O PM foi claro. Fastidiosamente claro e objectivo. O que chamar aos jornalistas que falam em confusão? Serão burros? Asnos? Ou estarão interessados em confundir? Subitamente, parece que voltei a estar numa reunião de professores. Todos a discordarem uns dos outros dizendo as mesmíssimas coisas. Que tédio.
sábado, 31 de outubro de 2020
sexta-feira, 30 de outubro de 2020
MUNDO DA TRETA
Se os negacionistas são uma espécie esquisita, os que acreditam em tudo não o são menos. Tenho-me lembrado de alguns posts do Pedro Mexia sobre leitores que acreditavam em tudo quanto ele publicava nos weblogs, como se aquele registo de desabafos quotidianos fosse um confessionário. Eram posts divertidos. O fenómeno das fake news veio tornar tudo menos divertido. A verdade é que os incrédulos são meia dúzia de tontos, perfeitamente identificados, cuja capacidade de influenciar comportamentos é diminuta, mas os crédulos sem espírito crítico são em maior número e, sem dúvida, mais perigosos. Este mundo da treta é deles. Onde pretendo chegar? Aqui: desconfiem, estudem. E sejam humildes em matéria de conhecimento. Há sempre algo que nos escapa.
JURAMENTO DE HIPÓCRITAS
Então como estamos de Fórmula 1? A JSD foi colar
cartazes? O Ferrão pronunciou-se? A SIC fez 1001 reportagens com 1002
indignados? E como estamos em matéria de ondas gigantes na Nazaré? Marcelo quis
planos de contingência tornados públicos? É só para saber.
quinta-feira, 29 de outubro de 2020
A QUEM PERTENCE A LINHA DO HORIZONTE?
como é?
Ser peixe e abelha
como é?
E como é
ser homem?
EM RESUMO
A minha verdade é simples. Em morrendo, lamentaria apenas, se é que um morto pode lamentar alguma coisa, os livros que queria ler e não li, as viagens que não fiz e devia ter feito, o concerto do Tom Waits a que não assisti. O resto é resto.
quarta-feira, 28 de outubro de 2020
terça-feira, 27 de outubro de 2020
O ÚLTIMO A RIR
O PSD foi a barriga de aluguer que gerou Ventura. É história. Depois de todas as patifarias vindas a lume, já com a base ideológica claramente clarificada, o Chega tem merecido a compreensão de Rui Rio. O episódio de hoje é sintomático do que se passa na política portuguesa. A crise está aí, Ventura ri e até é provável que esfregue as mãos de contentamento. Nos Açores, acabou de almejar mais dois tachos para cozinhar o seu ideário populista, racista, xenófobo, elitista. Em suma, ideário fascista. Rui Rio acompanha Ventura nos risinhos quando Jerónimo se levanta para falar no parlamento. Percebe-se quem está no lado da responsabilidade, pensando nas pessoas, e quem se instalou no lado da politiquice, pensando em benefício próprio. Ventura ri. Rio ri. Jerónimo diz que não acha graça nenhuma. Eu também não, e desconfio que para lá das paredes do parlamento sejam poucos os portugueses a achar alguma graça a estes tempos que estamos a viver.
UM HUMANISTA
Quando a II Grande Guerra rebentou, voluntariou-se para
conduzir uma ambulância. Residente em Paris, viu França ser ocupada pelos
nazis. Juntou-se à Resistência. Depois da Guerra foi para a Normandia, Capital
das Ruínas, como lhe chamavam os franceses, ajudar num Hospital da Cruz
Vermelha. Era um humanista.
segunda-feira, 26 de outubro de 2020
WEST END BLUES (1928)
Estive com ele até ao fim,
recolhi cada um dos seus dentes, compilei-os numa caixa de bombons. Hoje, se pretendo
lembrá-lo, abro a caixa e vejo-o sorrir com os dentes à mostra. Não guardo
nenhuma imagem da boca vazia, excepto quando aflora ao pensamento sem que eu pretenda.
