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sábado, 14 de novembro de 2020

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #30

Não nos queixemos do tempo que faz, minhas filhas, e afastemos de uma vez por todas o tempo que é, nem que para tal nos vejamos compelidos a mastigar em solidão as nossas próprias dores. Há uma alegria no mundo que lhe traz mistério, é a da fonte no meio do deserto, uma nuvem com a forma de um animal, o gesto de abraçar alguém e dizer-lhe: estou contigo. A par desta alegria há uma tristeza que parece infinita porque é natural nos homens ampliar o sofrimento. Reparai como é tão mais fácil chegar a um coração pela tragédia quão difícil se torna sensibilizá-lo pelo gozo de viver. O riso envergonha-nos, as lágrimas seduzem-nos, e, no entanto, a sensação de que tudo é uma comédia persiste.

   Há uns anos, como sabeis, dediquei um livro aos que se matam. Confesso-vos que nunca me interessou o porquê de se matarem, pelo menos nunca me interessou tanto quanto continua a interessar-me o porquê de não se matarem outros. Será o suplício de nos mantermos vivos menos poético do que a decisão de nos termos mortos? Quantos serão os modos de se estar morto em vida? O que para mim sempre esteve em causa resumiu-o Ruy Belo: «Suicido-me nas palavras. (…) Ao escrever, mato-me e mato». Ninguém percebe as forças que animam tal decisão, muito menos a percepção anterior à de que tudo é em vão. Ainda assim, a gente mata-se a escrever como quem se mata a esgaravatar no deserto esperando que à superfície surja água com que saciar a sede.

   O meu desprezo é, sempre foi, pela exibição da tristeza, pelo exibicionismo da melancolia, pela sublimação da morte quando, vai-se a ver, e a vida gira como um carrossel grotesco de hipócritas lambuzando-se em algodão doce. Este mundo, minhas filhas, está atolado de pierrots a plagiarem meninos da lágrima. Daí que na introdução a um livro anterior aos meus suicidados eu haja proposto a esses pierrots que se matassem, abdicassem ou se dedicassem à criação de galinhas em vez de perderem tempo a cacarejar desesperos e desassossegos de pacotilha. «O poeta é um ser condenado»? Sim, mas não menos que um ladrilhador ou a dona Ilda das limpezas.

   Tão distintas são as razões que levam alguém a pôr termo à vida que considerar o suicídio «o manifesto de coerência do poeta» só pode significar uma de duas coisas: ou nada se percebe da vida ou nada se entende de poesia. Terá Thomas Chatterton pretendido matar-se, aos 17 anos, para manifestar uma putativa coerência que o Nobel Yasunari Kawabata só vislumbrou aos 72? O que haverá de comum entre o suicídio de Antonin Artaud e a desesperança de Antero de Quental? Acerca do tema, de resto, escreveu o primeiro:  «A matar-me não será no intuito de destruir-me, mas sim para me reconstituir, o suicídio será para mim unicamente um meio de me reconquistar pela violência, de fazer uma irrupção à bruta no meu ser, de ganhar a pouco segura vantagem de Deus». A fé dos homens tem contornos inimagináveis.

   Minhas filhas, a nós, que estamos vivos, não resta senão respeitar a decisão de quem quer morrer, aceitando que por detrás da mesma pouco ou nada nos é dado compreender. Ridículo seria reduzir a «manifesto de coerência» a depressão, a doença mental, a raiva, a fúria, o desespero, o desejo, a fuga ao sofrimento, o acidente, a honra, a vergonha, o amor, a frustração, que de tantas e de tão variadas formas podem impelir alguém ao precipício da morte. Há quem se mate por paixão, há quem se mate por vazio. Yves Le Bonniec e Claude Guillon encararam o suicídio como uma arma para denunciar misérias, enquanto Marx interpretou-o como resultado de uma opressão social assassina. Durkheim estudou-o do ponto de vista sociológico, Hume abordou-o a partir do prisma da culpabilidade moral, Camus dedicou-lhe algumas das suas melhores páginas, mas poucos como René Crevel terão sabido expressá-lo no que tem de essencial e individualmente humano. Por humano entendo frágil. Talvez André Gorz, com o seu exemplo, tenha conseguido expressá-lo de modo igualmente esclarecedor.

   É deste último que pretendo falar-vos. Sabeis da admiração que tenho pela sua carta derradeira, dirigida ao amor da sua vida, a actriz Doreen Keir. Casaram em 1949, tiveram uma vida rica e feliz: «Há cinquenta e oito anos que vivemos juntos e amo-te mais do que nunca». Consolidaram o amor discutindo o mundo, cúmplices numa guerra contra os males que o ameaçam. As viagens e as percepções divergentes estimularam-lhes um pensamento que só resulta inteiro quando não está só, quando evolui do confronto de ideias e recusa o autismo castrador da opinião sem contraditório. A tristeza bateu à porta pela visita da doença. Aracnoidite, cancro do endométrio. «Cada um escutava a respiração do outro», até terem ambos deixado de respirar em conjunto num dia de Setembro de 2007. Foram encontrados dois dias depois, deitados um ao lado do outro, com as palavras de André ressumando razões: «Não me posso imaginar a continuar a escrever se tu já não estiveres». É mais comum do que se julga, esta impossibilidade gerada pela ausência.

  Crevel era uma criança quando viu o pai pendurado pelo pescoço, razão pela qual fez do suicídio uma obsessão «como a melhor e a pior garantia contra o suicídio». Palavras do próprio. Gorz encarou-o como uma espécie de eutanásia, partindo com a sua companheira por não aguentar mais viver no sofrimento da perda acelerada pela doença. Semelhantes são os casos de Arthur Koestler e Heinrich von Kleist. Gilles Deleuze decidiu tratar do cancro nos pulmões pondo fim à vida, Camilo estava cego. Emilio Salgari não aguentou a loucura da mulher e a miséria em que vivia. O suicídio entre os mais jovens é muitas vezes acompanhado de diagnósticos de depressão, esquizofrenia, transtornos vários, existências excessivas, autodestrutivas, consumo de drogas, descompensações. Até que ponto temos mão nas doenças que nos assaltam? O ambiente social, a pressão, fazem estragos, estejamos a falar de artistas ou de taberneiros. Conheci dois que se enforcaram, nenhum deles escrevia poemas.

   Isto para dizer que se «o poeta que se mata cumpre-se», resta saber se o poeta que fica por se matar não se cumpre. Fernando Pessoa cumpriu-se? Herberto Helder cumpriu-se? E o que será isso de um poeta se cumprir? Uma vida cumpre-se entre a concepção e a morte, o poeta não se cumpre senão nos poemas que o fazem cumprir-se. O suicídio é um poema? Todos os suicidas são poetas? Estará o poeta português valter hugo mãe, que recentemente assinou o prefácio de um livro da actual coqueluche do entretenimento televisivo nacional, ciente da incoerência em que incorre mantendo-se vivo? Diz ele que «escrevem-se poemas para protelar», propósito, cremos, do qual não resultarão senão maus poemas. Ao contrário, na senda de Ruy Belo, creio eu que um artista deve criar como vive, amando, destruindo-se naquilo que cria, como por fusão nos destruímos naquilo que amamos. A violência vem da ordem que se altera, não do fim que se impõe.

   Minhas filhas, o poema não recusa a vida como a morte o faz, o poema aceita a vida tal como ela é: contraditória, paradoxal, absurda, bela e horrível na mesma proporção. Talvez a falácia surja dessa tendência para substituir deus pela poesia, ou para fazer da poesia um avatar do sagrado, como se tudo não se passasse num corpo, o nosso, que é o princípio e o fim de tudo quanto nos acontece. Não julgueis, minhas queridas, que por dar termo a esse corpo alguém manifesta ou deixa de manifestar poesia. Poético é o acaso de sermos minúsculos grãos de poeira neste vastíssimo universo que, por medo ou necessidade, procuramos reduzir ao significado que atribuímos a nós mesmos e não temos, assim disfarçando a terrível evidência de que tudo não passa de um equívoco. Um mal-entendido, esta importância que nos damos.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #29


