domingo, 31 de janeiro de 2021
UM POEMA DE PAUL CELAN
O PALHINHAS & CA.
sábado, 30 de janeiro de 2021
CANDLELIGHT VIGIL (1999)
[tema do
vibrafonista Steve Nelson para Prime Directive, do quinteto de Dave Holland]
Leio num poema evocativo de Mozart que talvez a nossa vida seja um mau instrumento, mas viver é música! A que vida se referia o catalão Màrius Torres? Talvez estivesse a falar-nos de si , como é mania dos poetas sentimentais. Haverá outros? Baldo-me às dúvidas adoptando um jogo frugal. Quero saber que instrumento a minha vida é. Que mau instrumento será a minha vida? O melhor guitarrista que alguma vez ouvi tocava com uma guitarra construída a partir de uma caixa de charutos. Invejei-o, talvez pudesse também eu inventar o meu próprio instrumento. Um instrumento feito de ar que não fosse de sopro, um som de sossego como o vazio dentro de nada. Um que reproduzisse a vibração da matéria morta. Um instrumento inumano, de preferência, com a capacidade de me transportar do lugar onde estou fora de mim para um lugar dentro de mim onde nunca estive.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2021
DEPOIS DO MEIO DIA
quinta-feira, 28 de janeiro de 2021
GEMINI (1968)
Uma vez perguntaram-me pelo sentido da vida. Não me recordo da resposta, mas gostava de ter respondido que não o vejo há décadas. Devo tê-lo perdido quando perdi o último amigo imaginário, se é que alguma vez tive um amigo imaginário. Mas não pretendo falar de mim. Prefiro concentrar-me no tema de Chick Corea que escuto enquanto a Nala me morde os dedos dos pés, deixando-os a nu depois de se apoderar dos chinelos oferecidos pelas filhas no último Natal. Talvez o sentido da vida ande descalço, talvez tenha sido ruído por um cão, talvez o sentido da vida seja um osso. Imagino-o como a uma gruta funda (Herberto diria fundíssima), ventre onde a luz que ilumina o mundo foi concebida. Não o digo em busca do V-effekt, não careço de anomalias nem de inversões nem de paradoxos, chega-me a indigência das palavras e uma vida do avesso. O sentido da vida, um buraco aberto no chão, uma planta emergindo da semente, a flor, o fruto, o alimento, vento, pólen, húmus, solo fertilizado pela esterilidade do ar. E nós com isso? Outrora meninos, seremos em breve os mais velhos à mesa. Se formos. E as filhas terão filhos. Se tiverem. É bom que o tempo passe, melhor que passe depressa. Para que nem dêmos por ele passar.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2021
UM POEMA DE INÊS DIAS
terça-feira, 26 de janeiro de 2021
LEFT ALONE (1959)
À minha mãe.
RYŪNOSUKE AKUTAGAWA
Nada
como um morto para denunciar que não vivíamos, vê-lo desinsuflado
de dor como um objecto acolhendo pó. Alguém diz que já não está entre nós, e a
gente acredita na esperança de que em não estando se acabe o sofrimento. Um
pouco menos de imprevidência e seríamos sábios. Regamos a tristeza com palavras
doces, contemos as lágrimas, somos por lágrimas contidos, trememos de um frio
que faz o corpo suar e encolhidos a um canto esperamos que passe depressa a
hora deste inferno medíocre. Já não é um corpo o que ali está, é um lençol de
carne dobrada, lavada, vestida, decorada, embelezada ao serviço de condolências
e pêsames e sentimentos. Quem será toda esta gente carregada de flores? Terão
nome? De onde vêm? Para onde vão? Por que dão ao morto braçados de uma beleza
que ele não pode ver nem cheirar? Dai ao
morto o espaço que merece, na memória. / Nunca no coração porque ele toma-o
todo. Instala-se na aorta e por aí queda a bombear sangue por nós, um sangue
negro e espesso composto por 45% de nostalgia e 55% de memórias sem rosto. Não
temas o esquecimento, ó sangue, aceita-o como a um trombócito. Venerai o morto com
silêncio, serenai-o com sementeiras e pomares. Estávamos ali tão metidos na
nossa inexistência e veio ele lembrar-nos do que somos. Para quê? Para que
apressemos os dias? As luzes tremem à passagem do morto, as lâmpadas fundem-se,
uma casa afunda-se na ausência, há sons que lhe faltam e aromas extintos. As
casas precisam dos seus mortos. Abrimos as janelas dos mortos e as casas saltam
à procura de mariposas. Pareceu-me ver um sorriso na sombra branca do teu
rosto, talvez um canteiro de estrofes amargas. O que mais custa é escutar as
orações e acompanhar com os lábios um pai-nosso dito para dentro, as sobras
fechadas no caixão, o corpo fechado nas sobras, a terra fechada no corpo. Com tudo isto se fez uma lágrima. Que
sistema / económico nos desculparia se a chorássemos? Que vêem os nossos
olhos que não deva ser visto? Um amigo que chega e te oferece uma laranja, a
vida liquefeita num suco doce que se mistura com o sangue trazendo luz à boca. Na
boca mirrada dos mortos saboreia-se o vento, o pólen, as primeiras chuvas, o
mundo inteiro num grão de terra. Alguma paz há-de chegar deste silêncio, expressão
vigorosa de um rosto ameno velando por nós, que estamos vivos, supondo ausente
a forma última de um nome: raiz.
