domingo, 30 de agosto de 2020

HIPOCRISIA

Detesto hipocrisia. A hipocrisia é o vício mais corrosivo das sociedades modernas. As pessoas queixam-se do cinismo, umas sem saberem do que estão a falar, outras por desgraçadamente desprezarem o sentido de humor dos cínicos. O pior de tudo é a hipocrisia. É o democrata que actua como tirano, cerceando a contradição e impedindo o debate crítico. É aquele que se diz comunista e se comporta como um fascista. É o liberal que actua como um conservador moralista. É o moralista sem moral alguma, porque arrivista e egocêntrico e chico-esperto. É o social-democrata que se confunde com o socialista na esmola que dá ao pobre para se isentar dos crimes que comete e do egoísmo que o motiva. É a ausência de coluna vertebral, uma sociedade de invertebrados sem palavra em que se confie ou acções que possam inspirar.

sábado, 29 de agosto de 2020

UM DIA


 

Um dia não escreverei mais. Um dia não escreverei mais esta palavra mais. Um dia não escreverei mais este texto. Porque um dia não escreverei. O que já está escrito. Nem mais nem menos,. Porque este porque não pertence a este jogo. Um dia não escreverei ainda mais este poema.

Agora chega uma palavra que não é mais esta que escrevo. Porque a palavra esta não é esta nem um dia é o dia em que sequer escreverei alguma coisa mais. Alguma coisa é que é semelhante a algures.

Muda-se a semelhança muda-se o disfarce muda-se o espaço no espaço de uma só folha de papel. Escrevo. Já não escrevo agora o que comecei a escrever aqui algures. Porque não se escreve duas vezes a mesma coisa e muito (muito) menos a mesma palavra (palavra) porque. Já não há causa (coisa) alguma que motive algures o que alguma vez foi/é sentido durante a escrita da mesma (mesma) palavra.

Escrevo esta palavra para que se veja outra palavra. Assim porque é diferente o sentido (sentimento) é diferente o sentimento (sentido). Isto porque a razão não se aprisiona nem (nem) numa metáfora é liberta. E muito menos eu sei o que escrevo quanto mais porque. 

E no entanto prossigo (persigo) na expectativa de saber porque. Porque não é antes (mas) depois que o texto é. A maior densidade liquefaz-se como ainda contida dentro da caneta. Há uma subtil esperança em tudo o que aí se contém. Que isto já esteja escrito incluindo a dúvida de que já esteja escrito. A originalidade impregna-se do desprezo do emprego da razão que está obviamente longe (longe) do sentido apolíneo do polo oposto escrito com as mesmas letras que estão dentro líquidas do corpo da caneta. Isto é um anacronismo porque as canetas já não escrevem nem já (já) nem antes (nem) alguma vez escreveram tal como nas rochas paleo-neo-líticas duras demais escuras de mais para uma tinta preta. Para uma tinta branca que agora se espalha nas teclas informáticas e os electrões viajam.

Um ponto final ficaria aqui bem. Ponto porque final. Final porque se recomeça sempre a despalavra e os extremos nunca se trocam mas os meios confundem-se pelos pontos.

Um dia não escreverei mais. Um dia mais e não escreverei. Porque hoje é um dia que se transfere para um outro dia. Um lugar que se adia para outro ódio. Uma hora liberta para outra fuga. Um centímetro extenso de galáxias expansivas. Um infinitamente pequeno de sentimentos perfeitamente claros e inexplicáveis. Um dia não escreverei mais esta palavra mais. Nem esta palavra menos. Nem menos esta palavra nem. Um dia nem. (Nem este texto faz parte deste texto). Nem.


E. M. de Melo e Castro (n. 1932 - m. 2020), in Entre o Rigor e o Excesso: Um Osso, Afrontamento, 1994, pp. 81-82. «E. M. de Melo e Castro é um dos nomes mais interventivos do Experimentalismo português. Desde o início da década de 60, tem apresentado uma intensa e representativa actividade, quer no âmbito da criação poética, quer no campo da reflexão teórica sobre a poesia experimental, tendo sido, no início, o seu principal teorizador. Em 1962, a publicação de Ideogramas constitui um marco: trata-se do primeiro livro de poesia escrito em Portugal de acordo com os princípios programáticos do Concretismo. São patentes, num primeiro momento, as ligações de Melo e Castro aos concretistas brasileiros (grupo de Noigandres), mas a obra deste autor vai delineando um percurso singular que dialoga com referências intertextuais de outras latitudes. E. M. de Melo e Castro tem desempenhado um papel decisivo no que diz respeito à divulgação no estrangeiro da poesia experimental portuguesa» (Carlos Mendes de Sousa e Eunice Ribeiro, in Antologia da Poesia Experimental Portuguesa, Angelus Novus, 2004). «Com Maria Alberta Menéres organizou, actualizada em 1961, em 1971 e em 1979, a mais informativa Antologia da (então) Novíssima Poesia Portuguesa, tem uma já considerável bibliografia de textos originais, entre eles: Entre o Som e o Sul, 1960; Mundo Mudando, Ideogramas, 1962; Concepto Incerto, poesia visual, 1977; Autologia - Poemas Escolhidos - (1958-1978), 1983. Reunião de 40 anos de obra: Trans(a)parências, 1990» (A. J. Saraiva e Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). 

ACORDAR?

 Duas percepções deprimentes da actualidade: a jornalista bêbada e a cidadã histérica.

 

Primeira: odeio a CMTV, um canal que tem tudo para ser objecto de repúdio. Não a jornalista alcoolizada. Se alguma coisa há que deva ser criticado nas imagens que por aí circulam, é a pulhice dos colegas de trabalho que as meteram a circular. Há muitas razões para uma pessoa beber, poucas para trabalhar alcoolizado. O que vejo naquelas imagens é doença. Não gozo com a doença.

 

Segunda: detesto Marcelo Rebelo de Sousa, ainda que depois de Cavaco o julgue um anjo na Terra. A abordagem que lhe foi feita na rua, por uma cidadã revoltada de telemóvel erguido, porventura transmitindo em directo ou gravando a actuação (com que intenções?), é o espectáculo da demagogia. Aquele telemóvel é uma arma, aquela interpelação não pode ser respondida naquelas circunstâncias. Marcelo hesitou, sabendo que sairia sempre a perder, apesar de a cidadã em causa demonstrar não entender ou não querer saber das regras que determinam o jogo democrático. Se soubesse, não perguntaria a Marcelo por que não demite o Governo? Não diria sequer que é ele quem mais manda, pois não é. Quem manda mais é a Assembleia da República, onde é suposto o povo estar representado em função de resultados eleitorais. A última pergunta que é feita a Marcelo, deixando-o sem palavras, também é muito popular entre as gentes: quer trocar comigo? Imaginemos que Marcelo dizia que sim. Para simplificar, imaginemos que a pergunta era feita a Cristiano Ronaldo e não ao presidente. No fundo, o que estava em causa era a discrepância de rendimentos auferidos pelo Presidente e pela Cidadã. Imaginemos então que Cristiano aceitava trocar de lugar com a Cidadã. Quem gostaria de ver esta a jogar à bola?

