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quinta-feira, 18 de julho de 2019

AINDA JUAN GELMAN



CORAGENS

é enorme a tristeza que um homem  uma mulher
podem gerar entre si
como enormes são aqueles dois passaritos parados
num galho a bicarem-se
e enorme é a própria árvore com chuvas sob o sol
que se lhe vê no rosto

choverá? não choverá? será isso
que cantam os passaritos? continuará a enorme
tristeza mandando crescendo como um lago ou mar
entre um homem e uma mulher?

voará a tristeza entre árvore e árvore?
como passos solitários numa habitação?
como madréporas pelo ar?
como tábuas como pontes porém desoladas desamadas?

um ramo caiu no lago e navega
é enorme a tristeza que um homem e uma mulher
podem gerar entre si
como enorme é a navegação do ramo no lago
encharcado da sua própria coragem

Juan Gelman, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 307.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

JUAN GELMAN E O EXÍLIO



CITAÇÃO VI (SANTA TERESA)

alma que resfolgas na metade
do pensamento / da vida / como
um cavalo que correu / onde está a ração
que detenha tuas patas loucas? / ânsia

de derramar grandíssimo o amor
para que durma abraçada ao esposo
que treme à aurora contra a sombra
da tua meditação? / flores que cheiras

na macieira do amor crescido
onde as minhas várias almas se perderam
para que almes meu desencarcerado rosto

com ela aberta na metade de si /
beleza de vós enquanto orações
onde madruga em pena o meu silêncio?



Poeta, jornalista, tradutor, Juan Gelman (Buenos Aires, 3 de Maio de 1930 – Cidade do México, 14 de Janeiro de 2014) foi um importante poeta argentino a quem atribuíram em 2007 o Prémio Cervantes. A participação em organizações de guerrilha contra a ditadura levou-o ao exílio, acabando por radicar-se no México. Publicou o primeiro poema com apenas 11 anos, vindo mais tarde a integrar a corrente da “nueva poesia” (1955-1967) fundando o grupo “El pan duro”. Neste grupo militavam jovens poetas comunistas que propunham uma poesia politicamente comprometida. Abandonou o Partido Comunista por volta de 1960, defendendo a luta armada à semelhança do que havia acontecido na Revolução Cubana. Formou então o grupo "Nueva Expresión", dedicando-se ao jornalismo revolucionário. Com Eduardo Galeano esteve na revista “Crisis”. Forçado ao exílio, viu serem sequestrados os seus filhos Eva e Marcelo, assim como a nora, grávida à época, María Claudia Irureta Goyena. Soube através da Igreja Católica que a nora havia dado à luz em cativeiro. Durante este período da ditadura, mais de 30000 pessoas foram dadas como desaparecidas na Argentina. Os restos mortais do filho foram posteriormente encontrados num rio de San Fernando, dentro de um contentor cheio de cimento. A autópsia revelou que tinha sido assassinado com um tiro na nuca. Juan Gelman conseguiu descobrir que a nora foi deslocada para o Uruguai durante o conhecido Plan Cóndor. Escritores como Günter Grass, Darío Fo, José Saramago, exerceram forte pressão internacional para o ajudarem a encontrar a neta, o que aconteceu em 2000. O poema acima transcrito, composto durante o exílio, faz parte de um conjunto de poemas que dialogam com o castelhano do séc. XVI através de citações dos místicos São João da Cruz e Santa Teresa. Gelman referiu-se a eles como uma necessidade de encontrar através da linguagem as raízes profundas de um exilado. Versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 308.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

ACERCA DA POESIA




haveria algumas coisas a dizer /
que ninguém a lê muito /
que são poucos esses ninguém /
que o mundo inteiro está com o tema da crise mundial / e

com o tema de comer diariamente / trata-se
de um assunto importante / lembro-me
de quando o tio Juan morreu de fome /
dizia que não se lembrava de comer e não havia problema /

mas o problema veio depois /
não havia dinheiro para o caixão /
e quando finalmente passou o camião municipal para o levar
o tio juan parecia um pequeno pássaro /

os do município observaram-no com desprezo ou desdém / murmuravam
que estão sempre a dizer mal deles /
que eram homens e enterravam homens / e não
pequenos pássaros como o tio juan / especialmente
porque o tio foi toda a viajem a cantar piu-piu até ao crematório municipal /

e isso pareceu-lhes falta de respeito e sentiam-se muito ofendidos /
e quando lhe davam uma chapada para que calasse a boca /
o piu-piu voava pela cabine do camião e eles
sentiam o piu-piu dentro da cabeça / o

tio juan era assim / gostava de cantar /
e não via por que seria a morte motivo para não cantar /
entrou no forno a cantar piu-piu / as cinzas saíram e piaram um pouco /
e os funcionários municipais olharam envergonhados para os sapatos cinzentos / mas

voltando à poesia /
os poetas agora passam-na muito mal /
ninguém os lê muito / são poucos esses ninguém /
o ofício perdeu prestígio / cada dia é mais difícil para um poeta

conseguir o amor de uma rapariga /
ser candidato a presidente / que algum merceeiro lhe fie /
que um guerreiro consiga façanhas para que ele as cante /
que um rei lhe pague cada verso com três moedas de ouro /
e ninguém sabe se assim é porque acabaram as raparigas / os merceeiros / os guerreiros / os reis
ou simplesmente os poetas /
ou as duas coisas aconteceram e é inútil
maçar a cabeça a pensar no assunto /

lindo é saber que alguém pode cantar piu-piu
nas mais raras circunstâncias /
tio juan depois de morto / eu agora
para que me ames /

Juan Gelman, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 309-311.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