Os itálicos pertencem a João Pedro Grabato Dias.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2021
EXTREMA-DIREITA ESMAGADA PELOS PORTUGUESES DE MAL
Olhando para 2016, percebemos melhor quanto valem. Este
ano, foram votar menos 478 741 portugueses. Estavam mais inscritos, mas foram
menos os votantes. Para onde foram os votos de Sampaio da Nóvoa (1 061 232), Maria
de Belém (196 687), Paulo de Morais (99 974), Henrique Neto (38 973), Jorge
Sequeira (13 767) e Cândido Ferreira (10 585)? Estamos a falar de 1 421 218
votos, não é coisa pouca.
541 345 terão ido para Ana Gomes. Sobram 879 873.
122 147 terão ido para Marcelo. Sobram 757726.
134 427 terão ido para Tiago Mayan. Sobram 623 299.
E foi a estes que Ventura foi buscar os seus 496 653
votos. Muito pouco, se considerarmos que 126 646, o que sobra, mais 304 795 (os
que Marisa teve a menos), mais 2525 (os que João Ferreira perdeu em comparação com
o resultado de Edgar Silva), mais 29 346 (os que Vitorino Silva Perdeu), somam:
463 312. É praticamente o resultado de Ventura.
Ou seja, os portugueses que não puderam ou não quiseram
votar nestas presidenciais e tinham votado em 2016 são praticamente tantos
quanto os que votaram em Ventura. Em legislativas, aqueles votos valerão menos
do que em 2011 valia o CDS-PP com o populista Paulo Portas. E é deste CDS-PP esfrangalhado que vêm os
eleitores do Chega, assim como de algum PPD-PSD mais direitista, partido que,
de resto, foi a barriga de aluguer de André Ventura. Já agora, quem disse isto
mesmo ontem, e bem, e com clareza inquestionável, foi António Lobo Xavier.
Honra lhe seja feita por reconhecê-lo. Basta pensarmos em figuras como Nuno
Melo e Telmo Correia, que bem podiam ser do Chega, para percebermos melhor
o que o Chega é: direita ultraconservadora, pró-vida, que se sente ameaçada por leis do piropo e pela adopção de uma linguagem inclusiva, adoram touradas e Salazar, à qual se juntam meia dúzia de neonazis broncos que andavam pelo PNR e coisas congéneres e têm orgasmos quando ouvem o Ventura chamar subsidiodependentes aos ciganos, bandidagem aos pretos, defendendo coisas como a castração química e a prisão perpétua.
Agora o Alentejo e a retórica estafada de que o PCP perde
para o Chega no Alentejo. Olhemos para Beja como exemplo. Os resultados de João Ferreira só são decepcionantes
porque desejávamos e merecia melhor, mas há que colocar os números em
perspectiva. Em Beja, João Ferreira consegue menos 1413 votos do que Edgar
Silva. Marisa Matias perde 4846 votos. Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém,
candidatos afectos ao PS, valiam neste distrito 21816 votos. Ana Gomes teve
5613. Marcelo consegue mais 7999. Será mesmo o PCP quem está a perder para o
Chega?
