sábado, 29 de fevereiro de 2020

PECADOS CORRENTES


Pecados Correntes
Coordenação de Manuela Costa Ribeiro
Edição de Município da Póvoa do Varzim
Vários Autores

The People Vs. Larry Flynt, pp. 76-77.

CERVICAL

Há meses que padeço de dores na cervical (parte da coluna vertebral que no homem é constituída por 7 vértebras da zona do pescoço). Sete, o número mágico. Juntando isto aos problemas no sacro, fica óbvio que carrego nas costas os castigos do Senhor. Entre as sete vértebras da cervical e o sacro na base da coluna, muitas arrelias carregam estas costas. Desta vez, ninguém percebe se o problema vem do escaleno ou do epistrofeu. Seja como for, dói. E eu preferia que não doesse.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

3 FORMAM UM PERFEITO PAR






Há dias recebi cá por casa o José Carlos Tinoco e a Cláudia Novais. Falámos sobre coisas. Aí tendes o resultado. Lamento ter-me esquecido de limpar o pó aos quadros. Ninguém vai reparar, tanta é a eloquência sob cabeleira desgrenhada. P.S.: aquela conversa das objectivas nos engordarem 10kg é falsa, na verdade engordam 20kg.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

QUANDO UM POETA MORRE


Memória para Ruy Belo.

Quando um poeta morre há sempre alguém disponível para o inscrever num obituário, dedicando-lhe meia dúzia de linhas necrológicas e uma fotografia onde surja com seu melhor perfil. Só então ficamos a saber que viveu. Tecem-se loas, partilham-se poemas, o edil lamenta a perda, o padre abençoa-lhe a alma, fazem-se homenagens. Um coro de carpideiras tinge de lamentos a atmosfera. Entretidas com os mortos, não deram pelo poeta em vida. Mas há que fazê-lo renascer agora, que está morto. Volvidos anos sobre a morte do poeta, as carpideiras mantêm-se fiéis aos defuntos. Um poeta cadáver está mais vivo do que um poeta enterrado, custa mais exumar um poeta do que chorar um cadáver. Talvez o poeta morto há anos seja merecedor de uma atençãozinha. Lembram-se do dia em que nasceu como nunca se lembraram quando estava vivo, encomenda-se-lhe um busto e convoca-se a população inteira para inaugurar uma rua com seu nome. Incrustado no mármore da placa toponomástica, o nome do poeta perdurará num pátio, numa praça, numa travessa, numa rua, eventualmente numa avenida onde outros poetas vivos circulem anónimos e indigentes. O momento é solene, ao lado do edil um padre de batina, ao lado do padre quiçá um herdeiro, ao lado do herdeiro um vazio imenso. Na rede circulam palavras do poeta como nos caudais dos rios são arrastados detritos, a tinta do nome na placa vai desaparecendo até que tudo fique branco e invisível. Talvez algures alguém gize num quadro negro as datas de nascimento e perecimento do poeta, jamais sendo certas as últimas senão tendo em conta que a vida por ele levada foi sempre a morrer até ter o corpo desistido de morrer mais. Quando um poeta morre há um bruaá de espanto e dúvida, todos quantos não deram sequer por ele em vida acham-se agora no dever de pelo menos lhe celebrarem a morte. É preciso fazer qualquer coisa pelo poeta morto. Talvez matá-lo um pouco mais, na esperança sempre segura de que venha a transformar-se em esquecimento poupando-nos, assim, a trabalhos continuados.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

OUTROS QUINHENTOS

O Portugal quinhentista foi um feixe de tensões contraditórias e Lisboa , como o principal porto europeu do comércio do Oriente, era um vasto mercado de produtos exóticos, de ideias novas e de comportamentos marginais. Consumiam-se drogas, a prostituição masculina rivalizava com a feminina, a violência proliferava. Judeus e mouros traficavam lado a lado com cristãos vindos de toda a Europa. Questões de fé eram debatidas publicamente. Mais de 10% da população de Lisboa era negra. Os marinheiros contavam as suas inverosímeis experiências com gentes e em mundos até então desconhecidos pelos outros povos europeus. Não admira que Thomas More tivesse situado a sua Utopia numa ilha de que tivesse havido notícia por uma marinheiro português cujo emblemático nome, Hythlodacus, o caracteriza como um contador de improbabilidades. Os primeiros encontros dos portugueses com as culturas de outros continentes foram feitos sob o signo da improbabilidade, com o desejo ou a expectativa muitas vezes sobrepondo-se à realidade observada. Álvaro Velho (?-c. 1507), presumível autor do Roteiro da primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, identificara os hindus que viu como os cristãos que os portugueses desejavam que fossem a imagem da sanguinolenta deusa Durga como a imagem da beneficente Virgem Maria. Pêro Vaz de Caminha (1450-1500), na Carta sobre o Achamento das Terras de Vera Cruz, entendera a nudez dos ameríndios que deslumbradamente observou nas praias do futuro Brasil como a prova da existência de uma raça inocente anterior ao pecado de Adão. Mas as duras realidades das viagens também iriam ficar registadas nas narrativas anónimas de desastres compiladas sob o título História Trágico-Marítima.