Não sei, minhas filhas, o que viver bem possa ser. Suponho que para morrer bem devíamos todos morrer a dormir. Mas viver bem, como pode alguém saber qual a melhor forma de viver? Não se vive senão vivendo-se, e a vida cumpre-se diariamente com seus humores, suas comédias e suas tragédias, seus dissabores e suas aventuras. Por vezes, num só dia, numa só ida, são tantas as emoções vividas, e tantas e tão acentuadas as curvas no electrocardiograma, que 24 horas nos parecem a vida inteira. E talvez a vida não seja senão esse intervalo entre o sol surgir a oriente e desaparecer a ocidente, com o céu ora limpo, ora atravessado de nuvens finas, ora estrelado, ora ocultado por um véu de névoa. Passa num instante, que por vezes olhamos para nós e é como se estivéssemos a ver estrelas mortas luzindo num céu escuro como breu. Bem sei, minhas queridas, que não gostais de falar da morte. Como não aceitar tamanha repulsa, tanta a vida que tendes pela frente? Mas talvez por isso mesmo convenha falar-vos do mais angustiante dos temas. Muita gente passa a vida a fugir da morte e é como se já estivesse morta, há pessoas que optam por fugir da vida e é como se nunca tivessem estado vivas. De um modo ou de outro, talvez seja justo reconhecermos que a vida é em todos uma fuga. Uns fogem dos medos que os perseguem, outros fogem do tédio que os aprisiona, há quem fuja de uma infância traumatizante e quem se veja obrigado a fugir de um presente ameaçador. Talvez seja esta a essência de viver, uma fuga constante de algo que nos persegue e ameaça. Se assim for, não será tão triste que desperdicemos a vida fugindo do que mais temos por certo? E que mais certo haverá na vida do que a morte? Daí que me pareça apaziguador, embora a princípio reconheça que talvez vos possa parecer tormentoso, abraçar o absurdo da vida aceitando a inevitabilidade da morte. São terríveis as coisas que se fazem em nome da perpetuação de um nome, são terríveis e criminosas as coisas que se fazem em nome de um elixir da eternidade que mais não é do que a memória afagando o esquecimento. Tomai pois de exemplo este homem de nome Gesuniala que, certa manhã, resolveu deixar de fugir, optando por simplesmente sentar-se à espera da morte. E que viu ele enquanto esperava? Viu a vida inteira passar-lhe à frente como quem assiste a um filme e vê correr, fotograma a fotograma, todas as tragédias e conquistas da humanidade. Esperar, em vez de fugir, também é um modo de viver. Tem as suas consequências, é certo, tem o seu preço, pois ninguém compreende aquele que espera. Como pode aquele que foge compreender quem espera? Neste livro que agora vos entrego, “A Morte Lenta” não é lenta por ser dolorosa como amargurada é a doença. A lentidão é a indiferença com que a morte brinda quem dela aprendeu a não fugir. Talvez o velho Gesuniala que o escritor Saguenail (n. 1955) imaginou prefira esperar pela morte a arrastar-se na inutilidade de uma vida de trabalhos e de afazeres, uma vida desperdiçada com deveres e obrigações cujo fim último será distrair-nos de que há um termo para tudo. Talvez naquele esperar descanse a liberdade que escapa tanto ao escravo inquieto como ao senhor desassossegado, já que pela espera se supera a dialéctica que opõe quem manda e quem é mandado. Eis uma opção de vida que não merece censura: «Mas uma dúvida profunda atormenta Gesuniala. Eu que pensava não ter mais nada a ver nesta vida, dou comigo a apreciar este atraso da morte, este adiamento que ela me concede. Viver, será, no fundo, tão-só esperar?» Gesuniala é o homem que transcende o colectivo, que está para lá de um projecto social, é em si mesmo a negação desses projectos colectivos que se alimentam das fugas individuais. Num mundo em que todos esperássemos, minhas filhas, acabava-se a produção e, acabando-se esta, desapareceria a avidez, pelo que muitas vezes ides ouvir ao longo da vida gente horrível que vos dirá não gostar de esperar ou de ficar à espera. Quem espera, desespera. Mas se desespera, não é tanto porque espera mas porque anseia fugir. Gesuniala é uma espécie de monge abnegado que não se fundamenta na renúncia nem na indiferença, mas apenas e tão-somente na entrega a uma espera que só o nada pretende alcançar:

Gesuniala espera. O desespero de sobreviver não lhe permite adormecer. Depois de dar voltas e mais voltas sobre o seu tapete, desiste de dormir. Levanta os olhos e contempla as estrelas. É uma noite sem lua e elas brilham ainda mais, incrivelmente próximas, varando os olhos. Gesuniala estende a mão; bastariam umas polegadas para ele conseguir agarrá-las. Que paz! Que indiferença! As estrelas não se preocupam nada com as nossas guerras. Observam a terra e provavelmente só vêem um grão de poeira, um berlinde liso, uma ágata iriada lançada no espaço. Como poderiam elas conceber a nossa existência? E ainda menos as nossas triviais e mesquinhas preocupações. Cintilam mas evitam iluminar as nossas devastações. Debaixo de um céu assim, parece que estamos na estação dos amores, no tempo das cerejas e dos desejos. Nesse instante do seu devaneio, Gesuniala vê uma estrela cadente riscar a noite. Infelizmente já não tenho nenhum desejo a formular. As cerejeiras arderam e já não há apaixonados para te dirigirem pedidos. E no entanto Genusiala sente o coração a jubilar sem motivo. Espera pela próxima estrela cadente, excitado como uma criança. Fita tão intensamente o céu estrelado que sente os astros a incrustarem-se nas suas retinas. Quando o horizonte começa a clarear, Gesuniala vê sem tristeza as estrelas apagarem-se. Colheu nelas luz suficiente e quando pousa na planície desolada, o seu olhar espalha paz.

Saguenail, in A Morte Lenta, traduzido por Regina Guimarães, com ilustrações de João Alves, Douda Correria, Dezembro de 2018, s/p.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #28


Minhas filhas, calhou-nos nascer num país em que a maioria das pessoas acredita que o universo foi criado em seis dias. Ao sétimo, o Criador descansou. Depois modelou o homem à sua imagem e semelhança, da costela do homem fez a mulher, da mulher fez o pecado e do pecado surgiu o arrependimento. E do arrependimento fez as maldições e os castigos. Minhas filhas, este Deus em que a maioria das pessoas no nosso país acredita tem, como qualquer Deus, as suas particularidades. Ele manda o homem obedecer. Em havendo quem prevarique, ele ordena aos homens obedientes que apliquem sua lei com vergastadas, apedrejamentos, sacrifícios, guerras, condenações à morte, destruição, castrações, mutilações, multas, enforcamentos… Deus exige, Deus revolta-se, Deus é grande e faz-se notar pelo medo: «Não tenhas pena do culpado. Deve-se exigir vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé».
   Minhas filhas, muitas pessoas no país onde por fortuna calhou nascermos crêem que há coisa de dois mil anos esse Deus teve um filho. Foi gerado no ventre de uma mulher virgem. Para que fenómeno tão extraordinário não vos confunda, socorro-me do exemplo de um tal Denis Diderot (1713-1784): «Uma mulher jovem, que se deitava de ordinário com o seu marido, recebeu um dia a visita de um jovem acompanhado por um pombo. Após essa visita, a mulher ficou cheia: e as pessoas perguntavam quem fora, do marido, do jovem ou da ave, que lhe fizera o filho. Um sacerdote que ali estava disse: «Está provado que foi a ave».» E o que está provado, provado está. Para mulheres adúlteras, o tal Deus prevê apedrejamento até à morte. Mas para mulheres engravidadas por pombos ele não previu nada.
   Podeis interrogar-vos sobre o porquê de um Deus perfeito ter pretendido um filho, ao que deverei responder com toda a honestidade: não faço a mínima ideia. Sei que depois do filho ter rezado ao pai, isto é, depois de Deus ter rezado a si mesmo, tornou-se altamente popular entre aqueles que, lavando as mãos da crucificação, agora o representam na Terra sob a figura de um Papa eleito por homens, paridos por mulheres, concebidos em pecado. Confusas? Não desespereis, o enredo vai a meio. 
   De Jesus, o nazareno, diz-se que veio à Terra para nos fazer olhar para o Céu. Com o sacrifício de seu próprio filho, Deus quis dar aos homens um exemplo de fé. Em quê? perguntais-me. Ora, fé num Deus todo-poderoso, omnipresente, omnisciente, a quem nem sequer falta um defeito para que seja perfeito. O defeito é, pois claro, o produto da sua criação. Deus tem fé em si mesmo e espero que lhe sigamos o exemplo. Citemos novamente Diderot: «Todos os povos têm desses factos, aos quais, de maravilhosos que são só falta serem verdadeiros; com os quais se demonstra tudo, mas sem que sejam eles mesmos provados; que não ousa negar quem não seja ímpio, nem pode crer quem não seja imbecil».
   Não satisfeito com o sacrifício do próprio filho, Deus ressuscitou-o. Não satisfeito em ressuscitá-lo, Deus concedeu-lhe o poder de se fazer mostrar em aparições. A ele e à mãe dele. Só Deus não se mostra. Este é, para mim, o maior dos seus milagres. Mais do que curar cegos e coxos, mais do que reanimar mortos, o grande milagre do Senhor é a sua eterna invisibilidade. Ele está lá, mas a gente não o vê. Está na terra manchada de sangue por guerras e crimes hediondos, está nos terramotos e nos marmotos, está na poluição dos céus e dos lençóis freáticos e nos plásticos ingeridos por sagradas criaturas, está nos germes, nas bactérias, nos vermes e nos vírus, está nas pandemias, a gente é que não o vê. Pois o seu milagre é não se mostrar. Deus está em tudo e como é lógico de tudo que está em tudo não estar em nada, Deus não está. Aguardemos por uma vacina.
   Podemos assim admitir, como o fez Diderot, que «Quando Deus, de quem recebemos a razão, exige o seu sacrifício, torna-se um manobrador habilidoso que escamoteia aquilo que deu»; ou que «Se há cem mil condenados por um que se salva, o diabo está sempre em vantagem, sem ter abandonado o seu filho à morte». Mas isto são verdades da lógica, a qual não contempla a Deus. A lógica de Deus é diferente da lógica dos homens e ainda está para aparecer um Aristóteles que a decifre e disponha numa espécie de “Sagrado Organon”. 
   De sagrado resta-nos a “Bíblia”, esse livro onde podeis melhor compreender um legislador tão perfeito, tão perfeito, que é próprio da sua perfeição abolir-se a si mesmo mandando amar por temor ao ódio. Não vos maçarei com as parábolas do Apocalipse, toda uma lógica divina cujos enigmas estão por desvendar. Haja homem para tanto. Mas gostaria de vos sugerir os “Pensamentos Filosóficos” (Edições 70, tradução de Miguel Serras Pereira) de Diderot como pórtico para uma reflexão que terá de ser vossa. Diderot fê-la anonimamente em 1746, temendo as fogueiras dos zeladores do tal Deus sem perdão para quem questione e duvide.  Começou por ser deísta, crítico e racional como fiel discípulo de Descartes. Acabou ateu, sepultado no Panteão de Paris ao lado de outros tementes a Deus.