O Alentejo já não é o que era, convertido hoje a estância turística, entregue a latifundiários (subsidiodependentes) que empregam gente vinda da Índia, do Bangladesh, do Sri Lanka, isto é, gente que não vota. Ventura teve 8490 votos em Beja, o que terá conseguido graças ao seu discurso xenófobo, racista, anti-imigração, e ao descontentamento de uma população votada ao esquecimento e ao abandono pelo Bloco Central. Mesmo aceitando, por absurdo, que os 1413 votos que João Ferreira perdeu em Beja foram todos para Ventura, então de onde vieram os restantes 7077? Alguém em Beja deu mais votos a Ventura do que o candidato apoiado pelo PCP. Isto é óbvio e desmente a retórica instalada de que os votos do PCP estão a deslocar-se para o Chega. É uma análise que vale igualmente para Évora e para Setúbal, assim como para Portalegre. Não vale para Faro, pois aí João Ferreira teve mais 897 votos do que Edgar Silva tinha almejado em 2016.
Dito isto, julgo que seria importante reforçar a ideia de que o Chega e André Ventura têm beneficiado altamente com uma comunicação social que faz da vida política um reality show. Ventura vende, como a pornografia vende, como o Big Brother vende. É preciso que comentadores políticos e jornalistas e demais gente por aí excitadíssima com Twitter e Facebook e quejandos, metam na cabeça que a relevância atribuída a André Ventura e ao gangue que ele representa é altamente desproporcional ao que ele vale na realidade. 3 milhões e 700 mil eleitores, dos pouco mais do que 4 milhões que foram votar, disseram claramente que não se revêm na demagogia racista, xenófoba, securitária e messiânica da extrema direita populista. E isso é altamente positivo.
A luta continua.
¡No pasarán!
25 de Abril sempre!
Fascismo nunca mais.
domingo, 24 de janeiro de 2021
NÃO APRENDERAM NADA
Não aprenderam nada.
Eu vinha do Porto, naqueles anos paragem obrigatória para o Fantas. Minha mãe telefonou preocupada, uma ponte havia caído em terras nortenhas. Era certo haver mortos. Descansei-a, estava com amigos na auto-estrada, de regresso. Seguiram-se semanas de directos. Um cheiro nauseabundo a invadir-nos através da imprensa. No rescaldo, contados os mortos, recuperados os corpos que foi possível recuperar, horas infindas sobre a abordagem mediática. O espectáculo da tragédia, da morte, da dor, o insuportável e fastiento espectáculo do desastre em discussão por todo o lado. Como devia ser dali em diante? Testes dobrados em quatro, teorias, e a gente numa desconfiança sustentada pela descrença.
Não aprenderam nada.
Os anos hão-de passar, séculos hão-de passar, e essa cambada que diz ser jornalista por ter uma caderneta qualquer com a qual nos garantem que são jornalistas não aprenderá nada, continuarão a actuar como o transeunte que interrompe a marcha para cheirar o acidente. Curiosidade mórbida? Nada disso. É mesmo uma absoluta ausência de compaixão, isto é, de algo que jamais entenderão ou perceberão ou serão capazes de compreender, por terem pés tão disformes que não se ajustam aos sapatos dos outros. Vale a audiência, o resto é jogo, vale a injecção de pânico para que a reacção mereça ser atendida. Medo gera medo, pânico gera pânico, destruição, ódio, audiência. É só quanto vale.
Quantos jornalistas haverá neste país que estejam verdadeiramente interessados em informar? Quantos deles mais interessados em comunicar do que comentar? Quando o jornalismo se assemelha, cada vez mais, ao imediatismo e à irreflexão e ao sensacionalismo das redes sociais, quando o jornalismo, refém das audiências, é cada vez mais uma rede social, que podemos nós esperar do quarto poder? Nada que valha a pena. É um jornalismo da desinformação, da doxa, alienado de qualquer interesse pela verdade, apenas espectáculo, o triste espectáculo do escândalo, da tragédia, do acidental, do mastiga e cospe, patilha elástica, dos alertas e das últimas horas e dos polígrafos e das legendas e notas de rodapé enodoadas por erros ortográficos e desinformação que, afinal, é apenas mais um pedido de desculpas pelo lapso.
Não aprenderam nada, continuam e continuarão a explorar até à exaustão o drama, a tragédia, o horror, aguardando que dentro de cada ser (cidadão?) não sobre um pingo de espanto e tudo seja vulgarizado e nenhuma compaixão exista. Até que a próxima notícia sobre a fome no mundo inspire tão-somente o desejo de encetar um pacote de pipocas.
Não aprenderam nada.
