sexta-feira, 30 de abril de 2021

DESVIOS

 

   «— Daniel, a tua pobre mãe ainda teve a sorte de morrer instantaneamente.
   — Sim, pai.
   — Mas tu, se te quisesses matar?»
   Aquilo que eu ia dizer em maneira de resposta era grave, muito grave, mas um demónio já me forçava. «Meu pai, eu escolheria um modo discreto, para não prejudicar aqueles que usam o meu nome. Uma tisana em cima do fogão a gás; a janela bem fechada, abro a torneira de segurança; esqueço-me de usar fósforos. Reputação salva e o tempo de dizer o confiteor
   No dia seguinte, a criada do meu pai veio informar-me de que o senhor fora vítima e uma acidente.
   Tinham-no encontrado na cozinha, a cara pintada de azul, uma caçarola em cima do fogão que ele se esquecera de acender.
 
Vem nas páginas 42-43 de Desvios, primeiro romance de René Crevel (1900-1935) agora editado em português, com tradução de Diogo Paiva, pela Livraria Snob. São palavras que ressoam como um oráculo. Crevel suicidou-se exactamente da mesma forma, já depois de lhe haverem diagnosticado tuberculose. O pai enforcara-se quando o escritor tinha apenas 14 anos, experiência evocada nas páginas de O Meu Corpo e Eu, segundo livro, editado por cá pela Sistema Solar, em 2014, com tradução de Aníbal Fernandes. Em língua portuguesa estão ainda disponíveis A Morte Difícil (Sistema Solar, 2018) e As Irmãs Brontë, Filhas do Vento (Assírio & Alvim, 2005).
   Nascido e criado no seio de uma família burguesa, tornou-se um autor de culto depois de se juntar aos surrealistas. A primeira aproximação deu-se, precisamente, no ano da estreia com Détours (1924). Antes, tinha o Autor privado com Tristan Tzara partilhando os entusiasmos da revolução Dada. O diagnóstico da tuberculose data também desse período, pelo que não é de espantar a pressa de viver incutida na realização de uma obra fulgurante. Exílios frequentes em sanatórios terão alimentando um sentimento de solidão que atravessa todos os seus escritos, enquanto marca existencial que nunca se permitir submergir na melancolia. Antes pelo contrário, a prosa de Crevel, e isso nota-se bem neste Desvios, está cravejada de tiradas irónicas e cínicas, um humor muito ao gosto surrealista, certo, com as pontas afiadas aos hábitos e costumes da sociedade burguesa. A propósito do convite para uma vernissage nas Tulherias, Daniel, o jovem no núcleo da narrativa, não deixa escapar a oportunidade para desmascarar parte do ambiente cultural da sua época (e da nossa, que há vícios que perduram sem remédio): «Noutro tempo, eu teria pedido a Léila que me acompanhasse, ela conseguia nunca passar despercebida, e eu teria tido o prazer de me encontrar com uma dessas mulheres pelas quais, ao que parece, têm lugar as exposições, bem mais do que pelas telas ou esculturas» (p. 133).
   Não obstante, este escritor de olhar cortante foi figura pouco pacífica no movimento surrealista. Parece ter tido um papel relevante nas tentativas de aproximação do surrealismo ao comunismo, mas sobre ele pesavam também outras preocupações. Os livros desmontam a hipocrisia latente das origens burguesas — logo no início de Desvios, a mãe de Daniel é descrita como encarnando, «no género medíocre, a burguesa dita com cabeça» (p. 11) —, expõem a bissexualidade através de uma hábil desconstrução dos mitos ligados quer à feminilidade, quer à masculinidade, mergulham nas raízes do suicídio tornando-o tema recorrente e assumindo-o como solução para o desespero (a esperança de Daniel é tida como «hábito cobarde»), exploram as relações amorosas sem lhes negar o que quer que seja a que tenham direito: paixão, traição, violência, dores de corno. E, mais significativo, assumem perante a vida um lapidar poder de síntese: «A primeira vez que me olhei num espelho, vi duas rugas na minha cara; temi descobrir-me velho de repente, sem nunca ter sido novo» (p. 62). Entalado como um castiçal no centro de um triângulo amoroso, Daniel é aquele que descobre liberdade na solidão. Desviando-se de si? Dos outros? Não custa ler o livro para perceber.

IDEIA PARA UM ROMANCE

Cesare Pavese encontra-se com Diane di Prima num bar. Quem quiser que escreva o resto.

quinta-feira, 29 de abril de 2021

THE EVERYWHERE CALYPSO (1972)

 


 

O que falta dizer, perguntam-me. Falta dizer que, regressado o movimento às ruas, novas possibilidades se abrem, um pouco como no céu a luz se anuncia através de abertas impossíveis de discernir por não sermos adivinhos. Não basta o azul à espreita, essa cor enganosa da melancolia que tinge de tristeza as almas. Defronte, um mapa do mundo com marcações nos lugares visitados demonstra quanto espaço ficou por explorar. É quase todo ele azul, por ser essa a cor que atribuímos aos oceanos e ser o mar o sangue da terra. Quero lá saber do passado, quero lá saber do futuro. O passado é excelente para decoração de paredes, o futuro só serve para erigir muros de angústia, Sonny Rollins está vivo. Faltou dizer que as flores envelhecem mal, malmequer, bem-me-quer, as flores funcionárias como bois cansados, delicadas como pérolas, tão predominantemente rústicas e necessitadas de consolo. Ah, faltou dizer que não estamos de pé para decorar salões, como de pé se dispõem flores mortas no interior de jarras vivas. Por vezes penso que talvez fosse preferível o sol pleno, mas com o tempo também o corpo aprende a tolerar o frio. Faça o tempo que fizer, não fique por dizer quanto há para fazer em matéria de verdade, isto é, honestidade, quero dizer, liberdade, pois não é de agora essa noção de que ser livre é superar a mentira que aprisiona por levar ao pior dos crimes: a traição. A nossa e a dos outros. Malmequer, bem-me-quer? Que diferença faz?

PERGUNTAS DIFÍCEIS

Quitéria foi à Junta por causa dos Pensos 2021. Agora até para pensos temos de preencher interrogatórios, reclamou, mas lá foi respondendo às questões. Desistiu quando lhe perguntaram se tinha dificuldade em comunicar com os outros, por exemplo compreendê-los ou fazer-se entender por eles. Disse que não estava a perceber nada daquilo, que preferia comprar os pensos à romena que costuma estar no estacionamento do Lidl. E partiu descorçoada.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

AUM (1988)

 


Diga 33 com Adolfo Luxúria Canibal. Fiquei a saber que a frase derradeira de AumO tempo não espera por mim! — surgiu por acaso, depois de os olhos depararem com as páginas de um daqueles livrinhos de cowboys que também eu li na infância. Isto anda tudo ligado. Entretanto a notícia da morte de Anita Lane, paixão antiga. Lembro-me dela ao lado de Nick Cave, mas também no álbum com que Mick Harvey homenageou Serge Gainsbourg. Não pude deixar de reparar que nasceu no mesmo ano de Adolfo. É isto, o tempo não espera por nós. Disse isso mesmo à Matilde quando a fui deixar a Óbidos, após ter sido questionado sobre qual a idade para termos preocupações. Tinha-lhe dito antes que já não tenho idade para me preocupar. É esta consciência de que o tempo não espera. Como ultrapassá-la? Passei o dia a ouvir Goela Hiante, objecto que não espera pelo tempo. Com suporte sonoro ideado por Marta Abreu a partir de aplicações num iPad, o vocalista dos Mão Morta lê três textos seus entre outros de Manuel de Castro, Maiakovski, António José Forte, Ferlinghetti, Mário-Henrique Leiria, João Damasceno. Gosto de ouvi-lo, mais ainda de pensar que isto foi realizado em pleno confinamento emergencial calamitoso, quando meio mundo olhava os passarinhos pela janela e deitava-se a encarar o tecto de casa onde um arco-íris utópico se formava com a legenda: vai ficar tudo bem. Os textos seleccionados são pertinentes, respeitam um imaginário acerca do qual já quase tudo se disse. E de facto, um dia tudo irá ficar bem. Não é Anita?

