sábado, 28 de dezembro de 2019

#113



   A acreditar no que por aí se diz, “Ghosteen” (2019) é o terceiro tomo de uma trilogia que começou a ser desenhada com “Push the Sky Away” (2013) e teve continuação em “Skeleton Tree” (2016). Não sei até que ponto fará sentido tentar encontrar entre os três álbuns alguma coerência que não se restrinja à progressiva influência de Warren Ellis, o multi-instrumentista dos Dirty Three, na parceria estabelecida com Nick Cave em matérias de composição e de arranjos. Seja como for, trata-se sem dúvida da fase mais monótona, porventura melancólica, na já longa discografia assinada por Nick Cave and The Bad Seeds. 
   Talvez a explicação mais óbvia para esta monotonia, sobretudo nos dois últimos álbuns, seja a experiência da perda de um filho de 15 anos tragicamente passada por Cave aquando das sessões de gravação do álbum “Skeleton Tree” (2016). É verdade que a morte e a perda são temas recorrentes nesta obra desde “From Her to Eternity” (1984), mas uma coisa é a morte pensada em termos ficcionais, outra coisa bem diferente é experimentá-la na perda de um ente querido e procurar transferir essa experiência para um trabalho criativo. Neste sentido, a poesia de “Ghosteen” (2019) surge-nos ao mesmo tempo pacificadora e angustiante. O tema final sublinha bem a ambivalência, com o tormento associado a sinais de esperança. 
   Dedicado a Conway Savage, parte integrante dos Bad Seeds desde a década de 1990, vítima de tumor cerebral em 2018, este é um álbum que não disfarça com melodias fáceis a tristeza e a nostalgia em que se funda. Não obstante o tom elegíaco, o processo de luto transfigurado neste disco é mais complexo do que aparenta. Desde logo, faz-se acompanhar de meditações sobre o sentido da vida que problematizam o tema da fé. A experiência da perda é a experiência da dúvida, dúvida acerca da efemeridade, da beleza, da dor, da presença de Deus no mundo. 
   Não é preciso ser-se crente para perceber o desassossego da transitoriedade existencial, a constatação de que estamos para deixar de estar, a confrontação com o mal e com a fealdade num mundo onde Deus deixou de ter sentido e perdeu significado. “This world is beautiful”, canta Nick Cave no tema que oferece título ao álbum, para posteriormente insistir no sonho e na esperança enquanto suportes de uma paz que há-de chegar. Em canções repletas de referências religiosas, evocações da figura de Jesus, inquietações espirituais, num álbum que começa logo no título por nos introduzir num território fantasmagórico, a voz de Cave poderia ressoar amiúde como a do pregador de rua a que não prestamos atenção ou fazemos por ignorar. A diferença está no tom de falsete com que nos sussurra, induzindo uma atitude confessional e expiatória a que é impossível ficar diferente. 
   Muito na linha musical de “Skeleton Tree” (2016), a música é minimalista, repetitiva, lenta, recorrendo a sintetizadores e a lopps que remetem para segundo plano os instrumentos acústicos. A certa altura lembramo-nos dos Sigur Rós, mas a espiral de crianças que, no tema “Sun Forest”, surge a subir na direcção do sol talvez seja a melhor imagem de que dispomos para sublinhar a sintonia num canal de despedida que é aquele onde “Ghosteen” (2019) melhor encaixa. 
   “Peace will come in time”, canta-se no início, “And I’m just waiting now for peace to come”, confessa-se no fim. Pelo meio, “There's nothing wrong with loving something / You can't hold in your hand”. Há nisto uma face estupidamente emotiva que tanto pode escandalizar como comover, sendo certo que em nenhum dos casos deixará de merecer o mais básico respeito pelo que de manifestamente autêntico há neste retrato do luto. No limite, que resta a quem sofre senão fazer desse sofrimento matéria de reflexão? Um tema, porventura mais convencional do que os restantes, responde à questão:


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