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domingo, 29 de novembro de 2020

UM CONTO ESQUIMÓ

 


O MENINO COMILÃO

 
   Um menino vivia com a avó num iglu construído pelo avô. Desde a morte deste, a fome crescia pela casa. Um dia, a anciã tirou o neto do iglu. Não podia continuar a alimentá-lo. Implorou-lhe que encontrasse algo para comer.
   O menino partiu e encontrou um bacalhau que tinha sido largado na praia. Apanhou-o, arrancou-lhe a cabeça e devorou-o de uma só vez. Continuou o passeio e tropeçou num leão-marinho. Atirou-se a ele, arrancou-lhe a cabeça e comeu-o. Mas mesmo assim continuava com fome. Mais adiante, deu com uma morsa de grandes bigodes aquecendo-se ao sol. Antes que a morsa chegasse à água, o menino já lhe tinha arrancado a cabeça e devorou-a sem ressentimentos.
   Por fim, o pequeno glutão avistou uma baleia branca que acabara de ser arpoada por um pescador. Tal como tinha feito com o bacalhau, o leão-marinho e a morsa, arrancou-lhe a cabeça e comeu-a inteira, pele, barba e intestinos incluídos. Sentiu-se então melhor. Pela primeira vez na vida tinha conseguido devorar a sua própria fome. Pôs-se a cantar uma canção que dedicou ao seu estômago. Teve sede e dirigiu-se a um pequeno lago, onde bebeu sofregamente. O lago secou e o menino regressou ao iglu. Porém, tinha engordado tanto que não conseguia entrar pela porta.
  Entra pela janela aconselhou-lhe a avó.
   A janela era mais pequena do que a porta. Contudo conseguiu meter a cabeça, ainda que os ombros ficassem presos.
   Entra pelo respirador aconselhou a anciã. O tubo do respirador era mais estreito do que a janela, mas a cabeça e os ombros do menino passaram, o estômago não.
   Passa pelo buraco da minha agulha rogou a esquimó.
   Levantou a agulha até ao tecto do iglu e o menino passou e caiu no solo. Naquele instante, a anciã deu-se conta de que o neto tinha engordado tanto apenas por haver comido demasiado.
   Não te aproximes da lamparina! disse-lhe com  firmeza.
   Mas o menino, perdendo o equilíbrio, rodopiou até à lamparina. Esta caiu sobre ele e explodiu. A anciã escapara a tempo. Quando o silêncio voltou a reinar, a velha arrastou-se até ao iglu e espreitou pela janela. O menino e a lamparina haviam desparecido. No seu lugar encontravam-se um bacalhau, um leão marinho, uma morsa e uma baleia nadando num pequeno lago azul.
 
In Cuentos Esquimales (Los cuentos del iglú), recogidos por Edward L. Keithahn, adaptación de Louise Weiss, traducción de Silvia Komet, José J. de Olañeta, Editor, 1990, pp. 35-38. Versão de HMBF.

domingo, 18 de outubro de 2020

[ALCOOLISMO ALUCINATORIO]


 

— «Hoje, de madrugada, vi a mulher mais feia de Lisboa, ao pé dum mar todo barrento e com grandes manchas de sangue. Também vi a minha filha que morreu, a voar com um ramo de louro na mão..»
— Vive satisfeito?
— «Ora! Aonde chego, ha sempre desgraça. Chego a Lisboa, greve de electricos. Chego ao Telhal, fogo em Sintra. Venho num comboio, a maquina perde vapor.»
— Gosta de aqui estar?
— Não desgosto...
— Mas, para eu estar em Portugal — só no manicomio ou, antes, na cervejaria da Trindade.»

 
Autor anónimo, in Almas Delirantes - do Telhal a Rilhafoles, poemas, textos, diálogos e cartas estudados pelo Dr. Luiz Cebola, organização e apresentação por Stefanie Gil Franco, Douda Correria, Março de 2019, p. 150.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

UM HISTÓRIA DE ORLANDO NEVES



O ASSEIO

   Estremecendo, o nariz saltou da linha férrea e começou a andar por entre as traves de madeira e o cascalho. Encontrou um pé, o direito, parou, rodeou-o e prosseguiu. Um pouco mais adiante, um braço estava atravessado sobre a guia de ferro. Pulou-lhe por cima e avançou.
   A dois passos, viu o tronco. Sempre a fungar, o nariz avistou, um pouco mais à frente, a cabeça. Contornou-a e seguiu.
   Ali estava, completa, a perna direita. Reconheceu-a imediatamente e nem sequer parou. Não era aquela a perna que lhe interessava. Mas a outra devia estar perto.
   Estava, de facto.
   Cortada em duas, mas ainda unida, a perna esquerda jazia, encostada a um pequeno arbusto. O nariz correu, entrou na algibeira, tirou o lenço e assoou-se com certo estrondo.
   Voltou a meter o lenço no bolso das calças, deu uma breve corrida e foi colocar-se, o melhor que pôde, no seu lugar na cabeça.
   Agora, sim, sentia-se suficientemente limpo para poder integrar o cadáver. 

Orlando Neves, in A Condecoração, colecção fantástico n.º 7, Ediçoes Rolim, Novembro de 1984, p. 25.

segunda-feira, 16 de março de 2020

OS MEUS OLHOS QUE VÊEM E O MEU BRAÇO QUE SE MOVE

   Eu tenho olhos e vejo, cúmplice de Arnhem.
   Os meus pés servem para tocar o chão.
   O meu braço obedece docilmente às minhas ordens. É isto um motivo de surpresa? Nunca o apanhei em falta.
   Tudo me responde. E ninguém compreende que é a este absoluto e infalível controlo sobre mim mesma que eu chamo a minha prisão, a minha cadeia de ferro.
   Frente à janela, uma vez enxaguados os olhos e a fronte, encaro o mundo, reconheço pela enésima vez que nada daquilo que depende de um movimento voluntário da minha parte me está vedado, e que isso cobre quase tudo. E é isso que me desencoraja. Como é asfixiante, não depender senão de mim! Os pronomes na primeira pessoa sucedem-se como missangas de um colar, e cada um deles golpeia-me na nuca e faz-me suar entre os dedos.
   Quanto basta para paralisar um homem.
   Como se só a abdicação fosse moralmente viável, e contudo o pé esquerdo ainda cede ao impulso de se colocar à frente do pé direito.
   A esta época associarei mais tarde a muito nítida consciência do gesto e do olhar como entidades separadas, mas também aguerridamente solidárias.
   Os meus olhos que vêem e o meu braço que se move. Pode-se, afinal, fazer alguma coisa a partir disto?