quinta-feira, 12 de março de 2020

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #27


Viagens suspensas, salas vazias, aeroportos às moscas, escolas encerradas, espectáculos cancelados… O mundo parece ter parado, ficando a pairar na atmosfera um aroma apocalíptico que já nada tem que ver com o cheiro a napalm pela manhã. Convenhamos que em trânsito isto tem tudo mais piada, mesmo quando não tem piada alguma. Pedem-nos que fiquemos em casa, que evitemos ajuntamentos, que saiamos apenas para o essencial. Nem toda a gente estará em condições de cumprir, mas que todos metam na cabeça o dever de cumprir talvez ajude a mitigar a disseminação da ameaça. Um vírus, vejam bem, um ente microscópico, instalou-se entre nós para nos lembrar quão frágeis somos e quão ténue é a fronteira que separa a loucura da normalidade. No púlpito da sua sapiência há quem desvalorize, há quem menospreze, há quem negligencie. Os números não mentem: 4900 mortos, 136.000 infectados. Números claramente desactualizados, tal é a velocidade a que o bicho se movimenta, e provavelmente desinflacionados, tal é o secretismo erguido nalgumas nações em torno do problema. Fotografias aéreas dão conta de valas no Irão que nos fazem pressupor uma tragédia maior do que a publicada e conhecida. Por esta altura, minhas filhas, tereis ouvido falar de “A Peste”, de Albert Camus, e do Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, por ter a curiosidade virulenta dos leitores incrementado as vendas de tais obras. Language is a virus, cantava a Laurie Anderson citando William S. Burroughs. Tal é a curiosidade mórbida das pessoas a quem não basta uma realidade com sabor a ficção. Daí que, por estes dias, seja de outras histórias e de outro autor que eu mais me tenho lembrado. Franz Kafka  (1883-1924) precisou de meros 40 anos de vida para nos deixar uma obra eterna, maior do que à época da sua morte era possível julgar tão à frente do seu tempo se colocou, como é atributo dos génios. Vítima de tuberculose, Kafka é, também por esse dado biográfico fortuito, o autor onde melhor encontramos pressentidas e conjecturadas todas as pestes humanas, não só as de tipo exógeno, que involuntariamente nos ameaçam sem que consigamos entender porquê, mas também as pestes endógenas, geradas no imo da mente humana e propagadas com um poder de contaminação altamente autodestrutivo. Entre estas, podíamos mencionar, desde logo, a burocracia, embora nos convenha mais falar agora de outra: o medo. Não há mal algum, minhas filhas, em ter medo. Ele tem uma função defensiva que apela a coisas úteis tais como a reflexão, a ponderação e o cuidado. Mas como tantas outras coisas no ser humano, o excesso despeja de qualidades o medo, o excesso retira-lhe as virtudes transformando-o numa ameaçadora pandemia. Pelo medo se governam nações e manipulam povos, pelo medo se impõem comportamentos e usurpam liberdades, pelo medo se molda a realidade de acordo com as conveniências de quem domine o medo como a uma arma fatal. Num conto intitulado “O Covil”, Kafka mostra-nos a outra face perniciosa do medo. Quando o medo evolui para o pânico, pouco faltará para que se transforme em paranóia. E nesta nada vislumbramos de benéfico ou útil à humanidade. Nesse conto, uma criatura indefinida como somos, de certo modo, todos nós, imerge na terra escavando o seu covil , entregando-se obsessivamente a cálculos e prolepses cujo efeito é exactamente o contrário daquele que inicialmente pretendia. A tranquilidade do covil torna-se inquietação, toldada por sobressaltos de medo onde o desejo de um sono descansado degenera em insónia permanente. As preocupações desmesuradas, o alarme, o desassossego, fazem do covil o princípio de uma misantropia que escancara portas à loucura. Diz-nos Kafka: «Eis o que revela um espírito inquieto: insegurança na apreciação própria, ambições pouco limpas, traços negros de carácter, que ainda mais se ensombram se pensarmos que o covil ali está e que nos pode dar paz, desde que consintamos em abrir-nos totalmente a ele». Sucede que nenhuma paranóia leva à paz, ela apenas nos afunda no leito convalescente de uma guerra onde seremos a primeira e a última das vítimas. Em momentos como aquele que estamos a viver, apetece dar razão à tese de Aristóteles segundo a qual é no meio que se encontra a virtude. Se a negligência dos grunhos, burgessos e trogloditas, alguns deles com altas patentes, é absolutamente imprudente e desaconselhável, também a paranóia colectiva o é. Sem que desprezemos o ruído, convém não nos deixarmos apanhar na sua rede. A angústia é tão natural nas nossas vidas como o ar de que precisamos para sobreviver, mas poluída pelo pânico torna-se irrespirável, sufocante, asfixiante. Começar por controlar o medo, por aprender a retirar partido dele, parece-me ser, neste momento, a atitude mais sensata. Como se faz? Ora, minhas queridas, lavando as mãos, mantendo distância, evitando multidões, saindo de casa só para o essencial. 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #26



