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terça-feira, 13 de outubro de 2020

JOGO DO FIM


“Jogo do Fim” (Outubro de 2020) é o título mais recente da colecção de textos dramáticos que a editora Companhia das Ilhas tem vindo a publicar em parceria com o Teatro da Rainha. Trata-se da peça que Samuel Beckett, Nobel da Literatura de 1969, escreveu originalmente em francês com o título “Fin de partie” (1957), surgindo apenas no ano seguinte na versão inglesa como “Endgame”. A tradução de Isabel Lopes demarca-se de outras versões em língua portuguesa, com títulos tais como “Fim de Festa” ou “Fim de Partida”, dando ênfase a uma ideia de “jogo”, presente tanto no título francês como no inglês, que honra a essência do trabalho beckettiano em geral e respeita a dinâmica desta peça em particular. Beckett considerava-a a melhor das suas peças, escrita já depois do sucesso alcançado com “En Attendant Godot” (1952), não sendo por acaso as comparações com uma partida de xadrez elaboradas ao longo dos anos por vários críticos e ensaístas. O que se joga aqui é o fim, uma espécie de xeque-mate, com um rei (Hamm) imobilizado, cego, restringido ao seu trono decadente, e um peão (Clov) a arrastar-se de um lado para o outro, em movimentos curtos, pausados, vacilantes. São deste as primeiras palavras — «Acabou, acabou-se, isto vai acabar, talvez vá acabar» (p. 10) , num cenário que remete tanto para os campos de concentração nazis como para uma espécie de casamata ou bunker.
   É preciso não perder de vista que entre 1954 e 1956, quando a peça foi escrita, a humanidade ainda se recompunha das imagens traumáticas deixadas pela Segunda Grande Guerra, vivendo-se então debaixo da eterna ameaça de uma guerra nuclear. A didascália introdutória de “Jogo do Fim” desloca-nos, precisamente, para um cenário apocalíptico, de luz acinzentada, num abrigo com duas janelas a darem para um mundo em pó. Depois de Clov (peão, servo, escravo) acordar Hamm (rei, senhor), percebemos através das primeiras palavras trocadas entre ambos que estamos num tempo para lá do tempo e num espaço cujas principais características são a ruína, o vazio, o abandono. «Que horas são?», pergunta Hamm. «As mesmas de sempre. (…) Zero», responde-lhe Clov (p. 12). Mais à frente, Hamm lamenta: «A natureza esqueceu-se de nós». Clov constata: «Já não há natureza» (p. 18). Ao tempo-zero e ao espaço-nada correspondem, igualmente, uma ausência de horizontes, a morte dos ideais e a perda de sentido.
   Cenário desolador, de facto, mas igualmente e surpreendentemente cómico. Entre Clov e Hamm há uma interdependência que se abre à comédia, uma comédia de tipo grotesco, tal como se estivéssemos a assistir à interacção entre dois palhaços decadentes no centro de uma arena em destroços. Desta aparente ausência de sentido fazem ainda parte duas outras personagens, Nell e Nagg, os progenitores do rei, literalmente remetidos para o lixo como peças descartáveis, imobilizados dentro de caixotes dos quais por vezes emergem para receber comida, tentarem beijar-se (em vão), interrogarem-se: «Porquê esta comédia, todos os dias?» (p. 22). Várias extrapolações podem ser feitas acerca do teor das acções que matizam a existência destas personagens, assim como do clima absurdo e metafórico que coloca em cena um Senhor dependente do seu Escravo, conservando os progenitores dentro de caixotes do lixo. Podemos, por exemplo, imaginar que aquilo que geralmente apelidamos de absurdo (ausência de sentido para a existência) é superado por Beckett abdicando da necessidade desse sentido. Cada gesto, cada acção, cada momento, são fins em si mesmos determinados por um ter que fazer sem horizonte à vista.
   O “Jogo do Fim” é o daqueles que se reconhecem derrotados à partida, percebem a inevitabilidade da extinção aceitando-a enquanto tal, não carecendo de resposta para a eterna dúvida: o que faço aqui? Ou outra, muito dada a soluções metafísicas: para onde vou? À dúvida sobre o que havia antes do universo, Beckett responde com o que sobrará depois do universo findar. Paradoxal, sem dúvida, pois pressupõe que algo perdurará depois de tudo terminar. É uma postura irónica, disponível para leituras psicanalíticas (não corresponderão os progenitores de Hamm a um passado/memória largado no lixo, à expurgação de um sentimentalismo da nostalgia?) ou políticas (à interdependência entre Hamm e Clov não poderá corresponder uma anulação da dinâmica histórica do Senhor e do Escravo?), que privilegia uma leitura artística, criativa, a partir da qual o universo pode surgir representado entre dois momentos chave: entrada e saída de cena.
   Logo no início, Hamm começa por dizer «É a minha deixa» (p. 10), ao passo que já no fim é Clov quem afirma: «É o que se chama sair de cena» (p. 83). Estamos no domínio do teatro, claro, da representação, sim, em que as personagens fazem questão de nos lembrar a sua essência particular. São personagens, são peças num tabuleiro de xadrez. Mas que outra coisa será cada um de nós senão uma peça no tabuleiro da sua cultura, uma personagem no palco da existência social e política? Daí que seja natural projectarmos associações com a actualidade à medida que vamos lendo “Jogo do Fim”, recordando tanto os refugiados do mediterrâneo cujas vidas agonizam em espera como os velhos da nossa vergonha definhando em lares de propriedade duvidosa. A ameaça é global, ecológica, pandémica, o fim dos dias todos os dias parece iminente. O tempo e o espaço do “Jogo do Fim” poderão não ser históricos, mas encaixam com facilidade nos factos de uma História limite repleta de visões do Apocalipse. Clov sonha com ordem: «Um mundo em que tudo estivesse silencioso e imóvel e cada coisa no seu último lugar, por baixo da última poalha» (p. 60). É o sonho da morte. Estranho é que ele sonhe com o que parece ter-se concretizado. Talvez ainda não tenha dado por isso, talvez não tenhamos dado por isso. Talvez por se ter apercebido de tamanha insensibilidade, Samuel Beckett haja dito que a frase mais importante da peça cabe a Nell: «Nada mais ridículo do que a infelicidade, concordo contigo. Mas...» (p. 25).