 

Se é a esta demagogia que chamam "acordar", bem podem os portugueses ficar preocupados. Não tarda estaremos como o Brasil.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

SCALINATELLA



 

8.
 
Desfez-se a coroa de geleia que rodeava
a cidade. Aqui nasci entre fuligens
e gente escrupulosamente perdida,
blues sangrado numa harmónica afiada,
e a minha boca não mais
beijou a pureza.
Alteraram-se-me os ossos quando vi
essa grande nuvem, funesto cavalo marinho,
abater-se sobre o porto incompetente,
sobre os estendais ataviados de suor,
sobre a fotografia da minha
família estafada.
Agora não havia história, era eu e o mar
misturado aos humores do céu,
novamente o blues e o seu esgar de nojo,
a sua esmola de amor.
Nunca pensei em estudar nada que me fosse útil.
Para isso haverá revólveres e pneus,
e nenhuma coisa que a essas se assemelhe
me poderia curar do que tenho.
Algodões infectos, balões de soro que flutuavam
pelos tectos fugidios e encardidos,
o meu médico soube de imediato que eu haveria
de levar outra vida: era o blues.
Quando me suceder parar a meio da praça,
onde já o subterrâneo freme nos carris de outra poesia,
penso na serena convulsão das cidades,
desmontando-se e montando-se como os dentes
de um louco que a minha insónia me oferece,
tantas vezes empoleirado no tamborete azul
onde a minha cozinha encontra repouso.
E o meu bairro é uma cadência dos campos de algodão,
esses sim puros, ternamente mastigados
pelo sol da existência,
e sempre um comboio bolçando enormes chifres
de carvão, para que no firmamento se escreva
a minha (?) luta intestina.
A morte vencerá, é claro, exceptuando talvez
se lhe adiantarmos tudo: celofanes, selos timbrados,
vasos de flores, cada porta
do nosso ódio.
A coroa de geleia escorre crepuscular,
partiu um táxi provavelmente destinado ao coração
do desemparo, raparigas saltitam pelo elástico
do meu silêncio, e eu, que tenho estado quieto,
acendo-me de relâmpagos, como a boca do vulcão,
e esfrangalho o ar com o meu
blues meridional.
 
 
Vasco Gato ( n. 1978), in Napule (2011). Em 2016 reuniu num só volume, intitulado “Contra Mim Falo” (Imprensa Nacional-Casa da Moeda), toda a sua produção poética desde “Um Mover de Mão” (2000). Alterações ligeiras em alguns poemas demovem-nos de considerar ter havido nesse volume uma intenção de reorganizar, sendo mais exacto falar de um ligeiro apuramento que não alterou significativamente as características iniciais de cada um dos títulos coligidos (12 ao todo). A busca inicial de uma linguagem pura começa por aproximar da Natureza a poesia de Vasco Gato, num tom intimista onde o desamparo e a fragilidade do humano se revelam no confronto com a grandeza do universo. Não há-de ser por acaso o interesse pela expressão poética ameríndia, assim como a epígrafe pedida de empréstimo a Thoreau para um dos primeiros poemas. Na senda do que vislumbramos em Herberto Helder, uma das influências mais evidentes na poesia deste autor, o encontro com o mundo natural edifica uma voz em relação com um outro que ao segundo livro assume contornos algo místicos, misteriosos, esotéricos: «É possível a intimidade com o mistério». A poesia aparece enquanto experiência desta intimidade, enquadrada em paisagens enigmáticas, porventura oníricas, de recolhimento e de retiro interior. Muito dissemelhante na forma, a poesia de Vasco Gato começa porém a sofrer uma certa inflexão com o poema longo “Lúcifer” (2003). É aí que encontramos o gérmen de uma poesia mais sua, descolando-se das óbvias e naturais influências: «Há muito que desejo romper / este cordão umbilical, ampliar-me». Este poema é o pórtico para um lirismo altamente conseguido quando encena dramas amorosos, colocando no tabuleiro metafórico a identidade do sujeito poético — “A Prisão e Paixão de Egon Schiele” (2005) —, ou quando se apropria de referências culturais várias para indagar os princípios do poético —“Omertà” (2007) —, ou simplesmente quando assume a queda desamparada do sujeito num real que estilhaça com inteligente sentido crítico. O «país de amputados» em “Rusga” (2010), o mediterrâneo de “Napule” (2011), o «leito quotidiano» de “A Fábrica” (2012), resultam como que preâmbulos a uma carta de pai para filho, nesse extraordinário “Fera Oculta” (2014), onde os podres do mundo assomam ao poema fazendo deste, ao mesmo tempo e com a mesma intensidade, lugar de denúncia e de libertação. Sem cederem ao facilitismo de um registo meramente acusatório, de tipo confessional, politicamente interventivo, civicamente empenhado, quase sempre datado, estes poemas de Vasco Gato equilibram com mestria o que há do mundo no indivíduo e o que pode haver do indivíduo-sujeito-poético no mundo.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

A PALAVRA E A TEIA

 Por António Cabrita: aqui.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

NIKIAS SKAPINAKIS (1931-2020)

 

Paisagem com circo, 1955.


(...)

   Nikias Skapinakis, cujas primeiras obras, com alguma ingenuidade, se caracterizaram pela afirmação de um paisagismo sobressaltado por uma poética de transfiguração, em que abordou temas como os do circo ou de certos aspectos urbanos, virá depois a realizar uma pintura figurativa de assinalável impacto visual, também de conotação pop e até pelo sentido quase cartazístico que lhe imprimiu em determinação do carácter bidimensional da pintura, antes de, já nos finais da década de 70, regressar com uma série de obras de imagética completamente diversa, em que se patenteia notável e inteligente capacidade de renovação da linguagem abstracta de valorização matérica, definida nos termos de uma apurada e preciosista sensualidade, através da chamada série de Vale dos Reis.

   No seu percurso inquieto, Nikias continuou a interrogar o plano da representação em pintura, aproximando-se depois, e por via de uma crescente preocupação com o desenho, antes menos evidenciada, de situações verdadeiramente inéditas no contexto português, realizando uma obra cada vez menos próxima de inserção em contextos modais e por conseguinte cada vez mais voltada para uma investigação centrada em temas claramente singulares, em que se destacam as séries em torno do mito do Minotauro, onde o problema do regresso à bidimensionalidade se recoloca, mas actualizado pela consciência plástica dos limites e marcações mútuas da linha e da cor, do que resulta uma obra que não teve ainda, e até a esta data, o pleno reconhecimento que merece no contexto da sua ambição programática e no plano da sua nítida  capacidade de realização e experimentação.