Helder Macedo, in Oitocentos Anos de Literatura, Abysmo, Fevereiro de 2019, pp. 15-16.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

TEORIA PRÁTICA

Isso é muito bonito em teoria, mas na prática... Ora, e quem disse que era para ser bonito na prática? Não tem de ser bonito nem fácil, pois a prática é difícil, dá trabalho, a prática exige esforço e sacrifício, a prática é deveras exigente. Em teoria somos anjos, mas na prática é um inferno. O que parece bonito em teoria é mesmo para levar à prática, custe o que custar. 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

A VERDADE NÃO INTERESSA



Exemplo paradigmático de intoxicação massiva é o desinteresse generalizado por Assange. As pessoas não estão interessadas na clareza nem na verdade, pouco lhes importa que os podres do mundo sejam desvelados. As pessoas preferem a obscuridade e o secretismo, de modo a que o fascínio se mantenha activo e o espanto possa ter os seus momentos de êxtase. Num mundo verdadeiramente interessado em combater a corrupção, Assange e outros como ele seriam heróis. Neste nosso mundo são apenas mártires. Também eles terão as suas igrejas no futuro. Se chegar a haver futuro.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

TEMPESTADE PERFEITA


Forças de segurança radicalizadas e contaminadas por um discurso de tipo fascista; sucessivos casos de corrupção envolvendo um sistema judicial minado por interesses políticos e económicos; políticos ora populistas, cavalgando o discurso anti-sistema, ora inaptos, enredados em metodologias antiquadas e enterrados no pântano de obsoletas partidarites; uma sociedade de mentecaptos produzidos, nas últimas décadas, por um sistema de ensino falido e pela virose das redes sociais; uma comunicação social cativa do espectáculo; forças armadas à míngua; uma eterna competição de hipocrisia entre igrejas que perdem cada vez mais fiéis para escapes altamente manipuladores da espiritualidade. Não é preciso ser pessimista para perceber que está gerada a tempestade perfeita. Positivo, positivo, só mesmo o coronavírus.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

"Cada vez mais o índio é um ser humano igual a nós."



A bem do índio, mata o índio. Quando Marielle foi assassinada, em Março de 2018, uma notícia falava de mais de 190 assassinatos de políticos ou activistas sociais em 5 anos. O ex-vereador Raimundo Paulino da Silva Filho, 51 anos, foi assassinado neste sábado (22 de Fevereiro de 2020) em Ourilândia do Norte, sudeste do Pará. Foi baleado na cabeça. Há dias, outro líder do PCdoB, Afonso João da Silva, presidente do PCdoB de Jaciara (MT), foi assassinado no Assentamento União da Vitória, a 142 quilômetros da capital do Mato Grosso, Cuiabá. As vítimas são quase sempre da mesma área política ou estão ligadas a movimentos sociais com causas ditas de esquerda, os assassinos passam quase sempre incólumes por entre os pingos da chuva. Fazer política nestas condições é um acto heróico, vive-se permanentemente com a corda ao pescoço. Lembrei-me disto por causa do Carnaval.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

VASCO PULIDO VALENTE (1941-2020)


De Vasco Pulido Valente li um único livro: O Poder e o Povo - A Revolução de 1910, 6.ª edição, Alêtheia, Setembro de 2010. Excerto: aqui. Outros: aqui. Mas li-lhe imensas crónicas, tendo muitas vezes agarrado num jornal só para o ler. Sobre as leituras de férias de 2013, escrevi isto

...nada se compara aos agradabilíssimos momentos proporcionados pelas crónicas de Vasco Pulido Valente. Li todas as que fui apanhando e mais algumas que levava de reserva, normalmente no Três Arquinhos, na esplanada ou no interior do café, enquanto os velhos emborcavam bagaço e filosofavam sobre o mau tempo com uma vivacidade semelhante à de VPV quando filosofa sobre o país. É provável que o cronista já emitisse opiniões sobre o apocalipse quando ainda era um espermatozóide nos testículos do progenitor, única situação em que, de resto, alguma vez soubemos dele partilhando o espaço da sua misantropia. Feitas as contas, há mais de 70 anos que VPV vaticina o fim, não vê futuro em nada, olha com espanto incrédulo para o passado que não viveu, com nojo para o presente que não quer viver e sem esperança para o futuro que jamais viverá (porque no futuro nem ele nem o próprio futuro existirão). O país bateu no fundo, há mais de 70 anos que bateu no fundo, sendo que há mais de 70 anos se previa que viesse a bater no fundo tendo no fundo já batido. E não fosse a sua forma brocada, no fundo de há 70 anos teria ficado para sempre. Para mal dos nossos pecados, há sempre um fundo mais fundo do que o fundo onde o VPV coloca tudo e mais alguma coisa. Só isso explica, por leis de uma lógica benévola (ou malévola, depende das perspectivas), que ainda não tenhamos todos já desaparecido (embora VPV não nos veja) e até façamos férias, piqueniques, manifestações e feiras populares. É um prazer imenso lê-lo, um prazer incomparável que nenhum smartphone supera.

A imprensa está cada vez mais desinteressante.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

GENTE COMO ELA

(...)

