Com o passar dos anos, depois de ter sido
várias vezes chamado a apresentar as obras dos meus pares, sobram-me dúvidas
acerca da função daquele que se acha na posição em que agora me encontro. Como apresentar
um livro de poesia? Mais fácil seria discuti-lo, se pela frente tivéssemos
interlocutores com quem pudéssemos trocar impressões de leitura. Mas como
apresentá-lo a quem o desconheça, a quem o não tenha lido, a quem não tenha
dele senão os efeitos causados pelo nome de um autor, pelo selo de uma editora
ou pelas cores de uma capa? A idade só me tem trazido dúvidas. Apesar das
convicções de que não abro mão, talvez a única certeza que o tempo vem
consolidando em mim seja esta de que temos muito mais a ganhar com a
permeabilidade da dúvida do que com a inflexibilidade dos preconceitos. É isto o
que digo às minhas filhas, sem pretender fazer disso sermão.
A Matilde, que anda a estudar epistemologia,
questionava-me há dias sobre o conceito de verdade em Karl Popper. Respondi-lhe
o melhor que sabia, não lhe revelando, porém, que nunca me entusiasmei com Karl
Popper. Preferia o austríaco Paul Karl Feyerabend, talvez influenciado pelo tom
provocador de títulos tais como “Contra o Método” e “Adeus à Razão”. Foi através
deste que tomei conhecimento de uma história deliciosa, e que passo a partilhar:
Dario, rei da Pérsia, convocou os gregos
presentes na sua corte para lhes perguntar por quanto dinheiro seriam capazes
de comer os cadáveres dos seus pais. Escandalizados, os gregos responderam que
dinheiro algum poderia fazê-los comer os cadáveres dos seus pais. Depois chamou
uns indianos, de uma tribo que tinha por hábito comer os cadáveres dos pais, e
perguntou-lhes quanto é que eles queriam para os incinerar em vez de os comer.
Os indianos escandalizaram-se em coro. Como era possível tamanha afronta,
sugerir que esturrassem os cadáveres dos pais?
Esta história, originalmente narrada por
Heródoto, ilustra a força e o poder do costume junto de uma comunidade,
exactamente o mesmo poder e a mesma força que o hábito exerce nas nossas vidas,
alimentando amiúde preconceitos e ideias feitas acerca dos hábitos dos outros, levando
à censura do diferente sem sequer nos darmos conta de que a alteridade não tem
uma única direcção. Para o outro… eu sou um outro.
E que tem isto que ver com um livro de
poemas? Que tem isto que ver com este livro de poemas em concreto? Tudo, na
minha opinião. O livro é o “outro” diante do qual eu me encontro, restando-me
duas possibilidades: abro-me à sua diferença e busco compreendê-lo na sua
natureza própria ou fecho-me interpretando-o à luz dos meus hábitos, dos meus costumes,
das tradições por mim respeitadas, dos meus credos, das minhas convicções, dos
meus preconceitos? Suponho preferível a primeira hipótese, pois ela desfecha o
campo que torna possível o “encontro inesperado do diverso” (título de um livro
de Maria Gabriela Llansol que bem devia ser máxima de vida nos dias que
correm).
Não se espere de mim senão que favoreça esse
lugar de encontro com o diverso, sublinhando as impressões de uma leitura que,
sem procurar definir, tenta compreender, como era desejável que gregos e
indianos procurassem compreender-se em matéria do destino a dar aos cadáveres
de seus pais. Quero, desde já, falar-vos deste título, “Os Grandes Animais”, o
qual foi pedido de empréstimo a um poema arrumado na primeira de cinco partes
que dão corpo ao livro. A epígrafe de Albert Camus indica-nos o caminho: «Ser
senhor dos seus humores é o privilégio dos grandes animais.» Provém esta frase de
um livro intitulado “A Queda”, publicado em 1956, quando o seu autor tentava
mediar os partidos em confronto na guerra da Argélia. Gregos e indianos, o que
fazer com os cadáveres de nossos pais?
A intenção de pôr a dialogar famílias
desavindas levou Camus a experimentar o sabor amargo do fracasso, pelo que acabou
por se decidir por um monólogo. O título “A Queda” pode ter inúmeros
significados, remetendo tanto para o mito de Ícaro como para o pecado original
no Antigo Testamento. As ressonâncias bíblicas não são estranhas à poesia de
Inês Fonseca Santos, que neste poema, “Os Grandes Animais”, desloca o leitor para
Auschwitz-Birkenau com uma pergunta fundamental: que quis Deus com os campos de
concentração? Gosto de poemas que fazem perguntas, mais ainda se forem as
perguntas certas. A última estrofe oferece-nos uma imagem do papel ocupado pela
humanidade neste teatro de operações que é a vida: «Ah, os grandes animais: não
o cavalo / que cospe quem o monta, mas a barata / que silenciosamente escapa /
ao pé que a pisa» (p. 19).
Sendo este livro de uma grande diversidade
nos temas e na forma, nele se coligindo, tanto quanto pude perceber, alguns inéditos
e uma maioria poemas dispersos, parece-me que um ponto de partida sólido para a
sua compreensão é, por um lado, a vontade de problematizar o tema da morte na
sua relação com a face mais débil e mais visível da existência humana e, por
outro, explorar a noção de poema enquanto fixação de uma experiência, de uma
ideia, de uma reflexão, já não sujeitos às contingências da idade e da passagem
do tempo. A noção da morte, a própria palavra morte, enraíza uma espécie de fé
no poema enquanto “cura contra o esquecimento”, pelo que se confere às palavras
um poder que pode ser tão fundador (quando a palavra é raiz) quão destrutivo (quando
a palavra é bala e, por isso, ameaça e fere).
Do poeta espera-se que dê peito às palavras,
como quem dá peito às balas, que se coloque defronte ao mundo, ao seu tempo, à
História, «Sem colete à prova da palavra» (p. 17). A Inês não falha nas
expectativas, também ela carrega uma bagagem de dúvidas à medida que se desloca
no tempo e no espaço. Tem consciência dos nomes que perduram para lá de uma
existência concebível, entre os quais os das personagens bíblicas evocadas
serão mistério jamais decifrável; não se furta ao exercício de se pensar nos
seus lugares mais próximos e íntimos, acolhendo no interior do poema os
elementos de uma genealogia pessoal, mas transmissível; cede até, por vezes, a
um tom confessional que não prescinde de se olhar com ironia e autocrítica,
como quando nos previne, no início de uma “Marcha Nupcial”, que «A infelicidade
engorda mais / do que vinte tabletes / de chocolate Regina» (p. 46); ou quando,
num belíssimo poema ao 25 de Abril, do conjunto “O Chão dos Teus Lugares.”,
diz: «Eu sou uma burguesa endividada, / uma nobre de brasão no prego» (p. 74). Quem
assim se expõe não o faz por temer as palavras, mas antes por saber do seu
rigor, por compreender a sua natureza, por lhes ter o respeito que nós, que
escrevemos poesia, devemos àquilo que nos é mais sagrado.
Ao rigor na distribuição temática dos poemas
devemos acrescentar o risco da disparidade, risco esse que se mantém vivo num
universo de leitores de poesia que, contra tudo quanto seria expectável, se
conserva altamente faccioso, sectário e estupidamente mesquinho. Pela parte que
me toca, devo dizer que entre as obras que mais aprecio estão precisamente
aquelas que ou resultam inacabadas (Pessoa é o exemplo mais radical disto
mesmo) ou assumiram o tal risco da disparidade (Pessoa é, novamente, o exemplo
mais radical disto mesmo), recusando trajar de uniforme onde, pela ordem
natural das coisas, era suposto andarmos nus.
Num livro que ao longo das páginas se vai
inclinando para o narrativo, abrigando já no termo do quarto conjunto dois
poemas em prosa, é ao texto final que reconheço o maior risco, por nele o poema
testar a resistência da sua própria natureza, estendendo ao leitor uma manta de
retalhos referencial onde tudo parece caber: diálogo, drama, epístola, conto. Todo
o livro foi organizado a partir deste texto final, como alguém que só no fim
vislumbra o sentido das etapas pelas quais passou. No interior do epílogo, um
tal de Natália adormece um tal de Mário com uma carta encontrada nas “Capelas
Imperfeitas” do Mosteiro da Batalha. Despeço-me eu agora com uma carta a
Natália, na esperança de que também vós possais adormecer, se estiverdes
cansados de me ouvir, ou vos deixeis embalar pelas palavras mantendo vigilantes
os sentidos:
Minha
querida Natália,
Acabei
agora mesmo de comer um livro de poemas, honrando a indicação prescrita em versos
por demais conhecidos de uma tua homónima. Estou de barriga cheia. Em tempos
também eu ofereci atenção à aurora, a das manhãs cobertas de neblina com
outeiros aspergidos de orvalho, a aurora dos sonhos que fazem levantar da cama
homens sonolentos, impelidos por horizontes de utopia, a aurora dos rios que
correm no sentido contrário dos ponteiros, porventura lembrando-nos que nem
tudo quanto passa é passageiro. Vede as caixas de esmola espalhadas pelas
paredes da Sé onde em tempos se ajoelharam pecadores, olhai como se mantêm
intactas, pelo menos, desde a criação do mundo. Entre a matéria perene do
mundo, Natália, esta dor de estarmos sós na dor, de ninguém por nós poder
sentir quanto sentimos de paixão por aqui andarmos a espalhar promessas que não
cumprimos. Reencontrei algures no livro, agora mesmo acabado de ler, certo
poeta britânico que muito estimo. Ouvi falar de Auden, pela primeira vez, numa
comédia romântica em que a personagem mais cómica morre com um enfarte: «Pensei
que o amor ia durar para sempre: enganei-me», lê-lhe o amante no decorrer do
funeral. Creio ser esta transitoriedade aquilo que melhor nos define, e não
vislumbro senão sabedoria em que assim seja. Morremos para que se possa
perceber quanto de nós merece ser amado, somos o exemplo de que a Natureza ou
Deus se servem, não para exercerem qualquer forma de poder, mas para nos
fazerem entender a dádiva que é estarmos vivos e podermos dançar embalados pelo
silêncio das palavras. Na minha infância havia um quintal, e nele uma árvore de
fruto que dava umas pêras muito pequeninas e saborosas. Cresci a escalar o
tronco dessa árvore, a imaginar-me Tom Sawyer sentado num dos seus ramos, a
fingir ser pássaro ainda antes de ter provado o fruto do pecado. A árvore,
Natália, transformou-se desde então para mim no símbolo de uma herança que remonta
aos tempos em que Adão e Eva encantavam serpentes. Não sei quanto disto que em
mim sinto sentirá a autora dos poemas que acabei de ler, mas desconfio serem da
mesma ordem nossas súplicas e orações. Nisto de sermos diferentes há tanto de
sermos iguais que, a certa altura, é como se a nossa sombra nos abandonasse
para ir ao encontro da luz pelo outro irradiada. O que do passado vamos
carregando pela vida é raiz escondida na Terra, para que em nós a Terra se vá
renovando com as sementes pelo corpo germinadas. Sobre isto restarão poucas
dúvidas. Mas que dizer dos desertos e das árvores ressequidas, que dizer das
ruínas onde já não moram senão fantasmas, e dos escombros deixados pela guerra,
pelo infortúnio, que dizer da extinção preservada em inventários infindáveis de
coisas desaparecidas? Que dizer da tinta a apagar-se no papel? Que dizer da
infância que não volta mais? Que dizer do tempo em que éramos felizes, talvez
por ainda não termos formada dentro de nós a consciência interna do tempo que
tudo torna perecível? Sobre isto, Natália, prefiro o riso a uma terapêutica de
lamúrias. Daí que tanto me agrade ouvir-te ecoar, mais ainda nesse estado de
gravidez em que te encontravas, que te rias porque tinhas medo. Que razão mais
nobre haverá para rir? Se for nosso o medo da morte, riamos dele então. Que a
morte nos encontre a rir quando chegar, que ela nos encontre com as mãos cheias
de uma terra devastada da qual já não conseguimos senão rir às gargalhadas. Não
tem tanta graça este fim? Olha, Natália, nem tudo é desesperante no Novo Mundo.
Podemos entreter-nos a ver no YouTube as entrevistas do Tom Waits na década de
1970, a pesquisar na Wikipédia o conteúdo do “Livro de Judite”, a sacar sem
censura os filmes de Carl Theodor Dreyer, a acompanhar com os olhos um bailado
de Lídia Lopokova. Não são nada desdenháveis as vantagens do mundo moderno, nem
que seja para no fim acabarmos a ressonar estúpida e eternamente… enquanto
rimos.
Para
sempre teu,
Henrique
Manuel Bento Fialho
Caldas
da Rainha, 16/Janeiro/2020
Nota: texto lido na apresentação de "Os Grandes Animais" (Abysmo, Janeiro de 2020), de Inês Fonseca Santos, a 17/Janeiro/2020, no Bar A Barraca - Teatro Cinearte.