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terça-feira, 5 de maio de 2020

MÉDICOS


Nos USA suicidam-se, na Rússia caem de janelas, na China são dados como desaparecidos. Cuba exporta.

sábado, 25 de abril de 2020

25 DE ABRIL SEMPRE


FASCISMO NUNCA MAIS!

sábado, 18 de abril de 2020

AO QUE A AMÉRICA CHEGOU


(clicar na imagem para ver melhor)

sábado, 7 de março de 2020

VIDA E LITERATURA



Maria Gabriela Llansol estreou-se com um livro de contos, Os Pregos na Erva (1962). Não passou despercebido. Nos apêndices à segunda edição encontramos alguns excertos de críticas então publicadas. Natércia Freire chamou poeta à autora: «escritora de uma originalidade solitária». Alfredo Guisado vacilou, não sabendo se havia de chamar contos ou episódios aos textos do primeiro livro de Llansol. Álvaro Salema mostrou-se entusiasmado, mas insistiu na ideia de que as narrativas do livro subsistiam «principalmente como poesia e não como ficção objectivável». João Gaspar Simões foi implacável: «não são “contos”, porque, para todos os efeitos não “contam” coisa nenhuma». E acrescentou: «Sem lirismo de criação nem subjectividade de observação». O remate não deixa dúvidas: «De facto, o “estilo” de Maria Gabriela Llansol, na sua pretensa genuinidade, traduz o que de mais vazio e retórico subsiste nas nossas letras». Mário Dias Ramos falou em «psicologismo ambíguo». Já Armando Ferreira dividiu-se com a riqueza de um «estilo em equilíbrio inverosímil de vocábulos e significados, muitos de rara felicidade, outros de duvidosa adaptação». E, por fim, Alexandre Pinheiro Torres: «experiência estética que, a nosso ver, em grande parte se malogra. (…) Em muitas passagens, em muitas páginas, o processo, pelos motivos esboçados, não resulta. Pode constituir até um bom exemplo de como não se deve escrever».

A tudo isto se antecipou a autora com uma passagem do conto “O Sal”:

   — Não devíamos distinguir entre vida e literatura — disse alto. Concebes a vida sem artificialismo e a literatura sem naturalismo?
   Não respondeu Sílvia. Mas a literatura tem, por essência, mais artificialismo que a vida, e a vida mais naturalismo que a literatura.

Maria Gabriela Llansol, in “Os Pregos na Erva”, 2.ª edição, Edições Rolim, 1987, p. 68.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

VERDADEIRO OU FALSO?


Há muito de verdadeiro nas Histórias Falsas, de Gonçalo M. Tavares, publicadas pela primeira vez em 2005, na Campo das Letras. São 9 contos que recuperam personagens históricas, mormente do universo da filosofia clássica, apropriando-se de mitos e lendas a elas associadas, misturando-as e baralhando-as sem grande preocupação com os factos em si. O princípio filosófico é o do exemplo, da analogia, da parábola. Imaginemos que… E daqui se parte para uma especulação que tem tanto de poético como de filosófico, tem tanto de ficção como de realidade, tem tanto de falso como de verdadeiro, subvertendo a lógica de que uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo. Logo na segunda, a que recebe Tales de Mileto como protagonista, ao lado de uma criada chamada Lianor. A certa altura damos com esta divagação:

(…) Dos filósofos e dos poetas sabe-se pouco; no entanto, uma certeza: não são como os outros; não mudam.
   Se Procrustes, o bandido de Ática, que depois de roubar os viajantes, os deitava numa cama de ferro, cortando-lhes os pés se estes fossem mais compridos que a cama, e esticando-os com cordas, no caso de serem mais pequenos; se, dizíamos, Procrustes, o bandido de Ática, aprisionasse um sábio ou um poeta, não teria dificuldade em transformar-lhes o corpo de acordo com as medidas da sua violência, mas o que jamais conseguiria era normalizar-lhes ideias, ou a vontade.

(…)

Gonçalo M. Tavares, in Histórias Falsas, Leya, 2.ª edição BIS, Setembro de 2011, pp. 22-23.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

NÚMEROS


- 4 700 km2 de área de floresta tropical destruída desde a entrada em funções de Jair Bolsonaro, uma superfície 47 vezes maior do que a cidade de Lisboa;

- 80 milhões de cabeças de gado na Amazónia brasileira, contra 26 milhões em 1990

- mais de 80% das enormes clareiras na Amazónia são feitas ilegalmente

- no passado mês de Julho, foram destruídos 2 255 km2 de floresta tropical, uma área equivalente ao tamanho do Luxemburgo

- o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) sofreu um corte de 24% do seu orçamento



sábado, 24 de agosto de 2019

FORÇA DE EXPRESSÃO

"Paciência revolucionária."