UM POEMA DE JOÃO PAULO ESTEVES DA SILVA

 21

(de edifico esse lugar)

Agradeço às ilusões
toda a verdade que escondem
agradeço a esta porta
pela angústia dos meus passos.
Também agradeço ao tecto
pelo céu que se abrirá;
às paredes, agradeço
a paciência com que prendem
o silêncio, dentro e fora;
agradeço às aparências
só o verbo aparecer;
agradeço as que sabem
porque almoçar é preciso,
e agradeço aos que ignoram
por tudo o que hei-de aprender.

João Paulo Esteves da Silva, in Notas à Margem, Amores Perfeitos, Maio de 2002, p. 29.

GENTE DIGNA

 


"Ai, ai, que saudades dos tempos em que os intelectuais eram gente digna que beijava a mão ao Papa", desabafa Quitéria.

terça-feira, 27 de abril de 2021

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #31

 


   Eis um título que me coloca numa posição desconfortável. A dúvida que me ocorre de imediato é o que vemos quando lemos «o que vemos quando lemos»? Será suposto vermos alguma coisa? Talvez seja defeito de maturação, mas eu sempre cultivei uma relação de invisibilidade com as palavras. Julgo que me dou tão bem com elas por me garantirem tal invisibilidade. Ao contrário de outros, não creio que as palavras tenham cheiro, cor, textura, não são como um corpo que se apalpe. É essa a sua vantagem, por isso não perecem. Mesmo as que caem em desuso, como algumas que já tereis encontrado em Camões, Gil Vicente... Têm forma e peso, sendo que em matéria de forma pouco poderemos acrescentar à invisibilidade com que nos tornam presentes as coisas. A caligrafia é a forma das palavras, nada que ofereça boca, nariz, orelhas. Não sabemos, nunca saberemos, a cor dos olhos das palavras nem o tipo de cabelo das palavras. No entanto, elas servem para que identifiquemos a cor dos olhos e o tipo de pêlo da Nala. Creio que não vos será difícil aceitar que, não podendo comunicar por palavras com a nossa pequena cadela, é por sons e gestos que ela nos responde e dela conseguimos reacções mais ou menos inesperadas. Entre nós, minhas filhas, entre nós que humanamente vamos desenvolvendo a linguagem do invisível, as palavras adquirem porém o poder de tornar presente o que julgávamos desaparecido, ausente, esquecido. As palavras fazem aparecer e neste aparecer há, sem dúvida, um ver, um tipo de ver pelos ouvidos, pelos dedos, pelos olhos, pelos sentidos através dos quais logramos contactar com a invisibilidade.

   O desconforto, perdoem-me, é causado pelo verbo ler. O que lemos quando lemos seria, talvez, a questão mais pertinente, mas o autor é formado em ver, em mostrar, em visualizar, pelo que devemos aceitar-lhe o esforço de pretender tornar compreensível essa complexa relação do lido com o visto. Peter Mendelsund estudou filosofia e literatura, tocou piano, dedicou-se ao design gráfico, e neste percurso não será difícil perceber quão imperioso será para ele compreender como a imaginação se articula com o pensamento através de sons e de imagens. Se o problema eram as capas dos livros que desenhava, o resultado é uma extraordinária abordagem a esse fenómeno inesgotável da linguagem. Uma fenomenologia da leitura, portanto, palavrão que podeis não estar dispostas a aceitar pacificamente mas que se tornará tão simples de aceitar como qualquer outra palavra quando com ele vos familiarizares. E este é, para mim, o ponto essencial. Anterior à visualização do que é lido importa investir numa familiarização com as palavras. O conselho que dou, se é que posso dar-vos algum nesta matéria, vai no sentido de estimular a vossa curiosidade ao ponto de sentirdes vontade de abrir os gradeamentos dos significados fixados pelos dicionários, porque as palavras são, antes de mais, animais selvagens que só por necessidade domesticamos. Não é possível, porém, domesticar um leão como domesticamos um gato, as palavras são leões numa selva  anterior às convenções que as transformam em gatinhos de colo.

   Este mesmo livro que ora vos sugiro poderá esmoutar caminho nesse sentido de um para lá do significado onde se mistura, sobretudo, a história de quem vê e lê, pois a palavra «preto» jamais será entendida da mesma forma para quem o preto for sinónimo de fascismo ou de anarquismo, luto ou liberdade, perigo ou elegância… Esmoutar? Eis uma palavra. O que vêem quando a lêem? Talvez a elegância do perigo, e dizê-lo assim é já um modo de colocar a questão que transcende as fronteiras das semântica, a etimologia, a raiz da palavra. Disse outrora que muitas das imagens neste livro são puro texto, devem ser lidas, assim como muitas das frases nele contidas, breves, sintéticas e eficazes como os melhores aforismos, apelam a um universo visual e imagístico que transforma a leitura numa autêntica experiência visual. Deste modo, o que vemos neste livro é também o que lemos. E o que lemos é, isso mesmo, o que vemos. É um livro que abre portas e janelas para uma paisagem de clássicos imprescindíveis, o que também o torna imprescindível. Mas é, antes de mais, minhas filhas, um objecto que torna presente quão complexa e sublime é a simplicidade de uma dúvida. Para mim é um privilégio poder aventurar-me na selvajaria das palavras. Espero que para vós também, já que no mundo em que vivemos não há mal que não tenha nascido dessa tendência para tudo domesticar, controlar, uniformizar e, por isso, reduzir.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

UP & DOWN (1961)

 


Talvez ofertando um salto de pára-quedas, para depois saltar e não o abrir. Ou esperar que um comboio surja inesperadamente na linha desactivada. Talvez beber até sufocar no próprio vómito, como naquele filme em Las Vegas. Ele há tantas maneiras de compor uma solução. Talvez deitar-se a ouvir Horace Parlan enquanto rememora a origem da decadência das pessoas peninsulares. Uma noite em que ficas à espera do tal comboio que não chega e às tantas desesperas e apercebes-te que ninguém virá ao teu encontro. Estás só. O comboio não chegou a sair de Paris. Voltas-te para o lado com resignação e dizes: o fim começou. Não te enganavas. Depois, uma repetida sensação de nojo, asco nas bocas, lábios que se tocam mais por dever, obrigação, representação do que por ser sua natureza encontrarem-se. Lábios que são como insectos repelidos pela voragem do tempo. O que custa mais é cada qual permanecer no palco a representar papéis vegetais para uma plateia de fantasmas, actores medíocres numa tragicomédia com dores de facto. Esta insistência, talvez por ser demasiado pesado o fardo da desilusão, é o que mais dói. É estranho, quando a alegria mendicante não encontra no outro senão esmolas de apreço. A felicidade é uma extravagância, a liberdade um luxo, ninguém crê possível poder ser-se feliz e livre amando. As contas por pagar rasuram a palavra amor. De resto, nesse rasurado sobram queixas e rancores, pontos de vista, mentes desavindas fechando-se como que num jogo onde, é sabido, todos acabarão derrotados, transformados em sobras. O que até podia ser bom, não lidassem tão mal com a derrota. Que tédio. Talvez começar a correr sem parar, como no filme com o Tom Hanks. Um salto para o abismo, uma corda no pescoço, ou simplesmente quedar a ouvir Horace Parlan. Um blues. Afinal, que esperar de gente educada para educar? Uma casa melhor que a anterior, um carro melhor que o antigo, férias melhores que as férias do ano passado, e, por amor de Deus, nem sequer ponderar a possibilidade de reverter papéis, nem sequer admitir como hipótese a impossibilidade da rotina. Há que parar, inflectir, aceitar caminho divergente. A fausto conquistado não se ri com dente cariado. Ah, os problemas das pessoas. São tão efémeras, as pessoas. E tão perecíveis as dentaduras.

