terça-feira, 31 de março de 2020

MEA CULPA


A ignorância não tem limites, pelo menos a minha. Serve este para dar conta de uma espécie de redenção. Em 2013, a propósito de um exercício levado a cabo pelos críticos literários do Atual (ainda existirá?), dei aqui conta de uma estupefacção que tinha apenas uma razão de ser: desconhecimento. Entretanto li praticamente todos os livros de Teresa Veiga. O último que li foi História da Bela Fria (Cotovia, 1992), adquirido, pela ultrajante quantia de 1 €, numa banca de velharias. Deixo algumas frases soltas respigadas entre os nove contos do livro, cada um  melhor que o outro:

Os passeios a Milfontes tinham-me convencido de que havia outras maneiras de viver em que passavam por naturais, ou talvez o fossem, coisas que para nós eram inconcebíveis. Neste aspecto a exposição ao sol, com todas as metamorfoses que produz, fez mais pela nossa emancipação que os discursos das feministas, de que só nos chegavam ecos distorcidos. (do conto História da Bela Fria, p. 31)

Culpada ou inocente? A verdade é que não consigo chegar a uma conclusão. Prefiro considerá-los ambos vítimas de uma sucessão de acasos que os ultrapassaram. Mas vítimas que, de alguma forma, mereciam o que lhes aconteceu. (do conto O Poeta do Campo, p. 50)

O filho tinha ainda uma particularidade só dele: era anão, mas um anão alto, um metro e quarenta no bilhete de identidade azul, embora já andasse pelos dezassete anos. Já o vira anteriormente mas só à distância e para lhe mostrar que não o confundia com um garoto cumprimentara-o com um meio sorriso bem feminino. (do conto Consequências do Processo da Descolonização, p. 54)

Sentia-me abrasada de amor e compaixão pela humanidade e em especial pelos cegos, os surdos, e os mudos. (do conto O Queridezas, p. 70)

Só uma coisa me espantava: que ao contrário do que era costume tratando-se de amores ilícitos, estes fossem de vento em popa, de vitória em vitória, sem encontrar entraves externos ou internos de qualquer espécie. Era pena, tentava eu explicar-lhe o meu ponto de vista, pois sem uma certa dimensão trágica, a sua história de amor não passava d euma sucessão de quadros mais ou menos eróticos ou românticos em que os dois amantes, incansavelmente, se esgotavam na repetição dos seus papéis para um público reduzido a eles próprios. (do conto A Amante de Kropotchine, p. 78)

Ah, como é cruel darem-nos uma só vida, colocarem-nos a todo o momento na iminência de ter de escolher! O ser humano é tão contraditório! (do conto O Criado, p. 90)

Ninguém chorou no enterro. O bom povo de Vila Formosa só lamentava que não houvesse um sobrevivente para esclarecer todos os pormenores de um tão excitante enigma policial. (do conto O Criado, p. 109).

Minha querida, de todos os odores que a natureza criou para nosso deleite, posso dizer-lhe que o de uma pele curtida pelo sol é o mais sublime e excelso de todos. (do conto O Homem do Sertão, p. 136)

Nunca acreditei em bruxos e videntes mas verifico amiúde que acertam em cheio, pelo que convém desmascará-los quanto mais cedo melhor. (do conto Barbi, p. 139)

segunda-feira, 30 de março de 2020

GRIFFITH


Por razões que não me apetece desenvolver, mas que estão relacionadas com esta renovada tendência para dizer mal da China, apeteceu-me rever “Broken Blossoms”. Realizado por D. W. Griffith há coisa de um século, conta a história de um chinês que aporta em Londres com a missão de espalhar uma mensagem budista de paz e de amor. Rapidamente capitula perante a corrupção de uma sociedade eficazmente ilustrada na série “Peaky Blinders. É provável que Cheng Huan se tenha cruzado com o gangue da família Gilbert, acabando viciado no ópio e perdido de amores por uma jovem abusada pelo pai brutamontes. Acusado de racismo por causa do filme “The Birth of a Nation”, Griffith procurou redimir-se com “Broken Blossoms”. A generalidade das pessoas é mais ou menos como Griffith, mas sem um milímetro do seu talento e genialidade.

domingo, 29 de março de 2020

sábado, 28 de março de 2020

UM PINGO DE NORMALIDADE


Encostou junto ao muro do cemitério, deixando os quatro piscas ligados e o motor a trabalhar. Saiu pelo lado do condutor, de máscara no rosto e com luvas descartáveis. Retirou as luvas e guardou-as no bolso de trás das calças, ajeitou a máscara abaixo do queixo. De frente para o muro do cemitério, afastou ligeiramente as pernas, abriu o fecho das calças e inclinou a cerviz para trás enquanto desenhava estalactites com um jacto de urina. Respirou fundo como que insuflando os pulmões com o ar de uma certa normalidade. Sacudiu o instrumento antes de o recolher. Voltou a calçar as luvas e a tapar o rosto com a máscara, regressou ao carro e retomou a marcha. Presumo que tão satisfeito por aquele pouco de normalidade quão aliviado da bexiga.

sexta-feira, 27 de março de 2020

O COVID DOS PODEROSOS


Pessoas que estão muito preocupadas com o futuro, deixem-me lembrar-vos uma coisa: Adão e Eva também estavam. Entretanto, há quem julgue que os velhinhos e os doentinhos e os fraquinhos não se importam de dar a vida pela saúde da economia. É a eugenia ao serviço dos mercados. Talvez por isso alguns países tenham optado por políticas de isolamento selectivas, protegendo condomínios fechados e deixando os bairros pobres entregues à sua sorte. Um dos aspectos mais interessantes em alguns discursos que vamos ouvindo tem precisamente que ver com esta concepção maniqueísta do mundo, a qual tende a incutir nas pessoas a necessidade de optarem por uma de duas coisas: saúde pública ou economia? O vírus até pode ser um bem precioso se só matar velhos e gente estragada, o que aliviaria sistemas de protecção social sangrados por uma esperança média de via cada vez maior. Há todo um novo mundo de oportunidades à nossa espera. Só não entendo porque estes dilemas não surgem quando países decidem invadir outros países, fazendo exacta e meticulosamente o mesmo que o vírus agora ameaça fazer sem olhar a quem. Não, lamento. Não é a economia que se pretende salvaguardar, é o nível de vida das classes favorecidas. Só falta dizerem com todas as letras que isto é um problema de sociedades envelhecidas e debilitadas no sistema imunitário, pelo consumo excessivo de álcool, tabaco e benzodiazepinas. Se calhar já disseram e eu não ouvi.

Adenda: este artigo no The New York Times inventaria de modo cirúrgico as mentiras germinadas na boca suja de Donald Trump. São às dúzias. Entretanto, segundo os números da Universidade de Medicina Johns Hopkins, os USA são já o país com mais casos de infecção confirmados: 104837. O número de mortes não pára de crescer: 1711 ao dia de hoje.

quinta-feira, 26 de março de 2020

É A COVIDA, ESTÚPIDO!

Peixes inteligentes, pássaros espertos, líderes burros.

