Este escroto deu sinal de vida. Não tenho interesse algum em
saber porquê, mas vi o rosto dele associado à palavra “vacina” e fiquei na
esperança de que se tivesse voluntariado para testes com a injecção russa ou a
chinesa. Estou descansadinho da vida com o percurso exemplar da faneca. Por mim,
podem cozinhá-lo no tacho da Goldman ou das vacinas ou do que bem entenderem
desde que seja bem longe. O pior que nos podia acontecer era gramar também com
este num qualquer canal de televisão a fazer comentário político.
quarta-feira, 30 de setembro de 2020
UM ORGULHO NACIONAL
POEMAS DA MULHER E DO NÁUFRAGO
É O QUE É
Quitéria está a ver o debate entre os dos states. Por precaução, deixou um alguidar aos pés para o vómito. Está cheio. E o "debate" ainda mal começou.
terça-feira, 29 de setembro de 2020
APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #5
Um artigo de 2013 onde se especula sobre a influência do xadrez nas peças de Samuel Beckett, nomeadamente em "Endgame" ("Jogo do Fim", na tradução de Isabel Lopes para o Teatro da Rainha). A dado momento, a grande dúvida coloca-se nos seguintes termos:
"Endgame in particular is, as the title makes clear, infused with chess. "Me – to play," announces Hamm, the king on a battered throne, at the outset. In chess, the king is the key piece around which the game revolves, yet also the most restricted and impotent, able to move only a square at a time, just like Hamm, who is shuffled round the stage by Clov, the pawn who glimpses freedom. In chess, the feeble pawn, if it can progress to the eighth rank, becomes an all-conquering queen, the true monarch of the game. Who really holds power – Hamm or Clov?"
segunda-feira, 28 de setembro de 2020
PRÓS & CONTRAS
Quitéria lamenta o fim do Prós & Contras. E agora, quando voltará ela a ver a senhora dona Assunção Cristas?
APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #4
Hamm está no centro da cena, quer estar no centro. Cego, paralítico
da cintura para baixo, quando é deslocado no seu trono com rodinhas pede a Clov
que o recoloque no centro. São inúmeras as especulações acerca do nome desta
personagem. Hamm de hammer (martelo), simbolizará a tirania e a força da
intimidação. É uma hipótese. Neste caso, é uma tirania do nada, do vazio,
arruinada. É dele a derradeira fala de “Jogo do Fim”, para nos dar poesia: «Um
pouco de poesia. (“Um tempo.”)Tu gritavas — (“Um tempo. Corrige-se.”) Tu clamavas
pela noite; ela vem — (“Um tempo. Corrige-se.”) ela cai: ei-la que chega. (“Recomeça,
entoando.”) Tu clamavas pela noite, ela cai: ei-la que chega. (“Um tempo.”) Bonito
isto.» Trata-se de uma citação do poema “Recueillement”, d’“As Flores do Mal”
de Charles Baudelaire. Ei-lo, na tradução de Fernando Pinto do Amaral:
Esperavas pela noite; ela desceu; repara
Na atmosfera obscura que envolve a cidade
Distribuindo paz e angústia pelos homens.
Açoitada pelo corrupto impetuoso dos prazeres
Vai colher mais remorsos no mundano,
Dor minha, dá-me a tua mão, vem comigo
Debruçar-se sobre as varandas do céu
Para ver surgir das águas a mágoa já inocente,
Como um longo sudário que se estende do Oriente
Ouve a noite, minha dor, ouve como se avança doce.
Charles Baudelaire, in “As Flores do Mal”, trad. Fernando Pinto do Amaral, Relógio D’Água, 2003. Na imagem, Fernando Mora Ramos ensaia Hamm. Fábio A. Costa será Clov.
domingo, 27 de setembro de 2020
GREMLIN
Esta noite sonhei que era um gremlin. A minha mulher estava contente e fazia-me cafuné pelo corpo todo, o que me deixava nervoso. O problema é que suo imenso quando me enervo. Devem estar recordados do que acontecia aos gremlins quando apanhavam água. O mesmo sucedia comigo. Quanto mais suava, mais pequenos gremlins saíam disparados do meu pêlo. E a minha mulher ria, adorava ver a minha barriga a disparar bolinhas de pêlo. Fazia festinhas e mais festinhas e ria a bandeiras despregadas. Eu pedia-lhe que parasse, mas ela não parava. Tínhamos a casa cheia de gremlins.
sábado, 26 de setembro de 2020
sexta-feira, 25 de setembro de 2020
AO CUIDADO DE GRAÇA & MARIA
É muito novo, para quem olha como inspiração? Admite que o seu aspecto vai a casting? É muito novo, para quando o futuro? Ser o que é foi uma herança de família ou uma escolha sua? É muito novo, ainda não tem idade para saber, como classifica o regime paleo? Rússia, Coreia do Norte e Venezuela, são países de que continentes? Trump e Bolsonaro vestem-se bem? Maduro é rijo? Você é muito novo, diria mesmo um puto, um chavalo, vá lá, mas diga-me: que regimes condena mais, menos, muito ou assim assim? Gostava de falar das suas propostas, das suas ideias, mas o tempo passa rápido. Com isto você envelheceu um poucochinho, ah, ah, ah, ainda há esperança para si, nós é que já não temos tempo. Que chatice.
