domingo, 21 de fevereiro de 2021
UM POEMA DE LILIANA S. RIBEIRO
quinta-feira, 31 de dezembro de 2020
DUAS POETAS HISPANO-AMERICANAS
A edição portuguesa de Os Elementos Terrestres e outros poemas (Anjo Terrível, Setembro de 2020) beneficia ainda de uma elaborada introdução da tradutora e de sete poemas em apêndice, através dos quais se torna mais perceptível a extensão do universo desta poética enigmática. A autora de Territorio del alba (1953) viajou muito por toda a América Latina, adquirindo a certa altura nacionalidade guatemalteca. Problemas pessoais empurram-na para o México, onde trabalhou como crítica de arte, tradutora, publicando, além de poesia, contos e ensaios. Nacionalizou-se mexicana em 1962. Esteve casada com o pintor Rodolfo Zanabria (n. 1927 – m. 2004), que prometeu levá-la para Paris quando para lá foi viver. Promessa nunca cumprida. Ao afastamento e silêncio do pintor correspondeu a ruína da poeta. Conta Luiza Nilo Nunes: «A 23 de Março de 1974, sem filhos ou herdeiros, mas com três livros de poesia publicados que alterariam para sempre o panorama da literatura em língua espanhola, o seu cadáver é descoberto em estado de putrefacção na banheira da casa em que reside» (p. 9).
Diferente no estilo, a mexicana Rosario Castellanos (n. 1925 – m. 1974) partilha com Eunice Odio uma experiência problemática da religiosidade. Formada em Filosofia, transportou para a sua poesia muitas das questões fundadoras da reflexão filosófica. Fá-lo, no entanto, com espontaneidade e vigor impressionantes, a ponto de por vezes os seus poemas se assemelharem a manifestos. Nascida no seio de uma família abastada, cresceu num ambiente rural marcado pela exploração dos indígenas. Alguns dos poemas nesta antologia seleccionada e traduzida por Jorge Melícias, tais como Agonia fora do muro ou Memorial de Tlatelolco, denotam uma consciência social bastante apurada nesta matéria. Na biografia reproduzida nas badanas refere-se que depois de ter ficado órfã, aos 22 anos, «doou aos índios mexicanos as terras que herdara». José Rui Teixeira, autor do prefácio, sublinha igualmente a sua revolta contra a condição feminina no seu tempo.
terça-feira, 29 de dezembro de 2020
BEIJOS E BARREIRAS LINGUÍSTICAS
domingo, 27 de dezembro de 2020
TATUAGENS DE LUZ
sexta-feira, 25 de dezembro de 2020
UM AFORISMO DE MANUEL DE FREITAS
Pedalar — e, se isto vos parecer retórico, faço
questão de vos enviar ramos de jacintos, rosas de Santa Teresinha, essas
coisas — é, por vezes, a única solução. Desenganados, fomos ver cegonhas,
um falcão menos tímido, papoilas cujo rubor nenhum Monet fixou. Havia sobretudo
vento, nêsperas ainda verdes, e pessoas que tão próximas ou distantes vão
morrendo.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2020
TRÊS CLIQUES À ESQUERDA / CANCRO
A sacralização do consumismo faz de cada um de nós, quotidianamente e em proporções similares, pequenos senhores e escravos voluntários. As redes sociais fomentaram esta perversidade de um modo surpreendente, promovendo os tiranetes que dentro de cada um de nós praticam a censura manifestando ódio à censura. Somos senhores do nosso território bloqueando quem se aproxima de uma forma que nos desagrade, somos escravos voluntários aceitando a discriminação higienista da máquina que alimentamos com os nossos conteúdos. Isto não é assim apenas nas redes sociais, onde o clima de guerrilha, apesar de tudo, tem o mérito de não entupir as urgências hospitalares. Já não estamos tão certos quanto ao contributo que possam vir a ter para o incremento da psiquiatria.
Afastando o cinismo e a ironia dos comentários, a verdade é que a reconfiguração das relações interpessoais a que vimos assistindo traz por arrasto um acriticismo atroz. E a esse acritiscismo corresponde uma total incapacidade de dialogar que não seja na base redutora do elogio pateta, do emoji inconsequente, da inacção. Toda a conversa antecedente serviu apenas para nos trazer aqui, a esta palavra: inacção. Podíamos dizer inércia, indolência, mas escolhemos inacção por nos parecer mais conforme com esta deslocação paulatina da rua para a rede. Aqui o ruído — chamam-lhe, eufemisticamente, populismo — sairá sempre vencedor, pois este alimenta-se da absoluta ausência de literatura, a que leva à acção, a que surge de um conflito vigoroso e de um confronto continuado com os paradigmas.
Tudo isto nos leva a olhar com admiração para um livro que junta a grega Katerina Gógou (n. 1940 – m. 1993) e o inglês Sean Bonney (n. 1969 – m. 2019), dois escritores de gerações diversas, oriundos de países com culturas distintas, a escreverem em línguas diferentes, mas com um propósito muito bem definido de fazer da literatura algo mais do que estribo para montar o cavalo da bajulação. Quando publicou o primeiro livro, em 1978, Gógou tinha um passado como actriz. José Luís Costa, que agora traduziu para português Três cliques à esquerda, especula certeiramente que «se Katerina ainda por cá andasse, duvido que deixasse de gritar o facto de [o destino dos emigrantes] se ter tornado ainda mais terrível em 2020, ano em que se tornou política corriqueira do governo grego capturar migrantes e abandoná-los em alto-mar» (p. 14).
O que pode a literatura fazer pelo mundo? Hoje, o pouco que pode, talvez seja agitar consciências no sentido de acordá-las do amorfismo em que espontaneamente mergulham. A prova de que as palavras “gritadas” em 1978 não perderam sentido é a leitura que delas fez Sean Bonney, por cá conhecido graças às traduções de Miguel Cardoso para a Douda Correria: Cartas Contra o Firmamento (2016) e A Nossa Morte (2020). Cancro, o livro que agora se junta a Três cliques à esquerda na cuidada edição da Barco Bêbado (Outubro de 2020, com desenhos de Gonçalo Pena), foi originalmente publicado em 2019 com o título Cancer: Poems after Katerina Gogou. A ideia de os reunir num só volume é excelente, mostra como se mantém enérgica a palavra passados mais de 40 anos sobre um livro que tudo levaria a crer datado.
Eis outro preconceito que convém ultrapassar, a ideia de que uma literatura socialmente comprometida, engajada ou libertária (haverá diferença?), uma literatura empenhada no diagnóstico das doenças sociais, políticas, culturais, religiosas, uma literatura libertadora e, por isso mesmo, transformadora, é preciso ultrapassar, dizia, o preconceito de que uma literatura de acção acaba inevitavelmente ultrapassada pelas circunstâncias. Porventura traumatizados pelas heranças neo-realista e surrealista, os leitores portugueses têm aqui uma boa oportunidade de tratar traumas entendendo que para lá do foguetório idolátrico há sempre nas circunstâncias algo que perdura ao longo dos tempos: o domínio de uns sobre outros. Ora, é contra a humilhação infligida por quem domina que esta literatura persiste.
Os primeiros versos de Katerina Gógou são claros nesse propósito de nos transportarem para a rua sem necessidade de decorar o cenário: «A nossa vida é a Rua Patissíon. / Detergente ROL que não polui o mar / e o Mitropanos entrou na nossa vida / depois levou-o a Dexamení / como já tinha feito às boazudas. / Nós ali. / Esfomeados viajamos a vida inteira / o mesmo percurso. / Humilhação — solidão — desespero. E vice-versa» (p. 21). Podia ter sido escrito hoje. Dexamení, já agora, era zona de artistas. Gógou ficou pela Rua Patissíon, retratando becos imundos, emigrantes em busca do sonho americano, desempregados, «recrutas com as anónimas cabeças nuas», dirigindo-se ora à mãe, ora à filha, com mensagens de uma desesperança crescente. Pagou um preço alto. As feridas abertas sobressaem em poemas onde a loucura matiza um teatro de crueldade apenas comparável com aquele outrora dirigido por Antonin Artaud (n. 1896 – m. 1948).
Cancro, o livro de Bonney, é uma espécie de palimpsesto grafado sobre os papiros de Gógou. Onde esta dizia «Os meus amigos são pássaros pretos e estendais / nas vossas mãos» (p. 34), aquele dirá «os meus amigos / são arames estendidos de cidade a cidade» (p. 109). Ambos dão vivas à 204.ª Internacional, dirigindo-se a um futuro onde desespero e resistência se misturam com palavras de ordem carregadas de fúria, Na gramática belicista de Sean Bonney há lugar para trocas de tiros, explosivos, granadas, espancamentos, revólveres, bombas caseiras, pancada, pólvora: «reinventa o tempo. reinventa a violência. depois / ouve, atira-te a esses cabrões como as fúrias» (p. 111). Podemos falar desta poesia como rastilho para a acção ou já de poesia enquanto acção, na certeza de ser uma náusea profunda o que a motiva: «Poesia, pra quê / Vem de “fazer” / Quer dizer “Vai e Faz” / Queria uma resposta / Dos imobilizados» (p. 151). Não obstante, o sonho tem nela um papel determinante.
Há quem se acanhe perante tais manifestações de raiva, reduzindo o discurso à condição de panfleto, sabendo que pouco lhe resta senão aprender a conviver com o mar de destroços que entra dentro de casa sempre que nos ligamos ao mundo. Distraídos do que já em nós há de ruinoso, degustamos o peru de Natal enquanto na televisão o pivot de telejornal alerta os mais sensíveis para a violência das imagens. Eu prefiro o inconformismo deste “olhar panfletário” à indolência de um “olhar de soslaio”, por no primeiro ainda vislumbrar a hipótese de uma chama que no segundo é só fumo e cinza. Uma referência a Portugal, outra à China, num poema publicado em 1978, pode fazer mais por mim nestes dias do que centenas de livros actuais, carregados de fumo e de cinza, ansiosos de uma eternidade que o mais certo é vir a falhar-lhes:
o imperialismo estádio último do capitalismo
a revolução traída
ah pá camarada a falta que nos fazes…
O tempo criou bicho
ensaios nucleares, frentes populares, bordéis
(até Portugal já perdemos)
superproduções dos católicos e da máfia
tornaram-se multinacionais, não nos deixam amar
camarada.
Bufos sobrem as nossas escadas
cães nos terrenos, sempre que lhes apetecer podem
baixar-nos as calças e foder-nos
coexistência pacífica e socialismo num país
ah pá camarada se soubesses que fardo pesado carregamos…
Os julgamentos de Moscovo, ninguém aguentou
ficaste totalmente só
o pessoal ficou cansado e deram-lhe em cima.
Já sabes, que hei-de dizer?
E depois colaboraram. Já sabes, que hei-de dizer?
Na China, Janeiro de 77, chacinam trabalhadores,
e isso chega cá como se fosse um poema do Mao
(a culpa é das pessoas repetem eles) ah pá camarada
porque não foste mais cuidadoso?
Por cá, o costume. As pessoas escondem-se nas suas tocas.
pêcês há dois, «revolucionários» hermafroditas são aos milhares.
Mas não te preocupes. Vamos conseguir.
É só que, às vezes, canso-me,
nem trabalho tenho, só consigo queixar-me
e é então que mais te sinto a falta
e que te dou nas orelhas por não teres sido mais cuidadoso
e que não tenho vergonha de chorar
nem de escrever poemas
camarada que não traíste
vivemos a barbárie.
domingo, 13 de dezembro de 2020
UM POEMA DE ERNESTINO MUHATE
quinta-feira, 10 de dezembro de 2020
DISCURSO AOS PACIENTES CIRÚRGICOS
Em quatro partes, a organização dos poemas sugere uma narrativa relacionada com um processo de convalescença. Cada uma das secções é introduzida por um texto em prosa cuja função explicativa não descarta do discurso uma certa ironia. Preâmbulo Clínico: Strāges: «Nem sempre é possível dizer onde começa um acidente e onde termina um problema crónico» (p. 11). Preâmbulo Clínico: Néctares Operatórios: «O médico pergunta-me se quero ter mais detalhes sobre o procedimento. Quero saber apenas sobre a anestesia: tenho medo de acordar durante a operação quando me fizerem o primeiro corte» (p. 29). Estes preâmbulos antecedem conjuntos de poemas que retratam um corpo em recuperação, do sinistro à alta hospitalar, mapeando tanto a envolvência da situação clínica como a anatomia de um espírito desassossegado pelas circunstâncias físicas em que o sujeito se encontra.
Se no livro anterior de Susana Araújo me havia agradado a vinculação da poesia a uma emergência social, neste agrada-me sobretudo o vínculo ao corpo enquanto palco onde tudo acontece. São diversos os recursos poéticos de que se serve para explorar esta fisicalidade no e do poema, intrometendo-se por vezes no campo da experimentação com resultados que logram em partes iguais despertar-nos a curiosidade e divertir-nos. No poema Por Arquivar, por exemplo, à elevação de cada uma das letras da palavra membros corresponde a sugestão de um corpo a levitar. Imunidade/Impunidade é um caligrama que nos envia para a grande onda de Hokusai. Em Sala de espera estamos no domínio do haiku. Há ainda exercícios bilingues, como já sucedia no livro anterior da mesma autora, e evocações de Emily Dickinson, William Wordsworth, Virginia Woolf, rodeadas de um complexo lexical respigado no campo da medicina.
O que não se perde de todo é a inclinação para uma poesia embrulhada nos problemas do mundo, capaz de reflectir o seu tempo sem a ele se reduzir. Veja-se como isso acontece no poema Tratamento de Detritos (p. 75):
onde irão morrer as nossas imagens
as dioxinas, os ftalatos e o cheiro a
homens e ratos?
enterraremos os natimortos?
deste leprosário ocidental?
segunda-feira, 30 de novembro de 2020
"DA LADROAGEM E DA EDIÇÃO ÀS TRÊS PANCADAS"
Publicou a Língua Morta, em Julho deste ano, uma antologia com o título O Meu Livro de Cabeceira é Um Revólver, organizada pelo poeta e tradutor Jorge Melícias (n. 1970). Devo dizer, a bem da verdade, que tive conhecimento desta antologia alguns meses antes da mesma aparecer anunciada pela editora em causa. Desconhecia o conteúdo, que me foi proposto para o weblog que dinamizo, mas que cordialmente recusei por não ser vocação da Antologia do Esquecimento transformar-se num weblog colectivo. Ainda assim, reitero a Jorge Melícias o agradecimento que então lhe fiz pela cordialidade da oferta, a qual interpretei como ponto de encontro de uma admiração por ambos partilhada relativamente a autores que levaram ao limite a sua existência enquanto criadores. O meu livro Suicidas (Deriva, 2013) tornou clara esta admiração, e se a ele me refiro agora é pelo trabalho que então me deu de busca, investigação e tentativa de compreensão de um fenómeno humano inesgotavelmente complexo.
Foi pois com entusiasmo que, no passado dia 24, depois de um encontro com alunos na Biblioteca Municipal de Caldas da Rainha, me desloquei até Óbidos para adquirir a referida antologia. Qual não foi o espanto quando, ao folhear o índice, deparei com diversos nomes que me eram totalmente desconhecidos. A ignorância não tem limites, menos ainda a minha. Parti para a leitura das notas biográficas que acompanham a obra, as quais suponho serem da responsabilidade do antologiador. O editor em causa já fez saber que só quis preocupar-se com as datas de nascimento, as quais terá cotejado com o que acerca dos autores em causa se encontra divulgado na Internet. A desconfiança de que algo não batia certo surgiu à leitura da terceira nota, dedicada a um tal de Tomás González. Aí se informa tratar-se de uma personagem fictícia saída da imaginação do escritor espanhol Eliseo González, autor de uma suposta antologia intitulada Galería de Suicidas. A curiosidade levou-me a buscar informação sobre esta putativa antologia, não demorando muito que ficasse estupefacto com o que fui encontrar.
Na realidade, Galería de Suicidas é uma obra de ficção publicada, em 2003, pela editora Huerga & Fierro. Como todas as referências ao autor apontavam para Burgos, tratei de vasculhar um pouco. A 7 de Setembro de 2003, o Diario de Burgos dedica uma folha ao livro de González. Aí se lê, em artigo assinado por R. Pérez Barredo, que «através de doze heterónimos o autor radiografa os subterrâneos da dor, da loucura, da criação, da derrota e do amor» (tradução minha). Já o entretanto falecido Jorge Villalmanzo, com quem González teve projectos comuns, desenvolveu o tema afirmando que «Galería de suicidas é uma antologia de poetas “tombados” e da sua poesia – ficcionada e poetizada por este autor indefinível» (tradução minha). No mesmo jornal, a 9 de Novembro de 2003, Ricardo Ruiz assina uma crítica ao livro onde diz que a «sua poesia parece poesia mas não é; a sua prosa parece narrativa, mas também não o é. Poeta e prosador em partes iguais, e desiguais, na obra de Eliseo González nada é o que parece… Tudo é verdade porque tudo é mentira» (tradução minha). Tudo isto escapou quer ao editor Diogo Vaz Pinto, quer ao tradutor e antologiador Jorge Melícias, o que seria desculpável se o deslize tivesse na sua origem apenas o deslumbramento causado pelo conteúdo da obra em causa. Mas não é apenas de deslumbramento que estamos a falar.
Quem ler as notas biográficas do livro de Eliseo González, compreensivelmente decalcadas na antologia da Língua Morta, fica perplexo com a romanceação da morte e da dor, com as contradições e impossibilidades que sugerem de imediato estarmos perante uma obra de ficção. Não é só o facto de praticamente nenhuma informação se encontrar sobre esses autores na internet, apontando toda a que se encontra para o livro de Eliseo González. É a própria pseudo-informação divulgada na antologia da Língua Morta. Alguns exemplos: sobre Paula Sinos pouco mais se sabe além do que vem no relatório do maquinista de comboios que teria abalroado a poetisa: «Travei, mas era tarde. Jamais esquecerei aquele rosto, o seu estúpido olhar…» (p. 147). Sobre um tal de León Artigas há a referir «o profundo arrependimento por não ter dado ouvidos ao seu pai (que, aparentemente, dirigia uma serralharia) e por não ter dedicado a sua vida a martelar» (p. 148). Isto parece-vos credível? A propósito de José Ignacio Fuentes refere-se a publicação de um livro que teria sido «um verdadeiro fenómeno, atingindo números de vendas raramente vistos em Espanha» (p. 150). O livro chama-se Los Heraldos del fin (1990). Quem o conseguir encontrar leva prémio. Não deverá ser difícil, é obra relativamente recente. A cereja no topo do bolo prova-se, no entanto, na biografia dedicada a um suposto Víctor Ramos. Teria nascido em 1960, mas aos 10 anos, em 1970, já tinha fundado o Movimiento de Guerreros Antigays. Porquê? Porque não suportava a sua própria orientação sexual. Vai daí andou por programas de rádio e televisão a casquinar nos homossexuais, foi acusado de estar na génese de uma série de suicídios e acabou a matar-se, na prisão, sangrando «até à morte por castração auto-infligida» (p. 152). Incrédulos? Não fiqueis. Se tanto o editor Diogo Vaz Pinto como o tradutor Jorge Melícias julgaram isto credível, por que havemos nós de desconfiar?
Temos, desta arte, uma antologia de 17 suicidas em que 8 não o foram porque nem sequer chegaram a nascer. Estes 8 são produto da imaginação de um escritor espanhol que está neste momento parcialmente publicado em Portugal sem que faça a mínima ideia do facto (tenho o e-mail dele, caso o pretendam contactar para felicitações). Tudo isto podia ter graça não fosse lamentável. Melícias é um excelente tradutor, não é isso que está em causa. Vaz Pinto, deveras aguerrido na defesa de uma ética e rigor que pretende impor aos outros mas se dispensa de honrar, também não deverá ser crucificado por este lapso. Diz que se deixou levar pela confiança depositada no tradutor, que é um editor de textos e não mais. Bem, a ideia que fazemos de um editor é ligeiramente mais exigente. O título deste post, de resto, copia palavras do próprio a propósito do famigerado “caso fraudulento da Cristina Bartleby”. Não me peçam para lembrar o que isso foi.
Enquanto leitor, é-me apenas lamentável que extraordinários poetas como Alfonso Costafreda ou Pedro Casariego Córdoba surjam misturados com uma teia heteronímica que acaba por tornar risível o que, na verdade, não o é. Não havia necessidade nenhuma para que assim fosse, até porque não faltariam nomes de poetas suicidas para acrescentar aos que de facto o foram. Jorge Melícias já traduziu alguns que não surgem nesta antologia. Que cada um retire daqui as suas conclusões. A minha é simples, a ideia de que o espírito crítico e a desconfiança, mais de nós próprios do que dos outros, tem vindo a levar nos últimos anos bordoadas fatais resulta nesta salgalhada. Embora nada tenha que ver com o assunto, se fosse ao editor ou ao tradutor entraria em contacto com Eliseo González quanto antes. Ele merece saber que foi publicado em Portugal.
Adenda: faltou dizer que foi a propósito desta antologia que o escritor valter hugo mãe escreveu isto: «Creio que todos pressentimos que o suicídio é o manifesto de coerência do poeta.» Curiosamente, dois dos poetas que cita no seu artigo são heterónimos de um escritor espanhol que está vivo, para incoerência do próprio.
domingo, 29 de novembro de 2020
UM CONTO ESQUIMÓ
O menino partiu e encontrou um bacalhau que tinha sido largado na praia. Apanhou-o, arrancou-lhe a cabeça e devorou-o de uma só vez. Continuou o passeio e tropeçou num leão-marinho. Atirou-se a ele, arrancou-lhe a cabeça e comeu-o. Mas mesmo assim continuava com fome. Mais adiante, deu com uma morsa de grandes bigodes aquecendo-se ao sol. Antes que a morsa chegasse à água, o menino já lhe tinha arrancado a cabeça e devorou-a sem ressentimentos.
Por fim, o pequeno glutão avistou uma baleia branca que acabara de ser arpoada por um pescador. Tal como tinha feito com o bacalhau, o leão-marinho e a morsa, arrancou-lhe a cabeça e comeu-a inteira, pele, barba e intestinos incluídos. Sentiu-se então melhor. Pela primeira vez na vida tinha conseguido devorar a sua própria fome. Pôs-se a cantar uma canção que dedicou ao seu estômago. Teve sede e dirigiu-se a um pequeno lago, onde bebeu sofregamente. O lago secou e o menino regressou ao iglu. Porém, tinha engordado tanto que não conseguia entrar pela porta.
— Entra pela janela — aconselhou-lhe a avó.
A janela era mais pequena do que a porta. Contudo conseguiu meter a cabeça, ainda que os ombros ficassem presos.
— Entra pelo respirador — aconselhou a anciã. O tubo do respirador era mais estreito do que a janela, mas a cabeça e os ombros do menino passaram, o estômago não.
— Passa pelo buraco da minha agulha —rogou a esquimó.
Levantou a agulha até ao tecto do iglu e o menino passou e caiu no solo. Naquele instante, a anciã deu-se conta de que o neto tinha engordado tanto apenas por haver comido demasiado.
— Não te aproximes da lamparina! — disse-lhe com firmeza.
Mas o menino, perdendo o equilíbrio, rodopiou até à lamparina. Esta caiu sobre ele e explodiu. A anciã escapara a tempo. Quando o silêncio voltou a reinar, a velha arrastou-se até ao iglu e espreitou pela janela. O menino e a lamparina haviam desparecido. No seu lugar encontravam-se um bacalhau, um leão marinho, uma morsa e uma baleia nadando num pequeno lago azul.
terça-feira, 24 de novembro de 2020
DOIS LIVROS DE MARTA CALDAS
Posiciono-me diante dos livros de Marta Caldas (n. 1982) como alguém que olha para um objecto que lhe é estranho, inacessível, ou se ajoelha na esperança de que o animal lhe venha comer à mão. Não vem. O animal é esquivo, defensivo, selvagem. Ora se aproxima cautelosamente, ora rompe numa correria desenfreada e se afasta. Não é animal que se deixe domesticar, mais certo é morder-nos a mão e zarpar. Estou familiarizado com o concretismo brasileiro, com as experiências levadas a cabo, a partir da década de 1960, pelo chamado Movimento de Poesia Experimental Portuguesa, conheço toda a retórica da anti-arte que fertilizou diversos vanguardismos, do automatismo à escrita caligramática, da experimentação tipográfica e visual a várias formas de abstraccionismo cujo princípio era o da privação de sentido, e de tudo isso julgo serem herdeiros Assembleia (Douda Correira, Março de 2019) e E Aquáticos (Setembro de 2020). O primeiro é dedicado a Alice Becker-Ho, escritora francesa que foi cansada com Guy Debord. Não lhe conhecendo a obra. Conheço, todavia, a de Manuel Rodrigues, pelo menos desde a publicação de Múrice (Março de 2015), que me chegou pela mão generosa de um amigo ligado às artes plásticas. Também a autora de E Aquáticos tem formação em Artes Plásticas, sendo várias as afinidades que encontro nestes dois livros com o que conheço de Manuel Rodrigues. O modo como trabalham a linguagem, colocando-a numa situação limite em matéria de significação, é similar. A forma como estes textos, na sua variedade multilingue, resistem, paradoxalmente, a qualquer tentativa de tradução, é semelhante. A resistência, se assim podemos dizer, à comunicabilidade, adoptando estratégias e práticas que baralham o sentido a ponto de parecerem preferir o não-sentido, é idêntica. Este aspecto é especialmente ironizado por Marta Caldas em Assembleia, num texto que vai sendo desenvolvido mediante a utilização de indicações gráficas e verbais que apontam para uma «extensão nova de sentido». Entramos no texto como quem entra num edifício desconhecido, seguindo as indicações para algo que aparenta ser um processo em construção, a organização de uma instalação, de um acontecimento, para o qual contribuem várias enumerações, acções, advertências. Percorremos os corredores às cegas, confiando que as palavras nos levarão a algum termo, a uma conclusão, a uma imagem ou a uma ideia conclusivas. Interrogo-me à medida que vou percorrendo as páginas como quem sai de uma sala para entrar noutra: que textos são estes? É como se estivesse a ler um caderno de apontamentos, preenchido por notas imprecisas, com relações misteriosas, diálogos. «Não era por aí. Perdi-lhes a orientação». Às tantas surgem laivos de uma narrativa imprecisa onde se descobre um nome próprio, Simon, cores, luz, elementos naturais, mas sempre num contexto de filiação a certa poética explosiva que escape a modelos gramaticais, sintácticos e semânticos, a discursos estandardizados, uma poética que se está literalmente nas tintas para a norma que se impõe enquanto garantia de posteridade. Ler estes livros é participar numa experiência de sabotagem da geometria textual que configura a ideia de literatura: «Dizadeusquetenhosaudades». E Aquáticos introduz um elemento que, não estando totalmente ausente no livro anterior, é neste muito mais central: o erotismo. Aqui o vernáculo mistura-se com fonemas instauradores de uma tensão fonética que, por diversas ocasiões, nos desloca para o imaginário histórico e cultural fixado pelos textos sagrados judaico-cristãos: «a A dão trufas». Às tantas dá a sensação de estarmos a ler algo produzido por um gerador de texto com o qual o corpo humano estabelece uma espécie de paronímia. Ambos são máquinas, ambos produzem texto: «notável combinação humana». Que textos são estes? São um catálogo de incertezas desafiador da nossa postura enquanto leitores. Nada têm para nos dizer que não resulte de um gesto explosivo da significação tradicional, de uma permanente e obstinada sabotagem das convenções determinadoras dos jogos de linguagem, distanciando-se por completo da ideia feita de uma voz poética padronizável, até se recolher num lugar anterior ao pecado do conhecimento: «a não esquecer: ma grossa bruma / e’le disse: / - não comas de nenhuma árvore / de árvore nenhuma».
sexta-feira, 20 de novembro de 2020
CARTAS
O assunto é polémico e merece discussão: o que há numa carta que justifique a sua publicação? Os exemplos ecoam de várias épocas e com propósitos distintos. As cartas trocadas entre Lou Andreas-Salomé e Sigmund Freud não têm o mesmo interesse das cartas trocadas entre Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz, por residir sobre as últimas uma curiosidade voyeurista que escapa às primeiras. As Cartas Portuguesas, pelas suas características intrínsecas, são objecto incomparável ao que sobre elas foi composto nas Novas Cartas Portuguesas. Estas tinham um propósito libertador que escapa às outras. Sobre o epistolário trocado entre Henry Miller e Lawrence Durrell escreveu Jorge de Sena uma crítica corrosiva, anunciando logo no cartão-de-visita tratar-se de «uma ampla selecção que qualquer par de escritores portugueses e brasileiros (…) teria literalmente vergonha de ver publicada». Este é um dos pontos para mim mais sensíveis. Se excluirmos do cenário algumas e célebres cartas abertas, o que legitima a publicação de textos que presumimos do foro íntimo? A autorização dos autores, o interesse público, a necessidade de esclarecimentos que, a certa altura, parecem só ser possíveis colocando as cartas sobre a mesa. Por cá, são célebres as diatribes geradas pela publicação de Pacheco Versus Cesariny (1974), a que este respondeu, na mesma linha mas sem o mesmo fôlego, com o Jornal do Gato (1974). Tornar pública uma carta pode parecer um gesto revelador. Assim seria, se não aconselhasse o bom senso a desconfiar dessa índole confessional que parece caracterizar a epistolografia. No texto de uma carta temos acesso ao que o emissor pretende fazer chegar ao destinatário, sendo, no limite, pouco avisado julgar que nessa mensagem repousam os restos mortais da verdade. Há cartas cujo conteúdo vem já tão contaminado de calculismo que nelas pouco resta de autêntico. Assim como num texto confessional o autor só confessa o que pretende ver confessado, também numa carta o autor só diz o que pretende ver assimilado pelo seu interlocutor. Numa época como a nossa, em que estes processos foram substituídos pelo instantâneo dos e-mails e das sms, o tema aparenta ser ainda mais controverso. Temos de contar com transformações substanciais no que concerne ao tempo de resposta. Um e-mail pode ou não denotar uma espontaneidade e autenticidade que o tempo de resposta de uma carta preservava, garantindo outrora uma ponderação que nos dias de hoje é cada vez mais traída pela urgência. É relativamente fácil, embora sempre polémico, perceber quando um texto foi pensado, ponderado, calculado, ou resultou de mera necessidade fisiológica. Não faço juízos de valor, mas julgo ser importante ter estes aspectos em conta quando lidamos com epistolografia.
quinta-feira, 19 de novembro de 2020
UM POEMA DE ZETHO CUNHA GONÇALVES
quarta-feira, 18 de novembro de 2020
CARONTE À ESPERA
O potencial suicida que Cláudia Andrade nos apresenta é um homem tímido, titubeante, acanhado nos gestos, hesitante nas decisões, um corpo praticamente arruinado, uma mente praticamente falida. Taralhouco, chama-lhe um primo. Não é um jovem deprimido, não é um poeta com tendências autodestrutivas, não é um espírito assaltado pela angústia existencial que tantas vezes transforma a vida num estertor, não é um suicidado da sociedade nem alguém que soçobra aos pés da revolta provocada pelo estado insuportável do mundo. Há um lado caricato no velho Artur que inspira ternura, uma ternura algo condescendente, reconheça-se, para com a forma atabalhoada de encarar o seu próprio desespero. Ele é um fantasma prestes a deixar-se assombrar por outro fantasma. Um desconhecido numa fotografia do seu álbum de casamento oferecer-lhe-á um desígnio, partindo então na demanda desse desconhecido como quem parte em busca do Santo Graal.
A viagem empreendida pela personagem principal de Caronte à Espera é, em si mesma, uma improbabilidade, assumindo a dado momento contornos feéricos inesperados. Não me refiro ao modo de falar sofisticadíssimo, requintado e por vezes algo rebuscado das personagens: «O que chamar à consoladora noção de ter chegado miraculosamente a salvo a uma outra, longínqua, porção de irreversível tempo?» (p. 33) — pergunta um segundo primo de Artur. A dimensão feérica vislumbro-a eu no enigmático encontro com Ivan, completo desconhecido que, de um momento para o outro, se vê a massajar os pés de Artur. A narradora bem nos alerta para a «surrealidade sem peso» (p. 54) em que Artur voga, a qual redundará num emaranhado de relutâncias com desfecho antagónico aos propósitos iniciais. Mais adiante reforça-se, para que não nos esqueçamos, que «as suas vísceras continuaram a flutuar numa ambarina solução de surrealidade» (p. 102).
Não se espere encontrar nesta história de fantasmas interiores e de memórias espectrais uma preocupação com o jogo de verosimilhanças que determina o grau de realismo numa ficção. Estamos no domínio de uma mitologia contemporânea que insiste em manter elos de proximidade com as características narrativas da mitologia clássica, desde logo patenteados no título da obra em causa. Caronte, como sabeis, era o barqueiro que carregava as almas dos mortos. A ironia está, neste caso, em aprender a mergulhar nas águas do Rio Aqueronte e regressar de lá a nado. As descrições da velhice neste livro, projectadas a partir da observação de um corpo frágil, demorado, trémulo, são ao mesmo tempo comoventes e cómicas, havendo nelas a ambivalência de quem se redescobre infantil em idade avançada.
O que mais agradavelmente impressiona é, contudo, o estilo da autora, sempre equilibrado entre uma expressividade rica em imagens, bastante adjectivada, e a atenção a pormenores aparentemente supérfluos que acabam por se revelar altamente definidores das personagens: «Os passeios pela praia alongaram-se, dificultaram-se, as pernas vencendo atleticamente o apoio movediço da areia mole. Por lá, descobriu a dança das anémonas, o agrado de cumprimentar e ser cumprimentado pelos pescadores da beira-mar e o prazer de se banhar acima dos tornozelos, pelo que comprou até, numa feira local, uns calções de banho de um intrépido azul-cobalto» (p. 95). Assim se descreve, por exemplo, a reaprendizagem do gozo de viver num idoso com intenções de se matar.
Caronte à Espera é um primeiro romance, já com alguns anos de vida, de uma autora que viu este ano o seu trabalho ser justamente premiado por um volume de contos intitulado Quartos de Final e Outras Histórias. Bem que merece esta segunda oportunidade que lhe foi dada, deixando-nos na expectativa do que o futuro nos reservará.
