Aí, a imagem que se desenha na página é a de um buraco negro. Inclino-me
à escuta, de olhos fechados, e sinto vibrar um som que vem das profundezas do
corpo. Então canto e a morte transforma-se numa melodia agradável. Um som gerado
no âmago da terra percorre os corredores do tempo e liberta-se no ar como um
perfume. Aceito a morte como a um doce.
domingo, 25 de outubro de 2020
DIANE DI PRIMA (1934-2020)
sábado, 24 de outubro de 2020
E EU QUERO DORMIR AO TEU LADO E FAZER-TE AS COMPRAS E CARREGAR-TE OS SACOS E DIZER-TE QUANTO ADORO ESTAR CONTIGO MAS ELES QUEREM QUE EU FAÇA COISAS ESTÚPIDAS.
e sentar-me nos degraus a fumar até o teu vizinho chegar a casa e se sentar nos degraus a fumar até tu chegares a casa e preocupar-me quando estás atrasado e ficar surpreendido quando chegas cedo e dar-te girassóis e ir à tua festa e dançar até ficar todo negro e pedir desculpa quando estou errado e ficar feliz quando me desculpas e olhar para as tuas fotografias e desejar ter-te conhecido desde sempre e ouvir a tua voz no meu ouvido e sentir a tua pele na minha pele e ficar assustado quando estás zangada e um dos teus olhos vermelho e outro azul e o teu cabelo para a esquerda e o teu rosto para oriente e dizer-te que és lindíssima e abraçar-te quando estás ansiosa e amparar-te quando estás magoada e querer-te quando te cheiro e ofender-te quando te toco e choramingar quando estou ao pé de ti e choramingar quando não estou e babar-me para o teu peito e cobrir-te à noite e ficar frio quando me tiras o cobertor e quente quando não o fazes e derreter-me quando sorris e desintegra-me quando te ris e não compreender por que é que pensas que eu te estou a deixar quando eu não te estou a deixar e pensar como é que tu podes achar que eu alguma vez te podia deixar e pensar em quem tu és mas aceitar-te na mesma e contar-te sobre o rapaz da floresta encantada de árvores anjo que voou por cima do oceano porque te amava e escrever-te poemas e pensar por que é que tu não acreditas em mim e ter um sentimento tão profundo que para ele não existem palavras e querer comprar-te um gatinho do qual teria ciúmes porque teria mais atenção que eu e atrasar-te na cama quando tens de ir e chorar como um bebé quando finalmente vais e ver-me livre das baratas e comprar-te prendas que tu não queres e levá-las de volta outra vez e pedir-te em casamento e tu dizeres não outra vez mas eu continuar a pedir-te porque embora tu penses que eu não estou a falar a sério eu estou mesmo a falar a sério desde a primeira vez que te pedi e vaguear pela cidade pensando que ela está vazia sem ti e querer aquilo que queres e achar que me estou a perder mas saber que estou seguro contigo e contar-te o pior que há em mim e tentar dar-te o meu melhor porque não mereces menos e responder às tuas perguntas quando deveria não o fazer e dizer-te a verdade quando na verdade não o quero e tentar ser honesto porque sei que preferes assim e pensar que acabou tudo mas ficar agarrado a apenas mais dez minutos antes de me atirares para fora da tua vida e esquecer-me de quem eu sou e tentar chegar mais perto de ti porque é maravilhoso aprender a conhecer-te e vale bem o esforço e falar mau alemão contigo e pior ainda em hebreu e fazer amor contigo às três da manhã e de alguma maneira de alguma maneira de alguma maneira transmitir algum do / esmagador, imortal, irresistível, incondicional, abrangente, preenchedor, desafiante, contínuo e infindável amor que tenho por ti.
Sarah Kane, in Teatro Completo, da peça Falta, tradução de Pedro Marques, Campo das Letras, 3.ª edição, Novembro de 2007, pp. 239-241.
sexta-feira, 23 de outubro de 2020
UM POEMA DE SOUSA FERNANDO
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
UM POEMA DE JOÃO HABITUALMENTE
quarta-feira, 21 de outubro de 2020
FORA DO SÍTIO
O livro traduzido por João Paulo Esteves da Silva é uma versão possível para Here nor There (1999), título cuja transposição para língua portuguesa seria sempre problemática. Explica o tradutor tratar-se de uma expressão idiomática «que, em inglês, se pode empregar para descrever, criticando, um despropósito». No fundo é como dizer “isso não tem nada a ver com nada”, ou "não é carne nem é peixe". Curioso título para poemas que tão directamente nos enviam para as raízes irlandesas do autor, o qual se mudou para Inglaterra aos 16 anos e por lá foi aprofundando estudos em literatura inglesa. Estreou-se na poesia em 1984, desenvolvendo, desde então, um estilo elegíaco onde um lirismo de tipo clássico convive naturalmente com a modernidade.