Estou curiosíssimo sobre as questões que Graça Franco e Maria
Lopes têm para colocar aos outros candidatos, já que as colocadas ao João
Ferreira pareciam saídas de uma gala do Big Brother. Triste país, com
jornalismo deste bem podes esperar o pior. Mas como não quero que falte nada às
jornalistas em causa, aqui fica a sugestão de algumas perguntas para os
restantes candidatos presidenciais depois da entrevista feita a João Ferreira.
Não esperando que sigam à risca as minhas indicações, ficaria muito agradecido
se, pelo menos, contemplassem algumas destas perguntas nos seus futuros
interrogatórios.
- Ana Gomes
. Quem é mais anticorrupção: a Ana ou o Paulo de Morais?
. Acha-se uma candidata engraçadinha?
. Militou no MRPP. Que percentagem de maoísmo ainda
perdura dentro de si?
. Foi derrotada por Fernando Seara, um homem titubeante,
para a Câmara de Sintra. Tino de Rans está à sua altura?
- André Ventura
. Com qual dos antigos candidatos presidenciais apoiados pela
União Nacional se identifica mais?
. Pena de morte, castração, remoção de ovários. Para
quando a defesa do empalamento à moda de Shaka Zulu?
. Qual destes líderes é mais inspirador para si: Trump ou
Bolsonaro? Hitler ou Mussolini?
. O Chega cura males de tabaco. O que pode fazer pelas
rinites alérgicas?
. Fala do seu partido como uma religião. No novo regime
proposto por si a separação de poderes também é para laquear?
. Se for eleito Presidente da República promete respeitar
a Constituição da República que pretende rasgar?
- Bruno Fialho
. Você é alguma coisa ao extraordinário escritor Henrique
Manuel Bento Fialho? Se for, mande-lhe beijinhos. Gostamos muito dele.
- Marcelo Rebelo de Sousa
. Pela sua idade não acha algo baboso andar a salvar
meninas nas águas do All Garve?
. Na visita à Autoeuropa transpareceu uma certa proximidade
com António Costa. Não acha que foi um péssimo exemplo quando andamos a pedir
às pessoas distanciamento social?
. André Ventura foi gerado no PSD. Acha que o seu partido
se transformou num viveiro de fascistas?
. O seu pai foi político do Estado Novo. Marcello Caetano
foi padrinho de casamento dos seus pais. Não lhe cheira a mofo?
. Que regime democrático o inspira mais: a América de
Trump, o Brasil de Bolsonaro ou a Hungria de Viktor Orbán?
. Os muros erguidos pelos regimes democráticos são mais
bonitos do que o muro de Berlim?
. Ainda é amigo de Ricardo Salgado?
- Marisa Matias
. Quando foi convidada para se candidatar?
. Admite que o seu aspecto foi a casting no BE?
. Onde estava quando foi o 1 de Maio de 2020?
. O seu partido é de inspiração tortskista. Trótski era
democrata?
- Orlando Cruz
- Já por três vezes no passado anunciou a sua candidatura
a Belém, mas nunca chegou a formalizar o processo junto do Tribunal
Constitucional. Se desta vez tiver o apoio do CDS, desiste?
- Tiago Mayan Gonçalves
. Tem um apelido muito curioso. Sugerimos-lhe um slogan: "De Mayan é que começa o dia".
- Tino de Rans
. Faça-nos rir. Se conseguir, votamos em si.
quinta-feira, 24 de setembro de 2020
APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #3
Meu reino por um cavalo!
William Shakespeare, "Ricardo III"
O meu reino por um varredor!
Samuel Beckett, "Jogo do Fim"
quarta-feira, 23 de setembro de 2020
APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #2
“Jogo do Fim” coloca em cena quatro personagens, duas delas dentro de caixotes do lixo. Nell e Nagg são os progenitores de Hamm, o cego em trono decadente à volta do qual tudo gira. Alfred Simon, crítico de teatro, autor de vários livros sobre Molière e Samuel Beckett, assinou no n.º 372 da Magazine Littéraire um artigo sobre “Fin de partie”. A certa altura conta que o poeta Ezra Pound, depois de assistir em Paris a uma representação da peça de Beckett, terá dito ao apontar para um dos caixotes do lixo em cena: «Sou eu… no inferno». Comenta Simon: «Beckett vai ao fundo de um certo horror de viver, daí que o caixote do lixo onde Nell se encontra e o comentário envergonhado de Pound sejam o desfecho pesado de uma comédia carnavalesca. “Nada mais ridículo do que a infelicidade.” Beckett disse recorrentemente ser esta a fala mais importante da peça». Na imagem, os caixotes do lixo com Nell e Nagg - ainda com margem de progressão.
terça-feira, 22 de setembro de 2020
A BALANÇA VAI NUA
Podemos partir do princípio de que se trata de uma brincadeira, uma partida inserida no contexto de regresso às aulas, recepção ao caloiro, praxes, essas coisas. Ou então é mesmo verdade e a insanidade assaltou por completo o mundo, infiltrando-se por todas as chamadas instituições clássicas, corroendo os alicerces que vão mantendo relativamente equilibradas as sociedades democráticas. Maçonaria e a Eterna Fêmea, o programa de um mestrado em Direito, é o título da notícia. Estive a ler o programa completo e fiquei interessado. A sério. Sempre tive interesse em compreender "a crítica da transformação de facto do Direito em torto". Não sei quanto se paga para aprender estas coisas, mas não há-de ser mais do que o valor despendido em biblioterapia ao longo de um ano. E por certo não terá a mesma graça curar uma dor de dentes a ler Beckett ou ser introduzido ao "torto tribal penal" através da "substituição da moral de Cristo pela imoralidade da besta". O que valem Kafka ou Joyce ou Ionesco diante da verve de um tal Francisco Manuel Fonseca de Aguilar, docente de Direito na torta Universidade de Lisboa? Dispenso-me de comentar toda a problemática marxista e feminista que o programa se propõe esmiuçar, até porque o meu interesse vai particularmente para o "julgamento dos crimes (e.g. dos genocídios) misândricos e cristofóbicos do socialismo de género e identitário pelo modelo da herança dos julgamentos de Nuremberga dos crimes anti-semíticos do socialismo racial". Há todo um leque de tópicos a ter em conta neste mestrado que encostam Kant às linhas. "Violência doméstica como disciplina doméstica", a título de exemplo, é ilustrativo do que estamos a falar. O que esperar do Direito (penal, no caso em apreço) quando nos deparamos com estes exemplares de lucidez e elevada cultura nas nossas universidades? Eu espero que se envesgue. E vocês?