Alexandre Andrade, in Cinco Contos Sobre Fracasso e Sucesso, Má Criação, 2005, pp. 32-33.

domingo, 15 de março de 2020

12. TRANSIGÊNCIA


   A soberana virtude de transigir incrementa o fugir de mui nobres ideais. Dos outros e, por malvadez da incógnita, também do próprio transigente.
   O Joãozinho, por exemplo, era um novelista prometedor.  Para atingir rapidamente a celebridade, o Joãozinho aprendeu a transigência sistemática. O Joãozinho era esperto e português.
   Um dia o editor disse-lhe: 
   — Joãozinho, serás um génio se respeitares os eclesiásticos.
   O Joãozinho escreveu páginas repletas de respeito pelos eclesiásticos.
   — Joãozinho, isto não chega! Serás um génio se respeitares os militares.
   O Joãozinho fez ombro-caneta e ritmou a prosa a roque de caixa.
   — Joãozinho, os tempos mudaram! Serás um génio se respeitares o eurocomunismo.
   O Joãozinho mergulho na bacia do Mediterrâneo e emergiu com algumas ânforas estilísticas atracadas ao membro.
   — Agora, Joãozinho, cala a tua concubina.
   A concubina do Joãozinho tinha a memória cheia de trapaças políticas.
   — Como posso eu calar uma mulher? — perguntou o Joãozinho, transpirando.
   — Joãozinho, promove-a a escritora. Enquanto ela escrever, não fala.
   Assim se fez. De tanto puxar pela cabeça, a concubina do Joãozinho perdeu a memória. O Joãozinho, contentíssimo, foi nomeado secretário de Estado do ferro velho.
   — Joãozinho — disse o Grande Chefe —, vais transigir mais uma vez. Isto é, cala-te!
   — Mas, Excelência, eu sou um escritor...
   — Eras! — rugiu a Excelência — Eu também fui um homem e agora sou apenas um porco. Todos temos de nos sacrificar pelo nosso povo.
   — Mas os comunistas, Excelência, podem falar. Os fascistas, Excelência, podem falar. A anarquia, Excelência, não pára de gritar. A ditadura, Excelência, não pára de ameaçar...
   — Por isso mesmo, Joãozinho, tu tens de estar calado. O teu silêncio garante a promoção intelectual da tua concubina, percebes? Ou te calas, ou ficas sem concubina!
   O Joãozinho sofria de paixão serôdia. Ela tinha vinte e cinco e o Joãozinho cinquenta, embora aparentasse sessenta e nove.
   — Ainda não percebeste, Joãozinho — disse afavelmente a Excelência —, que és um óptimo tubo de ensaio? Não, não é isso que pensas... Não te invejo o tubo; tenho mais grossos entre os meus correligionários.
   O Joãozinho deu em andar de maus fígados. Escritor recalcado, a palavra «tubo» rasgava-lhe a consciência artística. Mas cultivava, inabalável, a transigência.
   Quando se descobriu tubo sem necessidade de mais ensaios, começou a entreter-se com a digestão. Comia um bocado de carne congelada e sentenciava: «Está no primeiro domínio: o do esófago». Logo a seguir: «Já vai no estômago». Uma hora depois: «Está nas esferas salutares do intestino delgado». E quando ia à retrete: «Ei-lo chegado aos infernos do intestino grosso».
   Um dia, por decisão política da Excelência, paralisou-se-lhe a digestão. Teve de apanhar um clister.
   Mas, como à porta do ânus desfilava nesse instante uma grandiosa manifestação de apoio ao governo, o clister, para sair, procurou o outro lado do tubo em que se transformara a transigência do Joãozinho.
   Morreu de merda na boca, como Cambronne.


José Martins Garcia, in Receitas para Fritar a Humanidade, Companhia das Ilhas, Novembro de 2019, pp. 41-43.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

VERDADEIRO OU FALSO?


Há muito de verdadeiro nas Histórias Falsas, de Gonçalo M. Tavares, publicadas pela primeira vez em 2005, na Campo das Letras. São 9 contos que recuperam personagens históricas, mormente do universo da filosofia clássica, apropriando-se de mitos e lendas a elas associadas, misturando-as e baralhando-as sem grande preocupação com os factos em si. O princípio filosófico é o do exemplo, da analogia, da parábola. Imaginemos que… E daqui se parte para uma especulação que tem tanto de poético como de filosófico, tem tanto de ficção como de realidade, tem tanto de falso como de verdadeiro, subvertendo a lógica de que uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo. Logo na segunda, a que recebe Tales de Mileto como protagonista, ao lado de uma criada chamada Lianor. A certa altura damos com esta divagação:

(…) Dos filósofos e dos poetas sabe-se pouco; no entanto, uma certeza: não são como os outros; não mudam.
   Se Procrustes, o bandido de Ática, que depois de roubar os viajantes, os deitava numa cama de ferro, cortando-lhes os pés se estes fossem mais compridos que a cama, e esticando-os com cordas, no caso de serem mais pequenos; se, dizíamos, Procrustes, o bandido de Ática, aprisionasse um sábio ou um poeta, não teria dificuldade em transformar-lhes o corpo de acordo com as medidas da sua violência, mas o que jamais conseguiria era normalizar-lhes ideias, ou a vontade.

(…)

Gonçalo M. Tavares, in Histórias Falsas, Leya, 2.ª edição BIS, Setembro de 2011, pp. 22-23.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

LACRIMA


Jornalista de profissão, Augusto Baptista (n. 1946) estreou-se em livro com “Histórias de coisa nenhuma e outras pequenas significâncias” (Campo das Letras, 2000). Desde então, recolhas de pequenos contos tais como “O caçador de luas” (gatopardo, 2003) e, mais recentemente, este “lacrima” (gatopardo, Outubro de 2019) contribuíram para que se tornasse num nome relevante da micronarrativa em língua portuguesa. Uma atitude discreta e, de certo modo, distante, leva a que poucos tenham conhecimento da sua obra, vinda a lume em edições de circulação restrita que não se cingem à arte narrativa. A fotografia e o aforismo, assim como a arte do tangram, são componentes de um labor criativo onde a dimensão lúdica e uma arguta capacidade de observação do mundo circundante se misturam a um só tempo. No weblog azul-canário (http://azulcanario.blogspot.com/) são mais de dois milhares os aforismos, à laia das “greguerias” cultivadas por Ramón Gómez de La Serna. “lacrima” é uma recolha exemplar de um universo ficcional abrangente, ainda que consolidado num exercício de síntese cuja maior virtude é não precisar de muitas palavras para que muito seja dito:

DEFINIÇÃO

   Equívoco é pensar que um qualquer pateta, a escrevinhar numa mesa de café com vista para o mar, é um poeta.

Os enredos destas histórias dispensam rendilhados e floreados, ainda que não se furtem a um extremo cuidado no tratamento da língua. O rigor é, de resto, aquilo que se exige para que o remate funcione, surpreendendo amiúde o leitor com personagens ambíguas e inusitadas. É assim logo no conto A Visita, onde o que pressupomos ser animal redunda em entidade bem distinta. Por vezes políticos, noutras ocasiões apolíticos, estes microcontos compreendem formatos diversos, cabendo destacar um conjunto de “diálogos urbanos” que adivinhamos resultarem do olhar perscrutador do fotógrafo por detrás deles dissimulado. À crítica social, desde logo plasmada num conto intitulado Empreendedorismo, une-se o absurdo, entendido aqui não apenas enquanto recurso estilístico, mas mais como atitude filosófica, em gestos que desarmam a realidade, subvertem as situações, oferecendo à leitura retratos irónicos de uma certa hipocrisia e boçalidade sociais. O humor e a ironia são, pois, ferramentas ao serviço de uma capacidade de ficcionar o real que tanto o denunciam como ridicularizam. Por vezes, em tonalidades negras das quais se dá aqui um exemplo:

OLHO POR OLHO

   Primeiro atropelaram-lhe o pai. Ficou-se.
   Depois mataram-lhe a mãe no passeio. Ficou-se.
   Mais tarde, mulher à entrada de casa, um camião… Ficou-se.
   Quando lhe tolheram os filhos na passadeira, resolveu enfim comprar o caterpillar.
   E saiu para a estrada.

