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quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

#110



Natural de Landsdowne, Pennsylvania, Kurt Vile (n. 1980) começou cedo a compor e a gravar canções caseiras que mais tarde transportaria para estúdio. Em 2005 fundou os The War on Drugs com Adam Granduciel, abandonando posteriormente a banda para se dedicar a uma carreira a solo repleta de colaborações. Constant Hitmaker, o álbum de estreia, data de 2008. Dez anos passados, este Bottle It In não traz novidades quanto aos territórios onde Vile pretende inscrever a sua música. Neil Young é a referência mais vezes mencionada, porventura por ser a mais facilmente detectável e porque, tal como Young, também Vile se recusa a circunscrever o campo de acção da sua música. São igualmente perceptíveis as influências sónicas e experimentais de uns Sonic Youth ou mesmo de uns The Flaming Lips. O registo vocal lembra-nos muitas vezes o de Thurston Moore.


Curiosamente, este álbum tem lá pelo meio uma versão de Rollin’ With The Flow, canção popularizada por Charlie Rich, estrela do universo country. Outro momento mais pop, por assim dizer, é Come Again. Menos instantâneas são as restantes composições, raramente construídas em torno de um refrão ou de uma melodia facilmente reproduzível. Guitarras sobrepostas, programações ligeiras, loops, sintetizadores atmosféricos, misturam-se como suporte de letras debitadas mais como quem conta uma história do que como quem canta uma canção. Arranjos complexos conduzem esta música para esquemas desafiantes, repetitivos e minimalistas, hipnotizantes. A cinta temporal dos dez minutos aplica-se a temas tais como Bassackwards, Bottle It In, Skinny Mini, resgatando desde logo este disco da prateleira dos hits para rádio.


quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

#109




Citamo-lo por oposição à rectidão, festejando-o com vinho e teatro, atribuindo-lhe o rosto do caos e da loucura, é o bom deus do acaso, dos acidentes, filho de uma mortal e, por isso, o mais próximo de nós. As dionisíacas são particularmente relevantes, já que se propunham celebrar tudo quanto tivesse que ver com criação, prazer, paixão. Os Dead Can Dance prestam-lhe culto com Dionysus (2018), peça em dois actos para quatro movimentos. Essencialmente instrumental, o álbum recupera o encantamento de outros tempos. Ouve-se como quem assiste a um ritual iniciático, com sonoridades provenientes do norte de África, dos desertos, de alguma Ásia Menor. Dance of the Bacchantes, o terceiro movimento do primeiro acto, aproxima-se do sagrado através de evocações do sufismo. É um momento alto nesta nova incursão pela música de Brendan Perry e Lisa Gerrard. Infelizmente, os pouco mais de 35 minutos de duração do ritual deixam-nos numa espécie de êxtase interrompido. E isto não se faz. É verdade que os Dead Can Dance têm uma discografia riquíssima à qual podemos sempre regressar, desde os primórdios com conotações góticas às derivas étnicas através de álbuns fabulosos tais como The Serpent’s Egg (1988) e Aion (1990). Into the Labyrinth (1993) é poesia em estado puro. Dionysus deixa-nos a meio de uma viagem repleta de evocações, embora permita desfrutar da paisagem. E é de paisagem que devemos falar quando falamos desta música, já que em poucas ocasiões nos é oferecido viajar através de lugares recônditos com composições cuja maior riqueza está precisamente na abertura multicultural e na capacidade de recolha/assimilação de referências. The Invocation é outro belíssimo momento, onde a voz de Lisa Gerrard brilha embalada por um ritmo tribal pulverizado por apontamentos etnográficos multicoloridos. O disco é dedicado a Frank Lovece, falecido este ano, amigo de longa data com carreira feita nos obscuros Primitive Calculators. 


