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segunda-feira, 5 de outubro de 2020

OS LUGARES DA POESIA


Poesia, um dia
Residências literárias dirigidas por Jaime Rocha
Biblioteca Municipal de Vila Velha de Ródão
Direcção de Graça Baptista
Os Lugares da Poesia
Colecção de postais comemorativa do 12.º aniversário da BMJBM e da 9.ª edição do encontro Poesia, Um Dia
Edição do Município de Vila Velha de Ródão


Vila Velha de Ródão (com fotografia de Ricardo São Pedro), Esqueleto (com fotografia de Estela Figueiredo), poemas postais.

domingo, 4 de outubro de 2020

O PALHINHAS & CA.

 


O Palhinhas & Ca. 
colecção periódicos locais/mensais
número 64
directório colectivo: José de Matos-Cruz, Joaquim Jordão, António Viana, Álvaro Biscaia
30 de Setembro de 2020
 
Estamos Vivos, p. 4.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

GAZETA DAS CALDAS

 


Gazeta das Caldas
95 anos
Director Convidado: Carlos Querido
1 de Outubro de 202
Ilustração na capa de André Carrilho


Parábola dos calhaus, Namorados, Abrigo, pp. 8-10.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

POEMAS DA MULHER E DO NÁUFRAGO


 Poemas da Mulher e do Náufrago
Jaime Rocha

com textos críticos de Manuel de Freitas, João Barrento, João Paulo Sousa, Henrique Manuel Bento Fialho e José Mário Silva
edição conjunta
volta d'mar e Biblioteca da Nazaré
Setembro de 2020


Do luto que se prolonga na espera, pp. 68-69.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O PALHINHAS & CA.


 O Palhinhas & Ca. 
colecção periódicos locais/mensais
número 63
directório colectivo: José de Matos-Cruz, Joaquim Jordão, António Viana, Álvaro Biscaia
24 de Agosto de 2020


Deve ser isso, p. 5.

domingo, 23 de agosto de 2020

PARA MAIORES DE 18 ANOS


 

Call Center passou a constar nas intermináveis listas do Plano Nacional de Cultura. É para maiores de 18, como aqui se refere. Informa o editor que estará disponível na Feira do Livro de Lisboa, no pavilhão D35 da editora Livros de Bordo. Não precisam mostrar o cartão de cidadão para comprar. 

terça-feira, 18 de agosto de 2020

ASSINADO

 Carta aberta dos escritores portugueses


contra o racismo, a xenofobia e o populismo

e em defesa de uma cultura e de uma sociedade livres, plurais e inclusivas.


(aqui)

sábado, 8 de agosto de 2020

quarta-feira, 27 de maio de 2020

PROCESSO DE DESCONFINAMENTO EM CURSO



Dia 2 retomaremos a conversa como ela deve ser, olhos nos olhos. Sala devidamente preparada, de acordo com as novas regras e sugestões da DGS. Façam a vossa reserva, apareçam.

Avisam-se os nossos espectadores assíduos que é obrigatória a reserva prévia dos lugares e que a lotação será de um terço da sala — cerca de 20 lugares — sendo que a implantação das cadeiras (somos especialistas de mises en place) respeita os 2 metros da praxe, assim como os canais de circular serão estabelecidos racionalmente, contando com a colaboração activa dos espectadores neste “jogo” das distâncias e direcções da respiração mascarada — o jogo do desconfinamento.

Entrada Livre. Lotação reduzida a 20 lugares.
Informações: 262 823 302 | 966 186 871 | comunicacao@teatrodarainha.pt


quarta-feira, 20 de maio de 2020

TORPOR




Logo, pelas 20h20m, deste dia 20 de 2020. Ide espreitar que promete: a Torpor “viverá” em www.torpor.abysmo.pt.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

O DIREITO À POESIA



E aqui leio um poema meu. Foi publicado originalmente acolá.