Erro nosso, supor que num abutre pode ainda restar margem para aprender alguma coisa.
sábado, 23 de janeiro de 2021
THEME DE YOYO (1970)
30/10/98, a data do bilhete, o mesmo ano do Interrail. Dantes ia a muitos concertos. Parece que foi há uma eternidade, e no entanto a eternidade é esta ilusão de ver passar os dias julgando imenso o que ficou para trás e curto o que sobra pela frente. Tenho de me apressar, não quero morrer sem ver o filme de Moshé Mizrahi. Se morresse agora, a minha vida teria sido um desperdício. Ainda não vi Les Stances à Sophie. E os livros por ler. Meu Deus, os livros que me falta ler. Viajei tão pouco, quero dizer, andei tão pouco por este planeta. E que sei eu do fundo dos oceanos? Sei tão pouco sobre o fundo dos oceanos. Deve estar-se bem por lá, no mundo do silêncio. Ou talvez não. Como poderia eu ser indiferente aos peixes que comem outros peixes? A mesma merda de sempre. Aqui posso tapar os ouvidos com música, apartar-me do ruído exterior, ler um livro, ver um filme, fazer uma pausa, caminhar até à costa onde o oceano fará o favor de realçar a insignificante medida dos homens. A eternidade parece que foi ontem.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2021
PARA QUE SERVE LER?
Para que serve ler? Para nada, ou quase nada. É como amar, como jogar. E como rezar. Os livros são como rosários de tinta negra, cada conta rolando entre os dedos, palavra após palavra. E o que é realmente rezar? É silenciar-se. Afastar-se de si no silêncio. Talvez seja impossível. Talvez não saibamos rezar como se deve: há sempre demasiado barulho nos lábios, sempre muitas coisas nos nossos corações. Nas igrejas ninguém reza, excepto as velas. Elas perdem todo o seu sangue. Elas despendem toda a sua chama. Elas não guardam nada para elas, elas dão tudo o que são, e esse dom transforma-se em luz. A mais bela imagem da oração, a mais clara imagem da leitura, sim, seria isto: o desgaste lento de uma vela na igreja fria.
Christian Bobin, in Um Vestido Curto de Festa, trad. Teresa Noronha, pref. António Cabrita, Barco Bêbado, 2020, pp. 61-62.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2021
GIVE ME THE SIMPLE LIFE (1945)
Um quarteto de luxo, o de
Gerry Mulligan, com Chet Baker e Art Farmer alternando no trompete. Foi no
álbum de Annie Ross que ouvi pela primeira vez a canção da dupla Rube Bloom
(música) & Harry Ruby (letra), escrita para um filme que nunca vi de Lloyd
Bacon. Pelo título, Wake Up and Dream,
desconfio que se trate de um daqueles produtos do pós-guerra com funções didácticas
e inspiradoras, para levantar o moral das hostes, assim mesmo, como se moral
fosse peso pesado e a cultura popular uma grua. Seja como for, e muito já disse
sobre o assunto, fiz minha aquela canção. Também aspiro a uma vida simples, não
mais do que simples, de preferência sem contas para pagar nem receitas para
aviar nem exames para fazer, uma vida sem veículo próprio nem casa imprópria.
Uns preferem a via rápida, outros a estrada secundária, diz a canção, mas eu
faço-me incluir nos terceiros: terra batida, caminho de cabras, um carreiro que
permita escutar cada passo da caminhada. O problema é dizer-se, no texto que
acompanha o disco, que Annie Ross cozinhava umas divinais costeletas de porco
com fatias de maçã. Ora porra, a vida simples assim introduzida cheira a bacon esturrado.