No seu tempo ela só saía à rua quando tinha mesmo de ser, para fazer as compras da casa e ir à igreja dos Capuchinhos ouvir as prédicas dos fradinhos que falavam muito bem e eram todos muito bons. Entretanto o mundo levara uma grande volta e bastava pôr-se um pé fora de casa para se ver e ouvir coisas de estarrecer, como uma mulher que pedia dinheiro para fraldas porque era incontinente e queria aproveitar uma campanha de saldos nos Supermercados Boa Nova ou como um homem de cara normal, calmamente à espera do autocarro, e que vestia uma t-shirt azul estampada onde se lia em grande letras pretas: lição nº 69, e por baixo: sumário, e por baixo ainda, em letras só um pouco mais pequenas: sexo anal sem dor. Ficara a olhar para ele de boca aberta, ainda mais estupefacta porque ninguém parecia ligar e ele estava acompanhando de uma mulher calada e decentemente vestida. Passara-lhe pela cabeça que talvez fosse um maluco que dava um passeio sob a vigilância da guarda do manicómio. Ou tivesse raptado a mulher para fazer dela escrava sexual. A menos que fosse uma campanha de publicidade a favor do sexo anal e aí já se compreendia melhor aquele ar de tranquilidade e desafogo. Devia ser bem pago e num país de miséria só gente de princípios muito sólidos é que resiste ao poder do dinheiro. Gente como ela, que nunca alinhara em putices. Em vez disso tinha aturado até à morte um marido que já nascera doente e franzino, sempre preparada, durante trinta anos, para o pior. Gastara-se ao serviço do marido e do filho. Outros tinham comido a carne, ela roera os ossos. E em vez do seu modesto prémio de consolação, uma velhice tranquila na companhia de um filho e uma nora respeitosos e trabalhadores que iam às suas ocupações muito satisfeitos por haver quem ficasse a tomar conta da casa, tinha de assistir impávida às galderices da nora e às tristes figuras de corno manso do filho.

Teresa Veiga, in Gente Melancolicamente Louca, Edições tinta-da-china, 1.ª edição, Março de 2015, pp. 175-177.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

UM POEMA DE NUNO MOURA


BAL DU 14 JUILLET, PARIS 1958

Da fouce dos músicos a granada.
Aguçado, o tampo da mesa deixou-se guiar
os outros encaixaram-se nos centímetros das pernas
centopeias num sainete coceguento
vapor de fome
e quem visse diria que era um concurso de castelos
de areia que o mar calcina e o vento sova
e novamente e outra vez.
No sedeiro forquilhas rompem nas bocas
caixilhos lubrificados tremem cavidades
peças salientes dão de si, hidratam cartilagens,
contagem decrescente no paiol dos nervos.
Rijas, bigornas subornadas vão para o bengaleiro
rasgar sofás-cama.
Quem visse o tango dos queixos, punheta pequena
cigarro a puxar nova eletricidade
pediria uma rodilha para a sua sangueira.


Nuno Moura, in Braçada, Douda Correria - Colecção Particular, n. 02, Fevereiro de 2019, p. 23.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

VERDADEIRO OU FALSO?


Há muito de verdadeiro nas Histórias Falsas, de Gonçalo M. Tavares, publicadas pela primeira vez em 2005, na Campo das Letras. São 9 contos que recuperam personagens históricas, mormente do universo da filosofia clássica, apropriando-se de mitos e lendas a elas associadas, misturando-as e baralhando-as sem grande preocupação com os factos em si. O princípio filosófico é o do exemplo, da analogia, da parábola. Imaginemos que… E daqui se parte para uma especulação que tem tanto de poético como de filosófico, tem tanto de ficção como de realidade, tem tanto de falso como de verdadeiro, subvertendo a lógica de que uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo. Logo na segunda, a que recebe Tales de Mileto como protagonista, ao lado de uma criada chamada Lianor. A certa altura damos com esta divagação:

(…) Dos filósofos e dos poetas sabe-se pouco; no entanto, uma certeza: não são como os outros; não mudam.
   Se Procrustes, o bandido de Ática, que depois de roubar os viajantes, os deitava numa cama de ferro, cortando-lhes os pés se estes fossem mais compridos que a cama, e esticando-os com cordas, no caso de serem mais pequenos; se, dizíamos, Procrustes, o bandido de Ática, aprisionasse um sábio ou um poeta, não teria dificuldade em transformar-lhes o corpo de acordo com as medidas da sua violência, mas o que jamais conseguiria era normalizar-lhes ideias, ou a vontade.

(…)

Gonçalo M. Tavares, in Histórias Falsas, Leya, 2.ª edição BIS, Setembro de 2011, pp. 22-23.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

LACRIMA


Jornalista de profissão, Augusto Baptista (n. 1946) estreou-se em livro com “Histórias de coisa nenhuma e outras pequenas significâncias” (Campo das Letras, 2000). Desde então, recolhas de pequenos contos tais como “O caçador de luas” (gatopardo, 2003) e, mais recentemente, este “lacrima” (gatopardo, Outubro de 2019) contribuíram para que se tornasse num nome relevante da micronarrativa em língua portuguesa. Uma atitude discreta e, de certo modo, distante, leva a que poucos tenham conhecimento da sua obra, vinda a lume em edições de circulação restrita que não se cingem à arte narrativa. A fotografia e o aforismo, assim como a arte do tangram, são componentes de um labor criativo onde a dimensão lúdica e uma arguta capacidade de observação do mundo circundante se misturam a um só tempo. No weblog azul-canário (http://azulcanario.blogspot.com/) são mais de dois milhares os aforismos, à laia das “greguerias” cultivadas por Ramón Gómez de La Serna. “lacrima” é uma recolha exemplar de um universo ficcional abrangente, ainda que consolidado num exercício de síntese cuja maior virtude é não precisar de muitas palavras para que muito seja dito:

DEFINIÇÃO

   Equívoco é pensar que um qualquer pateta, a escrevinhar numa mesa de café com vista para o mar, é um poeta.

