quarta-feira, 2 de junho de 2021

O LAVRADOR DA BOÉMIA

 

   Santo Agostinho relata a perda de um amigo no Livro Quarto das Confissões. A violência da dor, que apenas o tempo apazigua, leva à dúvida: «o homem tão querido que perdera, era mais verdadeiro e melhor que o fantasma em que lhe mandava ter esperança». É dor do mesmo tipo aquela que ecoa no pranto do Lavrador concebido por Johannes von Saaz (n. 1350 – m. 1415), também conhecido como Johannes von Tepl. Pouco se sabe acerca da sua vida. Viveu a maior parte do tempo na Boémia e escreveu um poema de índole humanista que está na origem da peça agora publicada pelo Teatro da Rainha e a Companhia das Ilhas, com tradução de Isabel Lopes a partir da versão cénica francesa de Dieter Welke.
   O Lavrador da Boémia é um diálogo entre um Lavrador amargurado pela perda da amada e a Morte que lha roubou, um pouco à semelhança do que o realizador sueco Ingmar Bergman veio a conceber no magnífico O Sétimo Selo (1956) — embora aqui a morte jogasse xadrez com um cavaleiro de regresso das Cruzadas em tempo de peste. A discussão entre o Lavrador e a Morte, escrita num estilo filosófico muito comum em toda a Idade Média, estava ainda longe de possibilitar um jogo entre adversários tão desiguais. A desolação de um homem a tentar ultrapassar o luto da amada não tem argumentos à altura do todo-poderoso Senhor da Morte, mas, ainda assim, é de uma ousadia retórica imperturbável. A perda atiça-lhe a fúria, alimenta-lhe a raiva, impele-o a acusações que se misturam com lamentos em busca de um conforto fugidio. São uivos que ecoam desde que o homem se confronta com a finitude, mas neste caso sobrecarregados pela ausência de sentido.
   Distinguimos amiúde a morte por causas naturais das mortes inesperadas. Entre estas, as dos jovens são as que mais pesam por serem as mais absurdas. Porque morre alguém que ainda não viveu o tempo que julgamos justo viver? Porque desaparece precocemente quem aparenta estar a meio de um trajecto? O choque advém tanto da constatação do carácter contingencial da vida, sujeita ao acaso e ao acidental, logo sabotadora de uma ciência fundamentada no previsível, como da efemeridade do que vive. A dúvida impõe-se a quem parta de princípios como aqueles que vigoravam em 1401, ano em que o texto de Johannes von Saaz surgiu, e predominam em 2021: se Deus existe, qual a razão para levar tão cedo as suas criaturas? Por que razão permite Deus que uma criança morra? Neste caso, a jovem e virtuosa Margarida, a décima segunda letra, a Letra M, como no espectáculo levado a cabo pelo Teatro da Rainha em 2009, não seria merecedora de outra longevidade?
   São dúvidas legítimas, talvez mais hoje do que outrora, pois hoje podemos erguer-nos contra a vontade de Deus. Mesmo sabendo do fim inevitável reservado a tudo quanto vive, é possível questionar a ausência de sentido e especular sobre as razões de ser assim. As explicações desta Morte do humanista von Saaz são surpreendentemente racionais. A Morte racionaliza o espaço, é uma gestora de stocks, há nela uma função de organização da vida na Terra que justifica a economia da dor sugerida ao pobre Lavrador: «Quanto mais amor te derem, maior será o teu desgosto. Se tivesses amado menos, menor seria o teu desgosto». É um argumento perigoso, pois este amor pode não ter como objecto apenas o outro, mas também o próprio e até, em último caso, a vida em sentido geral. Pode a dor ser superada pelo desamor?
   Numa coisa a Morte tem razão, a sua metodologia corresponde a uma inexorabilidade que está no princípio da própria vida. É do húmus que medra a flor. O Lavrador tem dúvidas, questiona: «Quem sois vós? Donde vindes? Onde estais? Para que servis?» E a morte responde: «somos o fim da vida, o fim da existência, o fim do ser, e a origem do mundo». Eis uma ontologia da morte, se tal coisa for possível, que ainda hoje preservamos sem direito a grandes desvios. A Morte torna-se então sarcástica, impõe as suas razões a um Lavrador desesperado. O Lavrador é a vida, lavra e semeia. A Morte ceifa. Lavrar e ceifar são, no fundo, a essência do dinamismo que permite a renovação e a renovação é imprescindível para que o Tempo não cesse. Em cessando o Tempo, pois que tudo cessaria.
   Não devemos pois ser tão cruéis para com a Morte, mesmo quando ela parece ser implacável para connosco. Não tendo do homem a melhor das opiniões, como questionar-lhe a vaidade que nos aponta e a tolice que desvela sempre que se nos apresenta? O pranto do Lavrador é compreensível, mas inútil. É aceitável, mas infrutífero. Pelo menos em aparência, porque, na realidade, é desse pranto que brota aquilo a que podemos chamar uma clarividência da Morte. Ela desmente o princípio de não contradição, a sua natureza é ambivalente e dúbia, a morte é e não é ao mesmo tempo, rodeia-nos sem que a vejamos, acompanha-nos sem que a sintamos. Só a nossa própria morte não choraremos, pois quando ela chegar o medo terá partido. E o que leva ao choro, na verdade, é o medo, nada mais senão o medo. O medo do desconhecido, o medo da solidão, o medo do abandono, é o medo que nos faz chorar. O medo da morte, da morte nossa descoberta na morte dos outros.

terça-feira, 1 de junho de 2021

POSITIVELY 4TH STREET (1965)


 

Leio num poema do Pedro Teixeira Neves qualquer coisa sobre mapas em branco, as superfícies da pintura e da escrita. Lembro-me de uma canção do Dylan que pode ser interpretada à laia de carta aberta, sem refrão, publicada isoladamente, como single, fora de qualquer álbum onde pudesse ser parte integrante de um conjunto que lhe conferiria necessariamente outro significado. Foi, no entanto, um single de sucesso, acabando por figurar em várias colectâneas do singer songwriter  nobelizado em 2016. A associação por mim produzida entre o poema e a canção tem que ver com dúvidas pessoais acerca da asserção encontrada nos últimos quatro versos do Pedro e, quanto a mim, desmentida pela canção do Bob. Diz o poema: «escrevemos e pintamos sempre / a página em branco / o vazio aguardando o fulgor da voz / o lugar da mão». Diz a canção: traíste-me, és um hipócrita, põe-te nos meus sapatos. É um recado. Ora, escrever é, sem dúvida, uma espécie de pintura. A gente literalmente mancha a brancura da página com a tinta de uma esferográfica ou o carvão de um lápis, os caracteres virtuais das páginas potenciais. A palavra paisagem pode por si só não ser uma paisagem, mas acompanhada de montanhas e regatos e passarinhos a cantar é como um quadro ou uma fotografia. Há uma sugestão imagética nas palavras, mas também a há sonora. A diferença estaria na cor se as cores não fossem sons. Eu estou convencido de que são. De resto, o Jimi Hendrix também estava. O que a canção me parece confirmar é que não escrevemos sempre a página em branco. O que escrevemos é uma reescrita, a página já foi escrita antes de a escrevermos. E, na verdade, julgo que estamos sempre a escrever sobre o já escrito. A página em branco é a morte. Aquele tratamento que se dá às telas é já uma pele cromática sobre a qual vamos espalhar cores. Há pintores que passaram a vida a pintar sobre pinturas, sobrepondo tintas e traços, rasurando, tentando refazer o feito ou buscando um fim para o que iniciaram sabendo que tudo quanto se começa não tem fim. Não sei se estão a ver, mas imaginem uma tela sobre a qual se pintaria uma pedra sobre a qual se pintaria um rio sobre a qual se pintaria um monte sobre a qual se pintaria um cavalo sobre a qual sucessivas camadas de tinta sobrepostas formassem uma espessa e densa textura rochosa. É como hoje por acaso me disse a Ana Biscaia, desculpando-se por uma frase que não tem fim. Escrevemos frases que não têm fim e pintamos frases que não têm fim sobre brancos que só existem enquanto ideia, isto é, enquanto verdade anterior à expressão ou à representação. Uma frase que não tem fim, escreveu ela. E eu rescrevi agora e é provável que venha a rescrevê-lo algures.

