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domingo, 21 de fevereiro de 2021

UM POEMA DE LILIANA S. RIBEIRO

Teatro anatómico

Passou com uma flor entre os dentes
uma senhora de pescoço alto, risco negro no seu vestido vermelho
(ou seria branco).
Passou como num filme mudo
acenando de lá aos curiosos de cá,
atravessou o arco, a praça, os pés ligeiros no jardim botânico,
dela era tudo.
Rezou na igreja de Santo António de Pádua
(adoentou-se em Lisboa)
colou a fotografia de um rapace sem que ninguém a visse
(fez voto de promessa)
(três ave-marias, um pai-nosso)
deixou ao santo o seu louvor.
Alçou-se da Ponte della Torricelle
e ao meio dia saiu do campo de visão.
Foi recolhida sem vestido para análise póstuma.
A sua boca, desmedida e infantil, impossível de dizer
mantinha a verde flor em troca de uma cura.

Liliana S. Ribeiro, in O Todo Pela Parte, Arranha-céus, 2014, p. 20.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

DUAS POETAS HISPANO-AMERICANAS

    Eram contemporâneas, falavam a mesma língua, tiveram sortes e destinos diferentes, pisaram as mesas terras, morreram no mesmo ano. Por cá, o livro de uma não mereceu a mesma atenção que foi dada ao livro da outra. Razões haverá para que assim seja. Que as descortine quem tiver interesse. Comecemos pela costa-riquenha Eunice Odio (n. 1919 – m. 1974), filha ilegítima de um pai que apenas conhecerá em idade adulta. Perdeu a mãe com 20 anos, casando-se pela primeira vez nesse mesmo ano de 1939. O matrimónio durou 2 anos. Começou a publicar na imprensa sob o pseudónimo de Catalina Mariel. Em 1947 ganhou o Concurso Centroamericano de Poesía com o livro Os Elementos Terrestres. Publicado originalmente em 1948, chega agora à língua portuguesa através de uma cuidada tradução de Luiza Nilo Nunes.

   A edição portuguesa de Os Elementos Terrestres e outros poemas (Anjo Terrível, Setembro de 2020) beneficia ainda de uma elaborada introdução da tradutora e de sete poemas em apêndice, através dos quais se torna mais perceptível a extensão do universo desta poética enigmática. A autora de Territorio del alba (1953) viajou muito por toda a América Latina, adquirindo a certa altura nacionalidade guatemalteca. Problemas pessoais empurram-na para o México, onde trabalhou como crítica de arte, tradutora, publicando, além de poesia, contos e ensaios. Nacionalizou-se mexicana em 1962. Esteve casada com o pintor Rodolfo Zanabria (n. 1927 – m. 2004), que prometeu levá-la para Paris quando para lá foi viver. Promessa nunca cumprida. Ao afastamento e silêncio do pintor correspondeu a ruína da poeta. Conta Luiza Nilo Nunes: «A 23 de Março de 1974, sem filhos ou herdeiros, mas com três livros de poesia publicados que alterariam para sempre o panorama da literatura em língua espanhola, o seu cadáver é descoberto em estado de putrefacção na banheira da casa em que reside» (p. 9).
   Apesar de haver privado com muita gente bem colocada no meio literário do seu tempo, o abandono e o isolamento, aliados a um temperamento avesso a concessões de carácter e a posições políticas calculistas, acabaram por remeter o seu trabalho para um injustificável silêncio. O mais fácil é encaixar a sua poesia no domínio de uma estética mística, altamente devedora, no livro de estreia, das imagens e dos símbolos herdados dos textos bíblicos. As epígrafes assim o reforçam, tal como a estrutura de um livro que começa enquanto invocação, desenvolve-se à maneira de uma oração e termina com uma convocação para a incessável busca e procura do sublime. Esta incessibilidade, típica daquele para quem a fé se manifesta mais pela ausência do que pela presença, é uma das marcas fortes da poesia de Eunice Odio. A metafísica dos seus poemas acarreta o estigma de uma necessidade física que se alimenta da sua própria insatisfação. A busca da poeta é a do ideal inalcançável, o qual se reflecte tanto no plano metafísico como no plano social. Vejam-se, a título de exemplo, os poemas Nuvem e paraíso, com a Guerra Civil Espanhola em pano de fundo, ou Essas Mulheres Perdidas, dedicado ao cubano Nicoás Guillén:
 
ESSAS MULHERES PERDIDAS
 
A Nicolás Guillén, enorme poeta e grande amigo.
 
Essa mulher que vimos
colada à luz,
a apropriar-se dos faróis,
de olhos caídos nos passeios,
 
Senhora rígida e solitária,
 
E há de morrer
um dia destes.
 
Disse-me em segredo
aquele  senhor que se alimenta de luminosos
e esfumados diminutivos
pelas salas da fluoroscopia.
 
Já a tinha visto uma vez;
a esquivar-se
entre vozes e corpos
masculinos,
 
Senhora rígida e solitária na penumbra,
limpa de claras presenças,
perdendo-se nos braços fundos
dos prostíbulos,
sedutora de matizes duvidosas,
 
enlutado de trevos
o corpo um inteiro gomo
de ângulos noturnos,
 
marchando atrás das vozes violentas e ásperas
entre ervas doutrinárias
e displicentes caçadas,
 
e agora há de morrer,
em declínio,
tenaz na sua morte,
aquático o passo
interrompido e pesado,
 
Senhora rígida e solitária.
Limpa de claras presenças.
 
   O Amado invocado nos oito poemas longos de Os Elementos Terrestres mostra-se mais pela ausência do que pela presença: «Ah, / se ao menos eu um dia te encontrasse / tranquilamente ao redor da minha morte, / despertando com teu amor os meus ouvidos / onde as águas desaguam / sem retorno…» (p. 41). É a ausência que leva a uma experiência limite do desejo e da língua, a qual se reconfigura em metáforas indecifráveis, herméticas, que tentam comunicar com o incomunicável, pronunciando o impronunciável: «Abre os ouvidos e ouve esta canção / que é como a semente das estações» (p. 85). Estes poemas estão, pois, de acordo com a ideia da poesia enquanto dilatação dos códigos linguísticos que determinam a comunicação entre os homens. O seu aparente hermetismo resulta de uma tentativa de contacto com o indizível. A comunicação, neste caso, cede a outras forças, não perdendo porém o elo com a realidade terrestre.

Diferente no estilo, a mexicana Rosario Castellanos (n. 1925 – m. 1974) partilha com Eunice Odio uma experiência problemática da religiosidade. Formada em Filosofia, transportou para a sua poesia muitas das questões fundadoras da reflexão filosófica. Fá-lo, no entanto, com espontaneidade e vigor impressionantes, a ponto de por vezes os seus poemas se assemelharem a manifestos. Nascida no seio de uma família abastada, cresceu num ambiente rural marcado pela exploração dos indígenas. Alguns dos poemas nesta antologia seleccionada e traduzida por Jorge Melícias, tais como Agonia fora do muro ou Memorial de Tlatelolco, denotam uma consciência social bastante apurada nesta matéria. Na biografia reproduzida nas badanas refere-se que depois de ter ficado órfã, aos 22 anos, «doou aos índios mexicanos as terras que herdara». José Rui Teixeira, autor do prefácio, sublinha igualmente a sua revolta contra a condição feminina no seu tempo.
   Casou em 1958, sendo mãe passados 4 anos, «depois de dolorosas perdas — abortos e a morte de uma filha recém-nascida, a quem dedicará Lívida luz (1960)» (p. 5). Divorciou-se em 1971, antes de partir para Telavive como embaixadora do México em Israel. Aí faleceu, na casa onde residia, presume-se que electrocutada na sequência de um acidente doméstico. Há quem tenha colocado a hipótese de suicídio, mas não há evidências que permitam confirmar a tese. De referir também a docência na National Autonomous University of Mexico, onde se formou, a associação ao National Indigenous Institute, para o qual escrevia peças que eram representadas em regiões remotas para promover a literacia junto dos índios, a colaboração com o jornal Excélsior, a infidelidade de Ricardo Guerra Tejada, filósofo com quem casou e de quem teve um filho, as depressões, uma intensa dedicação às chamadas causas feministas. O mais correcto seria falar de direitos das mulheres. Vejam-se poemas excepcionais tais como Kinsey Report ou mesmo o Auto-retrato onde começa por afirmar, com refinado sarcasmo: «Sou uma senhora: tratamento / difícil de obter, no meu caso, e mais útil / para rivalizar com os demais que um título / adicionado ao meu nome por qualquer academia» (p. 169).
   Na obra de Rosario Castellanos encontramos poemas longos, sequências extensas, e pequenos poemas incisivos como gumes: «Não comas nunca nada / que não sejas capaz de digerir, / que não sejas capaz de vomitar» (p. 199). O tom elegíaco que atravessa esta antologia, confirmado inclusive pelos títulos de alguns poemas  — Elegias do fantasma amado, Falsa elegia, Elegia (1969), Elegia (1972) —, não deve distrair-nos da ironia subtil com que alguns temas são abordados. Não obstante, o discurso espantosamente desabrido em matérias de carácter interventivo contrasta com a gravidade, até alguma solenidade, quando o território de reflexão é o do sagrado e da relação problemática do homem com Deus. Em Anotações para uma profissão de fé, extenso poema onde se desenha uma cosmogonia pessoal, essa problematização evidencia-se pelo contraste da gravidade dos assuntos com o tratamento irónico que lhes é dado. À pergunta sobre o que fazemos aqui, os dois versos finais respondem com extrema clareza: «neste continente que agoniza / bem podemos plantar uma esperança» (p. 31). Abordagem semelhante se reconhece em peças fundamentais como Muro de lamentações, Lamento de Dido, Diálogo do Sábio e do Seu Discípulo, Monólogo da estrangeira.
   O lamento que acompanha a retórica do poema não o encerra, abrindo-se com palavras penetrantes, agudas, por detrás das quais se esconde e desponta a consciência de um corpo efémero, de uma vida passageira, de uma História estigmatizada pela ruína. A solidão, por vezes a loucura, são nomes que matizam um sentimento de desterro e, tal como sucedia em Eunice Odio, de desencontro com o sagrado: «Procuro entre as coisas a Tua pegada e não a encontro» (p. 49). A este desencontro não corresponde uma negação, mas sim uma forma de deísmo que transforma o encontro com Deus num encontro consigo mesmo. Se há um movimento ascensional em alguns poemas de Rosario Castellanos, esse mesmo movimento sofre de um enraizamento na terra que aumenta a dúvida e adensa o mistério da vida. Em certo sentido, podemos dizer que esta é uma poesia existencial. Mas é importante que tenhamos presente quanto dela se perde ao ser rotulada:
 
O OUTRO
 
Porquê pronunciar nomes de deuses, astros,
espumas de um oceano invisível,
pólenes dos jardins mais remotos?
Se nos dói a vida, se cada dia chega
rasgando as entranhas, se cada noite cai
convulsa, assassinada.
Se nos dói a dor de alguém, de um homem
que não conhecemos, mas que está
sempre presente e é a vítima
e o inimigo e o amor e tudo
o que nos falta para sermos inteiros.
Nunca digas que é tua a escuridão,
não bebas de um trago a alegria.
Olha à tua volta: há outro, há sempre outro.
O que ele respira é o que a ti te asfixia,
o que come é a tua fome.
Morre com a metade mais pura da tua morte.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

BEIJOS E BARREIRAS LINGUÍSTICAS


 

 
   Inalo, em degustação demorada, as ondas invisíveis que flutuam do teu cheiro. Tudo disforme, nos lençóis amarrotados e no calor do amanhecer feroz
   — contrastante com a calmaria do Soul de fundo
   [que também chega em ondas, da telefonia, baixinho,
   “olha os vizinhos!”].
 
   Qual é o plano? Para onde fugimos hoje? Fundimo-nos com o sofá a devorar os mesmos episódios das mesmas séries com gargalhadas recicladas e beijos em entrevistas melosas às bochechas?
   (e os próprios beijos, quando encontram lábios nos lábios e não há televisão, olhos fechados e não vale espreitar)
   Vamos àquele restaurante dos betos onde nos cumprimentam sempre em inglês à entrada? Navegam as ideias às duas e às três de cada vez, o Soul de fundo e a inveja dos vizinhos silenciosos que abrem as janelas de sobrolho franzido à espera de mais uns decibéis para decifrar o destino de hoje.
 
   Críticas à loiça num cruzar de olhares sem palavra alguma. Na cabeça ciranda a fala: — “viste bem este ‘design’ em que dão de comer à turistada?”,
   com vista para um grupo de alemães, na última mesa ao canto, a pedir mais canecas e a avermelhar os rostos no sol e no álcool.
   A areia que vão largando no chão do restaurante é compensada com gorjetas recheadas de vergonha e uma pitada de “gracias” pelo caminho com uns Rs inglesados e sorrisos falsos a ripostar com “obrigado” de secura de Verão, mas hostilidade de carneiro porque “está toda a gente a ver e a cliente tem sempre razão”
   [é pena o dicionário do cliente não ter a mesma razão que o dono quando a península fala toda o mesmo, pior, quando os “latinos” têm um instinto poliglota que serve de incentivo extra à preguiça de quem veio de visita e está offline para saber agradecer como os locals. Mas enfim, deixaram good tips!].
 
Manuel Seatra (n. 1995), in Raiz Densa no Pátio da Garganta (Douda Correria, Fevereiro de 2020). Estreou-se com Dias de Folga (Setembro, 2018). Os poemas em prosa de Raiz Densa no Pátio da Garganta têm Lisboa como palco e o quotidiano na capital em pano de fundo. Das três partes que compõem o livro, a primeira é a mais extensa. Na segunda parte a memória intromete-se para recuperar cenários da infância, sempre num plano onde sobressai a vida doméstica enquanto cenário onde os sonhos e as utopias vão sendo desmentidos pela realidade: «A cama está a afundar e não tenho tempo para mais imagéticas alagadas em metáforas cansativas e desnecessárias» (p. 38). Tudo vale no terreno do poema, de um passeio pela Almirante Reis a uma ida ao dentista, o dia-a-dia cumpre-se num registo irónico enxertado pela coloquialidade descontraída de quem assiste ao desenrolar das horas. Uma névoa de nostalgia assalta, por vezes, o discurso, mas logo a banalidade dos dias desperta o sujeito para o que se impõe como necessidade: «É quando penso sobre o que quero dizer que me lembro do que vou pensando sem o dizer» (p. 51). As contradições do mundo moderno têm neste nó desatado da garganta um retrato fiel.  

domingo, 27 de dezembro de 2020

TATUAGENS DE LUZ

Leonor da Conceição Pinto de Almeida, sabemo-lo agora, nasceu a 25 de Abril de 1909. Quando, em Janeiro e Fevereiro de 2016, escrevi sobre ela aqui e aqui, eram poucos os dados biográficos disponíveis, vagas as informações, erróneos alguns dos apontamentos que julgávamos credíveis. Cláudia Clemente (n. 1970), autora de Tatuagens de Luz — Para uma imagem de Leonor de Almeida (Documenta, Agosto de 2020), surgiu na caixa de comentários de um desses posts à procura de informações. Perseguia então o rasto de uma poeta misteriosamente desaparecida, depois de haver impressionado nas décadas de 1950 e 1960 um meio literário predominantemente masculino. Mais do que biografia, o livro de Cláudia Clemente é sobre a tentativa de reconstruir uma história de vida resgatando da obscuridade uma figura ímpar das letras portuguesas. A investigação terá começado no dia 29 de Janeiro de 2016, motivada pela perda da mãe e a herança de um quadro de Moniz Pereira (n. 1920 – m. 1989) que teria sido vendido à avó da autora por uma esteticista que fora companheira de Alexandre Pinheiro Torres (n. 1923 – m. 1999). Leonor de Almeida, cuja estreia em 1947 com Caminhos Frios fora promovida como grande revelação da poesia portuguesa, era a esteticista em causa. Além deste fulgurante livro de estreia, foi autora de mais três obras — Luz do Fim (1950), Rapto (1953) e Terceira Asa (1960) —, o que lhe valeu ser incluída em antologias de relevo, referenciada em diversos artigos na imprensa de então, mencionada por vários dos seus pares como uma das vozes mais significativas da poesia portuguesa. Pouco depois do poemário derradeiro, silenciou-se, desapareceu, não mais se soube dela. Numa entrevista ao Diário do Minho, datada de Janeiro de 1947, percebemos estar diante de uma mulher verdadeiramente invulgar para o Portugal daquele tempo. Refere-se a Verlaine e Rimbaud como poetas de eleição, cita Taine, inventaria autores predilectos: Maurois, Ludwig, Maugham, Romain Rolland. Raro, num país onde o analfabetismo grassava e as mulheres eram educadas para ficar em casa a cuidar da família. De um primeiro casamento em 1930, a poeta de Caminhos Frios teve um filho em 1931. Não se quedou entre as paredes do lar. Frequentou o curso de Enfermeiras-Visitadoras de Higiene entre 1932 e 1933, ficando aprovada com Distinção. Divorciou-se em 1936. Há registo de se haver inscrito, em 1950, na Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Voltou a casar-se em 1951 com um homem 14 anos mais novo, ao que parece explicador do filho, o poeta, crítico literário e historiador Alexandre Pinheiro Torres (n. 1923 - m. 1999). O segundo casamento durou 10 anos, tendo sido a causa do divórcio o adultério do marido. À traição correspondeu o silenciamento da poeta. No Balanço da Poesia em 1950, publicado em A Serpente, Leonor de Almeida e Alexandre Pinheiro Torres, que se estreara em 1950 com Novo Génesis, surgem lado a lado: «Alexandre traduzia, dava aulas, e começou a enveredar pela crítica literária; Leonor era enfermeira e, segundo informação contida na edição de 1959 da Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, de Maria Alberta Menéres e Ernesto Melo e Castro, era também «proprietária de um Instituto de Beleza e Laboratório de Cosmética»» (p. 166). Chegaram a trabalhar conjuntamente em traduções e não é de todo desprovido de sentido que tenha sido Leonor a incentivar o jovem Alexandre para a poesia. Mais tarde, Egito Gonçalves (n. 1920 – m. 2001), editor de A Serpente, amigo de ambos, terá tentado recuperar a obra de Leonor do silenciamento em que caíra. Em vão. A viver em Copenhaga, a poeta escreve a João Gaspar Simões (n. 1903 – m. 1987) em Fevereiro de 1961: «Vivo à parte, isolada, não bem por temperamento, mas porque um destino de frustrações e desaires sentimentais me condicionou a uma soledade que se concilia perfeitamente com os meus complexos. Ignoro, portanto, bastante do que os poetas sentem perante uma crítica» (p. 184). As páginas finais de Tatuagens de Luz são dolorosas, são páginas de perda e de abandono, de isolamento, de um apagamento que não teve em vista apenas o afastamento da vida literária. Uma inundação levou-lhe pertences, eventualmente um original, a tristeza levou-lhe o resto. Leonor de Almeida mudou-se para Lisboa, «usava peruca e escondia-se sob um nome falso» (p. 251), D. Márcia, trabalhava como esteticista. Morreu só, em 1983, rodeada de papéis que foram deitados no lixo depois de os bombeiros darem com o cadáver de «Leonor deitada sobre a cama, segurando o telefone preto. O auscultador estava fora do descanso, na sua mão» (p. 253). Deixemos os pormenores para quem venha a ler o belíssimo livro de Cláudia Clemente, enriquecido com inúmeras fotografias, reproduções de artigos de imprensa, excertos de cartas, poemas da autora. Tatuagens de Luz excede aquilo a que se propõe, libertando não só do esquecimento uma extraordinária poeta, como permitindo que a luz ilumine esse mistério da escrita enquanto ponto de encontro com o sentido da nossa existência. A lição que retiramos do caso Leonor de Almeida relaciona-se com o poder da palavra impressa. Há qualquer coisa de mágico nessa reunião com o outro através das palavras. É como se estas fossem os genes de uma memória que imita o destino das marés. 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

UM AFORISMO DE MANUEL DE FREITAS

 


BICICLETAS

à memória de Joana Dinis

Pedalar — e, se isto vos parecer retórico, faço questão de vos enviar ramos de jacintos, rosas de Santa Teresinha, essas coisas — é, por vezes, a única solução. Desenganados, fomos ver cegonhas, um falcão menos tímido, papoilas cujo rubor nenhum Monet fixou. Havia sobretudo vento, nêsperas ainda verdes, e pessoas que tão próximas ou distantes vão morrendo.

    Pedalar contra o vento não é fácil.

 Manuel de Freitas, in 769118, Averno, Novembro de 2020, p. 52.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

TRÊS CLIQUES À ESQUERDA / CANCRO

 

O que pode a literatura fazer pelo mundo? Não é fácil responder a uma questão destas. Em tempos, a literatura ofereceu explicações do mundo. Ao mesmo tempo que fixou mitologias e cosmogonias, ela serviu para transmitir a lei, foi a base a partir da qual civilizações diversas se estruturaram. Veio depois o tempo dessa mesma literatura se amotinar contra as estruturas. Já não estava em causa servir o sistema, mas registar o pensamento e as suas contradições. A relativamente recente massificação do ensino, da leitura, do acesso aos livros, acabou por subverter este papel sublevador integrando a literatura no sistema, transformando-a em mercadoria. O que hoje se apresenta diante de nós é um labirinto sem saída. Falamos da literatura enquanto lugar de resistência, mas resistência a quê? Suponho que ao falarmos de resistência estejamos a referir-nos às armadilhas de um sistema que tende a integrar na sua máquina de padronizar tudo quanto se lhe oponha. As estratégias de aculturação colonialista não terminaram com a extinção das colónias, mantêm-se vivas no modo como as forças no poder atacam o pensamento crítico privilegiando a narrativa dos consensos. O resultado é uma amorfia generalizada. O indivíduo que há no cidadão tende a desaparecer, dando lugar ao consumidor que se procura seduzir. É preciso proteger o consumidor, daí que o sistema coloque à disposição um livro de reclamações cujo efeito imediato é amenizar a raiva daquele que se sente mal servido.
   A sacralização do consumismo faz de cada um de nós, quotidianamente e em proporções similares, pequenos senhores e escravos voluntários. As redes sociais fomentaram esta perversidade de um modo surpreendente, promovendo os tiranetes que dentro de cada um de nós praticam a censura manifestando ódio à censura. Somos senhores do nosso território bloqueando quem se aproxima de uma forma que nos desagrade, somos escravos voluntários aceitando a discriminação higienista da máquina que alimentamos com os nossos conteúdos. Isto não é assim apenas nas redes sociais, onde o clima de guerrilha, apesar de tudo, tem o mérito de não entupir as urgências hospitalares. Já não estamos tão certos quanto ao contributo que possam vir a ter para o incremento da psiquiatria.
   Afastando o cinismo e a ironia dos comentários, a verdade é que a reconfiguração das relações interpessoais a que vimos assistindo traz por arrasto um acriticismo atroz. E a esse acritiscismo corresponde uma total incapacidade de dialogar que não seja na base redutora do elogio pateta, do emoji inconsequente, da inacção. Toda a conversa antecedente serviu apenas para nos trazer aqui, a esta palavra: inacção. Podíamos dizer inércia, indolência, mas escolhemos inacção por nos parecer mais conforme com esta deslocação paulatina da rua para a rede. Aqui o ruído — chamam-lhe, eufemisticamente, populismo — sairá sempre vencedor, pois este alimenta-se da absoluta ausência de literatura, a que leva à acção, a que surge de um conflito vigoroso e de um confronto continuado com os paradigmas.
   Tudo isto nos leva a olhar com admiração para um livro que junta a grega Katerina Gógou (n. 1940 – m. 1993) e o inglês Sean Bonney (n. 1969 – m. 2019), dois escritores de gerações diversas, oriundos de países com culturas distintas, a escreverem em línguas diferentes, mas com um propósito muito bem definido de fazer da literatura algo mais do que estribo para montar o cavalo da bajulação. Quando publicou o primeiro livro, em 1978, Gógou tinha um passado como actriz. José Luís Costa, que agora traduziu para português Três cliques à esquerda, especula certeiramente que «se Katerina ainda por cá andasse, duvido que deixasse de gritar o facto de [o destino dos emigrantes] se ter tornado ainda mais terrível em 2020, ano em que se tornou política corriqueira do governo grego capturar migrantes e abandoná-los em alto-mar» (p. 14).
   O que pode a literatura fazer pelo mundo? Hoje, o pouco que pode, talvez seja agitar consciências no sentido de acordá-las do amorfismo em que espontaneamente mergulham. A prova de que as palavras “gritadas” em 1978 não perderam sentido é a leitura que delas fez Sean Bonney, por cá conhecido graças às traduções de Miguel Cardoso para a Douda Correria: Cartas Contra o Firmamento (2016) e A Nossa Morte (2020). Cancro, o livro que agora se junta a Três cliques à esquerda na cuidada edição da Barco Bêbado (Outubro de 2020, com desenhos de Gonçalo Pena), foi originalmente publicado em 2019 com o título Cancer: Poems after Katerina Gogou. A ideia de os reunir num só volume é excelente, mostra como se mantém enérgica a palavra passados mais de 40 anos sobre um livro que tudo levaria a crer datado.
   Eis outro preconceito que convém ultrapassar, a ideia de que uma literatura socialmente comprometida, engajada ou libertária (haverá diferença?), uma literatura empenhada no diagnóstico das doenças sociais, políticas, culturais, religiosas, uma literatura libertadora e, por isso mesmo, transformadora, é preciso ultrapassar, dizia, o preconceito de que uma literatura de acção acaba inevitavelmente ultrapassada pelas circunstâncias. Porventura traumatizados pelas heranças neo-realista e surrealista, os leitores portugueses têm aqui uma boa oportunidade de tratar traumas entendendo que para lá do foguetório idolátrico há sempre nas circunstâncias algo que perdura ao longo dos tempos: o domínio de uns sobre outros. Ora, é contra a humilhação infligida por quem domina que esta literatura persiste.
   Os primeiros versos de Katerina Gógou são claros nesse propósito de nos transportarem para a rua sem necessidade de decorar o cenário: «A nossa vida é a Rua Patissíon. / Detergente ROL que não polui o mar / e o Mitropanos entrou na nossa vida / depois levou-o a Dexamení / como já tinha feito às boazudas. / Nós ali. / Esfomeados viajamos a vida inteira / o mesmo percurso. / Humilhação — solidão — desespero. E vice-versa» (p. 21). Podia ter sido escrito hoje. Dexamení, já agora, era zona de artistas. Gógou ficou pela Rua Patissíon, retratando becos imundos, emigrantes em busca do sonho americano, desempregados, «recrutas com as anónimas cabeças nuas», dirigindo-se ora à mãe, ora à filha, com mensagens de uma desesperança crescente. Pagou um preço alto. As feridas abertas sobressaem em poemas onde a loucura matiza um teatro de crueldade apenas comparável com aquele outrora dirigido por Antonin Artaud (n. 1896 – m. 1948).
   Cancro, o livro de Bonney, é uma espécie de palimpsesto grafado sobre os papiros de Gógou. Onde esta dizia «Os meus amigos são pássaros pretos e estendais / nas vossas mãos» (p. 34), aquele dirá «os meus amigos / são arames estendidos de cidade a cidade» (p. 109). Ambos dão vivas à 204.ª Internacional, dirigindo-se a um futuro onde desespero e resistência se misturam com palavras de ordem carregadas de fúria, Na gramática belicista de Sean Bonney há lugar para trocas de tiros, explosivos, granadas, espancamentos, revólveres, bombas caseiras, pancada, pólvora: «reinventa o tempo. reinventa a violência. depois / ouve, atira-te a esses cabrões como as fúrias» (p. 111). Podemos falar desta poesia como rastilho para a acção ou já de poesia enquanto acção, na certeza de ser uma náusea profunda o que a motiva: «Poesia, pra quê / Vem de “fazer” / Quer dizer “Vai e Faz” / Queria uma resposta / Dos imobilizados» (p. 151). Não obstante, o sonho tem nela um papel determinante.
   Há quem se acanhe perante tais manifestações de raiva, reduzindo o discurso à condição de panfleto, sabendo que pouco lhe resta senão aprender a conviver com o mar de destroços que entra dentro de casa sempre que nos ligamos ao mundo. Distraídos do que já em nós há de ruinoso, degustamos o peru de Natal enquanto na televisão o pivot de telejornal alerta os mais sensíveis para a violência das imagens. Eu prefiro o inconformismo deste “olhar panfletário” à indolência de um “olhar de soslaio”, por no primeiro ainda vislumbrar a hipótese de uma chama que no segundo é só fumo e cinza. Uma referência a Portugal, outra à China, num poema publicado em 1978, pode fazer mais por mim nestes dias do que centenas de livros actuais, carregados de fumo e de cinza, ansiosos de uma eternidade que o mais certo é vir a falhar-lhes:
 
Trabalho remunerado — capital
o imperialismo estádio último do capitalismo
a revolução traída
ah pá camarada a falta que nos fazes…
O tempo criou bicho
ensaios nucleares, frentes populares, bordéis
(até Portugal já perdemos)
superproduções dos católicos e da máfia
tornaram-se multinacionais, não nos deixam amar
camarada.
Bufos sobrem as nossas escadas
cães nos terrenos, sempre que lhes apetecer podem
baixar-nos as calças e foder-nos
coexistência pacífica e socialismo num país
ah pá camarada se soubesses que fardo pesado carregamos…
Os julgamentos de Moscovo, ninguém aguentou
ficaste totalmente só
o pessoal ficou cansado e deram-lhe em cima.
Já sabes, que hei-de dizer?
E depois colaboraram. Já sabes, que hei-de dizer?
Na China, Janeiro de 77, chacinam trabalhadores,
e isso chega cá como se fosse um poema do Mao
(a culpa é das pessoas repetem eles) ah pá camarada
porque não foste mais cuidadoso?
Por cá, o costume. As pessoas escondem-se nas suas tocas.
pêcês há dois, «revolucionários» hermafroditas são aos milhares.
Mas não te preocupes. Vamos conseguir.
É só que, às vezes, canso-me,
nem trabalho tenho, só consigo queixar-me
e é então que mais te sinto a falta
e que te dou nas orelhas por não teres sido mais cuidadoso
e que não tenho vergonha de chorar
nem de escrever poemas
camarada que não traíste
vivemos a barbárie.

Poema de Katerina Gógou.

domingo, 13 de dezembro de 2020

UM POEMA DE ERNESTINO MUHATE

 


omalucO da guerrA no relógiO da vida

. SILÊNCIO:são nove do relógio na parede suspensA .o ponteiro franzino do tempo gira para a direita da órbitA:- antes que eu me esqueça, é noite no que digO´ .a rebeldia fuma ganja no lombo do murO .oquarto, estáfrio e polutO .miro o berço incolor da esperançA .apalpo a bobina da máquina de costura que a avó me escolheu herdeirO: tristeza é o nomE .maconde de gemA . tomo a caçula nos braçoS. o cotovelo dorido, nesse excesso de zelo, falece-me o interruptor da luZ .o coelho dorme com olhos abertos.não há lume sem oxigénio para fósforO. insípida é a brisa da angústia, por isso, detenho-me no corredor da vivenda do TempO:- Deus,colega do bar, passa-me a quitação da vidA - masco o medo no beiçO.fito a nuca da fraquezA .ponho a baioneta na ilharga da firmezA .miro o carvão que se estatela com bojo pálido na vanguarda da estaçãO. não há sino floreado para a falênciA:pai, estou a morrer toda a mortE - varrandeam-se os cachimbos próximo do criadoR .a vida corre na cumplicidade do autocolismO . umfundíulojanelou-me o joelhO .cai-me o maxilar no chão da misériA .oolho, jorra sangue que desagua na ferrovia do desejO:- não morra, antes do sol, esperançA! há amor nos limítrofes da angústiA .ascigarras roem as garraS.os gatos circuncisam os ratoS .afagoa córnea da fraqueza. ergo os miolos, e pestanejO.já tenho o Centro na nuca dos trilhos .quem me dera voltar um diA:
eagorA?!
. são dez do pulso na vitrina do desejO .estendo-me na madeira da esperA .releio a independência na cartilha da promessA .busco o norte inflamado com os rins doridoS.ebelisco a minha paciência que cospe l+ingua no chuvisco da resistênciA:- pai, falta muitO?!não, estamos no átrio do cabO .bisbilhoteio a baíA .cavo fundo para o semprE .reformo a dor da esperançA .que merda da miopiA .projécteis e estrelas cintilam no perímetro do firmamentO .jásinto os cardíacos batimentos que me morremneste concerto de desconcertos. não há honestidade sem farnel. .háutensilios no relento da agoniA .o alguidar cicia para a lavrA .galosdesafinam os cacarejoS .petizes degustam a côdea das ramelaS: -senhor, tenha dó, e piedade, dos que partem sem adeuS -o quinino franze o rosto para a mão que lhe embrulhA .o médico reza o terço no umbral da latrinA .opárocomasturba-se na fé da pia baptismal. .semdeus. sem rosário, neste nosso casinholO .e,no mastro da ferrugem,rabisco a funestador do peitO: bíblia, e alcorão, no vazio da fÉ .apólvora concubina-se com o nó da gravA:-porra, marimbo para a prosa,essa é para as rosas, a poesia para os homenS.
. mortE:silênciO
FomE:SilênciO.
. ChorO:SilênciO
. o luto não cabe no perímetro da páginA .embrulho a lágrima com o vestido do juiZ.coloco insígnias a minha mãe que dorme na eternidade da canoA:-é para ti, Decapitada da Conceição Coitada Nação, heroína do tiroteio da nudeZ.
.SILÊNCIO.

Ernestino Muhate, in  Ilusão em Tempos de Guerra / Guerra em Tempos de Ilusão, fanzine, Gala-Gala Edições, Novembro de 2020, pp. 17-18. 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

DISCURSO AOS PACIENTES CIRÚRGICOS

 


   A nota biobibliográfica na antologia Voo Rasante (Mariposa Azual, Fevereiro de 2015) é omissa quanto ao ano de nascimento, mas informa que a autora publicou poesia, ensaio e ficção em revistas portuguesas, inglesas e italianas. À data, já havia publicado por cá Dívida Soberana (Mariposa Azual, 2012), com o qual foi finalista do Prémio Revelação da APE em 2010. Desconheço outros livros de Susana Araújo, além desse e deste Discurso Aos Pacientes Cirúrgicos (não (edições), Setembro de 2020). Se o primeiro me havia agradado, pela forma como se inscrevia num tempo concreto sem, por isso, correr o risco de achar-se datado, neste essa mesma inscrição abre-se a outros planos da existência e, por consequência, a outras possibilidades da poesia enquanto moldação da linguagem.
   Em quatro partes, a organização dos poemas sugere uma narrativa relacionada com um processo de convalescença. Cada uma das secções é introduzida por um texto em prosa cuja função explicativa não descarta do discurso uma certa ironia. Preâmbulo Clínico: Strāges: «Nem sempre é possível dizer onde começa um acidente e onde termina um problema crónico» (p. 11). Preâmbulo Clínico: Néctares Operatórios: «O médico pergunta-me se quero ter mais detalhes sobre o procedimento. Quero saber apenas sobre a anestesia: tenho medo de acordar durante a operação quando me fizerem o primeiro corte» (p. 29). Estes preâmbulos antecedem conjuntos de poemas que retratam um corpo em recuperação, do sinistro à alta hospitalar, mapeando tanto a envolvência da situação clínica como a anatomia de um espírito desassossegado pelas circunstâncias físicas em que o sujeito se encontra.
   Se no livro anterior de Susana Araújo me havia agradado a vinculação da poesia a uma emergência social, neste agrada-me sobretudo o vínculo ao corpo enquanto palco onde tudo acontece. São diversos os recursos poéticos de que se serve para explorar esta fisicalidade no e do poema, intrometendo-se por vezes no campo da experimentação com resultados que logram em partes iguais despertar-nos a curiosidade e divertir-nos. No poema Por Arquivar, por exemplo, à elevação de cada uma das letras da palavra membros corresponde a sugestão de um corpo a levitar. Imunidade/Impunidade é um caligrama que nos envia para a grande onda de Hokusai. Em Sala de espera estamos no domínio do haiku. Há ainda exercícios bilingues, como já sucedia no livro anterior da mesma autora, e evocações de Emily Dickinson, William Wordsworth, Virginia Woolf, rodeadas de um complexo lexical respigado no campo da medicina.
   O que não se perde de todo é a inclinação para uma poesia embrulhada nos problemas do mundo, capaz de reflectir o seu tempo sem a ele se reduzir. Veja-se como isso acontece no poema Tratamento de Detritos (p. 75):
 
Se a China banir a importação de lixo
onde irão morrer as nossas imagens
 
onde fundiremos o chumbo, o cádmio
as dioxinas, os ftalatos e o cheiro a
homens e ratos?
 
Como separaremos a culpa da cura
enterraremos os natimortos?
 
Onde espalharemos o sal?
 
Como reciclaremos os restos
deste leprosário ocidental?

 
   Discurso aos Pacientes Cirúrgicos tem este lado irónico de, partindo de uma experiência aparentemente pessoal, se dirigir a todos nós, pacientes de um tempo concreto, metidos em unidades de cuidados continuados a que hiperbolicamente chamamos de vida. A autora quis chamar-lhe discurso e não foi por acaso. Estes poemas têm essa função discursiva esculpida em cada um dos seus versos, são uma hábil metáfora deste mundo que calhou ser nosso. E de uma doença que é a de todos nós enquanto parte integrante desse acidentado mundo.

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

"DA LADROAGEM E DA EDIÇÃO ÀS TRÊS PANCADAS"

 

Publicou a Língua Morta, em Julho deste ano, uma antologia com o título O Meu Livro de Cabeceira é Um Revólver, organizada pelo poeta e tradutor Jorge Melícias (n. 1970). Devo dizer, a bem da verdade, que tive conhecimento desta antologia alguns meses antes da mesma aparecer anunciada pela editora em causa. Desconhecia o conteúdo, que me foi proposto para o weblog que dinamizo, mas que cordialmente recusei por não ser vocação da Antologia do Esquecimento transformar-se num weblog colectivo. Ainda assim, reitero a Jorge Melícias o agradecimento que então lhe fiz pela cordialidade da oferta, a qual interpretei como ponto de encontro de uma admiração por ambos partilhada relativamente a autores que levaram ao limite a sua existência enquanto criadores. O meu livro Suicidas (Deriva, 2013) tornou clara esta admiração, e se a ele me refiro agora é pelo trabalho que então me deu de busca, investigação e tentativa de compreensão de um fenómeno humano inesgotavelmente complexo. 

Foi pois com entusiasmo que, no passado dia 24, depois de um encontro com alunos na Biblioteca Municipal de Caldas da Rainha, me desloquei até Óbidos para adquirir a referida antologia. Qual não foi o espanto quando, ao folhear o índice, deparei com diversos nomes que me eram totalmente desconhecidos.  A ignorância não tem limites, menos ainda a minha. Parti para a leitura das notas biográficas que acompanham a obra, as quais suponho serem da responsabilidade do antologiador. O editor em causa já fez saber que só quis preocupar-se com as datas de nascimento, as quais terá cotejado com o que acerca dos autores em causa se encontra divulgado na Internet. A desconfiança de que algo não batia certo surgiu à leitura da terceira nota, dedicada a um tal de Tomás González. Aí se informa tratar-se de uma personagem fictícia saída da imaginação do escritor espanhol Eliseo González, autor de uma suposta antologia intitulada Galería de Suicidas. A curiosidade levou-me a buscar informação sobre esta putativa antologia, não demorando muito que ficasse estupefacto com o que fui encontrar. 

Na realidade, Galería de Suicidas é uma obra de ficção publicada, em 2003, pela editora Huerga & Fierro. Como todas as referências ao autor apontavam para Burgos, tratei de vasculhar um pouco. A 7 de Setembro de 2003, o Diario de Burgos dedica uma folha ao livro de González. Aí se lê, em artigo assinado por R. Pérez Barredo, que «através de doze heterónimos o autor radiografa os subterrâneos da dor, da loucura, da criação, da derrota e do amor» (tradução minha). Já o entretanto falecido Jorge Villalmanzo, com quem González teve projectos comuns, desenvolveu o tema afirmando que «Galería de suicidas é uma antologia de poetas “tombados” e da sua poesia – ficcionada e poetizada por este autor indefinível» (tradução minha). No mesmo jornal, a 9 de Novembro de 2003, Ricardo Ruiz assina uma crítica ao livro onde diz que a «sua poesia parece poesia mas não é; a sua prosa parece narrativa, mas também não o é. Poeta e prosador em partes iguais, e desiguais, na obra de Eliseo González nada é o que parece… Tudo é verdade porque tudo é mentira» (tradução minha). Tudo isto escapou quer ao editor Diogo Vaz Pinto, quer ao tradutor e antologiador Jorge Melícias, o que seria desculpável se o deslize tivesse na sua origem apenas o deslumbramento causado pelo conteúdo da obra em causa. Mas não é apenas de deslumbramento que estamos a falar. 

Quem ler as notas biográficas do livro de Eliseo González, compreensivelmente decalcadas na antologia da Língua Morta, fica perplexo com a romanceação da morte e da dor, com as contradições e impossibilidades que sugerem de imediato estarmos perante uma obra de ficção. Não é só o facto de praticamente nenhuma informação se encontrar sobre esses autores na internet, apontando toda a que se encontra para o livro de Eliseo González. É a própria pseudo-informação divulgada na antologia da Língua Morta. Alguns exemplos: sobre Paula Sinos pouco mais se sabe além do que vem no relatório do maquinista de comboios que teria abalroado a poetisa: «Travei, mas era tarde. Jamais esquecerei aquele rosto, o seu estúpido olhar…» (p. 147). Sobre um tal de León Artigas há a referir «o profundo arrependimento por não ter dado ouvidos ao seu pai (que, aparentemente, dirigia uma serralharia) e por não ter dedicado a sua vida a martelar» (p. 148). Isto parece-vos credível? A propósito de José Ignacio Fuentes refere-se a publicação de um livro que teria sido «um verdadeiro fenómeno, atingindo números de vendas raramente vistos em Espanha» (p. 150). O livro chama-se Los Heraldos del fin (1990). Quem o conseguir encontrar leva prémio. Não deverá ser difícil, é obra relativamente recente. A cereja no topo do bolo prova-se, no entanto, na  biografia dedicada a um suposto Víctor Ramos. Teria nascido em 1960, mas aos 10 anos, em 1970, já tinha fundado o Movimiento de Guerreros Antigays. Porquê? Porque não suportava a sua própria orientação sexual. Vai daí andou por programas de rádio e televisão a casquinar nos homossexuais, foi acusado de estar na génese de uma série de suicídios e acabou a matar-se, na prisão, sangrando «até à morte por castração auto-infligida» (p. 152). Incrédulos? Não fiqueis. Se tanto o editor Diogo Vaz Pinto como o tradutor Jorge Melícias julgaram isto credível, por que havemos nós de desconfiar? 

Temos, desta arte, uma antologia de 17 suicidas em que 8 não o foram porque nem sequer chegaram a nascer. Estes 8 são produto da imaginação de um escritor espanhol que está neste momento parcialmente publicado em Portugal sem que faça a mínima ideia do facto (tenho o e-mail dele, caso o pretendam contactar para felicitações). Tudo isto podia ter graça não fosse lamentável. Melícias é um excelente tradutor, não é isso que está em causa. Vaz Pinto, deveras aguerrido na defesa de uma ética e rigor que pretende impor aos outros mas se dispensa de honrar, também não deverá ser crucificado por este lapso. Diz que se deixou levar pela confiança depositada no tradutor, que é um editor de textos e não mais. Bem, a ideia que fazemos de um editor é ligeiramente mais exigente. O título deste post, de resto, copia palavras do próprio a propósito do famigerado “caso fraudulento da Cristina Bartleby”. Não me peçam para lembrar o que isso foi. 

Enquanto leitor, é-me apenas lamentável que extraordinários poetas como Alfonso Costafreda ou Pedro Casariego Córdoba surjam misturados com uma teia heteronímica que acaba por tornar risível o que, na verdade, não o é. Não havia necessidade nenhuma para que assim fosse, até porque não faltariam nomes de poetas suicidas para acrescentar aos que de facto o foram. Jorge Melícias já traduziu alguns que não surgem nesta antologia. Que cada um retire daqui as suas conclusões. A minha é simples, a ideia de que o espírito crítico e a desconfiança, mais de nós próprios do que dos outros, tem vindo a levar nos últimos anos bordoadas fatais resulta nesta salgalhada. Embora nada tenha que ver com o assunto, se fosse ao editor ou ao tradutor entraria em contacto com Eliseo González quanto antes. Ele merece saber que foi publicado em Portugal. 



Adenda: faltou dizer que foi a propósito desta antologia que o escritor valter hugo mãe escreveu isto: «Creio que todos pressentimos que o suicídio é o manifesto de coerência do poeta.» Curiosamente, dois dos poetas que cita no seu artigo são heterónimos de um escritor espanhol que está vivo, para incoerência do próprio. 

domingo, 29 de novembro de 2020

UM CONTO ESQUIMÓ

 


O MENINO COMILÃO

 
   Um menino vivia com a avó num iglu construído pelo avô. Desde a morte deste, a fome crescia pela casa. Um dia, a anciã tirou o neto do iglu. Não podia continuar a alimentá-lo. Implorou-lhe que encontrasse algo para comer.
   O menino partiu e encontrou um bacalhau que tinha sido largado na praia. Apanhou-o, arrancou-lhe a cabeça e devorou-o de uma só vez. Continuou o passeio e tropeçou num leão-marinho. Atirou-se a ele, arrancou-lhe a cabeça e comeu-o. Mas mesmo assim continuava com fome. Mais adiante, deu com uma morsa de grandes bigodes aquecendo-se ao sol. Antes que a morsa chegasse à água, o menino já lhe tinha arrancado a cabeça e devorou-a sem ressentimentos.
   Por fim, o pequeno glutão avistou uma baleia branca que acabara de ser arpoada por um pescador. Tal como tinha feito com o bacalhau, o leão-marinho e a morsa, arrancou-lhe a cabeça e comeu-a inteira, pele, barba e intestinos incluídos. Sentiu-se então melhor. Pela primeira vez na vida tinha conseguido devorar a sua própria fome. Pôs-se a cantar uma canção que dedicou ao seu estômago. Teve sede e dirigiu-se a um pequeno lago, onde bebeu sofregamente. O lago secou e o menino regressou ao iglu. Porém, tinha engordado tanto que não conseguia entrar pela porta.
  Entra pela janela aconselhou-lhe a avó.
   A janela era mais pequena do que a porta. Contudo conseguiu meter a cabeça, ainda que os ombros ficassem presos.
   Entra pelo respirador aconselhou a anciã. O tubo do respirador era mais estreito do que a janela, mas a cabeça e os ombros do menino passaram, o estômago não.
   Passa pelo buraco da minha agulha rogou a esquimó.
   Levantou a agulha até ao tecto do iglu e o menino passou e caiu no solo. Naquele instante, a anciã deu-se conta de que o neto tinha engordado tanto apenas por haver comido demasiado.
   Não te aproximes da lamparina! disse-lhe com  firmeza.
   Mas o menino, perdendo o equilíbrio, rodopiou até à lamparina. Esta caiu sobre ele e explodiu. A anciã escapara a tempo. Quando o silêncio voltou a reinar, a velha arrastou-se até ao iglu e espreitou pela janela. O menino e a lamparina haviam desparecido. No seu lugar encontravam-se um bacalhau, um leão marinho, uma morsa e uma baleia nadando num pequeno lago azul.
 
In Cuentos Esquimales (Los cuentos del iglú), recogidos por Edward L. Keithahn, adaptación de Louise Weiss, traducción de Silvia Komet, José J. de Olañeta, Editor, 1990, pp. 35-38. Versão de HMBF.

terça-feira, 24 de novembro de 2020

DOIS LIVROS DE MARTA CALDAS

 


Posiciono-me diante dos livros de Marta Caldas (n. 1982) como alguém que olha para um objecto que lhe é estranho, inacessível, ou se ajoelha na esperança de que o animal lhe venha comer à mão. Não vem. O animal é esquivo, defensivo, selvagem. Ora se aproxima cautelosamente, ora rompe numa correria desenfreada e se afasta. Não é animal que se deixe domesticar, mais certo é morder-nos a mão e zarpar. Estou familiarizado com o concretismo brasileiro, com as experiências levadas a cabo, a partir da década de 1960, pelo chamado Movimento de Poesia Experimental Portuguesa, conheço toda a retórica da anti-arte que fertilizou diversos vanguardismos, do automatismo à escrita caligramática, da experimentação tipográfica e visual a várias formas de abstraccionismo cujo princípio era o da privação de sentido, e de tudo isso julgo serem herdeiros Assembleia (Douda Correira, Março de 2019) e E Aquáticos (Setembro de 2020). O primeiro é dedicado a Alice Becker-Ho, escritora francesa que foi cansada com Guy Debord. Não lhe conhecendo a obra. Conheço, todavia, a de Manuel Rodrigues, pelo menos desde a publicação de Múrice (Março de 2015), que me chegou pela mão generosa de um amigo ligado às artes plásticas. Também a autora de E Aquáticos tem formação em Artes Plásticas, sendo várias as afinidades que encontro nestes dois livros com o que conheço de Manuel Rodrigues. O modo como trabalham a linguagem, colocando-a numa situação limite em matéria de significação, é similar. A forma como estes textos, na sua variedade multilingue, resistem, paradoxalmente, a qualquer tentativa de tradução, é semelhante. A resistência, se assim podemos dizer, à comunicabilidade, adoptando estratégias e práticas que baralham o sentido a ponto de parecerem preferir o não-sentido, é idêntica. Este aspecto é especialmente ironizado por Marta Caldas em Assembleia, num texto que vai sendo desenvolvido mediante a utilização de indicações gráficas e verbais que apontam para uma «extensão nova de sentido». Entramos no texto como quem entra num edifício desconhecido, seguindo as indicações para algo que aparenta ser um processo em construção, a organização de uma instalação, de um acontecimento, para o qual contribuem várias enumerações, acções, advertências. Percorremos os corredores às cegas, confiando que as palavras nos levarão a algum termo, a uma conclusão, a uma imagem ou a uma ideia conclusivas. Interrogo-me à medida que vou percorrendo as páginas como quem sai de uma sala para entrar noutra: que textos são estes? É como se estivesse a ler um caderno de apontamentos, preenchido por notas imprecisas, com relações misteriosas, diálogos. «Não era por aí. Perdi-lhes a orientação». Às tantas surgem laivos de uma narrativa imprecisa onde se descobre um nome próprio, Simon, cores, luz, elementos naturais, mas sempre num contexto de filiação a certa poética explosiva que escape a modelos gramaticais, sintácticos e semânticos, a discursos estandardizados, uma poética que se está literalmente nas tintas para a norma que se impõe enquanto garantia de posteridade. Ler estes livros é participar numa experiência de sabotagem da geometria textual que configura a ideia de literatura: «Dizadeusquetenhosaudades». E Aquáticos introduz um elemento que, não estando totalmente ausente no livro anterior, é neste muito mais central: o erotismo. Aqui o vernáculo mistura-se com fonemas instauradores de uma tensão fonética que, por diversas ocasiões, nos desloca para o imaginário histórico e cultural fixado pelos textos sagrados judaico-cristãos: «a A dão trufas». Às tantas dá a sensação de estarmos a ler algo produzido por um gerador de texto com o qual o corpo humano estabelece uma espécie de paronímia. Ambos são máquinas, ambos produzem texto: «notável combinação humana». Que textos são estes? São um catálogo de incertezas desafiador da nossa postura enquanto leitores. Nada têm para nos dizer que não resulte de um gesto explosivo da significação tradicional, de uma permanente e obstinada sabotagem das convenções determinadoras dos jogos de linguagem, distanciando-se por completo da ideia feita de uma voz poética padronizável, até se recolher num lugar anterior ao pecado do conhecimento: «a não esquecer: ma grossa bruma / e’le disse: / - não comas de nenhuma árvore / de árvore nenhuma».

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

CARTAS

O assunto é polémico e merece discussão: o que há numa carta que justifique a sua publicação? Os exemplos ecoam de várias épocas e com propósitos distintos. As cartas trocadas entre Lou Andreas-Salomé e Sigmund Freud não têm o mesmo interesse das cartas trocadas entre Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz, por residir sobre as últimas uma curiosidade voyeurista que escapa às primeiras. As Cartas Portuguesas, pelas suas características intrínsecas, são objecto incomparável ao que sobre elas foi composto nas Novas Cartas Portuguesas. Estas tinham um propósito libertador que escapa às outras. Sobre o epistolário trocado entre Henry Miller e Lawrence Durrell escreveu Jorge de Sena uma crítica corrosiva, anunciando logo no cartão-de-visita tratar-se de «uma ampla selecção que qualquer par de escritores portugueses e brasileiros (…) teria literalmente vergonha de ver publicada». Este é um dos pontos para mim mais sensíveis. Se excluirmos do cenário algumas e célebres cartas abertas, o que legitima a publicação de textos que presumimos do foro íntimo? A autorização dos autores, o interesse público, a necessidade de esclarecimentos que, a certa altura, parecem só ser possíveis colocando as cartas sobre a mesa. Por cá, são célebres as diatribes geradas pela publicação de Pacheco Versus Cesariny (1974), a que este respondeu, na mesma linha mas sem o mesmo fôlego, com o Jornal do Gato (1974). Tornar pública uma carta pode parecer um gesto revelador. Assim seria, se não aconselhasse o bom senso a desconfiar dessa índole confessional que parece caracterizar a epistolografia. No texto de uma carta temos acesso ao que o emissor pretende fazer chegar ao destinatário, sendo, no limite, pouco avisado julgar que nessa mensagem repousam os restos mortais da verdade. Há cartas cujo conteúdo vem já tão contaminado de calculismo que nelas pouco resta de autêntico. Assim como num texto confessional o autor só confessa o que pretende ver confessado, também numa carta o autor só diz o que pretende ver assimilado pelo seu interlocutor. Numa época como a nossa, em que estes processos foram substituídos pelo instantâneo dos e-mails e das sms, o tema aparenta ser ainda mais controverso. Temos de contar com transformações substanciais no que concerne ao tempo de resposta. Um e-mail pode ou não denotar uma espontaneidade e autenticidade que o tempo de resposta de uma carta preservava, garantindo outrora uma ponderação que nos dias de hoje é cada vez mais traída pela urgência. É relativamente fácil, embora sempre polémico, perceber quando um texto foi pensado, ponderado, calculado, ou resultou de mera necessidade fisiológica. Não faço juízos de valor, mas julgo ser importante ter estes aspectos em conta quando lidamos com epistolografia.

Calhou que no ano corrente me pusesse a ler cartas e me visse obrigado a reflectir tais questões. Deixarei de lado as releituras, que venho assinalando por aqui com breves citações, focando-me em três títulos recentes e uma reedição que li agora pela primeira vez. Da editora Barco Bêbado, as novidades: Pontas de Fogo (Maio de 2020), Intervenção (minha) surrealística?!!!!! (Julho de 2020) e «por menos, só talvez no Biafra» (Setembro de 2020). Da Maldoror, uma reedição: Cartas ao Léu (Junho de 2020), outrora publicadas, em 2005, pelas Quasi Edições. Pode parecer displicente chamar para aqui o pequeno volume de Paulo da Costa Domingos, se apenas tivermos presentes os dois poemas que o abrem assinalando uma atitude de confronto com o meio instalado no terreno das letras portuguesas. Dir-me-ão que o gesto incendiário de pouco valeu, tendo em conta o statu quo. Discordo. Nesta matéria tendo para a epistemologia que compreende a sabotagem dos paradigmas, a qual foi exemplar e pragmaticamente levada a cabo pelo editor Vitor Silva Tavares ao recusar para si o epíteto de marginal, preferindo o de paralelo, fazendo da sua vida (repito e sublinho: vida) um modelo de incompatibilidade com mercado editorial. Não é por acaso que o nome do editor surge no final desta plaquete — celebrativa? sinalizadora? —, numa breve e iniciática missiva onde sobressai certa epígrafe de José de Almada Negreiros a sintetizar exemplarmente a relação de um país com os seus poetas. O que daqui se retira é inequívoco, mais do que nos desculparmos com o que a vida reserva importa assumirmos sem transigências as opções que fazemos na vida. Num meio onde dar uma no cravo e outra na ferradura é lei, traz algum conforto perceber que nem todos estão dispostos a obedecer à lei.
Caso conhecido de incumprimento, padrasto de epígonos abastardados que o próprio jamais imaginaria, foi Luiz Pacheco. Intervenção (minha) surrealista?!!!!! reproduz uma carta ao mesmo Vitor Silva Tavares, provavelmente escrita em Caldas da Rainha, provavelmente datada de 1967, sobre a putativa participação de Pacheco no movimento surrealista português. O assunto está mais que debatido, não havendo nesta carta nada de especialmente relevante para quem conheça a história. À excepção, talvez, de um pormenor. Algo que tantas vezes escapa a quem se debruça sobre tais temas, mas não escapou à inteligência de Pacheco (que a tinha, por mais que a procurem reduzir a mera caricatura). Simples: sobre surrealistas e neo-realistas, sobre conflitos entre uns e outros, o melhor era perceber, antes de mais, de onde veio esta “rapaziada”. Pelas origens entenda-se as classes sociais. Ao seu estilo, lá vai adiantando o autor de Comunidade: «Está muita coisa por dizer, outras por averiguar, talvez mais ainda já bem sabidas e averiguadas mas que não convém a ninguém dizer — em público, pelo menos». Convém, pois, entender qual o berço dessa dita “literatura clandestina” que se opôs ferozmente ao que repudiava. A dúvida é sociológica, mas não só. A questão das origens rapidamente nos deslocará para questões mais sensíveis, de subsistência, de sobrevivência, que raramente são varridas para debaixo do tapete por uma cultura ainda hoje refém da legitimação académica.
É relativamente fácil ser-se malandro com as costas quentes, mais fácil ainda quando, além das costas quentes, se tem acesso à massagem consoladora de patrocinadores fiéis. Sobre tais matérias, o caso Cesariny foi uma delícia de pormenores. Tivesse optado pelo destino que o pai lhe traçara, e teria sido, muito provavelmente, um ourives frustrado de bolsos cheios. Não deu ouvidos ao papá, comeu, digeriu e defecou o cordão umbilical. A brincadeira custou-lhe os dentes, são guerras que se pagam caro, com o corpo. Nem sempre matam, mas é como se matassem. Moem até ao osso. Torna-se ao mesmo tempo impressionante e entediante verificar como ainda hoje, passados 70 anos sobre a publicação de Corpo Visível, há quem se entretenha a discutir se Cesariny foi um grande poeta da língua portuguesa. Ou se o que foi de pintor é suficiente para que conste nos manuais. Melhor seria que esclarecessem o que foi feito com o milhão outorgado à Casa Pia por um homem que, a certa altura, desabafa para nosso desconforto: «Depois da vida Toda Vagabundo — O MELHOR! — escudo e meio para a bica — cheguei à bem mais horrível situação — se é sítio — de, darem-me algum, e eu NÃO TER NINGUÉM com quem gastar!» A correspondência trocada entre Mário Cesariny, o brasileiro Sérgio Lima (ainda vivo) e Vítor Silva Tavares, tendo em vista a publicação do livro Aluvião Rei na &etc, testemunha um estar e um fazer que desejamos acreditar não se ter perdido por completo, pois mostra-nos como à publicação de um livro não subjaz apenas a ânsia imediatista de atirar para o mercado mais um conjunto de folhas manchadas com tinta. O preço que se paga pelo amor (haverá outra palavra?) manifesta-se na ironia de Silva Tavares, quando a dado momento diz a Cesariny: «serão amanhã entregues na distribuidora (pomposo nome para uma empresa que não consegue colocar, quanto mais vender, 200 livros da & etc…) uns quantos, para incautos e amadores. É sina e será fado. Cumpra-se» (p. 47).
Outra dimensão da mesma problemática vem retratada em Cartas ao Léu, correspondência de Luiz Pacheco enviada a João Carlos Raposo Nunes, poeta e livreiro de Setúbal. Deste volume sublinhemos, antes de mais, o ensaio de António Cândido Franco sobre a epistolografia de Luiz Pacheco, assim como as notas diversas e os anexos que enriquecem sobejamente um conjunto de cartas que pouco interesse teriam não fosse o processo de dissecação a que foram sujeitas. Entre os anexos há um texto de Pacheco, datado de Maio de 1994, publicado inicialmente no jornal O Inimigo, que deve fazer reflectir, pelo que possa ter de datado ou de estúpida e irremediavelmente imperecível. É um desabafo sobre o “negócio” dos livros, o qual pode ser interpretado sob múltiplas perspectivas. As mais comuns são as do editor e do autor, embora a do livreiro também conte. E a do leitor, já agora. E a da crítica. Dos objectos que povoam o nosso quotidiano, o livro é, sem dúvida, aquele que mais está sujeito a avaliações divergentes, tantos são os intervenientes na sua execução. Pacheco ensinou-nos o mérito que pode haver em dizer mal, o qual não é unilateral nem pode ser dissociado do demérito que há na intolerância a uma crítica ou ao contraditório. Nisto, é sabido, os maiores amantes de Pacheco e afins são os mais intolerantes à crítica. E autocrítica têm pouca ou nenhuma. Estão de mal com o mundo julgando-se acima das misérias do mundo, colocam-se no centro à volta do qual tudo gira. Pacheco ensinou-nos também o valor da obstinação, dando lições de coragem num período da nossa história em que foram tantos os cobardes a fazerem-se passar por heróis. Isso e mais lhe devemos, algo que suplanta o retrato caricatural que dele pretendem fazer história. No final da vida, com um sorriso de orelha a orelha, fez o rescaldo a calotes, dívidas, desfalques. O saldo do balanço é de uma indigência que chega a ser cómica, mas deixa um travo a acidez que é o de reconhecermos naquele balanço quase cego o destino reservado a quem opte pela graça de um viver livre. O mais certo é o negócio fechar por falência, como certa é a morte num corpo. Com que nos comprometemos, então, enquanto por cá andamos? Que compromisso nos exige a criação? A paixão no fazer ou a ânsia de ganhar?

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

UM POEMA DE ZETHO CUNHA GONÇALVES

 


OS LEÕES DA MESMA LEOA
[Tradição oral Sessouto]

Os leões da mesma leoa
conhecem-se.

Um homem cai
com a sua sombra.

Um leopardo morre
com as suas cores.

Cão sem orelhas,
mau caçador.

Zetho Cunha Gonçalves, in O Leopardo Morre Com as Suas Cores, Literaturas Afrikanas, 2018, s/p.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

CARONTE À ESPERA

Publicado pela primeira vez em 2012 numa editora brasileira chamada Aped, Caronte à Espera (Elsinore, Março de 2020) conheceu este ano uma segunda oportunidade. Cláudia Andrade, a autora, assinava então os seus livros com o pseudónimo Victória F. Também Artur, o protagonista desta história, parece andar em busca de uma segunda oportunidade. Reformado, é um homem cuja falência se mostra tanto no plano físico como espiritual. «Um Artur apodrecido» (p. 16), resignado à rotina amorosa das quartas-feiras com Beatriz, sua mulher, passeia por uma cidade onde outros reformados como ele «feneciam, plácida e vagarosamente, alimentando os patos» (idem). A rotina, a desilusão, a sensação de que nada mais resta pelo que valha a pena manter-se vivo, levam-no a pensar na morte, uma «morte sem contratempos, metodologias, dores ou incómodos» (p. 21). Tudo isto é dito no início do livro, pelo que a companhia que nos fará Artur será a de alguém que decide morrer, já só entusiasmado, a palavra é esta, com os seus «planos de morte» (p. 12).
   O potencial suicida que Cláudia Andrade nos apresenta é um homem tímido, titubeante, acanhado nos gestos, hesitante nas decisões, um corpo praticamente arruinado, uma mente praticamente falida. Taralhouco, chama-lhe um primo. Não é um jovem deprimido, não é um poeta com tendências autodestrutivas, não é um espírito assaltado pela angústia existencial que tantas vezes transforma a vida num estertor, não é um suicidado da sociedade nem alguém que soçobra aos pés da revolta provocada pelo estado insuportável do mundo. Há um lado caricato no velho Artur que inspira ternura, uma ternura algo condescendente, reconheça-se, para com a forma atabalhoada de encarar o seu próprio desespero. Ele é um fantasma prestes a deixar-se assombrar por outro fantasma. Um desconhecido numa fotografia do seu álbum de casamento oferecer-lhe-á um desígnio, partindo então na demanda desse desconhecido como quem parte em busca do Santo Graal.
   A viagem empreendida pela personagem principal de Caronte à Espera é, em si mesma, uma improbabilidade, assumindo a dado momento contornos feéricos inesperados. Não me refiro ao modo de falar sofisticadíssimo, requintado e por vezes algo rebuscado das personagens: «O que chamar à consoladora noção de ter chegado miraculosamente a salvo a uma outra, longínqua, porção de irreversível tempo?» (p. 33) — pergunta um segundo primo de Artur. A dimensão feérica vislumbro-a eu no enigmático encontro com Ivan, completo desconhecido que, de um momento para o outro, se vê a massajar os pés de Artur. A narradora bem nos alerta para a «surrealidade sem peso» (p. 54) em que Artur voga, a qual redundará num emaranhado de relutâncias com desfecho antagónico aos propósitos iniciais. Mais adiante reforça-se, para que não nos esqueçamos, que «as suas vísceras continuaram a flutuar numa ambarina solução de surrealidade» (p. 102).
   Não se espere encontrar nesta história de fantasmas interiores e de memórias espectrais uma preocupação com o jogo de verosimilhanças que determina o grau de realismo numa ficção. Estamos no domínio de uma mitologia contemporânea que insiste em manter elos de proximidade com as características narrativas da mitologia clássica, desde logo patenteados no título da obra em causa. Caronte, como sabeis, era o barqueiro que carregava as almas dos mortos. A ironia está, neste caso, em aprender a mergulhar nas águas do Rio Aqueronte e regressar de lá a nado. As descrições da velhice neste livro, projectadas a partir da observação de um corpo frágil, demorado, trémulo, são ao mesmo tempo comoventes e cómicas, havendo nelas a ambivalência de quem se redescobre infantil em idade avançada.
   O que mais agradavelmente impressiona é, contudo, o estilo da autora, sempre equilibrado entre uma expressividade rica em imagens, bastante adjectivada, e a atenção a pormenores aparentemente supérfluos que acabam por se revelar altamente definidores das personagens: «Os passeios pela praia alongaram-se, dificultaram-se, as pernas vencendo atleticamente o apoio movediço da areia mole. Por lá, descobriu a dança das anémonas, o agrado de cumprimentar e ser cumprimentado pelos pescadores da beira-mar e o prazer de se banhar acima dos tornozelos, pelo que comprou até, numa feira local, uns calções de banho de um intrépido azul-cobalto» (p. 95). Assim se descreve, por exemplo, a reaprendizagem do gozo de viver num idoso com intenções de se matar.
   Caronte à Espera é um primeiro romance, já com alguns anos de vida, de uma autora que viu este ano o seu trabalho ser justamente premiado por um volume de contos intitulado Quartos de Final e Outras Histórias. Bem que merece esta segunda oportunidade que lhe foi dada, deixando-nos na expectativa do que o futuro nos reservará
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