segunda-feira, 21 de setembro de 2020
APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #1
Escrita entre 1954 e 1956, a peça "Fin de partie" veio a lume em 1957. A versão inglesa é do ano seguinte, com o título "Endgame". A primeira tradução para português, da responsabilidade de F. Curado Ribeiro, surgiu na Arcádia apenas em 1980. Não é de estranhar o atraso, por razões sobejamente conhecidas. Mais curioso é que a estreia deste trabalho de Samuel Beckett (n. 1906 – m. 1989) se tenha verificado em Londres, mas com a versão francesa. Paris não tinha sala que acolhesse a proposta dramatúrgica do futuro Nobel da Literatura. Na imagem vemos a capa da nova tradução, responsabilidade de Isabel Lopes, publicada pela Companhia das Ilhas e o Teatro da Rainha. Agora com o título "Jogo do Fim", em alternativa às convencionais traduções para "Fim de Partida" ou "Fim de Festa". Ao responsável pela primeira representação americana disse Beckett, algum tempo depois da estreia londrina: «é um puro divertimento. Nada menos. E nem pensar em enigmas e soluções. Para esses assuntos sérios existem as universidades, as igrejas, os cafés, etc».
domingo, 20 de setembro de 2020
UM POEMA DE DEREK MAHON
Da sua espécie, cada rosto esculpido em espírito
Surge diante de mim, olhos
Arruinados pela descoberta.
Tão ciumento andava eu da minha pele
E o mundo comigo. Como
É agora convosco?
Assim como os vermes que tão de perto vistes?
Talvez hajais descoberto que tendes de fazer fila
Para um bilhete de entrada no inferno,
Apesar dos vossos perfumes a louro.
Tagarelas aposentados que tolos não seriam—
Clérigos rurais frustrados
Que jamais alguém ordenaria.
Nenhum anseio após o álcool e as putas—
Fizestes a vossa parte
Em levar a natureza até à arte…
Cabelo e bocas juvenis presas a flores —
E ficai descansados, o dia
Será a luz do sol, e a noite
Um zeloso espectro de estrelas.
sábado, 19 de setembro de 2020
UMA CARTA DE AMOR
sexta-feira, 18 de setembro de 2020
Aderi ao Instagram por alturas de confinamento, para acompanhar o que a minha filha mais nova anda por lá a publicar com milhares de reacções. Não compreendo o Instagram, um álbum de fotografias a céu aberto depurado de acasos e de acidentes. É praticamente tudo encenado. Aparecem inúmeras mulheres em pose inclinada, geralmente decotadas, muito bem vestidas e penteadas e maquilhadas. Gosto de pensar que cheiram mal, só para as julgar reais. Não percebo a mania de tirarem selfies ao cu, mas não desgosto. Só não tenho paciência para as boquinhas em modo anal, nem para os gajos que fazem comentários do tipo "linda", "que sonho". Porra, onde param os grunhos do "comia-te toda"? A Internet está cheia de burgessos, mas no Instagram só me aparece gente elegantérrima. Desconfio saber o que pensam aqueles rapazes, mas tal como a artificialidade das fotografias exige pose também a artificialidade do discurso pede comedimento. Vou ler umas cartas de amor da Ofélia, que, sendo ridículas, sempre o são menos do que este diário exibicionismo online.
quinta-feira, 17 de setembro de 2020
ANTAS
Quitéria diz que se era para arrasar antas do neolítico, teria sido melhor começarem pelo Conselho de Estado.
quarta-feira, 16 de setembro de 2020
UM POEMA DE ALBERTO SERRA
terça-feira, 15 de setembro de 2020
PRIMEIRA LIGA
Cipriano anda pensativo. Quitéria quis saber porquê. Cipriano explicou-se: "Se o Sporting tiver sempre a equipa infectada, nunca joga. Logo, nunca perde. Se nunca perder, é campeão. Certo?" Quitéria também ficou cismática.
segunda-feira, 14 de setembro de 2020
UMA DÚVIDA
Sendo candidata à presidência da República, não seria mais ético a paladina da probidade suspender este espaço de opinião? Não será isto tempo de antena? Não estaremos aqui perante um caso de "concorrência desleal"? Afinal eram três dúvidas. Vai dar ao mesmo.
domingo, 13 de setembro de 2020
CABO DELGADO
Uma pesquisa no Google sobre Cabo Delgado deixa-nos perplexos. É como se nada se passasse. Precisamos de recuar meses para vislumbrar resquícios informativos do terror noticiado noutras paragens. Leio descrições desse terror no Facebook e dá-me um nó no estômago, na garganta, no corpo, na alma. Anda a gente entretida com a festa de aniversário da Cristina Ferreira. O que é feito dos jornalistas portugueses? É urgente falar de Cabo Delgado, colocar o tema na agenda internacional, tal como outrora foi feito com Timor. O que se está a passar naquelas terras também nos diz respeito, não só como seres humanos, mas pelas relações de proximidade com Moçambique. Devemos continuar indiferentes ao que se está a passar em Moçambique?