Claro que Bloom & Ruby não têm responsabilidade alguma no caso.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2021
TENHO DÚVIDAS
O que espera o leitor de um político? Que lhe minta ou que fale verdade? Se um político estiver constantemente a contradizer-se o que lhe chama o leitor? E se entre o discurso e o programa do partido que representa forem inúmeras as contradições? O que espera o leitor de um político que mente reiteradamente e se contradiz constantemente? Galo dos ventos? Exemplos? Se um político lhe disser que algumas pessoas esperam mais de 3000 dias por uma consulta, o leitor acredita? E se lhe disser que há um milhão de portugueses sem médico de família, sabendo ser esse número uma falsidade? Se o programa do partido desse político defender a privatização de hospitais, escolas, vias de comunicação e meios de transporte, entenderá o leitor a razão de ser de tais mentiras? Será para denegrir um serviço que se pretende aniquilar, de modo a lucrar com um outro, privado, que o substitua? E por que razão quererá o galo dos ventos acabar com o SNS? Saberá o leitor porquê? Se o partido do tal deputado for financiado por empresários com interesses económicos nesse domínio, ficará mais perceptível? O que pensaria o leitor se um partido resolvesse inverter o sentido do seu programa após este haver sido sufragado? Se tivesse votado nesse programa, sentir-se-ia traído? O leitor gosta de ser traído? Gosta que lhe mintam? Como avalia o leitor alguém que para defender os seus pontos de vista passa o tempo a espalhar números falsos como quem espalha brasas? E o que pensa da hipótese de remoção de ovários numa mulher que interrompa voluntariamente uma gravidez? Revê-se o leitor num partido que alberga gente que apresenta propostas destas numa convenção nacional? Quer o leitor fazer parte desse elenco que defende a castração química e chega a sonhar com a castração física, sabendo serem ambas inconstitucionais? Acha o leitor legítimo que um político se dirija ao eleitorado falando da boca para fora? E se for para insultar um homem com mais de 70 anos que começou a trabalhar aos 14? Quantos ciganos há em Portugal? 30 000, 35 000? Supõe o leitor que numa população de 10 milhões de habitantes sejam esses 0,3 ou 0,4% da população a fazer a diferença? Quanto custa ao país em impostos as fugas para offshores orientadas pelo deputado-consultor que não gosta de ciganos? O que acha o leitor de um deputado que defende o regime de exclusividade ao mesmo tempo que acumula três ordenados? Parece-lhe bem? Será coerente? Nobre de carácter? Confia o leitor num partido que tem como apoiantes e dirigentes gente envolvida em processos de branqueamento de capitais e de terrorismo bombista? Saberá o leitor quem foi o padre Maximino Barbosa de Sousa e a sua aluna Maria de Lurdes? Quem os matou? O leitor revê-se num partido que tem entre os seus principais apoiantes gente que faz a saudação nazi? O leitor tem algum filho na escola pública? E se de repente o líder de um partido defendesse o fim da escola pública, o leitor concordaria? Que hombridade haverá num político que acusa os refugiados de serem uns malandros que chegam à Europa munidos de tecnologia de ponta? O leitor já ouviu falar em Alan Kurdi? Sabe quem foi? Estará Portugal a ser tomado por marroquinos? Onde estão? Onde estão? Julgará o leitor digno de um político colocar simpatias futebolísticas acima de preocupações com o país? O leitor acha que Portugal devia sair da ONU? O que pensa o leitor de um partido com propostas que replicam leis da Alemanha nazi? O que pensa o leitor de um deputado que, em menos de 24 horas, vota de três maneiras diferentes uma mesma proposta? E de um partido que tem como vice-presidente alguém que escreve e publica artigos a defender Hitler e Mussolini? O leitor simpatiza com o Papa Francisco? Parece-lhe compatível essa simpatia com esta estirpe ideológica? O leitor concorda com propostas que favorecem os mais ricos e penalizam os menos favorecidos? O leitor é eleitor? Votaria num político que se candidata à presidência da república prometendo rasgar uma Constituição que está obrigado a defender, cumprir e fazer cumprir? O leitor sabe o que é um gang? Estará o leitor eleitor disposto a entregar o destino do seu país a um gang?
O DETERMINISMO
O determinismo exerce uma forte atracção emocional:
bastante curiosamente, pode atrair o mesmo tipo de espírito que acredita nas
possibilidades ilimitadas da acção de planear. O determinismo parece dar grande
alento e, por vezes, assomos de energia àqueles que são capazes de se convencer
a si próprios de que o que querem que aconteça vai de qualquer modo acontecer,
e àqueles que gostam de sentir que vão ao sabor da maré: e todos temos ouvido
dizer, de vez em quando, que a liberdade se encontra unicamente na aceitação da
necessidade — embora também seja próprio do intelecto humano suspeitar que isto
esconde, algures, um ardil. Devia, porém, ser igualmente óbvio para toda a
gente, devido à experiência pessoal, que não há nenhuma fórmula para um
vaticínio infalível; que tudo o que fazemos terá algumas consequências
imprevistas; que os nossos empreendimentos mais bem fundamentados terminam
frequentemente em desastre, e que por vezes os nossos disparates mais absurdos têm os resultados mais felizes; que
toda a reforma conduz a novos abusos que não podiam ter sido preditos, mas que
não justificam necessariamente dizermos que a reforma não devia ter sido
executada; que temos de nos adaptar constantemente ao novo e ao inesperado; e
que sempre nos movemos se não no escuro, num crepúsculo, com visão imperfeita,
trocando constantemente um objecto por outro, imaginando obstáculos distantes onde
nenhum existe e ignorantes de alguma ameaça fatal ai à mão. Isto é Endless
Adventure, de Frederick Scott Oliver.
