domingo, 9 de maio de 2021
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #32
terça-feira, 27 de abril de 2021
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #31
Eis um título que me coloca numa posição desconfortável. A dúvida que me ocorre de imediato é o que vemos quando lemos «o que vemos quando lemos»? Será suposto vermos alguma coisa? Talvez seja defeito de maturação, mas eu sempre cultivei uma relação de invisibilidade com as palavras. Julgo que me dou tão bem com elas por me garantirem tal invisibilidade. Ao contrário de outros, não creio que as palavras tenham cheiro, cor, textura, não são como um corpo que se apalpe. É essa a sua vantagem, por isso não perecem. Mesmo as que caem em desuso, como algumas que já tereis encontrado em Camões, Gil Vicente... Têm forma e peso, sendo que em matéria de forma pouco poderemos acrescentar à invisibilidade com que nos tornam presentes as coisas. A caligrafia é a forma das palavras, nada que ofereça boca, nariz, orelhas. Não sabemos, nunca saberemos, a cor dos olhos das palavras nem o tipo de cabelo das palavras. No entanto, elas servem para que identifiquemos a cor dos olhos e o tipo de pêlo da Nala. Creio que não vos será difícil aceitar que, não podendo comunicar por palavras com a nossa pequena cadela, é por sons e gestos que ela nos responde e dela conseguimos reacções mais ou menos inesperadas. Entre nós, minhas filhas, entre nós que humanamente vamos desenvolvendo a linguagem do invisível, as palavras adquirem porém o poder de tornar presente o que julgávamos desaparecido, ausente, esquecido. As palavras fazem aparecer e neste aparecer há, sem dúvida, um ver, um tipo de ver pelos ouvidos, pelos dedos, pelos olhos, pelos sentidos através dos quais logramos contactar com a invisibilidade.
O desconforto, perdoem-me, é causado pelo verbo ler. O que lemos quando lemos seria, talvez, a questão mais pertinente, mas o autor é formado em ver, em mostrar, em visualizar, pelo que devemos aceitar-lhe o esforço de pretender tornar compreensível essa complexa relação do lido com o visto. Peter Mendelsund estudou filosofia e literatura, tocou piano, dedicou-se ao design gráfico, e neste percurso não será difícil perceber quão imperioso será para ele compreender como a imaginação se articula com o pensamento através de sons e de imagens. Se o problema eram as capas dos livros que desenhava, o resultado é uma extraordinária abordagem a esse fenómeno inesgotável da linguagem. Uma fenomenologia da leitura, portanto, palavrão que podeis não estar dispostas a aceitar pacificamente mas que se tornará tão simples de aceitar como qualquer outra palavra quando com ele vos familiarizares. E este é, para mim, o ponto essencial. Anterior à visualização do que é lido importa investir numa familiarização com as palavras. O conselho que dou, se é que posso dar-vos algum nesta matéria, vai no sentido de estimular a vossa curiosidade ao ponto de sentirdes vontade de abrir os gradeamentos dos significados fixados pelos dicionários, porque as palavras são, antes de mais, animais selvagens que só por necessidade domesticamos. Não é possível, porém, domesticar um leão como domesticamos um gato, as palavras são leões numa selva anterior às convenções que as transformam em gatinhos de colo.
Este mesmo livro que ora vos sugiro poderá esmoutar caminho nesse sentido de um para lá do significado onde se mistura, sobretudo, a história de quem vê e lê, pois a palavra «preto» jamais será entendida da mesma forma para quem o preto for sinónimo de fascismo ou de anarquismo, luto ou liberdade, perigo ou elegância… Esmoutar? Eis uma palavra. O que vêem quando a lêem? Talvez a elegância do perigo, e dizê-lo assim é já um modo de colocar a questão que transcende as fronteiras das semântica, a etimologia, a raiz da palavra. Disse outrora que muitas das imagens neste livro são puro texto, devem ser lidas, assim como muitas das frases nele contidas, breves, sintéticas e eficazes como os melhores aforismos, apelam a um universo visual e imagístico que transforma a leitura numa autêntica experiência visual. Deste modo, o que vemos neste livro é também o que lemos. E o que lemos é, isso mesmo, o que vemos. É um livro que abre portas e janelas para uma paisagem de clássicos imprescindíveis, o que também o torna imprescindível. Mas é, antes de mais, minhas filhas, um objecto que torna presente quão complexa e sublime é a simplicidade de uma dúvida. Para mim é um privilégio poder aventurar-me na selvajaria das palavras. Espero que para vós também, já que no mundo em que vivemos não há mal que não tenha nascido dessa tendência para tudo domesticar, controlar, uniformizar e, por isso, reduzir.
