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sábado, 28 de novembro de 2020

A SEMENTEIRA DE BRUMAS

O nevoeiro faz da paisagem uma noiva frígida à espera que ele se levante. Do terraço consigo a custo vislumbrar os ciprestes, os giacomettis das árvores. Uma morta da família tinha-os carinhosamente plantado para, um dia, ocultarem a autoestrada que agora só desliza até casa pelos seus sons marítimos. Talvez aproveitem o nevoeiro para trocarem de lugar mas a esse espectáculo me furto. Tenho de descer para fazer o almoço deixando que a Terra gire a sua aliança com o desvelo de quem pode exprimir à vontade uma enorme repulsa por tudo o que a ordena.


Marina Tadeu, aqui.

domingo, 11 de outubro de 2020

QUEM DÁ MAIS

Quem é que vai chegar-se à frente com o primeiro livro de Louise Glück em português? Assírio & Alvim, Relógio D'Água, Tinta-da-China? Porto Editora, Bertrand? Entretanto encontrei poemas traduzidos para português (de Portugal) nos weblogs "Do Trapézio, Sem Rede", "Enfermaria 6", "O Melhor Amigo" e "Rua das Pretas". Quem dá mais? Seria lindo que aparecesse numa pequena editora.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

CONFORMISMO DESOLADOR

Excelente texto de Vasco M. Barreto no Ouriquense, acompanhado de uma óptima ideia. Eu apoio: 


Pedroso já disse que não vai dar troco a Ventura durante a campanha, mas o povo tem aqui uma segunda oportunidade, se Pedroso permitir: participar numa campanha de crowdfunding para processar o Chega e pedir uma indemnização milionária que deixasse Ventura sem um tostão. Se nada for feito, a Justiça em Portugal passará oficialmente a ser uma piada e fica demonstrado que o povo realmente não presta

terça-feira, 29 de setembro de 2020

APONTAMENTOS SOBRE JOGO DO FIM #5

Um artigo de 2013 onde se especula sobre a influência do xadrez nas peças de Samuel Beckett, nomeadamente em "Endgame" ("Jogo do Fim", na tradução de Isabel Lopes para o Teatro da Rainha). A dado momento, a grande dúvida coloca-se nos seguintes termos:

"Endgame in particular is, as the title makes clear, infused with chess. "Me – to play," announces Hamm, the king on a battered throne, at the outset. In chess, the king is the key piece around which the game revolves, yet also the most restricted and impotent, able to move only a square at a time, just like Hamm, who is shuffled round the stage by Clov, the pawn who glimpses freedom. In chess, the feeble pawn, if it can progress to the eighth rank, becomes an all-conquering queen, the true monarch of the game. Who really holds power – Hamm or Clov?"

terça-feira, 22 de setembro de 2020

A BALANÇA VAI NUA

Podemos partir do princípio de que se trata de uma brincadeira, uma partida inserida no contexto de regresso às aulas, recepção ao caloiro, praxes, essas coisas. Ou então é mesmo verdade e a insanidade assaltou por completo o mundo, infiltrando-se por todas as chamadas instituições clássicas, corroendo os alicerces que vão mantendo relativamente equilibradas as sociedades democráticas. Maçonaria e a Eterna Fêmea, o programa de um mestrado em Direito, é o título da notícia. Estive a ler o programa completo e fiquei interessado. A sério. Sempre tive interesse em compreender "a crítica da transformação de facto do Direito em torto". Não sei quanto se paga para aprender estas coisas, mas não há-de ser mais do que o valor despendido em biblioterapia ao longo de um  ano. E por certo não terá a mesma graça curar uma dor de dentes a ler Beckett ou ser introduzido ao "torto tribal penal" através da "substituição da moral de Cristo pela imoralidade da besta". O que valem Kafka ou Joyce ou Ionesco diante da verve de um tal Francisco Manuel Fonseca de Aguilar, docente de Direito na torta Universidade de Lisboa? Dispenso-me de comentar toda a problemática marxista e feminista que o programa se propõe esmiuçar, até porque o meu interesse vai particularmente para o "julgamento dos crimes (e.g. dos genocídios) misândricos e cristofóbicos do socialismo de género e identitário pelo modelo da herança dos julgamentos de Nuremberga dos crimes anti-semíticos do socialismo racial". Há todo um leque de tópicos a ter em conta neste mestrado que encostam Kant às linhas. "Violência doméstica como disciplina doméstica", a título de exemplo, é ilustrativo do que estamos a falar. O que esperar do Direito (penal, no caso em apreço) quando nos deparamos com estes exemplares de lucidez e elevada cultura nas nossas universidades? Eu espero que se envesgue. E vocês?

