segunda-feira, 31 de maio de 2021
NOTA DE RODAPÉ
domingo, 30 de maio de 2021
POEMAS AO SACRO
I
(canal sacral)
a postura incorrecta
do descrente
no chão frio
para que aprenda
à força da tortura sem algoz
o poder da fé
(forames sacrais dorsais)
nos querem de pé
as dores talvez
como as de quem sonha
quando deitado acorda
arfando horizontalmente
traz desconforto
o horizonte mente
a curva desmente
um quadrúpede de fé
com deslocamento
do sacro
não é passado
de que me orgulhe
(forames sacrais pelvinos)
na base da coluna esculpida
o homem gritou de raiva
ou de dor
incapacitante
que tudo confunde
conhece os enigmas do templo
(promontório)
uma maré de dores vagas
que arrastam o sono
e inundam a paciência
com os detritos da escrita
nem uma nota de conforto
(face articular lombossacral)
fazendo-te engolir as palavras
de vocábulos impronunciáveis
que só fora das margens
adquire sentido
(processos articulares superiores)
Expire fundo
Terei vendido a alma?
Do outro
Espiritualmente extinto
Deus não é dado a pormenores
(crista sacral mediana)
canto gregoriano
Da sua crista cristã sacral
evolavam padecimentos
acamada num silêncio
pesaroso
apenas uma dor que percorre a coluna
do sacro à cabeça
(faces auriculares do sacro)
que em nenhum encontro conforto?
a mesmidade do si-mesmo repetida
como alarme que a hora incerta
indica ao corpo as vias do alívio
e branca e lisa como a do comprimido?
(ápice do sacro cóccix)
enxotam o vento
Vejo-os daqui pela janela
que dá para o fim do mundo
E escuto os motores
em movimento
as nuvens que passam
como o tempo
lentamente
e tropeçam nas sombras dos astros
e caem por terra como cometas
da Terra
coberta pelo sal dos oceanos
e pelo sangue dos homens
e tento não pensar na demora
desta existência convalescente
num ápice aparecida
de súbito esquecida
enquanto lá fora até as árvores
parecem caminhar sobre raízes
e as rochas me surgem felizes
em torno de um eixo
fixo
deslocado
(processos transversos do cóccix)
pelas faces pálidas
li por lapso numa história
do século XIX
e logo me ocorreu cevar
nesta raiva
uns versos travestidos de dor
para não gritar
só a mim a dor perturba
e nestes versos que ninguém lerá
sobra o consolo que por lapso
a doença inventa
para se fingir saudável
(cornos do cóccix)
há que pegar o cóccix pelos cornos
ou elaborar trocadilhos
entre cornos e corpos
Mas eu não estou para piadas
falta-me riso à paciência
o quão espirituosa logra ser
a ciência das palavras
a doença que nos atinge
como Deus a marrar-nos por dentro
e o corpo feito arena
sem público
que atinge a coluna
esse pilar da consciência
que mantém de pé um corpo
diante da adversidade
compreenda a chama
que excita o pirómano
a falta de ar que agita
o peixe fora de água
o corno que perfura
o bandarilheiro
mesmo quando disfarçada de prazer
exalta o submisso
ou provoca o martírio
a dor é uma ruptura
uma fractura
e faz caminhar na direcção do outro
não isto que nos prende dentro de nós
como se nada mais houvesse
além do corpo que sentimos
sofrer
que fracture a primeira vértebra
BLOWIN’ IN THE WIND (1962)