UM POEMA DE PEDRO TEIXEIRA NEVES

 


APRENDER A LUZ

a espessura do cabelo mais fino
é uma brincadeira quando comparada
a um nanómetro

soube hoje pelo jornal

é agora possível apertar a luz
até à espessura de um átomo.

tomo um copo de água
apago a luz.

amanhã irei cortar o cabelo
e o mundo seguirá
entre um aperto e outro
por entre a luz seguiremos.

entre prender ou libertar a luz
prefiro gastar as minhas energias
a tentar aprendê-la

aprender a luz
com a paciência milenar do mar
no tecer dos líquenes e dos corais
aprender a luz
no lento fossilizar dos horizontes
ou como quem aprende a idade dos glaciares
a linguagem das pedras
o segredo dos rios num corpo de mulher

é preciso aprender a luz
como o amante que só com os olhos fala
e nesse brilho se enamora.

Pedro Teixeira Neves, in Uma Vírgula Depois, com Ivo Machado, Glaciar, Janeiro de 2019, p. 65.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

NOTA DE RODAPÉ

 


A minha recordação mais remota está banhada em vermelho. Saio de uma porta nos braços de uma rapariga, o chão é vermelho à minha frente e à esquerda há uma escada que desce igualmente vermelha. À nossa frente, à mesma altura, abre-se uma porta e aparece um homem sorridente que avança amigavelmente na minha direcção. Aproxima-se muito, pára, e diz-me: "Mostra a língua!" Eu ponho a língua de fora, ele procura qualquer coisa no bolso, tira lá de dentro uma navalha e, com a lâmina quase a tocar-me a língua diz: "Agora vamos cortar-lhe a língua." Não me atrevo a pôr a língua para dentro, e a faca aproxima-se cada vez mais até ma roçar. No último momento, o homem afasta a navalha e diz: "Hoje ainda não, amanhã." Fecha a navalha e guarda-a no bolso. Todas as manhãs quando transpomos a porta e saímos para o corredor vermelho, abre-se a outra porta e aparece o homem sorridente. Sei o que ele vai dizer e espero que me ordene que lhe mostre a língua. Sei que ma vai cortar e tenho cada vez mais medo. Assim começa o dia, e a história repete-se muitas vezes.

Elias Canetti, citado por Byung- Chul Han, in Rostos da Morte - investigações filosóficas sobre a morte, trad. Miguel Serras Pereira, Relógio D'Água, Abril de 2021, p. 212.

domingo, 30 de maio de 2021

POEMAS AO SACRO

 
I
(canal sacral)
 
Em silêncio a dor insinua
a postura incorrecta
do descrente
 
Prostrando-o de joelhos
no chão frio
para que aprenda
à força da tortura sem algoz
o poder da fé
 
Na homeopatia
 
 
II
(forames sacrais dorsais)
 
O mal começa quando 
nos querem de pé 
 
De quatro seriam outras
as dores talvez
como as de quem sonha 
quando deitado acorda
arfando horizontalmente 
 
A verticalidade só 
traz desconforto 
o horizonte mente
a curva desmente
 
E o homem é
um quadrúpede de fé 
com deslocamento 
do sacro
 
O que resta do rabo símio
não é passado
de que me orgulhe
 
 
III 
(forames sacrais pelvinos)
 
Galardoado pela arte sacra
na base da coluna esculpida 
o homem gritou de raiva
ou de dor
 
Não dá para perceber 
 
A doença é uma humilhação 
incapacitante 
que tudo confunde
 
Só quem habita o corpo 
conhece os enigmas do templo
 
 
IV
(promontório)
 
Em vista de mim mesmo 
uma maré de dores vagas
que arrastam o sono
e inundam a paciência
com os detritos da escrita
 
Em vista de mim mesmo
nem uma nota de conforto
 
Tudo corpo
 
Tudo torto
 
 
V
(face articular lombossacral)
 
O sofrimento assoma ao rosto
fazendo-te engolir as palavras
 
Ficas com a barriga cheia
de vocábulos impronunciáveis
 
Cada letra é uma vértebra fora do lugar
 
Caligrafia desalinhada
que só fora das margens
adquire sentido
 
 
VI
(processos articulares superiores)
 
Deite-se de barriga para baixo
Expire fundo
 
Já não moro no meu corpo 
Terei vendido a alma? 
 
Coloque-se de lado
Do outro
 
Estou do avesso dentro de mim
 
Sacramente inflamado 
Espiritualmente extinto
 
Sacrílego?
Deus não é dado a pormenores
 
 
VII
(crista sacral mediana)
 
Tive um galo que cantava
canto gregoriano 
Da sua crista cristã sacral
evolavam padecimentos 
 
E agora sobra-me esta mediania
acamada num silêncio 
pesaroso 
 
Nem galo nem fortuna
apenas uma dor que percorre a coluna
do sacro à cabeça
 
 
VIII
(faces auriculares do sacro)
 
Quantos rostos são os teus Senhor 
que em nenhum encontro conforto? 
 
Perdoa-me o ouvido interno surdo
a mesmidade do si-mesmo repetida
como alarme que a hora incerta
indica ao corpo as vias do alívio 
 
Poderá a tua face Senhor ser redonda
e branca e lisa como a do comprimido?
 
 
IX
(ápice do sacro cóccix)
 
Lá fora as asas dos pássaros
enxotam o vento
Vejo-os daqui pela janela
que dá para o fim do mundo
E escuto os motores
em movimento
as nuvens que passam
como o tempo 
lentamente
e tropeçam nas sombras dos astros
e caem por terra como cometas
 
Lá fora o movimento mudo
da Terra
coberta pelo sal dos oceanos
e pelo sangue dos homens
 
Estou deitado e escuto e vejo
e tento não pensar na demora
desta existência convalescente
num ápice aparecida
de súbito esquecida
enquanto lá fora até as árvores
parecem caminhar sobre raízes
e as rochas me surgem felizes
em torno de um eixo
fixo
deslocado
 
 
X
(processos transversos do cóccix) 
 
Sorriam-lhe as lágrimas
pelas faces pálidas
li por lapso numa história
do século XIX
e logo me ocorreu cevar
nesta raiva
uns versos travestidos de dor
 
São transversos o que escrevo
para não gritar
 
Em silêncio ninguém me ouve
só a mim a dor perturba
e nestes versos que ninguém lerá
sobra o consolo que por lapso
a doença inventa
para se fingir saudável
 
 
XI
(cornos do cóccix) 
 
O mais fácil seria dizer
há que pegar o cóccix pelos cornos
ou elaborar trocadilhos 
entre cornos e corpos 
Mas eu não estou para piadas 
falta-me riso à paciência 
 
Lá está 
o quão espirituosa logra ser
a ciência das palavras 
a doença que nos atinge 
como Deus a marrar-nos por dentro
e o corpo feito arena
sem público 
 
Isto é sobre a dor incapacitante
que atinge a coluna
esse pilar da consciência
que mantém de pé um corpo
diante da adversidade
 
Nada disto tem graça alguma
 
A piada estará em haver quem por acaso
compreenda a chama
que excita o pirómano
a falta de ar que agita
o peixe fora de água
o corno que perfura
o bandarilheiro
 