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

MUNDO CHEIO DE POSSIBILIDADES



Temos vindo a acordar lentamente para o desastre, uns mais incrédulos que outros. Presumo que quando estivermos todos acordados já o dia tenha terminado. Que fazer para travar isto? Só há uma solução: mudar radicalmente de vida, varrendo desde logo para o lixo as políticas que nos trouxeram a este estado lastimável de coisas.


terça-feira, 30 de julho de 2019

O MEU CORAÇÃO SÓ TEM UM LADO



Os índios Wajãpi, que se espalham por um pedaço da Amazônia brasileira, são uma das memórias vivas mais antigas deste país. Viviam na floresta amazônica desde antes que o Brasil fosse descoberto em 1500, e sobreviveram todos estes séculos graças à relação simbiótica que mantêm com a natureza. Cuidam dela, e ela cuida deles. Apesar de levar tanto tempo ali, só conseguiram demarcar suas terras legalmente em 1996, durante o Governo de Fernando Henrique Cardoso. Mesmo assim, são constantemente acossados por madeireiros e garimpeiros ilegais. Por isso, se movem pela selva para defender suas fronteiras. Sabem que são alvo potencial de interesses dos não índios, como eles chamam as demais raças.


terça-feira, 23 de julho de 2019

VERDADE OU CONSEQUÊNCIA



(…)
No último ano, a floresta da Amazónia brasileira perdeu árvores numa área total de 7900 km2, enormidade equivalente a 987.500 campos de futebol. São mais de mil milhões de árvores abatidas para abrir caminho a projectos agrícolas e de infra-estruturas, segundo estimativas da Greenpeace Brasil, que cita números de vários organismos oficiais de vigilância do desmatamento da Amazónia. São os piores números da última década.
(…)


sexta-feira, 19 de julho de 2019

O SALOIO E O BURGESSO


“Era uma pessoa conhecida. Nossos sentimentos à família, tá ok?”, assim reagiu Jair Bolsonaro à morte de João Gilberto. “Ganhou um Nobel? Incrível! Então porquê?”, perguntou Donald Trump a Nadia Murad, activista yazidi vítima do Estado Islâmico. Não são meros deslizes, são sinais fortíssimos de um esvaziamento que caracteriza o mundo político nos nossos dias. Aquelas duas pessoas têm milhões de apoiantes que se estão nas tintas para a insensibilidade e a ignorância dos seus líderes, conquanto eles continuem a inflamar ódios básicos prometendo eliminar as causas de todas as frustrações. Um deles acha que a Amazónia é uma fábrica de madeira, o outro nega as alterações climáticas. São iguaizinhos, ainda que Bolsonaro tenha qualquer coisa de saloio que Trump só tem de burgesso.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

LODO


com que dedos hesitas aproximar
a tua pele da minha?
são teus ou de uma sombra
que por ti respira e ama?
com que voz perguntas
pelo dia que acabou?
silêncio que não retorna
do fosso onde a paixão caiu,
essa voz precede o eco de um dever
acomodado às paredes do corpo.
e eu um erro, e tu um lapso,
e nós apenas mais um caso
de águas paradas onde o lodo vinga.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

GUILLERMO MORDILLO (1932-2019)



A arte do cartoon vive tempos difíceis. Depois dos ataques ao Charlie Hebdo as notícias não pararam. Por cá, António foi censurado e alvo de discussão internacional. O The New York Times acabou por terminar com a publicação de “cartoons”. Há dias, Michael de Adder acabou dispensado de várias publicações norte-americanas e canadianas por causa de um cartoon que publicou nas redes sociais. A morte de Mordillo, clássico do cartoon humorístico, acontece numa época em que a publicação de bonecos parece cada vez mais ofensiva. Por um lado, isso é bom. Interpretamos nestas reacções escandalizadas uma força de provocação que julgávamos para sempre perdida no mundo das artes. Por outro lado, é sinal de uma escalada de puritanismo bacoco que obriga todos quantos amam a liberdade e a arte a estarem atentos e interventivos.



quarta-feira, 5 de junho de 2019

UM LIVRO SOBRE BORBOLETAS DO JOSÉ SARAMAGO


Um cliente procurava “As Intermitências da Morte”, dizendo que lhe apareceu bicho em casa. Não indaguei sobre a questão do bicho, já nada me surpreende. Agarrei no livro e coloquei-lho nas mãos. Continuou dizendo que precisava de tirar dúvidas sobre o bicho, enquanto puxou do telemóvel e começou a fazer-lhe festas como quem procura respostas para dúvidas imensas. Às tantas pergunta-me se livro é o mesmo que romance, assim mesmo: “livro é o mesmo que romance?” Fiquei sem saber o que lhe responder, à espera de ver no que aquilo dava. Perante a estupefacção, esclareceu-me: aqui (apontou para o telemóvel) fala numa borboleta que vem na capa e representa a morte, queria saber se é o bicho que me apareceu em casa. Disse-lhe que houve uma edição daquele livro com uma borboleta na capa, mas agora só se encontraria, com sorte, em alfarrabistas e feiras de velharias. Ficou decepcionado. Também lhe sugeri um livro sobre borboletas. E foi nessa altura que se fez luz, ele procurava precisamente um livro sobre borboletas do José Saramago. Tente na feira do livro de Lisboa, senhor, lá encontra-se tudo.

ABUTRES, HIENAS E CHACAIS


Quase 11 anos a trabalhar numa livraria, e nunca foram tantos os livros de Agustina que vendi como esta manhã. Não tendo sido o caso, por circunstâncias muitas e por demais conhecidas, em Portugal o escritor poder morrer à fome, que ninguém liga, pode viver na miséria, que ninguém sabe, pode desunhar-se em tarefas várias para garantir pão na mesa, que o leitor está-se nas tintas. Para quê ler Agustina quando temos Minh’alma? Mas morto o escritor, ai Jesus que escarcéu. É preciso lê-lo, é urgente conhecê-lo, impõe-se que pelo menos 1 livreco apodreça nas estantes para que ninguém diga de nós termos sido descuidados. Força aos novos leitores de Agustina, desejo-lhes a melhor das aventuras em torno da carcaça. Neste país de hienas, chacais e abutres, merecerão por certo toda a nossa consideração. Afinal sempre a morte aguçou apetites.

domingo, 21 de abril de 2019

IGREJAS E HOTÉIS


Agora foi no Sri Lanka. Morto sobre morto, a dúvida persiste: o que ganham os terroristas com o terror? Alguém se lembra de alguma vez um terrorista ter ganho o que quer que fosse com o terror? Não falo de terrorismo fiscal, laboral, económico. Falo disto de andar por aí a espalhar bombas que apenas atingem gente que passeia. Quanto ao mais, é mundo novo:

O Governo cingalês decretou um recolher obrigatório imediato: das 18h locais às 6h de segunda-feira. Outra das medidas de segurança implementadas foi o corte no acesso às principais redes sociais e serviços de troca de mensagens, como o Facebook e o Whatsapp, para evitar a difusão de informação errada ou falsa. (Público)

terça-feira, 16 de abril de 2019

terça-feira, 9 de abril de 2019

SEM COMENTÁRIOS




Num evento organizado pelo Núcleo de Alunos de Marketing do ISCTE uma empresa colocou um boneco para ser espancado. Há quem diga que o boneco era negro, mas a empresa esclarece nestes termos: “É um boneco de artes marciais que, devido ao uso e ao facto de as pessoas partirem coisas – o que fazemos é aliviar o stress de forma lúdica – e de tanto ter apanhado ficou com esta cor.” A ideia de aliviar o stress a espancar um boneco com figura de pessoa já seria polémica, que o boneco seja negro ou fique negro depois de ser espancado não lembra ao diabo. Quem olhar para a imagem ao alto pode retirar as suas conclusões. Isto passou-se no ISCTE. Há dias, ouvia o Garcia Pereira na televisão dizer que já nada o espanta. Estou na mesma. Fonte: aqui.

ANDAMOS NISTO #3

Ainda a propósito de plágios e afins, sonâmbulos e chupistas, esta memória citada que também diz muito acerca do que é ser autor no nosso país: 

   Em Junho de 1990 fui alertado para o facto de que um poema do meu livro A Linguagem da Desordem (1983) fora plagiado por Maria Graciete Besse num livro acabado de publicar. Mal refeito da notícia, que me chegou por intermédio de uma professora de português, fui contactado por O Independente
   Dias depois, em artigo de página inteira, o Indy dava conta do sucedido: 

«Uma poetisa portuguesa em terras de França plagiou Eduardo Pitta. A Caminho editou o livro e tudo foi tratado por correspondência. O lesado deverá receber uma indemnização.» Nunca recebi.

   No dia a seguir à notícia do Indy, Maria Graciete Besse escreveu-me:

   «Acredite que a coincidência entre os dois poemas não foi, de modo nenhum, voluntária [...] devo ter lido, há alguns anos, o seu poema em qualquer sítio e, sem me dar conta, gravei-o inconscientemente na memória [...] o seu texto funcionou como um espelho imediato e incontrolado, como palimpsesto a que recorri de maneira perfeitamente inconsciente. [...] Gostaria de falar consigo ao telefone... etc.» Não falei.

   A 3 de Julho, o Público pegou no caso. Fernando Pinto do Amaral escreveu no «Leituras»:

   «Refiro-me à bizarra coincidência que fez com que a grande parte de um poema de Eduardo Pitta [...] fosse estranhamente comunicada a Maria Graciete Besse alguns anos depois [...]. Curiosamente, os deuses levaram a conjugação dos seus desígnios ao ponto de ambos os textos figurarem na página 19 dos respectivos livros. [...] Perante um eco tão nítido, não há que duvidar da origem transcendente deste poema. O próprio facto de o nome do seu autor original não aparecer na imitação é mais uma prova de que foi uma voz anónima e supra-humana a ditá-la ao ouvido de quem agora o tomou como seu. [...]»

   A 21 de Janeiro de 1991, carta da SPA sobre o teor do texto que a Caminho estaria disposta a inserir no livro de MGB, junto ao poema «que contrafaz o seu». Não houve acordo.
   Ao cabo de oito meses de negociações, o assunto morreu.


Eduardo Pitta, in Um Rapaz a Arder, Memórias 1975-2001, Quetzal Editores, Maio de 2013, pp. 138-139.