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sexta-feira, 30 de novembro de 2018

O LIXO


Levo o lixo para a rua
embrulhado em papel e cuidado.
Ficam ali misturadas as sobras da vida,
cascas do tempo e recortes da alma.
Com tristeza as deixo no passeio
por serem restos de fruta, de comida,
e de literatura
com os quais
alguém se presumiu vivo ou creu existente.
E também porque, porventura sem que o saibamos,
alguém nos embrulhou
com papéis de céu, com nuvens de cuidado
e estamos na ponta do universo
e ninguém se despede de nós.
Levo o lixo para a rua, deixo-o no passeio,
e digo-lhe: Adeus.

Jorge Calvetti, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La Poesía del siglo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 89.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

A NINGUÉM QUIS EU NESTE MUNDO



A ninguém quis eu neste mundo
nem com amor fantasiei esperanças.
Mudei meu destino ante o funesto esplendor das palavras
e sou testemunha do meu desdém pelo fulgor da vida.
Percorri campos,
a Puna inóspita e odiada
com pássaros que vivem em liberdade
e gente de alma silenciosa.
Aí vi cavalos procurando a mísera sombra do cacto
e cães dormindo à sombra de um cavalo.
Respirei o ar sujo das cidades
e abominei o dia que me deu luz para ver homens enganados.
Passei noites em gabinetes manchados
com espelhos que mostram o passado e a dor de todos os homens;
neles observei obsessivamente e sem lamúrias
o horrível latejar das minhas fontes,
minha dolorosa imagem de homem sem tempo para chorar sua descrença.
Eu não olhei para as coisas com carinho.
Sou testemunha do meu desdém
pelo vão fulgor da vida.
Apenas sei da morte que dispõe as figuras
que movem marés ocultas no coração
e me entrega palavras que à noite pronuncio
para manchar o mundo de sonho dos homens.

Jorge Calvetti, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La Poesía del siglo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 91-92.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

UM POEMA DE JORGE CALVETTI



O JORNALISMO

Todos, estou seguro,
se comoveram em algum momento,
ao lerem ontem o jornal.
Em todo o lado, aqui, no outro mundo
ocorreram coisas importantes:
um princípio de acordo
entre a Índia e o Paquistão;
a greve dos mineiros em Malargüe,
aquele preso torturado
que não delatou ninguém.
O jornal, ontem,
media o pulso ao mundo
e agora vejo-o embrulhando fruta,
amarrotado, no chão,
constelado por pingos de tinta
onde estão pintando,
cobrindo o peito de um bêbado
a dormir num corredor.
Leva-o o vento por todas as esquinas
e lá vão as
imagens do mundo, os feitos,
rostos possíveis da entrevista Realidade.
E com elas, voando para nada,
nossos pobres, enregelados destinos.

Amigo de Jorge Luis Borges, optou por uma vida na província a domar e a vender cavalos. Jorge Calvetti publicou o primeiro livro em 1944, Fundación en el cielo. Dizem que a sua poesia testemunha o amor à terra e às gentes do mundo rural, o que se verifica igualmente nos contos que escreveu. Em 1955, fundou com Néstor Groppa, Mario Busignani, Héctor Tizón, Medardo Pantoja e Andrés Fidalgo a revista literária Tarja. À sua obra foram atribuídos vários e relevantes prémios, tendo sido eleito, no ano de 1984, membro da Academia Argentina de Letras. Já em 1999, foi designado membro correspondente da Real Academia Espanhola. Trabalhou com diversos jornais e revistas. Com uma linguagem sóbria, tende frequentemente para uma poesia reveladora dos lugares e dos costumes dos povos. Sensível, delicada, ascética, são algumas das características geralmente atribuídas à sua poesia. Tinha 86 anos quando morreu. O poema acima transcrito foi traduzido por HMBF a partir da versão coligida por Marta Ferrari, in Poesía Argentina - Antología esencial, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 98.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

FALA UM SOLDADO DA CONQUISTA




«…era de ânimo robusto e licencioso de costumes, daí não ter merecido fortuna na Califórnia nem em Ida de Higueras, nem em lugar algum desde que chegou a esta terra. Confessou-se publicamente com cinismo e blasfémia. Deus lhe perdoe os pecados e também a mim e me dê boa morte, mais importante do que as conquistas e vitórias que tivemos contra os índios
Verdadeira história da conquista da Nova Espanha
Bernal Díaz del Castillo

«Vim porque me pagavam
e eu queria comprar espadas e mulheres.
Vim porque me falaram de montanhas resplandecentes
como um entardecer no mar
e como o ouro com que haveria de me vestir quando regressasse.
Mas só encontrei flechas envenenadas,
humidade e mosquitos.
Conheci o terror, noites sigilosas,
índios vestidos com sua beleza sinistra,
a força de uma terra que nos dobrou
como a sede aos animais,
e a movediça mortalha da selva.»

«Alguém falou de honra a bordo.
A bordo
falavam e rezavam com lentas mãos sobre livros dourados.
nessas mãos se apoiaram o grito e o desespero;
com essas mãos escavaram a terra que nos iria cobrir.
Alguém falou de «história» e de «futuro»;
eu apenas penso no que perdi.
Creio que tudo é igual,
as mentiras que nos disseram e as verdades que encontrámos.
Haverá sempre loucos que viverão de palavras,
e sempre o mundo misturará com a mesma indiferença
a vida, que cresce no esquecimento,
a glória, que se arrasta,
e a laboriosa cobiça da morte.»

Jorge Calvetti (n. Maimara, San Salvador de Jujuy, Argentina, 1916 – Buenos Aires, 4 de Novembro de 2002), traduzido por HMBF a partir da versão coligida por Marta Ferrari, in Poesía Argentina - Antología esencial, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 86-87.