(...)

Bernardo Pinto de Almeida, in Pintura Portuguesa no Século XX, 2.ª edição, revista e aumentada, Lello Editores, Dezembro de 1996, 109-112.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

E CONHECERÁS AS OBRAS QUE RODAM EM TORNO DA LUA DE OLHO REDONDO

(tentativa número um para criar o mundo)

Deus criou o mundo porque queria fazer uma indústria de grilos.
Ou criou primeiro os grilos. Dentro de pequenas gaiolas de cana.
E os grilos cantavam, cantavam, a sua estrídula voz
calçava a eternidade. A mulher de Deus barafustou:
"Não quero nada disto no meu jardim, com esta chinfrineira
nem consigo ouvir os meus sonhos. E que ideia,
um bicho com um canto tão triste?" Deus concedeu que os grilos
eram barulhentos. Deviam estar dispersos. E mortificou-o
a sugestão de que o canto dos grilos
era triste. As mulheres nunca estavam contentes.
Criou então o mundo para acolher os grilos., e criou
os outros animais para que os grilos os vissem
e tivessem outros motivos para cantar.
Mas é cada vez mais triste o canto dos grilos.



(tentativa número dois)

E Deus criou o mundo porque gostava de caracóis.
Ou não tanto, mas da espiral.
Sim, caprichara com aquela forma
— chamou-lhe "a minha gota de infinito —
que implantara em cima da lesma. Num estalar
de dedos criou triliões de espirais ambulantes.
A sua mulher relutava com a ubiquidade daquela baba
que aqui e ali reluzia (as auroras boreais),
mas distraía-a aquele enigmático amante d' olhos em bico
que a tudo dizia OM. Porém
cresceu o tumulto quando o sol se atapetou
de caracóis. Era uma praga.
Então Deus criou a Terra, dotou os caracóis de amnésia
e deu-lhes um predador natural: o alfinete.



(tentativa número três)

Deus criou a ilha Tera (hoje, nos mapas, Santorini),
foi essa a primeira porção de terra que despontou da sonâmbula
película de água. Chamou a sua mulher e apontou a ilha: "Eis Tera,
de que deriva o teu nome Teresa". Esta limitou-se a observar:
"As saudades que tenho de bulbul... só pode ter sido um gago,
quem lhe deu um nome!" Deus ficou furioso, embora por regra
nunca desfizesse o que havia feito. As águas também não gostaram,
aquela erupção perturbava a crença de que se situavam no topo
do mundo e encarniçadas em mostrar que água mole
em pedra dura... engendraram as marés. A Deus irritou
que algo criado derrubasse o esmero doutras manifestações
do seu imenso poder. Como represália criou o Evereste.
Foi então que, por desdém, a água cuspiu para terra
algumas bactérias e animais de improvável utilidade.

António Cabrita, in Método de caligrafia para a mão esquerda, colecção 12catorze, Edições Húmus, Junho de 2020, pp. 50-52. Entretanto, a conversa com o autor prosseguiu em Sinal Aberto.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O PALHINHAS & CA.


 O Palhinhas & Ca. 
colecção periódicos locais/mensais
número 63
directório colectivo: José de Matos-Cruz, Joaquim Jordão, António Viana, Álvaro Biscaia
24 de Agosto de 2020


Deve ser isso, p. 5.

FEBRE

Quitéria não entende as modernices dos termómetros pistola. No tempo dela era no cu que se media a febre.

domingo, 23 de agosto de 2020

PARA MAIORES DE 18 ANOS


 

Call Center passou a constar nas intermináveis listas do Plano Nacional de Cultura. É para maiores de 18, como aqui se refere. Informa o editor que estará disponível na Feira do Livro de Lisboa, no pavilhão D35 da editora Livros de Bordo. Não precisam mostrar o cartão de cidadão para comprar. 

sábado, 22 de agosto de 2020

MITIGAR A DISTÂNCIA

Há toda uma nomenclatura associada à covid-19 que recusei adoptar desde o início: "novo normal", "distanciamento social", "vai ficar tudo bem"... Acredito num poder subliminar das palavras, o poder de nos transformarem sub-repticiamente, de moldarem o pensamento e, por consequência, condicionarem atitudes, gestos, comportamentos. As palavras não são inocentes. Talvez seja inocente o uso que a maioria das pessoas dá às palavras, mas jamais as palavras elas mesmas e o modo e a forma como se intrometem no quotidiano.

Agrada-me registar que, a passo de caracol, começa a emergir um discurso desconfiado, crítico, esclarecido, da tal nomenclatura. É o discurso que melhor se opõe à paranóia instalada e à ágil manipulação dessa mesma paranóia, levando as pessoas a confiar em procedimentos securitários e higienistas que mais não são do que pretextos para controlar, explorar, submeter. Sim, a liberdade está em causa. Andar ou deixar de andar com o rosto tapado por uma máscara é só a face ridícula de uma discussão que tem de ser feita. Fechar as pessoas em casa, ligando-as virtualmente através de zooms e congéneres, não é solução para o futuro, é apenas e tão-sómente clausura consentida, uma espécie de autocondenação disfarçada de imposto, a bem de todos, diz-se, como se fosse um bem deixar de conviver olhos nos olhos.

Penso nisto depois de uma noite mal dormida, inquietado pela mão trémula da rapariga que me serviu um café e um pastel de nata. Se estar na presença do outro, antes da covid-19, já era tantas vezes sinal de constrangimentos e adversidades, começa a ser, agora, motivo de medo. O que podemos esperar de uma sociedade em que as pessoas têm medo de estar umas com as outras? Misantropia? Mais egoísmo? Servidão.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

ESCULTURA

Era uma vez um escultor a quem encomendaram uma escultura. Colocaram um pedregulho enorme à sua frente e pediram-lhe que esculpisse a escultura perfeita. Passaram várias horas sem que ele descolasse os olhos da pedra, a observar-lhe a superfície e a perscrutar-lhe os veios. Quando finalmente decidiu que forma dar ao bloco, pegou no martelo, no cinzel e começou a esculpir. Maçou, cortou, partiu, dias, semanas e meses a esculpir até obter a forma perfeita. Passados meses sobre a data da encomenda, alguém o visitou para averiguar dos progressos realizados. Deu com o escultor coberto de pó, enterrado em pó. Era tudo quanto sobrava do bloco. Pó.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

