terça-feira, 13 de outubro de 2020
JOGO DO FIM
quarta-feira, 8 de julho de 2020
DISCURSO SOBRE O FILHO-DA-PUTA
quarta-feira, 1 de julho de 2020
FRAGILIDADES
sábado, 30 de maio de 2020
BRANCOS E PRETOS
Não muito tempo depois de um cidadão afro-americano
(norte-americano por defeito) ser torturado e executado, a céu aberto, por um
polícia extremamente zeloso da sua farda, um protótipo da Starship explodiu no
Texas durante o período de testes. Como somos fracos a contas, desconhecemos
quantos milhões arderam em combustível e se transformaram em cinzas nesta
experiência com o espaço intergaláctico em vista, espaço esse onde certamente
se viverá divinamente. Cá pela Terra, o tal afro-americano foi estrangulado, ao
que se sabe, por causa de uma suposta nota falsa de vinte dólares. A mulher do
polícia pediu divórcio. são contas mais fáceis de fazer.
É preciso referir que Elon Munsk anda deveras
excitado com a possibilidade de tornar acessíveis as viagens ao espaço, sendo
acompanhado em tamanha excitação por uma caterva de fãs que descobriram nas
novas tecnologias o futuro da humanidade. Não fossem as novas tecnologias
jamais teríamos acesso aos smartphones, fabricados com metais raros importados
da China, e jamais saberíamos quem foi George Floyd, não teríamos a mesma
capacidade de organização de vigílias e de manifestações pacíficas,
silenciosas, pelo afro-americano e, já agora, pelos 820 milhões de famintos que
definham pelo mundo, pelos índios na Amazónia e pelo coala australiano.
Um dia deixaremos de falar da distribuição
da riqueza pelo planeta para nos concentrarmos definitivamente na distribuição
da miséria, as lojas de armas não terão filas à porta em tempos de pandemia e
os milhões que surgem do nada para descanso dos mercados poderão ser aplicados
em cabanas com vista para marés de poeira em Marte. Sou um optimista, a
mulher do polícia pediu o divórcio, o Twitter vigia as declarações do
presidente da maior potência militar do mundo, estamos a salvo, Kim Jong-un
continua vivo, Bolsonaro bebe leite e o suicídio prospera no Japão, um judeu e
um índio travam-se de razões no ringue das tragédias universais: o que foi
pior, o holocausto nazi ou o extermínio dos ameríndios?
Quem ande pelas redes sociais, essas mesmas
a quem Umberto chamou o eco de uma legião de imbecis, confronta-se amiúde
com problemáticas similares, não sendo de todo raro ver gente a medir forças
entre gulags e campos de concentração nazis, Israel e Palestina, brancos e
pretos, como quem discute um clássico da liga profissional de futebol. As vidas
das pessoas não importam, na equação custo/benefício valem pouco, pesam quase
nada. Se a certa altura da nossa suposta evolução enquanto seres humanos julgámos
que sim, perdemos qualquer resquício de fé nessa possibilidade ao olharmos de
relance o mundo actual. Weisman, o judeu da peça de György Tábori, pensou
livrar-se da filha deficiente como quem se livra de gatinhos recém-nascidos.
Carrega a filha-fardo como um peso na consciência, reconhece-o. O Cara Vermelha
com quem se debate não sabe quem ou o que é, está confuso, tem um problema de
identidade, talvez um pouco à semelhança do György feito George ou de todo e
qualquer afro-americano (norte-americano por defeito). Obama já passou, Trump
aí está para recuperar o orgulho supremacista branco.