sábado, 12 de setembro de 2020
HONRA
Sempre me honrou não ser convidada para comissões de honra. Disse Quitéria, e eu faço minhas as suas palavras.
sexta-feira, 11 de setembro de 2020
A NOSSA MORTE
A notícia é
lacónica: Sean Bonney (
Bonney vivia há
cerca de cinco anos em Berlim, trabalhando num pós-doutoramento sobre a obra da
beatnik Diane di Prima (n. 1934). Julgo ter entendido bem, era investigador do
John F. Kennedy Institute for North American Studies na Free University de
Berlim. Poeta empenhado em diversas guerras cívicas, engajado nos movimentos libertários de
esquerda, praticante de uma “arte revolucionária”, por assim dizer, foi autor
de inúmeros panfletos e de alguns livros de poesia, foi crítico, com tese sobre
Amiri Baraka (o beat LeRoi Jones, com quem Diane di Prima teve uma relação), tendo-se estreado em livro em 2002 com volume
intitulado “Notes on Heresy”.
“A Nossa Morte”,
enriquecido na edição portuguesa com as ilustrações de Tiago Cutileiro, é um
livro angustiante. Foi publicado no ano em que o autor desapareceu e não
augurava nada de bom. A “Carta em Tumulto” que abre o conjunto, com referência
a Paul Celan, tem um remate que nos esmurra por dentro: «Estou a ver se ponho
fim a esta merda. Ando a estudar magia, utopia e armamento. Prometo manter-te a
par dos meus progressos». Segue-se um testamento intitulado “Da Escuridão
Profunda”. As missivas são dirigidas ao leitor, havendo na prosa de Sean Bonney
uma fúria, para com o estado do mundo em geral e para com a “ilha racista” em
que nasceu em particular, que nos impele para um labirinto onde niilismo e surrealismo
procuram debalde uma saída.
Cativo num
labirinto de referências literárias, musicais, filosóficas, políticas,
artísticas, Bonney esforça-se por entender a actualidade destilando um ódio
visceral à hipocrisia dominante. Os bois são chamados pelos nomes, mormente os
bois da contemporaneidade britânica que levaram ao brexit, num esforço
inquietante e porventura frustrado de autoconhecimento: «Porque o que quer que
seja que eu vejo quando me olho ao espelho, não é algo que esteja disposto a
aceitar» (das “Aproximações ao Inimigo Solar”). A atitude panfletária surge,
deste modo, sabotada por um desencanto e uma desesperança interiores que transformam o texto num frágil escudo protector contra a opressão social.
Maioritariamente
em prosa, estes textos encenam deambulações, rotinas, uma deriva interior que
não se imiscui de pedir de empréstimo a Artaud a célebre noção do “suicidado da
sociedade” para ilustrar a catástrofe que anuncia. Há um tom
apocalíptico neste livro que é indisfarçável, apocalipse sem expiação nem
redenção. Referências a Baudelaire, Rimbaud, Pasolini, reforçam apenas o
destroçamento interior e a solidão enquanto condenação do eu que despreza e é
desprezado pelo status quo: «Meu enorme amor, ninguém sabe ler a linguagem que
lá está escrita» (de “Abjecto (a partir de Baudelaire)”). A voz de satã que
ecoa nestes textos não é a voz do riso, da sátira, é a voz de um desgosto
insanável, é a voz de um torpor, de um coração espezinhado. Isto mesmo o torna testamentário,
com o seu inventário de referências a perecer diante das sobras de uma vontade
em ruínas: «Quem me dera ser como os insectos que vivem no vento e fazem coisas
espantosas com a seda, mas, em vez disso, estou para aqui a gritar, o que não
tem um caralho a ver com a magnífica seda tecida pelo riso dos insectos» (do “Livro
de Memórias (a partir de Miyó Vestrini).
Se há “literatura” capaz de nos esmurrar o estômago, ei-la forjada neste derradeiro livro do poeta britânico Sean Bonney. Ninguém sairá incólume de “A Nossa Morte”, como atesta o texto que oferece título ao livro: «Todos levados pelo terramoto». Desespero talvez seja o que se retém no final, um desespero que enfurece por nos colocar no centro onde embatem as forças e as fraquezas que se opõem dentro daquele que luta, espoletando um rebentamento interior, íntimo, do qual restam escombros sob a forma de poemas.
quinta-feira, 10 de setembro de 2020
ELES
Ela diz Fernandinho. Ele diz Ofelinha. Ela diz pompon. Ele diz bonequinha. Ela diz grande amor da minha vida. Ele diz amor pequenininho. Ela diz nininho. Ele diz bebé. Ela diz filhinho. Ele diz bebé-minininho. Ela diz velhinho. Ele diz bebé pequenissíssimo. Ela diz nininho dos meus pecados. Ele diz minha almofadinha cor-de-rosa para pregar beijos. Ela diz palminhas olaré palminhas. Ele diz beijos, beijinhos, beijões, beijicos, beijocas, e beijerinzinhos. Ela diz "Ena Pai do Céu o que para aqui vai de beijinhos de todos os feitios e tamanhos!" Ambos parecem desejosos de ir à Índia caçar pombinhos em cachecol apertado. Entendam como quiserem. Certo é que ficaram por não ir, o que não é exactamente o mesmo que não terem ido.
