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quarta-feira, 27 de março de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #13


   Evitai o desespero. Se vos falo de coisas lúgubres, é porque a vida também se aprende a doer. Nem tudo são açúcares. Talvez não tenha ficado clara a inspiração de Unamuno no malogrado Manuel Laranjeira (1877-1912), poeta português que não cabe nas antologias. Deste poderia sugerir-vos alguns versos, ficções, peças. Mas há um ensaio em particular que merece bom acolhimento nas nossas estantes. Chama-se Pessimismo Nacional e, se bem sei, foi surgindo num jornal entre 1907 e 1908. Tenho a edição da frenesi, de Março de 2009. É vossa.
   O autor suicidou-se em 1912, inspirando desse modo o espanhol de Bilbau. Médico, republicano fervoroso, tentou arranjar estômago que aguentasse a república do seu tempo, pântano de esfomeados, sapal de analfabetos, servos das quadrilhas de privilegiados que no poder ou junto dele tratavam o povo como hoje parece mal tratar os cães. Com as devidas distâncias, podemos sempre sublinhar o mal que perdura na raiz: 

«(...) numa sociedade, onde o pensamento representa um capital negativo, um fardo embaraçoso para jornadear pelo caminho da vida; num povo, onde essa minoria intelectual, que constitui o orgulho de cada nação, se vê condenada a cruzar os braços com inércia desdenhosa, ou a deixá-los cair desoladamente, sob pena de ser esterilmente derrotada; num país, onde a inteligência é um capital inútil e onde o único capital deveras produtivo é a falta de vergonha e a falta de escrúpulos o diagnóstico impõe-se de per si».

   Contra isto, um Presidente da República ocupado a papaguear que somos os melhores em tudo, distribuindo abraços e beijinhos por desgraçados e miseráveis, é apenas merecida caricatura. Se tendes dúvidas, ide à pastelaria e folheai o jornal do dia. Ou sintonizai a televisão em qualquer canal a vosso arbítrio, que logo ides deparar-vos com o esterco onde o pessimismo frutifica.
   Impõem as boas práticas que ao pessimismo da razão receitemos o optimismo da vontade, não vá o coração ceder à tentação fatalista que ceifou este Laranjeira e tantos outros como ele. Sirvam antes as suas palavras de pré-aviso: «Vestimos à moderna, pretendemos viver à moderna, e pensamos e sentimos à antiga». Dando graças a Deus. Eis o melhor de um diagnóstico onde aos males e vícios não se aplicam virtudes nem remédios:

«O mal da sociedade portuguesa é apenas este: a desagregação da personalidade colectiva, o sentimento de interesse nacional abafado na confusão caótica dos sentimentos de interesse individual».

   Portanto, o mal está na ganância, na avidez, na sovinice, e nesta filha da puta de mania de pensar que a vida é eterna, subjugando assim o dia-a-dia a uma ideia de conforto e luxo que apenas hipoteca o futuro e nos desapaixona do presente. O mal está no individualismo cego, doença que tendemos a tratar com esmolas e campanhas de solidariedade. O mal está em sermos diariamente explorados, enganados, traídos, e vivermos bem com isso, como se fosse natural sermos explorados, enganados, traídos. Se calhar é.
   Ficai atentas, preveni-vos, minhas filhas, de todo e qualquer messias, onde há um homem haverá sempre a imponderável manifestação do desespero. E o tempo passa num instante. Ficai de atalaia e desconfiai, desde logo das seitas, das quadrilhas, dessas religiões erguidas por profetas movidos apenas pela hipocrisia, sejam elas da fé ou da economia. Vai dar ao mesmo.
   Por acaso nascestes portuguesas. Já alguém disse que por isso partis em desvantagem, mas que não seja uma fatalidade o lugar. Se a ignorância encolhe o território, estudai, aprendei, escutai, perscrutai na Natureza as cores, os sons, os cheiros que tornam válida a vida. Ides certamente encontrar recanto onde a inteligência possa ser apreciada, nem que seja onde eu encontrei o meu: em vós.

