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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

DYLAN THOMAS


Em versões muito livres e arriscadas, aqui e aqui. Para o Jorge Muchagato.
E mais este:

ESTE PÃO QUE REPARTO

Este pão que reparto foi outrora aveia,
Este vinho mergulhou sobre o fruto
De uma vide estrangeira;
Pelo dia o homem ou pela noite o vento
Sulcaram as baixas colheitas, deceparam a alegria da uva.

Outrora neste vinho o sangue de Verão
Bateu na carne que cobria a videira,
Outrora neste pão
A aveia foi feliz ao vento;
O homem domou o sol, puxou para baixo o vento.

Esta carne que repartes, este sangue que deixas
Criar desolação na veia,
Foi vide e aveia
Nascidas da raiz sensual e da seiva;
O meu vinho que bebes, o meu pão que mordes.

Dylan Thomas, in Twenty-Five Poems (Setembro de 1936)
Versão de HMBF

domingo, 19 de dezembro de 2010

UM POEMA DE DYLAN THOMAS

Dylan Thomas é intraduzível. Qualquer tentativa de tradução dos seus poemas deve ser considerada um crime de lesa poesia. Porém a carne é fraca e, por vezes, a gente mete-se a pensar como poderia ser em português uma música que não aceita outra língua senão a que lhe é própria. O meu perdão antecipado aos puristas:

HOUVE UM TEMPO
Em que época puderam os bailarinos com seus violinos
suspender os problemas nos parques infantis?
Houve um tempo em que podiam chorar sobre os livros,
mas o tempo gerou uma larva nos seus caminhos.
Estão inseguros sob o arco dos céus.
É mais seguro o que nesta vida fica por conhecer.
Sob os signos celestes aqueles que não têm armas
têm as mãos limpas, e, como o fantasma impiedoso
que sozinho fica ileso, também os cegos vêem melhor
.


Dylan Thomas, versão de Was there a time, datado de Dezembro de 1935, in Collected Poems 1934-1953, Phoenix, 2000.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

NO PRINCÍPIO



No princípio era a estrela de três pontas,
Um sorriso de luz através do rosto vazio;
Um galho de osso através do ar enraizador,
A bifurcada substância que medulou o sol primevo;
E cifras ardentes à volta do espaço,
O Paraíso e o Inferno misturados enquanto rodopiavam.

No princípio era a pálida assinatura,
De três sílabas e estrelada como o sorriso;
E depois vieram as impressões na água,
Selo da face cunhada sob a lua;
O sangue que tocou no mastro em cruz e o graal
Que tocou a primeira nuvem e deixou um sinal.

No princípio era o fogo fundador
Que de uma faúlha ateou os climas,
Faúlha de três olhos rubros, brusca como uma flor;
A vida surgiu e jorrou dos mares ondeados,
Irrompeu nas raízes, bombeando da pedra e da terra
Os óleos secretos que adubam os prados.

No princípio era o verbo, o verbo
Que das sólidas bases da luz
Abstraiu todas as letras do espaço vazio;
E das sombrias bases do hálito
O verbo fluiu, traduzindo para o coração
Os primeiros caracteres do nascimento e da morte.

No princípio era o cérebro secreto.
O cérebro estava fechado e soldado no pensamento
Antes de as trevas terem sido deslocadas para um sol;
Antes de as veias terem vibrado na sua peneira,
O sangue disparou e disseminou pelos ventos de luz
O nervo original do amor.



Dylan Thomas, in 18 Poems (1934)
Versão livre de HMBF