REAGIR À REACÇÃO


Em Janeiro, 15 energúmenos fizeram uma espera a um rapaz e espancaram-no até à morte. Logo correu a versão de que tinham sido ciganos os maus da fita, enquanto aqui e acolá se debatiam possíveis motivações raciais por detrás do crime. Ainda não tínhamos chegado a Fevereiro, um deputado da nação serviu-se das redes sociais para insultar outra deputada da nação sugerindo que ela voltasse para a sua terra. Enquanto tal, no Brasil, o Presidente da República brasileira alinhava com listas negras na Rondônia e garantia que os índios eram cada vez mais humanos como nós. Portugal, que pouco ou nada tem já de indígena, alimentava a "tão ilustre e empenhada comunidade" das redes sociais ora com o Movimento Zero, ora com o Movimento Nada. Desde o Velho do Restelo que é típico deste país dizer mal de quem parte, ficando-se a ver passar navios ou a contar aviões. Fazer qualquer coisa, por mínima que seja, é para preguiçosos ou pretos. Branco que é branco ou manda fazer ou deixa andar, enquanto os cães passam em caravana e os gatos se recolhem no covil. Voltemos aos factos. Em Março, o protofascista de serviço anunciou a sua candidatura à Presidência da República garantindo que tem sonhos húmidos com castrações físicas e é aplaudido e até alguém lhe faz a tal saudação que deixa "óbvio o implícito", excepto para quem o explícito não é para ser levado a sério. Não se passa nada, 'tá-se, deixa andar. Com a Covid-19 a tomar conta de nós, a coisa até que podia ter amainado. Não amainou. Na linha da frente, como agora se diz, surgiu um deputado da nação (e não só) a sugerir que os membros de uma determinada etnia deviam ser sujeitos a confinamento especial. Veio o 25 de Abril, o 1 de Maio, o 13 de Maio, e toda a gente se distraiu de um nome: o cidadão ucraniano que morreu no SEF do aeroporto de Lisboa continua sem nome. Assim como facilmente se reduz uma manifestação contra o racismo a um cartaz infeliz, também não é difícil reduzir uma carta aberta a questões de pormenor. O engraçado disto é que com tanta redução acabamos todos na página em branco, com a cabeça entre as orelhas, os ombros encolhidos, as mãos nos bolsos, a ver um cidadão ser assassinado à luz do dia, na praça pública, por um sujeito declaradamente racista, como quem vai a uma peça de teatro e acaba a discutir a temperatura da sala. Não há paciência para tanto pormenor. "E vão ufanos com a publicaçãozita, e com a atitude de a verem likeada" os que reduzem e pormenorizam como se o crime pudesse ser reduzido ao pormenor e não bastassem as ameaças de morte e tudo quanto por aí se vai vendo para fazer um mínimo que seja de dizer: cheira a merda, não fui eu que pisei e muito menos me caguei. Pois aqueles que se estão a cagar para, perdendo tempo das suas preciosas vidas com questiúnculas de pormenor, fiquem lembrados de que há vidas roubadas que já não ressuscitam. Se uns "só animam aquilo que julgam enfrentar", outros só consentem com aquilo que fazem por ignorar. O resto é História. E não é bonita.


Em resposta ao José Teixeira, no Facebook, assinado por Henrique Manuel Bento Fialho, militante do PCP, escritor por infelicidade, dos que assinou com convicção, porque para a merda já não se vai. Ela aí está como o abismo para onde se dirigem os cegos de Pieter Bruegel, o Velho (que não do Restelo).

terça-feira, 18 de agosto de 2020

DIA 25 DE AGOSTO

 

Um poema de José Emilio Pacheco traduzido por António Cabrita (aqui), sobre o romance "Fotografar Contra o Vento" (aqui), um poema (aqui), sobre "A Paixão Segundo João de Deus" (aqui), sobre "Oitenta Flechas Para Atirar à Cotovia" (aqui), sobre "Duas Luas, Entrededos" e "Cegueira de Rios" (aqui), sobre "Coração Quase Branco" (aqui), outro poema (aqui), duas memórias e uma inconfidência (aqui).

ASSINADO

 Carta aberta dos escritores portugueses


contra o racismo, a xenofobia e o populismo

e em defesa de uma cultura e de uma sociedade livres, plurais e inclusivas.


(aqui)

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

FESTA DO AVANTE

Num país com «mais de 40% dos doentes à espera de cirurgias fora do prazo aceitável» (notícia de hoje), onde o fascismo, e o racismo, o machismo e a homofobia a ele associados, dão diariamente sinais de medrança, num país com a «quarta maior contracção económica da União Europeia» (notícia de há dois dias), com processos de insolvência a crescerem de dia para dia... o grande tema e a grande preocupação do momento é a realização da Festa do Avante. Fomos sempre um povo sábio e perspicaz na escolha de prioridades. Entre argumentos capciosos e outros bem-intencionados (o inferno está cheio deles), passando por muita desinformação e preconceitos a rodos, há de tudo um pouco. Portugal está dividido em torno de uma “festa”. É curioso de se ver.

A realização da Festa do Avante começou a ser assunto ainda no período do Estado de Emergência. Houve muito português que adorou a experiência de não poder sair de casa sem ter uma força de segurança à porta, o travo a ditadura e o gozo do pequeno poder excitam o tiranete que há em nós. O recrudescimento da “bufaria” foi o sinal mais explícito do amor que temos à pátria em geral e à saúde pública em particular. Vai ficar tudo bem, dizia-se, como se estivesse tudo mal. Não estava nem está, porque nunca está tudo mal onde há pelo menos uma coisa que está bem: a mesquinhice nunca deixou de estar bem. É importante que se diga isto para demarcarmos o estilo naturalista da prosa. Repare-se como as comemorações do 25 de Abril e do 1 de Maio já haviam inquietado tanta gente, entretanto esquecida de quão infundadas eram tais inquietações. Repito e sublinho infundadas, para que engulam em seco as preocupações do passado. Facto: em nenhuma dessas comemorações houve o que quer que fosse que pudesse contribuir para agravar a situação pandémica do país. O mesmo não pode ser dito de outras situações onde se verificaram surtos sem que tal gerasse preocupação ou comentário. É a tal perspicácia para escolher prioridades de que há pouco falava. Somos altamente selectivos.

