Sentou-se na esplanada a ver
passar as raparigas, planantes de uma jovialidade que escarnece da velhice.
Quero lá saber se ficarei murcha e engelhada, dizia uma. A outra respondia com gargalhadas
irreflectidas, indiferente às regras deste jogo que consiste em captar a cada
instante um outro que permita olvidar aquele que passou. O espírito impunha-lhe
uma forma de alegria que o corpo denegava. O dever de ser feliz porfiava com a
condição de estar melancólica, envolvendo a carne numa náusea fria que a
deixava zonza. Fechou os olhos, deixando-se embalar pela sensação de que não
são apenas três os tempos que marcam o compasso da existência. Imaginou-se
rodeada de coisas sem passado nem presente nem futuro, mas depois voltou a
abrir os olhos. As raparigas atravessavam novamente a avenida, agora no sentido
contrário, libertando no ar um rastro de perfume enjoativo.
segunda-feira, 23 de novembro de 2020
NOW’S THE TIME (1945)
terça-feira, 17 de novembro de 2020
IT NEVER ENTERED MY MIND (1954)
Na verdade, trata-se de uma melodia originalmente composta para um musical cómico. Quem a escute na voz de Shirley Ross, dificilmente reconhecerá o que Miles conseguiu fazer com ela. É mais frequente do que se julga, esta transfiguração de uma cor, as metamorfoses a que sujeitamos as coisas com o nosso modo de olhar para elas. Ainda ontem sorríamos, e já hoje nos parece tão distante essa alegria. Comentamos melancolicamente as primeiras chuvas, a vizinha que vem à janela fumar, o cão à espera do dono, filtrando a realidade à nossa volta com uma nostalgia que pinga, gota a gota, como a água numa torneira avariada.
quinta-feira, 12 de novembro de 2020
AUTUMN LEAVES (1958)
Não me recordo de alguma vez lhe haver avistado uma lágrima no rosto, chão de outono atapetado de folhas caídas como lágrimas secas. Até que ponto tal lacuna me instruiu a chorar para dentro, não sei. A certa altura qualquer coisa implodiu, derribando os açudes com o estrondo de um grito não mais suportável. As faces foram fertilizadas pelo choro, as raízes irromperam vigorosas deixando sobre a pele uma sombra de frutos maduros. Claro que preferia não ser sentimental, conter as emoções de acordo com as mais básicas regras da literatura contemporânea, sabotar o sofrimento com um pouco de auto-ironia ou até mesmo certo cinismo. Preferia não ser eu, na esperança de que não fosses tu em mim, eu em ti, os dois empenhados um no outro.
terça-feira, 10 de novembro de 2020
FLEURETTE AFRICAINE (1962)
A meu pai.
O perfume a roupa lavada liberta-se
dos estendais, voluteando no ar até sossegar sobre a terra como um manto de
sementes. O aroma enraíza-se, então, frágil e persistente, obedecendo ao ritmo
das estações que, de ano para ano, nos brindam com papoilas passageiras. Minha
mãe está fechada num quarto de hospital, sonhando sabe-se lá com quê durante as
intermediáveis vinte e quatros horas do dia. Levaram-lhe uma orquídea ao quarto
para que pudesse reconfortar-se com vida contemplando as pétalas, omitindo que,
pouco depois, a flor se despediu do mundo entre sacos de lixo com gaze manchado
de sangue, máscaras cirúrgicas, fraldas. Meu pai está preocupado que ela
não venha a saber de uma flor nova desabrochada no quintal. Talvez seja
africana, aqui trazida pelo vento.
segunda-feira, 2 de novembro de 2020
STRANGE FRUIT (1939)
Talvez devêssemos dar o nome de jardineiro àquele que abre a cova onde a nossa carne desaparecerá para sempre, deixando desamparados os ossos com que um dia fomos gente. Imagino árvores frondosas crescendo dos ossos como de uma semente brota o fruto, os vivos a regarem os mortos esperando que da terra irrompam raízes de memórias fortificantes. Fazemos tudo ao contrário quando estamos acordados. A dormir é que os relógios do mundo se acertam e os sonhos corrigem desencantos. Talvez devêssemos chamar coveiro ao jardineiro que se agarra ao cabo da enxada cantando, como naquela peça de Shakespeare muito anterior à invenção dos microfones.
segunda-feira, 26 de outubro de 2020
WEST END BLUES (1928)
Estive com ele até ao fim,
recolhi cada um dos seus dentes, compilei-os numa caixa de bombons. Hoje, se pretendo
lembrá-lo, abro a caixa e vejo-o sorrir com os dentes à mostra. Não guardo
nenhuma imagem da boca vazia, excepto quando aflora ao pensamento sem que eu pretenda.
Aí, a imagem que se desenha na página é a de um buraco negro. Inclino-me
à escuta, de olhos fechados, e sinto vibrar um som que vem das profundezas do
corpo. Então canto e a morte transforma-se numa melodia agradável. Um som gerado
no âmago da terra percorre os corredores do tempo e liberta-se no ar como um
perfume. Aceito a morte como a um doce.