sábado, 14 de novembro de 2020
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #30
Há uns anos, como sabeis, dediquei um livro
aos que se matam. Confesso-vos que nunca me interessou o porquê de se matarem,
pelo menos nunca me interessou tanto quanto continua a interessar-me o porquê
de não se matarem outros. Será o suplício de nos mantermos vivos menos poético
do que a decisão de nos termos mortos? Quantos serão os modos de se estar morto
em vida? O que para mim sempre esteve em causa resumiu-o Ruy Belo: «Suicido-me
nas palavras. (…) Ao escrever, mato-me e mato». Ninguém percebe as forças que
animam tal decisão, muito menos a percepção anterior à de que tudo é em vão.
Ainda assim, a gente mata-se a escrever como quem se mata a esgaravatar no deserto
esperando que à superfície surja água com que saciar a sede.
O meu desprezo é, sempre foi, pela exibição
da tristeza, pelo exibicionismo da melancolia, pela sublimação da morte quando,
vai-se a ver, e a vida gira como um carrossel grotesco de hipócritas
lambuzando-se em algodão doce. Este mundo, minhas filhas, está atolado de
pierrots a plagiarem meninos da lágrima. Daí que na introdução a um livro
anterior aos meus suicidados eu haja proposto a esses pierrots que se matassem,
abdicassem ou se dedicassem à criação de galinhas em vez de perderem tempo a
cacarejar desesperos e desassossegos de pacotilha. «O poeta é um ser condenado»?
Sim, mas não menos que um ladrilhador ou a dona Ilda das limpezas.
Tão distintas são as razões que levam alguém
a pôr termo à vida que considerar o suicídio «o manifesto de coerência do
poeta» só pode significar uma de duas coisas: ou nada se percebe da vida ou
nada se entende de poesia. Terá Thomas Chatterton pretendido matar-se, aos 17
anos, para manifestar uma putativa coerência que o Nobel Yasunari Kawabata só
vislumbrou aos 72? O que haverá de comum entre o suicídio de Antonin Artaud e a
desesperança de Antero de Quental? Acerca do tema, de resto, escreveu o
primeiro: «A matar-me não será no intuito de destruir-me, mas sim para me
reconstituir, o suicídio será para mim unicamente um meio de me reconquistar
pela violência, de fazer uma irrupção à bruta no meu ser, de ganhar a pouco
segura vantagem de Deus». A fé dos homens tem contornos inimagináveis.
Minhas filhas, a nós, que estamos vivos, não
resta senão respeitar a decisão de quem quer morrer, aceitando que por detrás
da mesma pouco ou nada nos é dado compreender. Ridículo seria reduzir a «manifesto
de coerência» a depressão, a doença mental, a raiva, a fúria, o desespero, o
desejo, a fuga ao sofrimento, o acidente, a honra, a vergonha, o amor, a
frustração, que de tantas e de tão variadas formas podem impelir alguém ao
precipício da morte. Há quem se mate por paixão, há quem se mate por vazio. Yves
Le Bonniec e Claude Guillon encararam o suicídio como uma arma para denunciar
misérias, enquanto Marx interpretou-o como resultado de uma opressão social assassina.
Durkheim estudou-o do ponto de vista sociológico, Hume abordou-o a partir do
prisma da culpabilidade moral, Camus dedicou-lhe algumas das suas melhores
páginas, mas poucos como René Crevel terão sabido expressá-lo no que tem de
essencial e individualmente humano. Por humano entendo frágil. Talvez André
Gorz, com o seu exemplo, tenha conseguido expressá-lo de modo igualmente
esclarecedor.
É deste último que pretendo falar-vos.
Sabeis da admiração que tenho pela sua carta derradeira, dirigida ao amor da
sua vida, a actriz Doreen Keir. Casaram em 1949, tiveram uma vida rica e feliz:
«Há cinquenta e oito anos que vivemos juntos e amo-te mais do que nunca». Consolidaram
o amor discutindo o mundo, cúmplices numa guerra contra os males que o ameaçam.