domingo, 10 de março de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #12


Se é importante saber de onde vimos, não menos será que fiquemos atentos ao modo como os outros nos vêem. Certo que jamais teremos acesso ao que pensam sobre nós, mal seria se tivéssemos. Imaginai o inferno se outros acedessem ao que acerca deles pensamos. É saudável e até agradável esta distância que nos separa do outro, este exílio que obriga à reflexão e à desconfiança. Mas não menos agradável é assistir a quem fale de nós abertamente, desbravando terreno à imaginação como ao espelho se abre um rosto. Quando digo nós, minhas filhas, não me refiro ao indivíduo, que esse será sempre mistério inconfessável para si mesmo, mas antes ao que no individuo há de influência exercida pelo colectivo. Refiro-me à cultura, à sociedade, ao ambiente social que nos deforma e conforma ou que simplesmente nos informa, permitindo-nos que cresçamos em reacção e conflito ou em acomodação e renúncia.
   Miguel de Unamuno (1864-1936) foi um ilustre espanhol que ousou pensar-nos em voz alta, dedicando-nos o opúsculo com o título Os Portugueses, Um Povo Suicida. Originalmente escrito em 1908, podeis conhecê-lo na edição da Ática datada de Abril de 2011. Não é difícil encontrar sensatez no diagnóstico: «Portugal é um povo triste e é-o mesmo quando sorri» (p. 7). Classificar-nos de povo suicida não nos socorre na manifesta propensão genética que temos para a desgraça, mas livra-nos do fardo que leva a concluir a inutilidade da vida. Com tão cruel evidência não se conformam os fadistas, encalhados entre o oceano e sucessivas invasões. A solução para os portugueses está em fugirem de si próprios como o diabo da cruz. Daí que se detestem, daí que se ocupem tanto zurzindo contra si mesmos, daí que se mostrem tão afáveis e complacentes para com aquilo que vem de fora e implacáveis para com aquilo gerado dentro.
   Li algures, minhas filhas, um retrato cómico da sociedade portuguesa: espécie de bolha onde todos dizem mal uns dos outros sem terem a noção de que os outros são essa massa indefinível entre os quais também nós nos encontramos. Sendo que cada um de nós é sempre um outro, não resta nada de bom entre os portugueses. No entanto, a desgraça tem sido nossa força. Sabemos rir da aspereza com que nos crucificamos. Talvez aí germine o gene desta lúgubre inclinação para o suicídio, não necessariamente físico, mas também moral, espécie de “genocídio” focalizado no ânimo com que poderíamos encarar a inutilidade das nossas existências. A aceitação desta inutilidade afigura-se elementar, na medida em que se impõe como a única atitude verdadeiramente útil à fatal condição elegíaca.
   Há neste povo «mais apaixonado do que sentimental» de que falava Unamuno uma matemática inquestionável: «os sonetos são um grande purgante das paixões excessivas, pois sabe-se de sonetistas que morreram de fome mas de nenhum que tenha morrido de amor» (pp. 8-9). Podeis imaginar quanto disto vale num país que se diz de poetas! O resto é História e alternância democrática, aquele masoquismo de passarmos o tempo a vituperar quem elegemos reiteradamente, a indolência com que tratamos tudo quanto nos indigna, um deixar andar na esperança de melhores dias que virão, porventura, como virá o tal que se perdeu nas áfricas, embrulhado em bruma invisível. Sabemos rir, excepto de nós próprios. Por isso nos suicidamos.
   Como pode não ser suicida um povo assim? Os suicídios de Antero, Soares dos Reis, Camilo, Mouzinho de Albuquerque, Trindade Coelho, enumerados por Unamuno, são resíduos numa sociedade toda ela suicidária, mero exemplo lacónico, previsível, sucinto. A orgânica não poderá ser outra enquanto persistirmos na saudade, no lamento, nesse pó cavernoso que a todos inspira versos tristonhos e esmorecidas elegias. Sobre toda essa tralha, um lençol de gargalhadas estridentes e a consciência interna da maior das forças vitais: nada há de mais útil nesta vida efémera que a inutilidade decretada às coisas que dão prazer e fazem rir. O resto subentende-se no opúsculo: «Não falta mesmo por aí quem diga que isto não é já um povo, mas sim o cadáver dum povo» (p. 13). Portanto, ride, ride de vós próprias e do espanhol que nos define, ride do mundo e da vida, ride com alegria e paixão, pois só rindo de tudo e com todos os dentes à mostra podeis um dia dizer ter estado próximas da felicidade. Isto é, da alegria de viver.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #11


Se há conselho que me sinto obrigado a vos transmitir nestes tempos desmemoriados, então esse conselho é o de que jamais vos esqueceis de onde vindes. Nas origens perdura a semente, pela raiz chegamos à essência que elucida sobre o lugar por nós ocupado no mundo. Tudo se torna próximo e uno quando de tal lucidez retiramos a conclusão definitiva: as dissemelhanças que nos distinguem à superfície provêm da mesma câmara onde se forma o magma humano. Ficai pois sabendo, queridas filhas, que nas veias nos corre sangue sarraceno, e disso não vos olvideis sob pena de julgardes ser únicas e eleitas onde afinal sois finitas, mortais, efémeras, nesta terra apenas ímpar por nela vinho, pão e música bastarem para que valha a pena ver o sol nascer.
   Muito antes das cruzes do Norte terem pesado sobre os costados dos nossos antepassados, andaram por estas terras povos a que chamaram mouros. Alá era o seu Deus, o vento os guiava, o sol lhes tingia a tez. Deles herdámos cultura, palavras, ciência, pensamento, poesia. Deles herdaram vossos avós a classe saloia à qual pertenceram, abrindo caminho para que pudésseis hoje ler os poetas árabes de Portugal coligidos por Adalberto Alves em O Meu Coração é Árabe – A Poesia Luso-Árabe (Assírio & Alvim, Outubro de 1987). Através destas páginas podeis travar conhecimento com Ibn ‘Ammar e com Al-Mu’Tamid, podeis ficar a conhecer poetisas árabes antigas como Maryam Al-Ansari e As-Silbia, e podeis ainda desfazer o preconceito de que dos árabes nada de bom nos ficou.
   Nascido perto de Silves em 1031, Ibn ‘Ammar teve, conta-nos Adalberto Alves, uma vida que «parece arrancada a um drama shakespeariano». Invulgarmente inteligente, mas muito pobre, tornou-se um dos maiores e mais íntimos amigos do grande Al-Mu’Tamid. Perduram especulações sobre uma relação homossexual entre ambos. Nomeado governador de Silves pelo amigo, Ibn ‘Ammar cedeu ao arrivismo começando a conspirar na ambição de um trono próprio. Aprisionado em Sevilha, acabou executado pelo próprio Al-Mu’Tamid. Entre os versos que dele restam, contam-se estes dedicados ao amigo que o matou:

Nada me move, meu príncipe,
Senão a tua vontade.
Contigo vou,
Como o viajante nocturno
Guiado pelo clarão dos relâmpagos.
Queres voltar para a tua amada?
Vai num rápido veleiro
E seguirei no teu encalço,
Ou salta antes para a sela,
Contigo irei também.
E quando,
Graças à protecção divina,
Chegarmos aos umbrais do teu palácio
Permite que torne sozinho à minha casa.
Não percas tempo a sacar a espada!
Lança-te aos pés da que tem a cintura delicada
E compensa-a do tempo perdido:
Beija-a e aperta-a contra o peito.
E murmurem vossas bocas
Meigas e doces palavras,
Como os pássaros se respondem mutuamente
Em suaves cantos ao romper da alva.