Aqui chegados, convém desde já desfazer o primeiro mito: a proibição de festivais. Não perderei tempo a explicar por que razão a Festa do Avante não pode ser equiparada a um festival. Só quem nunca foi à Festa do Avante pode dizer tal coisa. Frequentador de festivais desde a retoma do vetusto Vilar de Mouros, não me recordo de alguma vez ter visto no Sudoeste, no Super Bock Super Rock ou no NOS Alive, fóruns públicos de debate dedicados a temáticas tais como as listas de espera nos hospitais, o crescimento do populismo e o reaparecimento de partidos fascistas, o estado da economia portuguesa, a violência doméstica, a sinistralidade nas estradas, entre outros assuntos sem interesse. Compreendo que se olhe preferencialmente para os concertos, a roda gigante, as barracas com comes e bebes, que é aquilo para onde os portugueses tendem a olhar. Nisto somos deveras democráticos.

Basta, no entanto, ler a Lei 19/2020 para entender o equívoco propagado por certa imprensa mais interessada em fomentar assunto do que em esclarecer as pessoas. No artigo 5.º, dedicado a “Festivais e espectáculos de natureza análoga”, a lei diz, e passo a citar, «Os espetáculos referidos no número anterior podem excecionalmente ter lugar, em recinto coberto ou ao ar livre, com lugar marcado, após comunicação nos termos do número anterior e no respeito pela lotação especificamente definida pela Direção-Geral da Saúde em função das regras de distanciamento físico que sejam adequadas face à evolução da pandemia da doença COVID-19.» Em célebre entrevista, a Ministra da Saúde explicou isto mesmo. E alguma imprensa compreendeu-o. Rádio Renascença, 8 de Maio: «Covid-19: Afinal, festivais são permitidos com lugar marcado e reembolsos só em 2022»; Blitz, 8 de Maio: «Há reembolsos mas afinal também pode haver festivais. A proposta de lei do Governo para a música ao vivo»; Expresso, 8 de Maio: «Covid-19. Afinal há festivais de verão».

O cancelamento de vários festivais de grande dimensão e muito populares teve na sua origem apenas e tão-somente a incerteza quanto ao estado da pandemia na data de realização dos mesmos, a viabilização financeira face à necessidade de reduzir lotações, as garantias e os compromissos assumidos com artistas internacionais caríssimos, a questão das deslocações aéreas, enfim, toda uma logística muito mais complexa do que aquela que permite a realização do Figueira Jazz Fest , o Vilas People, o Festival Afonso Lopes Vieira, as Noites de Faro, as Noites de Verão Gaia, entre outras, inúmeras, festas e festivais que estão a realizar-se um pouco por todo o país, com condicionalismos exactamente iguais àqueles que limitarão a realização da Festa do Avante. Compreendo que fiquem tristes por não poderem ver a Taylor Swift, mas não pretendam que a vossa tristeza me impeça de poder ver os Mão Morta.

No embalo da informação mentirosa sobre proibição de festivais, assistimos a toda uma campanha já costumeira de hipocrisia que levou um tipo como Luís Delgado a falar de “racismo político” em artigo recentemente publicado na Visão. Insuspeito de qualquer simpatia comunista, diz ele numa prosa intitulada com a pergunta «Qual é o dramalhão com a Festa do Avante?»: «E aquilo que é absolutamente inaceitável, inadequado e irresponsável, é achar que o PCP, e os seus militantes, ou simpatizantes, ou coisa nenhuma, mas que gostam da festa, são uns idiotas, que não querem saber nada da Covid 19 – estilo Bolsonaro – e que não agirão com todas as cautelas. Isto cheira a racismo político.» Cheira a racismo político, mas não só. Cheira a hipocrisia, nomeadamente quando se refere que a realização da Festa do Avante é uma troca de favores entre o actual Governo e o PCP. É tanto assim, quanto é um favor que o actual Governo faz à Igreja:


à organização do Rali Vinho Madeira:


à tauromaquia:


ou a outros espectáculos que estão a suceder de Norte a Sul do país:


Se podem valer de alguma coisa ao PCP, estas imagens serão um exemplo para os frequentadores da Festa do Avante. Não façam assim, façam melhor. Neste sentido, ainda que seja um acontecimento com relevância para as finanças do partido, que não goza da generosidade contributiva dos Jacinto Leite Capelo Rego que financiam outras forças políticas, a Festa do Avante pode ter, deverá ter, vai ter uma extrema relevância em termos pedagógicos, levando-nos a acreditar que é possível e até desejável que continuemos a viver e a nos divertir, a reunir e a comunicar, sendo organizados, tendo bom senso, adoptando precauções. Não me recordo de uma edição mais relevante da Festa do que a deste ano, quer pelo pânico de viver que é imperioso combater, quer pela paranóia securitária que se instalou com a pandemia e tem, paulatinamente, feito o seu percurso de invasão nos direitos fundamentais de liberdade cidadã, reerguendo muros que impedem o debate livre e obscurecem o discernimento crítico. Distanciamento social, diz-se hoje como se fosse um benefício para todos. Não é. Importa, mais do que nunca, lembrar que se trata de uma excepção momentânea. 

Dito isto, cabe ainda reconhecer que me sensibilizam os argumentos daqueles que se mostram verdadeiramente preocupados com a questão da saúde pública. Dizem que a Festa resulta num ajuntamento que pode contribuir para a propagação da pandemia. Sou sensível a este argumento, mas com uma condição. Que ele valha o mesmo que vale para outros ajuntamentos, seja nos transportes públicos, seja nos locais de trabalho, nas praias, nos shoppings, nos jardins públicos, nas salas de espectáculos, etc, etc, etc. A Festa do Avante realiza-se num espaço aberto equivalente a 300000 metros quadrados, com uma lotação máxima de 33 mil pessoas para 100 mil possíveis. Para quem acabou de fazer um périplo pela Costa Vicentina, é no mínimo estranho, no máximo seria só patético, tanto temor com 33 mil pessoas distribuídas por 300000 metros quadrados. Sendo legítimo e compreensível, o argumento da preocupação peca por discriminação: zelo excessivo para com um evento específico (ainda por cima político), o mesmo zelo que outros eventos congéneres com aglomerados e ajuntamentos similares ou mais concentrados não inspiram. Mais grave, porém, é ser um argumento que passa ao lado do verdadeiro problema de saúde pública que estamos a viver neste momento em Portugal, e que, ao que parece, é mais lato do que a covid-19. Há um aumento da mortalidade no país que só indirectamente está relacionado com a covid-19. À força de estarem tão preocupadas com a pandemia, as pessoas esquecem-se de outras doenças e problemas de saúde que continuam a fazer vítimas todos os dias. Vamos falar do que realmente interessa? 

Para terminar, devo dizer que o melhor argumento que ouvi até agora contra a realização da Festa do Avante surgiu de um militante do PCP. Sempre é curioso notar que, acusados de extrema ortodoxia, os comunistas ainda debatem e dialogam, contra o que seria de esperar por quem julga ser o PCP uma tirania obscurantista onde o contraditório é uma ameaça à razão. Parvoíces. E o argumento é simples: dado os constrangimentos, e até a pressão a que os frequentadores do recinto estarão sujeitos, o que há de celebração da liberdade na Festa está, à partida, minado e sabotado. Faz sentido, mas também por isso deve a Festa realizar-se. Não acontecerá nos moldes a que estamos habituados, a Carvalhesa não será dançada com abraços colectivos, a proximidade não será a mesma. Mereceremos também uma atenção da imprensa que jamais merecemos. Há deles que já salivam com eventuais falhas, lacunas, erros, e vocês irão ver o que será de reportagens sobre o Avante. Mas sobretudo, e mais importante do que qualquer outra coisa, é partir deste princípio de que há mais vida para além da covid-19. Por maiores e mais acérrimos que sejam os constrangimentos, as limitações, as regras, os impedimentos, estamos juntos na luta pela liberdade e pela defesa dos direitos de quem trabalha. Não há porra de pandemia que nos impeça de o lembrar, por maiores que sejam as limitações e apertados os açaimes. Outrora, também dentro das prisões se lutou contra a ditadura. Não é agora, que o fascismo cresce e ameaça se agrava, que devemos interromper a luta. Seja na rua, seja no Avante. Seja em Festa.

domingo, 16 de agosto de 2020

«E era isso que a esmagava nos Portugueses; tinham bruxarias mais fortes do que a verdade.»

 


Ah, como os primos eram estranhos! Por um lado, a mesquinhice, bambochata e sovina de comemorações provincianas com melindres por falta de convites; a contrabalançar, um amor sôfrego, absoluto, possessivo, fundo e inconsciente que se transformava em belas histórias e em grandes prazeres. Nem grandeza para a maldade nem sublimações dos problemas do espírito. Tudo pela rama, em gestos não há dúvida — é assim mesmo — por amor de Deus não faz diferença — com certeza ora por quem é esteja como em sua casa — paciência, é preciso muita paciência — eu trato de tudo não se preocupe é só falar com ele arranja-se tudo — não faz mal nem se importe com essas coisas tudo passa são coisas que acontecem — e hora a hora Deus melhora — ah isso arranja-se com facilidade em todo o caso muito cuidado nada de aventuras — cuidado que podem não gostar — enfim sabe-se quem foi não se quer chamar à responsabilidade — salvar o tacho é que é preciso e caluda no outro dia morreu quem bem quis resolver a vida — ah deixa andar, não vale a pena estar-se a arreliar com coisas sem importância. Deixa lá que o outro mundo não deve ser melhor do que este — paciência muita paciência — e o que havemos de fazer — olhe ficar quieto — Nada — Caluda inda é o melhor.

Ruben A., in A Torre da Barbela, 3.ª edição, revista, e precedida de um estudo de José Palla e Carmo, Parceria A. M. Pereira, Lda., 1966. pp. 118-119.

sábado, 15 de agosto de 2020

COMPLEXO DE STEPHEN

 


É uma das personagens mais marcantes de que tenho memória e, sem dúvida, o melhor desempenho do actor Samuel L. Jackson. Um dia far-lhe-ão justiça, quando entenderem quanto de inteligência crítica pode a cultura popular suportar. Há cada vez mais mordomos Stephen neste mundo e a razão de assim ser nada tem de auspicioso. Sinal dos tempos, sentirmo-nos mais seguros ao lado de quem nos oprime e humilha. Servindo, claro, servindo com reverência e zelo como outrora serviram os parabolanos e agora servem aqueles que são mais papistas do que o Papa. Que fazer com esta gente? Não lhes dar a relevância que não merecem, talvez seja a melhor opção.


quarta-feira, 12 de agosto de 2020

UM TROLL

Gosto de pseudónimos, gosto de heterónimos, mas detesto que um autor se sirva deles para dizer o que o próprio pensa e pelo qual seria incapaz de dar a cara. Tal atitude coloca o heterónimo ao nível de um perfil falso, movido pelo rancor e cobarde na actuação. 

terça-feira, 11 de agosto de 2020

FESTAS

 Quitéria não gosta das festas dos ricos. Nunca a convidam.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

«Communication to the portuguese writers association»

 


   Se deixarmos de lado por um momento a altiva e solitária meditação no momento do puxão angolano, é este o texto mais significativo de Cesariny no quadro da revolução. Proposta de intervenção — reformar a linguagem literária dos escritores portugueses e estancar o processo em que a língua literária vinha a evoluir desde o século XVI —, o texto é em simultâneo uma retrospecção avaliativa. O que o autor põe em causa é o processo do Renascimento e tudo o que se lhe associa — latinização forçada da língua, surgimento duma norma culta nos domínios da fonética, da morfologia e da sintaxe, fixação e codificação duma gramática oficial e consequente repressão duma estirpe oral e popular que vinha do medievo e das origens moçárabes da língua, representante da sua evolução mais espontânea e criativa. Denuncia-se o papel que o escritor teve no processo de asfixiação — aceitar essa norma, ajudando assim a marginalizar e a sufocar as fontes vivas da língua popular — e aponta-se o único momento em que o escritor pôs em causa essa colagem, o vintismo e a sua ruptura revolucionária com o antigo regime, logo deixada para trás com os bons modos da burguesia urbana e rural, nada interessada em ouvir palavras grossas e vernáculas nas suas recepções. Essa mesma elite preferiu falar francês nos seus salões, como hoje inglês, a usar a velha e «imprópria» palavra das classes baixas e sem instrução. Neste processo o poema de Camões teve um lugar crucial, pois foi por ele que passou o processo de latinização da língua e foi nele que se codificou um ensino forçado e normativo da gramática, que actuou ao longo dos séculos da sua formação e estabilização como instrumento de tortura — a divisão sintáctica de orações na frase — e de regularização. Demais foi ele que mais apto se mostrou a preencher as exigências míticas e propagandísticas do imaginário do Estado moderno, nascido no crisol do Renascimento, e do pequeno imperialismo periférico português que com ele se desenvolveu.
   É neste quadro que se entende a proposta de trabalho de Cesariny — fazer «uma profunda reforma da linguagem literária dos escritores portugueses». A queda dos fascismo equivaleu para ele à queda do antigo regime. Estava-se diante duma ruptura que podia fazer abalar o edifício social que vinha a ser construído desde o Renascimento e da formação do Estado-nação. No desabar do salazarismo, creu que era possível olhar para as classes baixas doutra forma, valorizando-as, e pondo o escritor a aprender com elas. As classes baixas não deviam ser normalizadas segundo o padrão da cultura oficial — acesso à escola e à universidade, acesso ao trabalho e ao mercado; essas classes deviam ser vistas como um reservatório de valores vivos e pessoais, muito mais soltos e criativos que os da cultura dominante. Era necessário garantir-lhes a possibilidade de preservar e desenvolver as suas formas culturais próprias, cabendo ao escritor assinalar a sua vivacidade e tomar aí lugar. A linguagem erudita, ensinada pelos mestres-escola na linha e no modelo dos antigos mestres de retórica, seria assim deixada de lado, a favor do tagarelar vernáculo, ordinário e popular, que fora o dos cancioneiros trovadorescos medievais e ainda o do teatro vicentino. Depois de constatar a «insipidez e moralidade fonética, morfológica e sintáctica» em que o escritor português se enforcava, o autor propõe a única revolução ao alcance de qualquer escritor — a revolução da fala, o corte com a língua literária tal como ela se sistematizava e desenvolvia desde a adaptação dos modelos italianos e estrangeirados no século de Sá de Miranda, António Ferreira e Camões. Finalizava considerando medidas a pôr de imediato em prática para libertar a língua dos espartilhos em que a asfixiavam desde a Renascença: denúncia dos acordos ortográficos e da norma gramatical; liberdade de escrita em desacordo com estas normas; recolha e valorização do linguajar urbano e rural então vivo; criação nas universidade duma cadeira de «revolução de língua portuguesa»; ensino escolar da língua às crianças segundo códigos flutuantes e variáveis, nunca fixos e normativos. No contexto da queda do Estado Novo e das possibildiades que se abriram estas propostas representam um momento de transcendente importância — o único em que a revolução quis ganhar voz própria, não a da propaganda, a dos chavões e a das palavras de ordem repetidas e marteladas, linguagens da dominação que servem o esquecimento, mas a da phala viva, que era a linguagem do desejo, a linguagem sem censura, a linguagem da rua, a linguagem do Homem Mãe ou da Mãe fálica.

António Cândido Franco, in O Triângulo Mágico. Uma biografia de Mário Cesariny., Quetzal Editores, Junho de 2019, pp. 252-254.

domingo, 9 de agosto de 2020

UM DESENHO E UM POEMA DE MÁRIO CESARINY

 


Nunca estive tão só diz o meu corpo e eu rio-me
lembra-me alguém que se atardava sempre
diante de uma montra da rua da palma
a olhar para uma camisa que seria sua
assim que o ordenado lho pedisse
porque era aberta   branca   lisa   de praia!

Seis e meia sete horas
saltava da vedeta vinda do Alfeite
e era como um gato
ia com os pés para a frente daquela montra
só para ver só para olhar sem ser reparado
só enquanto não fecham estas lojas
Esse, ou o António, que gostava de homens
E não só isso como o declarava
dois e dois quatro a quem bem queria ouvi-lo
porque, dizia, ajustando o corpete,
homem sou eu dentro da minha farda

Nunca estive tão só diz o meu corpo e eu rio-me
porque o corpo é o corpo
não tem nada a dizer   não tem para onde ir
não lembra   não se lembra   quer estar sempre agarrado
suprimido
apertado
e se é belo é pior
vive num amarrote permanente

Sim decerto matéria atrai matéria
a boca faz-se sangue o sangue faz-se esperma
a urina espera a custo que o esperma se faça
para vir de novo à superfície do ar
Quando o total atinge a sua forma ejectável
preme-se noutro corpo noutros lábios idênticos
mas do lado de lá como num espelho
sua fiel imagem convertida

Isso o meu corpo quer — o corpo — noite e dia
ele julga que eu tenho a idade dele
que ainda só sei do homem pelo que transporta
a meia nau sobre o alto das pernas
— o quadrado das ânsias respirando abertas 
— a diagonal dos braços formando-se em centro 
mas o meu centro de aeração mudou-se
o meu relógio de mar parou em cima da mesa
o espelho meu foi puxado para trás
e foca — admirado — a magnificência liberta


Mário Cesariny, in A Cidade Queimada, Assírio & Alvim, 2.ª edição, Outubro de 2000, pp. 19-21.

sábado, 8 de agosto de 2020

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

NÃO HÁ PALAVRAS

Quitéria está a pensar aderir ao Facebook. Precisa de fazer amigos. E de alguém que por ela viva a vida dela. 

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

PENSAMENTOS DE QUITÉRIA

O amor é como uma lupa que faz crescer a pupila.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

INFERNO

 


Decorria o ano de 2001 quando a saudosa Íman Edições publicou “Inferno”. Autores: Maria Velho da Costa e António Cabrita. Em prefácio explicava-se que o texto resultara de uma «encomenda que ficou por cumprir: retratar numa trilogia cinematográfica, que se desdobraria em série televisiva, o estro, a aventura e o acinte de Camilo Castelo Branco». E que estro! E que aventura! Uma cronologia apensa aos três episódios dava conta, a quem desconhecesse, das linhas pelas quais a vida de Camilo foi sendo costurada: filho de pais incógnitos, ficou ao cuidado de uma tia depois de perder o pai com apenas 10 anos de idade. Aos 16 anos abrem-se-lhe as portas do amor e foi um ver se te avias de paixões assolapadas, raptos, fugas, perseguições, cenas de porrada, enamoramentos, prisões, processos, viuvezes, filhos perdidos, flirts, escândalos, polémicas, adultérios. Até um filho louco aparece pelo meio. Nos entretantos, uma vida literária impressionantemente prolixa. Tope-se: só entre 1862 e 1866, em 4 anos de vida, foram 33 títulos, dos quais 18 eram romances. Do argumento em causa, a certa altura do primeiro episódio:

 

ANA

Os livros têm sido a tua vida. Desfazeres-te…

CAMILO

A minha vida tem sido o negócio dos livros.

 

Ainda no primeiro episódio, uma cena na Cadeia da Relação, onde Camilo esteve preso com o famigerado Zé do Telhado:

 

Vindas do exterior ouvem-se duas vozes que entoam “Queres a Roda?”

 

CAMILO

Alívio. Estava crivado de dívidas. (Pausa) Está a ouvi-los?

ZÉ TO TELHADO

Os dois cegos? Costumam estar ali.

CAMILO

Ouve as moedas na lata?

ZÉ DO TELHADO

A esta distância?

CAMILO

Eu ouço-as, uma a uma. Sabe porquê?

ZÉ DO TELHADO

Não.

CAMILO

A canção é minha.

ZÉ DO TELHADO

O “Queres a Rosa?”

CAMILO

Cada moeda daquelas é-me tirada do bolso.

ZÉ DO TELHADO

Deixe lá os pobres dos cegos, o que não circula não rende.

CAMILO

É o único ponto que me consola… ainda que não seja de exclamação.

 

Camilo Castelo Branco suicidou-se num dia de 1890. Estava cego.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

DEVE SER ISSO

Deve ser isso, deve, prezam muito a liberdade, a de estar quieto, o mais quietinho possível, para não incomodar ninguém nem ser incomodado, e, em sendo atingido na sua quietude, pedir quietamente que quem incomoda deixe de inquietar. Deve ser isso a liberdade, assumir compromissos com a desoneração, acordos com a isenção, isto é, a liberdade de ficar à margem, ou seja, permanecer fiel ao sossego, enchendo a barriga enquanto ao lado alguém morre à fome, calcando o sofá a contar horas pelos dedos. A liberdade de, tal velho do Restelo, ficar a contar navios ou carneiros ou simplesmente convidar o amor para ir ver aviões levantarem voo, na esperança talvez de que tombem trazendo um pouco de emoção às nossas vidas, permanecendo no mesmo sítio de sempre, com a mesma quietude de sempre porque, como diz o povo e com razão, de hora em hora, Deus melhora. E um homem não é Deus, um homem tem mais o que fazer do que fazer, um homem tem de zelar pela sua liberdade de observar quem passa, espreitar as montras, ver as vistas. Pois, deve ser isso, prezar a liberdade desengajando, ou seja, desobrigando, isto é, desvinculando, todavia trespassando as mãos para os bolsos, contudo engolindo sapos, porém encolhendo os ombros, se bem que fazendo orelhas moucas de quem se achega com mocas e diz: eu sou mais livre do que tu. Ele há com cada um, olha agora este, lha agora oeste, a julgar que é mais livre de espirrar do que eu de me assoar, quando o que importa não é dizer ao gerente que o leite está azedo, mas pedir a conta e, se fizer favor, por obséquio, com número de contribuinte. Deve ser isso de prezar muito a liberdade, assim como assim é mas não é, foi mas não foi, está mas não está, é um vai-se indo enquanto a caravana passa ao ladrar dos cães, se bem que já não passe caravana alguma, agora é tudo cão de estufa em canil certificado, diria mesmo, agora é tudo espreitar de viés, olhar de soslaio, tratar os calos aos pés para que, não haja dúvida, Deus possa continuar a melhorar enquanto o homem ladra e grita ó mãe, pela mãe, homãe, sufocando, asfixiando, amortalhado numa quietude de ver andar, olá, tudo bem, como é que vai isso, vamos indo, ‘tá-se, até amanhã se Deus quiser. Deve ser isso, prezar a liberdade de Antero se sentar num banco de jardim para se despedir de quem preza a liberdade. Com dois tiros muito sossegadinhos. Que ele há com cada um, até para se matarem são preguiçosos. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

UM POEMA DE JOSÉ EMILIO PACHECO

 


UMA DEFESA DO ANONIMATO 
(carta a George B. Moore para negar-lhe uma entrevista)

   Não sei porque escrevemos, querido George
e às vezes me pergunto por que mais tarde
   publicamos o escrito.
Quer dizer, lançamos
   uma garrafa ao mar, que está repleto
de lixo e de garrafas com mensagens.
   Nunca saberemos
a quem nem onde as arrojarão as marés.
   O mais provável
é que sucumba na tempestade e no absimo,
   na areia do fundo que é a morte.
   e no entanto
não é inteiramente inútil este trejeito de náufrago.
   Porque num domingo
liga-me você de Estes Park, no Colorado,
   e diz-me que leu quanto está na garrafa
(suplantados os mares: as nossas duas línguas).
   E quer fazer-me uma entrevista.
Como explicar-lhe que jamais dei
   uma entrevista,
que a minha ambição é ser lido e não «célebre»,
que importa o texto e não o autor do texto,
que descreio do circo literário.

   Logo recebo um imenso telegrama
(o horror que se há-de ter gastado ao enviá-lo).
   Não posso responder-lhe nem deixá-lo em silêncio.
E ocorrem-me estes versos. Não é um poema.
   Não aspira ao privilégio da poesia
(não é voluntária).
   Vou antes usar, como o faziam os antigos,
o verso como instrumento de tudo aquilo
   (relato, carta, drama, história, manual agrícola)
que hoje dizemos em prosa.

   Para começar a não responder-lhe direi:
Não tenho nada que acrescentar ao que está nos meus poemas
   não me interessa comentá-los, não me preocupa
(se algum tenho) o meu lugar «na história»
   (tarde ou cedo a todos ceifa o naufrágio).
Escrevo e isso é tudo. Escrevo: dou a metade do poema.
   Poesia não é sinais negros na página em branco.
Chamo poesia a esse lugar do encontro
   com a experiência alheia. O leitor, a leitora
farão ou não, o poema que tão somente esbocei.

   Não lemos a outros: lemo-nos neles.
Parece-me um milagre
   que alguém que desconheço possa ver-se no meu espelho.
Se há um mérito nisto — disse-o Pessoa 
   cabe aos versos, não ao autor dos versos.
Se por casualidade é um grande poeta
   deixará quatro ou cinco poemas válidos
rodeados de fracassos e borrões.
   As suas opiniões
são de verdade muito pouco interessantes.
   Estranho mundo o nosso: cada dia
lhe interessam mais os poetas;
   a poesia cada vez menos.
O poeta deixou de ser a voz de sua tribo,
   aquele que fala pelos que não falam.
Evaporou-se em nada ou é mais outro entertainer.
   As suas bebedeiras, as suas fornicações, a sua história
   clínica,
as suas alianças ou picardias com os demais palhaços do circo,
   com o trapezista e o domador de elefantes,
têm assegurado o amplo público
   a quem já não faz falta ler poemas.

   Continuo pensando
que é outra coisa a poesia:
   uma forma de amor que só existe em silêncio,
num pacto secreto entre duas pessoas,
   de dois desconhecidos quase sempre.
Acaso leu você que Juan Ramón Jiménez
   pensou faz meio século editar uma revista.
Ia chamar-se Anonimato.
   Publicaria textos, não assinaturas,
e far-se-ia com poemas, não com poetas.
   Eu gostaria como o mestre espanhol
que a poesia fosse anónima já que é colectiva
   (a isso tendem os meus poemas e versões).
Possivelmente você dar-me-á razão.
   Você que me leu e não me conhece.
Não nos veremos nunca mas o nosso laço é firme.
   Se lhe agradaram os meus versos
que importa o serem meus/ de outros/ de ninguém.
   Na realidade, os poemas que leu são seus:
Você, o seu autor, que os engendra ao lê-los.

Poema de José Emilio Pacheco, traduzido por António Cabrita, in As Causas Perdidas. Antologia de Poesia Hispano-Americana., Maldoror, Setembro de 2019,  pp- 235-237.