“CARMES”
de Paulo da Costa
Domingos
Talvez tudo tenha começado quando na escola
primária fomos obrigados a decorar o hino nacional, posteriormente guarnecido
com a épica de Camões. Eu já não apanhei o retrato do ditador nas paredes da
escola, mas ainda havia um crucifixo a indicar-nos o “bom caminho”. Paulo da
Costa Domingos (n. 1953) começou a publicar quando a ditadura impunha sua lei,
fazendo parte de uma geração que foi a última a sentir no corpo as metástases
de um cancro chamado fascismo. Subsequentes gerações têm vindo a acusar
sintomas, o que leva a crer não bastarem 45 anos de fachada democrática para
dar por extinta a doença.
“Palavras” (1972), livro posteriormente retirado,
precedeu aquele que devemos hoje considerar o primeiro deste ofício, até pelo
carácter revelador do título. “Gogh, Uma Orelha Sem Mestre” (1975) remete-nos
para o pintor holandês que Antonin Artaud sabiamente designou de “suicidado da
sociedade”, num gesto cujo propósito supomos ter sido o de denunciar a
violência exercida pela sociedade sobre os seus indivíduos. Ora, se não podemos
ter a certeza sobre as razões que levaram Vincent Van Gogh a automutilar uma
orelha, podemos pelo menos especular que o tenha feito para que não lha
puxassem como outrora se fazia aos meninos mal comportados. A “orelha sem
mestre” de Paulo da Costa Domingos anuncia um modo de estar na vida e, por
consequência, na poesia com absoluta independência e autodidactismo, cindindo
eventuais cordões umbilicais entre as figuras do mestre e do discípulo. O
recado foi dado num dos versos iniciais, o último do poema “Maillot”: «Eles que
sigam o caminho das suas igrejas, eu seguirei o meu» (p. 35).
Não julguemos, porém, que o autodidactismo
se pratica ao acaso e sem rigor, sem referências nem faróis. De um modo directo
ou indirecto, as referências despontam no corpo dos poemas. Não vale a pena ser
exaustivo a enumerá-las, mas convém sublinhar que jamais alguma vez foram
usadas como meros adereços e por vezes ganham até a forma de manchas na pele.
Gramsci, Nietzsche, Debord, Burroughs, Rimbaud não são meros nomes num caderno
de anotações, estimulam uma interpelação que tem mais em vista horizontes de
dúvida do que um passado ancorado em certezas.
Quando Patti Smith, que Paulo da Costa
Domingos traduziu, se dirigiu recentemente aos fãs portugueses dizendo “O
futuro é agora, motherfuckers”, isso não pode ser interpretado como sinal de
esperança, mas antes como incentivo à acção, inquieta, desassossegada,
eternamente insatisfeita. Este conflito permanente entre uma imobilidade
estéril, promovida pela boa educação das sociedades ditas civilizadas, e o frenesi
intelectual daquele que questiona, pensa, duvida, critica, desprezado nessas
mesmas sociedades, é um dos fundamentos desta poesia, como facilmente se
depreende no tom irónico da seguinte estrofe: «Melhor fôra estar quieto, uma âncora,
realmente / preso à figuração de sons, noutros jogos / de sarau sem grandes
ideais ou navios ou paixões, / mais dedicado ao miolo do edifício: panem et
circenses» (p. 159).
Ao relermos esta mais recente reunião da
poesia de Paulo da Costa Domingos, que já em 1995 havia submetido o seu
trabalho poético a idêntica (des)organização com a antologia “Carmina”, outras
coordenadas se nos apresentam. Bastará para tanto prestar atenção ao poema “A
Passagem do Mar Negro”, observando o «plâncton de uma barca / musgosa» (p.
102). O que “Carmes” torna mais claro é o processo de reflexão crítica da
histórica inerente ao conjunto, sugerido recorrentemente por uma terminologia
náutica onde vislumbramos imagens com uma «forte índole marítima» (p. 151):
âncora, cargueiro, deriva, atracar, cais, nau, veleiro, naufrágio, jangada,
barca, navegação, estibordo, proa, ou mesmo o título de uma das colectâneas
mais recentes aqui incluída: “A Vau”.