   Quanto a Al-Mu’Tamid, nasceu em Beja, no ano de 1040, numa família de gente culta e influente. Filho do rei Almutadide, foi nomeado pelo pai governador de Silves antes de ascender ao trono do reino taifa de Sevilha. Ele próprio pai dos poetas Al-Ma’Mun, Ar-Radt e Ar-Rasid, caiu em desgraça depois de ser traído por um aliado na luta contra os cristãos. Desterrado para Agmat, perto de Marraquexe, aí passou o resto da vida como poeta eremita. Morreu em 1095. A sua campa é ainda hoje local de peregrinação. Impressionante é o poema que nos outorgou nas vésperas da sua morte:

EPITÁFIO

Túmulo de um forasteiro:

Regue-te o chuvisco vespertino e matinal
Pois conquistaste dos restos de Ibn ‘Abbad.
Em ti jazem razão, sabedoria e generosidade,
Abundância na seca e água para os sequiosos.
E lança e espada e flecha no combate:
O terrível fim para o leão contrário.
Destino na vingança,
Oceano na generosidade,
Plenilúnio na sombra,
Eloquência na multidão.
Chegou o decreto do Altíssimo
E, com ele, o meu fim.
Antes de olhar este esquife
Mal sabia eu que altas montanhas
Sobre tábuas repousaram.

Que isto te baste, tumba:

Sê amável com a nobreza
Que aqui te vai confiada.
Que as taciturnas nuvens
Te reguem entre raios e trovões,
Chorando por seu irmão,
Que agasalhaste da chuva,
Sob esta laje tão larga,
Com lágrimas matinais e vespertinas.
Até as gotas do orvalho te choram
Derramando-se dos astros
Que te não deram sorte.
Para sempre a bênção de Alá
Sobre a tua sepultura
        Incontáveis vezes
                     …para sempre!

Podeis encontrar outros poemas de Al-Mu’Tamid aqui, aqui e aqui. Sugiro a impressão deste último, para guardar na carteira junto aos documentos essenciais.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #9 & #10




   Desconheço as razões, minhas filhas, que fazem com que neste nosso país tantas vezes os melhores versos surjam em prosa e a melhor prosa surja em verso. Deve haver algo que o explique, matéria na qual não sou versado nem me inspira empenhos para lá do gozo proporcionado pela leitura. Com o pensamento ocupado noutras elucubrações, prefiro entreter-me com objectos ambíguos na forma, híbridos no género, paradoxais na moral. Sempre me atraiu o indefinido, na literatura ainda mais. Daí o deslumbre com tudo quanto alente a androginia do espírito, mais ainda se acarretar aquela força do iconoclasta capaz de abalar os pilares dos bons costumes (que são, quase sempre, maus conselheiros). 
   Um nome: Mário-Henrique Leiria (n. 1923 – m. 1980). 
  Dois títulos: Contos do Gin-Tonic (Estampa, 2.ª edição, Outubro de 1976) e Novos Contos do Gin seguido de Fábulas do Próximo Futuro (idem, 2.ª edição, Janeiro de 1978). 
   Sobre o nome pouco se sabe e muito se diz, o que é comum entre as nossas gentes. Terá sido expulso das Belas Artes, em 1942, por más inclinações políticas. No surrealismo à portuguesa também não se manteve muito tempo, saindo em dissidência para formar um segundo grupo com aqueles que são hoje por todos tomados como os primeiros: António Maria Lisboa, Mário Cesariny, etc. Na nota biográfica oficial diz-se que «teve vários empregos, marinha mercante, caixeiro de praça, operário metalúrgico, construção civil» e que andou à deriva por vários cantos do mundo. O que não se diz tão oficialmente é que a fome lhe terá corrido as entranhas. Numa das primeiras pequenas histórias dos Contos do Gin-Tonic, percebemos ao que vinha no Portugal do Carreirismo:

   Após ter surripiado por três vezes a compota da despensa, seu pai admoestou-o.
   Depois de ter roubado a caixa do senhor Esteves da mercearia da esquina, seu pai pô-lo na rua.
   Voltou passados vinte e dois anos, com chofér fardado.
   Era Director Geral das Polícias. Seu pai teve o enfarte.

   Conclusão: se um homem tem de começar por algum lado, pois que comece por conhecer os métodos do inimigo. Sobre as viagens com carteira nada abastada, há quem diga que vinham do patrocínio comunista. Não tenho provas. Certo é ter morrido só e magro. Andou nove anos pela América Latina, para onde partiu em 1961, fazendo sabe Deus o quê. Ou talvez nem Deus o saiba, tão distraído que sempre anda. Minhas filhas, Portugal também tem esta coisa curiosa de serem poucas as biografias disponíveis de quem realmente teve vida para contar. Salvo raríssimas excepções, o que vai surgindo pouco acrescenta ao ramerrão das pessoas comuns. Pessoa essa que este Mário-Henrique não era, não podia ser, jamais terá sido. Caso contrário, como poderia ele em tão poucas palavras definir o sentido da existência num conto em verso que coloca em cena uma nêspera e uma velha?

