, assessores de saias, peixes inteligentes, conseguindo vislumbrar maneira de chamar cultura superior a esta que continua tão entretida com o seu bem-estar encavalitado na desgraça alheia. Enfim, não deixa de ser verdade, como sabeis, que para se ser superior tem de alguém oferecer os ombros. Os inferiores. Ou, em versão actualizada: os outros que explorem o lítio, a gente depois dá-lhes o uso devido. 
   Inesperadamente, um final fantástico: «Na polícia foi emitida a ordem de apanhar o morto, custasse o que custasse, vivo ou morto, e de lhe ser aplicado impiedosamente o devido castigo, para edificação dos outros, e a empresa quase teve êxito». O morto somos nós, minhas filhas, nós que aceitamos o revisionismo histórico e a expurgação da memória como quem abraça alegremente o reino da estupidez, conformados por entre a loucura e a normalidade ter deixado de haver fronteiras, por entre a ficção e a realidade se terem esbatido muralhas, pois essas, agora, erguem-se apenas e cada vez mais na Terra para que possam ser garantidos aos ricos os condomínios fechados onde os pobres apenas entrarão para varrer ruas, lavar latrinas, colher lixo. 

domingo, 15 de dezembro de 2019

ANNA KARINA (1940-2019)



Chamam-lhe “musa de Godard”, não é caso para menos. Nasceu dinamarquesa, de seu verdadeiro nome Hanna Karin Blarke Bayer, e estreou-se no cinema com apenas 19 anos. Apesar de a encontrarmos em filmes de Jacques Rivette,  Agnès Varda, Visconti, Fassbinder, Raul Ruiz, foi na companhia de Jean-Luc Godard, com quem se casou, que conquistou o estatuto de imortal em filmes tais como “Une femme est une femme” (1961), “Vivre sa vie” (1962), "Le petit soldat/O Soldado das Sombras” (1963), “Pierrot le fou” (1965). Tentou a realização com “Vivre Ensemble” (1973), mas sem grande sucesso.

sábado, 14 de dezembro de 2019

ÁGUA DE LIMA


o pousio dos campos que foram verdes
verdes ao longo de gerações
milho regado ao pé
pela levada da aldeia
o murmúrio da água de lima
a correr pelos pastos.
do minho dessa imagem do minho
que te persegue como um
vício absurdo quase nada resta.
falam-te de chegas de bois
nos campos da lama
na festa de s. brás
e tu vês a mina dos escuros
onde a mãe lavava a roupa
também ela ultrajada de secura.


Francisco Duarte Mangas (n. 1960), in A Fome Apátrida das Aves (2013). Fortemente vinculada à terra e ao mundo rural, a poesia de Francisco Duarte Mangas aproxima-se, a espaços, de um bucolismo que não enjeita perspectivas de tipo elegíaco sobre esse mesmo mundo. Invocando Carlos de Oliveira, Manuel Gusmão diz que Duarte Mangas guarda da poesia daquele «a sobriedade e a brevidade, o desenho minucioso da imagem, os valores de proximidade com os acidentes morfológicos e a respiração da terra; a ligação apaixonada com a imaginação material, a paixão do concreto, do pequeno vivo e dos ciclos naturais».

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

ESTALAGEM




"ESTALAGEM"
Henrique Manuel Bento Fialho

Medula, Outubro de 2019.



"ESTALAGEM", de Henrique Manuel Bento Fialho, tem uma tiragem única de 100 exemplares, 13 dos quais numerados e assinados pelo autor. O livro tem 47 páginas. 8 € e 10€ (numerados e assinados).

Pedidos: medulalivros@gmail.com

Também se encontra disponível na livraria Poesia Incompleta: aqui. Na Paralelo W: aqui. E na Snob: aqui.