terça-feira, 4 de dezembro de 2018

#108



Li no AllMusic que Charlyn Marie Marshall (n. 1972), isto é, Chan Marshall, ou seja, Cat Power, passou um mau bocado. Ao que parece, diagnosticaram-lhe uma doença qualquer quando descobriu que estava grávida. A criança nasceu em 2015, três anos depois de Sun (2012), três anos antes de este Wanderer (2018). Com vasta discografia iniciada em 1995, Cat Power granjeou ao longo dos anos o estatuto de singer/songwriter incontornável. Uma das mais relevantes na América contemporânea, herdeira directa de Patti Smith (n. 1946) e de Suzanne Vega (n. 1959), algures na linha descendente de Paula Frazer (n. 1963), Tori Amos (n. 1963), Kristin Hersh (n. 1966)… As onze canções do último disco expõem a faceta errante da autora, cuja vida tem sido marcada por partidas e regressos. São canções despidas de arranjos, cruas, próximas de um silêncio que sublinha a voz da cantora. No tema de abertura, o único instrumento audível é mesmo a voz. E só não é assim em todas as canções porque lá vai surgindo um piano pintalgando singelamente a atmosfera, uma viola em registo minimalista, um apontamento de percussão em ritmo lento, bluesy, melancólico. Robbin Hood parece saída de um filme de cowboys: When I walk on the right side, carry my glove, no knife in sight / Who robbing, who robbing who. De um mesmo imaginário poético terá surgido Me Voy, canção de despedida com ressonâncias da folk mexicana à qual não falta um trompete. Muitas vezes nos lembramos de Lead Belly ao ouvir este disco, nomeadamente de My Girl,  canção imortalizada pelos Nirvana no Unplugged de 1994. O tom é o mesmo, sofrido, nostálgico, com a voz subindo raramente para lá do lamento. Quem conheça minimamente a história de Cat Power não estranhará a melancolia, nem o modo como alicerça estas canções germinadas por uma ferida à espera de sarar. Pressente-se, porém, um ajustamento com a vida que está já para lá da discórdia. Não sendo conformação nem resignação, é aceitação. Lana Del Rey apoia nas vozes num tema emblemático, simplesmente intitulado Woman (é o mais orquestrado de todo o disco):


quinta-feira, 12 de julho de 2018

#107



   Inéditos não será o termo exacto. Vários dos temas agora coligidos no mais recente álbum, em dose dupla, de José Mário Branco já haviam sido editados em EPs e singles. Falemos antes de raridades, pérolas compostas entre 1967 e 1999 que no ano da graça de 2018 foram recuperadas para bem dos nossos ouvidos.
   Ao ouvir este disco, a primeira palavra que vem à memória é a palavra exílio. O exílio em Paris, fugindo da guerra colonial, pois claro, mas também um exílio criativo característico do autor de FMI. José Mário Branco é um extraordinário caso da música portuguesa, quase sempre estupidamente associado à chamada canção de protesto como quem etiqueta, data, arruma na gaveta. De resto, nesses idos de 1960, o que de novo trouxe à canção de protesto ou militante ou socialmente interventiva, como preferirem, foi precisamente uma riqueza musical que liberta a canção de uma época específica inscrevendo-a num tempo universal. Ouvimos Remendos e Côdeas, escrita a partir de um poema de Brecht, e damos com uma sofisticação que já nada tem que ver com a escola de “baladeiros” de antanho. Certo, data de 1986. No entanto, se escutarmos o single que juntou Ronda do Soldadinho e Mãos ao Ar! não vislumbramos a mesma sofisticação ao nível da composição?
   Se há característica que este álbum vem salientar é a de um compositor multifacetado, tão capaz de penetrar os territórios do rockDô-Yô (à maneira de The Shadows) — como de abraçar a música erudita — três andamentos de Fantaisie Languedocienne. Exímio arranjador, José Mário Branco denota uma cultura musical extraordinária que lhe permite pegar no Cancioneiro Galaico-Português e musicar um punhado de cantigas de amigo à moda dos trovadores medievais, mete um pé na chanson française e o outro nas marchas populares, escreve para teatro e compõe para cinema: Cantar da Viúva de Emigrante, escrita para o filme Gente do Norte, de Leonel Brito, e Fuga do Mar, com poema de Alexandre O’Neill, gravada para o filme O Ladrão do Pão, de Noémia Delgada, são duas peças etnomusicológicas absolutamente tocantes.
   Mas há ainda Fim de Verão (à maneira d’Os Conchas), para o filme Agosto, de Jorge Silva Melo, em toada pop, e Alma Herida (bolero à maneira de Antonio Machin), composta para o filme A Raiz do Coração, de Paulo Rocha. Canta em português, em castelhano, em italiano, em francês, brinca com a voz alcançando tons que dificilmente reconheceríamos como sendo de José Mário Branco não soubéssemos que com José Mário Branco (quase) tudo é possível. Se as sobras são isto, imaginem a riqueza do repertório. Não é preciso imaginar, ele está disponível, façam-lhe justiça, ouçam-no:


sexta-feira, 20 de abril de 2018

COCHE ARDENTE




Uma noite, no Verão, quando Konrád e a mãe do general tocavam uma peça para quatro mãos no palácio, algo aconteceu. Estavam sentados na sala grande, antes do jantar, e o oficial da guarda e o filho escutavam educadamente a música num canto, com aquela condescendência cortês e aquela paciência de alguém que diz: «A vida é um dever, também se deve suportar a música. Não é conveniente contrariar as senhoras.» A mãe tocava com paixão: interpretavam a Fantaisie polonaise de Chopin. Como se tudo tivesse começado a vibrar no quarto. Pai e filho sentiam, no canto da sala, na poltrona, enquanto esperavam educada e pacientemente, que nos dois corpos, no corpo da mãe e no de Konrád, alguma coisa se estava a passar. Como se a rebelião da música tivesse levantado a mobília, como se uma força atrás da janela agitasse as cortinas pesadas de seda, como se tudo o que os corações humanos haviam enterrado e que era gelatinoso e bafiento, começasse a viver, como se no coração de cada pessoa se ocultasse um ritmo mortal que num terminado momento da vida, começava a pulsar com uma força tremenda. Os ouvintes pacientes perceberam que a música era perigosa. Mas os dois ao piano, a mãe e Konrád, não se preocupavam com esse perigo. A Fantaisie polonaise era apenas um pretexto para que as forças irrompessem no mundo que moviam, fazendo explodir tudo o que a ordem humana escondia tão cuidadosamente. Estavam sentados rígidos diante do piano, direitos, com o tronco esticado e ligeiramente inclinado para trás, como se a música lançasse um coche ardente, puxado por cavalos míticos e invisíveis, e no meio da tempestade e da corrida no espaço fossem eles, de corpo hirto e mãos firmes, a segurar as rédeas das forças desencadeadas. Depois, com o toque de um único acorde, acabaram. Um raio de sol da tarde penetrava na janela grande, no feixe da luz girava a poeira dourada, como se atrás do coche divino da música que corria para longe, guiado por cavalos, se erguesse uma nuvem de pó ao longo do caminho celestial que conduzia à destruição e ao nada.

Sándor Márai, in As velas ardem até ao fim, trad. Mária Magdolna Demeter, Publicações Dom Quixote, 1.ª edição Outubro de 2001, 28.ª edição Janeiro de 2017, pp. 38-39.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

UM JOVEM RAPAZ



Nasceu em 1994. Diz-se autodidacta, apesar de lhe correr música no sangue por via materna. Multi-instrumentista, vem atraindo a atenção de meio mundo no universo musical. É ouvi-lo.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

#106



Abdiquemos do nome por detrás do rosto. As rugas, os sinais, os cabelos brancos, as olheiras, os olhos embaciados, perscrutadores, indiciam a passagem do tempo. O rosto de um homem por quem o tempo passou deixando marcas inevitáveis. De certo modo, é como se nos víssemos ao espelho com algumas décadas de atraso. Que esperar deste homem? Que nos conte histórias, que partilhe experiências, até exortações, sem que ceda à tentação de fechar-se no passado como se aí tivesse ficado o que de melhor há no mundo. Então esperamos também que mostre a sabedoria dos melhores escultores, percebendo o que há no hoje que se diferencia do ontem. Não para que se adapte cinicamente às circunstâncias, ou se acomode, mas para que possamos continuar a acreditar nas vantagens de haver amanhã. Sérgio Godinho é entre os nossos escritores de canções aquele que melhor soube acompanhar a mudança dos tempos, rodeando-se de músicos mais novos sem colocar no prego a sua identidade. Nação Valente (2018) repercute tal saber. Mesmo quando resvala para o "clássico", oferece algo de refrescante. Nota-se isso em duas excelentes canções deste álbum: Mariana Pais, 21 Anos, com música de José Mário Branco e um belíssimo arranjo para cordas de Filipe Melo, e Tipo Contrafacção, desta feita com Filipe Melo a assinar o arranjo para sopros, divertimento jazzy, e Nuno Rafael rubricando a composição. E desta apetece citar a última estrofe: «Disse: o nosso amor / Era de paixão / Prazer e razão / Era sempre agora / E agora é contrafacção / Tipo Tipo / Tipo contrafacção». Também noutras canções o amor já era… Artesanato, contrito, azedado. E talvez essa seja uma das marcas mais fortes de Nação Valente, o amor traído pela banalidade dos dias, pelo quotidiano torturador de Noite e Dia (filha da puta de canção). Mas entre Grão da mesma mó e Até já, até já não se intromete nenhuma espécie de fatalismo, os lamentos não são determinações. São dez canções que incitam, logo à abrir, a decidir por uma das opções: «Fazes que fazes / Ou pões sementes a crescer?» Há um optimismo nas canções de Godinho que me agrada, solução final para dores e frustrações, boa companhia com olhos postos no horizonte, sem fatalismos nem destino pré-determinado, um optimismo que estimula, exorta, impele à construção de algo positivo, afirmativo, vivo, num mundo estreito com a consciência de ser única a vida que se tem. Valeu:


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

UM POEMA DE AUTOR ANÓNIMO


Vivo muito assediado pelos «prováveis
do acontecimento» mas tenho os hábitos
todos: apetece-me sempre fumar, beber também,
não faço estafetas e, apesar do ginásio,
bem se podem virar que a confessionalidade
não é o que parece. Assusto-me se falam
de coisas banais. Tenho tensão alta, colestrol
em desequilíbrio, ansiedade e suores frios
se me falta o Ar, por distracção. Eu, só,
constituo um grupo de risco. Morrer
não quero. Morrer espreita-me nas letras
dos livros que Ele começava ao contrário,
rindo tanto dos outros e mais de mim,
que O leio, de vez em quando, por respeito.
Não sei, pois, se hei-de ler: Dá azar
amealhar páginas e discursos, metáforas
e traços, truques para nos enganar.
Não sei, pois, se hei-de escrever: Dá azar
que se planifique a obra, se antecipe
o livro. E há-de ficar a meio? Claro que receio
a morte e fico mais sossegado
se o digo. Dead can dance.

Anónimo, in Subsídio, Suicídio, Ostras Geladas, frenesi, Março de 1998, p. 58.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

MARK E. SMITH (1957-2018)


Tenho um único álbum dos The Fall em casa, a colectânea 458489 A-Sides (1990). Era um dos discos que mais rodava quando fui estudar para Lisboa. Muito por causa deste tema:


terça-feira, 23 de janeiro de 2018

#105


Por falar em supernanny, falemos de Jesca Hoop. Reza a história que, lá pelos começos do século XXI, foi contratada por Tom Waits como ama. Criada numa família de mórmons, cortou o cordão umbilical viajando e escrevendo canções até se estabelecer no seio da família Waits. Impressionado com os serviços, mestre Tom fez chegar uma demo a quem de direito. A canção “Seed of Wonder” tornou-se relativo sucesso na estação de rádio KCRW. Em 2007, saía o primeiro álbum: “Kismet”. Seguiram-se outros, até chegarmos a “Memories Are Now” (2017). A supernanny tornara-se uma excelente escritora de canções, como o atesta aquela que oferece título à recolha mais recente:


Publicado pela Sub Pop, que na década de 1990 se tornou a marca por excelência do grunge produzido em Seattle, “Memories Are Now” (2017) reúne nove canções apostadas em recuperar o naturalismo da composição contra a virtualização do mundo imposta pela rede e suas aliadas tecnologias. Blake Mills é um dos parceiros, responsável pelo baixo que marca ritmo e enche espaços com linhas assaz expressivas. A guitarra de Jesca Hoop é tocada com fascinante minimalismo, em riffs melódicos que apontam para tons facilmente identificáveis no universo dos blues e da folk norte-americana - que tantos escritores de canções mais recentes têm tentado recriado. Fiona Apple, com singela participação no tema “Cut Conection”, é outra desses tantos. Mais próxima da canção de embalar, “Songs of Old”, com o seu discretíssimo arranjo de cordas, transporta-nos para paragens diversas, porventura de inspiração celta. À voz de Jesca Hoop juntam-se segundas vozes, murmurando versos como se a voz arrastasse consigo sombra e eco. Ora apontando o arco contra o consumismo exacerbado, ora denunciando a virtualização da existência quotidiana, estas canções não se furtam ao papel social que a canção folk empreendeu desde a sua fundação, embora o gozo pela experimentação sonora as distancie de interpretações imediatas. “The Coming” é um impressionante poema, acerca das raízes religiosas da autora, para uma extraordinária canção expiatória, na mesma medida simples e refinada de um ponto de vista meramente musical. A excepção a tudo isto será “Pegasi”, composição tão convencional quão cativante, passe a ligeira ironia do refrão, sobre corações apaixonados e delírios amorosos:


segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

domingo, 14 de janeiro de 2018

CONTEMSPOILERS


   Um pássaro bate asas contra o vento, olhamo-lo incrédulos. O vento é muito mais forte do que o pássaro, não nos espantaria que o pássaro fosse arrastado para fora do campo de acção do vento. Mas ele insiste em bater asas. Passa-nos pela cabeça que para o pássaro seja muito mais divertido bater as asas contra o vento do que para nós é remar contra a maré. Para o pássaro, bater asas contra o vento é um divertimento. Não é instinto, nem teimosia, que o pássaro não tem, nem obstinação, palavra que o pássaro desconhece. É pura diversão. Como a água em pedra dura.
   O fotógrafo lituano Antanas Sutkus podia ser o pássaro. Vem fotografando pessoas comuns do seu país, em cenas ordinárias, desde meados da década de 1970. Os entendidos dizem que com tamanha ousadia combateu os modelos de perfeição impostos pela estética soviética, mas não estamos certos de que para Sutkus se tenha tratado de um combate. Por sua vez, o compositor György Kurtág, nascido na Roménia, mostrou-se solidário para com os coreanos do norte que combateram os americanos na Guerra da Coreia. Mas quando Bartók foi proscrito na Hungria, Kurtág mudou-se para Paris e procurou Olivier Messiaen. Já Julius Neubronner foi um farmacêutico alemão interessado na química das imagens. Servia-se de pombos para tirar fotografias aéreas, registadas em pequenas máquinas transportadas em pleno voo. Os pombos batiam as asas contra o vento, do seu esforço surdiam divertidas imagens que eram rapidamente transformadas em magníficos postais.
   Antanas Sutkus, György Kurtág e Julius Neubronner são três nomes estranhos referidos em CONTEMSPOILERS (Mia Soave, Agosto de 2017), do músico e poeta brasileiro Luca Argel (n. 1988). Neste caso, o poeta também bate asas contra o vento. Não por instinto, que há nele uma terrível cabeça pensante a tornar misteriosas as conexões fonéticas, os divertimentos formais, o aspecto lúdico do poema na síntese irónica que faz de um postal, como na secção intitulada Coroa de Patas de Caranguejo, ou nos cruzamentos que opera entre som e significado alongando a palavra textual até àquele ponto em que ela se torna figura. Não figurada, não figurativa, mas corpo que surge da intersecção das linguagens poética e musical.
   Luca Argel, licenciado em música, com mestrado em literatura, como se encontra por aí reproduzido na imprensa, é o pássaro que bate asas contra o vento no sentido de uma linguagem própria e singular. Ele não se deixa ir na onda nem se deixa levar pelo vento, tem no horizonte um núcleo sem fronteiras onde versos e prosa dialogam como na palavra escrita dialogam imagem e som. E então os idiomas misturam-se como as artes, como as disciplinas, e tudo fica mais indisciplinado, et voilà, mais poético.
   No CD com o título Livro de Reclamações, ele mesmo irónico se o entendermos enquanto bónus editorial do livro que acompanha, “replica” a estranheza com movimentos de um rock algo roufenho, ao antiquado modo gravador de quatro pistas, desmentindo radicalmente as expectativas da palavra embalada por violão ao estilo eventualmente conhecido de youtubes e afins. Esta voz é de uma provocação à qual somos incapazes de resistir, tal como não resistimos a pássaros que batam asas contra o vento. A meio do CD, o único texto do livro, e o mais improvável, é dito sobre uma guitarra minimalista, minimalíssima, sem pontuação na cadência.
   O livro, que abre com uma secção intitulada Antífonas Cafonas, não enjeitaria, aqui e acolá, melodias orelhudas ao estilo  contemporâneo. Luca Argel faz questão de subverter, isto é, de bater asas contra o vento:

A PARTE ESCRITA

a parte escrita deste poema
sofreu alterações irreversíveis.
embora ninguém saiba exactamente quais são elas,
a parte escrita deste poema
há muito já não é a mesma.

das cinco palavras do título
nenhuma foi aproveitada.
os verbos e os pronomes
foram todos substituídos.
o último verso
não existe mais
e os outros mudaram de lugar.

o assunto e os personagens
da parte escrita deste poema
diluíram-se a cada releitura
até desaparecerem completamente.
o autor da parte escrita deste poema
está irreconhecível
e mesmo o seu nome
já tem outro significado.

da parte escrita deste poema não restou
nenhum susto,
nenhuma mancha de grafite.


   Há nisto um jogo, o jogo de defraudar expectativas superando ideias feitas. Que esperar de um jovem músico e poeta brasileiro instalado em Portugal? Que amanhe melodias sedutoras para poemas metricamente irrepreensíveis? Que desenhe sambas e bossas para sonetos? Esqueçam. O poético fundamenta-se na desconstrução de uma ideia, reafirma a liberdade do autor enquanto granadeiro no terreno das formas fixas, do imobilismo, da linguagem cristalizada por convenções e metodologias academicamente propagadas. O que resta do poema é o gesto lúdico, é a ironia da desconstrução, é aceitar que a intenção anterior ao significado é já ela mesma portadora de sentido. 