domingo, 1 de março de 2020

A KODAC FALIU. TAMBÉM O DICK, O CÃO DA MINHA INFÂNCIA


A Kodac Faliu. Também o Dick, o Cão da Minha Infância
António Cabrita

Vozes gráficas de Carlos Ferreiro, Cecília Costa, Engrácia Cardoso, Isabel de Sá, João Queiroza, Maria Leonardo Cabrita, Patrícia Guimarães, Teresa Carvalho e Tiago Baptista.
Paginação binária e grafismo de Paulo da Costa Domingos.
Barco Bêbado
Janeiro de 2020

Antelóquio de Henrique Manuel Bento Fialho: "Um dia ofereceram-me um bonsai", pp. 7-16.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

PECADOS CORRENTES


Pecados Correntes
Coordenação de Manuela Costa Ribeiro
Edição de Município da Póvoa do Varzim
Vários Autores

The People Vs. Larry Flynt, pp. 76-77.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

3 FORMAM UM PERFEITO PAR






Há dias recebi cá por casa o José Carlos Tinoco e a Cláudia Novais. Falámos sobre coisas. Aí tendes o resultado. Lamento ter-me esquecido de limpar o pó aos quadros. Ninguém vai reparar, tanta é a eloquência sob cabeleira desgrenhada. P.S.: aquela conversa das objectivas nos engordarem 10kg é falsa, na verdade engordam 20kg.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

EL PUCHERO MISTERIOSO



Não sei quando chegaram os telemóveis à Argentina, mas não deve ter sido muito antes de terem chegado a Portugal. O mundo moderno é deveras imparcial na distribuição que opera dos produtos da sua amada revolução (refiro-me à tecnológica). Penso nisto por causa de um poema do argentino Raúl González Tuñón, que morreu no ano em que eu nasci: 1974. O poema chama-se “El Puchero Misterioso”, refere-se a uma hospedaria desaparecida ao tempo de Tuñón. Puchero pode referir-se a muitas coisas, a um guisado, a fazer beicinho, a uma espécie de tijela ou púcara, pode ser a comida do dia-a-dia. Para o caso importa o tom nostálgico do poema, a referência a algo que desapareceu acompanhada de uma espécie de inventário de memórias pessoais, coisas e hábitos caídos em desuso, como os amigos, os cocheiros, a boémia, os encontros, a confraternização que diariamente sucedia no “Puchero Misterioso”. O leitor adquire por este lugar a mesma afeição que tem pelos lugares desaparecidos da sua infância. Torna-se mistério como enigmáticos são os fantasmas. Eu lembrei-me de imediato da taberna da Dona Ilda, num bairro onde os meus pais viviam, onde bebi a primeira ginja com a idade hoje absolutamente proibitiva de para aí uns 8 ou 9 anos. O poema é sobre os “verdes anos”, expressão que de resto surge num verso, é sobre a “nostalgia enquanto quarto habitado pelo insone”. Mas se fosse apenas isso, seria como inúmeros outros poemas voltados para o passado, mais ou menos atormentados com o que se perde e não se recupera, profissões desaparecidas, objectos com elas caídos em desuso, hábitos, costumes e tradições fossilizados, espécies extintas, sinais de uma ruína continuamente produzida pela passagem do tempo. Não é apenas isso o poema, o remate finta a história, trama-nos o sentimento. Passo a citar, segundo tradução minha dos derradeiros três versos: «Tudo se perdeu, tudo, menos o que virá. / E a chuva, os circos, a esperança, / o carteiro». Estávamos em 1974, o carteiro ainda chega e circos não faltam. Para todos os gostos. Apesar das alterações climáticas, rogamos por chuva como outrora rogávamos. Raúl González Tuñón não falhou nos vaticínios, embora nos obrigue a perguntar pelo que fizemos da esperança. Por esta entendo uma espécie de confiança no futuro, o optimismo da vontade que certo intelectual italiano apregoava, pela esperança entendo o contrário de fé. O que esta tem de desespero, aquela tem de confiança. À entrada do terceiro anel deste Diga 33, esboçado em 2018 e desenhado em 2019, julgo eu termos chegado ao momento da coloração. Tínhamos o propósito inicial que continuamos a ter, fazer da poesia um estímulo para a reflexão acerca deste nosso tempo tão pouco dado a reflexões. Fazemos o caminho na companhia daqueles que diariamente insistem nesta forma de arte, os autores, os editores, não por julgarmos que são melhores do que os outros, mas por confiarmos na sua teimosia. Procurámos fazer do Teatro da Rainha, pelo menos uma vez por mês, o “Puchero Misterioso” onde se dá esta coisa fantástica das pessoas prescindirem um pouco da sua contemporaneidade, para penetrarem numa outra espécie de futuro, um futuro paradoxal, aquele em que tornaremos a voltar costas ao sedentarismo quotidiano, saindo de casa porque, isto sou eu a profetizar, as paredes das casas tornar-se-ão absolutamente sufocantes. Tenho esta mania de que as pessoas hão-de gostar de voltar a estar umas com as outras, não apenas como quem se permite substituir emoções por emojis, mas como quem abraça de facto o outro, como quem cheira e toca e sente, corpo a corpo, olhos nos olhos. É este o futuro que pretendemos, tendo esperança de que a poesia e o teatro possam ser a ponte que a tal nos levará, pois se há coisa que o passado mostra é que, em matéria de poesia e de teatro, nem tudo se perdeu. Certos lugares de resistência continuam a resistir. A poesia segue dentro de momentos. Tudo se perdeu, menos o que virá.