PARA UMA ESTÉTICA DO DELÍRIO

 


Na verdade, todos os poetas épicos, os bons poetas, não é por efeito de uma arte, mas porque são inspirados e possuídos, que eles compõem todos esses belos poemas; e igualmente os bons poetas líricos, tal como os Coribantes não dançam senão quando estão fora de si, também os poetas líricos não estão em si quando compõem esses belos poemas; mas, logo que entram na harmonia e no ritmo, são transformados e possuídos como as Bacantes que, quando estão possuídas, bebem nos rios o leite e o mel, mas não, quando estão na sua razão, e é assim a alma dos poetas líricos, segundo eles dizem. Com efeito, os poetas dizem-nos, não é verdade, que é em fontes de mel, em certos jardins e pequenos vales das Musas que eles colhem os versos, para, tal como as abelhas, no-las trazerem, esvoaçando como elas. E falam verdade! Com efeito, o poeta é uma coisa leve, alada, sagrada, e não pode criar antes de sentir a inspiração, de estar fora de si e de perder o uso da razão. Enquanto não receber este dom divino, nenhum ser humano é capaz de fazer versos ou de proferir oráculos. Assim, não é pela arte que dizem tantas e belas coisas sobre os assuntos que tratam, como tu sobre Homero, mas por um privilégio divino, não sendo cada um deles capaz de compor bem senão no género em que a Musa o possui: um nos ditirambos, outro nos encómios, outro, ainda, nos hiporquemas; este na epopeia, aquele no jambo. Nos outros géneros, cada um deles é medíocre, porque não é por uma arte que falam assim, mas por uma força divina, porque, se soubessem falar bem sobre um assunto por arte, saberiam, então, falar sobre todos. E se a divindade lhes tira a razão e se serve deles como ministros, como dos profetas e dos adivinhos inspirados, é para nos ensinar, a nós que ouvimos, que não é por eles que dizem coisas tão admiráveis - pois estão fora da sua razão -, mas que é a própria divindade que fala e que se faz ouvir através deles. A melhor prova a este respeito é Tínico de Cálcis, que nunca fez um poema digno de ser recordado, excepto o péan que todos cantam, talve zo mais belo de todos os poemas líricos, um verdadeiro «achado das Musas», como ele próprio diz. Parece-me, com efeito, que, com este exemplo, a divindade demonstra-nos, de um modo que não deixa dúvidas, que estes belos poemas não são humanos nem são obras de homens, mas que são divinos e dos deuses, sendo possuídos pela divindade, de quem recebem a inspiração. É para o demonstrar que a divindade faz, propositadamente, cantar o mais belo poema lírico pela boca do mais medíocre poeta. 


Platão, in Íon, introdução, tradução e notas de Victor Jabouille, Editorial Inquérito, 1988, pp. 49-55.

domingo, 25 de abril de 2021

FASCISMO NUNCA MAIS

 


(Arte do José Serrão)

sábado, 24 de abril de 2021

UM POEMA DE PAUL ÉLUARD

 


HOJE

A padaria não é feita de pão branco
Nem está a rua aberta ao sol aberto
As tascas mais pequenas
Recebem raramente o alimento de um bêbado
Têm dentes estragados
E têm más maneiras apesar dos seus lucros

Rua cinza padaria desdoirada cafés frios
Bocas amargas frontes que se fecham
Três transeuntes na pressa de regressar a casa
Que casa já lá estive
Conheço-a funda lúgubre
Que mal instalados estamos

Rua cinza onde a virtude se bebe como água salobra
A ventura não tem raiz na minha rua
Rua cinza veia cinza sobre um braço doente
Onde se bebe e come e anda o menos que é possível
Vive-se sobre a fuligem e o tédio da vida

Névoa de rua ideia de rua ideia nada
Onde no entanto e de tempos a tempos os camiões esmagam um ciclista uma criança
E que acontecimento ver sangue sobre as pedras
Ver um ser vivo em mutação na lama
Vê-lo reverdecer antes de se murchar

O sol eu nada arrisco apenas falei dele
Falar é quase nada o gás a electricidade a água
Matar a fome tinha muito mais luz
Ter a pele bronzeada matar a fome e a gula
Nem sequer falei disso

E pensar que houve quem cantasse deus é glória
Houve aqueles que se amavam nus e sem pedestais
Mas onde está então a poética muralha do bem-estar
Para que a derrubemos
E lancemos raízes nesse mundo impossível
Onde se sorri sempre pela boca dos outros

A fadiga nos enche de calor e não é o do sol
Dá-nos a esmola o mês de Maio
Dá-nos a esmola o lilás branco e o lírio do vale
Mas a nossa mulher desaparece
Ela que no entanto nos queria com paixão
É com inteligência que é necessário querer

Estivemos na nascente e o mar não fica longe
Ah pudéssemos saber todos que está cheia a medida
Não queremos mais ter frio
Na carne e no pensar
Ganhemos cor contra infortúnio e ventura contra o que é injusto
Tudo é eterno nada é eterno nós existimos

Desenraizaremos a nossa rua inútil
E carregá-la-emos para aí morrer
Delirante no santuário dos nossos amos e senhores.

Paul Éluard, in Poemas Políticos, prefácio de Louis Aragon, trad. Carlos Grifo, Editorial Presença, s/d, pp. 63-65.


sexta-feira, 23 de abril de 2021

ANNOBON (1993)


 

A culpa é do Emanuel, que partilhou o tema no Facebook. Ocorreu-me que tinha dado poema há anos, um daqueles que desaparecem para só por acaso voltarmos a dar com ele. Encontrei-o aqui. Merece explicação breve, à época tinha um pseudónimo. E escrevia coisas que dava, desfazia-me delas, sem guardar registo pessoal das mesmas. Vai fazer 21 anos que os vi ao vivo no Seixal (aqui). O tempo passa rápido, as palavras voam:
 
Quando chegámos à ilha de Annobon,
a primeira coisa que fizemos foi procurar
um sítio onde arrumássemos as lágrimas.
Não havia como chorar num sítio assim,
com mulheres dançando ao ritmo do vento,
polpas de palmeira em troncos de papel,
sombras conduzidas pelo sopro de deus
como a areia nas dunas de um deserto distante.
A música é o vento que leva o corpo.
E a dança é só uma técnica de respiração.
Assim é em Annobon. Recordo os olhos
das crianças, pequenos focos de luz
a saltarem da carne preta. Os seus sorrisos
de estômago vazio, uma ternura que é impossível
vislumbrar onde as árvores têm nome de gente grande.
Ninguém precisa de saber o nome das árvores
para amá-las. Ninguém precisa de saber o nome
das árvores para amar. Annobon vibra dentro de nós
sempre que os sopros prenunciam a maresia,
o calor, a declinação do sol sobre as águas do Biafra.
Não sei se ainda lhe consegues sentir o cheiro.
Parece distante mas não está.
Basta escutá-lo com atenção.
Gostava de adormecer todos os dias em Annobon,
esses cinco minutos que fazem valer uma vida.
Mesmo quando o sono me trai e o acto de sonhar,
escutar para dentro, rende o silêncio dos nervos à flor da pele.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

UM POEMA DE SEBASTIÃO BELFORT CERQUEIRA

 


BONZO DOG DOO DAH BAND

we are normal
and we want our freedom
Aí vêm os normais
Perguntar-me porquê

Aí vêm os normais
Vender-me calças

Aí vêm os normais
Em sentido contrário
Devagar
Presos no trânsito
Todos a condizer

E eu digo-lhes adeus

Aí vêm
Aí vêm os normais
Tão bem vestidos
(No meio deles alguns amigos meus)

Aí vêm os normais
Angariar-me

Aí vêm os normais
Dizer
Que até sou bem parecido

Aí vêm os normais
Apalpar o tecido
E conduzir minuciosas pesquisas

No roupeiro da minha alma
Na secção que diz camisas.


Sebastião Belfort Cerqueira, in Música Normal, Companhia das Ilhas, Janeiro de 2021, pp. 37-38.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

THE LONESOME ROAD (1927)

 


Foi ainda dentro do útero que ouvi cantar pela primeira vez, a emissora nacional ressoava em todos os bairros e condomínios, casas e apartamentos, solares e quintas, anunciando um futuro para quem, até então, só conhecera passado. Entorpecido pelo álcool, Stan Kenton morreria 5 anos depois. Não deve ter dado por nada, estava do outro lado do oceano a tentar reconciliar-se com Leslie, a primeira filha, que mais tarde revelaria três anos consecutivos de abusos sexuais perpetrados pelo próprio pai. Quem diria, o charmoso Kenton, líder de bandas com mais de quarenta músicos, o homem que transportou o jazz dos salões de dança para as salas de concertos. Dignificador do jazz, estuprador da filha. Estou a ouvi-lo debaixo da voz de June Christy, num clássico da música popular composto por Nathaniel Shilkret e Gene Austin (o primeiro dos crooners) que conheceu versões de meio mundo: «Look down, look down that lonesome road / Bebore you travel on.» Vá-se lá entender as pessoas. Em plenos anos 50, dava um concerto por terminado, chegava a casa bêbado e abusava da filha. Mas fez uns arranjos tão bonitos para a canção de Shilkret & Austin.   

terça-feira, 20 de abril de 2021

UM POEMA DE HARRYETTE MULLEN

 


NÃO NOS RESPONSABILIZAMOS

Não nos responsabilizamos pelos seus familiares perdidos ou sequestrados. Não garantimos a sua segurança caso desobedeça às nossas instruções. Não apoiamos as causas nem as reivindicações dos indivíduos que pedem subsídios. Reservamo-nos o direito de recusar serviço a quem quer que seja. O seu bilhete não significa que lhe garantimos as reservas. A fim de facilitar os nossos procedimentos, é favor limitar os seus comportamentos. Antes da descolagem, é favor extinguir quaisquer rastilhos de rancor. Se não compreende inglês, será removido. Em caso de perda, o melhor é desembaraçar-se. A sua apólice foi cancelada porque deixámos de tratar das suas pretensões assustadoras. Os nossos expedidores perderam a sua bagagem e não conseguimos encontrar a chave para o seu caso legal. Não lhe assiste a presunção de inocência se a polícia tiver razões para suspeitar que traz consigo uma carteira escondida. Não temos a culpa de ter nascido com a cor de um gangue. Não temos a obrigação de o informar dos seus direitos. Ponha-se de lado, por favor, enquanto o nosso agente revista a sua atitude censurável. Não lhe assistem direitos que devamos respeitar. Por favor mantenha a calma, ou não podemos ser responsabilizados pelo que lhe venha a acontecer. 

Harryette Mullen, in Lisbon Revisited - Dias de Poesia, trad. Margarida Vale de Gato, Casa Fernando Pessoa, Junho de 2018, p. 38. 


segunda-feira, 19 de abril de 2021

CHEGA DE SAUDADE (1958)

 


Mesmo à nossa frente, do outro lado da rua, vivia o Tom. Era jogador do União Desportiva de Rio Maior, tinha um carro vermelho que fazia lembrar o Dodge Charger dos três duques. Durante muitos anos todos os carros vermelhos me faziam lembrar o modelo da mais estúpida série televisiva de que há memória, pelo que assumirei a reiterada associação como uma espécie de trauma de infância ainda hoje mal resolvido. Uma rua pacata, a nossa. Não tinha saída. Agora que penso nisso, ter crescido num beco sem saída pode ter sido mau agouro. O Tom tinha um carro vermelho, conheceu o destino da imensa maioria das vedetas dos clubes de província. Com as pernas saturadas de levar caneladas, casado com uma moça que se queixava às vizinhas de maus tratos, sem que qualquer consequência adviesse de tais queixas, arranjou trabalho como porteiro no único bar da cidade. Começou a beber, muito, tanto que rapidamente se lhe formou um capacete na zona do umbigo. A última vez que o vi servia à mesa, estava careca, barrigudo, pernas arqueadas. Quando saí do restaurante não contive o olhar e ofereci um relance pelo parque automóvel a ver se descortinava o saudoso Dodge Charger. Nada. Dos velhos tempos, Tom conservava apenas o bigode, sombreado entre lábio superior e a ponta do nariz, a fazer notar o ridículo dos Tom que não chegam a Jobim. Há muitos, conheci uns tantos, craques da bola peneirentos como araras, ultrapassados pelo tempo e traídos pelas circunstâncias. Estouram os trocos em futilidades, um pouco como nós, aqui, agora, quiçá a mais inteligente das opções que tomaremos na vida.

ESPECTÁCULO E ESPECTADOR

 


Jamais a censura foi tão perfeita. Jamais a opinião daqueles a quem se faz crer ainda, em certos países, que são cidadãos livres, foi tão pouco autorizada a tornar-se conhecida, cada vez que se trata de uma escolha que afectará a sua vida real. Jamais foi permitido mentir-lhes com uma tão perfeita ausência de consequência. O espectador é suposto ignorar tudo, não merecer nada. Quem olha sempre, para saber a continuação, jamais agirá: e tal deve ser o espectador.
 
p. 35.
 
O fluxo de imagens domina tudo, e é igualmente qualquer outro que governa a seu gosto este resumo simplificado do mundo sensível; que escolhe aonde irá esta corrente, e também o ritmo daquilo que deverá manifestar-se nela, como perpétua surpresa arbitrária, não deixando nenhum tempo para a reflexão, e em absoluto, independentemente do que o espectador possa compreender ou pensar. Nesta experiência concreta da submissão permanente, encontra-se a raiz psicológica da adesão tão generalizada àquilo que lá está, que vem a reconhecer-lhe ipso facto um valor suficiente. O discurso espectacular cala evidentemente, além de tudo aquilo que é propriamente secreto, tudo aquilo que não lhe convém. Daquilo que mostra ele isola sempre o meio, o passado, as intenções, as consequências. É, portanto, totalmente ilógico. Já que ninguém pode contradizê-lo, o espectáculo tem o direito de contradizer-se a si mesmo, de ratificar o seu passado. A altiva atitude dos seus servidores quando têm de fazer saber uma versão nova, porventura mais mentirosa ainda, de certos factos, é de ratificar rudemente a ignorância e as más interpretações atribuídas ao seu público, ainda que sejam os mesmos que na véspera se apressavam a difundir esse erro, com a sua habitual certeza. Assim, o ensino do espectáculo e a ignorância do espectador passam indevidamente por factores antagónicos quando nascem um do outro. A linguagem binária do computador é igualmente uma irresistível incitação a admitir em cada instante, sem reservas, aquilo que foi programado como muito bem quis qualquer outro, e que se faz passar pela fonte intemporal duma lógica superior, imparcial e total. Que ganho de rapidez, e de vocabulário, para julgar de tudo! Político? Social? É preciso escolher. O que é um não pode ser o outro. A minha escolha impõe-se. Sopram-nos, e sabe-se para que são estas estruturas.
 
pp. 41-42.
 
É necessário que haja desinformação, e que ela se mantenha fluída, podendo passar por todo o lado. Lá onde o discurso espectacular não é atacado seria estúpido defendê-lo; e este conceito, contra a evidência, usar-se-ia rapidamente par ao defender a respeito de assuntos que, pelo contrário, devem evitar chamar as atenções.
 
p. 62.
 