RIFÃO QUOTIDIANO

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o acontece

  Portanto, se não quereis ser devoradas por uma velha, erguei-vos da cama e protestai, não fiqueis mudas à espera do que acontece, fazei acontecer. É deste caminhar caminhando, é deste fazer fazendo, é desta vontade, deste desejo, desta paixão, que toda e qualquer existência necessita se não quiser resumir-se ao pouco mais que nada de por cá andar com a cabeça entre as orelhas. Aproveitai a lição, ide ou deixai que as pernas vos levem, com a autonomia que é delas, para onde os "tiranos" da consciência jamais vos levarão: uma aventura sem portos.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #8


   Por mais voltas que dêmos iremos invariavelmente parar na casa do amor, pelo que livro mais útil não ides encontrar na vida. A Ars amatoria servir-vos-á em dois partidos, já que o mestre escreveu-a a pensar tanto nos interesses dos homens como nos das mulheres. Nisso descansai, nada tendes aqui que conflitue com as novas tendências da política de equidade de género. E pela voz de um homem ser-vos-ão abertas as portas da mente máscula.
   Públio Ovídio Nasão nasceu numa pequena cidade italiana em 43 a. C., vindo a falecer em Tomos (Constança), na Roménia, já 18 anos depois de Cristo ter andado pela terra. Os parabolanos bem que tentaram silenciá-lo, mas os versos foram mais fortes que as pedras e aí estão perdurando na eternidade. Expulso de Roma por Augusto, condenado ao exílio na terra onde viria a morrer, não baixou armas contra caluniadores, dedicando-lhes versos verrinosos bem diferentes da dissolução de costumes cantada na Arte de Amar.
   Encontrareis nesta obra três livros, dois dirigidos aos homens e um terceiro votado às mulheres. Dos primeiros podeis colher o pensamento, as tácticas e manhas no processo de sedução, as regras que comandam o jogo levando o jogador a actuar deste modo ou daquela maneira. São ensinamentos indispensáveis a quem pretenda precaver-se contra as investidas do depredador, pelo que deveis tê-los em boa consideração:

O vinho põe o coração a jeito e torna-o pronto para a fogueira;
os cuidados desvanecem-se e diluem-se numa boa dose de vinho puro;
chega, então, o riso, então o pobre ganha coragem,
então a dor e os cuidados e as rugas desaparecem do rosto,
então a simplicidade, tão rara no nosso tempo, abre os
corações, sacudidos que foram os artifícios pelo deus.

   Dos versos aproveitai tamanho saber: «a bebedeira, tanto é nefasta, se verdadeira, como é útil, se fingida». Corroboro. Mas são inúmeros os conselhos, julgai-lhes a utilidade colocando-os em prática. Sobre tudo quanto tem que ver com o amor nos fala Ovídio, e não é de um amor dito platónico ou ideal que ele fala, mas sim do amor que corre no sangue e dá vida à carne, movido pelo desejo e alentado pela paixão, é do amor tal qual o vivem e experimentam todos quantos possam ter neles o que de animal herdámos.
   Esta arte de amar não se dirige aos hipócritas, muito menos aos moralistas, para quem o amor do espírito pretende impor sacrifícios à carne. Ela dirige-se aos amantes, ao corpo dos amantes, pelo que deveis considerar todas as possibilidades: «Odeio o acto de amor que não faz soltar ambos os parceiros / (eis por que me apraz menos o amor com rapazes); / odeio aquela que se entrega por ser preciso entregar-se / e que, na sua secura, só pensa na sua lã; / prazer cedido por dever não é prazer que me dê gozo; / um dever, que nenhuma mulher o pratique comigo».
   Dito como na canção, para haver amor não pode haver obrigação. Portanto, minhas filhas, cuidai de meter na agenda:

Tende desde já na lembrança que a velhice há-de chegar;
e não deixeis, por isso, esvair-se tempo algum na ociosidade;
enquanto vos for consentido e conservardes, ainda, a idade da Primavera,
gozai; vão-se os anos, do mesmo modo que a água corrente;
nem a onda que passou voltará de novo a ser chamada,
nem a hora que passou logra tornar atrás.
Há que aproveitar a idade.

E o resto são cantigas.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #7


   Já que estamos com a mão na massa, tomai em vossas mãos, minhas filhas, o único livro de ciência política que realmente vale a pena ler, estudar, aprofundar, reflectir. Evitai considerá-lo apêndice de Uma Apologia dos Ociosos, apesar de ambos datarem da mesma época e focarem, cada um à sua maneira, temas interligados. Se na obra de Stevenson encontramos a apologia de um estado existencial contra a imposição de um modo de vida, na de Paul Lafargue (1842-1911) vislumbraremos a defesa acérrima de um direito fundamental acompanhada da denúncia de uma sociedade empenhada em usurpar aos homens tal direito: a preguiça. Impossível determinar quanto terá trabalhado o autor para atingir o estado de clareza que a brevidade do texto oferece, embora desconfiemos que, dada a profusão de citações, a preguiça não tenha sido dos valores por ele mais cultivados.
   Nos 69 anos de vida vivida, Lafargue, que casou com uma filha de Karl Marx, foi activista comprometido com a defesa dos direitos dos trabalhadores. Nasceu em Cuba, filho de fazendeiro com plantações de café. Na família multicolorida cabiam um índio jamaicano, um mulato refugiado do Haiti, judeus e cristãos, particularidade que lhe ofereceu desde cedo uma panorâmica alargada da cultura humana. Estudos iniciais de medicina levaram-no a apaixonar-se pelo positivismo, tendo a partir de aqui inclinado o coração para o anarquismo político, até ser finalmente assaltado pelas teses sociais de Marx. O casamento com Laura, a filha de Marx, terminou quando ambos resolveram suicidar-se. Talvez preguiçassem menos do que deviam.
   A verdade é que Paul Lafargue entendeu antes de muitos aquilo em que a breve trecho se tornaria a vida da maioria de nós, uma vida dominada a chicote pela moral cristã e sua lastimável paródia, a moral capitalista. Metei isto nas vossas cabeças, minhas filhas, se Cristo morreu na cruz não foi para expiar-nos os pecados, mas sim para que outros espiem a nossa vida, levando-nos a crer que o sentido desta em terra está no seu sacrífico por uma outra algures no céu. E assim se fomenta uma indústria de servidão, das quais tanto as fábricas como as igrejas ou os centros comerciais, são lugares de culto por excelência. Isto mesmo se denuncia em O Direito à Preguiça (Teorema, 11.ª edição 2011), obra publicada originalmente em 1880.
   Vós, que sois já um produto da Revolução Tecnológica, tende cuidado: tal como no passado foram os homens escravos das máquinas, somos nós hoje escravos das tecnologias. A ideia de que os robôs viriam para a nossa libertação está mais que desfeita, reduzindo a mão-de-obra humana aos valores de um salário mínimo que é via verde à escravidão, ao degredo, ao desprezo, à miséria. A religião do trabalho, acompanhada da ideia de utilidade, nada mais tem conseguido do que o embrutecimento das almas humanas, levando-nos o tempo de ócio, censurando-nos o direito à preguiça, coagindo-nos a crer que o progresso é esta mecânica desenfreada de produzir para consumir até termos dado cabo de todos os recursos naturais e, por consequência, da Terra Mãe. Conclusão:

Tal como Cristo, dolente personificação da escravatura antiga, os homens, as mulheres e as crianças do Proletariado sofrem penosamente desde há um século o duro calvário da dor: desde há um século, o trabalho forçado parte-lhes os ossos, mortifica-lhes a carne, arrasa-lhes os nervos; desde há um século, a fome contorce-lhes as entranhas e alucina-lhes a cabeça!... Ó Preguiça, tem piedade da nossa longa miséria! Ó Preguiça, mãe das artes e das nobres virtudes, sê o bálsamo das angústias humanas!

Para mais esclarecimentos: aqui e aqui.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #6


   Robert Louis Stevenson (1850-1894), deste já ouvistes falar. Foi quem escreveu A Ilha do Tesouro (1883), que por certo já visitastes, tal como O Estranho caso do Dr. Jeckyl e Mr. Hyde (1886), que escusais de ler se vos atentardes ao mundo dos homens em geral e dos artistas em particular. Morreu com a idade que vosso pai tem hoje, mas com uma vida incomparavelmente mais cheia. Naqueles tempos vivia-se menos, mas mais. O que contradiz a lógica aristotélica.
   Nascido em boas famílias da Escócia, teve uma educação privada para protecção dos brônquios. Pretendiam que fosse engenheiro, protegendo a continuidade do negócio de família, mas ele era mais dado a leituras, arte e ócio. Herdou do pai o gosto pelas viagens, encarregando-se de não as conspurcar com a mania dos negócios. A decisão pela literatura deixou a família perturbada, tornou-se evidente quando começou a deixar crescer o cabelo, a adoptar um estilo de vida boémio, a vestir-se como um ateu, a adoptar como lema o de muitos dos seus pares: desrespeita tudo quanto os teus pais te ensinaram.
   Eis, minhas filhas, ensinamento a que deveis prestar a máxima atenção, mais nenhum senão este deveis adoptar se pretendeis ser verdadeiramente livres. É vosso pai quem o diz.
   Desta e de outras máximas nasceram obras eternas, entre as quais deveis especialmente considerar Uma Apologia dos Ociosos (& etc, Junho de 2005). Das várias edições disponíveis a mais bonita é esta, devidamente prologada e seguida do ensaio Conversa e Conversadores. A «defesa pseudofilosófica da preguiça» ensaiada neste livro, surgido inicialmente numa revista publicada em 1877, diz-nos desde logo o que nenhum livro senão este pode ensinar: «Os livros são úteis à sua maneira, porém um substituto bem pálido da vida». E acrescenta: «Basta dizer isto: se um jovem não aprende na rua é porque não tem capacidade de aprender».
   Elogio do nomadismo contra o sedentarismo, da rua contra a academia, da experiência contra a literatura, isto é, de uma literatura com vida e experiência, colhida da terra e não da poalha dos livros. Contra a escolástica, colocando em xeque toda a ideia de Sucesso na Vida que não seja o vivê-la tirando partido das experiências, do contacto com o desconhecido. Um aventureiro, este Stevenson. Um hedonista, talvez: «Os prazeres são mais benéficos do que as obrigações porque, tal como a faculdade de perdoar, não são forçados, e portanto representam uma dupla bênção».
   Podeis contra-argumentar que tal discurso não seria possível sem barriga cheia, que o senhor Robert nos fala lá de um lugar onde não teve de chegar por dele ter partido, podeis desconfiar da sua argumentação crendo que bem diferente seria caso desde cedo tivesse ele sido forçado pelas circunstâncias a fazer pela vida como o comum dos mortais. Todas as críticas são válidas, desde que descanseis o corpo sobre elas. O que nestes casos importa é a mensagem, venha ela de onde vier. Certo é que mais nos valerá sempre um elogio do ócio do que uma defesa do sacrifício. A vida é curta, não merece que a desperdicemos com as despesas do supérfluo.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #5