Henrique Manuel Bento Fialho
05/Janeiro/2020

sábado, 18 de janeiro de 2020

OS GRANDES ANIMAIS


   Com o passar dos anos, depois de ter sido várias vezes chamado a apresentar as obras dos meus pares, sobram-me dúvidas acerca da função daquele que se acha na posição em que agora me encontro. Como apresentar um livro de poesia? Mais fácil seria discuti-lo, se pela frente tivéssemos interlocutores com quem pudéssemos trocar impressões de leitura. Mas como apresentá-lo a quem o desconheça, a quem o não tenha lido, a quem não tenha dele senão os efeitos causados pelo nome de um autor, pelo selo de uma editora ou pelas cores de uma capa? A idade só me tem trazido dúvidas. Apesar das convicções de que não abro mão, talvez a única certeza que o tempo vem consolidando em mim seja esta de que temos muito mais a ganhar com a permeabilidade da dúvida do que com a inflexibilidade dos preconceitos. É isto o que digo às minhas filhas, sem pretender fazer disso sermão.
  A Matilde, que anda a estudar epistemologia, questionava-me há dias sobre o conceito de verdade em Karl Popper. Respondi-lhe o melhor que sabia, não lhe revelando, porém, que nunca me entusiasmei com Karl Popper. Preferia o austríaco Paul Karl Feyerabend, talvez influenciado pelo tom provocador de títulos tais como “Contra o Método” e “Adeus à Razão”. Foi através deste que tomei conhecimento de uma história deliciosa, e que passo a partilhar:

   Dario, rei da Pérsia, convocou os gregos presentes na sua corte para lhes perguntar por quanto dinheiro seriam capazes de comer os cadáveres dos seus pais. Escandalizados, os gregos responderam que dinheiro algum poderia fazê-los comer os cadáveres dos seus pais. Depois chamou uns indianos, de uma tribo que tinha por hábito comer os cadáveres dos pais, e perguntou-lhes quanto é que eles queriam para os incinerar em vez de os comer. Os indianos escandalizaram-se em coro. Como era possível tamanha afronta, sugerir que esturrassem os cadáveres dos pais?