Os enredos destas histórias dispensam rendilhados e floreados, ainda que não se furtem a um extremo cuidado no tratamento da língua. O rigor é, de resto, aquilo que se exige para que o remate funcione, surpreendendo amiúde o leitor com personagens ambíguas e inusitadas. É assim logo no conto A Visita, onde o que pressupomos ser animal redunda em entidade bem distinta. Por vezes políticos, noutras ocasiões apolíticos, estes microcontos compreendem formatos diversos, cabendo destacar um conjunto de “diálogos urbanos” que adivinhamos resultarem do olhar perscrutador do fotógrafo por detrás deles dissimulado. À crítica social, desde logo plasmada num conto intitulado Empreendedorismo, une-se o absurdo, entendido aqui não apenas enquanto recurso estilístico, mas mais como atitude filosófica, em gestos que desarmam a realidade, subvertem as situações, oferecendo à leitura retratos irónicos de uma certa hipocrisia e boçalidade sociais. O humor e a ironia são, pois, ferramentas ao serviço de uma capacidade de ficcionar o real que tanto o denunciam como ridicularizam. Por vezes, em tonalidades negras das quais se dá aqui um exemplo:

OLHO POR OLHO

   Primeiro atropelaram-lhe o pai. Ficou-se.
   Depois mataram-lhe a mãe no passeio. Ficou-se.
   Mais tarde, mulher à entrada de casa, um camião… Ficou-se.
   Quando lhe tolheram os filhos na passadeira, resolveu enfim comprar o caterpillar.
   E saiu para a estrada.

Outra dimensão que não podemos descurar em algumas destas histórias é a sua inclinação poética, quer seja através de recortes imagéticos intrínsecos ao relato, quer a partir de jogos fonéticos (e até caligráficos, como denuncia o "i" invertido de lacrima na capa do livro) herdeiros da tradição concretista. Há ainda ocasiões em que a poesia surge enquanto corpo autónomo, oferecendo ao texto uma ambiguidade de género que muito me agrada. São disso exemplo A Minha Laranjeira, Tecto Branco, Telefonema, O Fundo, Um Senão… À economia vocabular destas “estórias” corresponde um princípio de síntese traduzível na ideia de que um homem cabe numa lágrima como o universo num grão de areia, resultando o texto de uma tensão permanente entre objecto de observação e sujeito que observa. Mais do que provirem de um qualquer lugar fantástico, feérico, fantasioso, estas histórias, por mais absurdas que por vezes pareçam, conservam um elo ao real do qual são indissociáveis. Enquanto tal, são testemunho de um singular modo de ver e de olhar para o mundo, não deixando também de ser um modo de o reflectir:

AUTOESTRADA

   Está bem que ficou desempregado, uma mão à frente outra atrás, de repente a fome, as dívidas, o precipício (compreensivo, mete a 1.ª). Custará perder o carro, perder a casa, certamente (condescendente, mete a 2.ª). E deve doer, não custa admitir, deve doer pôr termo ao estudo dos filhos, encarar o suicídio da mulher, tão nova (condoído, mete a 3.ª). Custará experimentar o ruir dos projectos de uma vida, sentir a humilhação. Custará… Mas, que raio, desempregados há-os aos montes! (incomodado, mete a 4.ª). E o que mais faltava é que andassem todos aí a carpir, a chatear meio mundo com questões pessoais (irritado, mete a 5.ª, de Beethoven).

sábado, 15 de fevereiro de 2020

"Religiões voltam a unir-se contra a despenalização da Eutanásia"


Ora aí está uma bela imagem de paz e amor entre os povos. Pergunto-me apenas sobre qual possa ser o castigo para a eutanásia: apedrejar até morrer?


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

on the road


hoje faziam na cidade mais de
quarenta graus, quarenta graus
de inferno neste porto onde chove
o ano inteiro, as ruas tóxicas
incêndios invisíveis a permanente
memória de coisas antigas
queimadas à superfície dos olhos,
tudo sem chama que se veja,
o suar imóvel a tortura dos corpos
inchados transportes públicos a chiar
de raiva quebras de tensão depois de almoço
cigarros a meio pela escassez de oxigénio, tu que te foste
vão vinte e oito dias em combustão,
estúpidos como adolescentes e borbulhas
que crescem sempre mais feias
no dia seguinte. estes dias
em que por cá fiquei ou nem isso, fui ficando,
abandonada à ideia de mim mesma abandonando-te,
tu chegares agora, com aviso mas sem que contasse,
fresco sólido tocado pelo sol
i'm already on the road, hun
e aqui eu, pálida-menina-de-escritório,
(como se faz
para parecer feliz de repente?)
tenho esta vergonha de avisar que o incêndio
vem comendo as entranhas da cidade, do meu cheiro
a cansaço, disto de não saber como te chamar
e por isso falar de ti
menos & menos,
isto:
não saber se abraço beijo se ambos
querer de ti tudo
se ficares, não querer nada
quando abalares, isto não era
para ser assim nós não íamos ser
esta coisa intangível este plástico
a queimar devagar as paredes,
a cinzentidão da manhã que hoje asfixia a cidade
um fogo demente que
ninguém vê ou extingue, terei de explicar melhor,
eu só quero que volte a chover o ano inteiro,
que se foda o sol a primavera essa coisa dos dias felizes,
you say: i'm already on the road, hun
but i?
i didn't sign up for this.



Francisca Camelo (n. 1990), in cassiopeia (apuro edições). Três livros de poesia publicados: Cassiopeia (2018), Photoautomat (2019) e O Quarto Rosa (2019). Com formação na área da psicologia, ensaia no livro de estreia uma impressionante viagem à intimidade sem que se desligue do exterior. O erotismo mistura-se nos seus poemas com as rotinas quotidianas, a lírica amorosa abre-se a dimensões aparentemente triviais, num questionamento do corpo e das transformações que lhe são intrínsecas, excedendo, desse modo, os limites de um intimismo melancólico ou meramente sentimental. A emoção é aqui indissociável da ironia com que se mina a própria viabilidade do poema enquanto retrato ou expressão fiel de um estado de alma. Assim sucede, por exemplo, no poema intitulado “ao poeta que me envia árias avulsas”. Noutros momentos, a condição feminina da autora impõe-se enquanto denúncia de uma longa tradição de vícios sociais que relegam a mulher para o campo da  mera erotização do corpo e dos afectos. Uma lírica do desejo contrabalança, nestes versos, com a panorâmica de uma sociedade afectada por preconceitos, havendo também espaço para memórias avulsas e descritivas que remetem, sobretudo, para a idade da adolescência. Com uma linguagem simples, alternando verso curto e, por vezes, prosa, Francisca Camelo surpreende pela habilidade com que logra ser incisiva sem resvalar para uma agressividade verbal gratuita e pretensiosa.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

PLANETA VINIL



    Começámos a ouvir falar do “buraco de ozono” em meados da década de 1980, tendo sido necessários dez anos, pelo menos, para que o assunto chegasse às escolas, acompanhado de um discurso pedagógico acerca do perigo da emissão de gases poluentes. As causas ambientalistas e ecológicas adquiriram desde então uma nova relevância, levando à alteração, ainda que lenta, de alguns comportamentos sociais e à adopção de medidas para a resolução de um problema global. O Nobel da Paz de 2007 entregue a Al Gore não foi por acaso, se tivermos em conta o documentário por ele assinado sobre as mudanças climáticas: “An Inconvenient Truth” (2006). 
   Entre o Protocolo de Montreal (1985), que tinha em vista diminuir a utilização de clorofluorcarbonetos pelos países mais desenvolvidos, e o Protocolo de Quioto (1997), que estabelecia metas de redução das emissões de gases de efeito de estufa, pouco mudou em matéria de “realismo político”. O que, de facto, parece estar a mudar é o clima na Terra, com consequências à vista de todos, excepto daqueles, cada vez menos, que teimam em opor-se a uma declaração de estado de emergência climática. Não deixa de ser sintomático de uma certa pasmaceira burocrática que seja uma jovem ambientalista a agitar as águas da decisão política, estimulando as populações a forçarem a adopção de medidas concretas pelos seus governos. Por todos os defeitos que tais movimentos possam ter, este mérito de congregação em torno de uma causa comum já ninguém lhe retira. Sucede que a agudização do discurso ambientalista se faz acompanhar de uma vertigem apocalíptica nada recomendável, tornando por vezes difícil destrinçar quanto há de fundamentalista ou de científico nestas batalhas. 
   Como transmitir a uma criança ou a um jovem a pertinência da causa ambiental, sem que tal pressuponha uma fantasmagoria catastrófica mais deprimente do que estimulante? Como explicar a uma criança que a possibilidade do mundo acabar não nos deve alhear do mundo, mas sim trabalhar para que ele se renove e perdure? Peças tais como “Dois Narizes num Mar de Plástico” (2019) e “Planeta Vinil” (2020), a mais recente assinada por Cecília Ferreira, ambas encenadas por Fernando Mora Ramos para o Teatro da Rainha, inserem-se num contexto de sensibilização para os grandes temas da actualidade que parte de um princípio de entendimento da criação artística enquanto elemento integrante das dinâmicas transformadoras da sociedade. Recusando uma atitude evangelizadora, são peças ditas para a infância que não se demitem de problematizar o mundo actual. 
    A ideia de um “Planeta Vinil” é especialmente feliz, se tivermos em conta que para um jovem da era digital o vinil tem já a natureza obsoleta dos artigos de colecção tal como o planeta Terra aparenta ter sido arrumado na cabeça de alguns líderes mundiais. Às voltas num lado A riscado, uma galinha poedeira une-se a um escaravelho e a uma criança ruiva como o era a Pipi das Meias Altas (a de agora perdeu as tranças), liderados por um peixe fora de água, todos na demanda de um lado B para o mundo. Onde ficará o lado B do mundo? Haverá um avesso do mundo? Sob ameaça de extinção, a trupe caminha a esmo — mas não desiste de caminhar. Perseguidos pelo fantasma do fim, têm no horizonte um objectivo que incita à união, afastando dentre todos preconceitos acerca das características específicas de cada qual.
   Mensagem positiva e conscienciosa, num cenário modesto, mas persuasivo, acompanhada de várias situações cómicas, gagues ao gosto de uma infância que não deixará escapar o sentido parabólico das personagens-tipo em cena. Dos ovos avariados da galinha poedeira ao estrume em que o escaravelho rebola, passando pelo peixe fora de água cujas capacidades de liderança se pautam por ideais à toa, são várias as hipóteses de abordagem desta peça que pode ser vista como uma fábula tanto acerca de um fim iminente — e, por isso mesmo, aterrador , como de uma urgente e necessária congregação de esforços em prol da continuidade da vida na Terra. E neste sentido o terror rende-se à esperança, para lá dos preconceitos que separam o pessimismo do optimismo.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

ALQUIMIA PERDIDA



«Ó Sombra, toma corpo e carne viva, / Ressurge, à luz do sol!», «Onde começa a luz do teu olhar?», «Sonhaste-me... e fui dada à luz do dia...», «A cada ser externo corresponde / Íntimo ser quimérico e vivente», «Amo-te mais por tudo o que não sei / Dizer, quando te vejo! Pelo verso, / Imortal e divino, que eu sonhei / E, inominado, paira no meu canto», «Toda a morte é regresso e a vida, apenas, / Um adeus, um partir, para voltar», «Eu não sou a alegria, mas apenas / A trágica matéria que a produz», «Uma árvore, sonhando, que veria?», «Era o sorriso imenso da montanha», «E viu que a natureza transitória, / Em seu imaterial desdobramento, / Destrói o espaço, o tempo e tudo quanto / É vã fragilidade e sofrimento», «o pensar é triste, mesmo quando / É alegre o pensamento», «a lágrima / É relâmpago de água e de tristeza», «E continuou falando, como quem / Anda sozinho e triste; e não se lembra / Que, se fala em voz alta, é para alguém!», «Eis o grande milagre! Deus é o homem / Na sua criação espiritual; /  Em vez de o homem ser Deus, na sua obra / De quebradiço barro material...», «Eis a própria alegria a caminhar...», «Onde ponho os meus pés, floresce a terra, / Brilha a luz, onde ponho o pensamento!»...

Assim escreve Teixeira de Pascoaes numa obra-prima intitulada "Marânus", um dos grandes poemas portugueses, só comparável a "Os Lusíadas" ou "A Margem da Alegria", de Ruy Belo. Quem está hoje habilitado a compreender a alquimia de Pascoaes, para quem toda a Natureza respira, sombra e luz são uma única realidade e a própria realidade se confunde com aquele que a sonha? 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

UM POEMA DE REGINA GUIMARÃES


CASAMATA

Estava D. Chicote de la Manca
sentado e sentada à soleira
na menos cómoda cadeira
a que chama decisão
obra e graça de um feitio
zelosamente hesitante.
Estava e estaria e nem isso
não fora a cadeira coxa
lembrar-lhe as necessidades
e a verdade dos prazeres.

Bebeu a primeira água
bebida abrenunciada
ora porque permitida
ora porque permissiva
e enche a barriga de sol nascente

— pois a manhã, essa sim,
a todo o bicho careta e carente
pertence
Escuta por dentro o tumulto da barriga
e por fora o gato em cio e a gaivota em
terra.

As ideias de tão novas
furam-lhe a fraca cabeça
entrando por um ouvido
e pelo outro saindo
como balas que se perdem
da arma e do alvo alva.
Por fim desce à rua ela ele
com a velha casa às costas
fugindo devagarinho
debaixo de amante cega
e cego amor de morar.

Lá do alto tombam pedras
duma ruína previsível...
Se D. Chicote caminha
é por não querer morrer
soterrado soterrada
no seu morar luminoso.

Calça sapatos de palco
que agarram carne de chão
D. Chicote de la Marcha
viaja até haver mar
para perder o lugar
e tornar ao seu princípio.

No ventre vazio e vago
digere sem se apressar
legiões de anjas e anjos
que nos hão-de acompanhar
em jornada mais estranha
e em vida mais segunda.

Sendo assim imundo imunda
nenhum perdão na cozinha
nenhum rancor na despensa
sala de estar no entanto
sala de estudo do meio
sala do estado de sítio

Regina Guimarães, in Casamata, com desenhos de Paulo Ansiães Monteiro, Douda Correria, Outubro de 2017, s/p.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

UMA CANÇÃO DE ALLEN GINSBERG


CANÇÃO

O peso do mundo
          é amor.
Sob o fardo
          da solidão,
sob o fardo
          do descontentamento

          o peso,
o peso que carregamos
          é amor.

Quem pode negar?
          Toca
em sonhos
          o corpo,
constrói
          em pensamento
um milagre,
          angustia-se
na imaginação
          até nascer
no humano —

espreita pelo coração
          ardendo puramente —
pois o fardo da vida
          é amor,

carregamos porém o fogo
          com fadiga,
temos pois de descansar
nos braços do amor
          enfim,
temos de descansar nos braços
          do amor.

Não há descanso
          sem amor,
não há sono
          sem sonhos
de amor —
          loucos ou indiferentes
que sejamos, obcecados
          com anjos ou máquinas,
o derradeiro desejo
          é amor
— não pode amargar,
          não se pode negar,
não se pode conter
          se negado:

pesa de mais este peso

          — tem de se dar
sem rendimento
          como se dá
o pensamento
          na solidão
na suprema excelência
          do seu excesso.

Os corpos quentes
          brilham juntos
no escuro,
          move-se a mão
para o centro
          da carne,
treme a pele
          de felicidade
e vem-se a alma
          exuberante aos olhos —

sim, sim,
          era isso que eu
queria,
          que eu sempre quis,
eu sempre quis
          regressar
ao corpo
          onde eu nasci.


San Jose, 1954


Allen Ginsberg, in Uivo e Outros Poemas, tradução de Margarida Vale de Gato, Relógio D'Água, Setembro de 2014, 75-79.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

SEX-TAPES


Ao ouvir Joaquim Vieira falar, na Antena 1, sobre a sua “História Libidinosa de Portugal”, ocorreram-me vários pensamentos perversos que me abstenho de partilhar. A dúvida que se impõe é: como será, daqui a uns anos valentes, a história libidinosa dos nossos políticos actuais? Há coisas que a gente pode imaginar, mas fica mal dizer. Outras contribuem para um imaginário mais ou menos público, desde o episódio Monica Lewinsky (que meteu sexo oral na sala oval) aos fetiches de Donald Trump com xixi. Idealizar Donald com Melania numa cama já é do domínio da abjecção. Mas e por cá, entre os nossos, o que vos passa pela cabeça quando ouvem o Chicão aos berros no púlpito? W. Somerset Maugham fazia a pergunta de outra maneira: «Quantos de nós poderiam suportar que os seus devaneios fossem automaticamente registados e apresentados como uma tela à sua frente? Morreríamos de vergonha.»

FAZER A RONDA


O estado brasileiro da Rondônia, que não sei identificar no mapa, foi notícia ontem e continua a ser hoje por causa de um despacho a pedir que fossem recolhidos vários livros das escolas, alegadamente por conterem conteúdos inadequados para crianças. Entre os 43 livros censurados estavam obras de Kafka e de Poe, todos os outros eram de autores brasileiros. O autor do memorando dedicou especial atenção a um autor: "Todos os livros do Rubem Alves devem ser recolhidos". Fiquei com uma vontade enorme de ler Rubem Alves. Depois de se esquivar ao tema, considerando-o fake news (não é piada), o governo de Bolsonaro disse que não tinha conhecimento da medida. Dada a repercussão pública do caso, o despacho foi abortado (já era um aborto desde o início) e os livros, aparentemente, não foram recolhidos. A Rondônia é governada pelo coronel Marcos Rocha, aliado de Bolsonaro desde a primeira hora. É gente que lê pouco, quase nada de literatura internacional. E não querem que os outros leiam. Passaram os olhos pela Bíblia truncada da IURD, onde por certo as crianças e os jovens brasileiros encontrarão materiais adequados às suas frágeis sensibilidades. Convenhamos que, até ver, o Index Librorum Prohibitorum da Rondônia é de uma pobreza confrangedora. A implicação com Rubem Alves tem a sua razão de ser: com Paulo Freire, é considerado um dos mais relevantes pedagogos brasileiros. Com a agravante de ter sido pastor presbiteriano.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

UM POEMA DE ANTÓNIO DE MIRANDA

BIOGRAFIA

Pouca gente me conhece.
& o mundo inteiro também não!
Como ele costumava dizer, gostava de ter sido eu
a escrever isso mesmo.
Não tenho muito a esconder
&
muito menos poderei mostrar.
Trocámos de óculos
e, naturalmente, disse Ferlinghetti:
É pá! Não digas essa palavra!
Fumámos haikus,
Disse-lhe que tudo é possível
para além do razoável da nossa impossibilidade.
Embrulhámos certas sinfonias
debaixo do guarda-chuva da alegria.
Ali, os caminhos opostos não nos fizeram mais
distantes.
Rasguei do livro uma folha
para lhe devolver as palavras que me tinha
emprestado.
Isto é para mim?
Também é para nós.
A chuva esperou pelo fim do nosso poema
e só depois começou a molhar.

António de Miranda, in Só esperava a viagem prometida, volta d'mar, Junho de 2018, p. 11.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

KIRK DOUGLAS (1916-2020)


The Indian Fighter/O Caçador de Índios (1955): aqui. Gunfight at the O.K. Corral/Duelo de Fogo (1957): aqui. Last Train From Gun Hill/O Último Comboio de Gun Hill (1959): aqui. A Gunfight/Um de nós tem de morrer (1971): aqui.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

A POLÉMICA DE IQALUIT


Há coisa de dois meses, Deus sabe a quantidade de especialistas em alterações climáticas que andavam por aí a exibir teorias. Ainda não se foram embora. Basta a Greta levantar o dedo, metem logo os corninhos ao sol. Ou antes metessem, às vezes parece mesmo que as pessoas precisam de apanhar sol. O meu amigo Bernardo diz que nunca houve tanta luz para tanto cego, eu julgo que nunca houve tanto sol para tanta cara pálida. Mas se há dois meses eram as alterações climáticas, há um mês era a iminência (ou será eminência?) de uma guerra nuclear. Os iluminados em relações internacionais e geoestratégia deram todos à costa, nunca antes se tendo visto tanta gente especializada na história do Irão. Exactamente os mesmos que sabem tudo sobre a América do Sul, especialmente quando os assuntos são a Venezuela ou Cuba. O Chile não interessa. Enfim, como o mundo não pára, tiveram os especialistas em conflitos armados o seu momento de glória para logo a seguir serem ultrapassados pelos especialistas em pandemias. Se há mérito algum neste coronavírus, então esse mérito é sem dúvida o de ter desenterrado imensa gente altamente esclarecida sobre vírus, pandemias, epidemias e afins. Há por aí uma pandemia de virologistas que nunca visto. Eu não me canso de admirar a vertigem noticiosa e a sua extraordinária capacidade de germinar génios, peritos em matérias absolutamente improváveis, gente que leu os livros todos, os certos, que conhece os artigos científicos, que domina as matérias, que tem algo de absolutamente determinante a dizer ao mundo, seja sobre incêndios ou sobre a história do colonialismo. Com tanta intelligentsia disseminada pela rede, não admira que o mundo seja um desastre. Os génios ficam sentados ao computador ou agarrados ao smartphone, a postarem a sua incomensurável sabedoria sobre os problemas do momento. Depois não há ninguém no terreno para que os problemas sejam resolvidos. Mas eu faço-lhes um desafio. Vamos lá tentar apanhá-los de surpresa. Assim do nada, quem é que por aí sabe alguma coisa sobre Iqaluit? Ah pois é, bebé, esperem só até rebentar a polémica de Iqaluit. Agora estão todos calados, ninguém fala de Iqaluit, mas assim que rebente a polémica de Iqaluit aposto que aparecerão de súbito e do nada centenas de iluminados sobre Iqaluit. Aguardemos.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