Os poemas de Fora de Sítio estão pejados de referências a lugares e a pessoas que julgamos pertencerem a um ideário pessoal, porventura íntimo, que faz sobressair com nostalgia as raízes do autor e estimulam uma interrogação acerca de um suposto idílio perdido. Estar fora de sítio é a condição do exilado, seja ele voluntário ou não, é a condição de todo o ser que de algum modo se acha desenraizado e dessintonizado. Mitos irlandeses, memórias da infância, ressonâncias de uma convivência arreigada ao mundo natural emergem em poemas que narram histórias, evocam momentos e circunstâncias, por vezes num tom surpreendentemente irónico. É o que sucede no poema intitulado Conservante: «Se é verdade que o gelo derrete depressa, / Com a luz directa dos raios solares, / E deixamos de ver o sítio onde esteve, / Também há lugares de sombra / E abrigo — em juncais / Ou em sebes — onde ele permanece / Quase até ao meio-dia. E tu, no teu vestido / Cinzento, também estás a desaparecer, / Excepto nos momentos de sombra / Em que o teu rosto é visto em pleno, / Talvez por o teu último beijo na face / Ter sido frio como moeda corrente» (p. 37).
Muito comum na poesia irlandesa, sobretudo na produzida por uma certa diáspora que fez do poema uma espécie de remédio para o afastamento das origens, a ideia de regresso a casa vislumbra na expressão here nor there/fora de sítio a representação ideal para um sentimento difícil de exprimir. Num dos últimos poemas do livro, as casas avistadas na paisagem, mais do que lugares de pertença, são pontos de identificação onde a “sensação de Irlanda” desperta e assoma ao espírito: «Aquela dor fina que se julgava esquecida — / Mais fumo, certamente, do que chama; / Menos choro do que chuva. E o facto de isto tudo ser / Descabido, estar fora do sítio, e ser, por isso mesmo, a casa» (p. 59). Falar de uma “sensação de Irlanda” é, de algum modo, assumir uma condição estrangeira, a qual, nestes poemas, é também o ponto de partida para algo mais profundo, isto é, um certo desconforto que advém de se sentir fora do lugar. Porventura distante, porventura isolado, talvez solitário, estar fora do lugar pressupõe uma ordem, uma organização, de que não se faz parte. Leituras políticas ou ontológicas são legítimas, conquanto não se pretenda reduzir o poema a nenhuma delas:
Herbert MacCabe
De satisfação é não ter de
Fazer coisas. Por isso, em modo de férias,
Decidi fingir que não sou daqui da cidade,
Que estou apenas de passagem.
Compro, por exemplo, uma sanduíche e um cappuccino,
E encosto-me a uma árvore, no quintal,
A apanhar ar e a observar os indígenas:
Estes peregrinos, por exemplo, como a carqueja
Que, apesar da sua reputação de idiota
Sabe o que faz quando desce
Pela margem para abraçar o próprio reflexo
E nadar para longe, com ele. No alto
Posso ver o ventre prateado
Duma revoada de pombos. Ou, então, podia visitar
A zona comercial para sentir na pele
Algo em que muitas vezes reparei: o estranho eco
Do guincho do falcão nas caixas do supermercado.
terça-feira, 20 de outubro de 2020
PRESIDENTES
Fiz uma pesquisa por “naked presidentes” e os resultados foram confrangedores, o Google envia-me directamente para um livro. Que maçada. É preciso escarafunchar a memória para entender o statement de Marcelo. Há naquela pose-de-estado-para-levar-vacinas um gesto pedagógico, não fosse o presidente professor. Marcelo quis dar o exemplo, quis dizer aos portugueses que deviam despir-se de preconceitos e abraçar a vacinação com o maior à-vontade possível. É muito mais pedagógico do que andar a espreitar maminhas em praias de nudistas, passear acabrunhado de t-shirt molhada ou trepar coqueiros. O problema de Marcelo é que aparece muitas vezes nu. Passámos o verão a vê-lo nu, em versão “Marés Vivas”, entra pelo Outono nu, em versão “Anatomia de Grey”. Temo pelo que possa suceder no Inverno. Espero e desejo, sinceramente, que não tenha de ir fazer uma avaliação da próstata.
segunda-feira, 19 de outubro de 2020
DECLARAÇÃO DE VOTO
Quitéria diz que vota na Marisa Matias se ela for levar a vacina contra a gripe e se despir da cintura para cima. Tem de ficar registado por televisões e câmaras fotográficas, não vale fazer batota. Na Ana Gomes não vota nem com nus integrais.