A viagem agora empreendida não é por “mares
nunca dantes navegados”, mas pode ter como ponto de partida o “Cais das
Colunas”, no Terreiro do Paço, na senda de um olhar crítico acerca da
actualidade que não prescinde da consciência de uma poluição cultural produzida
pelo mito dos “heróis do mar, nobre povo, nação valente”. O olhar do poeta
volta costas ao mar para se concentrar no asfalto, prescinde de cartas
marítimas para se concentrar no mapeamento da rua urbana, numa deriva “pela
estrada fora” com uma forte influência inicial da contracultura “Beatnik”.
Julgo não haver entre nós nenhum outro poeta que tenha chamado tanto a si este
trabalho de desmistificar a nossa heroicidade, começado logo no livro “Asfalto”
(1977) com «os heróis da revolução» transformados em «feitiço» no poema
“Epidemia” (p. 21), e continuado com inúmeros retratos acusadores do «Grande
Império Que Imbeciliza» (p. 86).
Diz o Paulo numa das estrofes do poema
“Coisas Incertas, Nenhuma Inédita”: «Vou partir / às descobertas: saber como
está perto um continente / cujas águas refluem para o âmago, com seu /
contrabando de sigilos, seus artistas alheios / - contaram-me – a tudo…» (p.
172). O leitor embarca nesta poesia e logo lhe apanha a paisagem tingida por
detritos, singra pelas ruas da capital e segue a vau, enterrado até aos joelhos
na lama de uma sociedade capitalista, erigida sobre a miséria e a desesperança
das massas. O propósito da viagem fica esclarecido a páginas 209: «Tudo quanto
me for dado / ver, ¿por que hei coibir-me de publicá-lo?» (p. 209) Esta
interrogação surge na nova versão de “Asfalto”, que ao segundo poema nos fala
também de uma outra “epopeia” que já não a da descoberta de um caminho marítimo
para lugares distantes. O cais das colunas voltou-se para dentro, o Tejo
continua a correr na mesma direcção, tal como o Ganges, acumulando o lixo dos
anos que passaram. Será pelo asfalto que seguiremos dizimando a mitologia
nacionalista dos descobrimentos, dos navegadores, dos heróis da pátria.
O verbo “Dizimar”, aproveitado para título
de um livro publicado em 2018, adquire aqui uma relevância especial. Trata-se
de destruir o mito, não para refundar novas mitologias, mas para dar a ver o
que se vê, contributo para uma historiografia que desde cedo provou ser oficialmente
selectiva e meticulosamente revisionista: «Sei do autismo da História o /
castigo que nos reserva: cais a que roubaram / as colunas; o pulo oceânico
agora negado por / quotas, enquanto outra dobra se nos mostra / e à nova rota
de aventura, e depois é uma ruga / que se enrodilha nos pés, livros abrem-se ou
/ fecham-se como portas criando uma corrente / d’ ar» (p. 223).
Na paisagem humana destes poemas não
encontraremos, está claro, heróis e deuses, figurões sublimes, criaturas
aladas. Ao largo dos «baleeiros urbanos» (p. 202) iremos antes encontrar
drogados e vagabundos, mulheres de limpeza, homens do lixo, tantas vezes confundidos
com os próprios poetas, colectores de ruína e detritos. Iremos encontrar a
mulher subjugada, o homem subserviente, os “humilhados e ofendidos” da nova
ordem mundial. Paulo da Costa Domingos chama-lhes «personagens literárias» (p.
264), mas eu julgo serem mais que personagens e muito mais que literárias. Desde
cedo a prostituta, que aparece no poema “Travesti” (p. 29) e ressoa em vários
poemas posteriores, tal como os operários desse extraordinário poema intitulado
“Posto Móvel” (p. 250), tantas vezes transfigurados na figura do escravo. E não
serão isso mesmo, os operários, escravos maquilhados que a promessa de uma vida
melhor traiu?