   Agora que o fim de mais um ano se aproxima, e os balanços se intrometem inevitáveis como inevitável é o termo de tudo quanto começa, sugiro-vos que não alimenteis ilusões quanto a isto de ir vivendo trazer no âmago pingo de seriedade. Se a vida é uma passagem, pois que se cumpra usufruindo dos prazeres que, por acidente ou por acaso, se atravessam no caminho. Rir é, sem dúvida, o melhor remédio para quem logo à nascença se vê obrigado a chorar. Podeis pegar nos “Contos de São Petersburgo”, vindos a lume na primeira metade do século XIX, para vos certificardes de que em matéria de alma humana pouco muda com o passar dos anos. Transforma-se a paisagem, baralha-se a hierarquia de valores, inventam-se vacinas, mas a besta que há em nós perdura inalterável. Nikolai Gógol, o russo ucraniano que dizem ter sido atacado por depressões e crises místicas, pode não ter dado a volta à agonia e ao sofrimento que o atormentaram, mas nos contos que outorgou aos leitores tudo quanto parece real surge fantástico, não sendo por isso de menosprezar a hipótese de tudo quanto neles surge fantástico ter sido deveras real. Pretendeis, minhas filhas, melhor retrato do ano que passou do que este? 
   Eis-nos em 2019, a passear na Avenida Névski, rodeados de gente decente, ao encontro de uma «beleza atingida pelo bafo putrefaciente da devassidão». Logo em Janeiro, a televisão nacional ofereceu-nos para entretenimento, como quem oferece um Natal dos Hospitais, o líder dos neonazis portugueses em pose de respeitável pai de família. Haverá exemplo mais frustrante de realismo invertido do que esta tendência para desmemoriar as massas pintando com cores aprazíveis o que é repugnante? Não será este o modelo exemplar de como mais do que a paz, mais do que o amor, o verdadeiro e único valor que impera neste mundo é a audiência, aqui medida e pesada ao preço de um ouro que sairá tão oneroso quanto aos escravos ficou aquele que em tempos trouxemos do Brasil?
   Começámos a manhã de 2019 com um criminoso aberrante de cara lavada, prenúncio do que, ao longo do ano, acabou por se transformar em regra para que definitivamente aprendamos a conviver com o ópio das multidões: não importam os meios se os fins forem rentáveis. Perante os factos, a transferência da rainha das audiências de um canal para o outro não pode ser interpretado como mero fait divers. O empolamento da situação podia ser apenas adorno na feira de vaidades, mas antes se transforma no símbolo mais doce de uma estupidez que já ninguém escandaliza. Resultado: que importa se o ídolo da nação fugiu ao fisco ou violou uma mulher? É o ídolo da nação, logo intocável. Ao contrário, habitantes do Bairro da Jamaica, ou quem os defenda, devem ser apontados como escândalo nacional, pois tudo quanto fizemos para integrá-los falhou. Integrá-los em quê? «Oh, não confiem nesta Avenida Névski! Eu, quando deambulo por ela, agasalho-me sempre o melhor possível na minha capa e tento não olhar para os objectos que encontro. É tudo engano, é tudo sonho, nada é o que parece!» 
   Minhas filhas, se ouvires dizer na tal Avenida que o nosso país tem um problema com as minorias, não vos esqueceis de quão minoritária é, pois, a minoria do bom senso. Em matéria de trafulhas, cromos para troca nunca faltam. Evitai, no entanto, fazer como Tchartkov, pois nem tudo é uma porcaria neste mundo. Em aprendendo a rir da porcaria, até se torna sustentável frequentá-lo. Com as devidas distâncias. Podemos olhar com graça tanto para um recluso que enfia 7 telemóveis no cu como para um magnata que se recusa a cumprir ordem para demolir WC com vista para o Palácio das Necessidades. Julgais fruto da minha imaginação tais notícias? Pois aí tendes 2019, o ano em que tudo quanto era inimaginável se tornou simplesmente vulgar. Os ficcionistas que se ponham a pau. Se quiserem surpreender, no futuro, terão de ser o mais sóbrios possível. Quem conseguirá aguentar estardalhaço sobre estardalhaço? Como nos contos de Gogól, o que no entretanto haverá de sonho ou realidade será tão destrinçável quanto o negro o é do preto. Perguntai às vítimas de violência doméstica que ao longo do ano contribuíram para as estatísticas de um país que surge entre os mais pacíficos do mundo. Se obtiveres resposta, dizei-me qual foi. 
   Escutar a um deputado da nação que “fake news” e populismo são tretas de Bruxelas  soa-nos aos ouvidos, deste modo, como recado acerca de uma “tísica galopante” que ameaça transformar-nos em “pequenos agiotas”, de juízes com listas negras a estrelas de canais televisivos. Das cheias em Moçambique ao ódio a uma jovem activista, da Amazónia em chamas à intimidação de humoristas, vai apenas  um twitt no “diário de um louco” capaz de celebrar o “crepúsculo do socialismo” ajoelhado aos pés de um bispo evangélico. Empreendedorismo é isto mesmo, minhas filhas, é manipular o poder com os tentáculos da religião, locomovendo tudo quanto possa servir à engorda dos cofres com que se operam milagres e se inventam "messias & mártires". Este mundo globalizado, escancarado às multinacionais, mas encerrado às pessoas, com muros erguidos um pouco por todo o lado (não é metáfora), é o mundo de loucos que vos espera. 
   Se os atentados continuarem pelo Sri Lanka, dai-vos por satisfeitas. Não se chega lá de caleche, meio de transporte utilizado por certa comunicação social para quem as auto-estradas da informação ainda estão cheias de portagens. Mais do que mostrar quanto há, mostra-se quanto convém. Daí que não importe mostrar o Chile, se convir mostrar a Venezuela, e assim sucessivamente. Depois, andaremos entretidos com cartoons proibidos, declarações de amor à China, elevados índices de abstenção, deputadas gagas, deputados patológicos, manifestações de polícias, injecções de capital, dívidas fantasma, operações stop, mercado de transferências milionárias, assessores de saias, peixes inteligentes, conseguindo vislumbrar maneira de chamar cultura superior a esta que continua tão entretida com o seu bem-estar encavalitado na desgraça alheia. Enfim, não deixa de ser verdade, como sabeis, que para se ser superior tem de alguém oferecer os ombros. Os inferiores. Ou, em versão actualizada: os outros que explorem o lítio, a gente depois dá-lhes o uso devido. 
   Inesperadamente, um final fantástico: «Na polícia foi emitida a ordem de apanhar o morto, custasse o que custasse, vivo ou morto, e de lhe ser aplicado impiedosamente o devido castigo, para edificação dos outros, e a empresa quase teve êxito». O morto somos nós, minhas filhas, nós que aceitamos o revisionismo histórico e a expurgação da memória como quem abraça alegremente o reino da estupidez, conformados por entre a loucura e a normalidade ter deixado de haver fronteiras, por entre a ficção e a realidade se terem esbatido muralhas, pois essas, agora, erguem-se apenas e cada vez mais na Terra para que possam ser garantidos aos ricos os condomínios fechados onde os pobres apenas entrarão para varrer ruas, lavar latrinas, colher lixo. 

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #25



   Mesmo que não quisésseis saber, por esta altura é inevitável que pelo menos já vos seja familiar o nome da deputada Joacine Katar Moreira. Não é por simpatia ideológica que a ela me refiro, mas como ficar indiferente à forma como introduziu o amor no discurso político? «Não se pode falar de salário mínimo nacional sem amor», disse em pleno parlamento, para espanto de uns, indiferença de outros e gozo de tantos. Quase ao mesmo tempo que o dizia, assistíamos nós, minhas filhas, a uma peça acerca da incompatibilidade entre política e amor. Tereis reparado na coincidência?
  Em “Reinar Depois de Morrer”, de Luis Vélez de Guevara (1579-1644), impõe-se aquilo a que chamam razão de estado. E o que poderá ser isso senão disparar sobre os olhos de quem se manifesta, calar o estupro e a execução de uma mimo, lançar gás lacrimogénio sobre os mortos? É o tempo em que vivemos, este tempo insuportável de desamor e crueldade, este tempo de razão de estado desprovido de amor. 
   Sobre o Príncipe Pedro e Inês de Castro podemos, em resumo, supor que o rei fez como Pilatos. Camões o sublinhou no terceiro canto da epopeia nacional, atribuindo ao povo o gesto inclemente da condenação de um amor que não convinha ao destino pátrio. Retomando imagens e conceitos, pelo menos Bocage foi capaz de apontar os “pomposos cortesãos” e o “monstro da política”. Nem sempre os poetas resistem às circunstâncias, preferindo a maioria evitar as ruas para com elas não assumir o compromisso de um amor transbordante, mais largo e comprido do que a cama onde o sonho os distrai da realidade.
   Vede como Torga comparou nossos amantes a personagens literárias, transformando Pedro num Romeu de Portugal e Inês numa Julieta castelhana. E se Natália não fugiu à visceralidade dos factos, sublinhando a ira do príncipe e referindo-se ao “ritual macabro da coroação”, verdade é também que tanto no tom como na forma manteve o caso em estâncias mitológicas. Do poder político, queridas filhas, podeis esperar pouco mais do que cobrança de impostos, sendo por isso mesmo tanto mais urgente que vos empenheis em exigir-lhe serviços. 
   Se Herberto preferiu olhar para o caso pela perspectiva do algoz, não foi por haver inocência na sua intenção. Muitos anos passados sobre as naves de Alcobaça, outros algozes defenderam-se dos crimes perpetrados sublinhando sua condição de funcionários. Ficai sabendo que, em matéria de razão de Estado, para o mal todos os funcionários são poucos, enquanto para o bem quase sempre escasseiam recursos. Imaginai, pois, esse ideal de feminilidade como o imaginou Ruy Belo, ou considerai a hipótese remota de uma paixão assolapada nestes tempos em que impossível parece ser o amor tout court. Procurai seguir-lhe o rastro, tal como o sugere nosso amigo Nuno Dempster, nas ruas de uma actualidade onde tudo parece desprovido de paixão. Talvez assim vos seja possível chegar onde o amor foi inventado. 
   Nisto vos ofereço, então, “A Invenção do Amor e Outros Poemas”, de Daniel Filipe (1925-1964), poeta nascido num arquipélago para onde foram enviados tantos amantes depois de haverem sido perseguidos e torturados. Esse Estado que persegue quem ama, como um algoz ao serviço do poder, ressurgido e reinventado no poema com o fundo demencial desta tirania desde há muito instalada na cabeça dos homens, é a esse Estado que nos devemos opor, pois nenhuma incompatibilidade pode haver entre amar e querer o bem do outro. Esvaziada de amor, que será a política senão mero jogo de poder? Sangrada de paixão, que será a política senão intriga egoísta contra a dança e a alegria de estarmos vivos? 
   Que o “grito de esperança inconsequente” de que fala o poema possa ter consequências nos vossos corações, para que o mito seja real pelo menos no modo que vieres a adoptar quando vossos olhos se cruzarem com quem vos olha. Tem razão a deputada, sim, ainda que a razão de Estado pretenda demonstrar o contrário, ao mesmo tempo que cospe na mão de quem pede esmola e se apropria da caixa onde o pedinte amealha donativos. Não, minhas filhas, não permitis que vos façam confundir amor com misericórdia. O amor é solidário, sem solidariedade a política apodrece, o amor é o remédio que protege a política da absoluta podridão.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #24