Não há nobreza na dor
mesmo quando disfarçada de prazer
exalta o submisso
ou provoca o martírio
a dor é uma ruptura
uma fractura
 
Nobre é o músculo que inquieta o osso
e faz caminhar na direcção do outro
não isto que nos prende dentro de nós
como se nada mais houvesse
além do corpo que sentimos
sofrer
 
Levanta-te e anda
 
Quem nunca perdoou
que fracture a primeira vértebra

BLOWIN’ IN THE WIND (1962)

 


Fosse tão fácil como gostar ou não de favas e teríamos o problema resolvido, mas não é. O gostar pouco determina quando está em causa um mundo. Gostas do mundo? Dir-me-ão que sim, em parte, algumas coisas não, outras sim, adoráveis coisas mundanas. O que é uma coisa? O mundo será uma coisa? Será possível habitar numa coisa? O mundo é uma encruzilhada e são múltiplos os caminhos para se chegar a lugar nenhum. Também se dá o caso de certos apreciadores de ópera detestarem westerns. Experimentem contar-lhes o argumento de um Ford como se fosse uma ópera de Verdi e é quase certo virem a ter uma surpresa. Formam-se no pensamento novelos de conceitos como cotão no umbigo, superstições quanto ao canto nasalado e o diafragma rachado, que num ápice metamorfoseiam a sabedoria em abusão. É como perceber que o tratamento às dores nas costas pode degenerar em problemas no estômago e então da dor nasce outra dor e ficamos tomados pelo desconforto como se não fosse possível libertarmo-nos dele. Somos monstruosas criaturas reféns de dores fantasma. Quando me meteram uma guitarra nas mãos, eu comecei por tocar Blowin’ In the Wind, The Times They Are A-Changin’, Knockin’ On Heaven’s Door, I’ll Be Your Baby Tonight, Quinn the Eskimo, All Along the Watchtower, e nunca mais escapei a esse labirinto, como uma dor que leva a outra dor. Portanto, se fosse fácil como gostar ou não de picante no esparguete, se assim fosse, de nada valeria caminhar sobre a Terra. Ela gira por si mesma, à volta de uma estrela, a mais de 100 000 quilómetros por hora. Era deixá-la girar. Seja como for, não chegaremos a lado algum. Certo como a Terra girar à volta do Sol.

sábado, 29 de maio de 2021

DIZER

 

Em Rostos da Morte, o filósofo Byung-Chul Han propõe uma onomatanatologia que procure responder à questão: «porquê dar um nome a um homem?» «O nome é a marca da fugacidade», diz, acrescentando que «ter nome próprio designa que se tem um destino e uma história». Esta mesma problemática pode ser vislumbrada no mais recente livro de poesia de Yvette K. Centeno (n. 1940), o qual se organiza em torno de um verbo fundador escolhido para título: Dizer (Eufeme, Fevereiro de 2021). Organizado em três conjuntos de poemas, cremos que o primeiro, intitulado Dizer (o mundo existe), e o terceiro, com o título Agora, se ligam de modo espontâneo, sendo o conjunto intercalar, escrito sob a égide da pintura de Pedro Chorão, uma espécie de intermezzo que não descontinua a corrente interpelativa acerca disto que dizemos ser o estar aqui. Martin Heidegger, evocado mais do que uma vez neste livro, definiu a presença, o estar aqui, como um ser para a morte, sendo a morte, antes de mais, a consciência que dela temos através da experiência da finitude e da experiência da temporalidade, ruína que leva ao desaparecimento. «A morte é, no entanto, apenas o “fim” da presença e, em sentido formal, apenas um dos fins que abrangem a totalidade da presença. O outro fim é o princípio, o nascimento», afirma Heidegger em Ser e Tempo. Ora, é precisamente no princípio, ao nascermos, que um nome nos é atribuído. Para quê? Para o outro nos identificar?
   O nosso nome não foi por nós escolhido, não é sequer uma conquista de que nos possamos orgulhar ou um estádio que se alcance por via do desenvolvimento da personalidade. É uma marca, isto é, um estigma submetido por um outro que nos é exterior. Podemos talvez dizer: o que nós somos é o outro do nosso nome. Este apresenta-se como uma espécie de sombra, a que Peter Schlemihl, também convocado por Yvette K. Centeno, vendeu. O nome não chega sequer a ecoar-nos, apenas nos persegue como uma sombra. Carregar um nome é também carregar uma história anterior à nossa própria existência. O nosso nome próprio não reflecte a nossa própria história, mas antes uma história que nos precede e liga a um passado, uma história que nos enraíza noutras histórias precedentes, raiz de uma genealogia carregada de nomes dos quais o nosso provém. Um nome cai na terra como um fruto maduro, funde-se com a terra, é húmus e semente de outros nomes.
  Seremos nós, a dado momento, quem nomeia. Começar a falar é começar a nomear. Ao poeta cabe renomear o mundo. No poema Alquímico, o último do primeiro conjunto deste Dizer, o jardim da primeira estrofe renomeia o Éden. O ciclo da vida cumpre-se caminhando: «Não abras o portão / desse jardim / nem fiques de fora / à espera // Segue / vê onde enterras os pés / procura onde deixaste / os teus sapatos / mesmo velhos e rotos / terão de ser calçados // O homem tem o teu nome / e já abriu na terra a vala / dos descalços» (p. 49). Os descalços estão por nomear, o que de certo modo quer dizer que estão por nascer, mas já a morte os aguarda pois é da natureza do gerado vir a perecer. Nomear é, então, fazer aparecer, nascer, mas é também dar ao desaparecimento, já que nascer é estar à morte. Quantas palavras esquecidas e desaparecidas neste mundo cada vez mais estreitado no ruído dos mesmíssimos vocábulos permanentemente repetidos? Adão torna-se mortal através do nome, que significa terra ou humanidade. Não há diferença. Nascer é abrir-se à morte, ou, como noutro poema deste livro se diz, «Risco de vida é estar vivo, / Tudo o resto é fantasia» (p. 44). Trata-se de um koan, textos que no budismo zen têm o propósito de iluminar espiritualmente os praticantes. Além dos koan, a Autora recorre também, de um modo muito informal, ao haiku como síntese poética privilegiada de reflexões invariavelmente relacionadas com esta interpelação da existência, da presença, do estar e ser aqui: «o que sou eu afinal, / o já caído / que a terra amortalhou / e tu, / o esplendoroso, / entre estes mundos?» (p. 25). 
   Mas por que razão «dizer o nome / é entregar a vida», como se sugere no poema Deméter-Perséfone (p. 40)? É como se o nome fosse uma coisa que se desse através do dizer. Pronunciar um nome é dar algo, há como que uma transferência do sentido que o nome incorpora. Assim sendo, o dizer é, antes de mais, uma doação, uma dádiva, um legado. No dizer há, assim, uma pro-criação. A poesia é essa interpelação que provoca as coisas. Nomear não é apenas oferecer ao esquecimento, é também gerar a possibilidade de relembrar. Não será por acaso que este livro oscila tanto entre a interrogação e a declaração, nele repousa uma espécie de súmula ao mesmo tempo extraordinariamente simples e complexa. Yvette K. Centeno, cujo primeiro livro foi publicado em 1961, mas a quem a história da literatura portuguesa tem reservado parcas linhas, lega-nos aos 80 anos de vida um dos melhores livros que por certo leremos este ano, vivo, inteligente e desafiante como poucos. A relação de proximidade com a pintura, arte por excelência do silêncio, seria outro tema a explorar. Fique o poema, o último deste belíssimo livro:
 
