A história da arte é um desfile de escândalos, para o qual tanto
contribui a força desafiante da linguagem artística como as resistências de sociedades
enraizadas no costume e na tradição. O final do ano de 2019 ficou marcado por
uma peça de Maurizio Cattelan que tudo tinha para passar despercebida, não
fosse a facilidade com que hoje se transforma em polémica universal qualquer
gesto que afronte ou desmonte a hipocrisia sobre a qual se ergue o chamado
mundo civilizado. A banana colada à parede teve esse mérito de pôr a discutir,
ainda que falhasse no objecto de discussão. A intenção do artista seria
representar o comércio global, não sendo de enjeitar que os 120 mil dólares
pagos pela banana, dias antes de ser exposta numa feira de arte contemporânea, fossem
uma das componentes da instalação. O caso não se ficou por aqui. David Datuna,
artista nova-iorquino, foi ver a banana e comeu-a. Deu um nome à performance: “Artista
com fome”. Assim vai o mundo da arte nas sociedades civilizadas, as
superiores.
Já este ano, e à medida que nos convém, fomos surpreendidos pelo
escândalo de Leça da Palmeira. Uma escultura de Pedro Cabrita Reis, vandalizada
por grafites, tornou-se assunto nacional pelas piores razões. O vandalismo a
que foi sujeita? Não propriamente. Interessava antes saber a origem política do vandalismo,
para perceber a legitimidade da indignação. O motivo das inscrições era o custo da obra: 300
mil euros. Como é possível, com tanta gente a morrer de fome, alardeou-se aos quatro ventos. Algures, alguém, nunca se sabe exactamente quem, encarregou-se
de chamar a atenção para o “investimento” dos nossos municípios em fogo-de-artifício. Ora, o que leva alguém a indignar-se com o custo de uma obra de arte, independentemente
do mérito que possa ser reconhecido à mesma, e a não se indignar com o
desperdício de dinheiros públicos em fogo-de-artifício?
Mais uma vez, eis-nos
perante exemplos práticos e factuais de como a arte ainda leva ao escândalo e à discussão.
Involuntariamente? Pelas piores razões? Pouco importa. Julgo ser mais
relevante assinalar esta pulsão para debates contaminados a priori por
preconceitos, ideias feitas, lugares comuns, disseminados por áreas onde o
pensamento vai sendo paulatinamente higienizado pelos modos de fazer e de estar incapacitantes
do espírito autocrítico. O mais recente livro de poemas de Rui Almeida (n.
1972) confronta-nos com matérias semelhantes, fazendo uso de exemplos diversos.
Em poemas onde se evocam quadros milionários de Basquiat e Francis Bacon, o
incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro ou a “higienização” do Miradouro
de Santa Catarina, ao serviço de certo hotel de luxo, sobressaem as contradições
do mundo actual e o ambiente de desorientação generalizada que patrocina a
angústia e o medo, o sufoco e o pânico, levando à saturação aqueles cuja
sensibilidade já só resiste sob a forma de sujeito poético (uma espécie de perfil falso).
Aproximando-se de um
tempo real, misturando-se nos factos da vida, estes poemas adoptam uma
perspectiva crítica e assumem a sua vertente política sem perderem de vista um
lirismo a que se agarram como a um molho de ramos se agarra quem se afunda
num pântano: «Itinerantes / São todos os humanos, / Logo ao nascer, e /
Sinuosos como regatos / Apenas por terem começado, / A dado momento, a ingerir
/ O ar venenoso do mundo» (p. 27). Há uma ironia no título que não passa
despercebida. A higiene aqui retratada pode assumir vários significados,
arriscando eu naquele que é o de uma higiene que, mais do que purificar ou
expurgar, simplesmente conspurca, é a higiene dos falsos moralismos e das
doutrinações simplistas empenhadas numa uniformização do pensamento que desprovê as pessoas de ferramentas críticas, ferramentas que levam a pensar antes de julgar, a
ponderar antes de agir, a reflectir antes de generalizar. Sinal de tempos, é
certo, que nos remetem para outros tempos. Isto da história se repetir tem
também muito que se lhe diga.
Não me parece por acaso que, num livro cujo tema
essencial parece ser o da falsificação dos homens, ou seja, da adulteração de
um humanismo que livrou o homem de ser besta, Rui Almeida se socorra de vários
exemplos colhidos no mundo das artes. Não foi na e pela arte que começámos a
trabalhar a sensibilidade e o pensamento? Não foi através dessa dimensão
criativa dos homens que conquistámos as maiores vitórias em matérias de empatia
e de compaixão? Ora, o que se passa é que desde a desacreditação da ciência à
promoção de fanatismos alienantes, passando também por uma subsunção do
artístico às leis do consumismo desenfreado e da sociedade do espectáculo, sobra-nos
este tédio da “violência nas ruas”: «Os felizes permanecem ignaros / E o mal
dos outros é ainda / Aquilo com que vivemos melhor» (p. 20). "Higiene" (volta d’mar,
Outubro de 2019) é um grito de alerta sem megafone, é um grito que se reconhece
maioritariamente para surdos, circunscrito que está ao núcleo restrito daqueles
que ainda passam cotonetes pelos ouvidos da consciência interrogando-se ao
espelho sobre quanto valem neste mundo.

10 comentários:
E pronto. O crítico ao serviço dos amigos...
Crítico é o caralho, ó cobarde.
Ao serviço dos amigos sempre.
Também deves gostar do Goebbles brasileiro, tu. Quando num weblog pessoal eu me sentir minimamente intimidado a escrever sobre os meus amigos (e faço questão de escrever sobre todos, porque os leio), então algo de muito mau se passará ó pulga.
Texto excelente. Vou atrás do livro. Em tempo, se não se importa, de quem é a autoria da capa? É muito boa.
DRB.
Lida esta leitura, vou tratar de ler o livro, porque sim.
Do título, que começou por me desagradar, cinco minutos depois começou a soar-me muito bem.
Lida esta leitura, vou tratar de ler o livro, porque sim.
Do título, que começou por me desagradar, cinco minutos depois começou a soar-me muito bem.
Força, Henrique. É da fibra anónima desse tipo de gajo que se tece o "putedo das letras" (Ruy Belo).
Saúde.
L. Varela
A capa é de Fátima rolo Duarte.
Estou pasmada. O crítico lida mal com a opinião dos outros. Que falta de higiene...
Feche a boca. Ainda entra mosca.
Querido Jorge,
Call Center. Laura.
Publicar um comentário