Se estenderdes todos os livros ao sol, e deixardes a neve, a chuva e os insectos agirem sobre eles durante certo tempo, nada deles há-de ficar.

Salvo raríssimas excepções, começamos por vê-los no papel de criminosos. Só mais tarde nos aperceberemos dos crimes contra eles cometidos. O índio persegue, rapta, viola, assassina, é o monstro atroz por detrás de todas as fobias, colecciona escalpes, envenena, intoxica, tem poderes mágicos, negros, diabólicos. Na escola estranhamos a origem etimológica do termo, equívoco de navegadores tomados por heróis, símbolos arcaicos de uma cultura erguida através da exploração, da escravatura, da dizimação do outro em busca de ouro. Passamos a desconfiar dos filmes, realizados quase invariavelmente a partir de uma perspectiva missionária. O índio era o selvagem, não tinha cultura, precisava de ser aculturado. Que representação faríamos do índio se tivesse sido ele a inventar o cinema? A resistência do índio à aculturação leva-nos então a questionar a história que nos foi contada. Outrora predadores, passamos a vê-los no lugar da presa. Corremos o risco da simplificação se julgarmos pura aquela condição desnudada. Onde há homens, minhas filhas, não há pureza alguma, pois ao homem foi concedido, antes de qualquer outro, o dom de conspurcar. E o índio é, antes de mais, homem.
   Chamamos inteligência à capacidade adquirida de vergar o outro à nossa fome, partimos à conquista, transcendemos as barreiras do medo, injectamos ódio no sangue e fixamo-nos entre muralhas. Onde há homem, haverá sempre este impulso de morte. Mas nem todas as pirâmides são de cinza e de pedra, há delas que se erigem no ar, sustentadas pela respiração do olhar contemplativo, pelo respeito às forças naturais. Há delas que não carecem de civilização, e por isso mesmo se mantêm mais próximas da origem sagrada que a vida inspira. “A Fala do Índio” canta-nos essa origem, recuperando e conservando vozes que ao longo dos anos vão ecoando no vento. A verdade é que fomos nós que os exterminámos e não o contrário, talvez por desde muito cedo termos pressentido que não convinha nada ao chamado progresso aquela teimosa oposição à propriedade privada. Fomos nós quem aniquilou a cultura do índio e não o contrário, pois temos uma cultura muito dada à aniquilação de todas as outras que se lhe oponham. A premissa é genesíaca, ide e dominai o outro, o vosso sucesso será tanto maior quanto maior for o vosso poder de aniquilar. Assim foi ao longo dos séculos, devastando terras, extinguindo fauna e flora, meios de subsistência, impondo com tácticas maquiavélicas o crucifixo da servidão onde havia a Dança dos Espíritos. E se Deus não dança, minhas filhas, para quê o baile? 
   Sobre o índio pesam dois pesadíssimos fardos, o do fascínio exótico e o do medo. De onde vem este medo? Percebê-lo-eis se escutardes com atenção o chamamento. A fala do índio atrai-nos para o interior da floresta, aí tudo é novo e selvagem, tudo é genuíno e, por isso mesmo, temível. Nesse labirinto sentimo-nos como o insecto apanhado na teia, perdemos o (auto)domínio, somos obrigados a aceitar a nossa fragilidade, ficamos desprovidos de armas que nos defendam do acaso e do acidente. Os mistérios da floresta são desconfortáveis para quem saiba apenas caminhar com bússolas e mapas em estradas abertas. O índio diz que a rocha fala, que a pedra tem vida, que a floresta é um lar, o índio diz-se parte integrante da floresta, para ele deixa de haver um eu e um tu, somos nós, a unidade é o colectivo, o índio escuta, o branco tagarela, a lei do índio é a respiração do canto, para o índio a morte não existe, para o branco a morte garante servidão em vida na perspectiva de uma plenitude na morte, o paraíso do índio é na Terra, no espírito da Terra, o paraíso do branco é o desejo recalcado de mil virgens. 
   Temos tudo a aprender com esta fala se lhe abrirmos os ouvidos e escutarmos com atenção, em silêncio: «Acreditai que por mais miseráveis que a vossos olhos sejamos, nos vemos todavia como gente mais feliz do que vós, e isto por nos contentarmos com o pouco que temos… ficareis profundamente desiludidos se pensardes convencer-nos de que a vossa terra é melhor do que a nossa. Pois sendo França, conforme dizeis, um pequeno paraíso, será sensato abandoná-la?» Assim falava um chefe micmac no ano de 1676. Passados séculos, que temos hoje? Os nossos paraísos transformados em infernos insustentáveis, andamos a pôr pensos rápidos em chagas gangrenadas. Continuamos a devastar invadindo o outro para lhes impormos o nosso paraíso, a nossa rica vida, o nosso sufoco. Respirai, pois, o ar desta voz selvagem, na esperança de que podeis purificar um pouco vossos corações poluídos pelos estranhos costumes das culturas que se autoproclamam superiores, convencidas de si mesmas contra os factos que apenas comprovam corações tristes, mentes doentes, acções desesperadas. Coligiu Teri C. McLuhan, traduziu Júlio Henriques, publicou a Fenda em Julho de 2000.

sábado, 17 de agosto de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #23



   Agora que regressados desse lugar onde homem e mulher andam nus sem sentirem vergonha por isso, voltamos a tapar o corpo com angústia e sentido do dever, deixai-me contar-vos de vozes exiladas nas suas próprias gargantas. Se por acaso já vos chegou aos ouvidos o nome Afeganistão, por certo não terá sido pelas melhores razões. Só há 100 anos foi aquele território reconhecido como estado soberano. Os pachtuns são aí o maior grupo étnico, com ele se confundindo até à raiz de um nome: pachtum e afegão são sinónimos. 
   Uma das tradições mais antigas desta etnia, como de resto sabeis ainda hoje muito viva em toda a cultura árabe, é a literatura oral. Não é difícil encontrar num país árabe, até nas praças mais assediadas pelos turistas, grupos de gente a ouvir histórias contadas por anciões, composições mais ou menos improvisadas que, na poesia, adquirem a forma de canto. Ao contrário do texto moralizante, arreigado à religião, estas improvisações vocais destacam-se pela liberdade do discurso, exaltando o amor e a paixão, a música e o vinho, tudo quanto liga o homem à terra inquietando-o como inquietas ficam as plantas à passagem do vento. 
   A natureza surge assim celebrada, os sentimentos profundos e os anseios manifestam-se sem peias. Ao landay, forma poética breve como o haiku japonês, acrescenta-se ainda a característica muito rara de ser praticado por mulheres. Em “A Voz Secreta das Mulheres Afegãs” (Cavalo de Ferro, Fevereiro de 2005), recolha assinada por Sayd Bahodine Majrouh (1928-1988), poeta e filósofo afegão, procurou-se fixar para conhecimento universal alguma da magia produzida pelos landay. Imaginamos que ao texto algo escapará que o som das vozes sublimaria, mas devemos sentir-nos gratos por pelo menos assim podermos aceder a estes poemas que nos chegam «como um grito do coração, como um relâmpago, como uma chama». 
   Ficai sabendo dessas mulheres que cantando-se a si mesmas revelam sua precária condição, mulheres oprimidas por um sufoco que o canto liberta, por uma servidão que a poesia subleva, por uma humilhação que a palavra rebela. O suicídio e o canto, como sublinha Sayd Bahodine Majrouh na introdução a este livro que a poeta Ana Hatherly mudou para a nossa língua, são o testemunho de um protesto escondido da mulher pashtun. E então perceberemos com outra clareza a intensidade da voz clara:

Olhai do esposo a horrível tirania:
Bate-me e proíbe-me de chorar.