DE HUMILHADA A ELEITA
Aquando do golpe, a imprensa portuguesa patrocinou todo o
tipo de notícias. Agora que o golpe foi pelo esgoto com eleições democráticas,
assobia-se para o lado. É sempre assim. A indiferença para com o que se vai
passando no Chile também é sintomática do "seleccionismo" que
determina as opções dos nossos jornalistas, que só têm olhos para o Guaidó da
Venezuela e congéneres protegidos do "trumpismo". É bom que nos
interroguemos porquê, até pelo tipo de perguntas que fazem a João Ferreira e não
fazem a outros candidatos à Presidência da República Portuguesa. Na Imagem está
Patricia Arce Guzman, humilhada publicamente há um ano, agora eleita senadora
por Cochabamba.
domingo, 18 de outubro de 2020
[ALCOOLISMO ALUCINATORIO]
— Vive satisfeito?
— «Ora! Aonde chego, ha sempre desgraça. Chego a Lisboa, greve de electricos. Chego ao Telhal, fogo em Sintra. Venho num comboio, a maquina perde vapor.»
— Gosta de aqui estar?
— Não desgosto...
— Mas, para eu estar em Portugal
sábado, 17 de outubro de 2020
PAPAS
"Nunca gostei de papas. Nem de aveia, nem de milho, nem de sarrabulho, nem de batina." Escutado a Quitéria.
sexta-feira, 16 de outubro de 2020
TRANSFERÊNCIA
Miguel Esteves Cardoso mudou da Porto Editora para a Bertrand. Quitéria tem uma designação para este tipo de transferências: jogar ping-pong com a parede.
quinta-feira, 15 de outubro de 2020
7 MILHÕES DE PORTUGUESES TÊM SMARTPHONE
A notícia é de 2018, agora não sei como será. Eu tenho há pouco mais de um ano, não há dia em que não me arrependa. Isto vem a propósito da hipotética obrigatoriedade de uma App. Quem tem o smart, aplica. Quem não tem, não aplica. É simples. Mas se 7 milhões aplicarem, talvez isso possa fazer alguma diferença. Deve ser este o raciocínio de quem nos governa. Eu ainda não apliquei, pois não consegui perceber a vantagem e nenhuma garantia me foi dada sobre protecção de dados. Eis o que é preciso explicar às pessoas: qual a vantagem e se estão protegidas. O resto é chiste.
quarta-feira, 14 de outubro de 2020
ESTUDASSEM
É a terceira vez que Quitéria vai ao Lidl (aquele que fica ao pé do cemitério), tenta desinfectar as mãos e depara com o dispensador vazio. Já escreveu para a DGS a sugerir que aproveitem uns vídeos da Festa do Avante para explicar como se deve fazer. Podiam passar na SIC, por cima dos comentários inúteis do Marques Mendes.
terça-feira, 13 de outubro de 2020
JOGO DO FIM
segunda-feira, 12 de outubro de 2020
APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #8
Entre as inúmeras peripécias que se contam acerca da estreia de “Fin de partie”, há a escolha dos intérpretes que fariam de Nagg e Nell. Os ensaios decorriam com Roger Blin e Jean Martin, mas sem actores dispostos a interpretar um casal confinado em caixotes do lixo. Vários actores abordados queixaram-se a Blin que o texto era bom e seria uma honra trabalharem juntos, mas podia ser o último papel que desempenhariam em palco. Ficar para a história dentro de um caixote do lixo não era risco que se corresse. Georges Adet não pensou assim, fez de Nagg tanto em Londres como em Paris. Conta James Knowlson, in “Damned to Fame - The Life of Samuel Beckett” (Bloomsbury, 1997, p. 434): «Adet era bastante velho e desempenhou o papel sem dentadura. Ensaiava com dentes, mas, no decorrer da actuação, uma vez colocado dentro do caixote do lixo, tirava a prótese e guardava-a num lenço. Com os dentes removidos, o rosto afundava dramaticamente para dentro e o lábio inferior curvava-se na boca de um modo senil. O público costumava perguntar, com admiração e espanto, como conseguia ele alcançar aquele efeito notável, já que, chamado ao palco no fim das actuações, ressurgia com os dentes no lugar, rasgando deliberadamente um enorme sorriso durante os aplausos» (tradução minha).
domingo, 11 de outubro de 2020
SERÁ DOENÇA?
