Agrada-me o tom queixinhas que por esta época do ano invade balanços, lamentando-se em ca(u)sa
própria o desarranjo e a desarrumação do mundo, num contorcionismo de
autojustificação capaz de levar às lágrimas as almas mais sensíveis. Como diria
certa personagem, adorei, adorei, adorei. Em matéria livresca
nada melhor que sublinhar a “quase clandestinidade” de uns, sem sublinhar que
para que a clandestinidade não seja absoluta, ficando-se pelo quase, concorrem almas
caridosas, espíritos temerários, que nas páginas onde peroram semanalmente vão
resistindo à ditadura do mercado. Dizem eles. O exemplo da poesia é fácil de explorar, já que nesta matéria muito do que se vai produzindo resulta
em si mesmo de um culto da marginalidade que assevera não querer chegar a mais
de 300 como se não soubesse ser deveras extenuante chegar a meros 100.
A verdade é que de costas
voltadas uns para os outros, entregando-se a distribuidoras deficientes ou
simplesmente incapazes, diversos pequenos editores com catálogos apreciáveis
continuam vítimas de si mesmos, fazendo por roubar as bicicletas uns aos
outros enquanto o tubarão enche o bandulho e circula de Ferrari. Tope-se como
já depois de ter decretado o fim da poesia, o Senhor Porto Editora não só adquiriu
uma das mais conceituadas marcas do género, a Assírio & Alvim, como
entregou a um autor da casa a missão de coordenar uma nova colecção,
justamente baptizada “elogio da sombra” (como no livro de Tanizaki). Quem se
mete com esta gente? Ninguém. Não há almas caridosas nem espíritos temerários
que se atrevam a denunciar o cada vez mais evidente afunilamento de um universo
editorial que é capaz de meter numa só mão todos os intervenientes na produção
de um livro. Da gráfica onde são feitos à rede de livrarias onde são vendidos
fica tudo no mesmo, almejando-se desse modo margens de lucro
inimagináveis para um qualquer outro editor que pretenda colocar os seus
livros à venda numa das livrarias da rede absolutista que domina o
mercado.
Ora, num país onde não abundam
leitores, onde o consumo de livros vai sangrando lentamente até que fique tudo colado
aos smartphones, este afunilamento é a última chicotada num cavalo resfolgante.
Aventurem-se numa dessas livrarias de shopping e tentem encontrar rostos,
faces, facings, nas chamadas zonas quentes de exposição, antigos escaparates,
que não sejam produzidos pelo mesmo grupo ou perto disso. Dez dedos da mão
chegam e sobram para enumerar excepções. Observar oscilações nos Tops das FNAC
e das Bertrand é exercício fastidioso, mas assaz revelador. Podeis depois reflectir sobre o
porquê disto ser assim, mas não percais demasiado tempo das vossas vidas com o
assunto. Se em vós, caros leitores, ainda subsistir um mínimo de preocupação com
a liberdade de pensamento, deixai de frequentar tais antros como por certo
deixastes de frequentar igrejas. Buscai à margem das páginas dos jornais e fora
desses antros, que isto anda tudo ligado mesmo quando parece que não anda. O
mundo virtual oferece hoje pontes de contacto que podem levar-vos a bom
caminho, possibilitando a descoberta, aqui e acolá, de algumas livrarias onde a
regra não passa por colocar ao mesmo nível uma açorda de marisco e um Big Mac.