Para assim compreendermos que por detrás do poema esconde-se um poder inextinguível que pouco ou nada tem que ver com escola e técnica, mas tudo deve ao sentir da vida que descobre caminhos entre a treva para nos levar a um modo de ver que é modo de ser:

Adormece em meus olhos
A insónia das minhas noites reduziu-me a pó

Só então, minhas filhas, o amor deixará de ser a posse que escraviza para se soltar em dúvida social e desafogada paixão. A mulher submissa redescobre-se no desejo, recusa a condição de objecto e insurge-se contra o martírio.  E se nada disto é tão simples quanto o coração deseja, deixai-vos impressionar pela respiração do canto que lamenta «não ter vivido suficientemente, não ter provado a sua beleza, a sua juventude e as alegrias do amor»:

Vem e sê uma flor sobre o meu peito
Para que eu possa, cada manhã, refrescar-te com o meu riso

segunda-feira, 22 de julho de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #22


Ao longo da vida ides ouvir muitas vezes que só a tristeza interessa à arte, que apenas a dor e o sofrimento dão boa poesia, que a melancolia é a raiz da criação, que a tragédia aprofunda, inquieta, desassossega, enquanto a comédia apenas entretém. É tudo mentira. O riso abre as portas ao diabo, deixa-o entrar e oferece-lhe guarida. A gargalhada, o sarcasmo, a sátira, o cinismo, a ironia, são as articulações de um sistema nervoso poderosíssimo. Em havendo homens que se revoltam contra uma caricatura, não é por ser vazia de conteúdo a sua mensagem. Aprendei a admirar na arte a força de arruinar estereótipos apontando-lhes as fissuras, fazendo implodi-los desde a fraqueza retórica dos alicerces que os sustentam. Nada melhor que o riso para derribar preconceitos. E isso é arte, da mais nobre e elevada que podeis imaginar. Ao contrário da melancolia, a ironia desacomoda e esfrangalha o pano. Estendei-o sobre a mesa onde servireis a refeição do pensamento, aconselho-vos. É verdade que a generalidade das pessoas convive melhor com o comodismo da “tadinhice” do que com as faíscas do riso, e também é verdade que que nem sempre o riso se faz acompanhar dos dentes todos. Dispensemos-lhe a gratuitidade. Mas pela via do riso almejamos exemplos mais elevados e imagens mais profundas do que tantas vezes se pretende fazer crer, atribuindo apenas às emoções lacrimejantes o dom da reflexão. Também a tragédia resvala amiúde para o sentimentalismo gratuito. Num e noutro campos, o que sabeis excessivo é a gratuitidade. O que pretendo dizer-vos, minhas filhas, é que podeis crer no riso não só enquanto motivo de descontracção, mas também, e sobretudo, como sublimação deste gozo que é a vida. Atentai-vos: haverá ironia maior do que esta de nascermos para morrer? Se é esse o nosso destino, aprendamos desde cedo a rir-nos dele. Tristezas não só não pagam dívidas, como as aumentam até ao insustentável. Tendes aqui um bom exemplo dessa grandeza que a comédia nos proporciona. Com “As Aves” (Setembro de 2006), de Aristófanes, deu-se início à colecção Clássicos Gregos & Latinos das Edições 70. E que começo. Já conheceis o argumento: dois velhos agastados com a corrupção na cidade, procuram um lugar bom para viver. Convencem as aves da sua superioridade face aos deuses, fundando uma cidade entre o reinado dos homens e o dos deuses. Ao reino da passarada darão o nome de Nefelocucolândia. Serão muitos os que a visitarão, poucos ou nenhuns pelas melhores razões. E ainda que o final seja utópico, não podemos deixar de observar nesta aventura fantástica um pretexto de crítica social que levava tudo à frente sem apelo nem agravo: «E a todo aquele que cria aves fechadas em gaiolas, recomendamos que as solte. Se não obedecerem, são capturados pelas aves; e é a vossa vez de ficarem prisioneiros, em nosso poder, a servirem de isca». O grito podia ser de liberdade, não denunciasse os vícios que o poder arrasta para onde quer que se volte. Entre eles, o da subjugação do outro. Com “As Aves”, minhas filhas, ireis aprender com que linhas se cosem a ambição e o poder, exactamente as mesmas desde que entre os homens se formaram reinados e impérios. Assim era há 2500 anos. Se pretendeis atravessar o céu, mesmo sem qualquer intuito de colonização, sugiro-vos que apanheis o caminho térreo do riso. É a melhor forma de lá chegar, pois assim sendo estareis protegidas contra os manipuladores da desgraça. O riso consola a necessidade. É valor sem igual na Terra onde os pássaros encontram descanso para o voo.  

quarta-feira, 3 de julho de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #21


Como sabeis, tenho a pancada das listas. Faço listas de tudo, dos livros que mais gostei de ler, dos discos que mais gostei de ouvir, dos lugares que mais gostei de visitar, dos objectos decorativos que mais aprecio, dos filmes preferidos, dos concertos, das obras de arte, de compras, de angústias e desesperos, de paixões e embaraços. Geralmente imponho-me uma ordem. As listas oferecem-me certa organização ao pensamento, ajudam-me a enquadrar factos. É obsessão que não aconselho a ninguém, julgo que ocupa em mim o lugar que noutros é ocupado pelo coleccionismo. Nunca tive espírito de coleccionador, irrita-me procurar. Prefiro ser surpreendido pelo encontro inesperado. Colecciono listas, são a excepção.
Muitas das listas que faço seguem datas, outras obedecem ao alfabeto. Por alfabeto, quais os meus escritores preferidos? E então listo: Artaud, Beckett, Camus, Dostoiévski, etc.. Estas listas não são dicionários, nem se pretendem enciclopédicas. Quero-as flexíveis, efémeras. Podem ter aspectos distintos num mesmo dia, por certo não se aguentam mais do que horas. Altero-as de um dia para o outro, com pequeníssimas excepções. Por causa das listas sei dizer-vos qual a minha canção preferida: “Redondo Vocábulo”. E sei dizer-vos qual o meu filme preferido: “Nostalgia”, do Tarkovski. E até arrisco que o meu livro preferido é o “Livro do Desassossego”. Sei estas coisas porque sempre que penso nestas coisas são estes os nomes que surgem primeiro, são estas as palavras que se sobrepõem a todas as outras.
Alguns dos livros que publiquei foram organizados alfabeticamente, dispondo os textos pela ordem alfabética dos títulos. Não estou interessado na ordem cronológica dos textos, mas interesso-me por datas de nascimento. Isto para vos dizer, minhas filhas, que as listas dão jeito, são um admirável auxiliar da memória e facilitam a arrumação da História e dos conceitos e das ideias e das imagens. A cada uma dessas listas posso dar o nome de vade-mécum, como antigamente se dava a pequenas obras de consulta para orientação de espíritos inquietados pela doença da dúvida. Ao pensar nestas coisas lembrei-me que talvez gostásseis de conhecer o “Pequeno Vade-Mécum” (Antígona, Março de 2004) de Montaigne (n. 1533 – m. 1592), síntese do pensamento de um homem que preferia a acção. Ou talvez preferisse o pensamento em acção, conceito hoje estranho a mestres de secretária e seus embasbacados pupilos. Diz ele sobre o cu: «No trono mais alto do mundo, continuamos a estar sentados no nosso cu».
Nesta obra ides encontrar fragmentos colhidos nos seus inúmeros ensaios. Nele se elogia ter recusado transformar a opinião em poder, como hoje podeis constatar ser regra. Não é a isso que determina a opinião pública? Nele se elogia o desprezo pela violência e pela crueldade, males que nenhuma tecnologia soube tratar. Nele se elogia a defesa do prazer, ao contrário do discurso vigente que obriga a pedir perdão pelo riso e a exaltar todas as formas de sofrimento como vias na direcção do espírito. Contra o sacrifício, a palavra de Montaigne: «Quanto a mim, amo a vida e cultivo-a tal como Deus entendeu conceder-no-la. Não desejaria que ela ignorasse a necessidade de beber e de comer».
Os ensaios de Montaigne fazem o elogio da vida num tempo seu que, tal como no nosso, padecia de intolerâncias diversas e muros intransponíveis. Se ouvirdes dizer que está melhor, desconfiai. Podeis estar a falar com uma mente insensível. Se ouvirdes dizer que está pior, desconfiai também. Podeis estar a falar com uma mente apocalíptica. Em ambos os casos sugiro que vos acauteles contra profecias da desgraça e alegrias tontas, sendo o justo meio sugerido por Gramsci o mais recomendável: pessimismo da inteligência, optimismo da vontade. E a utopia no horizonte a guiar-nos com o gozo de estarmos vivos e capazes de dizer “não sei”: «Todos os abusos do mundo resultam do facto de nos ensinarem a ter medo de manifestarmos a nossa ignorância».