Hoje estive a olhar para as estatísticas do weblog. Um fenómeno curioso é raros serem os posts sobre música, ficção, cinema, teatro, filosofia ou mesmo política que geraram polémica e discussões acérrimas com comentários anónimos. Só a poesia gera indignação por estas bandas. Com tiragens raramente superiores a 300 exemplares, um espectro de leitores que se conhecem praticamente todos uns aos outros, dezenas de pequenas editoras a publicarem centenas de livros todos os anos, é do domínio do fantástico as doses de fel produzidas entre poetas e leitores de poesia. Será doença?
QUEM DÁ MAIS
Quem é que vai chegar-se à frente com o primeiro livro de Louise Glück em português? Assírio & Alvim, Relógio D'Água, Tinta-da-China? Porto Editora, Bertrand? Entretanto encontrei poemas traduzidos para português (de Portugal) nos weblogs "Do Trapézio, Sem Rede", "Enfermaria 6", "O Melhor Amigo" e "Rua das Pretas". Quem dá mais? Seria lindo que aparecesse numa pequena editora.
sábado, 10 de outubro de 2020
PRÉMIOS
Vem na Wikipédia: "Os seguintes prémios são concedidos anualmente: Nobel de Física (decidido pela Academia Real das Ciências da Suécia), Nobel de Química (decidido pela Academia Real das Ciências da Suécia), Nobel de Fisiologia ou Medicina (decidido pelo Instituto Karolinska de Medicina), Nobel de Literatura (decidido pela Academia Sueca), Nobel da Paz (decidido por um comitê designado pelo parlamento norueguês), Prémio do Banco Central da Suécia de Economia em memória de Alfred Nobel (decidido pela Academia Real das Ciências da Suécia)". Infelizmente, só o da Literatura gera discussão. O público das redes sociais é parco em conhecimentos de Física, Química e Medicina. De Literatura sabem muito, ou julgam saber, ou acham que é suposto saber. Não sei. Este ano, o da Paz foi atribuído ao Programa Alimentar Mundial (PAM). Também não é tema que gere grandes debates ou discussões. Quem quer saber da fome no mundo?
sexta-feira, 9 de outubro de 2020
AUTOBIOGRAFIA DO VERMELHO
Depois de vencer o Prémio Princesa das Astúrias das Letras em Junho passado, a poeta canadiana Anne Carson (n. 1950) foi apontada como uma das principais candidatas ao Nobel da Literatura. Acabou por ser Louise Glück a contemplada, poeta de língua inglesa que não está publicada em livro por cá. De Anne Carson existem dois livros na não (edições), “A beleza do marido” (Fevereiro de 2019), com tradução de Tatiana Faia, e este “Autobiografia do Vermelho" (2.ª edição, Novembro de 2017), com tradução conjunta de João Concha e Ricardo Marques. Teria sido curioso ver o mais aguardado prémio literário do ano atribuído a uma poeta publicada por uma editora sem distribuição na maior rede livreira do país. Mais tarde ou mais cedo será um facto, tendo em conta o panorama geral. Empenhados na novidade descartável, editores financeiramente robustos insistem em desperdiçar papel com decalques do pior que atola o espaço das livrarias. Degeneradas em meras lojas que vendem livros, a maioria das livrarias curva-se a esta ânsia do best-seller que dita o mercado. Mais gritante é tal realidade tratando-se de poesia, pelo que não estranhemos encontrar no catálogo de uma pequena editora os dois únicos livros traduzidos para português de uma das mais prestigiadas poetas da actualidade.