O PINTOR E A SOMBRA
 
(para o Pedro e a Graça)
 
Estava sempre a seu lado,
tão discreta
que se não fosse a luz
carregada de azul
ninguém diria
que estava ali a Sombra,
a Protectora
da alma dividida:
não se podia vislumbrar
e apenas emergia do silêncio
para afastar o Anjo
negro reverso da luz
que lhe fechava as portas
e se o deixasse sozinho
lhe secaria as cores
nas bisnagas escolhidas
cada dia

 
(Lisboa, 1 de Fevereiro de 2021)

sexta-feira, 28 de maio de 2021

UM POEMA DE IVO MACHADO

 


PAUL CÉZANNE

a luz me persegue como a tantos
antes de mim
Hortense era mulher de Cézanne
e dizia que o marido
não sabia o que fazia
não sei se Hortense pensava na luz
mas diz, Matisse, que ficou escandalizado
quando ela o disse
a luz me persegue como a todos
ante o juízo final
mas não era da luz que Hortense
se queixava
antes do carácter inacabado das telas
do marido
sim, era verdade
o pintor buscava o inacabado
e essa a minha caminhada
a luz inacabada
   do sal da terra
   da espuma da onda
   dos limões
   da palavra
   da alma
a luz do azul da melancolia
porém, Cézanne, perseguia o inacabado
e confessou-o numa carta à mãe
o acabado é o prazer dos imbecis.

Ivo Machado, in Uma Vírgula Depois, em parceria com Pedro Teixeira Neves, Glaciar, Janeiro de 2019, p. 74.

HAVERÁ MARCIANAS EM MARTE?



Maquilhagem: rímel, batom, eyeliner, sombras, pós, blush, unhas, pestanas, verniz… Jóias: brincos, colares, pulseiras, pregadeiras, anéis, broches… Vestuário: soutiens redutores, copas invisíveis em silicone, próteses, cintas… Saltos altos. Extensões. Injecções nas nádegas, nos lábios, onde aprouver. Unhas de gel, pestanas postiças. Depila. Ginásio, glúteos, bíceps, tríceps, stríceps em selfie para Instagram. Decora com um livro de poesia entre as pernas, fica bem, montes de likes. E tatuagens, claro, inevitável, um piercing ou dois ou três. Tudo isto e muito mais a embelezar, a estilizar, a turbinar. Uma caderneta de frases inspiradoras: sê tu mesmo, sê autêntico, a liberdade é o caminho, segue o teu instinto e alcançarás o reino dos escarcéus. O que mais aprecia num homem? A verdade, a honestidade e o sentido de humor. O que mais aprecia numa mulher? A alta-fidelidade. Viram os ingleses? Eram estereofónicos, entoavam cânticos em registo quadrifónico. A miss universo é mexicana, os marcianos não concorreram. Haverá marcianas em Marte? E na Terra?

quinta-feira, 27 de maio de 2021

UMA JOVEM COISA PEQUENA

 


Em "A Origem da Obra de Arte", Heidegger fala de "uma jovem coisa pequena". Como é sabido, nesse texto Heidegger designa como "utensílios" o par de botas velhas de um quadro de Van Gogh. Como qualquer utensílio, essas "botas de camponês" definem-se em função da sua utilidade. Mas é interessante que aqui a utilidade das botas se restrinja exclusivamente ao andar e ao trabalho. Uma rapariga com sapatos de salto alto, andando com dificuldade nas grandes avenidas, seria para Heidegger "uma jovem coisa pequena" porque, ao contrário da "camponesa" que anda a trabalhar com as suas botas, que não sente sequer e ainda menos exibe, mantém com o seu calçado uma relação deformada, por não aperceber o sapato no seu valor de uso como utensílio do andar ou como utensílio laboral: "Pois bem, as  botas rústicas são postas pela camponesa quando trabalha no campo e só nesse momento são precisamente o que são. São-no tanto mais quanto menos a camponesa pensa nas botas durante o seu trabalho, quando nem sequer olha para elas nem as sente. A camponesa firma-se nas suas botas e anda com elas." A jovem rapariga que traz sapatos de salto alto estará sempre preocupada com eles. Senti-los-á a cada passo nas grandes avenidas e exibi-los-á constantemente. 

Byung-Chul Han, in Rostos da Morte - investigações filosóficas sobre a morte, trad. Miguel Serras Pereira, Relógio D'Água, Abril de 2021, p. 164.

quarta-feira, 26 de maio de 2021

BODY AND SOUL (1930)


 

Estranhos delírios nos assomam como as marés, num vaivém que há-de ter suas causas e razões. Na companhia de um ex-amigo, calcorreava campos em busca de cerejas. Eis algo que não me recordo de alguma vez ter feito, apanhar cerejas. Ia também connosco o meu falecido cão, o Basquiat. À solta, como tão fácil era andar com ele. Mais obediente do que a Nala, não causava cuidados desprendê-lo da trela. Deparei com algumas árvores de fruto pelo caminho, nenhuma dava cerejas. A dado momento, reparo num arbusto onde reluziam uma espécie de pimentos muito pequenos. Apanhei alguns que fui atirando para o interior de um saco de plástico. Quando me levanto e volto, abria-se atrás de mim um imenso vale com uma cerejeira carregada bem no centro. Nós estávamos no cume de um monte recortado por socalcos e patamares, como aqueles que por vezes se vêem cobertos de vinhas, mas em vez de vinhas tinha construções de cimento, levadas, escadarias, habitações abandonadas. Tínhamos de descer, encontrar o melhor caminho para chegar à cerejeira. As construções em cimento eram labirínticas e acidentadas. Vi o Basquiat afastar-se rapidamente. Preocupado com ele, separei-me do meu ex-amigo e desci no encalço do cão. Gritava sem obter resposta. O cão prosseguia indiferente, agora obedecendo a uma mulher de aspecto rural, cabeça coberta por um lenço, saia cinzenta, avental à cintura. O cão desapareceu atrás da mulher. Aflito, eu gritava em vão, descia apressadamente, metendo-me por caminhos desconhecidos até dar por mim preso num beco sem saída. Não tinha como libertar-me, estava completamente só e entregue à sorte. Quando acordei, com a Nala aos pés da cama, a primeira coisa que fiz foi procurar no telemóvel fotografias da Sarah Vaughan. A mulher do sonho era igual, mas branca. E vestia-se como as minhas avós. E não cantava. Mas era igual.

 

Nota adicional e irrelevante: Body and Soul foi escrita por Edward Heyman, Robert Sour e Frank Eyton, com música de Johnny Green, para a actriz britânica Gertrude Lawrence. Chegou a estar banida da rádio por alegadas referências sexuais, mas tornou-se um standard interpretado e gravado por inúmeros artistas.

terça-feira, 25 de maio de 2021

FICAR NO PATAMAR

 