   Esta história, originalmente narrada por Heródoto, ilustra a força e o poder do costume junto de uma comunidade, exactamente o mesmo poder e a mesma força que o hábito exerce nas nossas vidas, alimentando amiúde preconceitos e ideias feitas acerca dos hábitos dos outros, levando à censura do diferente sem sequer nos darmos conta de que a alteridade não tem uma única direcção. Para o outro… eu sou um outro.
   E que tem isto que ver com um livro de poemas? Que tem isto que ver com este livro de poemas em concreto? Tudo, na minha opinião. O livro é o “outro” diante do qual eu me encontro, restando-me duas possibilidades: abro-me à sua diferença e busco compreendê-lo na sua natureza própria ou fecho-me interpretando-o à luz dos meus hábitos, dos meus costumes, das tradições por mim respeitadas, dos meus credos, das minhas convicções, dos meus preconceitos? Suponho preferível a primeira hipótese, pois ela desfecha o campo que torna possível o “encontro inesperado do diverso” (título de um livro de Maria Gabriela Llansol que bem devia ser máxima de vida nos dias que correm).
   Não se espere de mim senão que favoreça esse lugar de encontro com o diverso, sublinhando as impressões de uma leitura que, sem procurar definir, tenta compreender, como era desejável que gregos e indianos procurassem compreender-se em matéria do destino a dar aos cadáveres de seus pais. Quero, desde já, falar-vos deste título, “Os Grandes Animais”, o qual foi pedido de empréstimo a um poema arrumado na primeira de cinco partes que dão corpo ao livro. A epígrafe de Albert Camus indica-nos o caminho: «Ser senhor dos seus humores é o privilégio dos grandes animais.» Provém esta frase de um livro intitulado “A Queda”, publicado em 1956, quando o seu autor tentava mediar os partidos em confronto na guerra da Argélia. Gregos e indianos, o que fazer com os cadáveres de nossos pais?
   A intenção de pôr a dialogar famílias desavindas levou Camus a experimentar o sabor amargo do fracasso, pelo que acabou por se decidir por um monólogo. O título “A Queda” pode ter inúmeros significados, remetendo tanto para o mito de Ícaro como para o pecado original no Antigo Testamento. As ressonâncias bíblicas não são estranhas à poesia de Inês Fonseca Santos, que neste poema, “Os Grandes Animais”, desloca o leitor para Auschwitz-Birkenau com uma pergunta fundamental: que quis Deus com os campos de concentração? Gosto de poemas que fazem perguntas, mais ainda se forem as perguntas certas. A última estrofe oferece-nos uma imagem do papel ocupado pela humanidade neste teatro de operações que é a vida: «Ah, os grandes animais: não o cavalo / que cospe quem o monta, mas a barata / que silenciosamente escapa / ao pé que a pisa» (p. 19).
   Sendo este livro de uma grande diversidade nos temas e na forma, nele se coligindo, tanto quanto pude perceber, alguns inéditos e uma maioria poemas dispersos, parece-me que um ponto de partida sólido para a sua compreensão é, por um lado, a vontade de problematizar o tema da morte na sua relação com a face mais débil e mais visível da existência humana e, por outro, explorar a noção de poema enquanto fixação de uma experiência, de uma ideia, de uma reflexão, já não sujeitos às contingências da idade e da passagem do tempo. A noção da morte, a própria palavra morte, enraíza uma espécie de fé no poema enquanto “cura contra o esquecimento”, pelo que se confere às palavras um poder que pode ser tão fundador (quando a palavra é raiz) quão destrutivo (quando a palavra é bala e, por isso, ameaça e fere).
   Do poeta espera-se que dê peito às palavras, como quem dá peito às balas, que se coloque defronte ao mundo, ao seu tempo, à História, «Sem colete à prova da palavra» (p. 17). A Inês não falha nas expectativas, também ela carrega uma bagagem de dúvidas à medida que se desloca no tempo e no espaço. Tem consciência dos nomes que perduram para lá de uma existência concebível, entre os quais os das personagens bíblicas evocadas serão mistério jamais decifrável; não se furta ao exercício de se pensar nos seus lugares mais próximos e íntimos, acolhendo no interior do poema os elementos de uma genealogia pessoal, mas transmissível; cede até, por vezes, a um tom confessional que não prescinde de se olhar com ironia e autocrítica, como quando nos previne, no início de uma “Marcha Nupcial”, que «A infelicidade engorda mais / do que vinte tabletes / de chocolate Regina» (p. 46); ou quando, num belíssimo poema ao 25 de Abril, do conjunto “O Chão dos Teus Lugares.”, diz: «Eu sou uma burguesa endividada, / uma nobre de brasão no prego» (p. 74). Quem assim se expõe não o faz por temer as palavras, mas antes por saber do seu rigor, por compreender a sua natureza, por lhes ter o respeito que nós, que escrevemos poesia, devemos àquilo que nos é mais sagrado.
   Ao rigor na distribuição temática dos poemas devemos acrescentar o risco da disparidade, risco esse que se mantém vivo num universo de leitores de poesia que, contra tudo quanto seria expectável, se conserva altamente faccioso, sectário e estupidamente mesquinho. Pela parte que me toca, devo dizer que entre as obras que mais aprecio estão precisamente aquelas que ou resultam inacabadas (Pessoa é o exemplo mais radical disto mesmo) ou assumiram o tal risco da disparidade (Pessoa é, novamente, o exemplo mais radical disto mesmo), recusando trajar de uniforme onde, pela ordem natural das coisas, era suposto andarmos nus.
   Num livro que ao longo das páginas se vai inclinando para o narrativo, abrigando já no termo do quarto conjunto dois poemas em prosa, é ao texto final que reconheço o maior risco, por nele o poema testar a resistência da sua própria natureza, estendendo ao leitor uma manta de retalhos referencial onde tudo parece caber: diálogo, drama, epístola, conto. Todo o livro foi organizado a partir deste texto final, como alguém que só no fim vislumbra o sentido das etapas pelas quais passou. No interior do epílogo, um tal de Natália adormece um tal de Mário com uma carta encontrada nas “Capelas Imperfeitas” do Mosteiro da Batalha. Despeço-me eu agora com uma carta a Natália, na esperança de que também vós possais adormecer, se estiverdes cansados de me ouvir, ou vos deixeis embalar pelas palavras mantendo vigilantes os sentidos:

Minha querida Natália,

Acabei agora mesmo de comer um livro de poemas, honrando a indicação prescrita em versos por demais conhecidos de uma tua homónima. Estou de barriga cheia. Em tempos também eu ofereci atenção à aurora, a das manhãs cobertas de neblina com outeiros aspergidos de orvalho, a aurora dos sonhos que fazem levantar da cama homens sonolentos, impelidos por horizontes de utopia, a aurora dos rios que correm no sentido contrário dos ponteiros, porventura lembrando-nos que nem tudo quanto passa é passageiro. Vede as caixas de esmola espalhadas pelas paredes da Sé onde em tempos se ajoelharam pecadores, olhai como se mantêm intactas, pelo menos, desde a criação do mundo. Entre a matéria perene do mundo, Natália, esta dor de estarmos sós na dor, de ninguém por nós poder sentir quanto sentimos de paixão por aqui andarmos a espalhar promessas que não cumprimos. Reencontrei algures no livro, agora mesmo acabado de ler, certo poeta britânico que muito estimo. Ouvi falar de Auden, pela primeira vez, numa comédia romântica em que a personagem mais cómica morre com um enfarte: «Pensei que o amor ia durar para sempre: enganei-me», lê-lhe o amante no decorrer do funeral. Creio ser esta transitoriedade aquilo que melhor nos define, e não vislumbro senão sabedoria em que assim seja. Morremos para que se possa perceber quanto de nós merece ser amado, somos o exemplo de que a Natureza ou Deus se servem, não para exercerem qualquer forma de poder, mas para nos fazerem entender a dádiva que é estarmos vivos e podermos dançar embalados pelo silêncio das palavras. Na minha infância havia um quintal, e nele uma árvore de fruto que dava umas pêras muito pequeninas e saborosas. Cresci a escalar o tronco dessa árvore, a imaginar-me Tom Sawyer sentado num dos seus ramos, a fingir ser pássaro ainda antes de ter provado o fruto do pecado. A árvore, Natália, transformou-se desde então para mim no símbolo de uma herança que remonta aos tempos em que Adão e Eva encantavam serpentes. Não sei quanto disto que em mim sinto sentirá a autora dos poemas que acabei de ler, mas desconfio serem da mesma ordem nossas súplicas e orações. Nisto de sermos diferentes há tanto de sermos iguais que, a certa altura, é como se a nossa sombra nos abandonasse para ir ao encontro da luz pelo outro irradiada. O que do passado vamos carregando pela vida é raiz escondida na Terra, para que em nós a Terra se vá renovando com as sementes pelo corpo germinadas. Sobre isto restarão poucas dúvidas. Mas que dizer dos desertos e das árvores ressequidas, que dizer das ruínas onde já não moram senão fantasmas, e dos escombros deixados pela guerra, pelo infortúnio, que dizer da extinção preservada em inventários infindáveis de coisas desaparecidas? Que dizer da tinta a apagar-se no papel? Que dizer da infância que não volta mais? Que dizer do tempo em que éramos felizes, talvez por ainda não termos formada dentro de nós a consciência interna do tempo que tudo torna perecível? Sobre isto, Natália, prefiro o riso a uma terapêutica de lamúrias. Daí que tanto me agrade ouvir-te ecoar, mais ainda nesse estado de gravidez em que te encontravas, que te rias porque tinhas medo. Que razão mais nobre haverá para rir? Se for nosso o medo da morte, riamos dele então. Que a morte nos encontre a rir quando chegar, que ela nos encontre com as mãos cheias de uma terra devastada da qual já não conseguimos senão rir às gargalhadas. Não tem tanta graça este fim? Olha, Natália, nem tudo é desesperante no Novo Mundo. Podemos entreter-nos a ver no YouTube as entrevistas do Tom Waits na década de 1970, a pesquisar na Wikipédia o conteúdo do “Livro de Judite”, a sacar sem censura os filmes de Carl Theodor Dreyer, a acompanhar com os olhos um bailado de Lídia Lopokova. Não são nada desdenháveis as vantagens do mundo moderno, nem que seja para no fim acabarmos a ressonar estúpida e eternamente… enquanto rimos.