A marca essencial desta paisagem é a luta
pela sobrevivência, contornada por «desespero, ansiedade, angústia» (p. 490). E
mesmo quando o «manual de sobrevivência» se reveste de agapantos, não se perde
no labirinto da fantasia: «Havia que cumprir objectivos: / estudar, casar,
inscrever num partido, / arranjar emprego. Ou melhor: inscrever num partido
para poder // estudar, casar, arranjar emprego. / Mas de tal e tanto sortido /
só vaga havia num partido: / trabalho não remunerado» (p. 324). Do cais das
colunas partimos, pois, para uma reflexão motivada pela experiência e pelo
olhar, denunciando as mentiras propagadas pela História com exemplos vivos de
um presente que o poema “Breviário da Miséria” (p. 432) se encarrega de
decompor com descarnado sarcasmo: «A ver vamos navios / destinados a acordar /
no fundo do oceano, / por exclusão de partes» (p. 433).
Se os poemas iniciais nos parecem cifrados
por um discurso demasiado fragmentado, feito de flashes e de estilhaços, isso
será talvez porque no tempo em que foram escritos eram outros os estímulos. Com
o passar dos anos a linguagem abriu-se ao leitor, mostrando-lhe o caminho
desbravado para que mais visível se tornassem a usura e a hipocrisia, a
agiotagem e a indigência de um país em que o jornalismo se transformou em
«jornalixo» (p. 325) e o poder político é constantemente manobrado por
interesses meramente económicos nas mãos de obscuras forças financeiras.
Empreender uma viagem deste tipo tem o seu
preço. A desmistificação do dogma forçado pelo mito não se faz impunemente. O
autor mostra saber isso quando no poema “Desempenho Universal” diz: «Nossos
heróis e ícones / deram à costa / e eu caminho / par’ a nuvem inabitada / do
Futuro» (p. 458). Esta nuvem inabitada é um lugar de exclusão, nela o exílio
está garantido. E não é precisamente de exílio que já se falava no poema “Tive
um Sonho…” (p. 106)? Náufrago num país à beira de um velho continente, o poeta de
“Carmes” oferece-nos um «diário de bordo» (p. 477) que é a antítese de uma
epopeia heróica. Náufragos da História, nós, os leitores de poesia, encalhámos
nesta ilha que, não estando deserta, também pode fazer-nos sentir exilados. A
uns, contra vontade, a outros, por vontade própria. É esta a força que a poesia
tem junto de quem a cultiva com um desejo claro: «Desejo nunca saciado:
¡acordem! / acordem rapazes e raparigas, / ¡isto é a vida! – não é / nenhum
workshop» (p. 355).
Para começar, expurguemos do discurso toda a
mitologia pátria que há muito intoxica a sociedade ao redor. Se julgarem que
disso estamos safos, atentem-se aos sinais de uma anunciada museologia focada
nas descobertas e no mais importante português do séc. XX: o ditador Salazar.
Ou então deliciem-se com a gramática clerical de tanta sacrossanta poesia
portuguesa contemporânea, entretanto promovida nas mais elevadas estâncias da
Igreja Católica Apostólica Romana. Caso contrário, há bom remédio: andem pela
rua com os olhos bem abertos.
A rua pode ser lugar de exílio, mas sempre nela
se respira melhor do que nos gabinetes onde se decide o destino a dar a uma
multidão de gente anónima, letárgica, inofensiva, diariamente entretida com os
jogos de uma comunicação que se diz livre para se revelar falsa, como se
pudesse haver liberdade onde tudo é fake,
entretenimento e espectáculo. Se a criticazinha não gosta da rua, por estar mais
interessada na janela do tal «jornalixo», fazendo da vida fumo sem fogo,
simulacro, travestismo, isso é porque ainda não entendeu o essencial: «A poesia
não é só dos solitários companhia. / Encurta distâncias entre os que não sabem
/ onde acaba o culto da letargia e começa a luta. / Ritma a braçada. Desfaz as
pesadas indústrias. / Põe melaço nos micro-condutores… ¡Ah! que / de mim um
barco a remos atravesse a janela / e que leve uma vaga assim, esta carta a
Garcia» (pp. 236-237). Vem num poema de Paulo da Costa Domingos, de um livro
escrito “Nas Alturas” (2006).
Nota:
texto lido no passado dia 31 de Agosto, durante a apresentação de “Carmes. 1971-2018” (Companhia das Ilhas, Abril de 2019) de
Paulo da Costa Domingos, no decorrer da II Mostra de Edições Independentes.