LAMENTO PELO POMBO DE BUTCH BUTCHANAM




o pobre butch butchanam passou os últimos anos
a tratar de um pombo cego e sem querer ver ninguém
solidário para com o pássaro que amava e tratava
e que por vezes batia asas ao seu ombro deixando cair
um som doce a laranjas azuis girando no céu
a demónios de pé sobre um rato
a macacos de pedra surpreendidos durante o acto

«ó pombo» dizia butch butchanam «amas a cegueira
e eu converti meu coração em cegueira
para que voes ao seu redor e fiques»
mas o que tem de desaparecer
tudo quanto se mastiga come chupa bebe ou saboreia,
chegava com o crepúsculo e tristeza para butch
tristeza para butch.

o qual:
sonhava com desertos semeados com caveiras de vaca
castelos de areia instantânea ou poalha aquietada na terra
vagas (serpenteantes) de tempo em Melody Spring
e antepassados que já não conheciam nem dor nem dores de morte
e falavam um idioma lento amarelo feliz
como um laço dourado ao pescoço

noites e mais noites sonhou butch butchanam
até saber que ia morrer
voltou a cama para sul e acomodou-se indiferente ao céu
e deixou escrito no pombo que o enterrassem de costas para o céu
e aqui jaz de costas para o céu observando tudo quanto sobe e desce
em Melody terra de desgraçados que:

degolaram o pombo assaram-no e comeram-no
comprovando com horror cristão
que os observava do prato
com a memória dos seus olhos

Juan Gelman, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 304-305.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

UM TANGO DE JUAN GELMAN



TANGO

Aquela mulher parecia-se à palavra nunca,
um encanto particular subia-lhe pelo pescoço,
espécie de esquecimento onde guardar os olhos,
aquela mulher instalava-se-me no flanco esquerdo.

Atenção atenção gritava-lhe atenção
mas ela invadia como o amor, como a noite,
os últimos sinais que fiz para o outono
deitaram-se tranquilos sob suas mãos ondeantes.

Ruídos secos estalejaram dentro de mim,
aos poucos tombavam a fúria, a tristeza,
a senhora chovia docemente
sobre  meus ossos parados na solidão.

Quando partiu eu tremia como um condenado,
matei-me com um golpe brusco,
irei passar a morte inteira estendido com seu nome,
ele moverá minha boca pela última vez.

Juan Gelman (n. Buenos Aires, Argentina, 1930 – m. La Condesa, Cidade do México, 2014), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 303.

terça-feira, 25 de junho de 2019

ARTE POÉTICA DE JUAN GELMAN



ARTE POÉTICA

Entre tantos ofícios exerço este que não me pertence,

tal patrão implacável
obriga-me a trabalhar noite e dia,
com dor, com amor,
debaixo de chuva, entre catástrofes,
quando se abrem os braços da ternura ou da alma,
quando a doença fere as mãos.
A este ofício me obrigam dores alheias,
as lágrimas, lenços que nos saúdam,
as promessas a meio do outono ou do fogo,
os beijos do encontro, os beijos do adeus,
tudo me obriga a trabalhar com as palavras, com sangue.

Nunca fui dono das minhas cinzas, meus versos,
rostos obscuros os escrevem como quem dispara contra a morte.

Juan Gelman (n. Buenos Aires, Argentina, 1930 – m. La Condesa, Cidade do México, 2014), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 302.  

segunda-feira, 24 de junho de 2019

UM POEMA DE JUAN GELMAN



O JOGO EM QUE ESTAMOS

Se me dessem a escolher, escolheria
esta saúde de saber que estamos assaz doentes,
esta fortuna de andarmos tão infelizes.

Se me dessem a escolher, escolheria
esta inocência de não ser um inocente,
esta pureza em que passo por impuro.

Se me dessem a escolher, escolheria
este amor com que odeio,
esta esperança que se alimenta do desespero.

Sucede, senhores,
que jogo com a morte.

Juan Gelman (n. Buenos Aires, Argentina, 1930 – m. La Condesa, Cidade do México, 2014), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 301.  

domingo, 23 de junho de 2019

EDUARDO GALEANO & JUAN GELMAN



NOTÍCIAS (II)

   Da Argentina.
   Luis Sabini salvou-se. Conseguiu sair do país. Tinha desaparecido nos finais de 1975 e, passado um mês, soubemos que o tinham prendido. De Haroldo Conti não há rasto. Foram buscar Juan Gelman à sua casa de Buenos Aires. Como não estava, levaram os filhos. A filha apareceu uns dias depois. Do filho não se sabe nada. A polícia diz que não o tem; os militares dizem que também não. Juan ia ser avô. A nora, grávida, também desapareceu. Cacho Paoletti, que nos enviava textos de La Rioja, foi torturado e continua preso. Outros escritores que publicaram na revista: Paco Urondo, morto a tiro há algum tempo, em Mendoza; Antonio Di Benedetto, na cadeia; Rodollfo Walsh, desaparecido. Nas vésperas do seu próprio sequestro, Rodolfo enviou uma carta denunciando que a Três A é hoje as Forças Armadas, «a própria fonte do terror que perdeu o rumo e só consegue balbuciar o discurso da morte».

Eduardo Galeano, in Dias e Noites de Amor e de Guerra, trad. Helena Pitta, Antígona, Março de 2019, p. 301.

A CHAMA

A velha chama não se apaga.
As tormentas, as
impiedades, tudo
quanto renuncia não
o impedem de tremer como corpo desejado.
Insiste no fracasso do mal, ainda que
ilimitado sangue tenha primeiro
manchado o coração, ele que
a cada dia mudava de fúrias.
A chama está escrita e não se perde.
Frequenta imprecisas terras
que vai construindo.

                                 (a Eduardo Galeano)

Juan Gelman, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 294-295.