Para sempre teu,
Henrique Manuel Bento Fialho
Caldas da Rainha, 16/Janeiro/2020


Nota: texto lido na apresentação de "Os Grandes Animais" (Abysmo, Janeiro de 2020), de Inês Fonseca Santos, a 17/Janeiro/2020, no Bar A Barraca - Teatro Cinearte. 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

LIVROS COM RUM

Podeis escutar aqui (emissão 619) a conversa que tive com António Ferreira, algures em Braga numa tarde de Dezembro passado. "A Festa dos Caçadores" como pretexto, dores fantasma como destino.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

ESTALAGEM




"ESTALAGEM"
Henrique Manuel Bento Fialho

Medula, Outubro de 2019.



"ESTALAGEM", de Henrique Manuel Bento Fialho, tem uma tiragem única de 100 exemplares, 13 dos quais numerados e assinados pelo autor. O livro tem 47 páginas. 8 € e 10€ (numerados e assinados).

Pedidos: medulalivros@gmail.com

Também se encontra disponível na livraria Poesia Incompleta: aqui. Na Paralelo W: aqui. E na Snob: aqui.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

QUASE 45 VERSOS


Só por acaso não nasci preto
desterrado na minha própria terra
nado morto vertido nas águas
e se ao primeiro grito alguém suspirou
não foi de alívio nem de alegria
mas daquela satisfação parva
que qualquer criador sente
quando dá por concluído o telhado
debaixo do qual os residentes
regressam ao útero de suas mães
para que aí possam sentir-se renascidos
mesmo que sabendo-se perecíveis
vindo amiúde à varanda espreitar
o frenesi de um mundo repetitivo
nas catástrofes e nas alegrias
como quando no futuro os filhos folheiam
um álbum virtual de virtuais fotografias
não sentindo já falta da patine
que enruga a superfície das folhas
lhes conferindo o estatuto de vivas

Mas como exigir a alguém
que lá do futuro nos observe
que entenda como nem nós entendemos
quanto de Outono há na Primavera
da folha que em se soltando do ramo
responde aos apelos da terra caindo
e no chão subsiste para que nossos passos
se consolem com a música crepitante
de uma árvore em chamas?

Também nós quando nascemos
trazemos nos genes a sabedoria do futuro
e assim que choramos é como se adivinhássemos
o tempo inteiro num só instante
para que em cada célula
colhamos o universo redundante
disto que é ir por acaso nascendo
para por acaso respirar
até que a terra nos seduza
e nela aprendamos a adormecer
como quem desterrado mergulha
no fundo silêncio das águas vertidas