Outra dimensão que não podemos descurar em algumas destas histórias é a sua inclinação poética, quer seja através de recortes imagéticos intrínsecos ao relato, quer a partir de jogos fonéticos (e até caligráficos, como denuncia o "i" invertido de lacrima na capa do livro) herdeiros da tradição concretista. Há ainda ocasiões em que a poesia surge enquanto corpo autónomo, oferecendo ao texto uma ambiguidade de género que muito me agrada. São disso exemplo A Minha Laranjeira, Tecto Branco, Telefonema, O Fundo, Um Senão… À economia vocabular destas “estórias” corresponde um princípio de síntese traduzível na ideia de que um homem cabe numa lágrima como o universo num grão de areia, resultando o texto de uma tensão permanente entre objecto de observação e sujeito que observa. Mais do que provirem de um qualquer lugar fantástico, feérico, fantasioso, estas histórias, por mais absurdas que por vezes pareçam, conservam um elo ao real do qual são indissociáveis. Enquanto tal, são testemunho de um singular modo de ver e de olhar para o mundo, não deixando também de ser um modo de o reflectir:

AUTOESTRADA

   Está bem que ficou desempregado, uma mão à frente outra atrás, de repente a fome, as dívidas, o precipício (compreensivo, mete a 1.ª). Custará perder o carro, perder a casa, certamente (condescendente, mete a 2.ª). E deve doer, não custa admitir, deve doer pôr termo ao estudo dos filhos, encarar o suicídio da mulher, tão nova (condoído, mete a 3.ª). Custará experimentar o ruir dos projectos de uma vida, sentir a humilhação. Custará… Mas, que raio, desempregados há-os aos montes! (incomodado, mete a 4.ª). E o que mais faltava é que andassem todos aí a carpir, a chatear meio mundo com questões pessoais (irritado, mete a 5.ª, de Beethoven).

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

A MESA


   Devastador o silêncio da árvore estendida na terra, acabada de abater. A morte, por instantes, faz-se de secretíssimos cheiros: das folhas que perderam leveza e equilíbrio, dos ramos feridos na queda abrupta, do apertado coração de seiva. Ou será a alma? A alma da árvore liberta do corpo cativo. E logo uma luz imprevista abraça o lugar antes habitado. Luz, crua, sem sombra: incapaz, contudo, de amortalhar a devastação. Vi claridade assim, suave e limpa, em agosto. O homem para. Observa a grandeza da árvore, como se a medisse palmo a palmo, a inclinação do tronco, o peso da fronde: define o lugar certo que irá acolher a morte. De um só gesto, aciona a motosserra - nem um minuto a voracidade dentada carece (veloz a morte das árvores!).
   É um freixo, desconheço-lhe a idade: na margem do rio todas as árvores crescem para além do tempo. Já a luz habita o lugar devoluto, o homem separa os ramos do tronco como se aparasse a devastação do silêncio. Cortei o freixo para tocar a metáfora com as mãos, sentir-lhe o odor? O homem divide o tronco em três partes. Ressequida a memória da seiva, hei-de levar a árvore à serração. Achará o silêncio forma de mesa: construída por mim, na sombra do alpendre, rente ao cheiro intenso das figueiras bravas. Prendo a tábua no banco de carpinteiro, procuro-lhe o correr, limpo-a, limpo-o devagar. O mesmo farei às pernas da mesa e às travessas: o movimento da plaina sempre no mesmo sentido, no mesmo correr, até ao limite dos braços, depois o corpo se cabisbaixa e a lâmina desliza mais além. Ofício de aplainar é como a arte de enxertia: cada golpe será único, exacto, sem recuo. Madeira alinhada e limpa. É tempo de adir as tábuas. Eis o freixo em forma de mesa, metáfora utilitária, onde vou pôr romãs, livros, tangerinas, açucenas, peixes do rio.
   Na brancura da toalha a mancha de vinho. Quando eu desaparecer, outros darão uso à mesa, tosca, de nobre e rijo freixo. Talvez me engane. O seu destino será o silêncio do alpendre, tampo cheio de coisas inúteis. Ou virá o fogo.


Francisco Duarte Mangas, in Pavese no Café Ceuta, Teodolito, Março de 2019, pp. 183-184.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

AS COISAS SIMPLES


   Arriba o Maio. O homem sega a erva da semente, gadanha afiada na véspera. Agora as forquilhas esvoaçam o estrume sobre o campo. Outros homens e mulheres, rito fraterno, ajudam à vessada. Nasce o sol e o incitamento às vacas, farpeadas pelas moscas que o suor seduz. Suave aroma emerge da terra. O homem, mãos nas rabiças do arado, sente o fascínio remoto de dominar a natureza - domínio aqui é acto de ternura. A terra revolvida em silêncio, o círculo de gente em redor do açafate e da cabaça de vinho. Bebem e comem a fadiga. Riem as mulheres, descuidam as pernas. Cantam. A alegria é coisa simples: como a aiveca do arado, o erotismo do vinho. O povo, diz o homem do saco de cabedal, é triste. Mesmo quando canta.

Francisco Duarte Mangas, in O Homem do Saco de Cabedal, Campo das Letras, Maio de 2000, p. 49.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