A MESA


   Devastador o silêncio da árvore estendida na terra, acabada de abater. A morte, por instantes, faz-se de secretíssimos cheiros: das folhas que perderam leveza e equilíbrio, dos ramos feridos na queda abrupta, do apertado coração de seiva. Ou será a alma? A alma da árvore liberta do corpo cativo. E logo uma luz imprevista abraça o lugar antes habitado. Luz, crua, sem sombra: incapaz, contudo, de amortalhar a devastação. Vi claridade assim, suave e limpa, em agosto. O homem para. Observa a grandeza da árvore, como se a medisse palmo a palmo, a inclinação do tronco, o peso da fronde: define o lugar certo que irá acolher a morte. De um só gesto, aciona a motosserra - nem um minuto a voracidade dentada carece (veloz a morte das árvores!).
   É um freixo, desconheço-lhe a idade: na margem do rio todas as árvores crescem para além do tempo. Já a luz habita o lugar devoluto, o homem separa os ramos do tronco como se aparasse a devastação do silêncio. Cortei o freixo para tocar a metáfora com as mãos, sentir-lhe o odor? O homem divide o tronco em três partes. Ressequida a memória da seiva, hei-de levar a árvore à serração. Achará o silêncio forma de mesa: construída por mim, na sombra do alpendre, rente ao cheiro intenso das figueiras bravas. Prendo a tábua no banco de carpinteiro, procuro-lhe o correr, limpo-a, limpo-o devagar. O mesmo farei às pernas da mesa e às travessas: o movimento da plaina sempre no mesmo sentido, no mesmo correr, até ao limite dos braços, depois o corpo se cabisbaixa e a lâmina desliza mais além. Ofício de aplainar é como a arte de enxertia: cada golpe será único, exacto, sem recuo. Madeira alinhada e limpa. É tempo de adir as tábuas. Eis o freixo em forma de mesa, metáfora utilitária, onde vou pôr romãs, livros, tangerinas, açucenas, peixes do rio.
   Na brancura da toalha a mancha de vinho. Quando eu desaparecer, outros darão uso à mesa, tosca, de nobre e rijo freixo. Talvez me engane. O seu destino será o silêncio do alpendre, tampo cheio de coisas inúteis. Ou virá o fogo.


Francisco Duarte Mangas, in Pavese no Café Ceuta, Teodolito, Março de 2019, pp. 183-184.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

QUANTO MAIS SÓ MAIS FELIZ


Uma das características do debate nas redes sociais (a generalização é abusiva, pois só uso Facebook, mas desconfio que seja igual ou semelhante por todo o lado) é a fulanização das ideias, como se estas precisassem de rosto para ser socado. Para que não me julguem faccioso, dou três exemplos bem distintos: agarra-se no nome de André Ventura, pega-se no nome de Joacine Katar Moreira, pendura-se o nome de Greta Thunberg e toca de dar pancada como se os nomes fossem sacos de boxe e no pensamento não houvesse mais do que braços e pernas musculados ansiosos por pontapear e esmurrar. De semana para semana, lá surge um rosto concreto que alguém associa a uma causa ou a uma ideia em abstracto, ou a deslizes que no nosso dia-a-dia passariam despercebidos, mas no ringue das redes sociais ganham expressão de mandamento. De onde virá esta necessidade de achincalhar figuras públicas, com piadas e insultos, com generalizações e argumentos ad hominem, senão de uma incapacidade para a reflexão crítica de ideias e de conceitos? O resultado disto é a miséria do pensamento. Os simpatizantes de André Ventura deixam de querer saber o que ele defende, pois o que passa a estar em causa é a defesa da sua pessoa; os críticos de Joacine deixam de ligar às causas do LIVRE, pois o que passa a estar em causa é a dramatização da personagem Joacine; Greta, uma adolescente de 16 anos, deixa de representar um movimento de preocupação com o estado do planeta; o ambiente, o clima e a ecologia perdem qualquer significado diante da beatificação a que é sujeita, com peregrinações que mais lembram as outrora realizadas à “santa” da Ladeira do Pinheiro, e o martírio a que fica exposta com o achincalhamento levado a cabo pelos seus detractores. O reino da estupidez também é isto, esta tendência para reduzir tudo a um espectáculo que tem tanto de cómico como de trágico. A conclusão a que chego é simples: o tempo perdido com estas descargas de adrenalina verborreica é tempo desperdiçado, mas é também um retrato desesperante do estado de falência crítica a que chegámos. Exemplo básico desta situação é a partilha em massa de títulos relativos a assuntos e notícias que simplesmente não foram lidas, pois quem partilha satisfaz-se com o título e dispensa qualquer investimento na leitura, ainda que superficial, da notícia. Reparo que é frequente as pessoas partilharem notícias do Polígrafo sem se darem ao trabalho de verificar o tal “fact-checking” a que a notícia foi supostamente submetida, tomando assim por verdadeiro o que era suposto provar-se falso. O problema está em que já não importa a verdade ou a falsidade de uma premissa ou de um argumento, a lógica agora concentra-se toda no sujeito e na sua defesa ou acusação. Vimos isto acontecer, ad nauseam, com José Sócrates e Bruno de Carvalho, indivíduos que para os seus fiéis seguidores serão sempre inocentes por mais que se comprove a sua culpa e para os seus caluniadores serão sempre culpados por mais que se prove a sua inocência. Trata-se de fé, da mesma fé que oleia os mecanismos do reino da estupidez e transforma os indivíduos em fanáticos cegos de crenças absurdas. Só a cultura e a educação poderiam ajudar a resolver isto, estivesse alguém interessado em investir na cultura e na educação para lá de numerus clausus e estatísticas para inglês ver. Vamos ter de nos aguentar com as hordas em fúria à volta dos pelourinhos, na esperança de que se mantenham confortavelmente sentadas nas salas de suas casas coladas aos ecrãs do telemóvel e do computador. Que deixem as Praças vazias para podermos indo dando migalhas aos pombos, é desejo e queira Deus com que alimentamos diariamente o que sobra do prazer de estarmos vivos.