T. S. Eliot, de uma conferência intitulada A Literatura da Política, proferida durante um Almoço Literário organizado pela London Conservative Union, em 19 de Abril de 1955, in Ensaios Escolhidos, selecção, tradução e notas de Maria Adelaide Ramos, Edições Cotovia, 1992, p. 208.
terça-feira, 19 de janeiro de 2021
HIS BLOOD’S IN ME (1999)
Que haverá de ti no meu sangue?
Arrisco a hipótese hereditária, mas logo se impõe a ideia de que as
circunstâncias desenham a coluna. As tuas foram mais agrestes, reconheço. Os
cientistas têm percentagens para estas coisas. Olhando para o nosso caso, diria
que nada de vocação, um cibo de valores e talvez mais do que possa parecer
daquela timidez a que alguns chamam complexo de inferioridade por serem heróis
e nunca haverem experimentado a acidez e a injustiça e o opróbrio da soberba a
perfurar os pés como um ferro enferrujado. Vem de longe. Crescer pobre em terra
de porcos incube frustrações, um ódio que se enterra na lama sem vontade de
vingança. Acerca de valores, assumamos
pouco mais do que uma carcaça de intolerância ao erro que eu aprendi a mastigar
mais para te incomodar do que para me resolver. Chamar-se-á o quê a isto? Obstinação?
Nunca te perguntei o que pensarás de mim, que julgarás das opções que tomei na
vida ou das que fui levado a tomar por me deixar levar pela corrente de paixões
momentâneas. É assim e só damos por isso quando, já em alto mar, temos de esbracejar
em busca de um pouco de terra onde possamos voltar a sentir-nos verticais. A
verdade é que, por vezes, gostava de poder perguntar-te se já ouviste o álbum
do Eric Mingus, mas noutras ocasiões dou graças a Deus por nem sequer fazeres
ideia do que a música possa ser.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2021
CILA E CARÍBDES
Lembro-me de uma experiência de alguns anos atrás, quando concordei em fazer uma conferência em Nice. Ao trocar correspondência com o Presidente da colectividade a que devia dirigir a palavra observei que, não sabendo qual de duas espécies de auditório esperar, me encontrava relativamente à escolha de um tema entre Cila e Caríbdes. Antes de ter decidido sobre o que falar, foi anunciado em Nice que ia falar sobre o tema de Cila e Caríbdes. Depois de um momento de consternação pensei — E por que não? Podem tratar-se quase todos os tópicos sob esse título. Cila e Caríbdes é deliciosamente geral, e desperta a curiosidade pelo seu carácter vago.
T. S. Eliot, de uma conferência intitulada A Literatura da Política, proferida durante um Almoço Literário organizado pela London Conservative Union, em 19 de Abril de 1955, in Ensaios Escolhidos, selecção, tradução e notas de Maria Adelaide Ramos, Edições Cotovia, 1992, p. 206.
domingo, 17 de janeiro de 2021
HAPPY FEET (1938)
Naquele tempo era diferente, as ruas circulavam a duzentos à hora, os virtuosos estavam crivados de vícios, a generosidade era ambidestra, assim como a maldade, agora divide-se tudo entre cálculo e consequência, naquele tempo não, o silêncio era ofensivo, o ruído uma ameaça, então os anjos desciam à terra, pintados de negro, e inventavam-se palavras para movimentos como hoje as temos para cores, era um tempo que curava a cegueira com música, e os teclados tinham relevos para que os músicos aprendessem a tocar em braille, educando assim os dedos para uma agilidade semelhante ao voo, os protagonistas daqueles anos ousavam representar sem rede, confrontavam as leis que infringiam a natureza selvagem das coisas, porque eram feitos de leis espontâneas e imprevisíveis, tinham o requinte das presas que escapam aos predadores. Ou talvez não fosse nada disto, mas a gente ouve um solo de Art Tatum e quer acreditar que sim. Que sentido faz uma vida sem o ideal tonificante dos mitos?
sábado, 16 de janeiro de 2021
PORTUGUESES DE BEM
2) Paulo Corte-Real Mirpuri – Empresário que liderou a Air Luxor (que acabou sufocada em dívidas, tendo os bens desaparecido misteriosamente), filantropo.
