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sexta-feira, 12 de abril de 2019

LIXO AO AMANHECER


Esta madrugada, na rua
dominado por uma espécie
de curiosidade sociológica
revolvi com um pau o mundo surrealista
de alguns caixotes do lixo.
Verifiquei que mais do que morrerem as coisas são assassinadas.
Vi papéis ultrajados, cascas de fruta, vidros
de cor desconhecida, estranhos e atormentados metais,
trapos, ossos, pó, substâncias inexplicáveis
que a vida rejeitou. Chamou-me a atenção
o tronco de uma boneca com uma mancha escura,
uma espécie de morte num campo rosáceo.
Parece que a cultura consiste
em martirizar profundamente a matéria e empurrá-la
ao longo de um implacável intestino.
Até conforta pensar que nem mesmo o excremento
pode ser obrigado a abandonar o planeta.

Joaquín O. Giannuzzi, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 194.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

ÚLTIMA CABEÇA



Todas as ideologias a açoitaram.
Jamais conheceu a alegria do possível.
Humilharam-na a história do mundo
e a vergonha do seu país,
a calvície, os dentes perdidos,
a obscuridade cavada sob os olhos,
o fracasso pessoal da sua linguagem.
O criador que no seu interior respirou
ávido de oxigénio e de perenidade
deixou cair o martelo. Foi a razão
quem cegou suas próprias janelas. Mas nem
no delírio encontrou qualquer conclusão.
Daí que talvez não tenha sido grosseiro
o modo de negar o mundo ao despedir-se.
Assim sucedeu:
repousando sobre a última almofada
voltou para a parede
o pouco que restava do seu rosto.


Joaquín O. Giannuzzi, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 199.

domingo, 7 de abril de 2019

AMANTES NA NOITE




Amamo-nos e desligamos a televisão
como que negando a realidade. Mas o mundo
insiste nas suas convicções ou procura-as
por motivos que ignoramos ou talvez
porque o crime deva continuar seu percurso.
Chegadas de fora, suas insones figuras
pressionam as paredes onde nos refugiámos.
Encarnam no vento, uivos
de pneumáticos e, nas imediações
de todas as coisas, tiroteios
que não resolvem a discórdia universal.
Agora folhas secas acumulam-se
ao pé das janelas e uma carta
de origem desconhecida desliza
por debaixo da porta.
Mas nós florescemos nus a meio da noite
que o amor por sua própria vontade decide
e por ele sabemos como fazer da história
um clamoroso escândalo a que somos alheios.



Joaquín O. Giannuzzi estudou engenharia, mas dedicou-se desde cedo ao jornalismo. Dedicou-se à crítica literária e foi um dos colaboradores da relevante revista Sur, dirigida por Victoria Ocampo. Publicou o primeiro livro em 1958, Nuestros días mortalhes, ao qual foi atribuído o prémio da Sociedad Argentina de Escritores. Existem várias reuniões da sua poesia, a qual surge frequentemente descrita como retrato elíptico da sua época. Fluída, prosaica, próxima do linguajar comum, ocupa-se do quotidiano com extrema austeridade verbal e um certo humor de tonalidades negras. Versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 200.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

JOAQUÍN O. GIANNUZZI



TEORIA DO JARDIM

Nenhum jardim fala do seu dono:
aqui, uma pálida zona de rosas
que denunciam sua própria beleza;
uma fila de gladíolos amarelos, gerados
pela torção de espadas verdes
e ao pé do muro circundante
um sussurro húmido de violetas. Em nada disto
reconheço a minha política depressiva
nem na sua organização
as ironias do meu cérebro. A cena respira
ao ritmo inverso dos meus pulmões:
seu presente são folhas matizadas de sol
que apenas com o vento falam
enquanto, para sempre afastado desse reino,
meu passado jaz debaixo da erva.

Joaquín O. Giannuzzi (n. Buenos Aires, 29 de Julho de 1924 – m. Campo Quijano, Salta, 26 de Janeiro de 2004), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 202.

sexta-feira, 29 de março de 2019

UM POEMA DE JOAQUÍN O. GIANNUZZI



POÉTICA

A poesia não nasce.
Está aí, ao alcance
de qualquer boca
para ser dobrada, repetida, citada
total e textualmente.
Ao acordar esta manhã, você
viu coisas, aqui e acolá,
objectos, por exemplo.
Digamos que viu uma lâmpada
sobre a sua mesa-de-cabeceira,
um rádio portátil, uma caneca azul.
Viu cada coisa isolada
e viu o conjunto.
Tudo isso já tinha nome.
Assim o teria escrito.
Precisava de outra linguagem,
de outra mão, de outro par de olhos, de outra flauta?
Nada acrescente. Não deturpe.
Não mude
a música de lugar.
Poesia
é o que se está a ver.

Joaquín O. Giannuzzi, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 195.