À excepção de O Patamar, os cinco caprichos teatrais de José Gomes Ferreira pareceram-me agora datados e menos interessantes do que quando os li pela primeira vez. Talvez à época ainda me entusiasmasse certo discurso entretanto ultrapassado pelas circunstâncias. São peças políticas sobre diferentes modos de receber a notícia de uma revolução, ecoam já distanciamento, porventura desconfiança quanto ao rumo tomado, e algum desencanto. Falar do 25 de Abril de 1974 como se fala em Manhã Morta ou Os Novos e os Velhos exala o mofo das meras curiosidades arqueológicas. Nem tudo é antiquado. Os cenários sugeridos nas didascálias têm em comum as escadas, aspecto que não é de todo desinteressante. A escada permite uma ocupação do espaço que não é meramente decorativa, apela a movimentos ascensionais e descensionais que podem favorecer a acção. Na peça O Patamar os lances de escadas são acompanhados por iluminações que inspiram sentimentos diferentes, conforme o vermelho ou azul insinuados. Continuo a encontrar piada no velhinho que bate à porta do Sr. X, testemunha do pregador da salsicha sagrada, missionário com o sonho de converter alguém à causa do Divino Salsicheiro. Ainda tem um sonho, o velhinho. Diríamos que, fosse vivo, venceria na vida. Com o passar dos anos Portugal foi completamente ensalsichado. Chamam-lhe americanização ou hegemonia capitalista. O que quer que seja que lhe chamem é cada vez mais um facto, reforçado pelo ilusionismo hipnótico de uma rede que cativa porque aparvalha, que captura porque infantiliza, que seduz porque facilita, que aprisiona porque desprotege. Isto é, uma rede que esgota o discernimento crítico que podia ajudar cada um de nós a tomar posições conscientes. Creio que tendem a rarear neste contexto de entretenimento industrial massivo que, como outros previram há muito, faz de cada um de nós um artista de variedades. O segredo do sucesso está na técnica do esvaziamento, a qual pressupõe um vazamento (esgotar lembra esgoto, é isso a rede). Quanto mais vazio, mais deslumbrante. Quanto mais fugaz, efémero, descartável, ligeiro, mais estético. Nunca o lixo foi tão apreciado, nunca a porcaria foi tão valiosa, nunca os dejectos foram tão aglutinadores. Nunca as salsichas tiveram tanto sucesso. O velhinho da peça acaba por se acomodar num patamar. Gosto da solução: «Prefiro ficar no patamar. Bem vê: casa tenho eu prometida no céu e na terra. Já lhe disse que, quando deitaram abaixo o bairro de lata onde vivia, me prometeram um palacete para daqui a cinquenta ou cem anos com colunas e tudo? Prefiro o patamar. Estou convencido de que até, quando morrer, nunca passarei do patamar. Ui! O medo que eu tenho de Deus. Atrevia-me lá a pisar o céu. Tropeçava logo na primeira nuvem do caminho.» É um exemplo a ter em conta, mesmo que ao subir ele vá ponderando criar uma nova religião. «Céu nosso que estás na Terra e só falta aos homens coragem e audácia para o agarrarem e não o largarem mais», responde-lhe o irónico Sr. X.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

TODE UME NOVE LÍNGUE

 

«Apenas podem concorrer textos inéditos, em língua portuguesa, respeitando o Acordo Ortográfico de 1945 e submetidos peles própries autores.» (…) «Admite-se a candidatura de autores e autoras que colaboraram ou colaboram com a Editorial Divergência e as suas chancelas, nos diferentes papéis editoriais que se lhe associam, desde que se garanta o total anonimato, conforme os termos dos números 12 e 16, e não estejam envolvides em qualquer fase do processo editorial do prémio. Em caso de empate com outre autore que não esteja nas mesmas condições, é escolhida a obra deste segundo.» (…) «Autores menores de idade podem concorrer desde que autorizados pele responsável legal. A autorização deverá ser remetida em conjunto com a submissão e responsável legal estar claramente identificade (nome, morada, idade, endereço electrónico, contacto telefónico).» (…) «Cada autore poderá submeter apenas um manuscrito.» (…) «Autore receberá uma mensagem de resposta acusando a boa recepção do texto no prazo máximo de 48 horas após o envio.» (…) «Autore deve apresentar os seus dados identificativos (nome, idade, endereço electrónico, contacto telefónico e morada) e o título da respectiva obra no corpo do e-mail remetido e enviar um ficheiro digital da obra, anexo ao mesmo e-mail, em que a primeira página é composta pelo título da obra e a sinopse com o máximo de 200 (duzentas) palavras, reservando as demais páginas à obras propriamente dita. Na obra propriamente dita não deve haver qualquer identificação de autore sob pena de desqualificação.» (…) «Autore será contactade previamente via correio electrónico.» (…) «O manuscrito vencedor será publicado pela Editorial Divergência e autore receberá um prémio monetário de 100 (cem) euros. Os direitos de autore serão pagos à parte.» (…) «Os critérios para a selecção de vencedore serão parametrizados em termos da envolvência da trama, credibilidade e coerência das personagens e mundos criados, originalidade e fluidez narrativa.» (…) «A Editora reserva-se no direito de propor a autore alterações à obra premiada caso entenda que venham melhor adequá-la à futura publicação. Estas sugestões poderão ser alvo de contra-proposta por parte de autore. » (…) «Sempre que solicitado pela Editora, autore vencedore deverá colaborar a participar activamente em actividades, eventos e campanhas a realizar com o objectivo de promoção, divulgação e comercialização da obra vencedora, também devendo fornecer fotografias, nota biográfica, bibliografia e outros elementos necessários à divulgação da obra.» (…) «Os direitos de autore são de 15% (quinze por cento) do preço de capa da obra em papel e 25% (vinte e cinco por cento) no caso dos livros em formato electrónico. Poderão ser pagos através da oferta de exemplares ou de transferência bancária. O modo de pagamento é escolhido pele autore.» (…) «A apresentação da obra a concurso implica, por parte de autore, que este compreende e aceita todas as alíneas estipuladas no presente regulamento bem como as explicações fornecidas pela Editora de acordo com a alínea 22.»

 

Para mais informações, aqui.

domingo, 23 de maio de 2021

3 DEMISSIONETOS E UMA ODE

 


pública forma de 3 demissionetos em papel selado

44.

João Pedro Grabato Dias, lá
assinado abaixíssimo de tudo,
natural de Inhaminga, mas cria.
do no seco chão duriense, mudo

mas prolixo de sons, quando lhe dá
pr'aí, trinta e sete anos feitos, rudo
João, como um penedo pedro, ma-
gro de andar a dias ao grabato, bo-

çal sem sal, pro môr dos trinta e tal
milhões de companhias más, casado
com todas que me queiram, e bastardo

dum beberrão nado morto e duma tal
viuva virgem, milaneto enfartado
de judas, de asterix, e de um bardo

45.

merdólicoso hindú e ainda mais
com sangue escravo mas disfarçadíssimo,
morador (com geleira) rua Pais
da Pátria (e telefone) num baixíssimo

número (nem digo, por pudor), Olhais
de baixo, (e talvez, por tal, miopíssimo)
África, Costa a leste irreais,
hemisferiado neste sul quentíssimo,

junto a Vossa Excelência solicita,
mui respeitosamente, e etecetera,
por motivos tais como : pouca guita

de papagaio e trôpa vulva asceta,
se digne aceitar a ida súbita
deste terceiro oficial marmota.

46.

Allranço Mortos, vinte e sete, Agosto,
um milhar novecentos e setenta
anos depois do Objector do Gosto.
(com o assim natura reconhisedenta)

(Nota a vermelha sangue vaca :) Posto
o impróprio tom, mais língua na pimenta
ou véce virsa, e baixe-se de posto.
(assim nado :) governo a dor Pimenta.

(Nota baça a lápis respeitoso : )
Ouso notar a vóscelência a dura
punição, e lembrar-lhe que este moço

é primo, por tabela, da Doutora
Joaninha A. Boa. (Em azul-tremoço :)
Promova-se. (lápis :) Ligue à doutora.