Romance em verso, para respeitar a designação em subtítulo, ou poema-romance, “Autobiografia do Vermelho” foi originalmente publicado em 1998. Natural de Toronto, Carson dedicou-se desde cedo ao estudo dos clássicos gregos. Traduziu Homero, Sófocles, Eurípedes, Safo, entre tantos outros. “Autobiografia do Vermelho” reflecte este trabalho académico, desde logo na configuração mitológica da narrativa, mas também enquanto afirmação de um tempo que transcende as metas fixas da história. Veja-se como o período de vida de Estesícoro surge delineado no proémio: «Ele surgiu depois de Homero e antes de Gertrude Steine, um intervalo difícil para um poeta» (p. 9). Ao poeta grego foi Anne Carson buscar o mito de Gerião, gigante com três cabeças e três troncos, de cor vermelha, habitante de Erítia (cujo significado é “O Lugar Vermelho”). Gerião é a personagem central desta “autobiografia”, título irónico e provocador num livro onde sujeito poético ou narrador lírico são compostos de personalidades emaranhadas.
A voz de Anne Carson surge acompanhada de ecos diversos que a povoam enquanto componentes distintas de um mesmo sangue. A cor vermelha, de resto, pode remeter exactamente para essa consanguinidade literária onde convivem mitologia grega e ameríndia, Emily Dickinson, Gertrude Stein e Virginia Woolf, num complexo de metamorfoses que tudo interliga. O Gerião de “Autobiografia do Vermelho” move-se em espaços diversos, por vezes oníricos, outras vezes identificáveis, entre acções cuja contemporaneidade está intimamente ligada a uma carga hereditária ancestral: «A autobiografia, / em que Gerião trabalhou desde os cinco anos até aos quarenta e quatro, / tinha tomado recentemente a forma / de um ensaio fotográfico. Agora que sou um homem em transição, pensou Gerião / usando a frase que aprendera de — / a porta atingiu a parede assim que Héracles a abriu com um pontapé e entrou / segurando um tabuleiro com duas chávenas e três bananas. / Serviço de quartos, disse Héracles procurando um espaço para pousar o tabuleiro» (p. 66).
A genealogia do monstro alado confunde-se com a daqueles que, segundo a mitologia ameríndia, conhecem o interior dos vulcões e de lá regressam para contar como é. Esta descida aos infernos, por assim dizer, tem qualquer coisa de revelador acerca da criação artística propriamente dita. Seja através da comédia, seja através da tragédia, a criação corresponde a um desdobramento, o que equivale a um processo de despersonalização que podemos identificar com uma espécie de morte. Por cá, Ruy Belo disse-o de modo assertivo num “breve programa para iniciação ao canto”. Gerião refugia-se na fotografia — a arte de fixar instantes —, amaldiçoado por uma infância desprotegida no seio de uma família disfuncional. Acaba envolvido num triângulo amoroso homossexual on the road pelo sul da América. Mitológico, lendário, mas ao mesmo tempo deveras actual, a personagem central desta autobiografia é uma cor que é um corpo que é um som: «O som / era quente como o interior de uma cor» (p. 117). Carson respeita a tradição ao humanizar o monstro, recolocando-o numa paisagem humana que em tudo se assemelha à do nosso tempo histórico. Um tempo de heróis sem nome, acrescente-se.
quinta-feira, 8 de outubro de 2020
GLÜCK GLÜCK
Tanta gente com o pito aos saltos por causa do Nobel da Literatura, vai-se a ver e Glück. Toma mais um sapo pela goela abaixo. Sempre achei estranho o entusiasmo das pessoas com este prémio, mas ao mesmo tempo divertia-me imenso com ele quando era livreiro. Guardo inúmeras histórias. Sucedeu algumas vezes não termos livros para vender, o que deixava toda a gente muito frustrada. Nomeadamente aqueles clientes que entravam a pedir livros do último Nobel da Literatura. A gente perguntava o nome do autor e não sabiam dizer. Uma vez vinguei-me. Foi no ano em que atribuíram o prémio ao Tomas Tranströmer. Não havia livros. A antologia da Relógio D’Água surgiu no ano seguinte, assim como o livrito em prosa que a Sextante (da Porto Editora) se apressou a publicar para fazer render o peixe. Eu fartei-me de vender livros à conta da lacuna. Tem livros do Prémio Nobel? Temos. E lá ia uma Herta Müller ou um Orhan Pamuk, quando não uma Wisława Szymborska ou um Seamus Heaney. Queriam lá saber quem era o Prémio. Desde que fosse Nobel, e viesse o feito mencionado na badana, era como levar Pepsi à mesa do freguês que pede Coca-Cola. Bebiam na mesma.
segunda-feira, 5 de outubro de 2020
OS LUGARES DA POESIA
Vila Velha de Ródão (com fotografia de Ricardo São Pedro), Esqueleto (com fotografia de Estela Figueiredo), poemas postais.
domingo, 4 de outubro de 2020
O PALHINHAS & CA.