3) Francisco Sá Nogueira, gerente da área turística da Helibravo. Ex-presidente da antiga holding do Grupo Espírito Santo para as actividades de agências de viagens e operador turístico, a Espírito Santo Viagens.
4) Jorge Ortigão Costa – Empresário e produtor agrícola, amante de touradas (coudelaria com o mesmo nome), cujo nome consta no Panama Papers
5) Francisco Cruz Martins – Advogado, padrinho de casamento de Ventura, também citado no Panama Papers, administrador de imobiliárias pertencentes à Breteuil Strategies (sediada no Chipre, reconhecido paraíso fiscal).
6) Salvador Posser de Andrade – Co-administrador da antiga empresa imobiliária do Grupo Espírito Santo, e administrador da Coporgest.
7) Jaime Nogueira Pinto – histórico militante fascista, “o grande pai da extrema-direita portuguesa desde o fim da ditadura salazarista” (Steven Forti)
8) Eduardo Amaral Neto – Empresário com ligações à Chamusca. Dono da sociedade de consultoria Gavião Real.
9) César de Paço – empresário, ex-cônsul honorário de Portugal na Florida (cargo do qual foi exonerado), dono da multinacional Sumit Nutritionals, fanático da Defesa. Pelo Código Penal de André Ventura, hoje seria “maneta” porque roubou um relógio de 7.500€.
10) Helder Fragueiro Antunes – Empresário, Engenheiro, ex-piloto de corridas. CEO da Global Data Sentinel. Parceiro de César do Paço em alguns negócios, primo de Miguel Frasquilho (chairman da TAP).
11) Pedro Pessanha – Militar na Reserva, gestor imobiliário. Assessorou vários negócios do BES Angola (BESA), hoje Banco Económico.
12) Fernando Jorge Serra Rodrigues – Empresário Têxtil (sofás). Salazarista devoto, defensor da ditadura fascista do Estado Novo e divulgador de propaganda nas redes sociais. É o famoso autor da saudação Nazi no jantar de apoio a André Ventura no Porto.
13) Igreja Maná (de Jorge Tadeu) – detentora dos canais de televisão Kuriakos TV, TV Maná e ManáSat 1, tem dado especial destaque a André Ventura nos seus canais promovendo-o como “defensor da moral e dos bons costumes cristãos contra gays e outras modernices antinatureza e antifamílias”.
14) Luis Filipe Graça - sócio na mediadora Elegantalfabeto. Foi angariador imobiliário no segmento premium. Ex-dirigente do PNR e do Movimento de Oposição Nacional, embrião dos neonazis da Nova Ordem Social, tendo aparecido em vídeos com skinheads em protestos.
15) Cristina Vieira – Cartomante na TVI, antiga directora de Operações da LibertaGia, sociedade que a partir das Bahamas terá lesado perto de 2 milhões de clientes através de um esquema fraudulento de pirâmide.
16) José Lourenço – Consultor Imobiliário. VP na “Fundação” dePaço. Acusado pelo ex-dirigente Nacional do Chega (Miguel Tristão) de fazer entrar dinheiro de formas “estranhas” no partido. O seu nome consta da lista pública de devedores fiscais em Portugal. Amigo do espião Silva Carvalho “com muito gosto”.
17) António Tanger Correia – ex-diplomata, adjunto de Freitas do Amaral durante o governo de Sá Carneiro. Suspenso de várias funções devido a VÁRIAS irregularidades na gestão da embaixada em Vilnius: lesou o Estado em 348.270€ em IVA mais 411.181€/ano em despesas pessoais
18) Paulo Lalanda de Castro – Empresário. Referenciado nos Panama Papers, Operação Marquês e nos Vistos Gold. Acusado de corrupção no processo Máfia do Sangues. Dono da Intelligent Life Solutions, empresa que André Ventura ajudou a ilibar no pagamento de mais de 1 milhão de Euros em IVA, enquanto Inspector Tributário.
19) Armando Batista – Comandante da Delegação da Cruz Vermelha da Amadora. Defende a criminalização e deportação de imigrantes ilegais. Promoveu petições contra o Pacto de Migração e Asilo da CE, mas afirma não ser xenófobo. Ligação às forças e aos serviços de Segurança.