ODE PRESSAGA
dois fragmentos de uma 1.ª versão

I

haverá um lugar onde a flor do pranto
tenha calmas raízes sob névoa e torpor
haverá um lugar onde endormido e brando
já me estarei esperando rociado de horror
haverá um lugar onde pensá-lo seja
estar dos medos além sem a rota suspeita
haverá um lugar de rosmano e carqueja
ninho dum teu amor onde ninguém se deita
haverá um lugar onde a soma das coisas
se divida por si sem agonia em resto
haverá um lugar onde o brilho da loiças
possa evocar o lar onde esperas meu rosto
haverá um lugar com cadeiras de enfim
esperar o tempo todo que os tempos se resolvam
haverá um lugar onde o começo é fim
e os ciclos ordenados a malícia confundam
haverá um lugar com cadáveres tranquilos
ornadando as paredes e regalando a vista
e haverá um cadáver com um lugar de trilos
ocupando nas órbitas um odor de lentisco
haverá um lugar onde as avós se riam
num dentilhar postiço um riso verdadeiro
haverá um lugar com rebanhos que fiam
a própria lã nas fáuces do ogre carniceiro
haverá um lugar onde morreram todos
os anões do remorso e os truões da baixeza
haverá um lugar onde os uivos dos lobos
sejam serzidos nões no zumbir das abelhas
haverá um lugar com papaias de cobre
rachoadas do odor que as palavras tilintam
haverá um lugar onde o pranto se dobre
sobre as recordações que os meus linhos consintam
haverá um lugar de tâmaras nos dentes
e um aprovar suave de franjas sob as copas
haverá um lugar todo em pãezinhos quentes
com vozes de manteiga sobre a toalha posta
haverá um lugar onde unção seja cio
de faminta amizade sobre terra lavrada
haverá um lugar de cães e desfastio
aninhados no bafo de uma tarde coalhada
haverá flores de dentes pelas jarras quietas
e uma cama de mãos ternurinhas e cócegas
haverá um lugar com sossego em gavetas
e de perpétua boda sândalos e cânforas
haverá um lugar de escaninhos secretos
de tempestades peixe a bransequir os ossos
haverá um lugar de triturar infestos
aconteceres de mágoa em ecos pelos paços
haverá um lugar de aprovadoras pedras
na lagariça calma do nosso esperar tudo
haverá um lugar onde carnes e sedas
germinem no teu ventre um deslizar sizudo

II

haverá um lugar habituado aos usos
que já demos às coisas em que tínhamos fé
haverá um lugar de protótipos lusos
pouco mais interessados que em manter-se de pé
haverá um lugar dois lugares três lugares
na geral no balcão na coxia no palco
haverá um lugar com vulcões em andares
sobrepostos de tédio cuerinhos e talco
haverá um lugar sem lugar a mais nada
que aconteceram coisas guardadas pra exemplo
dum lugar a alugar na lôbrega fachada
deste comércio engano desenganado a tempo
haverá um lugar onde um irmão nos derrube
com a só força do pranto com a só força da fome
haverá um lugar onde um irmão nos assome
impedindo no gesto o navegar da mão
haverá um lugar com videiras e palmas
para que a transição seja nossa e suave
haverá um lugar com lugar para as almas
já liofilizadas no tutano da cave
haverá um lugar um lagar um lagarto
um logro um odre um ogre um óptico logradoiro
um lugre alegre um lúgubre post-parto
um lupanar de linces uma mortalha de oiro
um lagarto um lagar de lugares de haverás
de logros ôdres ógres òpticamente certos
de lugres aportando em chávenas de chá
de amostrar às visitas em recintos discretos
haverá um cansaço um bocejo um adeus
uma guitarra ao canto um último cigarro
haverá uma pausa e alguma coisa-deus
por um cerrar de porta por um escarrar de sarro


João Pedro Grabato Dias, in Sonetos de Amor e Circunstância, 2.ª edição, corrigida e aumentada, Lourenço Marques, edição de Académica Lda, 1975, s/p.

sábado, 22 de maio de 2021

OS MELHORES GREGOS

Enesidemo aguardou ajoelhado pela aprovação do mestre. Escrevera um “Tratado Acerca da Vaidade” que julgava ser o melhor alguma vez concebido. Cansado de o ver prostrado, Hipólito aceitou-o no seu círculo para felicidade do discípulo e orgulho da família. Formoso petiz, filósofo feito de frases refundidas, Enesidemo morreu convencido de que almejara a eternidade. Mas do seu tratado chegaram-nos meros fragmentos intraduzíveis. Os melhores gregos ficaram esquecidos em papiros apócrifos lacerados por estiletes de sangue.
 
Écio, irmão de Numénio, autor dos “Ensaios Pagãos”, viveu a vida inteira na sombra do irmão. É deste a célebre “Refutação dos Deuses”, afamada por haver alvitrado o declínio dos povos e das nações. Quem se lembra hoje de Numénio, o franzino? Quem o cita ou refere? Menos serão ainda os afortunados que algum dia ouviram falar dele, desse nome que ecoa na história do pensamento tão-somente o espectro da inveja que o tolhia. Contam-se anedotas acerca dessa invidia que o afogou no próprio fel. Os melhores gregos ficaram esquecidos em papiros apócrifos lacerados por estiletes de sangue.
 
É incerto o número de livros que formam as “Opiniões” escritas por Iâmblico de Palmira, grego por adopção de Proclo, para quem terá sido escravo, filho, amante, e de quem por assédio se diz ter posto mão e metido ombros no açambarcamento de fortuna inaudita, haurindo encómios de que sobejam vagos sopros contraditórios. Os melhores gregos ficaram esquecidos em papiros apócrifos lacerados por estiletes de sangue.
 
Arnóbio, para não nos alongarmos, foi o verdadeiro autor de tudo quanto Platão imputou a Sócrates, particularmente das máximas consagradas pela boca do povo como fundadoras do pensamento ocidental, derradeiro império declinado: só sei que nada sei, conhece-te a ti mesmo, estar vivo é o contrário de estar morto. Sob influência de Arnóbio, sabe-se hoje, terá Sócrates designado Platão para seu gravador. Os melhores gregos ficaram esquecidos em papiros apócrifos lacerados por estiletes de sangue.
 
Não olvideis as lições legadas pelas vidas destes homens. O esquecimento é o navegador implacável que por fantasia deu com o continente da memória reclamando-se seu dono e senhor. 
 
Os melhores gregos ficaram esquecidos em papiros apócrifos lacerados por estiletes de sangue.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

UM POEMA DE PEDRO TEIXEIRA NEVES

 


A TARTARUGA DE BOB WILSON

não tenhas pressa
não tenhas pressa
a eternidade pode esperar
repara
a tragédia do homem sobre a terra      desde sempre
guardada a sete chaves junto ao mistério do tempo
para onde vai o tempo?

a tartaruga de bob wilson atravessando o palco
em longos trinta e dois minutos de lenta lentidão
que lhe interessa o tempo
sequer para onde vai na sua solidão?

escrever      escrever      pois sim
mas saber realmente o que dizer não interessa
interessa ser a tartaruga sem o saber
interessa o poema enquanto acontecer
ao poema não interessa o tempo
nem para onde o tempo vai
ou mesmo se vai a tempo de o ser

interessa ser a tartaruga
e reservar quando muito alguns instantes
para a meio da cena parar e apenas
perguntar      perguntar      perguntar

interessa saber que as ondas se repetem
que só o mar não se extingue no seu eterno desenhar

um dia      sabe      a tua mão será tão longe
tão longe que não mais te pertencerá
um dia a tua mão será uma nuvem
reflectida na superfície dos versos
e já não haverá perguntas a fazer

limitar-te-ás a ser tartaruga atravessando o palco

e ninguém se afastará ao teu passar
ninguém irá parar para te lembrar
tu tartaruga de bob wilson
alheia ao teu próprio atravessar de cena
como quem se retira para um não lugar.