As viagens e as percepções divergentes estimularam-lhes um pensamento que só resulta
inteiro quando não está só, quando evolui do confronto de ideias e recusa o
autismo castrador da opinião sem contraditório. A tristeza bateu à porta pela
visita da doença. Aracnoidite, cancro do endométrio. «Cada um escutava a
respiração do outro», até terem ambos deixado de respirar em conjunto num dia
de Setembro de 2007. Foram encontrados dois dias depois, deitados um ao lado do
outro, com as palavras de André ressumando razões: «Não me posso imaginar a
continuar a escrever se tu já não estiveres». É mais comum do que se julga,
esta impossibilidade gerada pela ausência.
Crevel era uma criança quando viu o pai
pendurado pelo pescoço, razão pela qual fez do suicídio uma obsessão «como a
melhor e a pior garantia contra o suicídio». Palavras do próprio. Gorz
encarou-o como uma espécie de eutanásia, partindo com a sua companheira por não
aguentar mais viver no sofrimento da perda acelerada pela doença. Semelhantes são
os casos de Arthur Koestler e Heinrich von Kleist. Gilles Deleuze decidiu tratar
do cancro nos pulmões pondo fim à vida, Camilo estava cego. Emilio Salgari não
aguentou a loucura da mulher e a miséria em que vivia. O suicídio entre os mais
jovens é muitas vezes acompanhado de diagnósticos de depressão, esquizofrenia,
transtornos vários, existências excessivas, autodestrutivas, consumo de drogas,
descompensações. Até que ponto temos mão nas doenças que nos assaltam? O
ambiente social, a pressão, fazem estragos, estejamos a falar de artistas ou de
taberneiros. Conheci dois que se enforcaram, nenhum deles escrevia poemas.
Isto para dizer que se «o poeta que se mata
cumpre-se», resta saber se o poeta que fica por se matar não se cumpre. Fernando Pessoa cumpriu-se? Herberto
Helder cumpriu-se? E o que será isso de um poeta se cumprir? Uma vida cumpre-se
entre a concepção e a morte, o poeta não se cumpre senão nos poemas que o fazem
cumprir-se. O suicídio é um poema? Todos os suicidas são poetas? Estará o poeta
português valter hugo mãe, que recentemente assinou o prefácio de um livro da
actual coqueluche do entretenimento televisivo nacional, ciente da incoerência
em que incorre mantendo-se vivo? Diz ele que «escrevem-se poemas para protelar»,
propósito, cremos, do qual não resultarão senão maus poemas. Ao contrário, na
senda de Ruy Belo, creio eu que um artista deve criar como vive, amando,
destruindo-se naquilo que cria, como por fusão nos destruímos naquilo que
amamos. A violência vem da ordem que se altera, não do fim que se impõe.
Minhas filhas, o poema não recusa a vida como a morte o faz, o poema aceita a vida tal como ela é: contraditória, paradoxal, absurda, bela e horrível na mesma proporção. Talvez a falácia surja dessa tendência para substituir deus pela poesia, ou para fazer da poesia um avatar do sagrado, como se tudo não se passasse num corpo, o nosso, que é o princípio e o fim de tudo quanto nos acontece. Não julgueis, minhas queridas, que por dar termo a esse corpo alguém manifesta ou deixa de manifestar poesia. Poético é o acaso de sermos minúsculos grãos de poeira neste vastíssimo universo que, por medo ou necessidade, procuramos reduzir ao significado que atribuímos a nós mesmos e não temos, assim disfarçando a terrível evidência de que tudo não passa de um equívoco. Um mal-entendido, esta importância que nos damos.