Bom ou mau, aqui tendes um
exemplo Debout Sur l’Oeuf. Em tempos sediada na cidade de Coimbra, mudando-se
desencantado para a Figueira da Foz, o livreiro Miguel de Carvalho insiste na
edição de livros. Quem os conhece? Quem ouviu falar deles? Onde aparecem
divulgados? “Parasitas Mortais seguidos de Golpes em Rodapé” (DSO, Setembro de
2019), com poemas e fotografias de Jorge Aguiar Oliveira (n. 1956), não é
apenas o mais recente livro de um poeta radicalmente contrário às “regras do
mercado”, tão absolutamente contrário que a própria “recepção crítica” faz por
ignorá-lo. Antologiado em “Sião” — de que Paulo da Costa Domingos,
revisor desta obra mais recente, foi um dos organizadores com Al Berto e Rui
Baião —,
Jorge Aguiar Oliveira surge também no catálogo da saudosa &etc. A
heterodoxia, a marginalidade discursiva, num português completamente
indiferente a normas e bons costumes, empenhado em destroçar a língua sem que
dela pouco mais reste do que detritos, levou a que grande parte do seu trabalho
poético fosse surgindo em cuidadas edições de autor, sendo excepção os livros na
DSO e na Companhia das Ilhas.
“Parasitas Mortais” tira
proveito do fitoparasitismo enquanto metáfora capaz de responder à velha
questão da utilidade da poesia. O veneno com que nos contamina é o de uma
vertiginosa imagética da destruição, numa linguagem por vezes elíptica, outras
vezes próxima de uma narratividade onde sobrevêm paisagens estilhaçadas,
habitadas pela “respiração dos cadáveres”, com lugares ao abandono e marginais
em “vão de escada”. Os poemas de Jorge Aguiar Oliveira não se limitam a descer
à rua, penetram vielas suburbanas onde o mau cheiro sufoca, a decadência medra,
os desastres quotidianos encontram no vagabundo atolado num pardieiro a
personificação possível de uma existência que se faz tanto de resistir como de
desistir. O último verso do poema “Caveira Amada” diz que “o infinito já não
mora em nós”, numa constatação que pode tanto servir de diagnóstico como de tratamento.
Genet é para aqui chamado, mais ainda num tempo em que a vida dos excluídos se
cumpre à beira de acumulações produzidas em massa por gente cada vez mais só e
isolada nos seus casulos virtuais: “Mas, se voltarmos / a olhar-nos / olhos nos
olhos online / deixarei escrito — à despedida / o quanto desejei
entrelaçar estes / nesses dedos / a
mirrarem de tão sós” (p. 21).
À insatisfação que perpassa
nestes poemas corresponde uma atitude ambivalente. Se, por um lado, temos a
urgência do testemunho e da denúncia, por outro parece haver a constatação de
uma inutilidade que faz de todos nós “exterminespectadores selvagens”. Resistência
e desistência surgem como que paradoxalmente complementares, como se para
resistir a um mundo que obriga os homens a viverem de certa maneira fosse
necessário desistir desse mundo. A angústia da extinção não se coloca aqui sob o prisma de quem hipocritamente se manifesta contra o mundo cedendo
quotidianamente às suas tentações, mas antes sob a perspectiva de quem
assiste a essa extinção retirando gozo da imagem do parasita a morrer infectado
pelo próprio veneno. Se o “negócio dos horrores quotidianos” desenha um “mapa
da escuridão dentro / do peito”, pouco mais resta ao poeta do que abrir o peito
e revelar o mapa. Este livro é mais um contributo para o mapeamento dos
horrores da nossa quotidianidade, aos quais a poesia não pode ser alheia ou
fechar os olhos, sob pena de também ela se transformar em matéria parasitária para
consumo instantâneo.
Pedicularis Sylvatica
podes passear pelas arribas
com a esperança do carreiro
desabar
e levar a solidão a
estatelar-se
nas areias da praia
podes levar na mão a quimera
bifurcada para aprisionar o
pescoço
do lacrau dos azares
assobiando
entre camarinhas
desespero daninho
o carreiro sem ruir
e perdido estás
no resto em falta

1 comentário:
Caminar caminarás
por calles y caminos
y cruzarás puentes
y arrabales
hasta llegar al final
buen caminante
al final de la ciudad
puerto de mares
donde termina la vida
y empieza el Hades.
https://imagoestinaqua.blogspot.com/
Publicar um comentário