domingo, 1 de dezembro de 2019

PRESÉPIO DAS CALDAS




Modesto contributo para a colecção "Um Mar de Estórias" (aqui). 

O REINO DA ESTUPIDEZ


A conversa de Bolsonaro sobre DiCaprio não é tão estúpida quanto possa parecer. É preciso perceber a quem se dirige, a um eleitorado em estado de negação para quem o actual presidente do Brasil é a reencarnação do Messias. Quando os incêndios na Amazónia foram notícia, Bolsonaro surgiu como o principal acusado. Políticas de incentivo ao desmatamento, favorecendo negócios instalados na região, justificavam a acusação. Logo surgiu o argumento de que a causa do problema estava nas ONG, as quais se vingavam de um governo sovina em matéria de subsídios. O que Bolsonaro está agora a apregoar aos acólitos é: se eu posso ser acusado de incendiar a Amazónia, então também DiCaprio poderá ser acusado de incendiar a Amazónia. Toda a gente sabe que nem um, nem outro, andaram com fósforos na mão a atear matas, mas um pelo discurso e pelas políticas, e outro pelo apoio financeiro às diabolizadas ONG, podem ser apontados como patrocinadores indirectos daquela catástrofe. Esta lógica por detrás do discurso de quem pretende “endireitar o Brasil”, de pistola à cintura e Bíblia na mão, tem uma força inacreditável junto de uma população que já não se distingue do imediatismo irreflexivo treinado nas redes sociais. 

Em matéria de retórica, regredimos a uma argumentação ao nível de recreio na escola primária. Não importa a razoabilidade do raciocínio, a lógica do mesmo, conta apenas o grau de pathos que se logra imprimir em cada afirmação. Daí que tenhamos definitivamente entrado numa era absolutamente patológica, desprovida de racionalidade, fundamentação, uma era em que a ciência surge desacreditada pela fé, no caso concreto do Brasil e de outros países americanos, a fé fanática, obtusa e cega dos evangélicos. Melhor exemplo disto do que a IURD é impossível de encontrar, o que torna o caso ainda mais espantoso. Eleito para combater a corrupção, Bolsonaro é o principal beneficiário de um sistema religioso altamente corrupto instalado na sociedade brasileira. Pode parecer paradoxal, mas não é. Na realidade, trata-se apenas de uma consequência natural das contradições em que as chamadas democracias liberais ou mesmo as sociais-democracias europeias se deixaram enredar, promovendo “black fridays” ao mesmo tempo que se manifestam indiferentes aos novos modelos de escravatura, incapazes de dar resposta a um mediterrâneo transformado em cemitério efectivo e simbólico de milhões de desafortunados espalhados pelos quatro cantos do mundo. 

A esperança que poderíamos ter no poder da comunicação social como forma de esclarecimento também se desfez em cacos, como recentemente se vem verificando na meticulosa selectividade das notícias. Não é difícil de adivinhar quem factura com tais práticas. Por cá, um grupo da imprensa que inclui jornais tais como o Sol, o I, o Correio da Manhã, o Record, o Jornal Económico, patrocina almoços no Hilton com o Dr. André Ventura, ao mesmo tempo que faz por ignorar um rol de atrocidades, autênticas violações dos direitos humanos mais básicos, em países como o Chile ou a Bolívia, dos quais temos notícia apenas através da imprensa internacional. Não é incompetência, é método. 

Com meio mundo a contribui para o peditório Livre, discutindo os problemas de comunicação da Joacine e as saias do assessor, outra metade vai lavando as mãos como Pilatos fez quando lhe pediram para escolher entre um vil criminoso e o filho de Deus. Depois de umas europeias em que a situação venezuelana foi assunto nacional, depois de horas e horas de directos e páginas e mais páginas de opinião sobre Maduro e Guaidó, o que justifica tanto silêncio sobre o que está a suceder noutros países da América do Sul? Talvez Paulo Rangel ou Augusto Santos Silva queiram explicar agora o que entendem por “asfixia democrática”, se não estiverem também eles entretidos com os cofres de Sócrates ou os atrasos da Joacine.