HABEAS CORPUS



   Suponho que um dos maiores desafios colocados a quem escreva um conto seja o de conseguir sintetizar a vida inteira num mínimo de palavras, partindo para tal de uma situação que convide o leitor a embarcar numa viagem sem fim. Os melhores remates deixam tudo em aberto, a "punchline" e o “wit” são meros adereços num cenário sem muros nem fronteiras. Nisto o conto distingue-se do fragmento e do aforismo, frase onde o pensamento se manifesta sem recurso à acção e à personagem. E afasta-se da poesia, quando se afasta, pelo uso de uma linguagem que encerra discursos, gestos, acções, tendencialmente circunscritos a uma situação específica. 
   Se tomarmos de exemplo o conto que oferece título à mais recente colectânea de Carlos Querido (n. 1956), a segunda depois de Insanus (Abysmo, Julho de 2017), perceberemos melhor esta especificidade do conto. A situação é um funeral, as personagens são os amigos do defunto, a acção é o conflito entre os amigos e a família do defunto. Há um motivo para esse conflito. A família pretende um funeral católico convencional, desrespeitando a última vontade do morto. Os amigos empenham-se no cumprimento dessa vontade, a qual incluía cremação, a leitura de um poema de Ruy Belo e subsequente libertação das cinzas ao largo do Cabo Carvoeiro. A solução decorrente do conflito não chega sequer a ser o aspecto mais relevante. Múltiplas seriam as opções. 
   O que se me afigura bem mais relevante é o modo como o tema da morte aparece tratado neste Habeas Corpus (Abysmo, Maio de 2019), tanto neste como nos outros contos do livro. A linguagem jurídica que a expressão latina define não determina o âmbito de acção nestes contos, os quais extravasam amiúde as leis da lógica e da normalidade para confrontarem o leitor com configurações alternativas do real. Se a procura do “sentido da vida” (vide conto “O Confronto”) se processa a partir da constatação da finitude, não deixa de ser verdade que essa mesma busca leva as personagens a olharem mais para o interior de si mesmas do que para fora. 
   A certa altura, no conto “O Regresso a Casa”, deparamos com um final denunciador da filosofia subjacente ao conjunto: «Um dia, cansado de aventuras, suspendeu o olhar em redor e voltou-se para si. Tão insondáveis como o universo, só os enigmas da alma» (p. 31). Ao cansaço colhido da vida corresponde o movimento introspectivo que leva à doença, podendo esta ser entendida não apenas no sentido literal do termo mas enquanto experiência da anormalidade, do desequilíbrio, do defeito, experiência do enigmático e do misterioso. A uma percepção objectiva dos factos (vide conto “O Vidro Embaciado) preferem-se visões alternativas, subjectivas, marcadas pela doença, consultas psiquiátricas, sinais de estranheza, momentos de paralisia, confissões de traumas, angústias, medos, obsessões. E assim como sonham imenso, algumas destas personagens são também perseguidas por insónias causadores de delírios e de alucinações. 
   Carlos Querido oferece voz aos mortos para que os vivos possam falar, é a voz dos mortos que faz ressoar os mistérios recalcados na intimidade dos vivos. Não estranhemos, pois, a dupla vida da personagem no conto com o título “Duplicação”, ou aquela que se sonha árvore, ou a outra que vê saltar do espelho a sua dupla personalidade como quem se sente perseguido pela própria sombra. Os retratos dos antepassados ganham vida e peso, condicionam quem estando vivo adquire a consciência de que está à morte. No conto “O Vírus” alguém diz: «Sinto-me pertencer a um mundo paralelo, mágico, de luzes e combinações infinitas» (p. 71). É um simples técnico de informática quem fala, o que nos leva a pensar que no imo da confissão desse sentimento de pertença paira implícita uma forma de desconexão com o mundo real. Ele não se sente pertença do mundo dito normal, o mundo dos factos objectivos, o mundo das regras, das normas, das leis. O seu “habeas corpus” é a pertença a um mundo alternativo à dimensão sem dúvida nem mistério da existência, é isso que o liberta. Condenado a viver, projecta-se para fora da vida como um artista se projecta na sua criação. Libertando-se. 
   Deste modo, o que estes contos têm para nos comunicar pode também resumir-se usurpando uma frase do conto “Grafitos”: «Tinham morrido há muito, sem se aperceberem» (p. 101). E para tanto bastou arrastarem-se na vida sem a viverem. Não há melancolia nesta morte, há desespero de viver.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

MANUAL PARA INCENDIÁRIOS


A mão ao assinar este papel arrasou uma cidade.
Dylan Thomas


   Como pós-modernos, devemos recusar as narrativas clássicas.
   A saber: a suspeitíssima versão, ou versões, em torno do incêndio de Roma, atribuídas a Nero, a descrição do incêndio de Londres e as soluções de Jonathan Swift sobre a fome, com criancinhas para confeccionar em estilo english pie, Bagdade invadida pelos mongóis ou pelos americanos.
   Esmirna, destruída pelos turcos, não é solução a seguir. Ficou-lhe uma aura trágico-romântica que não convém, coisas com diásporas e sepharads dentro, canções a não escutar. Deve, por igual, recusar-se a versão de Tolstoi, nesse calhamaço que dá pelo nome de Guerra e Paz, até porque está demasiadamente bem escrita e o homem é suspeito de laivos nacionalistas. Além do mais, perpassa um tom épico, aquela voz grande apelando à grande mãe russa, e incêndios assim pecam pelas motivações políticas, sempre suspeitosas e obscuras, que não vêm ao caso. Um dos erros clássicos que este manual dá sempre como exemplo é o da Biblioteca de Alexandria. Embora não se saiba ao certo quem foi o culpado nem quantas foram as tentativas, a verdade é que o incêndio vem perdurando na memória, subiu à condição de mito, e isso é o que um bom incendiário deve sempre evitar. A por causa ou coisa é mesmo essa, a memória.
   A premissa básica deve ser a pura imanência do acontecimento, uma contemplação celebratória da physis grega e da jubilação de um dos seus quatro elementos, o fogo. Provocar a sua ocorrência deve ser considerado um acto de arrogância e uma clara interferência na sacralidade das forças da natureza.
   Deve andar-se e usufruir do que existe — seja património edificado ou um simples novelo de tsintsiva — com a mais sublime das indiferenças, usando-se, enquanto duram, esses avatares ou artefactos ou frutos, sem lhes conceder a mais leve das atenções. Qualquer outra atitude configura infracção ou crime do foro intelectual. Quem for apanhado com lentes especiais a fazer convergir os raios solares para qualquer superfície, inócua que seja, deve ser imediatamente levado a uma consulta psiquiátrica e ver toda a sua infância esquadrinhada: se é filho de pai bombeiro, coleccionador de caixas de fósforos, fumador compulsivo e que tipo de isqueiro usa, ex-revolucionário — manifestamente deslocado no tempo — guardando ainda na estante colecções encadernadas do saudoso Iskra. Porque isso será prova de que quer interferir, provocar, experimentar. E o fogo é irredutível a qualquer experimentação.
   Outra regra de ouro que qualquer incendiário deve seguir é a total rejeição das utilizações metafóricas tão do uso dos sonetos. Ele não poderá nunca entender decassílabos como o daquele zarolho colonialista que dava pelo nome de Camões e que escreveu enormidades como essa de que «amor é um fogo que arde sem se ver». Quem age assim é um usurpador de sentidos. E urge bramar contra ele.
   Não obstante a traição desta língua coxa, que faz do incendiário um agente activo, actor e/ou actante do acto de incendiar, diz o manual que o autêntico mestre é aquele que paira numa espécie de nirvana, uma absoluta indiferença a tudo.
   Espero não estar a cometer nenhuma infracção ao revelar, em resumo forçosamente tosco, as autênticas pepitas de ouro que o manual encerra. Não vou dizer onde descobri o in-quarto forrado a carneira, com um dos cantos levemente chamuscado, a patine do tempo dando-lhe aquele aspecto grave das obras que realmente fundam uma cultura e modelam uma civilização. Face aos últimos acontecimentos, sugiro a sua leitura atenta. Não vá dar-se o caso de quererem agir e de assim se tornarem incendiários incompetentes.
   A mais extrema sabedoria é sempre a mais simples. E agir cansa. Maputo é um bom exemplo dessa sagesse. Do Prédio Pott às instalações do antigo Instituto Nacional de Cinema, do Bazar ao que vier a seguir, a cidade dá cartas. Quando age estraga: transforma a SUT numa bomba de gasolina, o almoxarifado num híper, a mesquita velha numa fachada incaracterística. 
   E o verso do poeta bêbado e galês, que não é exemplo para ninguém, posto em epígrafe, está errado.
   O fogo é o fogo, tal como o ar é o ar, a terra é a terra e a água é a água. É assim. Os antigos de todas as culturas sabiam-no.
   Ardeu?
   Sim, ardeu. E qualquer menino de escola sabe a resposta.
   Foi o fogo.
   Qualquer metafísica, interpretação pragmática, lamúria oportuna, estará sempre a mais.
   Os incendiários imóveis sabem-no.
   Adoremos o fogo.