Pedro Teixeira Neves, in A Tartaruga de Bob Wilson, Glaciar, Dezembro de 2018, pp. 14-15.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

QI

Esta noite sonhei que o QI médio da população mundial diminuira drasticamente. As pessoas estavam a ficar literalmente burras. O focinho e as orelhas dos humanos haviam crescido exponencialmente, tal como outras partes do corpo. Os portugueses falavam agora uma espécie de mirandês zurrado, entendiam-se na perfeição apesar de um ou outro coice na gramática. Todos de quatro, o corpo coberto por uma pelagem grossa, andávamos deveras orgulhosos por finalmente o veganismo haver vingado junto da população. Fui à pata para Paris, onde havia burrinhas muito jeitosas que também comunicavam numa espécie de mirandês zurrado. Nunca o meu francês foi tão inteligível. A guerra acabara no mundo, assim como as religiões e a filosofia. Éramos felizes. Satisfazíamos as necessidades quando sentíamos necessidade de as satisfazer, todos, indiscriminadamente, apesar de um coice ou outro para espantar moscas. Acordei muito consolado. Gostei de me sentir na pele de burro. Sem humanos por perto.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

DUAS ESTREIAS

O ano ainda não vai a meio, mas já podemos congratular-nos com algumas estreias no caminho. Dois livros próximos em múltiplos aspectos marcam o primeiro trimestre do ano. Ambos escritos por mulheres, ambos vinculados a uma poesia do corpo, ambos assumindo em epígrafes de Herberto Helder um patronato, sublinhe-se, nada epigónio, fazem um uso diferente da linguagem poética para expressarem visões distintas do mundo organizadas também de modo dissimelhante. Maria F. Roldão (n. 1965), formada em Sociologia, publicou alguns poemas em revistas e edita a Nervo (n.º 11, Maio/Agosto de 2021). Ana Freitas Reis (n. 1981) é psicóloga. Conhecemos alguma da sua poesia através de partilhas nas redes sociais e de dispersos surgidos em publicações colectivas on-line.


Pequeno Sangue (volta d’mar, Fevereiro de 2021) colige um conjunto de poemas que, não estando, aparentemente, subordinados a um tema comum, se ligam em torno da carga simbólica transportada pela palavra sangue. Veículo de vida e de paixões, o sangue é, antes de mais, o líquido que anima o corpo. Ainda que tenha uma identidade, um tipo, não é mensurável como um sólido, daí que o uso do adjectivo “pequeno” a ele associado gere um efeito de estranheza que de algum modo anuncia uma das características mais evidentes nestes poemas: a insistente subversão das leis que determinam perspectivas científicas do mundo. Neste sentido, a poesia de Maria F. Roldão participa de um pressuposto que confere à linguagem poética uma expressão da realidade alternativa ao rigor da razão e à percepção empírica. E este pressuposto concretiza-se, principalmente, de dois modos: através da recorrência a imagens paradoxais e de uma constante experimentação que faz de cada poema uma unidade isolada. 
As imagens paradoxais verificam-se ao longo do livro quer em formulações alegóricas de experiências concretas, quer através da combinação de palavras pertencentes a campos semânticos opostos, alcançando-se, desse modo, uma representação ambígua ou mesmo absurda da realidade. Logo no Preâmbulo damos com «uma vaga ciência nas / metades boas do sangue» (p. 9), para a seguir a água acabar arrumada numa gaveta, os líquidos do corpo serem cosidos, a água ser distribuída em estreitas fatias, a saliva dobrada, o sangue engomado, etc. A referência ao físico Denis Papin no poema intitulado Castanhas tem um significado irónico, já que nestes poemas as leis da física são o mero contraponto de um paradigma absurdista que a palavra delírio no pequeno poema introdutório logo instaura. O impulso experimental nota-se, precisamente e mais evidentemente, em poemas minimalistas tais como Pequeno Corte na Urgência ou Sôpro, onde um lúdico manuseamento gráfico e semântico salienta o erotismo subjacente ao tratamento de uma língua que aqui se confunde com corpo:
 
ARTESANATO
 
Forja-língua-bilro
 
O vime o barro
O muco
 
No ar tesão
 
Mais sóbrio em termos formais é o primeiro livro de Ana Freitas Reis, o qual obedece a uma distribuição rigorosa dos poemas que leva a pensar nesta obra como num longo poema em gestação. A palavra Cordão (Abysmo, Março de 2021) do título desperta, desde logo, inúmeras imagens, sendo a mais intensa aquela que acaba por advir da epígrafe final pedida de empréstimo a Herberto Helder: «cordão de sangue à volta do pescoço». Tratar-se-á, então, de um cordão umbilical, algo que, de resto, é sugerido no poema inicial que encena um parto, repercutido posteriormente nos pequenos poemas distribuídos por páginas ímpares através de um complexo lexical assaz sugestivo desse «rebento milagre» inaugural: coração, sangue, sopro, útero, pulmões, raiz. 
Não andaremos longe da verdade se situarmos esta poesia no campo de uma representação do corpo feminino e da mais essencial das suas funções, albergar a geração de um ser. Nisso é possível estabelecer um paralelismo com a própria natureza do poema, hospedeiro de uma entidade e de uma identidade que resulta da relação apaixonada entre quem escreve e quem lê. Mas nesse caso estaríamos já numa dimensão metafísica que não me parece ser a mais adequada à singularidade deste cordão, o qual me chega nitidamente enquanto elo ao «assombro de estar vivo» (p. 11). O que ressalta do umbigo é a ligação a uma anterioridade que em cada ser perpetua o mistério da vida. Espantosa é a forma como esse mistério acaba celebrado nestes poemas publicados num tempo obnubilado pela ameaça persistente da morte, a qual, não tendo sido omitida, serve para lembrar que «Ainda tens coisas acesas no teu corpo» (p. 58). Penso pois neste livro como na gestação de um poema, e penso no poema como na gestação de um ser. Poesia indelevelmente ligada ao corpo, às possibilidades de representação do corpo, por um cordão que vai sendo desatado de verso a verso através de uma sensibilidade rítmica notável que aborda a respiração como uma doação. O recurso insistente a anáforas pontua o movimento sincopado de um coração, na demanda de uma musicalidade que reverbera uma meticulosa selecção verbal. Não faltam sequer alusões mitológicas (o barro que se molda, Adão e Eva) ou ao paganismo organizado em torno dos ciclos da natureza (referências ao correr dos meses, à Primavera enquanto momento de renovação). O Verão é a estação privilegiada desta poesia solar, a qual se desvia da melancolia repisada e da soturnidade elegíaca mais corriqueira optando pelo fulgor das chuvas que fertilizam a terra enquanto «possibilidade na alegria» (p. 25). Há neste Cordão uma reaproximação do homem à natureza que supera a ruptura operada por um racionalismo castrador e cristalizador, o mesmo que nos usurpou toda a possibilidade de espanto e de mistério, toda a hipótese de milagre. Saúde-se a coragem de num livro de poesia fascinado com a vida, neste início de século tão dado à morte:
 
MINTO SOBRE O ESTATUTO CONTEMPORÂNEO
 
todos somos, finalmente, aspectos vagabundos da natureza
Maria Gabriela Llansol
 
Continuamos a procurar o espanto
nas montanhas, insistimos
nos cumes altos, miradouros
frívolos ao serviço dos registos.
Saio para sentir o odor lunar,
procuro sinais de nascença pelo solo.
 
Não temo o chão da terra.
 
É noite ainda.
Caem flechas por entre os ramos secos
de um sobreiro.
Trincamos os espinhos da navalha.
As cabeças movem-se em direcção ao centro
da fornalha.
 
Porque sim,
Pela indolência da seiva que sabe
de uma revolução nocturna.
Encarno o perfume desgraçado desse lírio silvestre
quando afinal repouso nos seios da natureza.
 
Fica de dia.
Uma chuva opulenta inunda o nosso quarto,
certos beijos prolongam o voo,
sem temer a existência.
 