O conceito confusionista de desinformação foi posto em alerta para refutar instantaneamente, ao simples sussurro do seu nome, toda a crítica que as diversas agências de organização do silêncio não foram capazes de fazer desaparecer. Por exemplo, poder-se-ia dizer um dia, se isso se revelasse desejável, que este escrito é um empreendimento de desinformação sobre o espectáculo; ou então, o que é a mesma coisa, de desinformação em detrimento da democracia.
 
p. 63.
 
A imbecilidade crê que tudo é claro, quando a televisão mostrou uma bela imagem e a comentou com uma audaciosa mentira.
 
p. 75.
 
Há em toda a parte muitos mais loucos que outrora, mas o que é infinitamente mais cómodo é que pode falar-se disso loucamente.
 
p. 84.
 
O destino do espectáculo não é certamente acabar em despotismo esclarecido.
 
 
Guy Debord, in Comentários sobre A Sociedade do Espectáculo (1988), trad. Fernando Silva e Edmundo Calado, mobilis en mobile, 1995.

domingo, 18 de abril de 2021

DEZOITO

 


18 é um número místico, dobro de 9. E 9 é o triplo de 3 e 3 é a conta que deus fez. 8 + 1 = 9. Ora, 9 é 3 x 3, a santíssima trindade elevada ao cubo, o que perfaz três pais, três filhos e três espíritos santos. Um buraco negro nas contas do estado, portanto. Mas como tudo tem face e reverso, os buracos negros são fixes. Neles repousa a origem do mundo, como exemplarmente representou Gustave Coubert. Daí que 18 seja essencialmente feminino, no que tem de reprodutivo e criativo e germinativo. Por onde quer que o abordemos, iremos sempre deparar com a mística do 3 (trindade) ou a do 2 (dualidade). Porque 18 é duas vezes nove, isto é, noite e dia, terra e céu, branco e preto, sol e lua, mas com um imenso universo de estrelas brilhantes a subdividirem zenãomente o infinito. 18 também é 7, porque 8 – 1 = 7. Ora, 7 são os dias da semana, as cores do arco-íris, as notas musicais, o que faz de 18 um número musical num palco de cores vivas. Há uma enigmática aporia na raiz do 18, já que 8 é o símbolo do infinito. Mas de pé. 18 é o infinito de pé, abraçado à unidade, de mão dada com a unidade, apoiado na unidade. Mas o que verdadeiramente faz de 18 um número especial é a Matilde ter nascido a 18. E fazer hoje 18. E a mensagem se conservar viva:
 
MATILDE
 
Chegará o dia em que confundirás
as horas com o tempo
a medida com o espaço
em que farás do céu uma casa escarrapachada
e para ti o amor se definirá assim:
viver dentro de um coração
 
Farás do cão o país das pulgas
tomarás banhos de água cheia
com singulares noções anatómicas:
o joelho também tem cotovelo
 
Não cresças nunca, por favor
mantém o sono na cama
não o levantes do peito
e deixa as escadas penduradas no tecto
 
A mãe há-de regressar
com um saco cheio de cansadeira
 
O pai há-de embelezar-se
com um terço: o colar da missa
Mas não cresças nunca, por favor
 
E em crescendo faz por manter
nos olhos a alegria desmedida
de tudo o que é ambíguo, ilógico, natural
 


Parabéns Matilde. Obrigado Ana. Mais do que um corpo em chamas, a centelha que incendeia. Saúde.

sábado, 17 de abril de 2021

CANTALOUPE ISLAND (1964)

 


E para terminar, dizer não deixa-me desconfortável. Ultimamente tem sido mais frequente do que desejaria. Fico com a sensação de que devia fazer um esforço suplementar, escalar muralhas com as unhas, afinar com os dentes as cordas vocais do arrependimento. O que fazer? Qualquer coisa excepto essa exposição pública do estômago a que diariamente assisto com embaraço. É difícil compreender quem se confessa a um padre, quanto mais quem desabafa com o mundo. Não me habituo. Para quê inquietar (não inquietas nada) ou entediar (deixa-te disso) os outros com os meus problemas pessoais tornando-os públicos? Há uma ilha onde é possível levantar uma cabana de palha que nos proteja do frio e de outros inimigos nocturnos. Durante o dia, a pessoa senta-se ora numa pedra, ora na areia, ora nas ervas daninhas da esperança e fala com árvores, o céu, paredes, uma lesma que se atravessa à nossa frente com a velocidade exacta do amor. Tenho relido Debord, um canalha que nos profetizou há meio século. Chego a desconfiar que aquilo tenha sido escrito há tanto tempo, muito antes desta rede que nos apanhou a todos de arrasto como arraia-miúda num oceano que já não tem brechas por onde escapar. No fundo, um aquário. E do lado de lá do vidro, a salvo dos microplásticos, umas poucas retinas ampliadas a perseguirem as voltas que damos de um lado para o outro até nos empanturrarmos com côdeas de pão. Ainda será possível a felicidade? Creio que sim, fechando os olhos, dormindo, esquecendo um dia de cada vez.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

4 LAURENTINAS & OUTRAS COUSAS

 


Nascido em Inhaminga em 1933. Mestiço de hindustano, celta, judeu e com prováveis avós nos Concheiros de Muge. Parte da infância e adolescência em Santiago de Galapitões, por onde leu muito Hugo, Camilo, Poison do Terrail e S. Cipriano. Herbanário e colector de pedrinhas. Gago mas muito dotado para o fado e para a ociosidade. Funcionou em várias profissões, tais como a pública e a privada, e é actualmente conselheiro para a África Leste do Comptoir d’Hygiène et Beauté, no sector de Shampoos e desfrisodorizantes. Volta nos anos sessenta à África, muito documentado em Edgar Burro — (ughs!). Acha que a realidade é aqui a sopeira da fissão. Sem vícios, com hábitos simples mas não mesquinhos. Também já esteve em Paris.
 
Livros publicados:
- 40 e tal sonetos de amor e circunstância e uma canção desesperada.
- O Morto. Ode didáctica.
- A Arca. Ode didáctica na 1.ª pessoa.
 
Laurentina desagravada
 
termos fígado é termos moral
sermos importantes é bem bom
evitemos as rimas em al
cala-se a voz que turbada,
já de si mesmo etc. … bom!
 
estavam os suicidas todos à janela
a gabarem uma vista significativa
que vinha à cabeça da comitiva
que vinha no meio da comitiva
que vinha na cauda da comitiva
e o ainda mexerem era a única coisa bela
e o ainda mexerem era a única coisa viva
para bem dela.
 
O marido a fingir que não vê
boa perna e papeira flá
cida do souflé do souflé
e do amor dum pequinois.
 
e enganemo-nos a achar glorioso
o passado desfuturado
vamos arranjem um papão a falar grosso
já temos um menino medroso
e um cueiro branco mijado.

 
*
 
Laurentina matinal
 
Bem assentadinho
no trono de louça
estou que nem um lorde!
Digiro e acto contínuo
(que ninguém me ouça)
tracteio ford!
 
De roupão de dragos
escreve-lhe aos rapazes
a mandar coragem.
entre dois caragos
currangindo gases
apoio a mensagem.
 
(quero cá saber
se a prosa é manhosa
se a mim me auxilia!
sim, que eu cá sei ler
para alguma coisa
isto serviria)

 
*
 
Fabulírio 2
Rumor

 
Um berbigão apaixonado
por uma ostra de portimão
fez uma aposta com um limão
e foi juiz a salsa. O alho
ficou de fora enxovalhado
e foi queixar-se ao rodovalho
vá pró… lixar-se! disse este ao alho
vá pró você, seu porcalhão!
 
Eu nada sou mais que um escriba
e não desejo, claro pois,
fazer de queijo entre estes dois.
A dona ostra estava cativa
lá dum percebe que percebia
de engenharia. O atum queria
também queria molhar a sopa
com a garopa… claro pois!
 