Luís Carlos Patraquim, in Manual Para Incendiários e Outras Crónicas, Antígona, Outubro de 2012, pp. 135-138.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

BLUFF



   Desconheço a origem da palavra bluff, que segundo o Wiktionary talvez esteja no termo bluffen (fanfarronice, alarde), mas pelo que obriga a necessidade aprendi a detectá-lo no olhar dos parceiros de cartadas. Para o poker, por exemplo, o bluff está como a simulação na jogada de futebol, é pura ironia, dar a entender algo e fazer o seu contrário. Várias circunstâncias da vida obrigam-nos a estar atentos ao bluff, quando não a tirarmos proveito dele. A carga ética negativa que poderia ter, assemelhando-se à hipocrisia, transforma-se numa espécie de ferramenta, escudo de defesa no mundo cínico das “notícias falsas”, de todo o tipo de abusos e de manipulações, seguidas de proverbiais perdas de memória quando toca ao esclarecimento da verdade. Daí que o bluff não se oponha à verdade, muitas vezes é o estribo onde a investigação se apoia. O “cogito, ergo sum” cartesiano, por exemplo, é bluff em defesa da racionalidade, matéria que nos levaria a uma discussão infindável se a tal estivéssemos dispostos.
   António Ferra (n. 1947), autor de obra multidisciplinar iniciada na década de 1970, optou por dar o título de Bluff (Douda Correira, Março de 2019) a um dos seus mais recentes livros. Em literatura o bluff pode também confundir-se com o fingimento pessoano, porventura assumido nestas narrativas breves a partir da epígrafe tomada de empréstimo ao modernista Almada Negreiros. Tal como acontecia em Marias Pardas (& etc, Março de 2011), outro livro do autor onde o poético e o narrativo se misturam, neste o carácter lúdico da linguagem é logo detectável nos inúmeros jogos fonéticos, trocadilhos, paranomásias. O primeiro texto intitula-se “Entrudo são”, o último chama-se “Equílogo” (por causa de um cavalo que entra pelo meio). A verdade é que a essência destes textos está em serem o nada com que se parecem, divertimentos carregados de ironia onde o mundo actual surge pintado em figuras tipo da nossa sociedade tais como «os youngmen de fato preto» ou «os funcionários do bluff», contando-se entrementes a história de uma mulher, de seu nome Graziela, e seu marido, Jacinto.
   Ao contrário do que sucede nas fábulas, aqui as personagens são humanos com comportamentos animais. Mas de modo semelhante à fábula também estas narrativas apresentam no final uma espécie de moral, espécie porque o que enunciam entre parêntesis são falas, vozes, diálogos, cuja principal característica é a sua absurda veracidade. Exemplo:

De toda a água me rio

Graziela precisava de uma certidão de emagrecimento, documento imprescindível para voar low cost. A senhora do balcão de atendimento sugeriu-lhe que fizesse tudo online, e que comesse apenas legumes, uma só peça de fruta, duas bolachas integrais e, sobretudo, que bebesse muita água, toda a água de um rio para perder o peso dos dias e das noites e para expelir na urina os abusos que sofria.
E que voltasse ao fim de cinco dias inúteis.

[ Já não faço nada online, é tudo bluff, desde que nasceu a minha filha deixei-me disso, nem mesmo sexo virtual, tenho medo de engravidar outra vez.]

   O aspecto cómico destes textos está na capacidade que revelam de caricaturar os hábitos (preferencialmente os maus) e os costumes da vida moderna, dita cheia de pressas para um fim seguramente universal e claramente passageiro. Ao lê-los lembramo-nos das contradições que nos contornam a negro dias e noites, pensamos na pertinência de uma antimoral que nos desobrigue de afazeres esgotantes e esgotados de humanidade. Pelo caminho da ridicularização, estes textos denunciam a bizarria do “modo funcionário de viver”, retirando a gravata à prosa e brincando alegre e livremente com as palavras. Aceitam até certa ingenuidade nos comportamentos das personagens, preferindo observá-las a censurá-las. Não há mal algum em chamar-lhes poesia, dessa que tantas vezes se confunde com a pequena narrativa reclamado para si mesma o direito a não ser só uma coisa nem outra, ser livre, sem rótulo nem arrumação.

[—Tens as mãos transpiradas. Passa-se alguma coisa?
— Não, não, é só esta desumanidade que se entranha no corpo]