Estamos Vivos, p. 4.
sexta-feira, 2 de outubro de 2020
APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #7
“Jogo do Fim” é a versão original de Isabel Lopes para
“Fin de partie” (1957), peça que o Nobel da Literatura Samuel Beckett escreveu
em francês antes da versão inglesa “Endgame”. Posterior a “À Espera de Godot”,
era para Beckett a preferida das suas peças. Compreende-se a preferência pelo
modo como se concentram em “Jogo do Fim” todos os grandes temas beckettianos:
tempo, ser, existência, anormalidade.
No xadrez da cena jogam o rei Hamm e o peão
Clov, numa interdependência reconfiguradora das figuras de um Senhor caído em
desgraça e de um Escravo incapaz de se libertar. Nagg e Nell são as peças
tombadas para fora do tabuleiro. Sobras de um passado indefinido, espreitam do
fundo de caixotes do lixo como a memória espreita do fundo do pensamento. Num
tempo para lá do tempo, quatro personagens são o que sobra da humanidade numa
espécie de bunker, refúgio, abrigo ou covil, em torno do qual um mar de cinzas
tomou conta da natureza.
Escrita na ressaca da Segunda Grande Guerra,
sob a ameaça de um conflito nuclear, o “Jogo do Fim” é o retrato de um espaço e
de um tempo possíveis após o apocalipse. A um cessar do tempo corresponde
também a claudicação das utopias, a ausência de horizontes, a memória feita
detrito, uma espera em que o presente se joga na ausência de qualquer
perspectiva acerca do futuro.
O universo especulativo de Samuel Beckett
abre-se a inúmeras analogias com uma actualidade assaltada pela vertigem do
apocalipse, seja pelos campos de concentração onde milhares de refugiados
desesperam no vazio, seja pelos lares da nossa vergonha onde a velhice definha
lentamente. Trágica, mas ao mesmo tempo cómica, de uma ironia subtil repleta de
gagues em contexto de absoluta estranheza, é à personagem de Nell que cabe uma
síntese eventual deste jogo:
«— Nada mais ridículo do que a infelicidade, concordo contigo. Mas…»
CONFORMISMO DESOLADOR
Excelente texto de Vasco M. Barreto no Ouriquense, acompanhado de uma óptima ideia. Eu apoio:
Pedroso já disse que não vai dar troco a Ventura durante a campanha, mas o povo tem aqui uma segunda oportunidade, se Pedroso permitir: participar numa campanha de crowdfunding para processar o Chega e pedir uma indemnização milionária que deixasse Ventura sem um tostão. Se nada for feito, a Justiça em Portugal passará oficialmente a ser uma piada e fica demonstrado que o povo realmente não presta.
quinta-feira, 1 de outubro de 2020
APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #6
Parece que hoje é o Dia Mundial da Música. Beckett tinha uma relação especial com a música, havendo quem diga que escrevia peças como um compositor compõe partituras. Nos seus textos encontramos diversos jogos fonéticos, o ritmo é meticulosamente medido, as modulações das personagens são de extrema importância. Colin Duckworth diz que «conhecer uma peça de Beckett é saber ou intuir como soa». Analogias do teatro beckettiano com a música não são raras. O Autor, que tocava bem piano, terá revelado aos Actores da apresentação berlinense de “Jogo do Fim” que o nome da personagem Hamm correspondia a uma abreviatura da palavra alemã Hammer, estabelecendo uma relação com os martelos de um piano, assim como Clov proviria de clavis (termo latino para key, que no inglês corresponde à tecla do piano). Thomas Mansell estabelece um paralelo entre “Jogo do Fim” e a “Hammerklavier Sonata” de Beethoven, avançando com uma fascinante explicação para a complexa relação estabelecida entre as personagens Hamm e Clov: «O dedo de um pianista — em si mesmo uma espécie de miraculoso martelo musculado — bate na tecla, que por sua vez activa o martelo». Eis o princípio da acção.
DEREK MAHON (1941-2020)
GAZETA DAS CALDAS
95 anos
Director Convidado: Carlos Querido
1 de Outubro de 202
Ilustração na capa de André Carrilho
Parábola dos calhaus, Namorados, Abrigo, pp. 8-10.


