DIÁRIO DA QUARENTENA #6




Pensei que talvez fosse boa ideia contemplar o Atlântico depois de tantos dias fechados em casa. Temendo desrespeitar as regras do estado de emergência, ligámos para a PSP a indagar sobre direitos no usufruto de miradouros e belvederes. O senhor agente deve ter-nos julgado tontos, rematando prontamente a conversa com uma nega tonitruante. Somos um ajuntamento. Ainda pensei fintar a classificação distribuindo o mal por freguesias, que é como quem diz dois em cada viatura, mas logo a consciência pesou tanto sobre os ombros que a cervical voltou a resmungar. A quem mais ouvi dizer que este país precisava de um Salazar em cada esquina ouço agora protestos e divirto-me com as desculpas ensaiadas para fintar os mandamentos da autoridade. Acabámos a ver passar navios da varanda cá de casa. Não posso dizer que se esteja mal, apesar de ao fim de tantos dias confinados o ajuntamento começar a parecer uma multidão. Cabe a cada um a missão de tornar o espaço amplo respeitando os tempos do outro, imprimindo ritmos ao dia que não os desvirtuem da normalidade outrora contestada. «Se tivesse que viver um filme, ao menos que fosse um musical», desabafa a Ana, antes de eu enfiar os auscultadores nos ouvidos para escutar repetidamente a “Polonesa Heróica” de Chopin. Arruinada a pouca reputação que me restava com parvoíces nas redes sociais, socorro-me de um pianista polaco para recuperar alguma consideração. Leio na Wikipédia, inescrutável fonte de erudição, que o tal de Chopin morreu rodeado de amigos. Eu também estou rodeado de amigos, uns espalhados ao longo das paredes de casa, outros nas estantes atoladas de livros, e ainda aqueles que sem se fazerem notar neste modo material de estar vão dando conta de si rumorejando o desejo de um reencontro. Quando isto passar, dizem. E dentro de mim despontam personagens de quando e como isto era antes de ter começado a ser, o psicólogo de Arnaldo aconselhando-lhe vida própria, que o trabalho não podia substituir a vida, era preciso espairecer, estirar as pernas sobre a relva dos parques, desfrutar do convívio numa esplanada em tarde soalheira. E Arnaldo a olhar para a lista interminável de números no telemóvel sem encontrar um a quem achasse valer a pena ligar, hesitando, adiando, protelando para épocas de folguedo um simples “como tens passado?”. E o psicólogo a pensar na falta que lhe faz Arnaldo. Não se está mal na varanda, a espreitar a roupa dos vizinhos nos estendais e a contar gaivotas no céu. Há dias pareceu-me ter avistado um milhafre a pairar nas alturas, enquanto cá em baixo um láparo se ocultava entre as piteiras. Barrico-me na varanda como um gato a mirar melros, pintassilgos, pardais, pombos, rolas… Bem queria encontrar lesmas, Rita, mas para tanto basto eu.

quarta-feira, 25 de março de 2020

QUÓRENTENA


Carolina acha o máximo esta coisa da quórentena. Nunca se sentiu tão livre como agora, a fingir que trabalha de casa, com o consorte por perto, alapado ao smartphone, e os petizes num vaivém de jogos, partidas e piadas secas, que é uma graça só de vê-los. Por ela, ficava de quórentena o resto da vida. Está desejosa que chegue o Verão, o areal da Comporta todo seu. E nem quer imaginar como será no Natal, poder correr a baixa de alto a baixo sem ser importunada pelas multidões. O El Corte Inglés deserto é um sonho que nunca imaginou ver realizado.
— Querido, estava aqui a pensar que este é o momento ideal para levarmos as crianças à Disneyland. Não concorda?

terça-feira, 24 de março de 2020

UM POEMA DE LUÍS CHACHO



GAIVOTAS

«Baixas a bola», atira ela ao homem (dele não sabemos se família afastada ou assim, ou alguém a mais neste momento, apenas que tem mais idade que os outros), no intervalo em que pára os braços, os levanta por entre o nevoeiro, interrompendo seu movimento de lavrar a maré. Faz-lhe companhia, e ajuda com outro braço à mão num ancinho, a criança para cá e lá a afastar o lodo no chão, à procura do que andarão eles à procura. A maré, esta, atrasada em ponto até ao bater na espessa cortina presa ao céu.
O homem afasta-se, por sua vez, até ao limite da sua voz; para que dele se continue a ouvir «amanhã digo a ele que já não lhe voltas a falar, amanhã digo a ele», por cima do musgo e das pedras negras, este conjunto embutido na matéria plástica a maior parte do tempo coberta por água.
Aqui os barcos pousados, presos por cordas a cavilhas grossas, cravadas no mesmo que já vimos.
A canção das gaivotas, pontuando os silêncios entre eles, a virem certeiras a romper o tom cinzento no ar; pousando depois nas poças de água deixada para trás pelo rio, caminhando nelas, a mergulharem o bico na sua pouca profundidade. 

São estas gaivotas que dão princípio à estória; me alertando com a sua presença à margem do que acontece, me imobilizando, me tirando do caminho onde ia, me levando a escrever por cima da tarde em que estamos todos presentes.
«Cala a boca, caralho!», diz por fim a mulher.

Luís Chacho, in Garrotilho, Companhia das Ilhas, Fevereiro de 2020, p. 44.

PECADOS DE QUARENTENA


Tenho pensado muito nas pessoas a quem emprestei livros, CDs e DVDs que nunca me foram devolvidos. Confesso, Senhor, que não têm sido bons pensamentos.

ESTENDAIS


Gina esperou toda a noite que um carro parasse. Não viu vivalma. Pela alvorada, Arnaldo, o voyeurista, passou montado numa trotineta. Gina acenou-lhe, mas ele seguiu na mecha. Recolheu-se na varanda a mirar a lingerie desdobrada nos estendais das vizinhas.

segunda-feira, 23 de março de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA #5



Há dias revimos em família “Os Condenados de Shawshank”, pareceu-me apropriado para estes tempos de quarentena. Depois sonhei que também eu atravessava quinhentos metros de esgoto a caminho da liberdade, dando-me conta de que o vazadouro da minha imolação dá pelo nome de redes sociais. A diferença está na ausência de cheiro, e nos anéis perdidos que vamos encontrando pelo caminho. Pergunto-me se não seria preferível uma pneumonia transmissível por contacto cibernético. Um vírus que, muito simplesmente, nos confinasse ao silêncio absoluto, um pouco como naquele filme com a Sandra Bullock de olhos vendados. Exagero, como se perceberá. A ambivalência é o rosto desta crise. No sábado, por exemplo, apeteceu-me caminhar. Assim que meti os pés na rua acorreu-me a necessidade de reabastecimento de um bem essencial: vinho. Fui directo ao supermercado e aproveitei para, além de vinho, trazer peixe e batatas e gelado para as miúdas. Estranhei com sincero assombro a organização, o método, o respeito, a observância de um povo tantas vezes acusado de laxismo. Por outro lado, lembrei-me que aguentámos cinquenta anos de quarentena no século passado. Nada de novo, portanto. Acontece que agora o respeitinho é para bem de todos. E isto faz de mim, contra minha vontade, um predador de ternura. Sempre que saio à rua apetece-me abraçar toda a gente e inundar as pessoas com beijos, até a empregada do supermercado que me vendeu peixe podre. Lá dei o meu passeio a pé, em isolamento para não contaminar ninguém com a minha ambivalência. E fui pensando em coisas parvas, como num Index Musicorum Prohibitorum, enquanto assobiava o “Encosta-te a Mim” do Jorge Palma. Chegado a casa, desinfectei o corpo com uma ensaboadela geral. O dia da poesia foi o mais difícil de todos. Não por ter sido da poesia, mas por causa de uma publicação que as minhas irmãs se lembraram de fazer. Dou com o meu pai e a minha mãe numa fotografia, rodeados da equipa com que há 37 anos nos governam a partir de uma loja, na vetusta mas cada vez mais desértica e abandonada rua das montras de Rio Maior, onde se vendem peúgas, calças, cuecas, camisas, e tudo o que demais precisamos para cobrir um corpo. Na “República” de Platão eram três as necessidades básicas: comida, abrigo e roupa. Dois mil e quinhentos anos depois mantém-se a comida no topo da pirâmide. Farmácias e bancos encarregar-se-ão do resto. Perdoem-me que discorde. Necessidade mais básica do que os meus pais não tenho. Desconfio que não seja por outra que agora quedamos fechados em casa, contribuindo, paradoxalmente, para um céu menos poluído e, talvez, um futuro mais equilibrado. Apesar da tormenta dos mercados.

