
O tema da doença não é
novidade na poesia de Rui Baião (n. 1953), poeta que encetou um percurso singular
com “Quiasma” (frenesi, 1982) para lhe dar continuidade ao longo de praticamente
quatro décadas através de livros onde é óbvia a demarcação de um território feito
de rupturas com a tradição e, sobretudo, de absoluto distanciamento das
convenções que impõem o chamado cânone. A propósito de “Antro” (Averno, Outubro
de 2017), apontei uma linguagem estilhaçada que transforma o poema numa ferida
aberta. É, quanto a mim, uma das características essenciais da sua poesia, a
qual coloca dificuldades de leitura a quem espere do poema uma narratividade
apoiada em estruturas sintácticas cumpridoras das regras gramaticais. -Informalismo não é, no
entanto, sinónimo de ausência de forma. “paciente zero” (Barco Bêbado, Junho de
2020) dá-nos bom exemplo disto mesmo, ao depararmos com dois conjuntos de
poemas distintos na forma mas igualmente informais. No primeiro conjunto, à
excepção de um, todos os poemas têm 13 versos. São poemas de uma única estrofe,
sem título. Se a repetição justifica falar de um padrão, não me parece isto tão
relevante quanto possa ser a excepção que rompe com o padrão. É este gesto de
romper, despedaçar, quebrar, aquilo que mais importa sublinhar nos livros de
Rui Baião, até pela relevância que tal gesto possa ter no tempo e no espaço em
que esta poesia se inscreve. E isto leva-nos a falar de uma comunidade uniformizada,
subserviente a padrões, espartilhos que procuram controlar na mesma
medida em que sufocam, impedindo que o poema se cumpra na natureza livre que
lhe é inerente. A actualidade presta-se a tais
considerações, se atentarmos no complexo semântico que os poemas vão
disseminando: tosse, erre zero, achate a curva, na linha da frente, asfixia,
viseira, hydroxychloroquine, isolamento forçado, febril, pangolim, etc. São
palavras e expressões de um léxico subitamente vulgarizado, num período
histórico em que vemos «drones por todo o lado» (p. 14) porque «vírus plurais
somos todos» (p. 12).
A terminologia bélica associada à pandemia leva o médico
que há no poeta ou o poeta que há no médico a perguntar: «recrutado eu, queres
o quê?» (p. 12) Não está por cima do acontecimento, está dentro do
acontecimento. Estes poemas surgem dessa experiência limite de estar no
interior do olho do furacão, resultando o poema do trabalho daquele que
percorre a área afectada pela passagem da tempestade e vai recolhendo destroços
para com eles construir um puzzle onde se torne visível o cenário de ruínas. No segundo conjunto, um par de
parênteses rectos (ou colchetes, se preferirem) toma conta da forma do poema,
como que confinando a linguagem, submetendo-a às normas apertadas de isolamento
e de restrições à liberdade que o vírus ofereceu como pretexto para políticas
repressivas (estado de emergência, estado de calamidade). O léxico mantém-se
fiel à actualidade: algoritmo, álcool gel, surto pandémico, rastrear, quarentena,
adoptando por vezes configurações irónicas, como quando se refere à «máscara
litúrgica, / os saltimbancos da fé» ou a «uns panos serológicos / ao pescoço»
(p. 35). Mas neste segundo conjunto há um retrato ferido de raiva que tinge
emocionalmente o todo, o qual nos pareceria demasiado frio e distante não fosse
a explosão final:
[…inúteis, os íntegros
inimigos
do templo… onde circunspecta,
a capela das boas ocasiões…
có-
cegas, resiliência e
ambulâncias…
não matarás… sempre a mesma
estrumeira… oceanos férteis
dan-
ças, como no forno das sezões…
desvario até às tantas da
manhã,
filas intermináveis d’infectados…
refugiados, não consentidos…:
apoteose tardia… ao ombro, um
molusco de cuspo… mede forças
com a voracidade… da pressa
presa… sem nunca deixar de
morrer nos livros, é-se famoso
e
estranho… por iniciativa pró-
pria,… outros, por atalhos
diver-
gentes… cantam, enquanto cami-
nham… equivalentes a severas
evidências, as tardes sem
aulas…
avenidas repletas, se não t’apro-
ximares demasiado…]
Ouço falar, porventura
apressadamente, de uma literatura da pandemia. Talvez fosse avisado pesquisar o
que saiu da chamada gripe espanhola, pandemia que há precisamente um século fez
o que colectivamente parece ter sido sujeito a um processo de recalcamento que
seria inteligente não voltar a se repetir — por prevenção e, já agora, por
revolução, isto se estivermos interessados em dar continuidade à vida. É que
uma mudança geral de comportamentos, de baixo para cima e de cima para baixo, é
indispensável como garantia de sustento. Isto parece-me indiscutível. Se os
governos continuarem a devastar com os olhos postos apenas no lucro económico,
se os cidadãos continuarem a consumir com os olhos postos exclusivamente no
luxo, bem que podemos colar para sempre a máscara às orelhas e deixar de dar
abraços e beijinhos aos nossos filhos. Um livro de poemas pouco mais pode do
que retratar e expressar o sentimento de quem retrata sobre o que é retratado,
abrindo caminho à reflexão livre, enriquecendo o debate, iluminando o
pensamento com liberdade. “paciente zero” é um título deveras invejável para
este tempo, preserva o mistério sobre a origem da peste sem se furtar à denúncia
da besta. Querem uma “literatura da pandemia”? Aí a têm.