Fosse tão fácil como gostar ou não de favas e teríamos o problema resolvido, mas não é. O gostar pouco determina quando está em causa um mundo. Gostas do mundo? Dir-me-ão que sim, em parte, algumas coisas não, outras sim, adoráveis coisas mundanas. O que é uma coisa? O mundo será uma coisa? Será possível habitar numa coisa? O mundo é uma encruzilhada e são múltiplos os caminhos para se chegar a lugar nenhum. Também se dá o caso de certos apreciadores de ópera detestarem westerns. Experimentem contar-lhes o argumento de um Ford como se fosse uma ópera de Verdi e é quase certo virem a ter uma surpresa. Formam-se no pensamento novelos de conceitos como cotão no umbigo, superstições quanto ao canto nasalado e o diafragma rachado, que num ápice metamorfoseiam a sabedoria em abusão. É como perceber que o tratamento às dores nas costas pode degenerar em problemas no estômago e então da dor nasce outra dor e ficamos tomados pelo desconforto como se não fosse possível libertarmo-nos dele. Somos monstruosas criaturas reféns de dores fantasma. Quando me meteram uma guitarra nas mãos, eu comecei por tocar Blowin’ In the Wind, The Times They Are A-Changin’, Knockin’ On Heaven’s Door, I’ll Be Your Baby Tonight, Quinn the Eskimo, All Along the Watchtower, e nunca mais escapei a esse labirinto, como uma dor que leva a outra dor. Portanto, se fosse fácil como gostar ou não de picante no esparguete, se assim fosse, de nada valeria caminhar sobre a Terra. Ela gira por si mesma, à volta de uma estrela, a mais de 100 000 quilómetros por hora. Era deixá-la girar. Seja como for, não chegaremos a lado algum. Certo como a Terra girar à volta do Sol.
sábado, 29 de maio de 2021
DIZER
tão discreta
que se não fosse a luz
carregada de azul
ninguém diria
que estava ali a Sombra,
a Protectora
da alma dividida:
não se podia vislumbrar
e apenas emergia do silêncio
para afastar o Anjo
negro reverso da luz
que lhe fechava as portas
e se o deixasse sozinho
lhe secaria as cores
nas bisnagas escolhidas
cada dia
sexta-feira, 28 de maio de 2021
UM POEMA DE IVO MACHADO
HAVERÁ MARCIANAS EM MARTE?
Maquilhagem: rímel, batom,
eyeliner, sombras, pós, blush, unhas, pestanas, verniz… Jóias: brincos,
colares, pulseiras, pregadeiras, anéis, broches… Vestuário: soutiens redutores,
copas invisíveis em silicone, próteses, cintas… Saltos altos. Extensões. Injecções
nas nádegas, nos lábios, onde aprouver. Unhas de gel, pestanas postiças.
Depila. Ginásio, glúteos, bíceps, tríceps, stríceps em selfie para Instagram.
Decora com um livro de poesia entre as pernas, fica bem, montes de likes. E
tatuagens, claro, inevitável, um piercing ou dois ou três. Tudo isto e muito
mais a embelezar, a estilizar, a turbinar. Uma caderneta de frases
inspiradoras: sê tu mesmo, sê autêntico, a liberdade é o caminho, segue o teu
instinto e alcançarás o reino dos escarcéus. O que mais aprecia num homem? A
verdade, a honestidade e o sentido de humor. O que mais aprecia numa mulher? A
alta-fidelidade. Viram os ingleses? Eram estereofónicos, entoavam cânticos em
registo quadrifónico. A miss universo é mexicana, os marcianos não concorreram.
Haverá marcianas em Marte? E na Terra?