NENHUMA BOA ACÇÃO FICA IMPUNE

(imagens de um mercado chinês ali para os lados da Benedita)


   Dou com esta frase num ensaio de George Steiner: «Nenhuma boa acção fica impune». Trata-se de uma citação de Oscar Wilde, a quem o autor de “A Poesia do Pensamento” chama «astuto diagnosticador». Confrontados com uma pandemia, percebemos melhor quão pertinente é tal astúcia. Não é a primeira das nossas vidas, ao contrário do que por aí se propaga. Aliás, não exagerarei se considerar a desmemória uma pandemia igualmente nefasta. E aliada a esta uma total indiferença para com o mal dos outros, como se não fosse também nosso. Dostoiévski dizia que somos todos culpados de tudo e de todos. Eu não iria tão longe. Não esqueçamos, porém, a descoberta do HIV na década de 80 do século passado. Já neste século, o SARS, a febre suína, o MERS, o ébola.
   Como sou completamente ignorante em matéria de pandemias, procuro informar-me. As contingências a isso obrigam. Podia adoptar uma atitude demagógica e desatar a disparar em todas as direcções, lembrando que em tempos nos servimos de armas como a varíola para limpar o sarampo aos ameríndios. Ou sublinhando como, na actualidade, as pandemias da obesidade e do consumismo desenfreados patrocinam a miséria e a desgraça de milhões de seres humanos espalhados pelo mundo, dos quais os malogrados náufragos do mediterrâneo são pálida amostra. Não o farei, por respeito aos desafortunados.
   À medida que se intensifica a presença do Covid-19 na pele do mundo civilizado, o tal das culturas ditas superiores, vamos ouvindo também cada vez mais insistentemente a expressão “vírus chinês”. É uma mania muito nossa, que vem de tenra idade, esta de apontar aos outros quanto de mau há entre nós, fazendo como Pilatos fez ou, pior, como o racismo e a xenofobia mandam fazer. A igreja pede que confessemos os pecados, que reconheçamos o mal. É precisamente esse reconhecimento o que nos aproxima de Deus, mas os fiéis e crentes e devotos da igreja pouco sabem destas coisas. Ao contrário do que Deus lhes ordenou, passam a vida a acusar os outros, apontam o dedo, seguem o péssimo exemplo de alguns dos seus profetas mais populares (ou deverei dizer populistas?). Irão todos parar ao inferno, se Deus quiser.
   De onde veio, então, a porra do vírus? Não por acaso citarei um estudo de cientistas norte-americanos divulgado por um jornal insuspeito de simpatias esquerdistas, o qual é claro em três conclusões: 1. não se trata de um vírus gerado em laboratório, tipo arma química com a qual os chineses estão a atacar o mundo; 2. ainda que possamos concluir ter origem no contacto de seres humanos com animais, não existem certezas quanto a que tipo de contactos foram esses; 3. a haver um culpado na origem do vírus, esse culpado encontra-se em comportamentos humanos que não estão confinados a uma área geográfica: destruição de habitats naturais, aumento do contacto de seres humanos com animais, grande fluxo de seres humanos a nível global.
   Talvez seja conveniente citar uma das cientistas do tal estudo: «Não é bom transformar uma floresta em agricultura sem entender o impacto que tem no clima, na captura de carbono, no surgimento de doenças e  no risco de inundações (…). Não se pode fazer isto isoladamente sem pensar no efeito que terá nos humanos». Eis algo de que nos devemos lembrar quando voltarmos a discutir a necessidade de proteger as florestas da avidez de madeireiros e de agricultores, se a pandemia da desmemória ou as premonições da CIA e os vaticínios da pitonisa Sylvia Browne não continuarem a afectar-nos o bom senso. 
   Num mundo globalizado é preciso ter em conta, mais do que nunca, que o bater de asas de uma borboleta num determinado local pode causar um tornado na parte oposta do mundo. O que está em causa são comportamentos humanos globais, não exclusivamente locais. Podemos julgar que certos hábitos alimentares potenciam o aparecimento de certas pestes, mas com que moral podemos indignar-nos com os mercados de animais na China sem que nos indignemos igualmente com touradas, corridas de galgos e outros espectáculos de gladiadores modernos que vão do narcotráfico à pornografia infantil, passando por diversos níveis de exploração num mercado de trabalho que cheira a sangue? Que virtudes têm as turbovacas alemãs que os morcegos chineses não têm? O massacre das baleias e das focas nos países nórdicos é menos vicioso que o massacre de ursos na China? Quem sabe, por exemplo, o que se passa com os trabalhadores que no Qatar estão a construir estádios luxuosíssimos para que possamos entreter-nos com mais um mundial de futebol em 2022? Isto interessa-nos, enquanto parte integrante do problema, ou vamos continuar a fingir que não vemos, varrendo mais uma vez para o lado os males do mundo como se não fossem males de todos nós?
   Não, o vírus não é chinês, o vírus não é estrangeiro, assim como a gripe suína detectada no México em 2009 não era mexicana ou a SIDA descoberta nos USA em 1981 não era o vírus americano. É também Steiner quem nos ensina: «A corrupção é o sopro da política, do mercado. O que não está à venda? A procura do lucro saqueia o que ainda resta das nossas florestas, vandaliza oceanos, polui a atmosfera. Nas metrópoles do capitalismo urbano, mas também na misère das favelas, nunca o apelo do dinheiro foi tão descarado». Uma palavra para o ano: açambarcamento.
   O que esta pandemia traz de novo é uma dicotomia alarmante: protegemos vidas ou salvamos a economia? Mais paradoxal, ou até irónico, é estarmos empenhados em proteger, sobretudo, idosos e pessoas débeis e vulneráveis pouco depois de termos discutido a eutanásia. E não é tão estranho que muitos daqueles que mais se opunham/opõem à eutanásia sejam os que mais preocupações manifestam agora com a economia e os mercados? Pois bem, decidam-se: preferem salvar velhinhos ou a economia? Respondam com todas as letras, por favor: velhos ou mercados? 
   As dúvidas dão azo a todo o tipo de teorias conspirativas, sendo frequente a de que tudo não passa de um estratagema chinês para assaltar a economia mundial ou para controlo demográfico interno. Podemos até supor ter-se tratado de uma arma para encafuar manifestantes em casa, atenuando protestos e contestações ao regime. Sairá cara a táctica. A interdependência económica desmente tais teorias. Que vantagem terá uma economia pujante como a chinesa em se debilitar e, sobretudo, dar cabo das economias dos seus principais clientes? Que interesse terá o regime chinês em matar velhinhos para, ao mesmo tempo, se empenhar tremendamente na sua protecção, tratamento, cura? 
   Outra acusação curiosíssima é a de que a China sabia da epidemia desde Novembro e nada disse. Vejamos: já toda a gente sabia o que se passava na China e, pelo mundo ocidental, falava-se de invenção dos media, histeria, medo exagerado. O discurso era de absoluta negação da gravidade do problema, com Boris a sugerir para Inglaterra que toda a gente ficasse infectada de modo a atingir-se a imunidade de grupo, Jair a acusar os jornalistas de manipularem os eleitores com fake news, Trump a garantir que dava conta do recado:


   Face a isto, só faz sentido denunciar um putativo encobrimento das autoridades chinesas se fizermos acompanhar essa denúncia de uma evidência: muito depois de não ser possível encobrir mais (a OMS foi informada a 31 de Dezembro, datando de 17 de Novembro o primeiro caso detectado de um novo coronavírus), muitos daqueles que sabiam do que se estava a passar encolheram os ombros, assobiaram para o lado e disseram que não era nada com eles. A primeira declaração de Donald Trump acerca do tema data de Janeiro, como se pode comprovar no vídeo acima. Registe-se como foi esse "vírus americano" lidando com o assunto.
   Entretanto, o rumo noticioso é outro: China oferece milhões de máscaras e kits de protecção, envia equipas de contenção para Itália (criticando, aliás, a leveza das restrições impostas); Cuba envia para Itália médicos que combateram o ébola; Rússia envia 100 médicos militares especialistas em epidemia e virologia… Deve ser a isto que chamam ofensiva socialista. Fica claro quem tem contribuído para mitigar o problema e quem, com irresponsabilidade, negligência, laxismo e leviandade apenas contribui para o agravar. Mais de 12000 mortos no mundo talvez não sejam um problema. Como diria Bolsonaro, são velhinhos e pessoas com outras doenças. O corona foi o último a chegar.


Nota: As referência a George Steiner provêm do livro Fragmentos (Um Pouco Queimados), tradução de Ana Matoso, Relógio D’Água, Maio de 2016.

domingo, 22 de março de 2020

SPAMDEMIA



Uma pandemia de “mulheres sexy que precisam de sexo” atacou a página de Facebook de Arnaldo. Não confirmava nem eliminava os pedidos, mantinha-os pendentes como quem dá milho às ilusões.
Agora nem que me paguem. — dizia de si para si, carregando no r do advérbio enquanto ruminava um palito encostado ao canto da boa.
Fazia a sua quarentena profiláctica recolhendo-se no WhatsApp, participando em orgias de gifs e swings de dirty emojis.

sábado, 21 de março de 2020

CATASTRÓFICO E LINDO

Diz o Valupi, aqui. E eu não discordo. E também este, como uma referência a Caldas da Rainha. Enquanto tal: Podem parar de romantizar a pandemia?

DIÁRIO DA QUARENTENA #4




O dia amanheceu brumoso, com uma chuva tímida a inspirar sensações de higiene que as páginas dos jornais se encarregam de desmentir. A incúria de alguns líderes mundiais assume contornos de barbárie. O mais provável é virem a passar incólumes por entre os pingos, sem que algum dia sejam julgados pela irresponsabilidade, pela negligência, até pelos gestos mafiosos. Não me eximirei de os acusar, mesmo reconhecendo o efeito anódino das minhas acusações. É uma questão de salubridade mental. No topo da inconsciência encontramos alguém cujo nome se torna difícil de pronunciar sem que fiquemos com uma sensação de imundície na garganta. Insistindo na ideia peregrina de um “vírus Chinês”, Donald ziguezagueia como mosca em torno de um monte de trampa. Tudo podemos esperar deste gangster, desde o negacionismo inicial ao aliciamento de um laboratório farmacêutico alemão, passando pela injecção de teorias conspirativas acerca de putativos ataques à economia norte-americana. Concentro-me na imagem de uma rola que, impávida e serenamente, se mantém quase oculta na ramada de um velho eucalipto. Temos muito a aprender com os animais, mais ainda com aqueles que conseguem escapar aos garrotes da domesticação. Invejo a serenidade da rola pousada no ramo, tento adoptar o mesmo sossego nos meus gestos quotidianos. Não abdico, porém, de pensar naqueles que no terreno se esforçam para garantir uma certa normalidade e nos levam a sentir vergonha da raiva com que censuramos a modorra e o tédio dos dias comuns. Uma distância enorme separa os que mais não têm senão o seu próprio umbigo daqueles que se mantêm ligados ao mundo por um cordão umbilical de partilha e de solidariedade. Não sendo os tempos propícios a clivagens, talvez de algum modo possam favorecer esta ideia: foi num tempo em que nos exigiram distância que mais próximos uns dos outros estivemos.

DIA MUNDIAL DA POESIA E DO SONO E DA FLORESTA E CONTRA A DISCRIMINAÇÃO SOCIAL E DA INFÂNCIA E DA ASTROLOGIA E DO TEATRO E DA SÍNDROME DE DOWN...


Tenho vindo a partilhar outros vídeos aqui, só para matar o tempo. Saúde.

sexta-feira, 20 de março de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA #3



Foi um dia do pai atípico. Telefonei ao meu pela manhã, dei por mim a reconfortá-lo com o mal dos outros. Podia ser pior, se não tivéssemos um SNS que nos acode e um país que só para cegos de espírito pode ser chamado de terceiro-mundista. Calhou-nos agora primeiro, a "nós" que nos autoproclamamos de civilizados e dotados de culturas superiores. Dado a memória ser curta e a vista alcançar ainda menos, esquecemo-nos de que lá por fora o ébola e a cólera são ameaças permanentes. Temo pelos sem-abrigo, sem lar onde se recolherem, pelo viciado, sem carros para arrumar que garantam a dose diária, temo por quem não consiga permanecer em casa sem ver os pés a enterrarem-se num pântano de dívidas. Somos um país de gente a viver à jorna, sem pé-de-meia e solas rotas. Temo por esses para quem o desespero é estar em casa. Nós seremos o persa da vizinha, a saltar de varanda em varanda. Ou o gato malhado do prédio defronte, estirado no umbral da janela a observar os pombos que aterram no parque vazio para depenicarem migalhas. Talvez a idade me tenha incutido um optimismo desmesurado, mas de que me vale não sê-lo nestes tempos em que se torna ainda mais evidente o quão frágeis, débeis e perecíveis somos? Varridas para debaixo do tapete as guerrinhas inúteis, ridicularizadas as vaidades mesquinhas, resta-nos irmos valendo uns aos outros na esperança de que alguém nos valha. Concentro-me na mensagem que a Matilde me deixou no Facebook, na fotografia onde nos abraçamos fortemente com a Nazaré em pano de fundo. Foco-me no desenho que a Beatriz de nós fez, no cuidado que teve a pintar uma moldura velha onde surgimos rejuvenescidos pelo carvão do seu traço. Tento convencer-me de que a vida é simples como um destes gestos permite apurar. Não preciso tentar muito, estou convencido.