20) Arlindo Fernandes – Empresário, admirador de Salazar, ex-dirigente e breve deputado do CDS. Acusado em 2019 pelo MP de burla qualificada, falsificação de documentos e branqueamento de capitais em negócios imobiliários. Ameaçou de morte João Ferreira, outro dirigente do Chega.
21) Manuel de Carvalho – O “Miterrand” de Armamar. Empresário, cônsul honorário da Costa do Marfim, antigo deputado e ex-vereador do CDS (Viseu). Em 2012 foi declaro insolvente por dividas à banca, tendo cumprido o prazo da exoneração do passivo.
22) Diogo Pacheco de Amorim – antigo ideólogo do PND, passou pelo MIRN e militou no MDLP. O MDLP seria responsável por espalhar o terror em várias zonas do país, particularmente no norte do país, onde assassinou à bomba um jovem Padre, Maximino Barbosa de Sousa, e a estudante universitária Maria de Lurdes. Em 1999, após um longo e tortuoso processo judicial, o MDLP foi condenado pelo atentado, apesar de os seus mandantes e executores não terem sido condenados.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2021
UM CAVALO SENTADO À PORTA
quinta-feira, 14 de janeiro de 2021
ALICE’S WONDERLAND (1959)
Esta mula não é do sul
Mas esta mula sabe algumas coisas
Que aprendeu de boca-a-boca
Mas esta mula pode estar a trabalhar de forma hábil
Aprendendo e planeando e esperando
Por um certo tipo sagrado de dia
Um dia em que queimar fachos e cruzes não é brincadeira de crianças
Mas um louco na sua mais ardente floração
Cuja paixão é a imperfeição e o seu noivo mais brilhante
Acalma com contemplação
O todo ardente e a coxa dorida
A tua teimosia mantém-se viva
E a ansiedade prestes a morrer
Liberdade para a tua mãezinha
Liberdade para os teus confrades
Mas nenhuma liberdade para mim
quarta-feira, 13 de janeiro de 2021
DIA DE PORTUGAL
As missas são essenciais, a cultura é acessória. Retire o
leitor as suas conclusões. Eu proponho que se desassocie o nome de Camões do
dia de Portugal. Camões não é essencial. Portugal também não deve ser, mas
assenta-lhe melhor o nome de um padre do que o de um poeta. Sugiro, em
alternativa, que passemos a comemorar o Dia de Padre Borga, de Portugal e das
Comunidades Confinadas Portuguesas.
Desloquemos o teatro para uma igreja, vendamos poesia ao postigo. A ideia de um Diga 33 na Igreja de Nossa Senhora da Conceição não está posta de lado. Convidamos a poeta Tolentina, que fará o favor de não ler poemas seus. Convocamos Quitéria a passar um cestinho de mão em mão, para que possam expurgar os vossos pecados acudindo a actores, encenadores, técnicos, escritores. Teremos hóstias de sonetos, o corpo de Deus cortado às estrofes. Em nome do poema e do verso e do espírito elegíaco, ai mãe.
terça-feira, 12 de janeiro de 2021
BIRDLAND BLUES (1958)
Talvez supondo-se finalmente a salvo da prisão do mundo, um pardal encontrou maneira de chegar ao hall do prédio. Imagino-o a escavar um túnel com o bico, em segredo, durante a noite, do lado de fora, mas o desespero com que batia as asas de parede a parede fez-me descer à terra. Não tendo como auxiliá-lo, recostei-me a ouvi-lo como se estivesse a ouvir Bud Plays Bird. Não se está bem em lado nenhum. Lá fora, o ar ameaça-nos com dentaduras de medo. Cá dentro, a alma treme de frio. Valha-nos o mal dos outros. Bud Powell, por exemplo, foi-se aos 41, tuberculoso, alcoólico e subnutrido. Experimentou, sem efeito, a terapia de electrochoques, passou parte da vida confinado e, quando parecia livre, era como um pardal a voar de parede em parede. Esquizofrenia, lê-se no diagnóstico. Difícil de acreditar quando o ouvimos trautear o toque dos dedos no teclado, como Deus a tocar em Adão no fresco de Michelangelo. Eu tenho 46 e uma broca de papel para perfurar os dentes do medo. O diagnóstico é incerto, mas o mais provável é tratar-se de corpo sem alma.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2021
UM POEMA DE MIGUEL CARDOSO
