Fixai este nome, estranho e longo nome: Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaut (1719-1791). Historiador, gramático, professor de Latim na Escola Militar, escreveu obras literárias, de filologia, de história, de medicina, mas quis o destino que ficasse para a posteridade como autor de um pequeno livro intitulado L’Art de Péter (1751). Não é caso único neste estranho mundo que um homem se torne imortal pelas mais inusitadas razões. Outro exemplo é Métrocles, que ter-se-á peidado na estreia como orador junto dos seus camaradas cínicos. Tanta foi a vergonha que quis fechar-se para sempre em casa numa derradeira greve de fome. Acabou por ser salvo da morte por Crates, depois de este lhe oferecer tremoços explicando-lhe que um peido era algo de que não devia envergonhar-se por ser a mais natural das manifestações humanas. E então o próprio Crates se peidou.
   Salvo da fome por tremoços, Métrocles fixou-se para sempre na História da Filosofia por um peido. Se julgais, minhas filhas, ser de pouca monta o feito, pensai bem antes de cederdes a julgamentos precipitados. Para nos explicar a relevância da flatulência escreveu Hurtaut A Arte de Dar Peidos (Orfeu Negro, Novembro de 2010). Jorge Lima Alves, no preâmbulo à edição portuguesa, chama-lhe “poeta dos gases” e “sábio da flatulência”, expressões modestas para classificar o verdadeiro alcance deste Ensaio teórico-físico e metódico. São onze capítulos espirituosos e de indubitável rigor científico que esta obra oferece, permitindo-nos, desde logo, entender que «Dar peidos é uma arte e, por conseguinte, algo útil à vida, como afirmam Luciano, Hermógenes, Quintiliano, etc» (p. 19).
   Não sendo fácil cotejar a alusão com as fontes, parece-me compreensível que em nada mudaria nossa opinião acerca destas matérias se concluíssemos que etc jamais proferiu as afirmações que Hurtaut lhe atribui. A verdade é que pelo peido toda a humanidade se liga, sem olhar a género, etnia, estrato social, idade. Trata-se não apenas da mais universal e democrática das manifestações humanas, como também a prova que desmascara as peneiras e desfaz, por assim dizer, a cagança. Da definição alargada de peido ao problema das suas origens, passando pela divisão e estratificação dos mesmos quanto a volume e fragrância, Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaut não esgota o tema assumindo as despesas de um potencial estético que não devemos descurar:

Um cientista alemão propôs uma questão difícil de resolver: saber se é possível haver música nos peidos. Respondemos com convicção: com certeza que há música nos peidos ditongos. Não esse tipo de música que se produz com a boca ou recorrendo a um qualquer artefacto, como um violino, uma guitarra, um cravo, etc., mas a que se obtém soprando, por exemplo, numa trompa ou numa flauta. A fim de provar o que afirmo, citarei o exemplo de dois rapazes que se divertiam, realizando, de vez em quando, concertos singulares, aos quais assisti na minha qualidade de colega de turma dos actores. Um deles arrotava a seu bel-prazer, nos mais variados tons, enquanto o outro se peidava com o mesmo talento. Este último, para dar mais elegância ao seu instrumento, punha no chão da sala uma pequena bacia para coar queijos, sobre a qual estendia uma folha de papel. Sentava-se em cima dela, nu, e, meneando as nádegas, soltava sons orgânicos de todo o género. Ouso afirmar que um habilidoso mestre de música poderia ter extraído daqui noções originais e dignas de ser transmitidas à posteridade, e de passarem a figurar nas regras da composição. Poderiam igualmente ser anotadas no modo diatónico, na condição de se proceder por uma dimensão pitagórica.

Das lições que podeis reter deste ensaio satírico, guardai esta: o riso é uma das armas mais eficazes contra o preconceito, faça-se ele ou não acompanhar da música do traseiro.  

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #4


Ingrata é a História ou o historiador, minhas filhas, que à extrema popularidade em vida tem a consagrar na morte pouco mais que lacónica nota de rodapé. Assim sucede a Albino Forjaz de Sampaio, que na História da Literatura Portuguesa (A. J. Saraiva & Óscar Lopes) surge apenas no capítulo V nos termos que a seguir reproduzo: «Albino Forjaz de Sampaio (1884-1949), cuja notoriedade foi granjeada por umas Palavras Cínicas, 1905, sem originalidade, com 63.ª edição em 1978, a que depois opôs uma obra de erudição e exaltação do patriotismo nacional». Esqueçam a segunda parte, fiquem-se pela primeira. Cá por casa sobrevive a 9.ª edição (26.º milhar), ratada e suficientemente maltratada para que vos mereça toda a atenção. E topai como naquele tempo eram aos milhares as edições. Se pretendeis saber um pouco mais acerca deste best-seller português da primeira metade do século XX, podereis dar com ele na História de Portugal dirigida por José Mattoso. Não merecendo na da Literatura mais do que rodapé, na de Portugal tem atenções redobradas ao tomo VI:

Um dos mais espertos literatos desta época, Albino Forjaz de Sampaio, depurou a crítica naturalista de alguns restos de moralismo, e em 1905, aos 20 anos, depois de alguns versos à Nobre, publicou Palavras cínicas, um dos grandes sucessos literários do século XX em Portugal. Protegido de Fialho de Almeida, Sampaio adoptou a maneira desabrida do mestre e atacou os «bons sentimentos», o amor e a amizade, etc., sob o lema «Se não esmagares, serás esmagado». Nos anos seguintes prosseguiu, sempre com êxito, a sua exploração das «sensações fortes», em Crónicas imorais (1908), Lisboa trágica (1910), Prosa vil (1911), reportagens sobre a degradação da vida moderna em Lisboa (como jornalista de A Luta, de Brito Camacho).