quarta-feira, 9 de setembro de 2020
AARON KLEIN
Paulo José
Miranda (n. 1965) é um escritor experiente que tem sabido articular a
publicação de colectâneas de poemas com uma obra ficcional sólida. A
estreia na poesia com “A voz que nos trai” (Cotovia, 1997) foi iluminada pelo prémio
Teixeira de Pascoaes, granjeando com o segundo romance, “Natureza Morta”
(Cotovia, 1999), a primeira edição do Prémio Literário José Saramago. “Aaron
Klein” (Abysmo, Frevereiro de 2020) é o seu mais recente romance. Falar de
romance ou de poesia no contexto desta obra apenas auxilia uma abordagem possível
a géneros distintos que, na verdade, se confundem nos livros deste autor. Há na
escrita de Paulo José Miranda um impulso reflexivo transversal a qualquer dos
géneros que pratique, pelo que tanto os versos como as histórias surgem quase
como pretextos para o exercício crítico do pensamento. Mais do que não ser
excepção, “Aaron Klein” é um interessantíssimo exemplo de como tudo isso se
equilibra numa prosa capaz de não hipotecar o filosófico respeitando um fio
narrativo estimulante e fazendo uso de uma linguagem deveras acessível: «A
grande literatura, dizem, faz-se com aquilo que nos é mais próximo, com os
vizinhos, o bairro onde se vive, a varanda de onde se olha, a cama onde se
sofre. Mas haverá algum lugar mais próximo de nós do que as nossas próprias
reflexões? Pensar é o exterior mais próximo. E quem disse que o próximo é real?
A realidade é um buraco negro que não deixa sair de lá nada, nenhuma luz,
nenhuma informação, nenhuma verdade. E nós não estamos mais ou menos próximos
da verdade, nós somos a verdade, cada um de nós, quer se esteja certo ou
errado» (p. 190).
Organizado em três partes (Lisboa, Telavive, Cancro), neste romance a história podia dizer-se secundária face aos temas abordados. No entanto, o périplo ensaiado pela geografia dos três monoteísmos, com a cidade de Lisboa enquanto centro simbólico onde historicamente confluíram judaísmo, cristianismo e islamismo, permite-nos acompanhar uma personagem na construção de outra personagem. Vera, nome que remete para verdade (será acaso?), é a filha adoptiva e improvável de Aaron Klein, judeu estudioso de Fernando Pessoa, com um historial familiar adverso e muita vontade de deixar descendência. É na sua companhia que vamos descobrindo a personagem que oferece nome ao romance. Vera é a verdade de uma ficção, por assim dizer, à maneira da “autopsicografia” pessoana, é a personagem-guia na busca de outra personagem. São os seus esforços que permitem traçar o perfil de Aaron Klein, tal como surge na belíssima capa de Rui Rasquinho.
O que é verdadeiro ou falso neste romance crivado de cartas, e-mails, testemunhos, intromissões de gente real tais como o escritor português Hélder Macedo ou o israelita Ricardo Ben-Oliel? A mais-valia da ficção é, precisamente, a sua capacidade para transcender a lógica do verdadeiro/falso, penetrando territórios especulativos que permitem abordagens espontâneas, libertas de constrangimentos históricos, a temas cuja complexidade jamais será redutível à enumeração de factos. Assim é com a oposição entre o bem e o mal, tema caro a Paulo José Miranda, ou, de modo mais lato, com a dúvida universal acerca do sentido da vida: «O que é a lógica, senão o exterior do nosso mais interior, a metáfora?» (p. 271) Klein é uma personagem em construção, vai emergindo da obscuridade a partir do empreendimento levado a cabo por Vera, a qual tem como interlocutores privilegiados personalidades reais ficcionadas e personagens ficcionais deveras realistas. Serão umas mais evidentes do que as outras ou tudo quanto se esconde por detrás de um nome nos escapa? Não será o outro a construção que dele fazemos? Não será um nome a cortina que esconde o universo?
Recordemos que este livro surge também no momento em que Paulo José Miranda se confrontou com a elaboração de uma biografia de Manoel de Oliveira, pelo que a problemática biográfica, assim como a questão da identidade, surgem plasmadas neste romance ensaístico, a par de uma abordagem ao mais profundo e grave conflito civilizacional das últimas décadas. Klein, que trabalhou como tradutor, é a versão personificada desse conflito entre a raiz judaica e as ramificações cristã e islâmica que assumiram especial relevância com o Holocausto e a fundação de Israel no pós-Segunda Grande Guerra. “O mundo partiu-se”, diz-nos, e desta fragmentação surde uma necessidade essencial, trágica tal como o era na Grécia Antiga: «A religião mata. O mar Morto é uma metáfora do planeta, daquilo em que o planeta se tem transformado à custa dos humanos e das suas religiões. Não há aproveitamento ilícito do nome de Deus. Não digam que Deus não tem culpa do aproveitamento que os homens fazem dele, ou do nome dele. Deus é ele mesmo ilícito. Infelizmente, e à imagem deste mar demasiado salgado, o que está a desaparecer não é Deus, mas o humano e o planeta que o abriga. Deus não morreu, como Nietzsche escreveu, mas terá de ser morto, se quisermos sobreviver» (p. 206).
terça-feira, 8 de setembro de 2020
UM POEMA DE DEREK MAHON
AVÔ
Ferido mas humorado. E logo recuperou.