quarta-feira, 8 de julho de 2020

DISCURSO SOBRE O FILHO-DA-PUTA




   Acreditando que em 1977 era diferente o mundo, ficaríamos algo decepcionados ao constatar quão mesmo, idêntico, semelhante, repetitiva e monotonamente previsível é hoje esse dissemelhante que julgávamos para sempre enterrado mas se perpetua como um vírus impossível de erradicar. Apetece recuperar o célebre dito do unionista Manuel de Brito Camacho, que há coisa de um século resumiu de modo eficaz o curso da História: «As moscas mudam mas a merda é a mesma.» Os vícios humanos são universais, acompanham-nos como parasitas, muito provavelmente desde que para eles inventámos a palavra vício. Mas nem tanto se exigia, já que intrínseco ao homem é a sua bestialidade. “Superação”, ouvimos a certa altura, como um eco vindo dos antigos mandamentos que ordenaram controlar a animalidade exercendo sobre a natureza o domínio da razão. Os resultados estão à vista.
   Talvez tenha sido por silogística similar que Alberto Pimenta se encerrou numa jaula do Jardim Zoológico de Lisboa originalmente pensada para albergar símios. O happening deu que falar, acabando o poeta marcado com o ferro da inconveniência por uma Academia mais vocacionada para o comodismo reverencial do “sim senhor”. Não queremos cá macacos, disse o director. E Pimenta ficou no desemprego. Passaram 43 anos sobre o feito e sobre a primeira edição do “Discurso Sobre o Filho-da-Puta”, reflexão cartesiana acerca de um certo tipo de ser (ou de se ser) que os dicionários excluem, preferindo a versão eufemística filho da mãe, mas a vida concreta se encarrega de reproduzir ad nauseam. Escusado será um périplo pela imprensa diária para que fique provada e comprovada a tese, bastando para tal que em casa existam espelhos onde possamos ver reflectidos os vícios que ou nos conspurcam ou nos derrotam.
   Há um preço a pagar pela liberdade de pensamento, por essa maldita ousadia de olharmos para nós próprios com aquele espírito ameaçador da idiolatria tão cara ao poder. Este prefere erguer estátuas, disseminando por ruas, praças e avenidas a toponímia dos seus heróis sem que por debaixo do nome surja uma referência, por mínima que fosse, aos crimes de que ninguém está livre de cometer. Afinal somos humanos. Nisto, os gregos  antigos eram mais honestos (ia dizer justos) do que nós temos sido. Eram deuses, precisamente, por neles haver o reconhecimento da maldade, ao passo que nós insistimos nesta ilusão de santidade com que idealizamos paraísos na terra e glorificamos pulhas com cara de anjo. Daí também o puritanismo com que os órgãos oficiais, do Estado, pagos por todos nós, se referem à linguagem do “filho-da-puta”, reduzindo-o a fdp ou disfarçando-o com *** onde é uta. Já agora, um aparte: se googlarem filho da puta ficarão a saber que o dito também foi um puro-sangue que ganhou nove de doze corridas. Garanhão aristocrático, portanto.
   Eis que em pleno século XXI se revela um risco levar à cena um texto como o que Pimenta publicou nos idos de 1977, depois de se ver confrontado com um ror de peripécias burrocráticas, chamemos-lhes assim, atadas, erguidas, enroladas pelos tais que entre fazer e não fazer se empenham em não deixar fazer. O ritual a que assistimos na Sala Estúdio do Teatro da Rainha tem o condão de azucrinar as atitudes comodistas, conformadas, reverenciais e servis que tanto agradam aos poderes instalados, celebrando-os através do gume da sátira e, por que não assumi-lo, de uma alegria cínica que tanto convém ao ambiente social e político deste nosso tempo, já não detergente, como diria Ruy Belo, mas desinfectante. Não há gel, porém, que elimine das mãos dos homens o veneno pandémico da besta, devidamente representada no cenário com um bestiário seleccionado a preceito: cobras e lagartos, abutres e tubarões. Ao centro, um ser com cabeça de revólver remete para outras criaturas. Será arte, a da guerra?
   O tratamento dado ao texto de Pimenta por Fernando Mora Ramos e por Miguel Azguime tem, entre outros, dois méritos evidentes: a capacidade de encarnar os diferentes tipos de retórica persuasiva do discurso e a respectiva articulação desses tipos com jogos fonéticos que fazem desta peça uma espécie de musical para um só instrumento, a voz através da qual a palavra se exprime. Desde que entram na sala, encapuzados como monges beneditinos, evocando o filho-da-puta à laia de canto gregoriano, até ao ritual fúnebre final, os quatro actores em cena (Cibele Maçãs, Fábio Costa, Marta Taveira e Nuno Machado) desdobram-se em múltiplas personagens. Vemos o político e o vendedor de banha da cobra, o especialista de painel televisivo e o aprendiz, o mestre, o discípulo, vemos o malandro e a menina de cabaret, o pivot de telejornal, o deputado, o padre, o sacristão e as carpideiras, em sucessivas reencarnações discursivas que nos oferecem, ao mesmo tempo, a transversalidade dos grandes e dos pequenos filhos da puta.
   Apesar deste aspecto lúdico, o pior que pode acontecer a um espectáculo deste tipo é ser confundido com a mera anedota. Não o é, nem sequer podemos garantir que seja inofensivo. Há no texto de Pimenta e na adaptação que lhe foi conferida pelo Teatro da Rainha uma obstinação e uma contumácia pouco usais entre nós. O princípio é o de uma espécie de desobediência civil, entendida como direito inalienável de confrontar todas as formas de exercício do poder com a sua violência inerente. Se aqui o riso assoma aos rostos do público é para que deixe de estar latente a crueldade exercida pelo filho da puta, lembrando quanto dele pode germinar em cada um de nós. Neste sentido, há uma profilaxia no espectáculo, neste momento preciso da história, que é deveras pertinente. O medo aí está espalhado entre continentes, desbravando caminho para a paranóia de que se alimenta o autoritarismo asfixiante das liberdades individuais. Pandemia rima com burocracia, esta com idolatria, e nada disto é por acaso.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

FRAGILIDADES


(...)

Graças ao vírus, a fragilidade do nosso mundo ficou escancarada. O jogo que agora se joga é infinitamente mais perigoso que o vírus e causará muito mais mortes. Mas os contemporâneos só parecem ter medo do vírus...

(...)

Gianfranco Sanguinetti, O Despotismo Ocidental - Dolorosamente, está a ser parido um novo mundo. Que mundo é este?, in Calamidade, dépliant (folheto dobrado), Barco Bêbado, Junho de 2020, s/p.

sábado, 30 de maio de 2020

BRANCOS E PRETOS



   Não muito tempo depois de um cidadão afro-americano (norte-americano por defeito) ser torturado e executado, a céu aberto, por um polícia extremamente zeloso da sua farda, um protótipo da Starship explodiu no Texas durante o período de testes. Como somos fracos a contas, desconhecemos quantos milhões arderam em combustível e se transformaram em cinzas nesta experiência com o espaço intergaláctico em vista, espaço esse onde certamente se viverá divinamente. Cá pela Terra, o tal afro-americano foi estrangulado, ao que se sabe, por causa de uma suposta nota falsa de vinte dólares. A mulher do polícia pediu divórcio. são contas mais fáceis de fazer.

   É preciso referir que Elon Munsk anda deveras excitado com a possibilidade de tornar acessíveis as viagens ao espaço, sendo acompanhado em tamanha excitação por uma caterva de fãs que descobriram nas novas tecnologias o futuro da humanidade. Não fossem as novas tecnologias jamais teríamos acesso aos smartphones, fabricados com metais raros importados da China, e jamais saberíamos quem foi George Floyd, não teríamos a mesma capacidade de organização de vigílias e de manifestações pacíficas, silenciosas, pelo afro-americano e, já agora, pelos 820 milhões de famintos que definham pelo mundo, pelos índios na Amazónia e pelo coala australiano.

   Um dia deixaremos de falar da distribuição da riqueza pelo planeta para nos concentrarmos definitivamente na distribuição da miséria, as lojas de armas não terão filas à porta em tempos de pandemia e os milhões que surgem do nada para descanso dos mercados poderão ser aplicados em cabanas com vista para marés de poeira em Marte. Sou um optimista, a mulher do polícia pediu o divórcio, o Twitter vigia as declarações do presidente da maior potência militar do mundo, estamos a salvo, Kim Jong-un continua vivo, Bolsonaro bebe leite e o suicídio prospera no Japão, um judeu e um índio travam-se de razões no ringue das tragédias universais: o que foi pior, o holocausto nazi ou o extermínio dos ameríndios?

   Quem ande pelas redes sociais, essas mesmas a quem Umberto chamou o eco de uma legião de imbecis, confronta-se amiúde com problemáticas similares, não sendo de todo raro ver gente a medir forças entre gulags e campos de concentração nazis, Israel e Palestina, brancos e pretos, como quem discute um clássico da liga profissional de futebol. As vidas das pessoas não importam, na equação custo/benefício valem pouco, pesam quase nada. Se a certa altura da nossa suposta evolução enquanto seres humanos julgámos que sim, perdemos qualquer resquício de fé nessa possibilidade ao olharmos de relance o mundo actual. Weisman, o judeu da peça de György Tábori, pensou livrar-se da filha deficiente como quem se livra de gatinhos recém-nascidos. Carrega a filha-fardo como um peso na consciência, reconhece-o. O Cara Vermelha com quem se debate não sabe quem ou o que é, está confuso, tem um problema de identidade, talvez um pouco à semelhança do György feito George ou de todo e qualquer afro-americano (norte-americano por defeito). Obama já passou, Trump aí está para recuperar o orgulho supremacista branco.

   “Weisman e Cara Vermelha” (Companhia das Ilhas, Maio de 2020), a peça de George Tabori traduzida por Carlos Borges para o Teatro da Rainha, não escapa ao tema complexo da identidade étnica e cultural ao colocar em cena um judeu, o que resta de um índio e uma jovem mongolóide. Ainda se pode dizer mongolóide? Deveria dizer downiana? A questão da identidade e o desfile de desgraças que cada um dos pugilistas tem para arremessar (parecem duas velhas a exibir doenças) não esgotam o alcance desta comédia negra, muito ao nível do estado do mundo tal como o vamos percepcionando a cada dia que passa. O que impele tanto o índio como o judeu para um Nada identitário é o que vai ficar a martelar na nossa cabeça tal como martela na consciência de cada uma daquelas criaturas.  

   As Rocky Mountains são cenário perfeito para um western, ainda que no duelo final a tensão exercida pelo poder de antecipação seja subvertida por um metralhar de desgraças pessoais que trazem já por terra os dois pistoleiros. Ao silêncio de esgares traiçoeiros projectados numa sala de cinema o teatro prefere a confissão de dois derrotados, havendo talvez entre ambos uma heroína improvável. Rute, a menina deficiente, com gestos alienados de lógica, criatura que aparenta ser de outro mundo, talvez do tal espaço intergaláctico onde Elon Munsk vai tentando meter os pés com foguetões que não chegam a levantar voo. É ela que ao espalhar as cinzas da mãe por cima do pai diz: «Agora semeio a mamã em cima de ti e das rochas crescerá beladona.» A sua deficiência é estar do lado dos vencidos. Não há tecnologia capaz de transmitir tamanha sabedoria.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

UM GESTO INTENSO



Facilmente gera irritação a natureza tão palavrosa, tão desmoronada, esgotada, barrenta, bem-falante do texto seguido, e do seu caudal incrível a jorrar assim no ar, sustendo-se apenas pela pretensão do seu sopro ou do palavreado que o incha. A maior parte dos artigos, a maior parte das teses e dos ensaios, a maior parte dos livros que se publicam é uma lengalenga. Nas melhores páginas fragmentárias, desejaríamos avidamente qualquer coisa não apenas quebrada mas também quebrante. Um gesto intenso, arrancado ao vazio, e cuja intensidade imediatamente esmagasse. A sua própria densidade afunda-o de repente no nada. A sua interrupção deve transtornar tanto quanto a sua aparição surpreendeu. Neste sentido o seu uso deve ser extremamente circunspecto, e raro, como o grito, que não tem eficácia e poder terrível senão quando nada o prepara e quando nada o repete.

Pascal Quignard, in Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos - ensaio sobre Jean de La Bruyère, tradução de Pedro Eiras, Deriva, Dezembro de 2009, pp. 56-57.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

DA DEMOCRACIA

Que pode significar a democracia para uma pessoa obrigada a subsistir nos estratos inferiores da condição proletarizada, na actual conjuntura da reprodução social? Para quem enfrenta as condições de vida materiais na mó de baixo, na sociedade do capital em crise, a democracia é cada vez mais uma abstracção, um jogo de representação mediática afastado da sua realidade, embora não estranho quanto às consequências das decisões democraticamente adoptadas.
   A democracia - ta como, em geral, a política -, tematizada como representação, converteu-se numa mercadoria mediático-espectacular de redes sociais, tertúlias e programas de televisão, de profissionais especializados (professores, analistas, jornalistas, artistas, fazedores de opinião, politólogos, etc.) que são figuras representativas da submissão clientelista à ordem dominante, na sua dupla vertente de representação à direita e à esquerda. Na prática, a democracia é uma oportunidade profissional para os aspirantes a gestores da representação, na mesma medida em que é uma oportunidade de negócio para as empresas da produção e comunicação do discurso dominante, incluindo os partidos políticos. No fim de contas, estes são também entidades empresariais.
   Porém, no que diz respeito à vida do indivíduo proletarizado, a democracia não é mais do que uma trama de interesses de grupos oligárquicos empresariais constituídos em torno da Administração pública, com a mediação de profissionais e técnicos cujas decisões são legitimadas periodicamente no processo eleitoral. O carácter autoritário e classista da democracia, na sua materialização prática, consiste na adopção de decisões por uma elite político-económica cujas consequências recaem directamente sobre a massa da sua concreção prática, o sistema democrático está constituído por teias gestoras em todos os sectores da actividade económica e da reprodução social, incluindo a representação política, coisa que deu azo à ilusão da autonomização da esfera política, simplesmente porque se projecta como uma borbulha auto-referencial no interior do espectáculo mediático protagonizado pelos profissionais da representação.


Corsino Vela, de um artigo intitulado "Gestão Democrática do Colapso no Capitalismo Terminal?", in revista Flauta de Luz, n.º 7, Abril de 2020, p. 90.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

UMA IMAGEM E UM LIVRO


   A imagem é de Ricardo Oliveira e foi publicada no El País com a legenda que a seguir se reproduz: «Indígenas com máscaras navegam pelo rio Ariaú, a 80 quilómetros de Manaus». É uma imagem poderosa, ainda mais se nos lembrarmos de que há séculos os vírus do mundo civilizado serviram para dizimar civilizações ameríndias. Novamente sob ameaça de uma noção de progresso que já não lhes é estranha, protegem-se com máscaras no meio da selva onde sempre viveram. Aquilo a que alguns autores chamam de “colapso sócio-ecológico” encontra nesta imagem uma representação eficaz. Vivemos dias tenebrosos, enclausurados nas nossas próprias casas a olhar para o mundo através de um manancial de ferramentas aparentemente indispensáveis no novo mundo das tecnologias.
   Estes sobreviventes de um velho mundo outrora chamado de novo espelham como ninguém a nossa própria desgraça (falência?), os paradoxos em que nos deixámos enredar e a teia de contradições em que vamos sobrevivendo como insectos estrebuchantes. A mais evidente de todas é não darmos conta de que as nossas preocupações ambientais e ecológicas, todas elas legítimas e saudáveis, manifestam-se maioritariamente através de veículos eles mesmos devastadores do meio ambiente. Exemplo paradigmático de grosseira contradição é a exploração de metais raros essenciais ao fabrico de diversas componentes das nossas ferramentas, sejam elas um smartphone, um iPhone, um tablet ou um simples computador. Li algures que a China é um dos principais fornecedores mundiais deste tipo de metais, o que não pode deixar de fazer pensar nas consequências ambientais que a sua extracção acarreta e nas possíveis relações que possam ser estabelecidas entre esta actividade industrial ao serviço da tecnologia e o aparecimento de vírus que levam a que por todo o lado tenhamos de andar com máscara no rosto, luvas nas mãos, gel desinfectante no bolso e distância social em mente.
Que mundo é este para que vamos sendo empurrados como os cegos de Pieter Bruegel? Em “A Matéria Escura e outros poemas” (Assírio & Alvim, Março de 2020), de Jorge Sousa Braga (n. 1957), não temos uma resposta a esta pergunta, nem era suposto que tivéssemos, mas encontramos vários poemas onde as mesmas preocupações são exprimidas. No poema-sequência que oferece título ao conjunto contrapõe-se a vastidão do universo à pequenez da humanidade, interrogando a possibilidade de um sentido para a vida onde nada parece fazer sentido e tudo surge relativizado pelas escalas com que pretendamos medir o nosso lugar no mundo: «Hoje acordei com vontade de dar uma volta à Via Láctea    é pena que para dar essa volta sejam necessárias umas centenas de milhões de anos» (p. 10). O registo relativista parte de um princípio presente na poesia do autor desde a primeira hora, o da “desimportantização”, desde logo começando pela própria poesia.
   Enraizado desde cedo num tipo de reflexão que encontramos no taoísmo e no budismo, praticando amiúde uma poesia devedora de formas orientais como o haiku, e usando linguagem clara, límpida, simples, Jorge Sousa Braga não abdica da ironia e até de um certo humorismo muito seu na abordagem de questões actuais tais como a violência dos homens exercida sobre os homens, a transformação da paisagem ou as consequências ecológicas e ambientais da acção humana no planeta. Pelo meio, um poema que podemos dizer político (não o serão todos, de certo modo?) lembra-nos como a actualidade pode misturar-se nos versos sem os fixar num tempo histórico específico, tal como a imagem supra nos leva a pensar em factos de um passado histórico que julgávamos extinto mas tudo aponta para que se perpetue até extintos estarmos nós:

SEGUNDO A MOSSACK

1.
Segundo a Mossack
a Goldeneye controlava
a Try-Vin Holdings
de Malta que por sua
vez detinha a Valco
sediada nas Ilhas Virgens
bem como 90% da
empresa Cidade do Porto —
Investimentos Imobiliários
tendo comprado
50% da empresa
Proinvest com offshores
nas Bahamas e no
Delawere nas Ilhas Virgens
e em Malta   Eras também
dona da SAG que possuía
a gestora de activos
GFE…

2.
Será que os fundos abutre
também são enfunados
pelo vento?

   Em nota final refere-se que notícias de jornal estiveram na origem de alguns poemas do livro, processo que não é novo e até encontrámos recentemente num livro de Rui Almeida. Talvez não tenha relevância, por certo não pretenderá apontar um caminho, mas não deixa de ser significativo que em dois livros tão próximos vislumbremos em dois poetas de gerações distintas, embora contemporâneos, uma ligação tão directa da poesia à realidade histórica e à actualidade social e política. É verdade que em “A Matéria Escura” isso sucede a partir de uma reflexão abrangente sobre o sentido da vida, o lugar do homem no mundo, a sua interacção com a natureza numa migalha de planeta. Mas também não é mentira que muitas vezes procuraram os homens refúgio nas estrelas quando se desinteressaram das coordenadas cruéis na terra. Seja por que razão for, é mais um apontamento sobre o sentimento de perdição e o desalento que vêm pairando no ar, como poeira tóxica, deste início de século. 

segunda-feira, 4 de maio de 2020

TEATRO DE FANTASMAS


Quando o vírus SARS-CoV-2, comummente conhecido como Covid-19, ainda era apenas coronavírus, li algures aventada a hipótese desta pandemia se transformar para a China no que o desastre de Chernobil significou para a URSS. Não entendi a relação. Iria a Grande Muralha da China derruir com os efeitos da pandemia? Passados alguns meses, encontro entre os dois acontecimentos um ponto de convergência: ambos estão relacionados com modos de interacção entre o ser humano e a natureza, interacção essa indissociável da ideia de progresso e de desenvolvimento que há muito adoptámos. Alguns filósofos dizem que tem a sua origem em tempos bíblicos, nomeadamente quando Deus, antes de se ter arrependido de criar o ser humano, lhe ordenou que tivesse poder sobre os outros animais. A parábola é estimulante, oferece ao homem a capacidade de exercer na terra o mesmo tipo de domínio e de poder que Deus exerce sobre o homem. Feito à imagem e semelhança do Senhor, o ser humano teve aí a porta aberta para um caminho de afastamento e de separação da natureza. Toda a ideia de progresso e de desenvolvimento nas sociedades de inspiração judaico-cristã assenta neste princípio de domínio sobre o outro, daí que tenhamos adoptado o slogan “vai ficar tudo bem” como meta de esperança para uma humanidade capaz de se superar dominando as ameaças que se lhe opõem. Desta feita, como já antes sucedeu, a ameaça é um vírus invisível, mas podia ser a nuvem negra de uma catástrofe nuclear.
   A melíflua palavra de ordem do “vai ficar tudo bem” tem não só a função de trazer esperança aos desesperados, como a de anunciar uma salvação sob a forma de vacina ou outra coisa qualquer. Não sabemos o quê, só sabemos que vai ficar tudo bem. Resta perceber em que Terra Prometida irá ficar bem uma sociedade cada vez mais amedronta perante a possibilidade de ser ela mesma parte integrante da natureza, agora confinada, apartada, alienada, como quiserem, por respeito a declarações e a decretos que vão da emergência à calamidade sem nunca perderem do horizonte a grande ameaça apocalíptica. Se o sedentarismo vem de há muito vencendo a guerra, com o natural contributo, em plena revolução tecnológica, de inúmeros gadgets, não é de todo improvável que a médio prazo ele dê lugar, já não apenas a uma fixação territorial, mas a uma completa desagregação do chamado convívio presencial. Porque este adquiriu entretanto a configuração da morte. Se já dantes era ameaça, obrigando a cuidados redobrados nas ruas da metrópole, nos grandes ajuntamentos, não fosse o outro-depredador atacar o eu-presa, agora é a figura da morte ela mesma, travestida de vírus chifrudo com sua foice de segar.
   Num curto artigo recentemente publicado na muito recomendável revista Flauta de Luz, Raoul Vaneigem usa uma bela imagem para esta realidade do confinamento: «Do lado de fora, o caixão, do lado de dentro, a televisão, a janela aberta para um mundo fechado!» Sobre este mundo fechado há muito a dizer, mas tentarei encurtar o raciocínio saltando já para os efeitos que o mesmo parece produzir no indivíduo. Ele consiste, desde logo, numa abdicação absoluta do privado (entendido aqui no sentido estrito da pessoa humana, da sua vida privada), à qual advém uma despersonalização do indivíduo, devidamente fardado e uniformizado como podemos observar na distopia orwelliana ou na utopia norte-coreana, tendo como princípio geral a aceitação das regras do algoritmo que determina e legitima o que pode ser avistado através da tal janela aberta para um mundo fechado. Se nos pedem/exigem “distanciamento social”, há muito não nos vêm impondo outra coisa que não seja desapego crítico. Porque a vida é confronto, é descoberta, é experiência, é teste, é, sobretudo e talvez mais importante do que tudo, erro, este novo acriticismo onde o erro não tem lugar e o outro fica sem cheiro nem toque, asséptico, distante, leva a uma reconfiguração da normalidade que faz de cada ser humano uma espécie de monstro, zombie ou fantasma. É o homem-bibelô, a estátua que apenas se diz viva por ainda lhe restar a capacidade vital do consumismo.
   Essa coisa a que se dá o nome de “novo normal”, sem se entender o que significa, tal como não se conhece o significado de “desconfinamento”, mas é como se se conhecesse, porque a todos é devido aceitar sem questionar, assimila-se, usa-se e propaga-se como um vírus aparentemente anódino. Para esse dito “novo normal”, dizia eu, encontramos uma metáfora profética na fantasmagoria encenada em algumas peças de Jean-Pierre Sarrazac. Em “A Paixão do Jardineiro”, por exemplo, uma velha judia fala do limbo ao seu assassino, jovem jardineiro com simpatias neo-nazis, na esperança de que ele tome consciência do mal que fez ao assassiná-la. Podemos supor que todo aquele conflito é interior, que tudo se passa na cabeça do jovem jardineiro, que a hipótese de arrependimento é um paradoxo moral que o traz angustiado no cárcere onde cumpre pena. «Peço-te, dá-me razões para te perdoar», roga a vítima ao carrasco, inflectindo o discurso de Jesus quando fala ao pai, mas de algum modo repetindo o nosso face ao Estado.
  «Personagens estranhas numa época estranha», a velha senhora e o jardineiro recordam-nos, pela voz daquela, que não passam de pó, mero efeito, poeira varrida para debaixo do tapete, que é, sem dúvida, o gesto mais facilmente reconhecível neste “novo normal”. Vai tudo passar, depois esquecemos e seguimos as nossas vidas. A fórmula é eficaz, tão eficaz que tem resultados à vista: a desmemória é o mais evidente e pernicioso de todos, pois vem acrescentado de um perigo maior que é o da manipulação da verdade. «Nós somos náufragos amnésicos. Nós vivemos num mundo que se afundou. Mas esquecemo-nos de que a catástrofe aconteceu.» Onde é que eu já li isto? Não é desta desmemória que se fazem valer os novos populismos, tanto no modo como apresentam a História, truncando-a, desapropriando-a de contexto, como até numa metodologia comunicacional cuja falácia mais comum é a da indiscutibilidade de um ponto de vista. Ora bem, num mundo onde as opiniões são como os “likes”, não se discutem, que podemos esperar de massa crítica? Nada. A regra é esquecer para continuar, não olhar para trás, como tantas vezes se ouve a quem nem para trás nem para a frente, apenas para a biqueira dos sapatos.
   Este nada, este apocalipse, encontramo-lo retratado em “Neo, Três Painéis de Apocalipse”, um tríptico onde a terra, o inferno e o céu se misturam e confundem, colocando cada uma das personagens no tal lugar fantasmagórico que agora nos cabe em vida. Vida-limbo. Vida-fantasma. Vida-confinada. Não-vida. Também eu me coloco a possibilidade de exagerar no diagnóstico, mas que outra coisa são senão fantasmas esses milhares de corpos que supomos dentro de caixões atirados para valas comuns fotografadas aereamente com recurso a drones? E que outra coisa são senão fantasmas os de nós, confinados, que assistem a tudo isto em casa, pelo televisor, pelo ecrã de um smartphone ou de um computador, enquanto jantamos frango com batatas fritas? Curiosamente, na peça de Sarrazac, também há desfiles de caixões rudimentares, como os de papelão no Equador, e quem os observe: «Desfilam uma última vez diante de nós os vivos.» Os cenários de devastação contrastam com os seus agentes fanfarrões, seja o arrivista chefe de cozinha que acaba pendurado pelo pescoço, seja o grande matador, à laia de exterminador implacável, que acerca da morte nos lembra: «That’s business. That’s life.» Pelo meio, o absurdo de uma mulher muda que avisa dois jovens imprevidentes e porventura sonhadores: «Que o vosso medo vos proteja!»
   Vindo de um fantasma, este conselho tem a sua ironia: «Que o vosso medo vos proteja!» Logo de seguida o cenário é uma sala-bunker, espaço proteccionista onde, aparentemente, estaremos a salvo da calamidade espreitada à varanda (talvez já sem sonhos nem utopia nem vontade de mudança, apenas um comodismo conforme o tal "novo normal"). Como é de todos sabido, Deus fez-nos à sua imagem e semelhança não descurando, porém, que sendo semelhantes a Ele fôssemos desiguais entre nós. Daí que nem todos tenham varanda, daí que nem todos possam abancar nos seus bunkers privados e devidamente mobilados observando a morte pelo buraco da fechadura. Há deles, entre nós, que têm mesmo de dar um passo para lá da soleira da porta, eventualmente mascarados por uma terceira pele, mas, ainda assim, do lado de fora, na rua, a uma distância profiláctica desse grande mistério que é o outro. O grande edifício do pânico está montado. Sobre ele apetece dizer, para terminar, tal como o desiludido que há 35 anos espera numa sala de um aeroporto: «Queiram desculpar-me mas eu não resisto ao impulso de vos dizer o que sinto neste momento… Confusão profunda. Uma horrível sensação de vacuidade.»

A Paixão do Jardineiro/Neo, Três Painéis de Apocalipse, de Jean-Pierre Sarrazac, com tradução de Isabel Lopes, é uma edição da Companhiadas Ilhas em colaboração com o Teatro da Rainha. Suponho que ainda esteja disponível para encomenda, quer no editor, quer no próprio teatro. Ambos têm páginas on-line com os respectivos contactos.

terça-feira, 28 de abril de 2020

PÉS DE BARRO

   (...) Pensem, por um momento, como seria um mundo em que não usássemos combustíveis fósseis. Antes de mais nada, não poderíamos ter um carro pessoal, nem nós nem ninguém. A vida nas cidades como as nossas, dependente do consumo de muita energia e de produtos que vêm de muito longe através dos sistemas de transporte, não poderia ser mantida.  (...) 
   Sem combustíveis fósseis, devemos dizer adeus à ideia de viajar de avião quando nos apetece. O que faremos então, se não pudermos ter acesso aos alimentos produzidos noutros continentes e embalados em plástico em grandes fábricas que chegam a nossa casa, nas cidades, através de supermercados? (...) 
   E que me dizem do enorme consumo de electricidade de que hoje dependem o nosso lazer e o nosso trabalho? Telemóveis, computadores, televisores, internet... Tudo isso consome enormes quantidades de electricidade, que é, sim senhor, produzida principalmente a partir do petróleo (quando não é das coisas piores, como o urânio das fábricas nucleares. Imagino que todas se lembram de Fukushima...).
   Por conseguinte, para enfrentar a crise ecológica e social, do que nós precisamos é de mudar por completo a nossa vida, a nossa economia, os nossos desejos, a nossa forma de habitar, de comer... E isso não depende duma lei ou dum imposto, duma proibição pontual ou dum decreto. Mesmo que uma lei proibisse o uso de combustíveis fósseis da noite para o dia, todos os problemas a que me refiro iriam continuar. O drama de o nosso mundo precisar de se autodestruir para funcionar, significa que parar a destruição implica voltar a pensar como fazer quase tudo.

Adrián Almazán, in Carta-aberta aos jovens em luta pelo clima, revista Flauta de Luz, n.º 7, Abril de 2020, pp. 60-61.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

QUANDO UM POETA MORRE


Memória para Ruy Belo.

Quando um poeta morre há sempre alguém disponível para o inscrever num obituário, dedicando-lhe meia dúzia de linhas necrológicas e uma fotografia onde surja com seu melhor perfil. Só então ficamos a saber que viveu. Tecem-se loas, partilham-se poemas, o edil lamenta a perda, o padre abençoa-lhe a alma, fazem-se homenagens. Um coro de carpideiras tinge de lamentos a atmosfera. Entretidas com os mortos, não deram pelo poeta em vida. Mas há que fazê-lo renascer agora, que está morto. Volvidos anos sobre a morte do poeta, as carpideiras mantêm-se fiéis aos defuntos. Um poeta cadáver está mais vivo do que um poeta enterrado, custa mais exumar um poeta do que chorar um cadáver. Talvez o poeta morto há anos seja merecedor de uma atençãozinha. Lembram-se do dia em que nasceu como nunca se lembraram quando estava vivo, encomenda-se-lhe um busto e convoca-se a população inteira para inaugurar uma rua com seu nome. Incrustado no mármore da placa toponomástica, o nome do poeta perdurará num pátio, numa praça, numa travessa, numa rua, eventualmente numa avenida onde outros poetas vivos circulem anónimos e indigentes. O momento é solene, ao lado do edil um padre de batina, ao lado do padre quiçá um herdeiro, ao lado do herdeiro um vazio imenso. Na rede circulam palavras do poeta como nos caudais dos rios são arrastados detritos, a tinta do nome na placa vai desaparecendo até que tudo fique branco e invisível. Talvez algures alguém gize num quadro negro as datas de nascimento e perecimento do poeta, jamais sendo certas as últimas senão tendo em conta que a vida por ele levada foi sempre a morrer até ter o corpo desistido de morrer mais. Quando um poeta morre há um bruaá de espanto e dúvida, todos quantos não deram sequer por ele em vida acham-se agora no dever de pelo menos lhe celebrarem a morte. É preciso fazer qualquer coisa pelo poeta morto. Talvez matá-lo um pouco mais, na esperança sempre segura de que venha a transformar-se em esquecimento poupando-nos, assim, a trabalhos continuados.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

PLANETA VINIL



    Começámos a ouvir falar do “buraco de ozono” em meados da década de 1980, tendo sido necessários dez anos, pelo menos, para que o assunto chegasse às escolas, acompanhado de um discurso pedagógico acerca do perigo da emissão de gases poluentes. As causas ambientalistas e ecológicas adquiriram desde então uma nova relevância, levando à alteração, ainda que lenta, de alguns comportamentos sociais e à adopção de medidas para a resolução de um problema global. O Nobel da Paz de 2007 entregue a Al Gore não foi por acaso, se tivermos em conta o documentário por ele assinado sobre as mudanças climáticas: “An Inconvenient Truth” (2006). 
   Entre o Protocolo de Montreal (1985), que tinha em vista diminuir a utilização de clorofluorcarbonetos pelos países mais desenvolvidos, e o Protocolo de Quioto (1997), que estabelecia metas de redução das emissões de gases de efeito de estufa, pouco mudou em matéria de “realismo político”. O que, de facto, parece estar a mudar é o clima na Terra, com consequências à vista de todos, excepto daqueles, cada vez menos, que teimam em opor-se a uma declaração de estado de emergência climática. Não deixa de ser sintomático de uma certa pasmaceira burocrática que seja uma jovem ambientalista a agitar as águas da decisão política, estimulando as populações a forçarem a adopção de medidas concretas pelos seus governos. Por todos os defeitos que tais movimentos possam ter, este mérito de congregação em torno de uma causa comum já ninguém lhe retira. Sucede que a agudização do discurso ambientalista se faz acompanhar de uma vertigem apocalíptica nada recomendável, tornando por vezes difícil destrinçar quanto há de fundamentalista ou de científico nestas batalhas. 
   Como transmitir a uma criança ou a um jovem a pertinência da causa ambiental, sem que tal pressuponha uma fantasmagoria catastrófica mais deprimente do que estimulante? Como explicar a uma criança que a possibilidade do mundo acabar não nos deve alhear do mundo, mas sim trabalhar para que ele se renove e perdure? Peças tais como “Dois Narizes num Mar de Plástico” (2019) e “Planeta Vinil” (2020), a mais recente assinada por Cecília Ferreira, ambas encenadas por Fernando Mora Ramos para o Teatro da Rainha, inserem-se num contexto de sensibilização para os grandes temas da actualidade que parte de um princípio de entendimento da criação artística enquanto elemento integrante das dinâmicas transformadoras da sociedade. Recusando uma atitude evangelizadora, são peças ditas para a infância que não se demitem de problematizar o mundo actual. 
    A ideia de um “Planeta Vinil” é especialmente feliz, se tivermos em conta que para um jovem da era digital o vinil tem já a natureza obsoleta dos artigos de colecção tal como o planeta Terra aparenta ter sido arrumado na cabeça de alguns líderes mundiais. Às voltas num lado A riscado, uma galinha poedeira une-se a um escaravelho e a uma criança ruiva como o era a Pipi das Meias Altas (a de agora perdeu as tranças), liderados por um peixe fora de água, todos na demanda de um lado B para o mundo. Onde ficará o lado B do mundo? Haverá um avesso do mundo? Sob ameaça de extinção, a trupe caminha a esmo — mas não desiste de caminhar. Perseguidos pelo fantasma do fim, têm no horizonte um objectivo que incita à união, afastando dentre todos preconceitos acerca das características específicas de cada qual.
   Mensagem positiva e conscienciosa, num cenário modesto, mas persuasivo, acompanhada de várias situações cómicas, gagues ao gosto de uma infância que não deixará escapar o sentido parabólico das personagens-tipo em cena. Dos ovos avariados da galinha poedeira ao estrume em que o escaravelho rebola, passando pelo peixe fora de água cujas capacidades de liderança se pautam por ideais à toa, são várias as hipóteses de abordagem desta peça que pode ser vista como uma fábula tanto acerca de um fim iminente — e, por isso mesmo, aterrador , como de uma urgente e necessária congregação de esforços em prol da continuidade da vida na Terra. E neste sentido o terror rende-se à esperança, para lá dos preconceitos que separam o pessimismo do optimismo.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

O PEDIDO DE EMPREGO



   Havia, não sei se ainda há, um programa chamado Shark Tank, com versão portuguesa traduzida como Lago dos Tubarões. O peixe graúdo, temível, era composto por certo tipo de gente a quem eufemisticamente se dá o nome de “investidores”, malta com pilim a quem o peixe miúdo submete reverencialmente as suas ideias na esperança de poder vir a crescer, adquirindo no futuro, quem sabe, o estatuto de tubarão. É o mundo do empreendedorismo na sua versão soft, para entreter famílias depois da telenovela. Chamar “lago” ao habitat dos tubarões é só parvo, era preferível a literalidade do termo tanque ou aquário ou piscina ou reservatório. 
   Kevin O’Leary, estrela do programa, pelo estilo implacável, dito pragmático, muito à maneira do que se espera de um magnata, competitivo, agressivo ou, como agora se diz, impactante, ficou conhecido no meio como Mr. Wonderful, apesar do discurso que qualquer humilde fã do Papa Francisco consideraria abjecto não fossem as necessidades. “Sou o teu melhor amigo, os teus sentimentos não me interessam”, “se está furioso, mate”, são algumas das máximas atribuídas a este aparentemente bem-sucedido homem de negócios. Diríamos que o mundo está cheio de homens destes, não fôssemos desmentidos pelas estatísticas. 
   Os 26 mais ricos do mundo têm tanto dinheiro quanto a metade mais pobre da população mundial, o que nos pode levar a pensar nos tubarões como uma espécie em vias de extinção. Na realidade, há vários tipos de tubarões. São cerca de 375 espécies, 88 das quais, curiosamente, nos mares do Brasil, variando de tamanho sem nunca largarem o topo da cadeia alimentar. No mundo dos homens, o peixe miúdo é a metade mais pobre da população mundial que serve de alimento aos tais 26. A desproporção devia chocar toda a gente preocupada com desigualdades sociais, mas nas sociedades de espectáculo promovidas pelo capitalismo selvagem aqueles 26 são uma espécie de luz que maravilha os idealistas, que fascina os lunáticos, que seduz os sonhadores, que garante o sucesso dos tais Mr. Wonderful, reproduzindo em massa vidas que alternam entre a absoluta escravidão, nos países subdesenvolvidos, a servidão, nos países em vias de desenvolvimento, e uma submissão voluntarista, nos países civilizados (o termo não é meu). 
   O dramaturgo Michel Vinaver topou cedo a mecânica das coisas, não apenas através de uma capacidade reflexiva de tipo académico, mas fazendo uso daquilo a que em ciências sociais e humanas se dá o nome de observação participante. Nascido em 1927, formou-se em literatura na Sorbonne. Mas, em 1953, entra como estagiário para a Gillette, acabando como chefe de serviços administrativos. A experiência como alto quadro de uma multinacional ofereceu-lhe uma perspectiva clarividente sobre matérias que outros apanham apenas pela rama. A peça “O Pedido de Emprego” é uma de várias que escreveu, dedicadas a estes assuntos da sobrevivência na selva dos homens. Assinala agora a estreia de António Parra como encenador. 
   Depois da estreia no Teatro da Rainha, a trupe segue em digressão pelo Teatro das Beiras já no próximo dia 10 de Janeiro. É mais uma oportunidade para assistir a um competente trabalho de encenação, em torno de um texto que adivinhamos altamente desafiante de colocar em cena. Nuno Machado é Fage, quarentão em busca de uma nova oportunidade de trabalho. José Carlos Faria, na personagem de Wallace, é o técnico de recursos humanos que submete Fage a interrogatório. Depois há Luísa, interpretada por Inês Fouto, mulher de Fage, e Mafalda Taveira no papel de Natália, a filha adolescente de Fage e Luísa, perdida de amores por um jovem revolucionário que a engravida nos intervalos da formação em anedotário progressista. A teia de diálogos cruza tempos e situações a um ritmo alucinante, levando a pensar tanto no cubismo, enquanto capacidade de multiplicar perspectivas num só enquadramento, como em algo muito mais prosaico, como seja a impressão de frenesim social que faz da vida mero instante. 
   Interessa-me Fage, encurralado entre as obrigações familiares e os deveres profissionais, esforçando-se por causar boa impressão àqueles que sabe serem os seus algozes, perdido num labirinto de vozes disparadas de todos os lados, sem saber para onde se voltar se quiser encontrar a saída. Imagino-o assim mesmo, dentro de um labirinto (peixinho às voltas no aquário?), a tentar escutar quem o chama. Chegam-lhe ecos de todos os lados, ele concentra-se, tenta perceber-lhes a origem, quer chegar ao corpo que emite o chamamento, porventura para ser abraçado ou abraçá-lo, gestos humanos luxuosos numa sociedade cujo princípio e propósito é desumanizar. Porquê? Para quê? Ora, para garantir o estatuto de wonderful àqueles cujo fascínio exercido pela maioria procura justificar uma vida, esse instante efémero, de servilismo, sem sequer deixar hipótese de nos intervalos da servidão a considerarmos desperdiçada.
   Para mim, depois de 11 anos ao serviço de uma empresa cuja mecânica consiste em explorar à exaustão as capacidades dos serventes, pagando-lhes pelo mínimo o que se propagandeia como máximo, “O Pedido de Emprego” retrata já não apenas a descartabilidade da pessoa humana em contexto laboral, mas como somos levados a desperdiçar a vida dando de comer aos tubarões a nossa própria consciência. Olho para Fage e para a sua família, olho-o e penso se é justo acusá-lo de desperdiçar a vida. Que alternativas lhe restavam? Em nome de quê, o desperdício? Talvez em nome dos chamados pequenos luxos que nos fazem enganar o tempo, julgando valer a pena morrer de velhos sem um único ano das nossas vidas ter sido verdadeiramente vivido, luxos esses tão bem ilustrados pela gravata que Luísa engoma, pelos sapatos que engraxa. Num mundo assim estruturado, que futuro sobra para a criança no ventre de Natália? Talvez seja preferível não responder, deixemos em aberto a possibilidade de vir a ser ela a escolhê-lo. Se for essa a vontade da progenitora... e de quem lhe dê emprego?

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

ARMADILHA PARA CAÇAR HIPÓCRITAS



   Começar o ano a ler teatro, nomeadamente duas peças de Luigi Pirandello (n. 1867 – m. 1936). Com tradução de Isabel Lopes, “O Barrete de Guizos” e “O Homem, A Besta e A Virtude” são as duas peças, reunidas num só volume, que marcaram o início da parceria estabelecida entre o Teatro da Rainha e a editora Companhia das Ilhas. Entretanto, foram publicados na mesma colecção volumes de Beckett, Martin Crimp e Jean-Pierre Sarrazac. À maneira de prefácio, Fernando Mora Ramos apresenta Pirandello como um “contra-aristotélico”. Assim o é, quer na lógica, quer na ética. A ligar estas duas peças, por exemplo, o tema do adultério surge expurgado de qualquer consideração moralizante, sublevando as partes implicadas num processo que tem tanto de humorístico como de desmistificador. 
   Em “O Barrete de Guizos”: uma mulher ciumenta e desconfiada procura incriminar o marido, tentando apanhá-lo em flagrante com a suposta amante. Esquece-se de que ao fazê-lo põe também em xeque a honra do marido da amante, servo fiel do presumível marido adúltero. A quadratura poderia fechar-se neste cruzamento de interesses em que tanto a “corda da civilidade” como a “corda da seriedade” parecem desafinadas, não fosse haver entre o interior e o exterior da quadratura um desajustamento  que nos leva ao que é verdadeiramente essencial nestas peças: desmontar a hipocrisia com que, por interesse ou pressão social, somos levados a fazer o que não queremos e, por com sequência, a ser o que não somos. 
   Ciampa, corno eventual, sabe bem onde está metido, tem até uma tese sobre o assunto fundada no que poderíamos apelidar de alegoria das marionetas: «No íntimo, ninguém está contente com o seu papel. Cada qual, tendo diante de si a sua própria marioneta, havia certamente de lhe cuspir na cara. Mas pelos outros não, pelos outros gostaria de a ver respeitada»
   Também o professor Paolino, da peça “O Homem, A Besta e a Virtude”, fala de hipocrisia aos seus alunos: «Uma pessoa que finge, precisamente como um comediante, que finge ser, por exemplo, um rei e, no entanto, não passa de um pobre piolhoso, ou que representa qualquer outro papel. Que mal há nisso? Nenhum. Dever! Profissão! — Então onde é que está o mal? O mal é quando não se é hipócrita dessa maneira, por dever, por profissão, em cima do palco; mas por gosto, por interesse, por maldade, por hábito, na vida — ou mesmo por educação — não haja dúvida, porque educado, ser educado, quer dizer isso mesmo: — por dentro, negros como corvos; por fora, brancos como pombas; fel no corpo, mel na boca. O mal é quando se entra aqui a dizer: Bom dia, senhor professor, em vez de: — Vá para o diabo, senhor professor!» Mas aqui a história é outra. O professor é o homem, ou seja, aquele que trai, por razões que considera não apenas justas como até virtuosas. A Besta é o marido traído, por razões que somos levados a considerar mais que justificadas. E a Virtude é a mulher adúltera, com motivos mais que razoáveis para que o seja. 
   A inversão dos padrões morais levada a cabo nestas duas peças tem um sentido divertido do tipo “crítica de costumes”, cem anos depois estupidamente actualizada com a virtualização das relações humanas a permitir um crescendo de moralismo evangelizador disseminado um pouco por todo o mundo. Claro está que por detrás do véu moralista, castrador e puritano, outras devassas se vão perpetuando sem que ninguém se preocupe em disfarçá-las, de tão entretidas andarem as massas a discutir futilidades. Nestas duas peças do Nobel Pirandello, a “santa paz doméstica” é antes a fachada que derrui para que o público assista um pouco ao ridículo de si mesmo. A verdade e a mentira deixam de ser avaliáveis segundo padrões axiológicos, podendo, dadas as circunstâncias, assumir num mesmo rosto faces viciosas e ao mesmo tempo cheias de virtude. 
   Engraçado é perceber a fragilidade dos absolutismos e das tão fáceis, urgentes e comuns precipitações do julgamento alheio, estabelecendo paradigmas e estereótipos acerca dos comportamentos humanos como se não fosse paradoxal a realidade a que em todo o momento estamos enredados. O que é a honestidade e a virtude onde o vício surge legitimado pela prática comum? Por cá, o povo diz «ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão». Que é isto senão uma legitimação da gatunagem? Quem nunca pecou, atire a primeira pedra. Será esta uma mensagem de perdão universal? 
   Mais do que sublinhar virtudes ou apontar pecados, mais do que legitimar comportamentos, a arte que deste modo nos revela enquanto seres ambíguos e paradoxais, resulta de uma auscultação, de um diagnóstico, de uma observação que dá a ver a realidade sem filtros morais, tal qual ela se apresenta a quem a viva na plenitude das suas contradições intrínsecas. Talvez por isso este também seja um teatro de denúncia, denúncia da hipocrisia com que disfarçamos a nossa natureza para nos desresponsabilizarmos das nossas acções. A graça está em assim nos vermos a descoberto, como na antiguidade o actor que apontava sentado na plateia o visado que inspirara a personagem. A arte também é uma armadilha para caçar hipócritas.

domingo, 29 de setembro de 2019

“ESTA MIÚDA É UMA MERDA”



   Evito certos temas, principalmente quando sobre eles são geradas vagas de controvérsia capazes de arrastar qualquer réstia de bom senso. Não, René, o bom senso não é, de todo, a coisa do mundo mais bem distribuída. Ontem, porém, não consegui evitar. Face ao comentário aqui transcrito sob a forma de título, senti necessidade de dizer alguma coisa. O que poderá levar alguém a referir-se a uma miúda naqueles termos? Há miúdos terríveis, sem dúvida, há miúdos que fazem coisas cruéis, indiscutível. Hoje em dia fala-se amiúde de bullying entre adolescentes, basta darmos um passeio pelo YouTube para facilmente depararmos com matéria deprimente. Logo nos sentimos tentados a generalizar, concluindo que os adolescentes são mais ágeis e expeditos no que toca à assimilação dos piores vícios humanos.
   Mesmo supondo que aquela afirmação se referia a um desses miúdos violentos, chantagistas, energúmenos, faria ela sentido? O que pode levar um adulto a dizer “esta miúda é uma merda”? Um deslize, talvez. Porventura um lapso. Ter-se-á o adulto deixado levar pelo entusiasmo como é frequente nos adolescentes. Seria um adultescente? Enfim, há muitas respostas possíveis para dúvidas análogas e se calhar estão todas certas, e se calhar nenhuma faz sentido. Terá sido apenas um desabafo imponderado.
   Mas a frase referia-se a Greta Thunberg, a tal miúda sueca que anda nas bocas do mundo. O que fez ela para andar assim nas bocas do mundo? Foi a um lugar geralmente frequentado por adultos, muito mal frequentado, diga-se de passagem, proferir palavras acerca de um dos temas mais prementes na actualidade: alterações climáticas. Não é sequer novidade, outros antes dela o fizeram com igual empenho e a mesma ênfase numa eternamente adiada urgência. Aos que no passado o fizeram, o nosso reconhecimento histórico pelo gesto. Que as palavras tenham caído em saco roto não importa, cumpriram o seu papel como Greta agora cumpre o seu.
   Não consigo compreender por que gera tanto ódio e desprezo esta miúda. Será pelo que diz? Será pelo modo como o faz? Julgaria que lhe ficaríamos gratos por demonstrar, mais que não seja, haver causas capazes de arregimentar jovens e adultos, todos em torno de um problema comum. De tanto ouvir falar no desinteresse da juventude pela política, de tanto ouvir falar na passividade e no amorfismo dos jovens, julguei que os sucessivos exemplos de empenho cívico em torno da causa representada por Greta Thunberg pudessem ser interpretados como um sinal de esperança e, senão para todos, pelo menos para a maioria, um exemplo claro e evidente de que é possível despertar consciências e levar à acção.
   Enganei-me. Muitos adultos continuam a olhar para os mais jovens como aquela classe que desde cedo pretendemos arrumada à imagem e semelhança de vetustos vícios e virtudes. Preferimos vê-los empunharem as bandeiras que sempre agitámos, com as camisolas dos clubes de que fazemos parte. Custa-nos menos aceitar que se tornarão como nós do que imaginar que poderão desviar-se dos caminhos por nós traçados. É muito mais confortável olhar para eles como quem olha para mais do mesmo. E talvez seja isto o que leva alguém a dizer que Greta é uma merda, pois é de facto uma merda assumir o erro e humildemente reconhecer que errámos. Errámos, desde logo, no diagnóstico. Por consequência, falhámos redondamente na terapia.
  Quando o mundo pedia terapias de choque, a gente contentou-se com placebos e xaropes. Não importa que outros antes de Greta ou ao mesmo tempo que Greta reivindiquem de modo mais esclarecido a favor desta causa humana básica e universal: a sustentabilidade do planeta. Porque o problema é este, o problema é a sustentabilidade do planeta. O problema não é a Greta ou outros como ela. E já dizia o poeta que para resolvermos um problema basta reconhecermos onde ele está. Talvez ainda nem todos tenham reconhecido que não está na miúda, mas sim naqueles a quem ela se dirige e aponta o dedo.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

FALAR COM O OLHAR

Em quase tudo podemos encontrar um lado bom e um lado mau. Não em tudo, como vulgarmente se diz. Não sei o que possa haver de bom, por exemplo, na perda de um filho. Mas na generalidade das coisas a gente consegue encontrar dimensões aparentemente contraditórias, os pilares sobre os quais a realidade vai sendo erguida. Penso nisto a propósito do regresso ao Facebook, depósito de lixo, execrável máquina de propaganda ao serviço da desinformação e da mentira, motor gerador de equívocos. O Facebook é como aquelas máquinas de alongamentos num ginásio, obriga-nos a um esforço tremendo, tantas vezes inglório, mas que de algum modo ajuda a tonificar os músculos do debate e da discussão. Ou ficamos sem paciência nenhuma ou ficamos com uma paciência de Jó. Este é o lado mau, este é o lado bom. Como preferirem. Mas há um lado inegavelmente bom nestas redes comunicacionais, um lado inesperado e singelo que passa quase despercebido. A partilha de instantâneos, por exemplo. 
Para o caso, roubo duas imagens. Aquela ali ao lado foi partilhada pelo meu amigo António Ramalho, a outra mais abaixo foi partilhada pela Marina Tadeu. Não sei porque gosto tanto destas duas imagens, é-me difícil exprimi-lo. Tenho a certeza que me transmitem sensações muito fortes, mas como expressá-las? Ouvimos dizer, vezes sem conta, que vivemos num mundo de imagens, que toda a comunicação está hoje intoxicada pela imagem. Este discurso é em si mesmo altamente tóxico, já que as imagens só intoxicam quem não tiver filtros para elas. E os filtros, creio, mantêm a origem. A palavra ajuda a filtrar a imagem, na medida em que lhe oferece um sentido mesmo quando o sentido da imagem é a total ausência de sentido. A palavra transforma a imagem em linguagem. Na primeira das imagens aqui partilhada podemos observar muita coisa, podemos concentrar-nos no enquadramento, falar do jogo de luz e sombra, podemos formular todo um discurso sobre o contraste do rosto pintado na parede e do corpo físico sentado ao pé desse rosto. A realidade mistura-se com a ficção nesta imagem, o equilíbrio impressiona-me por sentir ali alegria e tristeza, transformação, o prazer, representado pela bebida, a distanciar-se do corpo como de um corpo se distancia a vitalidade. Aquele homem ali sentado é uma espécie de sombra do rosto velho, mas feliz, desenhado na parede, sabemos que aquele homem está a transformar-se no rosto que o encima. Há uma espécie de projecção, continuidade.


Nesta outra imagem temos já a morte representada por um acumulado caótico de lápides. Tudo quanto sobrará de nós está ali, com um pormenor altamente dignificante. O corpo físico que na ponta superior direita olha para o alto. Quase não se vê, mas está lá. Este resquício de vida quase imperceptível num aglomerado de morte faz-me pensar em muitas coisas, a mais forte das quais é o modo como interpretamos a nossa passagem pelo tempo e a relação que mantemos com aquilo que passou e se perdeu. Há pessoas que falam da actualidade comparando-a com o passado, sem saberem minimamente como era a actualidade do tempo a que se referem. O que sabem foi o que sobrou, trabalho de conservação, o que têm desse passado é já uma construção histórica que excluiu, varreu, limpou. O passado chega-nos sempre desinfectado, expurgado, aliviado do lixo dos dias que tanto nos atrofia no presente. Mesmo agarrando numa arte relativamente recente como o cinema, para um filme de génio exibido em 1950 a gente encontra milhares de filmes de merda estreados nesse mesmo ano. A História tende a esquecer a merda, construindo um passado de sonho para nostálgicos e saudosistas. Seria altamente pedagógico encontramos uma História da Merda para ficarmos mais cientes do que andamos a fazer no mundo, não de agora, não de ontem, mas de sempre. Desse lado rasurado pelo tempo, todo esse universo esquecido, apagado, enterrado, cremado, ressuscitam por vezes breves ecos. Estes dois instantâneos fazem-me pensar nisso mesmo. De uma forma talvez involuntária captam com extraordinária argúcia a linguagem do tempo. Acho que é isso que me toca tantos nestas duas imagens. Ou então são apenas meras imagens sem significado nem sentido. Mas se assim for, por que resolveu alguém partilhá-las? E por que me dizem tanto? Alguém viu nelas algo de especial, eu também vejo nelas algo de especial. Esse ver denota já um discurso, isso é reconfortante num mundo como o de hoje. Que alguém consiga falar olhando. Cliquem para lerem melhor. 

sexta-feira, 12 de julho de 2019

TRÊS GRAÇAS


A presença de divindades pagãs num poema épico cristão é um dos elementos d'Os Lusíadas que mais perplexidade e desaprovação têm causado à crítica ao longo dos séculos. É verdade que Os Lusíadas são o único poema épico do Renascimento que os usa, mas não é menos verdade que o uso dos deuses pagãos era corrente tanto na pintura quanto na poesia pastoril renascentistas. E embora Vénus tenha servido a Camões para estabelecer uma relação histórica entre Roma e Portugal por referenciação intertextual à Eneida, a Vénus que responde às preces cristãs de Gama é também - mais ainda do que a deusa pagã da épica virgiliana - a Vénus pastoril do epicurismo renascentista, cuja representação nas Três Graças servia para significar as três vias capazes de levar o homem universal à verdadeira felicidade, combinando Poder, Sabedoria e Prazer, vita activa, vita contemplativa e vita voluptuosa.

Helder Macedo, in Cada Um Com o Seu Contrário Num Sujeito, Abysmo, Fevereiro de 2019, pp. 30-31.

sábado, 6 de julho de 2019

A CIDADE DOS PÁSSAROS




Um ano após “A Paz”, o Teatro da Rainha regressou à comédia de Aristófanes através da adaptação que o dramaturgo francês Bernard Chartreux preparou para "As Aves". Pelo meio, já este ano, devemos assinalar a parceria com o Teatro Nacional de São João na montagem de “O resto já devem conhecer do cinema”, recuperação de “As Fenícias”, de Eurípedes, assinada por Martin Crimp. Esta opção pela revisitação do teatro clássico manifesta uma atitude programática que pode ser entendida de várias formas. Desde logo, assinala a preferência por um teatro que não surja desligado da sociedade à qual se dirige. Tanto ontem como hoje estas peças mantêm um elo com a realidade social, política, cultural, que procura respeitar a capacidade que a massa a que chamamos público possa ter de reflectir o seu tempo sem lhe apagar a História.



Numa época especialmente dada a revisionismos de toda a ordem é relevante esta capacidade de vincular a arte à História sem desleixar aspectos críticos e poéticos, de liberdade interpretativa, de observação lúdica, de pura efabulação. Trata-se de um teatro que insiste no seu papel socialmente interventivo, chamando inclusive para palco um grupo de amadores que de algum modo incorporam uma ideia de povo à qual a mensagem se direcciona.



Assim como na Grécia antiga o teatro tinha preocupações pedagógicas, exercitando a crítica do quotidiano e apelando à reflexão colectiva, também nestas adaptações encontramos, misturadas com o natural entretenimento que a comédia propicia, os mesmos cuidados. O encenador Fernando Mora Ramos fala mesmo de uma revalidação do «teatro directamente político pela via do cómico», devendo aqui entender-se por político o que de nobre possa perdurar no conceito.



Curiosamente, é a degenerescência desse conceito de “política” que está em causa no original de Aristófanes e se retoma na “Cidade dos Pássaros”. Evélpides e Pistetero, os dois agastados atenienses que buscam um mundo melhor, distanciando-se de uma Atenas decadente, podem ser entendidos nessa necessidade inicial como produtos de um momento de decepção para com a pólis, desconfiando da democracia, desiludidos com os oportunistas que tomaram conta da vida pública, eles próprios em vias de se transformarem naquilo que os decepciona e desilude. Não é exactamente assim que tem sucedido com inúmeros movimentos de “cidadania política” a cavalgarem o discurso do ódio à política e da desconfiança nos políticos, do medo das políticas e da desilusão com o Estado?



Que a utopia descambe numa distopia não admira, é essa a ordem natural das coisas quando a meta final é o poder pelo poder. A ambição desmesurada de Pistetero ao convencer Tereu, mortal metamorfoseado em poupa, de que sobre os deuses devem reinar as aves presta-se a inúmeras alusões, associações, interpretações. Cada elemento da assistência que faça as suas. Se no início o desejo de felicidade parece ser legítimo, pelo meio a transformação dessa hipótese de felicidade num reinado manipulador coloca tudo em causa, desde a hierarquia entre homens, pássaros e deuses à desmesura de um projecto imperialista que, como todos os congéneres, assenta inevitavelmente na miséria da maioria para fausto de uns poucos.



O actor Fábio Costa vai excelente no papel de Pistetero, impressionando tanto pela energia como pelo ar alucinado que oferece à personagem. Menos interveniente nesta adaptação do que no original, Alexandre Calçada encarna igualmente bem Evélpides. Mas onde melhor se revelam os seus dotes caricaturais é no Hércules abrutalhado que surge mais para o fim. Manuel Freire, o da "Pedra Filosofal", aparece travestido de Camões para nos fazer lembrar o estado das artes em geral, que Sophia já tinha de algum modo ilustrado no poema "Camões e a Tença". Venâncio Calisto é um Prometeu dissimulado, afastado dos deuses como de Atenas se afastou Pistetero. Também o seu projecto de oferecer o fogo aos homens se revelou desastroso.



São muitas as figuras e os figurões que desfilam num cenário simples, mas atraente, com figurinos belíssimos no que toca ao coro de aves com movimentos próprios de aves, onomatopeias próprias de aves, mas com características comportamentais típicas de homens que facilmente com aves se confundem. Entre estas, a rouxinol interpretada por Mafalda Taveira é particularmente cativante. O seu canto oscila entre o lirismo de uma esperança encantadora e o lamento da tragédia anunciada. O projecto d’ “A Cidade dos Pássaros” redunda nesta indefinição, na medida em que procura estabelecer-se segundo os parâmetros de uma cidade dos homens, esses que tudo conspurcam e destroem com ambições desmedidas e ganância sem fim, esquecendo a mais invejável virtude dos pássaros: o voo livre.


Que da muralha erigida entre homens e deuses venham a sobrar apenas cacos, não espanta. Mas o texto é meramente preventivo. A verdade nua e crua tem as suas muralhas bem altas e intransponíveis, todas elas erigidas na terra para separarem já não os homens dos deuses, mas os homens de outros homens. Talvez no fim acabemos a falar aos peixes como o dos sermões. Se ainda houver peixes.