quinta-feira, 27 de maio de 2021
UMA JOVEM COISA PEQUENA
quarta-feira, 26 de maio de 2021
BODY AND SOUL (1930)
Estranhos delírios nos
assomam como as marés, num vaivém que há-de ter suas causas e razões. Na companhia de um ex-amigo, calcorreava
campos em busca de cerejas. Eis algo que não me recordo de alguma vez ter
feito, apanhar cerejas. Ia também connosco o meu falecido cão, o Basquiat. À
solta, como tão fácil era andar com ele. Mais obediente do que a Nala, não
causava cuidados desprendê-lo da trela. Deparei com algumas árvores de fruto pelo
caminho, nenhuma dava cerejas. A dado momento, reparo num arbusto onde reluziam
uma espécie de pimentos muito pequenos. Apanhei alguns que fui atirando para o
interior de um saco de plástico. Quando me levanto e volto, abria-se atrás de
mim um imenso vale com uma cerejeira carregada bem no centro. Nós estávamos no
cume de um monte recortado por socalcos e patamares, como aqueles que por vezes
se vêem cobertos de vinhas, mas em vez de vinhas tinha construções de cimento, levadas,
escadarias, habitações abandonadas. Tínhamos de descer, encontrar o melhor
caminho para chegar à cerejeira. As construções em cimento eram labirínticas e
acidentadas. Vi o Basquiat afastar-se rapidamente. Preocupado com ele,
separei-me do meu ex-amigo e desci no encalço do cão. Gritava sem obter
resposta. O cão prosseguia indiferente, agora obedecendo a uma mulher de aspecto rural, cabeça coberta por um lenço, saia cinzenta, avental à cintura. O
cão desapareceu atrás da mulher. Aflito, eu gritava em vão, descia
apressadamente, metendo-me por caminhos desconhecidos até dar por mim preso num
beco sem saída. Não tinha como libertar-me, estava completamente só e entregue à
sorte. Quando acordei, com a Nala aos pés da cama, a primeira coisa que fiz foi
procurar no telemóvel fotografias da Sarah Vaughan. A mulher do sonho era
igual, mas branca. E vestia-se como as minhas avós. E não cantava. Mas era
igual.
Nota adicional e
irrelevante: Body and Soul foi escrita por Edward Heyman, Robert Sour e Frank
Eyton, com música de Johnny Green, para a actriz britânica Gertrude Lawrence. Chegou
a estar banida da rádio por alegadas referências sexuais, mas tornou-se um
standard interpretado e gravado por inúmeros artistas.
terça-feira, 25 de maio de 2021
FICAR NO PATAMAR
À excepção de O Patamar, os cinco caprichos teatrais
de José Gomes Ferreira pareceram-me agora datados e menos interessantes do que
quando os li pela primeira vez. Talvez à época ainda me entusiasmasse certo
discurso entretanto ultrapassado pelas circunstâncias. São peças políticas
sobre diferentes modos de receber a notícia de uma revolução, ecoam já distanciamento,
porventura desconfiança quanto ao rumo tomado, e algum desencanto. Falar do 25
de Abril de 1974 como se fala em Manhã
Morta ou Os Novos e os Velhos
exala o mofo das meras curiosidades arqueológicas. Nem tudo é antiquado. Os
cenários sugeridos nas didascálias têm em comum as escadas, aspecto que não é
de todo desinteressante. A escada permite uma ocupação do espaço que não é
meramente decorativa, apela a movimentos ascensionais e descensionais que podem
favorecer a acção. Na peça O Patamar
os lances de escadas são acompanhados por iluminações que inspiram sentimentos
diferentes, conforme o vermelho ou azul insinuados. Continuo a encontrar piada no
velhinho que bate à porta do Sr. X, testemunha do pregador da salsicha sagrada,
missionário com o sonho de converter alguém à causa do Divino Salsicheiro. Ainda
tem um sonho, o velhinho. Diríamos que, fosse vivo, venceria na vida. Com o
passar dos anos Portugal foi completamente ensalsichado. Chamam-lhe
americanização ou hegemonia capitalista. O que quer que seja que lhe chamem é
cada vez mais um facto, reforçado pelo ilusionismo hipnótico de uma rede que
cativa porque aparvalha, que captura porque infantiliza, que seduz porque
facilita, que aprisiona porque desprotege. Isto é, uma rede que esgota o
discernimento crítico que podia ajudar cada um de nós a tomar posições
conscientes. Creio que tendem a rarear neste contexto de entretenimento
industrial massivo que, como outros previram há muito, faz de cada um de nós um
artista de variedades. O segredo do sucesso está na técnica do esvaziamento, a
qual pressupõe um vazamento (esgotar lembra esgoto, é isso a rede). Quanto mais
vazio, mais deslumbrante. Quanto mais fugaz, efémero, descartável, ligeiro,
mais estético. Nunca o lixo foi tão apreciado, nunca a porcaria foi tão
valiosa, nunca os dejectos foram tão aglutinadores. Nunca as salsichas tiveram
tanto sucesso. O velhinho da peça acaba por se acomodar num patamar. Gosto da
solução: «Prefiro ficar no patamar. Bem vê: casa tenho eu prometida no céu e na
terra. Já lhe disse que, quando deitaram abaixo o bairro de lata onde vivia, me
prometeram um palacete para daqui a cinquenta ou cem anos com colunas e tudo?
Prefiro o patamar. Estou convencido de que até, quando morrer, nunca passarei
do patamar. Ui! O medo que eu tenho de Deus. Atrevia-me lá a pisar o céu.
Tropeçava logo na primeira nuvem do caminho.» É um exemplo a ter em conta,
mesmo que ao subir ele vá ponderando criar uma nova religião. «Céu nosso que
estás na Terra e só falta aos homens coragem e audácia para o agarrarem e não o
largarem mais», responde-lhe o irónico Sr. X.
segunda-feira, 24 de maio de 2021
TODE UME NOVE LÍNGUE
«Apenas podem concorrer textos
inéditos, em língua portuguesa, respeitando o Acordo Ortográfico de 1945 e submetidos peles própries autores.»
(…) «Admite-se a candidatura de autores e autoras que colaboraram ou colaboram
com a Editorial Divergência e as suas chancelas, nos diferentes papéis
editoriais que se lhe associam, desde que se garanta o total anonimato,
conforme os termos dos números 12 e 16, e
não estejam envolvides em qualquer fase do processo editorial do
prémio. Em caso de empate com outre
autore que não esteja nas mesmas condições, é escolhida a obra deste
segundo.» (…) «Autores menores de idade podem concorrer desde que autorizados pele responsável legal. A autorização
deverá ser remetida em conjunto com a submissão e responsável legal estar claramente identificade
(nome, morada, idade, endereço electrónico, contacto telefónico).» (…) «Cada autore poderá submeter
apenas um manuscrito.» (…) «Autore
receberá uma mensagem de resposta acusando a boa recepção do texto no
prazo máximo de 48 horas após o envio.» (…) «Autore deve apresentar os seus dados identificativos (nome,
idade, endereço electrónico, contacto telefónico e morada) e o título da
respectiva obra no corpo do e-mail remetido e enviar um ficheiro
digital da obra, anexo ao mesmo e-mail, em que a primeira página é composta
pelo título da obra e a sinopse com o máximo de 200 (duzentas) palavras, reservando as demais páginas à obras
propriamente dita. Na obra propriamente dita não deve haver qualquer identificação de autore sob pena de
desqualificação.» (…) «Autore será
contactade previamente via correio electrónico.» (…) «O manuscrito
vencedor será publicado pela Editorial Divergência e autore receberá um prémio monetário de 100 (cem) euros. Os direitos de autore serão
pagos à parte.» (…) «Os critérios para a selecção
de vencedore serão parametrizados em termos da envolvência da trama,
credibilidade e coerência das personagens e mundos criados, originalidade e
fluidez narrativa.» (…) «A Editora reserva-se no direito de propor a autore alterações à
obra premiada caso entenda que venham melhor adequá-la à futura publicação.
Estas sugestões poderão ser alvo de contra-proposta
por parte de autore. » (…) «Sempre que solicitado pela Editora, autore vencedore deverá
colaborar a participar activamente em actividades, eventos e campanhas a
realizar com o objectivo de promoção, divulgação e comercialização da obra
vencedora, também devendo fornecer fotografias, nota biográfica, bibliografia e
outros elementos necessários à divulgação da obra.» (…) «Os direitos de autore são de 15%
(quinze por cento) do preço de capa da obra em papel e 25% (vinte e cinco por
cento) no caso dos livros em formato electrónico. Poderão ser pagos através da
oferta de exemplares ou de transferência bancária. O modo de pagamento é escolhido pele autore.» (…) «A
apresentação da obra a concurso implica, por
parte de autore, que este compreende e aceita todas as alíneas
estipuladas no presente regulamento bem como as explicações fornecidas pela
Editora de acordo com a alínea 22.»
Para mais informações, aqui.
domingo, 23 de maio de 2021
3 DEMISSIONETOS E UMA ODE
sábado, 22 de maio de 2021
OS MELHORES GREGOS
sexta-feira, 21 de maio de 2021
UM POEMA DE PEDRO TEIXEIRA NEVES
quinta-feira, 20 de maio de 2021
QI
Esta noite sonhei que o QI médio da população mundial diminuira drasticamente. As pessoas estavam a ficar literalmente burras. O focinho e as orelhas dos humanos haviam crescido exponencialmente, tal como outras partes do corpo. Os portugueses falavam agora uma espécie de mirandês zurrado, entendiam-se na perfeição apesar de um ou outro coice na gramática. Todos de quatro, o corpo coberto por uma pelagem grossa, andávamos deveras orgulhosos por finalmente o veganismo haver vingado junto da população. Fui à pata para Paris, onde havia burrinhas muito jeitosas que também comunicavam numa espécie de mirandês zurrado. Nunca o meu francês foi tão inteligível. A guerra acabara no mundo, assim como as religiões e a filosofia. Éramos felizes. Satisfazíamos as necessidades quando sentíamos necessidade de as satisfazer, todos, indiscriminadamente, apesar de um coice ou outro para espantar moscas. Acordei muito consolado. Gostei de me sentir na pele de burro. Sem humanos por perto.
quarta-feira, 19 de maio de 2021
DUAS ESTREIAS
O ano ainda não vai a meio, mas já podemos congratular-nos com algumas estreias no caminho. Dois livros próximos em múltiplos aspectos marcam o primeiro trimestre do ano. Ambos escritos por mulheres, ambos vinculados a uma poesia do corpo, ambos assumindo em epígrafes de Herberto Helder um patronato, sublinhe-se, nada epigónio, fazem um uso diferente da linguagem poética para expressarem visões distintas do mundo organizadas também de modo dissimelhante. Maria F. Roldão (n. 1965), formada em Sociologia, publicou alguns poemas em revistas e edita a Nervo (n.º 11, Maio/Agosto de 2021). Ana Freitas Reis (n. 1981) é psicóloga. Conhecemos alguma da sua poesia através de partilhas nas redes sociais e de dispersos surgidos em publicações colectivas on-line.
O muco
nas montanhas, insistimos
nos cumes altos, miradouros
frívolos ao serviço dos registos.
Saio para sentir o odor lunar,
procuro sinais de nascença pelo solo.
Caem flechas por entre os ramos secos
de um sobreiro.
Trincamos os espinhos da navalha.
As cabeças movem-se em direcção ao centro
da fornalha.
Pela indolência da seiva que sabe
de uma revolução nocturna.
Encarno o perfume desgraçado desse lírio silvestre
quando afinal repouso nos seios da natureza.
Uma chuva opulenta inunda o nosso quarto,
certos beijos prolongam o voo,
sem temer a existência.
a única que não esquece a persistência
e a possibilidade na alegria.
terça-feira, 18 de maio de 2021
MINOR IMPULSE (1961)
A cabeça dividida entre um turista bêbado e um emigrante do Causse. «Ando na minha terra como um estrangeiro», diz o segundo. E não custa dar-lhe corpo, é como se fosse eu a falar. Perdido, exilado, estrangeiro na minha própria terra, na minha própria respiração, desenraizado, a esmo. Já ninguém diz a esmo. O turista é número, gag, enrola palavras, ronca. Penso nos ingleses distribuídos pelas ruas algarvias, nos holandeses aterrados no oeste, como aqueles com quem convivi na adolescência e não deixaram saudades. É claro que preferia fazer de músico de jazz. A ter de representar um papel que não o meu, que me atribuíssem qualquer coisa ao estilo o que gostavas de ter sido se chegasses a ser grande. Gostava de ter sido Ike Quebec, viciado em heroína, morto aos 44 com cancro na língua, era o que gostava de ter sido. Já vivi mais 3 anos do que devia. Em boa verdade, acho que levo 20 de desperdício. Agora não há nada a fazer, o mal está feito, a quebra aos cinco minutos de Don’t Take Your Love From Me, posso entrar pelo palco adentro aos berros, fingir que sou feliz e amado, posso imitar um quadrúpede, andar de quatro, ganir como um cão desesperado, posso arrancar a carne com as unhas e vomitar desespero pelo poros que ninguém dará por isso. Fingir-me sereno, feliz, está tudo bem, não se passa nada. O que é que se passa? Nada. Serei apenas mais um a fazer número na peça ensaiada pelo destino, a sala vazia, luzes baças, projectores desligados, acção imóvel. Ike Quebec e Grant Greene no estúdio a gravarem Blue and Sentimental, eu à escuta, ouvido encostado à parede, do lado de fora, ainda antes de ter nascido. Do lado de fora.
segunda-feira, 17 de maio de 2021
TERRA NATAL
Admito o preconceito, mas certos aspectos na biografia de um autor contribuem para reforçar ou atenuar o interesse gerado pela obra. Seduz-me a tentação de supor uma existência por detrás das palavras, imaginar que são o sangue vertido por um corpo a cicatrizar. Não sinto qualquer desconforto quando o anonimato quebra a corrente, mas como negar o fascínio exercido pelo desvio e pela errância? Já não tenho idade para me deslumbrar com ideias feitas acerca da grande aventura que é estar vivo, sendo-me facilmente perceptível quão misteriosa, angustiante e tremendamente dolorosa pode ser a existência de um gorila no interior de uma jaula. Esta clausura da natureza, o selvagem domesticado, é porventura a mais repisada das formas de viver na contemporaneidade, a qual tem as suas contradições e os seus paradoxos como qualquer outra, mas precisamente por me parecer tão vulgar e nela me encontrar tão imerso é que me espanta quem a contraria aventurando-se no interior de florestas desconhecidas, atravessando o deserto, experimentando adversidades, superando contrariedades, para tombar exausto no cume da montanha acabada de escalar. Ou quedando simplesmente a meio caminho, ainda assim caminhando. Quanto ao tédio e à monotonia do ramerrão doméstico vejo-os como ao desafio colocado a alguém atirado para dentro de um labirinto, convencendo-me de que em muitos casos aquele a quem fosse dado o mérito de encontrar a saída sentir-se-ia tão perdido do lado de fora que desejaria regressar imediatamente ao interior de onde saiu.
Há pormenores na biografia do dramaturgo Daniel Keene (Melbourne, Austrália, 1955) que permitem compreender quanto destas duas dimensões terá contribuído para a arquitectura de uma obra onde vislumbramos tanto o quotidiano trágico da vida doméstica como a errância daquele que parte à aventura. É um autor, como se costuma dizer, que terá passado as passas do Algarve antes de obter reconhecimento. Sabemos que chegou a quase mendigar na Nova Iorque dos anos 80, a dos yuppies capturados pelo grande sonho americano. Familiarizado com os movimentos de contracultura preponderantes no núcleo de resistência à massificação uniformizada do espectáculo, Keene optou por um teatro ao mesmo tempo realista e estranhamente poético no modo como aborda a história. As duas pequenas peças montadas pelo encenador Luís Varela no Teatro da Rainha ajudam-nos a equacionar mais esses mecanismos de aproximação à realidade do que a formular ideias feitas e generalizações sobre a forma como o quotidiano e a experiência vivida se imiscuem na linguagem poética e teatral. Desde logo, são duas peças muito diferentes uma da outra. A Chuva foi escrita como um monólogo, Terra Natal é um encadeamento de sketches fugazes. A primeira desloca-nos para o campo indefinido da memória, a segunda confronta-nos como um reflexo num espelho. O que ambas liga é do domínio da subjectividade, embora possamos encontrar nos dois textos a força de um passado que vem à tona através de memórias e de recordações que são também um questionamento sobre as raízes das personagens.
A Chuva remete-nos para o holocausto nazi, mas fá-lo a partir de um conjunto de alusões e não propriamente de enunciações claras e inequívocas. A velha interpretada pela actriz Isabel Lopes desdobra-se na voz manipulada e na presença física de duas outras actrizes, oferecendo ao discurso a profundidade e o intimismo de uma história enraizada em memórias particulares de um acontecimento universal. Olha-se aqui para a História tendo como ponto de partida uma experiência singular. Onerosas são as memórias que advêm ao rosto de Isabel Lopes e se prolongam nas vozes de Lavínia Moreira e Sara Delgado, elegia pelas vítimas de um extermínio que o tempo parece querer apagar como o faz à matéria transformada em pó ao longo dos anos. É também a esta transformação operada pelo tempo que assistimos, uma transformação projectada do eco fantasmagórico da infância ao rosto envelhecido à boca de cena. Já em Terra Natal este elemento ameaçador do esquecimento surge, precisamente, na personagem igualmente interpretada por Isabel Lopes, uma divertida mas ao mesmo tempo angustiada avó empenhada em transmitir ao neto o conhecimento das suas raízes. É uma peça social, se assim podemos dizê-lo, de forte consciência cívica e com a clara intenção de dar voz aos desafortunados, gente dilacerada pela rotina, pela monotonia, pela tal domesticação do selvagem no início deste texto aludida. A ameaça de desemprego que recai sobre o pai, vigorosa interpretação de Nuno Machado, produz efeitos nefastos no seio de uma família em crise. E essa pode ser uma das temáticas do texto, ou seja, o modo como a vida íntima acaba por ser afectada, condicionada, para não dizer determinada por golpes exteriores, pelo ambiente social e cultural em que o indivíduo se encontra. De sublinhar, porém, que o princípio e o fim da peça estão marcados pelo aniversário do filho adolescente, interpretado por Carlos Batista, o qual se vê no contexto muito mais ambíguo e ambivalente de entrada na vida adulta, até porque nesse contexto repercute a tragédia dos adultos em cena — como se ao vermos o jovem casal estivéssemos a ver o que o pai e a mãe foram, como se ao olharmos para o pai e a mãe estivéssemos a assistir ao que o futuro reserva para o jovem casal. Há uma espécie de herança processada entre as personagens que estabelece um jogo de intercâmbios: a solidão da avó, a ausência de perspectivas da mãe, a frustração do pai, parecem estar a ser transferidos para um casal de adolescentes em alegre vertigem passional mas prestes a descobrir, em bom português, o que a vida custa. E essa é a verdadeira tragédia, perceber que não há saída. Ou, em havendo, regressar ao labirinto.
domingo, 16 de maio de 2021
DISCURSO DO MÉTODO
sábado, 15 de maio de 2021
LIMEHOUSE BLUES (1921)
Figurante em dois documentários, entretanto promovido a actor, estou capaz de digerir as palavras dos outros sem necessidade de as vomitar imediatamente noutras que sejam minhas. Papéis fugazes desempenhados com gozo, o das experiências raras. Talvez tenha actuado em palcos de falas espontâneas, falsas falas espontâneas, e finja agora não me recordar de quão actor hei sido de mim mesmo. Talvez. Isto agora é diferente. Eu, que nunca me senti confortável a fazer sala, sou pago para organizar folhas de sala em peças onde é audível a respiração dos mortos. Talvez um dia venha a fazer de general curvado pelo peso das condecorações. Que esbanjamento, essa coisa de distinguir a alegria de viver quando nem às solas dos ídolos chegámos. Philip Braham, por exemplo, e Douglas Furber, por exemplo, terão sido condecorados pela homenagem que fizeram à chinatown londrina? Quem homenageia o trabalho nos bordéis? Quem distingue aquelas que entre as demais foram as melhores putas? E os melhores chulos? Quanto a mim, mereciam outra consideração no dia da cidade: «Rings on your fingers / And tears for your crown / That is the story / Of old Chinatown». Hoje queria ser Sidney Bechet, calcorrear as ruas de New Orleans a assobiar 2:19 Blues, andar de cidade em cidade espargindo a saliva do improviso, queria atravessar oceanos transportado pelo silvo de uma melancolia que ri, não me importaria sequer de ter alvejado aquela mulher no lugar errado, alegadamente por não ter sido disparada na sua direcção a bala fatídica, mas na do músico rival com o desplante de acusar um acorde ao lado, uma nota desacertada, uma bala falhada. Dançar Big Butter and Egg Man agarrado aos braços de Lil Armstrong, sim, isso eu queria de verdade, não estas manhãs, tardes, noites simulando que sou quem sou.
sexta-feira, 14 de maio de 2021
MILES RUNS THE VOODOO DOWN (1969)
Até quando aguentar esta violência? Cansaço, can-sa-ço, dito assim, repetidamente, sílaba a sílaba, cuspido para o ar como se nada fosse ou significasse, can-sa-ço. Tinha escutado a palavra no fim do amor, depois em viagem, entretanto à refeição, ricocheteando repetidamente como uma bola no interior da cabeça, disparada por uma força qualquer que a leva de uma parede à outra do cérebro, formando uma teia de sangue no interior do cérebro, do corpo caloso ao cerebelo, deste às circunvalações, daqui ao telencéfalo, na ponte, medula, oblonga, espinal, uma bola de can-sa-ço disparada de um lado ao outro com a velocidade dos neurónios. E depois um sorriso actor fingindo nada haver que perturbe, alegria dissimulada em horas passadas ao telefone falando de tudo quanto não interessa, este can-sa-ço às voltas na cabeça, dito assim, de rompante, após o orgasmo, à sobremesa, do acordar ao deitar, arrastando-se como um bêbado sozinho no meio da estrada. Que violência maior pode alguém aguentar? O preliminar cansaço, o liminar cansaço, o cansaço absoluto das alianças esquecidas nos cinzeiros, nos bolsos, nas gavetas, junto a meias e cuecas, cansaço. Um rótulo estampado no peito, a bula na caixa de medicamentos, uma etiqueta: agora sorri, como as hospedeiras da Francisca, não, sorri antes como a Lillian dos lírios quebrados, agora enfeita, agora finge, agora representa, agora levanta as patas, agora rebola, agora dança cansaço.
quinta-feira, 13 de maio de 2021
PARA UMA ESTÉTICA DO CIVISMO
Ontem, várias televisões insistiram em comparar o civismo dos peregrinos em Fátima com o barbarismo dos adeptos de futebol. Ao mesmo tempo, na Faixa de Gaza, o civismo da fé e da política fazia mais vítimas. O mundo é complexo. Eu também gosto muito de comparações parvas, mas tenho cada vez menos paciência para cursos de padreco por correspondência. A paixão pelo futebol é, como qualquer paixão, irracional. Por isso é que é paixão. Pela parte que me toca, sinto-me deveras confortável no papel de adepto apaixonado. Como não gosto de touradas, de caça, do festival da canção, de feiras medievais com tasquinhas para bêbados finos, nem de raves psicadélicas em Fátima, ainda há esperança para mim. Também não frequento a feira do livro de Lisboa. Equilibro a balança com leituras de Walter Benjamin em praias selvagens, poupo em ansiolíticos e comprimidos contra a depressão. Experimentem a alegria de viver e a felicidade momentânea que faz bem. Que a dos outros não vos impeça de amar o próximo como a um semelhante.
PAÍS DE PADRES
Se o ponto de partida for Fátima, nem quero saber qual será a meta. Talvez mais uma comissão de inquérito parlamentar.
quarta-feira, 12 de maio de 2021
SÓ NÓS SABEMOS
Pai & Filha
Só nós sabemos porque.. esperamos 19 anos e vamos das Caldas para o Marquês ver passar um autocarro às 4 da manhã.

