segunda-feira, 24 de junho de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #20


Quando ao chegar ontem a casa vos encontrei encantadas com o Dumbo de Tim Burton (n. 1958), lembrei-me que talvez estivesse na hora de vos falar do meu amigo ostra. Burton dispensa apresentações. Sabeis do assombro e da fantasia, ele irmana nos seus filmes a moral dos contos góticos e de horror com a estranha beleza de personagens tão insólitas quão inusitadamente emotivas. Tendo começado a trabalhar como animador nos estúdios da Walt Disney, detém ainda um extraordinário talento para o desenho. Se vos comovestes com O Estranho Mundo de Jack e A Noiva Cadáver, por certo ides encontrar no livro A Morte Melancólica do Rapaz Ostra & Outras Estórias motivos mais que aliciantes para uma leitura ao mesmo tempo divertida e pedagógica. Publicado pela Antígona, com tradução da Margarida Vale de Gato, este objecto singular foi originalmente editado em 1997. São estórias em verso, acompanhadas por ilustrações que certamente ides associar aos filmes do autor. Importa dizer que em nenhuma destas estórias a ilustração está presente como mero acompanhamento do texto, sendo frequentes os casos em que entre ambos se estabelece um diálogo complementar. Isso acontece mormente nos casos em que a estória é mínima, discorrendo ao ritmo de rimas que nunca decepcionam pela previsibilidade. Eis mais um exemplo em que criação poética e estória se confundem. Característica comum a todas os textos é o aberrante, o bizarro e a anormalidade enquanto matrizes literárias, aberrações que tanto podem dissimular como hiperbolizar as dimensões absurdas do afecto. Em muitas destas estórias é o amor que está em causa, o amor entoado pela desmesura da paixão, o amor a um filho ilegítimo ou anormal, o amor no seio familiar. Mas este amor acaba frequentemente minado pela inclusão de elementos extraordinários, como é o caso do pobre bebé ostra: com dez dedos nos pés e nas mãos e cabeça de ostra. Não vale a pena tecer considerações psicanalíticas sobre estas personagens, embora não seja displicente chamar atenção para o facto de todas elas nos enviarem para uma infância matizada pelo imaginário gótico da bruxaria. Temos os rapazes ostra, nódoa, robô, pesticida e torresmo, as raparigas vodu, lixo, com olhos fora de série e com muitos olhos, entre outros dignos representantes duma memória infantil fundada no espírito Halloween. Exemplo assaz curioso é, também pelo que tem de humorístico, o de Judite: «Para evitar uma queixa-crime, / chamemos-lhe apenas Judite / (ou “a rapariga que snifa cola / e que tem sinusite”). // Ora isso não a faz feliz: / é que quando se assoa / fica com o kleenex colado ao nariz». Devo porém alertar-vos, minhas filhas, para os perigos em que incorreis ao buscardes divertimento nestas bizarrias. Quem leve a vida demasiado a sério dificilmente encontrará aqui motivo de divertimento, obstáculo que, espero, não seja o vosso. Como sabeis, do riso motivado pela insensatez colhemos o ensinamento da verdade. Por mais que sejam os filtros com que tentamos disfarçar o hediondo, a deformação e o desfigurado, o bizarro e anómalo, por mais que sejam os filtros, repito, a verdade revelar-se-á tal qual é: inesperada e inconveniente como um corpo esventrado. Por debaixo da maquilhagem há sempre um esqueleto à espreita.

Cabeça de Melancia

Era uma vez um cabeça de melancia
que todo o dia se sentava absorto
desejando estar morto.

Mas com as coisas que desejamos
precisamos ter cautela.
O último som que ele ouviu
foi o de uma esborrachadela.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #19


Começar por onde? Por um país. Nascemos e dão-nos nome, ensinam-nos uma língua, metem-nos o país dentro da cabeça. E depois? Sugiro passeios, muitas partidas e regressos, sugiro viagens, sugiro que andeis, caminheis, divagueis, sugiro que singrais. Temos uma pátria para podermos dizer de onde viemos, mesmo que não sejamos de um único lugar. A nossa pátria devia ser sempre o mundo. Ter o mundo por pátria quer dizer: respeitamos todos os homens, adoramos a Natureza, repugnam-nos as fronteiras. Mas um homem nasce dentro de alguma coisa, somos gerados e germinamos dentro, rodeados de paredes, protegidos por fronteiras. Estas protegem-nos do medo porque nascemos a ter medo dos espaços abertos, livres, dos espaços de sonho. E nisso, a pátria que nos ensinam é sempre uma pátria de medo. Em dia de país, falemos então desta "raça" de comer e calar, de calar e chorar por mais, raça de gente amorfa e respeitosamente servil, gente barata, os melhores entre os melhores, mas a preço de saldo. Daqui convenha, minhas filhas, começar por aprender a rir do medo. Para em termos aprendido, podermos criticar livremente, podermos dizer mal, até achincalhar, podermos pecar sem remorso, injuriando, afrontando, ofendendo tudo quanto se oponha a esse direito básico que é viver livre a única vida que temos, de a vivermos determinados pela nossa consciência, apenas por ela, por nada mais senão ela. 
   Que a crítica comece por ser feita para dentro, de fora para dentro, que a crítica comece por ter-nos como objecto é, antes de mais, prova de respeito por nós próprios. Não nos convençamos da verdade que se esquiva, que a pretensão de sermos donos da verdade não nos assalte é o melhor conselho que poderei dar-vos. Começai sempre por duvidar de vossas próprias certezas, para que da dúvida possais erguer o edifício do pensamento com ferramentas de riso. A quem assim opera, ficai sabendo, apelidam muitas vezes os demais de vulgar. Vede o caso de Tomás Pinto Brandão (1664-1743), amigo da fera demoníaca Gregório de Matos (1636-1696), com quem partiu para o desconhecido em busca de aventura. Logo foi feito prisioneiro, degredado para Angola, e depois para o Rio de Janeiro. Esbanjando tudo quanto ganhava, dedicou-se à poesia. Só na poesia encontrou alcova para a liberdade, regando-a com sátiras inflamadas que causavam escândalo e polémica. Tomando-se a si mesmo como objecto de riso, não deixou a pátria por mãos alheias. Pinto Renascido foi o volume vindo a lume em 1732. 
   Passados muitos anos, João Palma-Ferreira faz dele um produto de seu tempo, reconhecendo-lhe a subtileza de haver sabido «denunciar as injustiças sociais, fraudes, corrupção administrativa e proteccionismos escandalosos que caracterizavam o reinado». Exemplo maior de tal denúncia: Este é o Bom Governo de Portugal, sátira atribuída a um Gregório de Matos ressuscitado. Os versos apareceram quando há muito havia desaparecido o amigo Gregório. Aí sobressaem a “hipocrisia nacional”, a “mediocridade dos costumes”, a “vilania das gentes”, a beatice e os desastres da administração. Ficai com alguns exemplos e tentai mudar-lhes os tempos, as personagens, que as vontades perduram as mesmas:

(…)

Que haja um Conselho de Estado
para mil resoluções
e que em todas as ocasiões
é sempre desacertado,
o parecer sempre errado
foi de seus desacertos
obrar com desconcertos,
e só para os bons intentos
lhe segura os entendimentos
o grão Demónio Infernal.
Este é o bom governo de Portugal.

(…)

Da Câmara e Senado
que em obras, taxas, licenças
deve com toda a presteza
ter particular cuidado,
o governo é de estado
e são as ruas da cidade
monturos e porquidade;
e o que tem que vender
o vende pelo que quer
por ter seguro o costal.
Este é o bom governo de Portugal.

Os Ministros de Justiça
que nunca a fizeram direita,
porque a valia respeita
pela puta, ou por cobiça,
o Demónio assim lhe atiça
este fogo em seus ardores,
juiz e corregedores,
letrados e escrivães,
alcaides e tabeliães,
todos vestem de um saial.
Este é o bom governo de Portugal.