À época, A Luta era A Lucta, tal como hoje acto é ato e afecto é afeto. Foi um órgão vinculado ao Partido Unionista (de direita democrática), denegrido como sendo coisa de intelectuais. Por ser de direita, podia ser desaconselhável. Por ser de intelectuais, evitável a todo o custo. Ficai sabendo, minhas filhas, que neste nosso querido país ser alguém chamado de intelectual é grave insulto, mais que ser-se estúpido ou filho da puta (neste caso pode até ser sinal de esperteza, a virtude predilecta dos portugueses). Mas o êxito impõe respeito, mesmo não garantindo admiração. A par de Júlio Dantas, foi Forjaz de Sampaio um dos autores portugueses que mais vendeu naqueles tempos. Do pessimismo inicial ao optimismo de Porque me orgulho de ser português 6000 exemplares em poucos meses, com fortes elogios do PR Bernardino Machado, de Gago Coutinho, do próprio Dantas, de Sebastião Magalhães Lima (grão-mestre da maçonaria) e de Fernando de Sousa (importante jornalista) , merece a pena ter em conta as subtilezas do tacticista:

A sua mensagem era simples: «Céu, mar, terra, mulheres, canções não há no mundo como o nosso Portugal.» E, alegremente, tratou de pilhar os conhecimentos acumulados pelos «nacionalistas» para provar como o céu de Portugal é mais azul, a mulher portuguesa a mais «feminina da Europa», etc..

Optimismo cínico, mero oportunismo, ou jogo de conveniências, o que importa salientar é o jogo de anca deste notável histrião das letras portuguesas. O leitor comia por vibrar com o escândalo, Forjaz de Sampaio servia-o requentado e com temperos inigualáveis. Acabou a chamar «poeta dos snobs» a António Nobre (homem rico, mandrião, egoísta, vadio, desenraizado, preocupado com a sua dor, indiferente à dos outros, foram outros epítetos que atribuiu ao autor de ), dedicando ao louco Ângelo de Lima palavras de ternura. Nas Palavras Cínicas podeis encontrar muito do seu pensamento, quase sempre revirado pela ironia, contaminado por uma vontade de denunciar em breves cartas muitos e longos vícios. Ficai com um aforismo de exemplo, colhido logo na primeira para dar o tom do que se segue:

De trinta mendigos a quem dei esmola hão-de nascer noventa patifes para me apedrejar.

Se discutíveis são os méritos do escritor, na aritmética não podemos dizer que tenha falhado.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #3


Já vos tendo falado dos discursos de Tuiavii, a que atempadamente pretendo regressar. Quero agora prevenir-vos contra a arte do discurso. Tende a máxima cautela perante compilações tais como “121 Discursos Que Mudaram o Mundo”, “50 Grandes Discursos da História”, “Grandes Discursos da História” e outros que tais. Nessas obras puramente retóricas podeis dar conta de como de palavras está o Inferno cheio, tomando-se aqui a Terra em que vivemos pelas caldeiras de Mefistófeles. Se no discurso vigora a arte de persuadir, nos ouvidos do auditório é bom que vigore a arte de resistir. Cânticos de sereia é o que não falta por onde quer que andemos, no mar ou em terra. E há delas, as mais perigosas, que vestem batina. 
Entre os discursos que vos aconselho está o “Discurso Sobre o Filho-da-Puta”, saído da pena inspirada de Alberto Pimenta (n. 1937). Este homo sapiens que nos idos de 1977 se enjaulou no Palácio dos Chimpanzés, em pleno Zoológico de Lisboa, é dos poucos entre nós que vale a pena escutar sem filtros. Desse gesto performativo retiramos, aliás, sinal daquele cibo de inteligência que leva a considerar o homem o derradeiro estádio na longa evolução dos símios (a qual pode ser entendia no sentido inverso ao comummente e cientificamente propagado). No “Discurso Sobre o Filho-da-Puta” esse sinal agrava-se, quer pela acutilância do pensamento, quer pela pertinência do diagnóstico:

É longa, muito longa, a lista do que pode fazer um filho-da-puta especializado em fazer: desde normas e adendas e emendas de formas, até decretos oblíquos e rectos, e despachos discretos, não há nada, não há praticamente nada que um filho-da-puta especializado em fazer não possa fazer. Em toda a parte, um filho-da-puta especialuizado em fazer encontra ocasião de fazer o que deseja fazer. Desde legislação geral sobre a vida, e respectivos despachos normativos, até à gestão de eventuais e efectivos, passando pela criação e fomento dos «temas voltados para a formação específica e complementar de técnicos vocacionados para a área em questão», ou seja, por manobras de diversão e investimentos complementares, não há nada que o filho-da-puta exclua do seu método de «sensibilização».

   Esta é uma obra preventiva que ajuda a gerar e reforçar resistências contra aquilo a que certo poeta chamou de “burrocracia”, neologismo do nosso tempo que atribui ao comportamento predilecto dos chatos o qualificativo que melhor lhe convém. Ao longo das vossas vidas, poucas personalidades ides encontrar mais perigosas do que aquelas com tomates de burro atacados por chatos. Portanto, preveni-vos. Há deles aos pontapés no nosso país. Agradecei à tia Manuela este exemplar que vos lego. Foi-lhe gamado com muito carinho.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #2



Tão útil quanto uma enciclopédia, que não esgota a sabedoria mas garante boa figura, é um dicionário. A indispensabilidade da ferramenta obriga a critérios rigorosos de selecção, os quais deverão ter em conta, antes de mais, os pergaminhos do organizador e o fontanário de significados. Deve ser usado com rigor e prudência, parcimoniosamente, de modo a não desgastar eventuais interlocutores sintonizados em frequências distintas da nossa. Como neste mundo em que vivemos Deus é quem vigora, para mal dos nossos pecados comandando à hipocrisia quem na terra lhe obedeça, manda a inteligência que dominemos a linguagem do seu mais vetusto oponente. Assim sendo, minhas filhas, deixo-vos de herança o “Dicionário do Diabo”, com o qual e através do qual podeis desbravar caminho para que vossos bondosos corações toquem vossas inocentes inteligências. Lede com atenção este Dicionário e rapidamente estareis munidas de material para a vida e, quem sabe, para a morte. Ora dizei lá uma palavra começada pela letra A:

AMOR, n. Demência temporária que se cura com o casamento, ou afastando o paciente das influências que provocaram a enfermidade. Esta doença, tal como a cárie e outras, prevalece apenas entre as raças civilizadas que vivem em condições artificiais; as nações bárbaras que respiram ar puro e comem alimentos simples são imunes aos seus ataques. Chega a ser fatal, embora mais para o médico do que para o paciente.