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

UMA DÚVIDA

Sendo candidata à presidência da República, não seria mais ético a paladina da probidade suspender este espaço de opinião? Não será isto tempo de antena? Não estaremos aqui perante um caso de "concorrência desleal"? Afinal eram três dúvidas. Vai dar ao mesmo.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

JORNALISMO PIMBA


 

Há dias apanhei a pivot Clara de Sousa à boleia do cantor Emanuel num carrinho de golfe. Achei piada. Já não achei tanta piada ao ouvi-la recitar um poema ao som de piano teclado pelo autor de “Baby, És Uma Bomba”. Preferira que a pivot se dedicasse às receitas e à bricolage, deixando o pimba em paz com Bruno Nogueira e companhia. O mundo não é perfeito. Quis o destino, que tem as costas largas, que eu voltasse a ver Clara de Sousa em figuras tristes poucas horas depois do episódio com Emanuel. Ontem, dando continuidade a uma perseguição à Festa do Avante, que o canal para o qual trabalha tem promovido com horas a fio de desinformação e de manipulação de notícias, opiniões públicas e comentários sucessivos sem um segundo sequer de direito a contraditório, Clara de Sousa introduziu mais uma peça de ataque à Festa com uma putativa capa do The New York Times. Sucede que a capa era falsa, uma das muitas manipulações da extrema-direita com a qual a SIC quis alinhar. O verbo querer é aqui aplicado com propriedade. O Polígrafo, parceiro mediático da SIC, já havia desmentido aquela capa horas antes de ela ser usada. O pedido de desculpas que foi feito só prova quão mau pagador e sonso é aquele canal. Tratando-se de um lapso, é sinal de incompetência atroz. Recordemos o episódio de Março, em que o mesmo canal emitiu um vídeo de Londres, datado de 2011, como se fosse do ano corrente. Ricardo Costa disse então: "A peça foi retirada do ar e seguir-se-á um pedido de desculpas público. Foi um erro absurdo de falta de verificação básica de um vídeo que estava a circular. Obrigado pelo aviso". Sublinhemos: “erro absurdo de falta de verificação”. Pois bem, o mesmo erro parece ter-se tornado regra da SIC. Ninguém verifica nada. O canal que pretendeu afirmar-se pela competência informativa, trazendo para a linha da frente um Ferrão detector de mentiras de Polígrafo em riste, brinda os seus telespectadores com duas fake news, transformando-se, deste modo, num propagador de notícias falsas e sensacionalistas. A “correiodamanhãzização” da SIC é uma evidência, com uma redacção de gente disposta a fazer fretes em nome do sensacionalismo mais ordinário. O Opinião Pública com Carneiro Jacinto do dia de ontem foi o prenúncio da desgraça total de um canal afundado numa perseguição sem sentido. Quem tenha visto aquele espectáculo deplorável, precedido dos comentários alienados de Bernardo Ferrão no Jornal das 2 do dia anterior, apercebeu-se do que a figura triste de Clara de Sousa veio apenas tornar claro como água: a SIC está-se nas tintas para a informação. É toda ela entretenimento, espectáculo pimba ao serviço da mentira e do populismo. Mais uma razão para ir à Festa do Avante, onde o crítico de televisão Mário Castrim será recordado para que nos lembremos todos de como as redacções de informação destes canais cederam às fúteis passadeiras vermelhas do espectáculo.


P.S.: e não esquecer o estranho caso do embarretado.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

A PALAVRA E A TEIA

 Por António Cabrita: aqui.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

E CONHECERÁS AS OBRAS QUE RODAM EM TORNO DA LUA DE OLHO REDONDO

(tentativa número um para criar o mundo)

Deus criou o mundo porque queria fazer uma indústria de grilos.
Ou criou primeiro os grilos. Dentro de pequenas gaiolas de cana.
E os grilos cantavam, cantavam, a sua estrídula voz
calçava a eternidade. A mulher de Deus barafustou:
"Não quero nada disto no meu jardim, com esta chinfrineira
nem consigo ouvir os meus sonhos. E que ideia,
um bicho com um canto tão triste?" Deus concedeu que os grilos
eram barulhentos. Deviam estar dispersos. E mortificou-o
a sugestão de que o canto dos grilos
era triste. As mulheres nunca estavam contentes.
Criou então o mundo para acolher os grilos., e criou
os outros animais para que os grilos os vissem
e tivessem outros motivos para cantar.
Mas é cada vez mais triste o canto dos grilos.



(tentativa número dois)

E Deus criou o mundo porque gostava de caracóis.
Ou não tanto, mas da espiral.
Sim, caprichara com aquela forma
— chamou-lhe "a minha gota de infinito —
que implantara em cima da lesma. Num estalar
de dedos criou triliões de espirais ambulantes.
A sua mulher relutava com a ubiquidade daquela baba
que aqui e ali reluzia (as auroras boreais),
mas distraía-a aquele enigmático amante d' olhos em bico
que a tudo dizia OM. Porém
cresceu o tumulto quando o sol se atapetou
de caracóis. Era uma praga.
Então Deus criou a Terra, dotou os caracóis de amnésia
e deu-lhes um predador natural: o alfinete.



(tentativa número três)

Deus criou a ilha Tera (hoje, nos mapas, Santorini),
foi essa a primeira porção de terra que despontou da sonâmbula
película de água. Chamou a sua mulher e apontou a ilha: "Eis Tera,
de que deriva o teu nome Teresa". Esta limitou-se a observar:
"As saudades que tenho de bulbul... só pode ter sido um gago,
quem lhe deu um nome!" Deus ficou furioso, embora por regra
nunca desfizesse o que havia feito. As águas também não gostaram,
aquela erupção perturbava a crença de que se situavam no topo
do mundo e encarniçadas em mostrar que água mole
em pedra dura... engendraram as marés. A Deus irritou
que algo criado derrubasse o esmero doutras manifestações
do seu imenso poder. Como represália criou o Evereste.
Foi então que, por desdém, a água cuspiu para terra
algumas bactérias e animais de improvável utilidade.

António Cabrita, in Método de caligrafia para a mão esquerda, colecção 12catorze, Edições Húmus, Junho de 2020, pp. 50-52. Entretanto, a conversa com o autor prosseguiu em Sinal Aberto.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

FESTA DO AVANTE

Num país com «mais de 40% dos doentes à espera de cirurgias fora do prazo aceitável» (notícia de hoje), onde o fascismo, e o racismo, o machismo e a homofobia a ele associados, dão diariamente sinais de medrança, num país com a «quarta maior contracção económica da União Europeia» (notícia de há dois dias), com processos de insolvência a crescerem de dia para dia... o grande tema e a grande preocupação do momento é a realização da Festa do Avante. Fomos sempre um povo sábio e perspicaz na escolha de prioridades. Entre argumentos capciosos e outros bem-intencionados (o inferno está cheio deles), passando por muita desinformação e preconceitos a rodos, há de tudo um pouco. Portugal está dividido em torno de uma “festa”. É curioso de se ver.

A realização da Festa do Avante começou a ser assunto ainda no período do Estado de Emergência. Houve muito português que adorou a experiência de não poder sair de casa sem ter uma força de segurança à porta, o travo a ditadura e o gozo do pequeno poder excitam o tiranete que há em nós. O recrudescimento da “bufaria” foi o sinal mais explícito do amor que temos à pátria em geral e à saúde pública em particular. Vai ficar tudo bem, dizia-se, como se estivesse tudo mal. Não estava nem está, porque nunca está tudo mal onde há pelo menos uma coisa que está bem: a mesquinhice nunca deixou de estar bem. É importante que se diga isto para demarcarmos o estilo naturalista da prosa. Repare-se como as comemorações do 25 de Abril e do 1 de Maio já haviam inquietado tanta gente, entretanto esquecida de quão infundadas eram tais inquietações. Repito e sublinho infundadas, para que engulam em seco as preocupações do passado. Facto: em nenhuma dessas comemorações houve o que quer que fosse que pudesse contribuir para agravar a situação pandémica do país. O mesmo não pode ser dito de outras situações onde se verificaram surtos sem que tal gerasse preocupação ou comentário. É a tal perspicácia para escolher prioridades de que há pouco falava. Somos altamente selectivos.

Aqui chegados, convém desde já desfazer o primeiro mito: a proibição de festivais. Não perderei tempo a explicar por que razão a Festa do Avante não pode ser equiparada a um festival. Só quem nunca foi à Festa do Avante pode dizer tal coisa. Frequentador de festivais desde a retoma do vetusto Vilar de Mouros, não me recordo de alguma vez ter visto no Sudoeste, no Super Bock Super Rock ou no NOS Alive, fóruns públicos de debate dedicados a temáticas tais como as listas de espera nos hospitais, o crescimento do populismo e o reaparecimento de partidos fascistas, o estado da economia portuguesa, a violência doméstica, a sinistralidade nas estradas, entre outros assuntos sem interesse. Compreendo que se olhe preferencialmente para os concertos, a roda gigante, as barracas com comes e bebes, que é aquilo para onde os portugueses tendem a olhar. Nisto somos deveras democráticos.

Basta, no entanto, ler a Lei 19/2020 para entender o equívoco propagado por certa imprensa mais interessada em fomentar assunto do que em esclarecer as pessoas. No artigo 5.º, dedicado a “Festivais e espectáculos de natureza análoga”, a lei diz, e passo a citar, «Os espetáculos referidos no número anterior podem excecionalmente ter lugar, em recinto coberto ou ao ar livre, com lugar marcado, após comunicação nos termos do número anterior e no respeito pela lotação especificamente definida pela Direção-Geral da Saúde em função das regras de distanciamento físico que sejam adequadas face à evolução da pandemia da doença COVID-19.» Em célebre entrevista, a Ministra da Saúde explicou isto mesmo. E alguma imprensa compreendeu-o. Rádio Renascença, 8 de Maio: «Covid-19: Afinal, festivais são permitidos com lugar marcado e reembolsos só em 2022»; Blitz, 8 de Maio: «Há reembolsos mas afinal também pode haver festivais. A proposta de lei do Governo para a música ao vivo»; Expresso, 8 de Maio: «Covid-19. Afinal há festivais de verão».

O cancelamento de vários festivais de grande dimensão e muito populares teve na sua origem apenas e tão-somente a incerteza quanto ao estado da pandemia na data de realização dos mesmos, a viabilização financeira face à necessidade de reduzir lotações, as garantias e os compromissos assumidos com artistas internacionais caríssimos, a questão das deslocações aéreas, enfim, toda uma logística muito mais complexa do que aquela que permite a realização do Figueira Jazz Fest , o Vilas People, o Festival Afonso Lopes Vieira, as Noites de Faro, as Noites de Verão Gaia, entre outras, inúmeras, festas e festivais que estão a realizar-se um pouco por todo o país, com condicionalismos exactamente iguais àqueles que limitarão a realização da Festa do Avante. Compreendo que fiquem tristes por não poderem ver a Taylor Swift, mas não pretendam que a vossa tristeza me impeça de poder ver os Mão Morta.

No embalo da informação mentirosa sobre proibição de festivais, assistimos a toda uma campanha já costumeira de hipocrisia que levou um tipo como Luís Delgado a falar de “racismo político” em artigo recentemente publicado na Visão. Insuspeito de qualquer simpatia comunista, diz ele numa prosa intitulada com a pergunta «Qual é o dramalhão com a Festa do Avante?»: «E aquilo que é absolutamente inaceitável, inadequado e irresponsável, é achar que o PCP, e os seus militantes, ou simpatizantes, ou coisa nenhuma, mas que gostam da festa, são uns idiotas, que não querem saber nada da Covid 19 – estilo Bolsonaro – e que não agirão com todas as cautelas. Isto cheira a racismo político.» Cheira a racismo político, mas não só. Cheira a hipocrisia, nomeadamente quando se refere que a realização da Festa do Avante é uma troca de favores entre o actual Governo e o PCP. É tanto assim, quanto é um favor que o actual Governo faz à Igreja:


à organização do Rali Vinho Madeira:


à tauromaquia:


ou a outros espectáculos que estão a suceder de Norte a Sul do país:


Se podem valer de alguma coisa ao PCP, estas imagens serão um exemplo para os frequentadores da Festa do Avante. Não façam assim, façam melhor. Neste sentido, ainda que seja um acontecimento com relevância para as finanças do partido, que não goza da generosidade contributiva dos Jacinto Leite Capelo Rego que financiam outras forças políticas, a Festa do Avante pode ter, deverá ter, vai ter uma extrema relevância em termos pedagógicos, levando-nos a acreditar que é possível e até desejável que continuemos a viver e a nos divertir, a reunir e a comunicar, sendo organizados, tendo bom senso, adoptando precauções. Não me recordo de uma edição mais relevante da Festa do que a deste ano, quer pelo pânico de viver que é imperioso combater, quer pela paranóia securitária que se instalou com a pandemia e tem, paulatinamente, feito o seu percurso de invasão nos direitos fundamentais de liberdade cidadã, reerguendo muros que impedem o debate livre e obscurecem o discernimento crítico. Distanciamento social, diz-se hoje como se fosse um benefício para todos. Não é. Importa, mais do que nunca, lembrar que se trata de uma excepção momentânea. 

Dito isto, cabe ainda reconhecer que me sensibilizam os argumentos daqueles que se mostram verdadeiramente preocupados com a questão da saúde pública. Dizem que a Festa resulta num ajuntamento que pode contribuir para a propagação da pandemia. Sou sensível a este argumento, mas com uma condição. Que ele valha o mesmo que vale para outros ajuntamentos, seja nos transportes públicos, seja nos locais de trabalho, nas praias, nos shoppings, nos jardins públicos, nas salas de espectáculos, etc, etc, etc. A Festa do Avante realiza-se num espaço aberto equivalente a 300000 metros quadrados, com uma lotação máxima de 33 mil pessoas para 100 mil possíveis. Para quem acabou de fazer um périplo pela Costa Vicentina, é no mínimo estranho, no máximo seria só patético, tanto temor com 33 mil pessoas distribuídas por 300000 metros quadrados. Sendo legítimo e compreensível, o argumento da preocupação peca por discriminação: zelo excessivo para com um evento específico (ainda por cima político), o mesmo zelo que outros eventos congéneres com aglomerados e ajuntamentos similares ou mais concentrados não inspiram. Mais grave, porém, é ser um argumento que passa ao lado do verdadeiro problema de saúde pública que estamos a viver neste momento em Portugal, e que, ao que parece, é mais lato do que a covid-19. Há um aumento da mortalidade no país que só indirectamente está relacionado com a covid-19. À força de estarem tão preocupadas com a pandemia, as pessoas esquecem-se de outras doenças e problemas de saúde que continuam a fazer vítimas todos os dias. Vamos falar do que realmente interessa? 

Para terminar, devo dizer que o melhor argumento que ouvi até agora contra a realização da Festa do Avante surgiu de um militante do PCP. Sempre é curioso notar que, acusados de extrema ortodoxia, os comunistas ainda debatem e dialogam, contra o que seria de esperar por quem julga ser o PCP uma tirania obscurantista onde o contraditório é uma ameaça à razão. Parvoíces. E o argumento é simples: dado os constrangimentos, e até a pressão a que os frequentadores do recinto estarão sujeitos, o que há de celebração da liberdade na Festa está, à partida, minado e sabotado. Faz sentido, mas também por isso deve a Festa realizar-se. Não acontecerá nos moldes a que estamos habituados, a Carvalhesa não será dançada com abraços colectivos, a proximidade não será a mesma. Mereceremos também uma atenção da imprensa que jamais merecemos. Há deles que já salivam com eventuais falhas, lacunas, erros, e vocês irão ver o que será de reportagens sobre o Avante. Mas sobretudo, e mais importante do que qualquer outra coisa, é partir deste princípio de que há mais vida para além da covid-19. Por maiores e mais acérrimos que sejam os constrangimentos, as limitações, as regras, os impedimentos, estamos juntos na luta pela liberdade e pela defesa dos direitos de quem trabalha. Não há porra de pandemia que nos impeça de o lembrar, por maiores que sejam as limitações e apertados os açaimes. Outrora, também dentro das prisões se lutou contra a ditadura. Não é agora, que o fascismo cresce e ameaça se agrava, que devemos interromper a luta. Seja na rua, seja no Avante. Seja em Festa.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

ESTREIA DIA 2 DE JULHO



Mais informações: aqui

quarta-feira, 17 de junho de 2020

FÁBRICAS DE BEBÉS

A pandemia tem levantado o véu sobre inúmeras realidades do mundo actual pouco conhecidas. Aqui temos a indústria de bebés na Ucrânia. Isso mesmo, indústria de bebés. Várias mulheres pobres, sobretudo de pequenas cidades e de zonas rurais, dão à luz por dinheiro. Os bebés são vendidos a clientes estrangeiros. E é isto.

terça-feira, 26 de maio de 2020

UM JORNAL

Sinal Aberto
 aqui

quarta-feira, 20 de maio de 2020

TORPOR




Logo, pelas 20h20m, deste dia 20 de 2020. Ide espreitar que promete: a Torpor “viverá” em www.torpor.abysmo.pt.

sábado, 18 de abril de 2020

AO QUE A AMÉRICA CHEGOU


(clicar na imagem para ver melhor)

sexta-feira, 27 de março de 2020

O COVID DOS PODEROSOS


Pessoas que estão muito preocupadas com o futuro, deixem-me lembrar-vos uma coisa: Adão e Eva também estavam. Entretanto, há quem julgue que os velhinhos e os doentinhos e os fraquinhos não se importam de dar a vida pela saúde da economia. É a eugenia ao serviço dos mercados. Talvez por isso alguns países tenham optado por políticas de isolamento selectivas, protegendo condomínios fechados e deixando os bairros pobres entregues à sua sorte. Um dos aspectos mais interessantes em alguns discursos que vamos ouvindo tem precisamente que ver com esta concepção maniqueísta do mundo, a qual tende a incutir nas pessoas a necessidade de optarem por uma de duas coisas: saúde pública ou economia? O vírus até pode ser um bem precioso se só matar velhos e gente estragada, o que aliviaria sistemas de protecção social sangrados por uma esperança média de via cada vez maior. Há todo um novo mundo de oportunidades à nossa espera. Só não entendo porque estes dilemas não surgem quando países decidem invadir outros países, fazendo exacta e meticulosamente o mesmo que o vírus agora ameaça fazer sem olhar a quem. Não, lamento. Não é a economia que se pretende salvaguardar, é o nível de vida das classes favorecidas. Só falta dizerem com todas as letras que isto é um problema de sociedades envelhecidas e debilitadas no sistema imunitário, pelo consumo excessivo de álcool, tabaco e benzodiazepinas. Se calhar já disseram e eu não ouvi.

Adenda: este artigo no The New York Times inventaria de modo cirúrgico as mentiras germinadas na boca suja de Donald Trump. São às dúzias. Entretanto, segundo os números da Universidade de Medicina Johns Hopkins, os USA são já o país com mais casos de infecção confirmados: 104837. O número de mortes não pára de crescer: 1711 ao dia de hoje.

sábado, 21 de março de 2020

CATASTRÓFICO E LINDO

Diz o Valupi, aqui. E eu não discordo. E também este, como uma referência a Caldas da Rainha. Enquanto tal: Podem parar de romantizar a pandemia?

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

BOAS PERGUNTAS

Aqui.

domingo, 19 de janeiro de 2020

LER OS OUTROS


No navio onde trabalho, estranham sempre que eu não participe nos jantares de natal ou nas festas de tripulação, preferindo ou a costumeira ida ao ginásio ou a leitura de um livro.
Explico e desculpo-me com a criação de rapaz do campo; há duas coisas de que é prudente guardar uma certa distância: de animais no cio e de árvores em queda.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

BIBLIOTERAPIA

Imaginem um retiro de leitura, seja lá isso o que for, num espaço gerido pelos descendentes de Almeida Garrett. Pobre coitado. Imaginem que o retiro será orientado por uma biblioterapeuta, seja lá isso o que for, que promete uma receita prévia de leituras personalizadas, especificamente indicadas para cada participante, ou paciente, mediante consulta especializada. Haverá direito a palestra sobre as propriedades terapêuticas da leitura, para que os enfermos não fiquem às cegas quando sujeitos à biblioterapia, presumindo-se que esta seja apresentada de acordo com parâmetros científicos universalmente reconhecidos. A troca de impressões sobre os livros receitados será acompanhada de tertúlia com autor convidado, tudo ao preço de módicos 345 €. Se julgam anedota este spa literário, esqueçam. Ocorreu-me em tempos a ideia de uma loja de poemas a metro, mas faltou-me empreendedorismo para levar o projecto a bom porto. Resta-me agora vomitar para dentro, curioso, porém, por saber a opinião deste senhor sobre as propriedades terapêuticas da literatura.

P. S. : todo um novo mundo por descobrir aqui