(…)

Quem as conquistas governa
manda para desabonos
uns pataratas fanchonos
sem para nada prestar,
e que se hão-de aumentar;
uns redicolhos sujeitos,
sem obras, acções, nem feitos,
e se há fatal ocasião,
de ter a espada na mão,
a fuga lhe é cordial.
Este é o bom governo de Portugal.

Que a mais da Fidalguia
que na soberba se enfronha,
nela se acha sem vergonha
toda a má velhacaria;
a franqueza e a covardia
se vê contra os castelhanos,
e para os nobres paisanos
são uns tigres, uns leões,
e parecem uns supiões,
no proceder tão cabal.
Este é o bom governo de Portugal.

(…)

Que venha todo o estrangeiro
e cada um negociando,
o ouro e prata vão levando
deixando-nos sem dinheiro;
e não há já conselheiro
que seja homem de talento,
que apurado o entendimento
algum remédio lhe aplique,
para que o Reino não fique
exausto deste metal.
Este é o bom governo de Portugal.

(…)

Toda a mais canalha vil,
mercadores, vendilhões,
que estão ganhando milhões
com empregar um ceitil,
têm toda a graça gentil
para poderem roubar,
podendo-se isto emendar
 com uns açoutes ou galés,
porque assim em que lhe pês
tenham menos cabedal.
Este é o bom governo de Portugal.

(…)

Deixo sete estrofes, esperando com elas convencer-vos da pertinência dos versos. Não sendo estes o bastante para pensardes o poder pátrio, outros hão-de haver que sirvam para detonar o respeitinho subserviente que é entre os males da gente um dos maiores e mais nefastos.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #18



   Evitemos classificar idades na história dos homens. Em tendo havido uma idade das trevas, quando terá sido a idade da luz? Dessas épocas que dizem negras chegam-nos ecos luminosos, tal como nas eras mais pacíficas descobrimos buracos negros de maldade. Pode o tempo difundir-se linearmente ou a esmo, o que nos parecerá improvável é que nessa difusão predominem o bem ou o mal, a virtude ou o vício, como gigantes inexpugnáveis. Em qualquer lugar, em qualquer época ou era, sempre a história dos homens foi uma batalha interminável entre bem e mal. Empédocles, o  pré-socrático, terá sido quem primeiro reconheceu no mundo a dinâmica das coisas universais. Assim era no seu tempo, assim continua a ser no nosso.
   Entre hoje e ontem podemos vasculhar nos escombros, nas ruínas, nos destroços da batalha, que encontraremos sempre entre as vítimas quem tenha ido para a vanguarda em benefício próprio ou pelo bem alheio. Só os últimos, creiam, devem merecer o epíteto de grandes homens. Giovanni Pico della Mirandola (1463-1494) foi um deles, apesar da morte prematura quase o ter condenado ao esquecimento. Inimigos não lhe faltaram, desses com quem vale a pena disputar o pensamento e dos outros, daqueles para os quais a contenda rapidamente se afunda no pântano da calúnia e do insulto tosco. Quanto a estes, não lhes guarda a história o nome. Àqueles o tempo perdoa as falhas.
   Com apenas 31 anos de vida, Giovanni Pico desafiou as regras do seu tempo propondo-se debater tudo quanto pudesse ser objecto de discussão. Os opositores rapidamente o acusaram de ímpio, extravagante, orgulhoso, herético. Respondeu-lhes com a Oratio de Hominis Dignitate (1480), discurso que coloca a natureza ambivalente do homem tanto acima das bestas como dos anjos. A nossa vantagem sobre as outras criaturas de Deus é sermos livres de optar, degenerando até à brutalidade ou regenerando o espírito a caminho da perfeição. Portanto, minhas filhas, o que ides encontrar neste Discurso Sobre a Dignidade do Homem (Edições 70, Novembro de 1989) é um elogio da vontade, é uma defesa da razão, é um hino à liberdade.
   Educado para ser padre, para pensar e obedecer como padre, ele fez-se filósofo. Enquanto tal, condenou tudo quanto pretendesse pôr em xeque a liberdade do pensamento e o desígnio da razão. A ele devemos, numa primeira instância, a separação das águas da teologia das águas da filosofia, num tempo em que tudo não só se confundia como se cria único e indiscutível. Não contra Deus, ele amou o homem. Amou o homem por amor ao homem, por amor à razão e ao pensamento, porque só ao homem cabe decidir sobre o que pretende ser: besta ou supremi spiritus? A escolha é vossa: «a partir do momento em que nascemos na condição de sermos o que quisermos, que o nosso dever é preocuparmo-nos sobretudo com isto: que não se diga de nós que estando em tal honra não nos demos conta de nos termos tornado semelhantes às bestas e aos estúpidos jumentos de carga».
   A escolha é vossa, mesmo que múltiplos sejam os caminhos para cada uma das opções. Em optardes pelo caminho do juízo, lembrai-vos de como apenas com razão e amor podeis limpar a alma da sujidade e dos vícios que a conspurcam: a inveja, a mentira, o despotismo, a avareza, o racismo, o ódio à diferença, a intolerância, o etnocentrismo, o hiperbolismo, a mania de que se é superior aos outros, o nepotismo, a cagança… Quanto ao mais, tentai viver o mais apaixonadamente possível cada momento das vossas vidas, não desperdiçando um segundo que seja com a vida daqueles cuja opção foi o atalho da brutalidade, o caminho das bestas, o desperdício deste bem precioso e efémero que é estar vivo.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #17



   Tal como nos são oferecidos desde a infância, os conceitos têm dupla face. Se nos ajudam a organizar, acabam mais tarde ou mais cedo por nos trair. Ao Zen podemos chamar filosofia prática. Correto seria, porém, que lhe chamássemos apenas Zen. Zen é Zen. Nesta simplicidade, minhas filhas, repousa adormecida a incomensurável sapiência. Despertemo-la. Como? É um mistério. Apenas a vida poderá oferecer saber à vida, apenas a experiência, a observação, a meditação. Do lado de cá da barricada tudo se constrói por parábolas, metáforas, axiomas. Os ocidentais cresceram a falar das coisas, os orientais crescem a falar com as coisas. Isto até se ocidentalizarem.
   O problema está, um dia podereis constatar, em fazer de tudo um problema. Vede como Sen no Rikyū resolvia a questão: «O chá não é mais do que isto: / Ferve-se a água / Faz-se uma infusão com chá / E bebe-se… / É tudo o que é necessário saber». Nesta concentração no necessário nos aproximamos, unimo-nos na busca do essencial, a raiz está na base. Também Epicuro, de quem vos falei, apelava ao estritamente necessário. Não cantava assim o urso Balu ao jovem Mogli? Em parando para pensar, o tormento coloca-se-nos: para que quer tanto alguém que tem apenas por certo a morte? Sabendo-se finito, por que desperdiça o homem seu tempo com ruídos desgastantes, com a tagarelice do pensamento, com absurdos existenciais?
   Ainda não chegámos lá, reconhecemos. O silêncio é o mais árduo dos caminhos, exige-nos despojamento, acção na inacção, exige que sejamos conforme a clareza das constatações. Somos bestas colectoras. Para quê ambicionar a lua se ela vem até nós? Basta, minhas queridas, que o coração se predisponha a recebê-la que se abra à sua luz nocturna. Mais do que na cabeça, Zen aloja-se nos pulmões, na respiração, como ele a poesia dissemina-se pelo ar, o pólen que floresce de estação para estação. É mistério, «no momento em que um pensamento o toca, desaparece». O mais aprende-se com silêncio, no silêncio, pois este é meio e é fim. Mesmo quando em retiro a ironia nos desmente. Observai os quatro monges num retiro de silêncio absoluto:

A vela apagou-se!, diz o mais jovem dos monges.
Não deves falar! É um sesshin (espécie de retiro) de silêncio total, observa severamente um monge mais velho.
Porque falam, em vez de se calarem, como tinha sido combinado! faz notar com humor um terceiro monge.
Sou o único que não falou!, diz com satisfação o quarto monge.

   Está a graça na desgraça. Assim andamos na vida, a falar por cima do silêncio a que nos propomos. A contradição não é motivo de censura, antes factor de aprendizagem. O desafio está em superar tamanha contradição. Zen coloca-nos perante este desafio como o mestre que diz ao discípulo: caminha parado, no presente está a eternidade. Temos muito a aprender com Os Melhores Contos Zen, mesmo que não sejam os melhores, mesmo que tais classificações impliquem já uma selectividade contrária ao próprio Zen. Samurais, monges, velhos poetas, viajaram em busca da liberdade através de um sonho bem desperto: desfazerem-se do Eu. Como pode alguém desfazer-se do Eu? Ora, ora, simplesmente desfazendo.