quinta-feira, 19 de março de 2020

OMAR



Omar estranhou a ausência de movimento na avenida. Aproximou-se de um quiosque e tentou ler as manchetes dos jornais, apercebendo-se da palavra emergência associada ao grande chefe da nação. O homem do quiosque enxotou-o como a moscas, ordenando-lhe que fosse para casa. Omar abrigou-se na arcada de um prédio, junto à montra de uma loja de móveis encerrada. Felizmente ainda não tinham colocado gradeamentos naquele prédio, pelo que Omar pôde acomodar-se com os olhos postos num quarto exemplarmente decorado. Antes de adormecer, ouviu a alguém que passava,
«Agora que se anda tão bem na rua é que temos de ficar em casa.»

quarta-feira, 18 de março de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA #2

Mantemos os despertadores programados na hora a que é costume levantarmo-nos, conferindo também desse modo alguma normalidade aos dias. Hoje tomei o pequeno-almoço na varanda, a observar os funcionários municipais que aparavam bermas e canteiros. Do lado direito do prédio há um terreno baldio que se conserva verdejante desde que para aqui viemos viver há vinte anos. Lembro-me de nos terem anunciado, à época, a construção de uma igreja nas imediações. Felizmente, nunca abriram os caboucos da malfadada igreja e os eucaliptos puderam crescer numa convivência anárquica com pinheiros e moitas. Algumas pessoas seguem a passo estugado com sacos de compras, vigiadas por bandos de rolas dissimuladas nos troncos das árvores, pombos aparentemente desorientados e o voo ameaçador das gaivotas. As gaivotas têm vindo a invadir paulatinamente a cidade, alguém terá que lhes tratar da saúde mais tarde ou mais cedo. Sou surpreendido por uma criatura arisca a cruzar o parque do bairro. Primeiro parece-me uma ratazana, depois suponho tratar-se de um gato, concluo por fim ser um coelho. Vejo-o esgueirar-se por entre os carros estacionados, para depois desaparecer entre as plantas do único canteiro que por aqui cumpre as funções para as quais foi concebido. É um canteiro de cactos, rosmaninho, fetos e hortênsias, homenagem involuntária à multiculturalidade dispersa pelos prédios do bairro. Quedo um bom quarto de hora a olhar para o canteiro, na esperança de que o coelho salte dentre as plantas e se escape para o terreno baldio do lado direito. Suponho que ficaria mais protegido no matagal que medra aos pés dos eucaliptos e dos pinheiros. Não salta. Cá de cima, na varanda, parecia-me mais pequeno e indefeso do que porventura será. Talvez lá de baixo ele me tenha julgado maior e mais seguro do que na realidade sou. 

terça-feira, 17 de março de 2020

DIÁRIO DA QUARENTENA #1


Saí para comprar tabaco. As lojas do bairro estão todas encerradas, à excepção de dois cafés, da mercearia e do restaurante de kebab. Caldas cumpre o cenário deprimente a que estamos confinados. Entrei na mercearia do bairro e abasteci-me de alho francês e pimentos, polpa de tomate, bananas. O pão estava esgotado. Cruzei-me com uma pessoa conhecida, não nos cumprimentámos. No café onde compro tabaco estavam três clientes em mesas consideravelmente afastadas umas das outras, um deles usava máscara. A empregada tinha luvas. Meti-me no carro para desenferrujar o motor, dei uma volta pelo quarteirão. Na rádio passava “O Primeiro Dia”, do Sérgio Godinho. Deve ter sido a primeira vez que não gostei de ouvir aquele refrão. Isto parece uma cidade fantasma. No E.Lecrec havia fila à entrada, no Pingo Doce também, mais curta. Estacionei e esperei pela minha vez na fila, o segurança esticava as luvas, ajeitava a máscara, borrifava o ar com gestos convictos e aparentemente eficazes. Pareceu-me realizado e com espírito de missão. Ninguém ousou faltar-lhe ao respeito, subiu alguns degraus no seu estatuto de mero segurança de hipermercado. Parecia um daqueles polícias que vemos em séries do tipo CSI. A senhora do pão foi muito simpática, acabei por lhe comprar também brioches e pampilhos. Os melhores pampilhos são os do meu amigo Paulo, que está em Curitiba e vai ser pai pela segunda vez. Que lhe corra tudo bem. Regressei ao carro e devolvi-me ao lar, onde agora estou sentado a escrever enquanto escuto os meus vizinhos ciganos a jogar à malha. Nunca o som daqueles ferros a baterem no chão cimentado me soou tão melódico.

AS ORELHAS DE KARENIN


   Num belíssimo livro (o adjectivo refere-se também ao objecto em si) intitulado “O Que Vemos Quando Lemos”, o designer norte-americano Peter Mendelsund apoia-se em clássicos da literatura universal para ensaiar uma fenomenologia da leitura. O modo como imaginamos as personagens, atribuindo-lhes um corpo físico, um rosto, materializando-as, ainda que elas não passem de abstracções, constrói-se como um puzzle a partir dos elementos sugeridos pelo autor. A questão, como tive oportunidade de referir noutro texto, é: conseguimos gerar na nossa mente elos de proximidade com uma personagem que tornem possível descrevê-la fisicamente? Se pedir a alguém que descreva o aspecto físico de Ana Karenina que resultados obterei? Dois leitores diferentes do romance de Tolstói descreveriam da mesma maneira a personagem por ele concebida? Sucede que uma mesma personagem pode assumir diferentes rostos ao longo de uma narrativa, sucede até que ela possa não ter rosto e se nos apresente como um espectro indefinível. Há uma dimensão monstruosa na literatura que corresponde, precisamente, a esta volubilidade da discrição, já que entre a personagem e a palavra estabelece-se uma relação da mesma natureza daquela que se estabelece entre o objecto físico e a sua sombra. O leitor como que vive no interior da caverna, assistindo a uma procissão de projecções que lhe oferecem um retrato sombrio e monstruoso, no sentido abstracto, da realidade. Interpretar é fazer puzzles, juntar peças, ter a esperança de que elas encaixem umas nas outras para que no final possamos ficar com uma imagem do que foi contado.
   Rita Taborda Duarte (n. 1973) refere-se ao livro de Mendelsund no final do seu livro de poemas “As Orelhas de Karenin seguido de 31 resumos & uma paráfrase” (Abysmo, Setembro de 2019), mas não era sequer necessário chegarmos aí para pensarmos logo em “O Que Vemos Quando Lemos”. A epígrafe pedida de empréstimo a Karenina coloca-nos perante esse desafio maior de toda a literatura, que é o de tentarmos perceber o que sente uma personagem a partir daquilo que nos é dito que ela vê. Para o caso, Karenina vê as orelhas do marido quando desce do comboio em Petersburgo. E o que vê não se resume às cartilagens das orelhas, devendo acrescentar-se ao pormenor o sentimento de que algo mudou no modo como ela olha para o marido. O leitor vê os sentimentos da personagem projectados na forma de ela olhar para o marido. No livro de Rita Taborda Duarte estas transmutações de sentido e de significado operam-se em diferentes campos, dada a complexidade da relação operada entre os poemas e os desenhos de Pedro Proença. O diálogo entre o texto poético e a imagem não tem, neste caso, a simplicidade de um diálogo entre texto e ilustração, pois a relação que aqui encontramos é de um certo distanciamento, não se perdendo nem esgotando em cada um dos domínios uma identidade própria com a sua autonomia intrínseca.
   Acrescente-se, a esta relação entre poema e desenho, aquela que os próprios poemas demonstram, abertamente, com as suas fontes, por assim dizer, ou estímulos, os quais se declaram nos resumos que acompanham cada uma das seis secções do livro: Eucaristia, E Fez-se Cabra, E Fez-se Lume, Orbes, Recolectores, As Orelhas de Karenin. Pode-se resumir um poema como quem resume uma narrativa? Assim parece, embora o tom provocatório do exercício seja assumido. Nessas fontes de escrita encontramos vários autores, entre os quais se destaca Herberto Helder, mas também vozes comuns, quotidianas, misturadas com clássicos da literatura, figuras mitológicas, bíblicas e até um diálogo proveniente de um western de Sergio Leone. O rol de referências é de vasto alcance, de algum modo reorganizado, ou pelo menos sintetizado, no poema-paráfrase final que foi erigido a partir de todos os poemas precedentes.
   A própria organização deste livro respeita, assim, um lado lúdico e experimental que, em termos temáticos, não deixa de surpreender pelo lastro de reflexões que vão deixando acerca da própria natureza do poema. Devemos, não obstante, esclarecer que parte do conteúdo deste livro surge de uma recolha de textos disseminados por publicações anteriores, o que de algum modo contribui para a dispersão temática de “As Orelhas de Karenin”. Não julgo que isso afecte a consistência de um livro que vive, precisamente, do modo como procura encontrar unidade nos fragmentos espalhados sobre o tampo da mesa. Livro-puzzle, se assim podemos dizer, ou jogo de xadrez, como a certa altura se sugere num dos poemas:

RECOLHER 6

Bem vês,
o mundo é este tabuleiro de xadrez
e calhou-me ser rei preto
entre rainhas brancas e peões.

Não é que me preferisse rainha:
bastar-me-ia
a sorte modesta de um peão bastardo
errando adiante
não sabendo sequer como voltar atrás.
Nunca me quis  este rei preto e acossado
avançando fugidio e recuando.

Deus não joga xadrez,
aborrecem-no os ardis de me armadilhar
com roques, xeques e emboscadas;
prefere jogar aos dardos nos momentos
mortos da eternidade.

Legou o xadrez aos homens e
fê-los todos rainhas, muito poucos peões.

À mulher preferiu-a
frígida e aflita, mulher-rei-preto em casa branca
refém no seu passo ínfimo de cabra,
pequeníssimo mundo entre quadrados
ilha de liberdade a toda a volta:
oito poisos armadilhados
em redor.


Rita Taborda Duarte, in As Orelhas de Karenin, com desenhos de Pedro Proença, Abysmo, Setembro de 2019, p. 106.

segunda-feira, 16 de março de 2020

PERSONAGENS


Nos filmes catástrofe, e não só, há sempre aquela personagem contraproducente que se julga mais esperto do que os restantes, passa a vida a dizer mal e não contribui positivamente para absolutamente nada. É uma personagem triste e amedrontada, fecha-se num pânico interior que sobressai em gestos esbaforidos, frases precipitadas, julgamentos apressados. Fico sempre na ânsia, quando vejo esses filmes, que o herói pare por um segundo para dedicar à tal personagem a atenção que merece, com um par de bofetadas na tromba até que se cale de uma vez por todas.

OS MEUS OLHOS QUE VÊEM E O MEU BRAÇO QUE SE MOVE

   Eu tenho olhos e vejo, cúmplice de Arnhem.
   Os meus pés servem para tocar o chão.
   O meu braço obedece docilmente às minhas ordens. É isto um motivo de surpresa? Nunca o apanhei em falta.
   Tudo me responde. E ninguém compreende que é a este absoluto e infalível controlo sobre mim mesma que eu chamo a minha prisão, a minha cadeia de ferro.
   Frente à janela, uma vez enxaguados os olhos e a fronte, encaro o mundo, reconheço pela enésima vez que nada daquilo que depende de um movimento voluntário da minha parte me está vedado, e que isso cobre quase tudo. E é isso que me desencoraja. Como é asfixiante, não depender senão de mim! Os pronomes na primeira pessoa sucedem-se como missangas de um colar, e cada um deles golpeia-me na nuca e faz-me suar entre os dedos.
   Quanto basta para paralisar um homem.
   Como se só a abdicação fosse moralmente viável, e contudo o pé esquerdo ainda cede ao impulso de se colocar à frente do pé direito.
   A esta época associarei mais tarde a muito nítida consciência do gesto e do olhar como entidades separadas, mas também aguerridamente solidárias.
   Os meus olhos que vêem e o meu braço que se move. Pode-se, afinal, fazer alguma coisa a partir disto?

Alexandre Andrade, in Cinco Contos Sobre Fracasso e Sucesso, Má Criação, 2005, pp. 32-33.

domingo, 15 de março de 2020

12. TRANSIGÊNCIA


   A soberana virtude de transigir incrementa o fugir de mui nobres ideais. Dos outros e, por malvadez da incógnita, também do próprio transigente.
   O Joãozinho, por exemplo, era um novelista prometedor.  Para atingir rapidamente a celebridade, o Joãozinho aprendeu a transigência sistemática. O Joãozinho era esperto e português.
   Um dia o editor disse-lhe: 
   — Joãozinho, serás um génio se respeitares os eclesiásticos.
   O Joãozinho escreveu páginas repletas de respeito pelos eclesiásticos.
   — Joãozinho, isto não chega! Serás um génio se respeitares os militares.
   O Joãozinho fez ombro-caneta e ritmou a prosa a roque de caixa.
   — Joãozinho, os tempos mudaram! Serás um génio se respeitares o eurocomunismo.
   O Joãozinho mergulho na bacia do Mediterrâneo e emergiu com algumas ânforas estilísticas atracadas ao membro.
   — Agora, Joãozinho, cala a tua concubina.
   A concubina do Joãozinho tinha a memória cheia de trapaças políticas.
   — Como posso eu calar uma mulher? — perguntou o Joãozinho, transpirando.
   — Joãozinho, promove-a a escritora. Enquanto ela escrever, não fala.
   Assim se fez. De tanto puxar pela cabeça, a concubina do Joãozinho perdeu a memória. O Joãozinho, contentíssimo, foi nomeado secretário de Estado do ferro velho.
   — Joãozinho — disse o Grande Chefe —, vais transigir mais uma vez. Isto é, cala-te!
   — Mas, Excelência, eu sou um escritor...
   — Eras! — rugiu a Excelência — Eu também fui um homem e agora sou apenas um porco. Todos temos de nos sacrificar pelo nosso povo.
   — Mas os comunistas, Excelência, podem falar. Os fascistas, Excelência, podem falar. A anarquia, Excelência, não pára de gritar. A ditadura, Excelência, não pára de ameaçar...
   — Por isso mesmo, Joãozinho, tu tens de estar calado. O teu silêncio garante a promoção intelectual da tua concubina, percebes? Ou te calas, ou ficas sem concubina!
   O Joãozinho sofria de paixão serôdia. Ela tinha vinte e cinco e o Joãozinho cinquenta, embora aparentasse sessenta e nove.
   — Ainda não percebeste, Joãozinho — disse afavelmente a Excelência —, que és um óptimo tubo de ensaio? Não, não é isso que pensas... Não te invejo o tubo; tenho mais grossos entre os meus correligionários.
   O Joãozinho deu em andar de maus fígados. Escritor recalcado, a palavra «tubo» rasgava-lhe a consciência artística. Mas cultivava, inabalável, a transigência.
   Quando se descobriu tubo sem necessidade de mais ensaios, começou a entreter-se com a digestão. Comia um bocado de carne congelada e sentenciava: «Está no primeiro domínio: o do esófago». Logo a seguir: «Já vai no estômago». Uma hora depois: «Está nas esferas salutares do intestino delgado». E quando ia à retrete: «Ei-lo chegado aos infernos do intestino grosso».
   Um dia, por decisão política da Excelência, paralisou-se-lhe a digestão. Teve de apanhar um clister.
   Mas, como à porta do ânus desfilava nesse instante uma grandiosa manifestação de apoio ao governo, o clister, para sair, procurou o outro lado do tubo em que se transformara a transigência do Joãozinho.
   Morreu de merda na boca, como Cambronne.


José Martins Garcia, in Receitas para Fritar a Humanidade, Companhia das Ilhas, Novembro de 2019, pp. 41-43.

sábado, 14 de março de 2020

PERDIGOTOS


Dizer mal, dizer mal, dizer mal, só sabem dizer mal. Quem mais perdigotos cospe é quem "mais mal" faz. Há dias queriam acabar com o SNS, tudo privado e entregue a seguradoras, uma questão de... as pessoas poderem escolher, a liberdade, o mercado a funcionar. Agora queixam-se de SNS a menos. Há dias era tudo uma invenção da imprensa e dos comunistas chineses e do clube não sei das quantas, agora exigem o fecho das fronteiras. Acabei de ouvir um expert no supermercado: "A nossa sorte são os espanhóis, que estão à rasca e vão fechar as fronteiras. Depois não passa ninguém para cá. O nosso governo não faz nada." Dizer mal, só sabem dizer mal, são sábios, inteligentes, omniscientes e fartam-se de cuspir perdigotos em todas as direcções. Será que lavam as mãos?

sexta-feira, 13 de março de 2020

UM POEMA DE JOÃO PAULO COTRIM

não encontro 
melhor elogio
da sólida solidão
do que esse teu
dedo médio
despido de anéis
antena em busca
da interrogação
perdida algures
no cerne

se a navalha desaparece
é para te encontrar
nos meus olhos

João Paulo Cotrim, in Navalha no Olho, Nova Mymosa, Fevereiro de 2020, p. 27.

quinta-feira, 12 de março de 2020

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #27


Viagens suspensas, salas vazias, aeroportos às moscas, escolas encerradas, espectáculos cancelados… O mundo parece ter parado, ficando a pairar na atmosfera um aroma apocalíptico que já nada tem que ver com o cheiro a napalm pela manhã. Convenhamos que em trânsito isto tem tudo mais piada, mesmo quando não tem piada alguma. Pedem-nos que fiquemos em casa, que evitemos ajuntamentos, que saiamos apenas para o essencial. Nem toda a gente estará em condições de cumprir, mas que todos metam na cabeça o dever de cumprir talvez ajude a mitigar a disseminação da ameaça. Um vírus, vejam bem, um ente microscópico, instalou-se entre nós para nos lembrar quão frágeis somos e quão ténue é a fronteira que separa a loucura da normalidade. No púlpito da sua sapiência há quem desvalorize, há quem menospreze, há quem negligencie. Os números não mentem: 4900 mortos, 136.000 infectados. Números claramente desactualizados, tal é a velocidade a que o bicho se movimenta, e provavelmente desinflacionados, tal é o secretismo erguido nalgumas nações em torno do problema. Fotografias aéreas dão conta de valas no Irão que nos fazem pressupor uma tragédia maior do que a publicada e conhecida. Por esta altura, minhas filhas, tereis ouvido falar de “A Peste”, de Albert Camus, e do Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, por ter a curiosidade virulenta dos leitores incrementado as vendas de tais obras. Language is a virus, cantava a Laurie Anderson citando William S. Burroughs. Tal é a curiosidade mórbida das pessoas a quem não basta uma realidade com sabor a ficção. Daí que, por estes dias, seja de outras histórias e de outro autor que eu mais me tenho lembrado. Franz Kafka  (1883-1924) precisou de meros 40 anos de vida para nos deixar uma obra eterna, maior do que à época da sua morte era possível julgar tão à frente do seu tempo se colocou, como é atributo dos génios. Vítima de tuberculose, Kafka é, também por esse dado biográfico fortuito, o autor onde melhor encontramos pressentidas e conjecturadas todas as pestes humanas, não só as de tipo exógeno, que involuntariamente nos ameaçam sem que consigamos entender porquê, mas também as pestes endógenas, geradas no imo da mente humana e propagadas com um poder de contaminação altamente autodestrutivo. Entre estas, podíamos mencionar, desde logo, a burocracia, embora nos convenha mais falar agora de outra: o medo. Não há mal algum, minhas filhas, em ter medo. Ele tem uma função defensiva que apela a coisas úteis tais como a reflexão, a ponderação e o cuidado. Mas como tantas outras coisas no ser humano, o excesso despeja de qualidades o medo, o excesso retira-lhe as virtudes transformando-o numa ameaçadora pandemia. Pelo medo se governam nações e manipulam povos, pelo medo se impõem comportamentos e usurpam liberdades, pelo medo se molda a realidade de acordo com as conveniências de quem domine o medo como a uma arma fatal. Num conto intitulado “O Covil”, Kafka mostra-nos a outra face perniciosa do medo. Quando o medo evolui para o pânico, pouco faltará para que se transforme em paranóia. E nesta nada vislumbramos de benéfico ou útil à humanidade. Nesse conto, uma criatura indefinida como somos, de certo modo, todos nós, imerge na terra escavando o seu covil , entregando-se obsessivamente a cálculos e prolepses cujo efeito é exactamente o contrário daquele que inicialmente pretendia. A tranquilidade do covil torna-se inquietação, toldada por sobressaltos de medo onde o desejo de um sono descansado degenera em insónia permanente. As preocupações desmesuradas, o alarme, o desassossego, fazem do covil o princípio de uma misantropia que escancara portas à loucura. Diz-nos Kafka: «Eis o que revela um espírito inquieto: insegurança na apreciação própria, ambições pouco limpas, traços negros de carácter, que ainda mais se ensombram se pensarmos que o covil ali está e que nos pode dar paz, desde que consintamos em abrir-nos totalmente a ele». Sucede que nenhuma paranóia leva à paz, ela apenas nos afunda no leito convalescente de uma guerra onde seremos a primeira e a última das vítimas. Em momentos como aquele que estamos a viver, apetece dar razão à tese de Aristóteles segundo a qual é no meio que se encontra a virtude. Se a negligência dos grunhos, burgessos e trogloditas, alguns deles com altas patentes, é absolutamente imprudente e desaconselhável, também a paranóia colectiva o é. Sem que desprezemos o ruído, convém não nos deixarmos apanhar na sua rede. A angústia é tão natural nas nossas vidas como o ar de que precisamos para sobreviver, mas poluída pelo pânico torna-se irrespirável, sufocante, asfixiante. Começar por controlar o medo, por aprender a retirar partido dele, parece-me ser, neste momento, a atitude mais sensata. Como se faz? Ora, minhas queridas, lavando as mãos, mantendo distância, evitando multidões, saindo de casa só para o essencial. 

quarta-feira, 11 de março de 2020

TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO


Têm surgido inúmeras teorias da conspiração, todas muito sóbrias e altamente prováveis, com um grau de fundamento e cientificidade que nos inspira esperança quanto aos níveis de racionalidade e bom senso distribuídos pelo mundo. Já aqui me referi a uma, segundo a qual o vírus tinha sido gerado pelos chineses para domínio do mundo. Os chineses têm muito a ganhar com o vírus, está visto. A economia chinesa estava pelas ruas da amargura, com este vírus vai ter um hipe priápico sem precedentes. Outra teoria diz que isto é tudo para dizimar velhinhos, o que faz muito sentido tendo em conta a vulnerabilidade dos mesmos. Só não percebo é por que se gastam tantos milhões a tentar salvá-los, quer com medidas altamente lesivas da economia, quer com o reforço dos sistemas de saúde onde eles são tratados até não dar mais. Há casos de recuperação, mas eu ficaria alerta. Aos velhinhos recuperados deixo esta mensagem: não saiam de casa, ainda acabam electrocutados por um drone. Outras teorias são menos proficientes, como aquelas que se ficam pelos vaticínios e pelas previsões de médiuns e pitonisas. Há delas para todos os gostos, embora nenhuma seja especialmente útil ou eficaz. Afinal, de que me vale saber que o mundo vai acabar ou que alguém previu que ele seria atacado por uma peste no ano corrente? Em que tais teorias contribuem para o bem estar das pessoas, não entendo. Mas se as fizer ficar em casa mais consoladinhas e esperançosas, por saberem que há anos tudo quanto estão a viver era previsível, pois então que se mantenham em casa consoladas e esperançosas com o fim do mundo. O Livro do Apocalipse é leitura sempre muito esclarecedora. Não obstante, eu próprio tenho a minha teoria da conspiração. Estarão lembrados do Senhor do Adeus. Tinha um nome: João Manuel Serra. Sobre ele se escreveram livros. O que nunca ninguém se deu ao trabalho de fazer foi uma exegese wittgensteiniana que decifrasse a razão de ser daquele gesto: cumprimento ou despedida? Pois bem, eu fiz esse trabalho. Depois de ler tudo quanto há para ler sobre o Senhor do Adeus, depois de observar atentamente os seus gestos, concluí que o Senhor do Adeus era um alienígena que desceu à Terra para nos deixar um aviso. Nem cumprimento nem despedida, mas sim um aviso: preparem-se, o fim do mundo está próximo. Ninguém lhe deu ouvidos, ninguém se preparou, agora aguentem-se. Penso nisto enquanto vejo ali na varanda três pardais telhado a lutarem desenfreadamente por um grão de arroz. É um sinal. Entre aqueles pardais telhado e os seres humanos que se digladiam nos hipermercados por pacotes de papel higiénico não há diferença alguma. A que havia perdeu-se com a eliminação de bidés nas casas de banho. Se ainda lavássemos o cu, não estaríamos tão preocupados com papel para o manter limpo. Lá em baixo, Quitéria anda pelas ruas a dizer às pessoas para se fecharem em casa. É um gesto simples, ponderado e sábio. Acho que devíamos todos fazer o mesmo, devíamos todos sair para a rua a mandar as pessoas para casa. Vou implementar agora mesmo esta medida. A todas as pessoas que se cruzarem comigo no percurso para a tabacaria direi: vá para casa, é onde se está melhor quando o mundo acaba. Não me levem a mal que não vos cumprimente.

terça-feira, 10 de março de 2020

NO PAVILHÃO DO CHÁ


Num vaso, precioso, uma peónia.
   Em trajes de cer'mónia
Alguns velhos, letrados, reunidos,
   Conversando entretidos.
   A perfumar o ambiente,
Sobre pequenas mesas de charão,
Em taças, de Cantão,
Folhas de chá abrindo lentamente...


Maria Anna Acciaioli Tamagnini (n. 1900 - m. 1933). Natural de Torres Vedras, foi casada com o governador de Macau Artur Tamagnini Barbosa. «É autora de uma só obra publicada em vida, Lin-Tchi-Fa (1925), que vários apontam como o primeiro livro de poemas de temática extremo-oriental escrito por uma mulher portuguesa. Ele é, na verdade, uma contínua exotização de uma China antiga, contando assim como uma manifestação intensa desse tipo de investimento estético. Há por vezes, neste âmbito, um registo que é puramente decorativo, em si mesmo interessante, como ressalta no poema em amostra» (Duarte Drumond Braga, in Nau-Sombra - Os Orientes da Poesia Portuguesa do Século XX, com Catarina Nunes de Almeida, Nova Vega, 2013, pp. 83-85). 

segunda-feira, 9 de março de 2020

MAX VON SYDOW (1929-2020)



Percorremos no IMDB a filmografia do actor sueco Max von Sydow e ficamos estupefactos com a quantidade de filmes que nos são familiares, de cineastas de vários países e em estilos diversos. O destaque vai para os trabalhos com Ingmar Bergman: foi Antonius Block, o cavaleiro que jogava xadrez com a morte em O Sétimo Selo (1957); aparece ainda em Morangos Silvestres (1957), A Fonte da Virgem (1960), Luz de Inverno (1963). Em 1965, George Stevens escolheu-o para o papel de Jesus em A Maior História de Todos os Tempos (1965). Tornou-se um dos rostos icónicos do filme de terror com o papel de Padre Merrin, em O Exorcista (1973). Fez de nazi no curioso Fuga Para a Vitória (1981), filme de John Huston que contava com Pelé no elenco. Surge ainda em vários filmes de aventuras, adaptações de heróis de histórias aos quadradinhos, filmes de ficção científica. Neste domínio, Duna (1984), de David Lynch, é talvez o melhor filme em que participou, ainda que num papel secundário. Foi o narrador de Europa (1991), do polémico Lars von Trier.  Estará, para sempre, na História do Cinema.

domingo, 8 de março de 2020

ELAS (em construção)


Recupero este post, iniciado vai para cinco anos. Continuará em construção. São vozes femininas da poesia portuguesa do século XX. Os nomes estão a vermelho para sinalizarem links. É só clicar. 


Fernanda de Castro (1900-1994), Maria Anna Acciaioli Tamagnini (1900-1933), Maria da Graça Freire (1911-1993), Merícia de Lemos (1913-1996?), Leonor de Almeida (1909-1983), Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), Natália Correia (1923-1993), Maria Amélia Neto (1928), Ana Hatherly (1929-2015), Isabel Meyrelles (1929), Eduarda Chiote (1930), Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007), Maria Teresa Horta (1937), Luiza Neto Jorge (1939-1989), Fátima Maldonado (1941), Inês Lourenço (1942), Hélia Correia (1949), R. Lino (1952), Ana Luísa Amaral (1956), Rosa Maria Martelo (1957), Isabel de Sá (1951), Adília Lopes (1960), Sandra Costa (1971), Margarida Vale de Gato (1973), Ana Horta (1975), Catarina Santiago Costa (1975), Sandra Andrade (1976), Marta Chaves (1978), Raquel Nobre Guerra (1979), Filipa Leal (1979), Inês Fonseca Santos (1979), Rute Mota (1980), Cláudia R. Sampaio (1981), Matilde Campilho (1982), Catarina Nunes de Almeida (1982), Ana Salomé (1982), Elisabete Marques (1982), Madalena de Castro Campos (1984), Beatriz Hierro Lopes (1985), Catarina Costa (1985), Tatiana Faia (1986), Francisca Camelo (1990)...