quarta-feira, 24 de abril de 2019

ÚLTIMAS REGRAS


   Só quem ande distraído poderá surpreender-se com a incursão de Inês Lourenço (n. 1942) no terreno da prosa. Encontramos três textos de sua autoria na Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa (Exodus, Fevereiro de 2008), dois dos quais reaparecem, com pequenas alterações, nestas Últimas Regras (Companhia das Ilhas, Abril de 2019). Um deles chegou a oferecer título à colectânea Ephemeras (Companhia das Ilhas, 2012), na qual alguns dos textos agora reeditados tinham sido anteriormente publicados. Tratando-se de uma relevante poeta portuguesa, Inês Lourenço não larga mão da poesia nos seus textos em prosa. Alguns aproximam-se daquele género que Charles Baudelaire classificou de “petits poemes en prose”, sendo isso evidente, por exemplo, nos textos intitulados A seda da sombra e Lúbricos. A diferença destes para outros reside no desvio da narratividade para uma acção em que a interacção entre personagens dilui-se na sublimação de gestos «deslizar os dedos na pelagem morna de um bicho amável» (p. 25) ou na caracterização de determinados objectos «o erotismo telúrico dos frutos» (p. 26) , abrindo possibilidades de interpretação com uma linguagem mais exposta ao registo metafórico.
   Há também textos atravessados por uma coluna vertebral aforística, reflexões curtas e acutilantes sobre temas diversos: da relevância das ditas ciências humanas (num mundo cativo das ciências ditas exactas) à morte, passando pelo amor, pela doença, a velhice, o suicídio, o erotismo. Mas o mais interessante talvez seja sublinhar como nestas histórias se retrata a passagem do tempo, recorrendo a memórias domésticas ou ironizando costumes sociais, lembrando os jogos da infância, desmontando com humor, ironia e iconoclastia quanto baste, os hábitos de uma sociedade arreigada a tradições caídas em desuso. Por vezes, o cinema estimula o jogo de comparações, oferece o cenário, noutras ocasiões é a música ou a literatura quem sustenta o palco onde se desconstroem mitologias. Estes diálogos com as outras artes não esgotam, porém, o verdadeiro interesse destas narrativas, já que deles logo saltamos para vidas e situações concretas.
   Temos a bibliófila Serafina, o bombeiro Orfeu, misturados com a rapariga ardina, a adepta do F.C.P. ou alguém que inspira uma curiosíssima Biografia Apócrifa: «Disse que estava farta de fazer de senhora bem comportada e sentia o desejo obsessivo de que o seu interior verdadeiro tivesse uma descrição, não numa dessas coisas que saem como brochuras grátis nos semanários e a que chamam biografias edificantes, mas que parece não passavam de histórias muito exemplares e falsas como o pechisbeque» (pp. 23-24). Nota-se uma especial predilecção por personagens femininas, o que permite a Inês Lourenço questionar o lugar da mulher na sociedade e nos diferentes contextos sociais. De resto, o próprio título do livro remete para uma condição especificamente feminina. No conto com o título Primeiras Regras glosa-se a primeira menstruação, enquanto nas Últimas Regras o tema é a última menstruação. Entre um e outro, o próprio corpo «Corpo humano, corpo divino» (p. 53) é quadro onde a passagem do tempo se evidencia a partir de uma experiência transformante.  
   É nesta relação com o corpo que melhor se coloca o problema da passagem do tempo: «Por que seria seu aquele corpo em que os anos já se amontoavam?» (p. 30). A questão surge no texto intitulado Simetrias. Num outro, com o título Auge, o problema aparece desta forma: «Lembrava-se do corpo da juventude só necessitando de água, sol e ar» (p. 53). Mas também temos as cartas de amor substituídas pelas sms, temos os álbuns de fotografias substituídos por arquivos digitais. Uma leitura precipitada tenderá a falar de nostalgia, mas talvez seja mais correcto apontar uma crítica do senso comum: «O senso comum glorifica a juventude, a voracidade relampejante, o inteiro ardor. Ignoram que é próximo do fim da caminhada, num lugar até aí inexpugnável, que estão as respostas aos enigmas» (p. 54). O enigma da existência, plasmado na consumação do tempo, é o que melhor convém às Últimas Regras. Estas histórias abrem-nos caminho para o pensamento, alertam-nos para o que se oculta por detrás da voragem insensível de um mundo acelerado por obrigações, deveres, ambições. A brevidade dos retratos apenas acentua a urgência do diagnóstico, tornando claro, por vezes com requintado humor e uma ironia astuta, outras vezes com impetuoso sentido crítico, que a vida é sempre mais o quanto se vai perdendo do que aquilo que se conquista.

sábado, 6 de abril de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #14


Chegados aos 40, é inevitável que se instaure em nós o desespero da rotina. Pensamos naqueles cujas existências foram curtas, mas aparentemente intensas e repletas das peripécias que julgamos serem o suco da vida: viagens, paixões, aventura, risco, limite. A solidão que cresce dentro de um corpo arreado pela consciência do dever, a insatisfação daí advinda, a ideia de que tudo poderia haver sido diferente mediante opções menos conformadas, frustrantes, logra em pequenos instantes de surpresa o consolo que garante valer a pena o esforço. Um amigo que nos chega com aquele filme que toda a vida procurámos e não encontrámos, uma paixão inesperada que nos assoma pela janela, um dia levado de jorro com fúrias e rompantes, aquela precipitação para o abismo que os prazeres do corpo oferecem à mente, sol onde se aguardava negrume, chuva onde se esperava sol, são lâminas que rompem o hábito confortando-nos no confronto com o desespero.
   A caminho dos 45, confesso-vos, já pouco me surpreende. Dormi na rua e em hotéis de cinco estrelas, concluindo que independentemente do lugar nada tem mais valor do que o sono pesado que nem miséria nem luxo garantem. O sono pesado vem de andarmos bem connosco e com o mundo, parecendo-me hoje que o desequilíbrio entre ambos seja a razão última das insónias. Em não podendo estar de bem com o mundo, com as injustiças, iniquidades e desigualdades universais, como poderá um homem andar de bem consigo mesmo? Só em lhe faltando a tal consciência do dever, falta que tanto pode redundar numa libertinagem eternamente insatisfeita como numa indolência impossível de suportar. Mas as surpresas acontecem, e por vezes pouco mais basta do que um livro que nos chegue inesperadamente às mãos.
   Mulheres nascidas de um nome (LX Vinte Oito, Fevereiro de 2019) interrompe a rotina, abre a porta a um universo de personagens onde se manifestam todas as contradições possíveis de imaginar dentro de um ser humano. A ilustradora Beatriz Bagulho (n. 1997) já nos é conhecida de outras andanças. Deveis lembrar-vos dos seus desenhos para esse Simão sem medo Os Jardins das Cerejeiras (Douda Correria, Outubro de 2018) com que há coisa de meses presenteei a Beatriz. O talento é o mesmo, ainda que os motivos surjam diversos:



   Quanto a Claudio Hochman (n. 1958), argentino de Buenos Aires, chega-nos originalmente pela mão destas mulheres. Podeis aqui verificar que um livro não é apenas um conjunto de folhas dobradas manchadas de tinta, com riscos a que atribuímos sons e sons dos quais retiramos significados. Um livro não é apenas e tão-somente um aglomerado de palavras. É um objecto onde a beleza se acomoda ou se ausenta. Neste caso, podeis encontrá-la nas avenidas do texto, nas esquinas do recorte gráfico, nas praças da ilustração. À pergunta “o que se esconde por detrás de um nome?”, Hochman responde com verbos, inventários de acções, que vão do mínimo a uma ideia de máximo. Se «Sofia é o Sol» e basta, Maria, a última das personagens convocadas, é muito mais do que essa luz que ilumina quem a vislumbra. Porque «Maria é uma vaca, como Renata» (p. 235) e «Às vezes Maria pensa que gostaria de reencarnar num pássaro, como Camila e como Martina» (p. 238). Não há preocupações de coerência nem de concordância na descrição destas mulheres, a qual se desenvolve anaforicamente em textos que tanto podem ser contos como poemas, com frases quebradas onde a narrativa não se perde nem se esgota, automatismos e associações livres que transformam cada nome numa hipótese de mulher, cada mulher numa hipótese de universo. E o universo é uma multiplicidade de hipóteses.
   Por vezes os nomes sugerem os verbos: «Sílvia silva uma canção de Jacques Brel enquanto prepara uma mousse de chocolate» (p. 10), «Sandra sangra-se» (p. 18), «Rita ri-se» (p. 28). Noutras ocasiões, a poesia intromete-se imageticamente com divertidas conexões: «Quando Lua tinha três meses teve varicela, coçou as borbulhas e por isso ficou com marcas na cara» (p. 23). Há nomes que remetem para gente de facto, mas onde os factos surgem minados pela força lúdica da imaginação: «Frida esconde-se para ver Diego que está a pintar um mural, não sabe o que a atrai mais, se esse homem gordo, se o que ele está a pintar ou se a vertigem de ser descoberta» (p. 12). Isabel pode ser Isabel a Católica, mas tanto quanto Benedita, a minha preferida, é irredutivelmente ateia. E «Helena tem um cavalo em Tróia» (p. 34). Não ides encontrar no livro, minhas filhas, nenhuma Matilde ou Beatriz, mas se o lerdes podeis perceber que nem todos os nomes vivem sós: «Elsa tem três filhas como Violeta» (p. 142), «Violeta disfarça-se de Mickey, como Ramona, e passa o dia na praça para que as pessoas tirem fotografias com ela» (p. 117), Camila tem a mesma professora de Benedita, conhece Violeta e apaixona-se por Rosa… Entrai no mundo destes nomes e descobri-lhes os elos, as ligações, traçai com eles o mapa da imaginação que nos anima a existência. Concreto, experimental, divertido, inteligente, belo, deste livro que vos deixo bebei o gozo das múltiplas possibilidades: «Aurora escreve com sangue na parede do seu quarto uma frase que diz: / O melhor já passou» (p. 51).