“Weisman e Cara Vermelha” (Companhia das
Ilhas, Maio de 2020), a peça de George Tabori traduzida por Carlos Borges para
o Teatro da Rainha, não escapa ao tema complexo da identidade étnica e cultural
ao colocar em cena um judeu, o que resta de um índio e uma jovem mongolóide. Ainda
se pode dizer mongolóide? Deveria dizer downiana? A questão da identidade e o
desfile de desgraças que cada um dos pugilistas tem para arremessar (parecem
duas velhas a exibir doenças) não esgotam o alcance desta comédia negra, muito
ao nível do estado do mundo tal como o vamos percepcionando a cada dia que
passa. O que impele tanto o índio como o judeu para um Nada identitário é o que
vai ficar a martelar na nossa cabeça tal como martela na consciência de cada uma
daquelas criaturas.
As Rocky Mountains são cenário perfeito para um western, ainda que no duelo final a tensão exercida pelo poder de antecipação seja subvertida por um metralhar de desgraças pessoais que trazem já por terra os dois pistoleiros. Ao silêncio de esgares traiçoeiros projectados numa sala de cinema o teatro prefere a confissão de dois derrotados, havendo talvez entre ambos uma heroína improvável. Rute, a menina deficiente, com gestos alienados de lógica, criatura que aparenta ser de outro mundo, talvez do tal espaço intergaláctico onde Elon Munsk vai tentando meter os pés com foguetões que não chegam a levantar voo. É ela que ao espalhar as cinzas da mãe por cima do pai diz: «Agora semeio a mamã em cima de ti e das rochas crescerá beladona.» A sua deficiência é estar do lado dos vencidos. Não há tecnologia capaz de transmitir tamanha sabedoria.
sexta-feira, 29 de maio de 2020
UM GESTO INTENSO
segunda-feira, 25 de maio de 2020
DA DEMOCRACIA
sexta-feira, 8 de maio de 2020
UMA IMAGEM E UM LIVRO
segunda-feira, 4 de maio de 2020
TEATRO DE FANTASMAS
terça-feira, 28 de abril de 2020
PÉS DE BARRO
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020
QUANDO UM POETA MORRE
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020
PLANETA VINIL
quinta-feira, 9 de janeiro de 2020
O PEDIDO DE EMPREGO
Depois da estreia no Teatro da Rainha, a trupe segue em digressão pelo Teatro das Beiras já no próximo dia 10 de Janeiro. É mais uma oportunidade para assistir a um competente trabalho de encenação, em torno de um texto que adivinhamos altamente desafiante de colocar em cena. Nuno Machado é Fage, quarentão em busca de uma nova oportunidade de trabalho. José Carlos Faria, na personagem de Wallace, é o técnico de recursos humanos que submete Fage a interrogatório. Depois há Luísa, interpretada por Inês Fouto, mulher de Fage, e Mafalda Taveira no papel de Natália, a filha adolescente de Fage e Luísa, perdida de amores por um jovem revolucionário que a engravida nos intervalos da formação em anedotário progressista. A teia de diálogos cruza tempos e situações a um ritmo alucinante, levando a pensar tanto no cubismo, enquanto capacidade de multiplicar perspectivas num só enquadramento, como em algo muito mais prosaico, como seja a impressão de frenesim social que faz da vida mero instante.
Interessa-me Fage, encurralado entre as obrigações familiares e os deveres profissionais, esforçando-se por causar boa impressão àqueles que sabe serem os seus algozes, perdido num labirinto de vozes disparadas de todos os lados, sem saber para onde se voltar se quiser encontrar a saída. Imagino-o assim mesmo, dentro de um labirinto (peixinho às voltas no aquário?), a tentar escutar quem o chama. Chegam-lhe ecos de todos os lados, ele concentra-se, tenta perceber-lhes a origem, quer chegar ao corpo que emite o chamamento, porventura para ser abraçado ou abraçá-lo, gestos humanos luxuosos numa sociedade cujo princípio e propósito é desumanizar. Porquê? Para quê? Ora, para garantir o estatuto de wonderful àqueles cujo fascínio exercido pela maioria procura justificar uma vida, esse instante efémero, de servilismo, sem sequer deixar hipótese de nos intervalos da servidão a considerarmos desperdiçada.