Ora experimentai outra começada por L:

LIBERDADE, n. Um dos bens mais valiosos da Imaginação.

           O povo insurgido, exaltado e forte,
Gritava para o palácio: «Liberdade ou morte!»
«Se é a morte que quereis, deixai-me reinar»,
Disse o Rei, «pois não tereis mais que vos queixar.»
                                                               Martha Braymance

Tão valorosa investigação devemo-la, por ironia, a um norte-americano. Nem tudo o que provém das terras do Demo é mau, apesar de por lá jurarem com as patas sobre a Bíblia (obra a todos os títulos desaconselhável). Ambrose Bierce (n. 1842), desaparecido no México (boas terras) em 1914, vendeu a alma ao chifrudo durante 3 décadas, tendo originalmente compilado o pensamento do mestre em 1911 (em 1906, surgiu uma primeira versão com outro título). Por cá, só conheço uma edição truncada, a da Tinta-da-china, que é de Janeiro de 2006 e foi prefaciada pelo estimável Pedro Mexia (católico, conservador, pessimista, não necessariamente por esta ordem). Ora digam lá uma palavra começada por P:

PESSIMISMO, n. Uma filosofia que se impõe às convicções do observador devido à preponderância desanimadora do optimista, com a sua esperança idiótica e o seu sorriso disforme.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #1



Para a Matilde & para a Beatriz.

Como a biblioteca cá de casa não pára de crescer, fazendo parecer que a casa não pára de encolher, surgiu a ideia de antecipar as partilhas. Vou oferecer 100 livros às minhas filhas, na esperança de que possam contribuir para a sua educação. Serão 100 manuais escolares de insuspeito valor pedagógico. Começo por uma enciclopédia. É sempre útil e sinal de inteligência trazer uma enciclopédia à mão, desde logo porque, não sendo muito inteligentes, as pessoas munidas de enciclopédias sugerem um conhecimento e domínio das matérias capaz de impressionar e convencer. Entre muitas e diversas, a mais útil de todas é a “Antologia do Humor Negro” organizada por André Breton. Dizem as boas línguas que o autor tinha mau feitio, queria o surrealismo todo para ele. Que lhe tenha caído bem no estômago é o que desejamos. Por cá, o livro saiu com a famigerada chancela das Edições Afrodite (um amor de chancela). Ficai atentas, queridas filhas, desde logo aos tradutores. Tudo gente de boa cepa: Aníbal Fernandes (é tanto o que lhe devemos que nem com Estádio da Luz pejado de euros lhe pagaríamos), Ernesto Sampaio (autor do mais belo livro de amor), Luísa Neto Jorge (tenha s, tenha z, uma poeta do… vocês sabem do quê), Manuel João Gomes (traduziu os melhores), Jorge Silva Melo (vosso pai já lhe disse, com cara de parvo, que o admira como a poucos)… Se os tradutores são janelas abertas para o mundo inteiro, topem o mundo: Alfred Jarry (a seu tempo, hei-de apresentar-vos ao rei Ubu), Swift (gigante entre anões), Rimbaud (aquele que escreveu tudo enquanto o diabo esfrega um olho), Baudelaire (quando fomos a Paris, deixámos-lhe uma flor do mal no túmulo), Poe (o do corvo e das pessoas enterradas vivas), Kafka (o das pessoas transformadas em bichos), Isidore Ducasse (cuidado com este), Sade (ainda mais cuidado com este), Duchamp (o da obra de arte para fazer xixi), Lewis Carroll (este vocês sabem)… e tantos, tantos, tantos outros que deveis explorar, visitar, com os quais podeis e deveis dialogar, porque tendes muito a aprender sobre coisas tão básicas como ser-se livre, que é uma forma de se ser maluco nesta sociedade que impõe que sejamos rectos à maneira de quem deixa a parte terminal, posterior, do tubo intestinal, à disposição dos mandantes. Podeis aqui aprender coisas elementares, mas esquecidas: «Os abetos que se usam para fazer caixões são plantas de folha verde e perene» (Xavier Forneret). Só a morte é para a eternidade, que entremos nela no melhor dos confortos é o desejo dos parvos. O mais vulgar dos desejos. Mas falemos de matéria positiva, que a procissão ainda vai no adro. Sobre um tal de Jean-Pierre Brisset, lembra o arcebispo Breton: «A ideia mestra de Jean-Pierre Brisset é a seguinte: «A palavra que é Deus conservou dentro das suas obras a história do género humano, desde o seu dia primeiro; e, em cada idioma, a história década povo, com tal segurança e tal irrefutabilidade que confunde os simples e os sábios». Para começar, a análise das palavras permite-lhe estabelecer que o homem descende da rã. Essa descoberta, que ele tenta legitimar e seguidamente explorar através de um jogo de associações verbais de uma riqueza inaudita, vem corroborar, a seu favor, a constatação anatómica de que «o sémen humano visto ao microscópio dá a aparência de um charco de água cheio de girinos, cuja forma e aspecto os pequenos seres existentes nesse mesmo sémen nos recordam, sem tirar nem pôr». Portanto, que mais precisamos nós de saber para a vida acerca da vida senão que descendemos de rãs, e que tudo isto que tanto nos faz sofrer não passa de um charco onde chafurdam girinos, que somo nós?