PARADA DE ORGULHO ABSTÉMIO


Esta noite sonhei com uma parada do orgulho abstémio. Damares Alves era a rainha do cortejo. Instalada no púlpito de um carro alegórico protegido por anjos e querubins, acenava ao povo, com ar circunspecto, ao som dos louvores da IURD. Chicão também aparecia, trajado de escuteiro, a cantar aos berros o “Kumbayá”. As bandeiras multicoloridas com os tons do arco-íris tinham dado lugar a bandeirinhas brancas, acenadas por freiras e sacristões. No mais polémico dos carros aflorava uma figura sinistra com cara de padre Frederico, rodeado de centenas de criancinhas cobertas de folhas de figueira. Nas bermas das estradas não havia quem aplaudisse, mas eram inúmeras as pessoas com cilícios autoflagelando-se com disciplinas de sete cordas. Damares erguia os braços ao céu e ria de forma estridente e prolongada, isto é, às gargalhadas, diabólicas gargalhadas.  

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

GEORGE STEINER (1929-2020)


As Artes do Sentido: aqui. Uma citação: aqui.

UM POEMA DE LEONARDO FRÓES


A terra do mim

na cisma da roça o mim dilata
observando tão de perto a menor das coisas
cujas folhas curativas se abrem
rabiscando no dedo um grão humilde

as bananeiras parecem rir desse medo
que a pouco tem de ser controlado
reduzido e repelido para o mim perceber
que nada nunca o separa do comum das sombras

assim como esse cacho cortado
por mim terá de ser dividido,
as folhas do mistério apenas brincam de imagem
armando para mim seu quebra-corpo selvagem

para mim e por mim a natureza-beleza
tece diariamente seus cipós e enredos
permitindo que a entrada no mato
seja uma doação voadora como a dos insectos

a lama a cama a fama o cocô e a casca
tudo participa dessa sensação-liquidez
que leva realmente o coração pela ponte
mas quando eu olho mais de perto só encontro um sorriso

pedras que estão sorrindo percebem
a unidade da botina com as unhas
o continuísmo íntegro de um pé de milho
até as cavidades do estômago

para mim e por mim tudo está fora
da hipótese de eu ter entrado algum dia
numa coberta coerente de pele
que é idêntica na tessitura à poeira

lá ali estão logo e nunca
as coisas que se encontro eu perco
na concepção de mim momentânea
que foi uma defesa sem fundo

mim no máximo serão lembranças vazias
tiques articulações maneiras
ansiedades que obscurecem o alvo
quando é o alvo que na verdade me escolhe 

colheitas de borracha me alargam
nesse momento bem de terra deitado
no útero estacional das raízes
que bombeiam borboletas de seiva

ei você me diz o mim aí vendo
veleidades de verdades em tudo
que não cabe no querer dizer que ele é
a saliva sentimental e só

você cortando pendurado de noite
o cordão já podre das fantasias
ou você então e sua estátua de sombra
zombando inalcançável do apego

cartazes de você predispostos
a uma impossível reunião de desejos
e também suas parcelas caindo
como dentes enferrujados na mesa

seja sempre você me diz o mim
pois é assim que você chega a não-ser
nem mais nem menos do que a liberdade idiota
de participar serenamente do ar

o ar te come a boca aberta
atrás da porta o sereno espia
tudo se resolve negando
mexendo nas afirmativas gerais

sem mim não tem por que nem você
deixa de atravessar quem seja em pé
ou vira, deitado, uma condição
de cobra dorminhoca sumindo

não tem essa paralisia da ideia
não tem esse poder de ficar
não tem um diamante pescado
não tem uma finalidade qualquer

é dodói mas também é remédio
são mínimas transparências que passam
a enxada que você segura com força
e te finca razoavelmente na terra

no entanto o céu cai no prato
e mesmo a misturada dá certo
tudo que acontece dá certo
ou ensina os movimentos então

na hora sem mim deságuam bocas
quebram-se as barreiras de eu ter
pensado, prensado, prendido o corpo, premeditado
o que naturalmente fracassa

ossos peças coisas sólidas firmes
não há em mim estritamente que sonho
e sinto que esse baú não existe
para desmanchar meu prazer


Leonardo Fróes (n. Itaperuna, 1941), in Assim, com apresentação de Júlia de Carvalho Hansen, Douda Correria, Julho de 2019, s/p.