E é muito ingrato ser-se cronista
dos baixos fundos. Pausa, grabato,
poupando a vista poupas profundos
aborrecinazos à tua lista.
e, episódico, algum flato!

 
*
 
Ronda dos leques ou terapêutica da ocupação
Laurentina a partir do litoral

 
Para as loiras vou-me de alfa
para o sommershield dos betas
retiro o brazão das malvas
e anteponho duas letras
mariconas marialvas
ao meu silva de pobretas.
 
Para as oxigenadas
fico à carreira de tiro
e visto as cores encarnadas
do meu porsche que é mais giro.
Na polana das coutadas
em spraite dou um giro
que as louras acastanhadas
inda merecem um tiro.
 
Para tranças e cravés
maxaquene é um regalo:
mercedes e capilés
na princesa ou na pigale!
Vestem sedas do chinês
usam mesas pé de galo
lavam, o bastante, os pés
e têm pernas de estalo.
 
Para mulatas monhés
vou de fiate na virgem
até ao alto maé
ver os produtos na origem.
Mais incenso ou mais rapé
mais espinha ou mais impingem
rapazes isto é que é
ir mais perto da origem!
 
Para setins e pelezinhas
com dentes fora do riso
vou de simca rolinha
às portas do paraíso
de xipamanime. A linha
com que coso o meu consiso
paladar, é muito minha
que tem o doutor com isso?
 
Para entrar no outro mundo
de silêncio e aceitação
vou de jip que é fecundo
íman de admiração.
Em palavras gastei tudo
com silêncio é que me quero.
Vou de carrinho ao entrudo
dos silêncios em som estéreo…

 
João Pedro Grabato Dias, in Uma Meditação, 21 Laurentinas e dois fabulírios falhados, introdução de Maria de Lourdes Cortez, edição do autor, capa de António Quadros, Lourenço Marques, 1971.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

OPERAÇÃO MARQUÊS

Dois bons artigos, para serem lidos e reflectidos. Um, de Garcia Pereira, a meter o dedo na ferida: aqui. Outro, de Pedro Tadeu, de uma clarividência exemplar: aqui. Curioso que sejam duas pessoas assumidamente de esquerda — e quando digo esquerda não me refiro ao socialismo engavetado de Soares e comparsas — a assinarem tais textos, os quais revelam algo muito mais preocupante do que o folclore promovido por incendiários porno como calha serem quase todos os comentadores de serviço das televisões. 

AND WHAT IF I DON’T? (1963)

 


Continuando. O que se toca numa jam session com amigos? Lou Reed, Neil Young, Jorge Palma, Bob Dylan, Pink Floyd, Jimi Hendrix, bluesPoetry can heal depression, li há tempos num jornal. Mais recentemente, uma cadeira de Introdução à Poesia passou a fazer parte de um mestrado de Medicina. Ontem li esta: estão a chegar poemas às caixas de correio dos portugueses, a iniciativa visa combater a solidão e religar a comunidade. O Zé tem razão, transformaram a poesia em auto-ajuda. Mas há também uma dimensão religiosa nisto de religar a comunidade através dos poemas. Não é coisa que eu entenda, os meus poetas preferidos foram todos pouco saudáveis. Vê-los convertidos em ben-u-rons e chás de tília causa-me algum desconforto. Por outro lado, compreendo que nem toda a gente saiba tocar um instrumento e tenha amigos na companhia dos quais possa exorcismar os seus demónios. Tocar guitarra é o meu xarope antidepressivo, uma forma agradável de passar o tempo que hoje calhou à volta de uma mesa recheada de cerveja artesanal e amendoins. Terminada a desbunda, regressei ao carro e meti a tocar Herbie Hancock. Pensei que também a poesia há-de ressentir-se de tantos praticantes encerrados numa redoma onde só se fala e discutem poemas, gente tão embrenhada em questões abstractas e académicas que se esquecem quanto de terra, viagem, respiração, vida, aventura, foda, se espera encontrar num poema. As palavras inventaram-se para representar as coisas, fecharmo-nos num mundo em que as únicas coisas são as palavras há-de ser triste. Já devo ter mencionado algures Gracham Moncur III e Grant Green, que acompanham Hancock no álbum que estou agora a escutar. Que relação terão tido com a música nas suas vidas? Terá a música contribuído para que fossem pessoas saudáveis, menos sós, ligadas à comunidade?

quarta-feira, 14 de abril de 2021

AMÉRICA MEU AMOR

Entre os deslumbramentos mais pacóvios e até incoerentes no nosso comentário político está o fascínio exercido pela democracia americana. Não se entende de todo como é que um país com uma sociedade endemicamente racista, internamente assimétrico como poucos, com um sistema eleitoral falacioso, permeável à ingerência de terceiros como se verificou na eleição de Trump, um país com pena de morte, legitimador de práticas de tortura, com um poderosíssimo sistema de vigilância dos cidadãos, que investe mais numa Agência de Segurança Nacional do que na educação, belicista até aos dentes, albergue de milícias armadas e de grunhos de extrema-direita capazes de invadir um capitólio com a maior das facilidades, com presos políticos, com terrorismo interno, com vários exemplos de ingerência internacional, não se percebe como um país destes pode ser exemplo de democracia para alguém. Não nego, que seria estúpido, as imensas coisas positivas dos EUA, mas fazer daquilo um modelo de espanto e admiração é algo que está para lá da minha capacidade de compreensão.

DÁ A PATINHA

Miguel Sousa Tavares: Desculpe-me a ousadia mas eu discordo de si.
Rogério Alves: Miguel, com todo o respeito, mas não concordo consigo.
Marinho e Pinto: Eu posso meter o bedelho?
Quitéria: E se fossem dar banho ao cão?

O QUE É UM POEMA?

 


A poesia pode muitas vezes abraçar a alegria e o desespero que se sente quando se acredita que viver é saber, que saber é dizer, que dizer é fazer-se ouvir e que fazer-se ouvir é impossível.
(…)
Para mim, um poema é a primeira pressão a frio da experiência. Qualquer coisa de essencial é extraído do caos da vida, a partir do desconhecido constrói-se qualquer coisa que se pode conhecer, no coração do tumulto descobre-se um silêncio, da confusão nasce a claridade. E é sempre temporal, uma evocação da nossa condição mortal, um prazer que insiste na sua dificuldade.
(…)
Um poema é uma renegação do privilégio que nega a mortalidade: não é nem eterno nem imediato. É uma outra coisa. Um poema só existe no momento em que é lido ou ouvido. O resto é memória
.
 
Daniel Keene in, Pièces courtes 1, Montreuil-sous-Bois, Éditions Théâtrales, 2005.


O que é um poema? Seria preciso um poema para responder a esta questão, o que pode começar a deixar entrever o que é um poema. Talvez um poema seja uma resposta imaginária a uma questão inexistente. Talvez um poema seja uma condensação de sentido a ponto de chegar a uma realidade única e indesmentível (por mais modesta que seja). Talvez um poema seja música disfarçada de escultura, ela própria escondida num quadro. Talvez um poema seja qualquer coisa que insiste na presença ao ponto de se tornar pura presença. Talvez um poema seja apenas o espaço entre dois silêncios (mas o silêncio depois do poema é diferente do que o precede, o silêncio é alterado pelo poema). A poesia existia antes da escrita. Era uma arte oral/uma tradição oral. Para existir, nem que fosse só para existir, a poesia exigia que o poeta falasse ou cantasse diante de outro. O poema nascia no ouvido do ouvinte. Era teatro.