Salas de caldeiras, filas e mais filas de pórticos abrindo-se
Para revelar a paisagem de uma infância
Que só ele pode reconquistar. Mesmo nas manhãs
Frias levanta-se às seis com um bloco de madeira
Ou uma caixa de pregos, discreto nas intenções
Ou martelando à volta da casa como se tivesse quatro anos —
Ouves o som das suas botifarras no corredor
E nelas ele chega, o mais querido possível. Cada noite
Os seus olhos argutos trancam a porta e acertam o relógio
Face ao futuro, depois a sua luz desaparece.
Nada lhe escapa; ele escapa-nos a todos.
sábado, 5 de setembro de 2020
DOIS POEMAS DE GONÇALO PERESTRELO
Gonçalo Perestrelo (n. 1991), in Tomo Banhos Imperadores (Douda Correria, Janeiro de 2020). A filiação literária de Gonçalo Perestrelo denuncia-se quando, a páginas tantas do livro “Tomo Banhos Imperadores”, diz: «Ligo-as: manhã-forte, tarde-fallorca, às tantas-cesariny». A dada altura Fallorca também é vento, porventura do que espalha sementes por uma terra onde a herança beat se enxertou com a raiz surrealista. Uma referência mais contemporânea ao poeta Rui Costa permite associar esta poesia ao gozo de misturar imagens dispersas, por vezes concentradas e encavalitadas em breves relatos que aparentam a busca de um fio condutor. Alternando o poema em verso com um bloco intermédio em prosa, Gonçalo Perestrelo faz da poesia um argumento contra a linearidade. A uma sintaxe disruptiva alia a arte do neologismo, alcançando, amiúde, estranhos estados visuais e sinestésicos onde a modernidade sufoca sob o peso de um imaginário antigo. Mais do que buscar sentido, parecem estes poemas ter interesse em rompê-lo. Se da conjugação de palavras intenta novos sentidos e significados, é com a justaposição e aglutinação de imagens que melhor consegue desenhar cenários poéticos onde real e onírico se confundem e nos cativam.
quinta-feira, 3 de setembro de 2020
CIDADÃOS CONTRA A CIDADANIA
quarta-feira, 2 de setembro de 2020
JORNALISMO PIMBA
Há dias apanhei a pivot Clara de Sousa à boleia do cantor
Emanuel num carrinho de golfe. Achei piada. Já não achei tanta piada ao ouvi-la
recitar um poema ao som de piano teclado pelo autor de “Baby, És Uma Bomba”.
Preferira que a pivot se dedicasse às receitas e à bricolage, deixando o pimba
em paz com Bruno Nogueira e companhia. O mundo não é perfeito. Quis o destino,
que tem as costas largas, que eu voltasse a ver Clara de Sousa em figuras
tristes poucas horas depois do episódio com Emanuel. Ontem, dando continuidade
a uma perseguição à Festa do Avante, que o canal para o qual trabalha tem
promovido com horas a fio de desinformação e de manipulação de notícias, opiniões
públicas e comentários sucessivos sem um segundo sequer de direito a contraditório,
Clara de Sousa introduziu mais uma peça de ataque à Festa com uma putativa capa
do The New York Times. Sucede que a capa era falsa, uma das muitas manipulações
da extrema-direita com a qual a SIC quis alinhar. O verbo querer é aqui
aplicado com propriedade. O Polígrafo, parceiro mediático da SIC, já havia
desmentido aquela capa horas antes de ela ser usada. O pedido de desculpas que
foi feito só prova quão mau pagador e sonso é aquele canal. Tratando-se de um
lapso, é sinal de incompetência atroz. Recordemos o episódio de Março, em que o
mesmo canal emitiu um vídeo de Londres, datado de 2011, como se fosse do ano
corrente. Ricardo Costa disse então: "A peça foi retirada do ar e
seguir-se-á um pedido de desculpas público. Foi um erro absurdo de falta de
verificação básica de um vídeo que estava a circular. Obrigado pelo aviso".
Sublinhemos: “erro absurdo de falta de verificação”. Pois bem, o mesmo erro
parece ter-se tornado regra da SIC. Ninguém verifica nada. O canal que pretendeu afirmar-se pela
competência informativa, trazendo para a linha da frente um Ferrão detector de
mentiras de Polígrafo em riste, brinda os seus telespectadores com duas fake
news, transformando-se, deste modo, num propagador de notícias falsas e sensacionalistas.
A “correiodamanhãzização” da SIC é uma evidência, com uma redacção de gente
disposta a fazer fretes em nome do sensacionalismo mais ordinário. O Opinião
Pública com Carneiro Jacinto do dia de ontem foi o prenúncio da desgraça total
de um canal afundado numa perseguição sem sentido. Quem tenha visto aquele
espectáculo deplorável, precedido dos comentários alienados de Bernardo Ferrão
no Jornal das 2 do dia anterior, apercebeu-se do que a figura triste de Clara
de Sousa veio apenas tornar claro como água: a SIC está-se nas tintas para a
informação. É toda ela entretenimento, espectáculo pimba ao serviço da mentira
e do populismo. Mais uma razão para ir à Festa do Avante, onde o crítico de televisão Mário Castrim será recordado para que nos lembremos todos de como as redacções de informação destes canais cederam às fúteis passadeiras vermelhas do espectáculo.
P.S.: e não esquecer o estranho caso do embarretado.
terça-feira, 1 de setembro de 2020
UM POEMA DE MAHMOUD DARWICH
III
Letras brancas num quadro preto inspiram o assombro do amanhecer no campo. Como água vagarosamente deitada num cântaro que nunca enche, absorveste a forma incompleta e o seu som torturando a garganta para a subjugar ao poder do signo, submetendo a boca ao que o olho vê.
Quando a uma letra se junta outra — quando a um absurdo se junta outro —, uma forma obscura desvenda a clareza de um som, e essa clareza lenta permite ao significado adquirir a forma de uma imagem. Três letras convertem-se numa porta ou numa casa. Logo, letras letárgicas, sem valor algum quando isoladas, constroem uma casa quando unidas.
Que jogo este! Que magia! O mundo nasce gradualmente das palavras. A escola torna-se o recreio da imaginação. E corres para ela com o regozijo daquele a quem é prometida a dádiva da descoberta. Não apenas para decorares a lição, mas para confiares no poder de dar nome às coisas. Tudo quanto está distante se aproxima. Tudo quanto está fechado se abre. Se não te enganares na ortografia de «rio», o rio correrá na folha do teu caderno. E também o céu se converterá num dos teus haveres se não errares no ditado.
Tudo quanto está para lá do alcance das tuas minúsculas mãos delas será propriedade se adquirires a mestria da escrita sem defeito. Quem escreve uma coisa, possui-a. Cheirarás o perfume da rosa na tā´ final que se abre como um botão. E saborearás a amora de duas maneiras: na tā´ unida e na que está aberta como a palma da mão.
As letras estão à tua frente, liberta-as da sua neutralidade e brinca com elas como quem abre caminho no delírio do universo. As letras são inquietas, anseiam por uma imagem, e a imagem é ávida de significado. As letras são potes de barro vazios, enche-os com o desvelo da primeira conquista. As letras são um apelo mudo em seixos dispersos no caminho para o significado. Esfrega uma letra contra outra e uma estrela nascerá. Aproxima uma letra de outra e ouvirás o som da chuva. Põe uma letra em cima de outra e verás o teu nome desenhado como uma escada com poucos degraus.
Todas as letras esperam a forma, o ser, procuram a mão destra que crie a necessária harmonia. Apenas precisas de dar nome com a tua mão aos seres que já conheces e aos que mais tarde se te apresentarão.
A forma isolada da letra nuun fascina-te como uma tigela de cobre capaz de guardar uma lua cheia. Ecoa e anseia pela plenitude, todavia nunca a logra. Nunca pára de ecoar, por mais que se afaste, ou por mais que tu te afastes. Crescerá em ti e tu nela. Devolve-te o ânimo e aquieta-te as ansiedades como um amor persistente, aproximando-te dos outros. O nuun feminino, o dual e o plural, o coração do anā, as asas livres do nahnu. A al-Rah mān levar-te-á à fé tomado de júbilo, pelo que amarás a Deus e te livrarás da inquietação da primeira pergunta: Quem criou Deus?
Amas a poesia, e o ritmo que a letra nuun incita transporta-te a uma noite branca. Palavras que transformam a paixão de um cavaleiro: antes amava fazer guerra por um poço, agora fá-la por uma princesa raptada na terra dos génios. A história é sempre falha sem a trindade que o cavalheirismo, a poesia e o amor formam. Destinos com os quais tanto a espada como o poema lutam, em que nenhuma vitória é possível a menos que ambos estejam juntos. Nenhuma tribo triunfou sem poeta e nenhum poeta triunfou sem ter sido derrotado no amor.
Quando os últimos convidados na reunião em casa do teu avô saem e ele te leva para a cama, as velhas histórias já te preparam para lhes prolongares a imaginação nos sonhos. Umas vezes, continuarás as batalhas de Antara; outras, as de al-Muhalhil. Entrarás em divisões que desconheces à medida que uma história convida outra nas intermináveis noites de Xerazade. Tornas-te parte de uma história num mundo mágico que em nada se assemelha ao que te rodeia.
E assim nasceu em ti o fascínio pelo ritmo e pelas histórias.
Estavas num lugar remoto e desconcertou-te o fio rompido entre realidade e imaginação, entre guerra narrada e guerra testemunhada.
Uma tarde, viste as mulheres do bairro em vaivém excitado; transportavam na cabeça sacos cheios de pedras que amontoavam nos telhados como munições. Os homens estavam ocupados a martelar pregos nas pontas dos paus. «O que é que se passa?», perguntaste. Disseram-te: «Amanhã de manhã começa uma guerra entre os dois grandes clãs da povoação. Temos os nossos parentes como aliados e eles também têm aliados. Mas triunfaremos.» Não perguntaste qual o motivo da guerra. Seria talvez o tédio ou a disputa da sombra de uma árvore, ou talvez consequência de uma história inventada. Todavia a batalha, que se prolongou até à noite, não teve mortos nem vitória. Abriu as portas do cárcere aos combatentes e fechou a porta das histórias em casa do teu avô. Choraste a pobreza das noites e tiveste de completar as histórias sozinho, na medida dos teus sonhos, sem narradores nem ajudantes!
Quanto às letras brancas no quadro preto, racharam como cal bolorenta por culpa de um pesadelo que te perseguiu até à escola: O meu pai morreu? Quando o professor te perguntou: «O que significa esta frase? “Espera até o carro passar.”», respondeste distraidamente: «Significa que, se vir um carro na estrada, não devo avançar antes de o carro buzinar.» O professor riu: «O que é que “passar” tem a ver com “buzinar”?» Replicaste: «Não é a mesma coisa? Os carros buzinam quando passam.» Repreendeu-te: «”Passar” significa “atravessar”.» Ainda hoje, sessenta anos depois deste revés linguístico, ouves a buzina de cada vez que escutas e lês a palavra «passar». Ris de ti para contigo do dom que os nossos primeiros erros têm de ficar gravados em pedra. Perguntas: Quando me curarei da definição do todo pela parte? A pena não é o pássaro, a árvore não é a floresta, nem a soleira a casa.