quarta-feira, 29 de julho de 2020
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #29
sexta-feira, 10 de abril de 2020
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #28
quinta-feira, 12 de março de 2020
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #27
quinta-feira, 26 de dezembro de 2019
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #26
Começámos a manhã de 2019 com um criminoso aberrante de cara lavada, prenúncio do que, ao longo do ano, acabou por se transformar em regra para que definitivamente aprendamos a conviver com o ópio das multidões: não importam os meios se os fins forem rentáveis. Perante os factos, a transferência da rainha das audiências de um canal para o outro não pode ser interpretado como mero fait divers. O empolamento da situação podia ser apenas adorno na feira de vaidades, mas antes se transforma no símbolo mais doce de uma estupidez que já ninguém escandaliza. Resultado: que importa se o ídolo da nação fugiu ao fisco ou violou uma mulher? É o ídolo da nação, logo intocável. Ao contrário, habitantes do Bairro da Jamaica, ou quem os defenda, devem ser apontados como escândalo nacional, pois tudo quanto fizemos para integrá-los falhou. Integrá-los em quê? «Oh, não confiem nesta Avenida Névski! Eu, quando deambulo por ela, agasalho-me sempre o melhor possível na minha capa e tento não olhar para os objectos que encontro. É tudo engano, é tudo sonho, nada é o que parece!»
Minhas filhas, se ouvires dizer na tal Avenida que o nosso país tem um problema com as minorias, não vos esqueceis de quão minoritária é, pois, a minoria do bom senso. Em matéria de trafulhas, cromos para troca nunca faltam. Evitai, no entanto, fazer como Tchartkov, pois nem tudo é uma porcaria neste mundo. Em aprendendo a rir da porcaria, até se torna sustentável frequentá-lo. Com as devidas distâncias. Podemos olhar com graça tanto para um recluso que enfia 7 telemóveis no cu como para um magnata que se recusa a cumprir ordem para demolir WC com vista para o Palácio das Necessidades. Julgais fruto da minha imaginação tais notícias? Pois aí tendes 2019, o ano em que tudo quanto era inimaginável se tornou simplesmente vulgar. Os ficcionistas que se ponham a pau. Se quiserem surpreender, no futuro, terão de ser o mais sóbrios possível. Quem conseguirá aguentar estardalhaço sobre estardalhaço? Como nos contos de Gogól, o que no entretanto haverá de sonho ou realidade será tão destrinçável quanto o negro o é do preto. Perguntai às vítimas de violência doméstica que ao longo do ano contribuíram para as estatísticas de um país que surge entre os mais pacíficos do mundo. Se obtiveres resposta, dizei-me qual foi.
Se os atentados continuarem pelo Sri Lanka, dai-vos por satisfeitas. Não se chega lá de caleche, meio de transporte utilizado por certa comunicação social para quem as auto-estradas da informação ainda estão cheias de portagens. Mais do que mostrar quanto há, mostra-se quanto convém. Daí que não importe mostrar o Chile, se convir mostrar a Venezuela, e assim sucessivamente. Depois, andaremos entretidos com cartoons proibidos, declarações de amor à China, elevados índices de abstenção, deputadas gagas, deputados patológicos, manifestações de polícias, injecções de capital, dívidas fantasma, operações stop, mercado de transferências milionárias, assessores de saias, peixes inteligentes, conseguindo vislumbrar maneira de chamar cultura superior a esta que continua tão entretida com o seu bem-estar encavalitado na desgraça alheia. Enfim, não deixa de ser verdade, como sabeis, que para se ser superior tem de alguém oferecer os ombros. Os inferiores. Ou, em versão actualizada: os outros que explorem o lítio, a gente depois dá-lhes o uso devido.
Inesperadamente, um final fantástico: «Na polícia foi emitida a ordem de apanhar o morto, custasse o que custasse, vivo ou morto, e de lhe ser aplicado impiedosamente o devido castigo, para edificação dos outros, e a empresa quase teve êxito». O morto somos nós, minhas filhas, nós que aceitamos o revisionismo histórico e a expurgação da memória como quem abraça alegremente o reino da estupidez, conformados por entre a loucura e a normalidade ter deixado de haver fronteiras, por entre a ficção e a realidade se terem esbatido muralhas, pois essas, agora, erguem-se apenas e cada vez mais na Terra para que possam ser garantidos aos ricos os condomínios fechados onde os pobres apenas entrarão para varrer ruas, lavar latrinas, colher lixo.
sexta-feira, 22 de novembro de 2019
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #25
sexta-feira, 13 de setembro de 2019
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #24
sábado, 17 de agosto de 2019
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #23
segunda-feira, 22 de julho de 2019
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #22
quarta-feira, 3 de julho de 2019
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #21
segunda-feira, 24 de junho de 2019
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #20