Hoje só conheço a terra,
a única que não esquece a persistência
e a possibilidade na alegria.

terça-feira, 18 de maio de 2021

MINOR IMPULSE (1961)

 


A cabeça dividida entre um turista bêbado e um emigrante do Causse. «Ando na minha terra como um estrangeiro», diz o segundo. E não custa dar-lhe corpo, é como se fosse eu a falar. Perdido, exilado, estrangeiro na minha própria terra, na minha própria respiração, desenraizado, a esmo. Já ninguém diz a esmo. O turista é número, gag, enrola palavras, ronca. Penso nos ingleses distribuídos pelas ruas algarvias, nos holandeses aterrados no oeste, como aqueles com quem convivi na adolescência e não deixaram saudades. É claro que preferia fazer de músico de jazz. A ter de representar um papel que não o meu, que me atribuíssem qualquer coisa ao estilo o que gostavas de ter sido se chegasses a ser grande. Gostava de ter sido Ike Quebec, viciado em heroína, morto aos 44 com cancro na língua, era o que gostava de ter sido. Já vivi mais 3 anos do que devia. Em boa verdade, acho que levo 20 de desperdício. Agora não há nada a fazer, o mal está feito, a quebra aos cinco minutos de Don’t Take Your Love From Me, posso entrar pelo palco adentro aos berros, fingir que sou feliz e amado, posso imitar um quadrúpede, andar de quatro, ganir como um cão desesperado, posso arrancar a carne com as unhas e vomitar desespero pelo poros que ninguém dará por isso. Fingir-me sereno, feliz, está tudo bem, não se passa nada. O que é que se passa? Nada. Serei apenas mais um a fazer número na peça ensaiada pelo destino, a sala vazia, luzes baças, projectores desligados, acção imóvel. Ike Quebec e Grant Greene no estúdio a gravarem Blue and Sentimental, eu à escuta, ouvido encostado à parede, do lado de fora, ainda antes de ter nascido. Do lado de fora.

segunda-feira, 17 de maio de 2021

TERRA NATAL

 


(Mais informações: aqui)

Admito o preconceito, mas certos aspectos na biografia de um autor contribuem para reforçar ou atenuar o interesse gerado pela obra. Seduz-me a tentação de supor uma existência por detrás das palavras, imaginar que são o sangue vertido por um corpo a cicatrizar. Não sinto qualquer desconforto quando o anonimato quebra a corrente, mas como negar o fascínio exercido pelo desvio e pela errância? Já não tenho idade para me deslumbrar com ideias feitas acerca da grande aventura que é estar vivo, sendo-me facilmente perceptível quão misteriosa, angustiante e tremendamente dolorosa pode ser a existência de um gorila no interior de uma jaula. Esta clausura da natureza, o selvagem domesticado, é porventura a mais repisada das formas de viver na contemporaneidade, a qual tem as suas contradições e os seus paradoxos como qualquer outra, mas precisamente por me parecer tão vulgar e nela me encontrar tão imerso é que me espanta quem a contraria aventurando-se no interior de florestas desconhecidas, atravessando o deserto, experimentando adversidades, superando contrariedades, para tombar exausto no cume da montanha acabada de escalar. Ou quedando simplesmente a meio caminho, ainda assim caminhando. Quanto ao tédio e à monotonia do ramerrão doméstico vejo-os como ao desafio colocado a alguém atirado para dentro de um labirinto, convencendo-me de que em muitos casos aquele a quem fosse dado o mérito de encontrar a saída sentir-se-ia tão perdido do lado de fora que desejaria regressar imediatamente ao interior de onde saiu.

Há pormenores na biografia do dramaturgo Daniel Keene (Melbourne, Austrália, 1955) que permitem compreender quanto destas duas dimensões terá contribuído para a arquitectura de uma obra onde vislumbramos tanto o quotidiano trágico da vida doméstica como a errância daquele que parte à aventura. É um autor, como se costuma dizer, que terá passado as passas do Algarve antes de obter reconhecimento. Sabemos que chegou a quase mendigar na Nova Iorque dos anos 80, a dos yuppies capturados pelo grande sonho americano. Familiarizado com os movimentos de contracultura preponderantes no núcleo de resistência à massificação uniformizada do espectáculo, Keene optou por um teatro ao mesmo tempo realista e estranhamente poético no modo como aborda a história. As duas pequenas peças montadas pelo encenador Luís Varela no Teatro da Rainha ajudam-nos a equacionar mais esses mecanismos de aproximação à realidade do que a formular ideias feitas e generalizações sobre a forma como o quotidiano e a experiência vivida se imiscuem na linguagem poética e teatral. Desde logo, são duas peças muito diferentes uma da outra. A Chuva foi escrita como um monólogo, Terra Natal é um encadeamento de sketches fugazes. A primeira desloca-nos para o campo indefinido da memória, a segunda confronta-nos como um reflexo num espelho. O que ambas liga é do domínio da subjectividade, embora possamos encontrar nos dois textos a força de um passado que vem à tona através de memórias e de recordações que são também um questionamento sobre as raízes das personagens.

A Chuva remete-nos para o holocausto nazi, mas fá-lo a partir de um conjunto de alusões e não propriamente de enunciações claras e inequívocas. A velha interpretada pela actriz Isabel Lopes desdobra-se na voz manipulada e na presença física de duas outras actrizes, oferecendo ao discurso a profundidade e o intimismo de uma história enraizada em memórias particulares de um acontecimento universal. Olha-se aqui para a História tendo como ponto de partida uma experiência singular. Onerosas são as memórias que advêm ao rosto de Isabel Lopes e se prolongam nas vozes de Lavínia Moreira e Sara Delgado, elegia pelas vítimas de um extermínio que o tempo parece querer apagar como o faz à matéria transformada em pó ao longo dos anos. É também a esta transformação operada pelo tempo que assistimos, uma transformação projectada do eco fantasmagórico da infância ao rosto envelhecido à boca de cena. Já em Terra Natal este elemento ameaçador do esquecimento surge, precisamente, na personagem igualmente interpretada por Isabel Lopes, uma divertida mas ao mesmo tempo angustiada avó empenhada em transmitir ao neto o conhecimento das suas raízes. É uma peça social, se assim podemos dizê-lo, de forte consciência cívica e com a clara intenção de dar voz aos desafortunados, gente dilacerada pela rotina, pela monotonia, pela tal domesticação do selvagem no início deste texto aludida. A ameaça de desemprego que recai sobre o pai, vigorosa interpretação de Nuno Machado, produz efeitos nefastos no seio de uma família em crise. E essa pode ser uma das temáticas do texto, ou seja, o modo como a vida íntima acaba por ser afectada, condicionada, para não dizer determinada por golpes exteriores, pelo ambiente social e cultural em que o indivíduo se encontra. De sublinhar, porém, que o princípio e o fim da peça estão marcados pelo aniversário do filho adolescente, interpretado por Carlos Batista, o qual se vê no contexto muito mais ambíguo e ambivalente de entrada na vida adulta, até porque nesse contexto repercute a tragédia dos adultos em cena — como se ao vermos o jovem casal estivéssemos a ver o que o pai e a mãe foram, como se ao olharmos para o pai e a mãe estivéssemos a assistir ao que o futuro reserva para o jovem casal. Há uma espécie de herança processada entre as personagens que estabelece um jogo de intercâmbios: a solidão da avó, a ausência de perspectivas da mãe, a frustração do pai, parecem estar a ser transferidos para um casal de adolescentes em alegre vertigem passional mas prestes a descobrir, em bom português, o que a vida custa. E essa é a verdadeira tragédia, perceber que não há saída. Ou, em havendo, regressar ao labirinto.