Mas as palavras são seres. O jogo enfeitiçar-te-á até dele fazeres parte. Passarás a vida a defender o direito que o jogo tem de te atrair para o labirinto enquanto ao trais para o humor. Lês sem compreenderes o que lês, portanto lês mais, desfrutando do talento das palavras para o desvio do mundano. As palavras são ondas. Aprendes a nadar seduzido por uma que te cobre de espuma. As palavras têm o ritmo do mar e o chamamento do mistério: Vem a mim em busca do que desconheces, vozeou-te o azul. Salvaram-te a sorte e quem vigiava a praia da separação definitiva do som das palavras. A alforreca continuou a picar-te, mas nunca perdeste o amor ao mar, a fonte do ritmo primordial. Como pode o mar ser aprisionado em três letras, a segunda das quais transborda de sal? Como podem as letras ser tantas palavras? Como podem as palavras ter espaço suficiente para abarcar o mundo?
Cresces devagar e facilmente. Desejas poder saltar mais depressa na corrida rumo a um amanhã no qual domarás as palavras e declamarás poesia zelosa, impelido pela força do amor e pelo dever de defender a tua tribo. O que é secreto e está escondido desvenda-se quando as palavras se revelam à consciência. Não é um jogo, como julgavas, mas o manifesto que observa o latente e o latente que emerge no manifesto. Convertes-te nas palavras e as palavras convertem-se em ti. Não sabes a diferença entre enunciador e enunciação. Chamarás ao mar um céu invertido; e o poço, o cântaro que protege o som do vento; e ao céu, o mar que pende das nuvens.
Há algo envolto em mistério. Não pode ser cheirado, tocado, provado nem visto. É o que faz da infância um sexto sentido. Chamaram-te «sonhador» pelas tantas vezes que deste às palavras asas que os adultos não viam. Provocaste o mistério e converteste-te em estrangeiro.
Ergue-te deste branco!
Volta a ser criança. Ensina-me a poesia. Ensina-me o ritmo do mar.
Restitui às palavras a sua inocência primeira. Faz-me nascer de um grão de
trigo, não de uma ferida. Faz-me nascer e devolve-me a um mundo anterior ao
significado para que possa abraçar-te na erva. Ouves-me? A um mundo anterior ao
significado. As árvores altas caminhavam connosco enquanto árvores, não
enquanto significado. A lua despida rastejava connosco. Uma lua, não um prato
argênteo. Volta a ser criança. Ensina-me a poesia. Ensina-me o ritmo do mar.
Toma-me pela mão para que possamos atravessar juntos o abismo que separa a
noite do dia. Juntos aprenderemos as primeiras palavras e construiremos um
ninho secreto para o pardal, o nosso terceiro irmão. Volta a ser criança para
que eu possa ver o meu rosto no teu espelho. Tu és tu? Eu sou eu? Ensina-me a
poesia para que eu possa escrever-te uma elegia agora, agora, agora. Como tu ma
escreves a mim!
Mahmoud Darwich, in Na Presença da Ausência, tradução de Manuel
Alberto Vieira, Flâneur, 1.ª edição, Outubro de 2018, pp. 27-32.
Notas: Tā´: terceira letra do alfabeto árabe. Nuun: vigésima quinta letra do alfabeto árabe. Na grafia árabe, assemelham-se, respectivamente, a uma rosa e a uma tigela. Al-Rahmāan (O Misericordioso): 55.ª sura do Alcorão, caracterizada pela musicalidade (e rima) da letra nuun. Mahmoud Darwich nasceu em al-Birwa, localidade palestina na Galileia. Aprendeu a ler com o avô. Depois de as tropas israelitas invadirem a povoação onde vivia, em 1948, a família fugiu para o Líbano. Mais tarde fixaram-se em Deir al-Asad, uma cidade árabe da Galileia. Publicou o primeiro livro de poemas com apenas 19 anos. Deixou Israel para estudar na União Soviética, juntando-se posteriormente à Organização para a Libertação da Palestina. Foi então proibido de voltar a entrar em Israel. 30 livros de poesia publicados fizeram dele um dos mais relevantes autores da literatura árabe contemporânea, traduzido em inúmeras línguas e com diversos prémios amealhados. Padecendo há muito de problemas cardíacos, faleceu no dia 9 de Agosto de 2008. Originalmente publicado em 2006, “Na Presença da Ausência” é um livro inclassificável no género. Poema em prosa onde confluem memórias e pensamento político, testemunhos dolorosos do exílio e belíssimas metáforas da infância e do passar do tempo, ecoando aqui e acolá os males da guerra e reflexões acerca da identidade, da morte. Uma linguagem metafórica, nostálgica, elegíaca, que não abdica de uma inscrição no processo histórico: «Escreverás, pois, sobre História, não sobre mito.» Escritos em prosa, os textos deste livro encerram por vezes com versos onde não se nota qualquer diferença em termos de variação rítmica. A voz que ecoa no imo das frases assombra-nos, quer pelo tom auto-reflexivo e biográfico de algumas passagens, quer pelas paisagens que vai evocando com simplicidade. Extraordinário livro onde à metáfora é atribuído o dom de tornar presente o ausente.