 

Daniel Keene, in Pièces courtes 2, Montreuil-sous-Bois, Éditions Théâtrales, 2007.

terça-feira, 13 de abril de 2021

NEW SONG #3 (1978)

 


Comecemos pelo avô a responder às dúvidas dos netos sobre a revolução. Tudo gravado a pensar no próximo 25. No final, a dúvida: acham que estive bem? E a constatação: esqueci-me de falar disto e daquilo. É sempre assim, pai, confortei, o essencial ficou. Terá ficado? A memória é traiçoeira. Partamos do princípio segundo o qual a matéria mais relevante é-nos oferecida sem imposto, sendo de menor relevância o que permanece por detrás da cortina. Recalcamentos não são esquecimentos, são memórias desactivadas. Por vezes, um acontecimento, um cheiro, uma palavra bastam para reactivar esse material trazendo-o à superfície. Se resolvêssemos fazer uma árvore genealógica das memórias, como as elaboramos de famílias, até onde conseguiríamos chegar? Tenho uma irmã crente em terapias regressivas, está convencida de que conseguimos lembrar-nos de vidas passadas. Há documentários espantosos sobre o tema, ainda há dias vi um. Não me impressionou, pelo menos não tanto como parece ter impressionado os restantes elementos do agregado. Era sobre crianças que desde cedo mencionavam vivências anteriores ao dia em que vieram ao mundo, com referências concretas a lugares, factos, os quais se comprovavam mediante investigações aparentemente objectivas. Não digo aparentemente para menosprezar a hipótese em causa, apenas porque tanto em matéria de investigações científicas como de memórias tudo me surge envolto em aparências. Entretanto, uma outra irmã dedicou-se à genealogia de facto, descobrindo do lado da mãe uma Quitéria do Paraíso provavelmente nascida em 1770. Ter-me-á falado? Seria cigana? O que têm Ron Carter, Herbie Hancock e Tony Williams que ver com isto? Estavam no Japão a gravar 1 + 3.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

ESTEEM (1972)

 


Cada opção tem os seus infortúnios, pântano melindroso de aparentes rejeições. Há quem se precipite para dentro do charco e aí se deixe afundar até não mais se fazer ouvir, outros limitam-se a suspender o curso natural dos factos sem antever em cada decisão um selo definitivo de recusa. Dou-me bem com o crepitar da lenha em chamas, enquanto os cães manifestam alegria em corridas circulares e Steve Lacy, o tenor, toca Esteem. A primeira versão datará de 1972, gravada em Paris aquando do périplo europeu. Começou no dixie, acabou no free. Era um espírito aberto como sempre são os melhores. Queria que o jazz se desse bem com outras artes, a pintura e a poesia, mas também a dança e o teatro de Beckett, por exemplo. Nada prezo mais actualmente do que esta interdisciplinaridade, a aprendizagem que advém do eclectismo e o gozo que se pode retirar do sincretismo são bens essenciais neste mundo cada vez mais afunilado na cagança. Em Portugal a desgraça é tanto mais evidente quanto a pequenez do território se reflecte na mentalidade dos seus habitantes, que vistos de Paris, como dizia o outro, têm todos aspecto de saloios (com estudos, acrescento eu). Não levo a mal o silêncio dos monges, até o respeito. Pessoas determinadas e coerentes como rectas, mas só quando isso vem do carácter. Nunca enquanto construção de um remorso. Constato haver gente que fala demasiado de outra gente na sua ausência. Nem sempre por intriga ou maldade, acontece assim. É defeito de não se pensarem. Concentro atenções nos rostos que diante de mim se perfilam. Não acredito em espectros. Irritava-me tanto a ex-jornalista que passava o tempo a falar-me de terceiros como me irritam os cretinos que só falam de si mesmos. Não seria melhor fazer como os cães? Tal e qual como os cães, correndo aos pulos, em círculos ou aos esses, com a língua de fora e as orelhas ao alto embandeirando contentamento? It’s freedom life. Alguém que saiba em que álbum aparece, comunique por favor.

UM POEMA DE TIAGO ARAÚJO

 


a primeira morte é muito difícil
depois habituamo-nos
a morrer.

de cada vez os começos, a fronte escura,
levantar, cair novamente nos teus braços, os
meus braços.

a queda de hoje, como a dos impérios, só
pode ser explicada muito mais tarde, por
quem nos compreende muito melhor
do que nós próprios.

a imagem sobre o ecrã
da televisão desligada. um reflexo ou
o fantasma de quem não sobreviveu
a outra dor de estômago e encena
diálogos com corpos de morder, bocas
súbitas, apanhadas desprevenidas
pelo clarão dos flashes que tornaram tudo
definitivo. a fotografia e o corpo vazios,
contidos um dentro do outro, sem narrativa.

escrevo os sonhos, por já não poder confiar
na minha memória, mas tornaram-se
cada vez mais raros. invento-os
para poder continuar a escrever.
morro e escrevo, cada vez mais

uma actividade dependente da outra,
da mão para a boca, a água
transportada aos lábios.


Tiago Araújo, in Livre Arbítrio, Averno, Março de 2009, pp. 8-9.

domingo, 11 de abril de 2021

UM POEMA DE RUI BAIÃO

 


[Contactless]

Cuidado, ainda as pisam,
Às células cegas,
e às filhas delas também.
Se dispostas a morrer
por amor, estivessem
com um pé no estribo,
& o outro no cigano.
Fossem além do tempo,
tenda & azáfama.
Em ombros, sem alças
— um vestido negro

Era cego um surdo-mudo,
e o filho dele também. Cúmplice
até, dava jeito. O derradeiro desdém


Rui Baião, in balabela, edição do autor, Abril de 2019, p. 74.

sábado, 10 de abril de 2021

«AQUILO QUE É»

 

   Paris, 1984, 7 de Março. Gérard Lebovici, homem influente da indústria cinematográfica francesa, revolucionário editor da Champ Libre, com forte ligação ao situacionista Guy Debord a partir de 1971, é encontrado no interior do seu carro com quatro balas na nuca. A autópsia revela assassinato, cometido dois dias antes de haverem dado com o corpo. Nunca se apurou a autoria do crime, mas correram rumores que apontaram em diferentes direcções. O próprio Debord chegou a estar sob suspeita, assim como, mais tarde, responsáveis pelo combate ao terrorismo às ordens da presidência de “mon ami Mitterrand”. Facto é que na França de 1984 um editor de livros inconvenientes, refira-se en passant, foi barbaramente assassinado. Era assim quando os editores de livros e os escritores e os intelectuais e os artistas tinham verdadeiro peso em sociedades a salvo dos lenitivos cibernéticos e dos psicotrópicos algorítmicos.
   Não vale a pena queixarmo-nos do presente com nostalgia do passado, as coisas são o que são e é no e com o que temos que a acção revolucionária, progressista, insubmissa deve desbravar caminho ao encontro de mentalidades mais críticas, esclarecidas, inquietas, abertas e inconformadas. Essa é uma das funções que vem cabendo a pequenas editoras como é o exemplo da Barco Bêbado, de Emanuel Cameira, que não se exime de dar trabalho aos leitores insistindo na publicação de epistolografia que, de um modo lato, mas evidente, contribui para demarcar o seu território de acção. «Aquilo que é» (Fevereiro de 2021), troca de correspondência entre Jaime Semprun, Guy Debord e Gérard Lebovici, com tradução de Miguel Serras Pereira e ilustrações de Manuel Baptista, insere-se neste contexto dissertativo de princípios e propósitos, à laia de livro de estilo, meticulosamente delineados através da recuperação de textos que nos dão a ver, como bem refere Eduarda Neves no posfácio, «indivíduos para quem as folhas em branco se desdobram em território de luta» (p. 58).
   Datam estas cartas do final de 1976 e início de 1977. Semprun interpela Debord acerca da sua possível influência na decisão da editora Champ Libre recusar a publicação de umas teses sobre a situação espanhola depois de haver publicado La Guerre sociale au Portugal (1975) e Précis de récupération, ilustré de nombreux exemples de l’histoire récente (1976), recebendo do autor de A Sociedade do Espectáculo uma longa dissertação sobre o que deva ser uma editora, qual a sua função social e o papel de um dos seus autores nela: «Apesar do que alguns possam dizer, eu não sou o Weltgeist sentado atrás das garrafas e a Champ Libre não é criação minha» (p. 19). Acresce, em tom sarcástico como manda a regra, a questão — sempre folclórica nestes casos — das relações pessoais. Sem pretender saciar a curiosidade voyeurista de eventuais leitores, não resisto à citação: «Creio que pessoas que se aborrecem juntas fazem melhor em não se verem, qualquer que seja o seu acordo sobre uma quantidade de questões, e sobretudo sem se crerem obrigadas a edificar a partir disso divergências teórico-práticas mais vastas que não estavam em causa no caso» (p. 31). Uma lição para vida.
    Se, por um lado, facilmente se admira a obstinação de Semprun na defesa do seu projecto, por outro compreende-se o que terá afastado tanto Debord como Lebovici. No entanto, em vez de transformar esta guerrilha epistolar numa espécie de batalha naval, para a qual contribuiriam juízos de valor e de carácter porventura precipitados, o que há a reter entre os implicados é a consciência da seriedade subjacente a um projecto editorial, o qual não se ergue para satisfazer as vaidades de uns e alimentar os egos de outros, mas sim com um fim de participação cívica na vida pública que passa por encarar a publicação de um texto como uma ferramenta de acção, que não de propaganda e, muito menos, de mero entretenimento. «Podes saber que não tenho qualquer gosto maníaco pela escrita, e pensarás bem que se escrevi este livro não foi por querer a todo o preço entregar anualmente ao público as minhas reflexões sobre o problema do dia» (p. 43), assevera Jaime Semprun. Ora aqui está um excelente mas temo que frustrante desafio, tentar perceber a razão de ser e o propósito de tanto livro que hoje se escreve e se publica.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

PORTUGUESES

Quitéria está em êxtase, hoje já viu gente criticar o juiz Ivo Rosa que está convencida de que Bruno de Carvalho é um anjo na terra, Pinto da Costa um Deus impoluto e Luís Filipe Vieira um Papa inatacável. Portugueses, o outro é que tinha razão: só vos faltam as qualidades.

ALERTA QUITÉRIA

Rui Rio convida José Sócrates para encabeçar lista do PSD à junta de freguesia da Misericórdia. A da Ajuda também não está fora de questão.

QUITÉRIA NO CAMPUS

Lá fora, os passarinhos cantam. Entre as pernas, a passarinha chora.

UM POEMA DE RITA TABORDA DUARTE

 


FECHADO PARA BALANÇO

Culpo-te por não te amar em quase nada
e cuspo-te cada letra da culpa que é a tua.

É um xadrez que jogamos sempre juntos
rei branco em casa preta, adversários velhos
a mastigar estratégias de serão.

Culpo-me de te amar no final em quase tudo
e tu culpas-te por me culpar por me não amares.

Trazemos, então, o livro dos registos
e fazemos contabilidade, noite dentro.
Não sei como serão outros amores
mas o nosso é um longo livro nocturno dividido
em deves   em haveres   por um leve traço a sépia debotado.
Rasuramos e apagamos e voltamos a somar,
passamos cheques, recolhemos dividendos:
numa matemática cega, sem mais valias;
que nunca vão certas as contas deste amor.

Fazemos batota com as pedras do xadrez:
escondemos peões nas mangas largas,
uma rainha a mais entre as fraldas da camisa...
sussurramos bluffs embriagados sob a mesa,
duas torres arrasam uma diagonal inteira
e os cavalos sem freio a arquejar no tabuleiro;

o nosso jogo-de-xadrez é um exército desleal de armas de arremesso.

Ao final da noite   somos dois reis sozinhos
preto e branco
a remoer o xeque das contas repetidas
conferimos, então, os números que nunca batem certo
e fechamo-nos com um aviso à porta, gasto e rasurado:

fechado para balanço do amor.


Rita Raborda Duarte, in Roturas e Ligamentos, com ilustrações de André da Loba, Abysmo, 2.ª edição, Junho de 2016, pp. 23-23.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

DEPRIMENTE

Perdoar-me-ão o alarde, mas sinto-me cada vez mais genial. A culpa não é minha, nada fiz por merecer tamanha inteligência, mas sim da mediocridade reinante. Acabei de ver na televisão a confirmação de Suzana Garcia como candidata do PSD à Amadora, justificada por um tonto que se deu ao trabalho de branquear as alarvidades proferidas no passado pela dita candidata. A questão sobre castração química de pedófilos, que se o povo quisesse que fosse física teria de ser, porque o povo é que manda e mai’ nada, foi a cerejinha no topo do creme suíço: «é uma posição que não é a defesa da castração química mas sim a defesa de uma terapia medicamentosa do controlo do libido». Ao lado, em pose múmia obediente, a ex-presidente da minha terra natal. Tudo lindo de se ver e de se apreciar. A tal Garcia é do mais bronco pimba que possa imaginar-se, aquele tipo de grunha histérica com estudos que o mundo do espectáculo adora promover sob argumento de que não tem papas na língua. Eu até duvido que tenha língua, que aquilo é tudo papas. Não estou a referir-me ao aspecto físico da criatura, que não me é indiferente porque as prefiro carnudas, aludo ao simulacro de pensamento ostensivamente decotado. Chamam-lhe falar sem filtros, que é o que os burgessos fazem. Percebem? Se não perceberem, podem votar nesta gentalha. Apanhar com isto tantos anos depois de ver a Manuela Moura Guedes na AR faz-me sentir saudades desses bons tempos. Em desespero, o PSD tem vindo a meter-se no colo de grunhos e vai acabar por descer ao mais raso nível populista. Ainda vão buscar o Duarte Lima para concorrer a Saquarema. Ah, espera, o Brasil já não é nosso. Por mim tudo bem, é lá com eles. Mas a candidatura de Garcia traz um problema. Com a comunicação social merdosa que temos não se vai falar de outra coisa, ela será o centro das atenções. E isso sim, é deprimente.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

CATHOLIC BLOCK (1987)

 


O Emanuel acusou a recepção do Embate com Bull in the Heather, deixando-me a pensar na possibilidade de mensagens subliminares. Talvez ouvindo o tema de trás para a frente descubra alguma coisa. Quase à mesma hora, 12:52 de ontem, um transportador tocava à campainha para entregar uma caixa com livros enviada pelo Pedro. Tudo coisas boas que faltavam cá em casa. Uma biblioteca também se faz com gestos generosos, ou julgam que nado em dinheiro para andar por aí a gastá-lo em livralhada? De quando em vez, lá encomendo um título a este e àquele, passo por uma livraria jeitosa ou visito as bancas de velharias, onde me afortuno com pechinchas de 1 a 5 euros. Mais não posso, tenho um fígado para rebentar. E pronto, regressei aos Sonic Youth. Sister (1987) foi o meu primeiro, o quarto de estúdio deles (se bem me lembro). Já pariam álbuns desde 82, a banda do casalinho Thurston Moore & Kim Gordon. Depois separaram-se, 30 anos de vida em conjunto pelo esgoto. Ela escreveu um livro que não li, ele terá sido o elo mais fraco no mito propalado da fidelidade: «I got a catholic block do you like to fuck? / I got a catholic block guess I'm out of luck». Têm uma filha chamada Coco. Gostava de os ver juntos e estava-me nas tintas para a vida conjugal, que tivessem continuado com a banda após a separação é que era. Parvalhões. Tudo gente  artística e libertária, mas quando toca ao coração revelam-se do mais conservador que há. Devíamos nascer sem coração, quero dizer, não devíamos inventar um coração dentro e nós, devia ser tudo criação, nada de corações a impedirem a criação. O amor é uma merda, só nos traz tristezas.