sexta-feira, 8 de março de 2019

GUERRACIVILÂNDIA EM MAU DECLÍNIO


Imaginemos um mundo em que tudo fosse mensurável, em que cada gesto tivesse a sua ordem de medida determinada por um objectivo estipulado, em que a própria respiração fosse avaliada de acordo com taxas de concretização, em que os recursos valessem segundo metas de sucesso burocratizadas nos ficheiros informáticos de gestores obcecados com lucros dos quais eles próprios não retirassem proveito, pois nesse mundo tudo seria de tal modo hierarquizado que nem certos cargos de chefia valeriam mais do que o reconhecimento vazio de mãos invisíveis, financeiras, movidas por uma desumanizada ganância. Num mundo assim, que não será difícil de imaginar, teríamos camadas sobre camadas de cargos intermédios governados por gente subordinada, servente e servil, gente burrocratizada, como  diria o poeta, carregando aos ombros o peso da frustração e no estômago a azia da mediocridade, um mundo de humilhados e ofendidos, como denunciou Dostoiévski, mas agora eles próprios humilhadores e ofensivos, infligindo em quem está por baixo o que lhes seria infligido por quem está por cima. Paremos de imaginar, um mundo assim não é muito diferente do mundo em que vivemos. Nada há nesse mundo que possa ser produto de uma imaginação fértil, nele tudo resulta de uma observação arguta e crítica do mundo em que vivemos, isto é, sobrevivemos. Esse mundo surge nitidamente retratado nos contos do norte-americano George Saunders (n. 1958), reunidos na obra de estreia recentemente vinda a lume em Portugal com o título GuerraCiviLândia Em Mau Declínio (Antígona, Janeiro de 2019). São seis contos e uma novela marcados pelas consequências do capitalismo (selvagem) numa mente com necessidade de se vingar, fazendo-o a partir de uma abordagem dos states que pondera uma sociedade dividida entre Normais e Defeituosos, isto é, gente produtiva e consumista e gente fracassada segundo os parâmetros impostos pelas sociedades consumistas. A ideia de "parque temático" que surge amiúde enquanto cenário de divisões e conflitos mais ou menos hostis dá conta, com impecável sentido de humor, do modo como as relações laborais e o mercado de trabalho neste mundo surgem delimitados por forças desproporcionais que não só potenciam a servidão e a exploração como a promovem. Saunders é exímio na criação de situações alegóricas, embora por vezes aparentemente caricatas, sobre o declínio e o fracasso num universo regido por ideais tontos de sucesso. O conto intitulado O Director Executivo de Cento e Oitenta Quilos é das melhores peças que li nos últimos tempos sobre a legitimação da ofensa e daquilo a que hoje se chama bullying ou assédio moral, práticas tão correntes que chegam a passar despercebidas enquanto máquinas de castração activadoras do conformismo e do abismo existencial: «Eu não sou má pessoa. Se ao menos conseguisse deixar de ter esperanças. Se ao menos conseguisse dizer ao meu coração: Desiste» (p. 59). Numa nota final o autor refere-se aos seus contos como sendo «maldosos, a espaços», cruéis, «ocasionalmente desagradáveis», e talvez tudo isso seja verdade, não pelos contos em si, que vêm sempre acompanhados de um sarcasmo visceroso e de um sentido de humor cativante, mas pelo realismo que denotam em situações aparentemente nonsense e surreais: «Depois avistas uma luz através das árvores. Numa colina vês um sinal de néon e um castelo iluminado. / TERRA DA ABUNDÂNCIA, diz o sinal, ONDE O MÉRITO É REI TAL COMO VOCÊ!» (p. 147) Esta luz existe, estas árvores são de um naturalismo inquestionável, este sinal é vulgar, tudo nesta descrição é de uma plausibilidade atroz quando nos confrontamos com um mérito que se avalia em função da capacidade que cada um adquire para ser indiferente ao outro, para lhe foder a vida de modo a ficar por cima. E a abundância traduz-se numa avidez insaciável, numa histeria materialista, consumista, geradora de cidadãos transformados em meras máquinas de consumo, gente que não diz o que pensa nem o que sente, talvez até porque desaprenda de pensar e de sentir, mas simplesmente o que convém. É nesta Terra que o gesto supostamente mais humano se converte num desastroso e inconveniente equívoco, como no final do magnífico A Fracassada Campanha Terrorista de Mary, A Oprimida. Atribuísse estrelinhas este que vos escreve, seriam cinco garantidas. Incluindo a tradução de Rogério Casanova.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

ANTÓNIO


   António é discriminado na escola: é o único que não tem os pais divorciados. No recreio todos os amigos gozam com ele. Atiram-lhe frases cruéis à cara: «O António tem os pais juntos! O António tem os pais juntos! O António tem os pais juntos!».
   António sente-se envergonhado. Vai chorar para um canto com a humilhação.
   Na semana passada, António foi chamado a um gabinete: o Gabinete de Apoio a Filhos que Têm os Pais Juntos. Dois técnicos aconselharam-no a arranjar estratagema certo para acabar com o sofrimento:   criar conflitos em casa entre as entidades paternas. Todos os dias, António trabalha para isso - inventando e-mails de amantes, por exemplo. Este ano, acha ele, vai ser finalmente uma criança aceite pela sociedade.

Nuno Costa Santos, in A Mais Absurda das Religiões, Escritório, Outubro de 2017, pp. 189-190.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Impecavelmente iludidos

   Estranho quem nega a dor. Quem nega a dúvida. Quem nega a hesitação e o desconforto. Quem está sempre bem, que não tem depressões e isso. Os que não gostam de filmes tristes porque não são assim como os filmes. Os que recusam discursos sobre a tristeza porque a tristeza é dos «outros», não deles. Estranho os que estão sempre «impecáveis».