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

2017, MÚSICA


   Passaram 50 anos sobre o primeiro álbum dos The Doors. Assim começámos 2017, a celebrar a efeméride. E assim fomos continuando com raríssimas excepções, interrompendo o exercício continuado da revisitação com meia dúzia de novidades. Compro cada vez menos discos. O tipo que me os vende chama-me alienígena, diz que já ninguém compra discos. Mas eu insisto nesta estúpida missão. Não é só o prazer de ter o objecto, é mesmo o prazer de o comprar como se nesse gesto estivesse implicado um acto de resistência. 
   O que seria de mim sem a música? Por certo já teria ido desta para melhor. Nada há no mundo, nem mesmo a poesia, que mais me disfarce o mundo, que mais me faça viajar, que mais me ajude a esquecer. Talvez a pintura. Também viajo muito a folhear livros de arte, a descobrir como outros fintaram os espinhos da existência. 
   Confesso a face difícil do ano que ora finda. Frank Zappa foi, sem dúvida, o músico que mais ouvi. Reencontrei na sua obra a expurgação ideal dos demónios que deformam esta coisa chamada planeta Terra. Os demónios, certos homens. Não admira que Zappa tenha dado início a uma ceita. 
   De pendor satânico, os Black Sabbath penduraram as botas. Nunca fui fã de heavy metal, o que não me impediu de apreciar Vol. 4 (1972) e outros congéneres enquanto exemplares esconjurações musicais. Fique o registo. 
   Em 2017, além dos acima ilustrados, fizeram-me companhia Car Seat Headrest, Suzanne Veja, Savages, Bon Iver, Kate Tempest e, claro, o nosso Salvador Sobral. Não me cansei de Amar Pelos Dois, que a minha Matilde continua a ensaiar ao piano vezes sem conta. Não é a banda sonora dos meus sonhos, mas sabe-me bem sonhar ao som desse romantismo pueril. 
   Seja como for, em termos de música portuguesa a grande descoberta do ano, para mim, foi o acordeonista João Barradas. Vi-o na Festa do Avante e fiquei estupefacto. Nasceu no ano em que eu entrei para a universidade, toca como um mestre. Um músico do outro mundo, ora escutem:


   Dito isto, ficam links para os 6 magníficos acima representados e + 1. Grato pela companhia:

Thurston Moore, Rock N Roll Consciousness (aqui)
Dan Auerbach, Waiting on a Song (aqui)
Fleet Foxes, Crack-Up (aqui)
Benjamin Clementine, I Tell a Fly (aqui)
WPC, Ogilala (aqui)
Micah P. Hinson, The Holy Strangers (aqui)
Tricky, Ununiform (aqui)

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

#104


Nascido em 1981, Micah P. Hinson mal tinha entrado na adolescência quando Will Oldham, Kurt Wagner, Bill Callahan ou Mark Eitzel voltaram a colocar a música country no centro das atenções. Mark Eitzel, de resto, publicou o primeiro LP com os American Music Club em 1985. Todos estres escritores de canções contribuíram, cada um à sua maneira, para uma renovação da folk, com projectos que voltaram a dar à palavra uma importância fulcral na escrita trovadoresca. Baladas melancólicas, narrando histórias de vidas despedaçadas entre cenários de ruínas, retrataram o sonho norte-americano com uma acentuação muito mais pessimista do que era habitual. O discurso já não era tão impelido por uma vontade de mudar o mundo, como parecia ser por um reconhecimento da derrota (ou de uma hipoteca dos esforços no sentido da mudança). Todos esses músicos tiveram, como é óbvio, as suas fontes criativas, fossem elas a lírica esotérica de um Leonard Cohen ou o negrume de um Johnny Cash, de quem Micah P. Hinson se aproxima indisfarçavelmente em temas como Lovers Lane ou Micah Book One do seu mais recente The Holy Strangers (2017). Álbum conceptual, como antigamente se dizia, este The Holy Strangers percorre uma história familiar marcada pela desgraça e pela desventura. Baladas típicas em Dó-Fá-Sol surgem separadas por instrumentais com arranjos de cordas sofisticados e melodias minimalistas, resvalando amiúde para densas paisagens nebulosas que exigem uma audição concentrada como hoje raramente se usa. Neste sentido, podemos dizer que The Holy Strangers é um registo do seu tempo contra o seu tempo, avesso a melodias descartáveis e com um agradável travo a tradição. Algures entre a redenção e a súplica, eis um dos grandes momentos musicais deste ano:


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

#103


Durante a década de 1990, os The Smashing Pumpkins foram uma das bandas que melhor soube aproveitar a vaga grunge em favor de um rock ambicioso na diversidade das suas propostas. Liderados por Billy Corgan, personagem perturbadora e, ao que se sabe, perturbada, nos The Smashing Pumpkins confluíam tanto a herança do heavy metal da década de 1970 como a pop neo-romântica, de inspiração gótica, da década seguinte. A perda de fôlego começou a desenhar-se já no séc. XXI, com Corgan a envolver-se em novos projectos onde ficavam patentes as mazelas de uma depressão profunda. Não será exacto considerar Ogilala (2017) o primeiro álbum a solo de William Patrick Corgan, embora o registo intimista e acústico, ao jeito mais tradicional de escritor de canções, o permita. Apoiado por um piano e pela guitarra folk, aceitando ocasionais arranjos de cordas e a colaboração de James Iha, guitarrista fundador dos The Smashing Pumpkins, Corgan esconjura em baladas simples e sem segredos, apesar da obscuridade das letras, os demónios de um universo pessoal serenado pela vida familiar. A produção do experimentadíssimo Rick Rubin, que trabalhou com Johnny Cash as American Recordings, dá uma ajuda:


domingo, 5 de novembro de 2017

#102


Ao segundo álbum, o universo poético de Benjamin Clementine complexifica-se. E por consequência, os labirintos musicais que o sustentam. O que havia de intimista no registo de estreia deu lugar a uma perspectiva sociológica da actualidade. Não nos deixemos ludibriar, porém, pela pop algo ingénua de Jupiter, tema a servir de apresentação para um álbum que nega tudo o que essa canção induz.


Entre o erudito e a pop, as estruturas musicais expostas em I Tell a Fly (2017) são um constante desafio. Logo ao primeiro tema, ironicamente intitulado Farewell Sonata, a melodia romântica é descontinuada por uma bateria em frenético ritmo rock. Os coros e o cravo oferecem um tom barroco ao todo, mas em One Awkward Fish o ritmo é drum and bass à moda dos noventas. O vozeirão de Benjamin Clementine emerge do silêncio como uma espécie narrador de um mundo alienígena, caótico, pandemónio ameaçador da segurança, da liberdade, do bem-estar dos seus actores. Um mundo governado por bárbaros. E a ironia pauta o retrato: «For me, the difference between love and hate, / Weighs the same difference / between risotto and rice pudding». Quem tenha apreciado a simplicidade e certo imediatismo do álbum de estreia, poderá decepcionar-se. Quem gostar de ser surpreendido por metamorfoses inesperadas, poderá sentir-se recompensado. By The Ports of Europe é a grande canção, hino de uma actualidade capaz de deixar meio mundo à beira da demência enquanto à outra metade já nenhum tratamento valerá: «Out of Ports of Europe / A star twinkles not on a tree / But infront of a TV screen / One wonders when it will all end / By the ports of Europe / For much of the day to mend». Há neste álbum momentos verdadeiramente expiatórios, canções orquestradas pelo sonho e por uma realidade alienante. O desafio é mantermo-nos equilibrados no fio que atravessa tal universo.


sexta-feira, 20 de outubro de 2017

#102


The Wild Bunch é o título de um western realizado por Sam Peckinpah no final da década de 1960, ao qual alguns músicos de Bristol foram buscar o nome para a incubadora do projecto que viria a gerar os populares Massive Attack. Entre eles, ainda numa fase iniciática, destacou-se o frenético Tricky. O álbum de estreia, intitulado Maxinquaye (1995), granjeou-lhe um lugar na história do então chamado trip hop. Tricky diferenciou-se por uma música onde confluíam as novas tendências da música electrónica e a velha inspiração dos blues, do rock, da soul. O mais recente Ununiform (2017) recupera-o numa forma invejável, mantendo a veia sombria que caracterizou muitos dos últimos trabalhos. Dark Days é puro electro-punk, com um riff de guitarra a pautar os sussurros do maestro e a voz límpida de Mina Rose (que voltamos a ouvir no excelente Running Wild). As colaborações com vozes femininas são, de resto, uma constante que Ununiform não interrompe. Francesca Belmonte oferece o tom bluesy e espiritual a New Stole, Avalon Lurks colabora numa versão para Doll, original das Hole de Courtney Love, Terra Lopez aparece em Armor num tema ao melhor estilo electropop com uma potente malha de baixo, a actriz, modelo e mais qualquer coisa Asia Argento oferece o tom sensual a Wait For Signal, Martina Topley-Bird, companheira de sempre, encerra o capítulo das parcerias femininas. Depois há ainda a participação de Scriptonite, rapper originário do Cazaquistão, a emprestar a alguns temas a excentricidade do idioma. Ao entrar na casa dos 50, Tricky não se desvia da zona de risco onde há muito se instalou. A sua música não é tipicamente de massas, ainda que nos ofereça momentos de uma simplicidade e de uma beleza que poucos quererão questionar (por tocarem, lá está, na ferida essencial):



