A acreditar no que por aí se diz, “Ghosteen” (2019) é o
terceiro tomo de uma trilogia que começou a ser desenhada com “Push the Sky
Away” (2013) e teve continuação em “Skeleton Tree” (2016). Não sei até que
ponto fará sentido tentar encontrar entre os três álbuns alguma coerência que
não se restrinja à progressiva influência de Warren Ellis, o
multi-instrumentista dos Dirty Three, na parceria estabelecida com Nick Cave em
matérias de composição e de arranjos. Seja como for, trata-se sem dúvida da
fase mais monótona, porventura melancólica, na já longa discografia assinada
por Nick Cave and The Bad Seeds.
Talvez a explicação mais óbvia para esta monotonia, sobretudo
nos dois últimos álbuns, seja a experiência da perda de um filho de 15 anos tragicamente
passada por Cave aquando das sessões de gravação do álbum “Skeleton Tree”
(2016). É verdade que a morte e a perda são temas recorrentes nesta obra desde “From
Her to Eternity” (1984), mas uma coisa é a morte pensada em termos ficcionais,
outra coisa bem diferente é experimentá-la na perda de um ente querido e procurar
transferir essa experiência para um trabalho criativo. Neste sentido, a poesia
de “Ghosteen” (2019) surge-nos ao mesmo tempo pacificadora e angustiante. O
tema final sublinha bem a ambivalência, com o tormento associado a sinais de esperança.
Dedicado a Conway Savage, parte integrante dos Bad Seeds desde a década
de 1990, vítima de tumor cerebral em 2018, este é um álbum que não
disfarça com melodias fáceis a tristeza e a nostalgia em que se funda. Não
obstante o tom elegíaco, o processo de luto transfigurado neste disco é mais
complexo do que aparenta. Desde logo, faz-se acompanhar de meditações sobre o
sentido da vida que problematizam o tema da fé. A
experiência da perda é a experiência da dúvida, dúvida
acerca da efemeridade, da beleza, da dor, da presença de Deus no mundo.
Não é preciso ser-se crente para perceber o desassossego da transitoriedade
existencial, a constatação de que estamos para deixar de estar, a confrontação
com o mal e com a fealdade num mundo onde Deus deixou de ter sentido e perdeu significado. “This world is beautiful”, canta
Nick Cave no tema que oferece título ao álbum, para posteriormente insistir no
sonho e na esperança enquanto suportes de uma paz que há-de chegar. Em canções repletas de referências religiosas, evocações da figura de Jesus, inquietações
espirituais, num álbum que começa logo no título por nos introduzir num
território fantasmagórico, a voz de Cave poderia ressoar amiúde como a do
pregador de rua a que não prestamos atenção ou fazemos por ignorar. A diferença
está no tom de falsete com que nos sussurra, induzindo uma atitude confessional
e expiatória a que é impossível ficar diferente.
Muito na linha musical de “Skeleton
Tree” (2016), a música é minimalista, repetitiva, lenta, recorrendo a
sintetizadores e a lopps que remetem para segundo plano os instrumentos acústicos. A certa altura lembramo-nos dos Sigur Rós, mas a espiral de
crianças que, no tema “Sun Forest”, surge a subir na direcção do sol talvez
seja a melhor imagem de que dispomos para sublinhar a sintonia num canal de
despedida que é aquele onde “Ghosteen” (2019) melhor encaixa.
“Peace will
come in time”, canta-se no início, “And I’m just waiting now for peace to come”,
confessa-se no fim. Pelo meio, “There's nothing wrong with loving something / You
can't hold in your hand”. Há nisto uma face estupidamente emotiva que tanto pode
escandalizar como comover, sendo certo que em nenhum dos casos deixará de
merecer o mais básico respeito pelo que de manifestamente autêntico há neste retrato do luto. No limite, que resta a quem sofre senão fazer desse
sofrimento matéria de reflexão? Um tema, porventura mais convencional do que os
restantes, responde à questão:

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