Nuno Costa Santos, in Vou Emigrar para o Meu País, Escritório, 2014, p. 133.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

DIA DE CHUVA

   Bolas, este centro fica cheio, quando chove. Estou farto de estar na rua, sabes? A minha patroa e eu fomos para as arquibancadas... é simpático — muito sossegado e montes de espaço. Depois, começou a chover e ela pôs-se a chorar. Eu só lhe perguntava: O que se passa, 'mor? O que se passa? Sabes o que é que ela acabou por me dizer? «As beatas estão a ficar todas molhadas.» Merda, então bati-lhe. Ela ficou louca, os bófias levaram-na para a cadeia e a mim para aqui. Eu aguento uma ressaca. O problema é que, quando fico sóbrio, começo a pensar. Os alcoólicos pensam mais do que a maior parte das pessoas, essa é que é a verdade. Eu bebo só para calar as palavras. Merda, e se eu era mesmo baterista? Na última vez que aqui estive, havia uma Psychology Today que falava sobre bêbados sem-abrigo. Provava que os bêbados pensavam mais. Dizia que tinham melhores pontuações nos testes do que as pessoas normais e eram melhores em retenção. Havia só uma coisa em que tinham uma má pontuação, não valiam mesmo nada, mas não me lembro do que era.

Lucia Berlin, in Anoitecer no paraíso, — Mais histórias, trad. Ester Cortegano, Alfaguara, Novembro de 2018, p. 233.

sábado, 10 de novembro de 2018

AS PALAVRAS ANDANTES


Vale a pena conhecer José Francisco Borges, um dos mais reconhecidos praticantes da literatura de cordel no Brasil. Literatura de cordel ou folhetos, como por cá diríamos, através dos quais se fixou a tradição oral. De cordel por serem os folhetos em exposição pendurados por cordéis. J. Borges, como é conhecido entre o meio artístico, ganhou também fama como xilogravurista, isto é, autor de gravuras em madeira. Na década de 1970, o escritor uruguaio Eduardo Galeano (n. 1940 – m. 2015) desafiou-o a “ilustrar” as histórias recolhidas no volume que veio a ser publicado com o título As Palavras Andantes (Antígona, Junho de 2018). As gravuras de J. Borges reproduzem monstros, dragões, serpentes, figuras mitológicas, ancestrais, parecem vindas de um tempo ancestral, pré-histórico, misterioso, casando lindamente com estas histórias de Galeano. As Palavras Andantes é um livro diferente dos outros de Galeano que a Antígona publicou até agora, quer pela profusão de imagens, quer pela componente imagética das próprias histórias. Estas têm praticamente todas um cunho alegórico que nos transporta para tempos imemoriais, são pequenas cosmologias provindas de um universo sul-americano onde os deuses da terra se confundem com os do céu. Metamorfoses do Belzebu, mitos indígenas, personagens folclóricas, misturam-se em contextos quase sempre fantasiosos, reforçando a ideia de que «Pouca graça tem escrever o que se vive» (p. 25). Neste caso, o que se vive surge nos ínterins como que pautando um possível balanceamento entre «o daquém e de dalém» (p. 31) dos contos. Galeano recorre a lendas antigas, a delírios, sonhos, faz descer à terra as transmutações do mundo celeste, ressuscita os mortos e enterra os vivos com a mesma naturalidade de um milagreiro, sem nunca fechar as janelas desta moradia incomum à realidade envolvente.  Casos de almas trocadas, bruxarias, gravidezes improváveis, fenómenos xamânicos, manifestações de espectros, mitos criacionistas, fábulas e feerias, fantasmagorias, exílios e desterros ultraterrestres, maldições, superstições, dão corpo a uma mitologia galeana enraizada na História das Américas que nunca perde de vista o aforismo e a poesia das palavras:

JANELA SOBRE O CORPO

A Igreja diz: O corpo é uma culpa.
A ciência diz: O corpo é uma máquina.
A publicidade diz: O corpo é um negócio.
O corpo diz: Eu sou uma festa.

Alguns dos contos mais longos podem parecer meros divertimentos, como a História do Homem Que Queria Parir ou a História do Sobredotado, Suas Façanhas e Seu Assombroso Destino, mas delas sempre guardamos uma imagem forte sobre os destinos do mundo e da humanidade. Como não raras vezes sucede na literatura que se encarregou de fixar as tradições orais dos povos indígenas, os desenlaces raramente são óbvios, apelam ao espanto e à reflexão, sugerem caminhos para um pensamento destemido, capaz de percorrer o irracional sem se sentir obrigado a proverbializá-lo, antes paradoxializando a relação da linguagem com a realidade. Do indigente que se mascarou de Diabo para ter sucesso na vida, o desenlace é mais moralista:

   Felicindo tentou tirar a máscara com as unhas, experimentou com água e com aguardente, com detergente e com esfregão de arame.
   E até hoje continua a querer arrancar essa cara que o espelho lhe devolve diariamente.
   Ele consola-se sabendo que esse é o problema de quase toda a gente.

Não é mal que não seja comum, de facto. Mas esta é uma das raras ocasiões em que o remate se fecha sobre si mesmo. Na maioria das vezes, os textos são como as gravuras de J. Borges. Deixam-nos no limbo, a pensar se haverá algo de real naquelas figuras monstruosas, e se não será típico da realidade a monstruosidade que melhor a transfigura. A morte que vive é, afinal, o esqueleto que cada um de nós transporta pela vida, o mal, o medo, circulam no sangue como reflexos num charco, «poderes e mistérios» (p. 219) são próprios tanto das personagens como dos homens, sobre ambos pesará a mesma pedra, ou seja, a mesma perda:

HISTÓRIA DA PÁSSARA QUE PERDEU UMA PATA

   Os filhos já tinham quebrado os ovos e, chilreando, espreitavam no ninho. A Tenquita voou à procura de comida para eles. Era Inverno em Colchagua e a neve gelou-lhe uma pata. A pássara protestou:
   Porque me deixaste coxa?
   E a neve:
   Porque o sol me derrete.
   E a Tenquita queixou-se ao sol, e o sol:
   Porque a névoa me tapa.
   E a névoa:
   Porque o vento me arrasta.
   E o vento:
   Porque a parede me detém.
   E a parede:
   Porque o rato me esburaca.
   E o rato:
   Porque o gato me come.
   E o gato:
   Porque o cão me persegue.
   E o cão:
   Porque o pau me bate.
   E o pau:
   Porque o fogo me queima.
   E o fogo:
   Porque a água me apaga.
   E a água:
   Porque a vaca me bebe.
   E a vaca:
   Porque a faca me mata.
   E a faca:
   Porque o homem me afia.
   E o homem:
   Porque Deus me criou.
   Andando aos tombos, a Tenquita cantou em busca de Deus. E Deus ouviu-a. Então, ela perguntou-lhe porque fez o homem que afia a faca que mata a vaca que bebe a água que apaga o fogo que queima o pau que bate no cão que persegue o gato que come o rato que esburaca a parede que detém o vento que arrasta a névoa que tapa o sol que derrete a neve que me gelou a pata.
   Ai, Tenquita — disse Deus. — Eu tive de criar o homem para que o homem me criasse a mim.

CIÊNCIA POLÍTICA


Eduardo Galeano, in As Palavras Andantes, tradução de Helena Pitta, Antígona, Junho de 2018, p. 320.