terça-feira, 3 de outubro de 2017

TOM PETTY (1950-2017)


Morreu um dos símbolos da canção norte-americana. Cheguei a Tom Petty através de Bob Dylan, com quem colaborou em inúmeras ocasiões. 
Damn the Torpedoes (1979), o terceiro álbum com os The Heartbreakers, mora cá em casa em versão vinil. Foi o primeiro grande sucesso de vendas de Tom Petty. Mas a sua canção mais conhecida talvez seja Free fallin’, do álbum Full Moon Fever
Into the Great Wide Open (1991) é um dos meus álbuns preferidos de Tom Petty & The Heartbreakers. À época, as críticas não foram generosas. No entanto, continua a ser um álbum que se escuta com bastante satisfação.


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

#101


   Não é fácil dizer mal de Neil Young, pelo que estas teclas dispensar-se-ão de tal esforço. Reconheço os meus limites. Peace Trail (2016) reúne dez canções escritas e gravadas, tanto quanto se sabe, ao primeiro take. Ao primeiro ou ao segundo, tanto faz. A espontaneidade é evidente, tal o desarranjo. Gosto destes heróis que se dão ao luxo de navegar contra a maré. Neil Young pode fazê-lo, é claro. Já nada tem a provar. Mas numa época em que se ouve música por todo o lado, e tanta dela tão arrumadinha, tão plástica, tão estilizada, tão pastilhona, sermos brindados pela autenticidade de um escritor de canções na casa dos setenta é privilégio a que não se pode ficar indiferente. 
   Alternando descargas eléctricas catárticas com a calmaria de uma viola acústica, Young faz-se acompanhar de uma secção rítmica em registo de ensaio. As letras reflectem impressões políticas acerca da actualidade, dos direitos das comunidades indígenas ao sobreaquecimento global, da pós-verdade ao terrorismo, resvalando por vezes para considerações mais intimistas e autobiográficas. Inestético, mas pertinente enquanto registo de uma contemporaneidade também ela inestética, Peace Trail percorre a actualidade num tom crítico que denota a urgência de alguém que quer gritar ao mundo sabendo, de antemão, quão limitado é o alcance das suas palavras.


(…)
And everywhere I look I see people alone

Alone with their heads looking in their hands
Lost in the conversation stare
Walking with their eyes looking at the screen
Talking like they were really there

I’m lost in this new generation
Left me behind it seems
Listening to the shadow of Jimmy Hendrix
Purple Haze sounding like TV

(…)

sábado, 15 de julho de 2017

#100



   Com 44 anos celebrados no passado dia 11 de Julho, Andrew Bird mantém-se incorruptível na missão de fazer boa música. O primeiro registo em nome individual data de meados da década de 1990, sendo mais de uma dúzia os que se seguiram sempre com qualidade acima da média. Bird é um músico excepcional, invulgarmente apoiado num violino que percorre géneros musicais diversos com um desembaraço impressionante. Are You Serious (2016) prossegue na linha folk rock, não enjeitando ritmos groovy em temas como Capsized e Truth Lies Low, ou enveredando por uma pop e por um rock mais imediatos em Are You Serious e Valleys of The Young
   O violino em pizzicato e o assobio são imagens de marca que não foram abandonadas, desempenhando neste álbum de contornos intimistas um papel quase identitário. O pássaro da capa denota o sentido de humor de Bird, confirmado em muitas das letras deste disco que, a espaços, são assaltadas pelas experiências pessoais da paternidade e do casamento. A guitarra eléctrica, ora mais discreta, ora mais expressiva, é outra presença relevante, nomeadamente em canções que resultam da conjugação de diferentes melodias e ritmos. 
   Sirva de exemplo o dueto com Fiona Apple em Left Handed Kisses como um momento alto de Are You Serious, evocativo do folk-blues que tantos e tão bons escritores de canções tem dado à música norte-americana: